Trindade
Capítulo 2
Derry Brewer estava de péssimo humor. Chovia a cântaros, a água batucando no alto da cabeça tonsurada. Ele nunca percebera como uma boa cabeleira realmente absorvia a chuva. Com a careca tão cruelmente exposta, o pavoroso batucar fazia o crânio doer e as orelhas coçarem. Para aumentar o desconforto, vestia um hábito castanho encharcado que, molhado, batia nas canelas nuas, irritando a pele. A cabeça fora raspada por mãos bastante habilidosas naquela manhã mesmo, por isso a sensação ainda era nova e dolorida, deixando-a terrivelmente exposta aos elementos. Os monges que se arrastavam junto dele eram todos tonsurados, os círculos brancos de couro cabeludo cintilando molhados na obscuridade. Até onde Derry sabia, nenhum deles havia comido nada desde o amanhecer, embora tivessem andado e cantado o dia inteiro.
As grandes muralhas do castelo real estavam à frente, no alto da Peascod Street, e eles tocavam a sineta pedindo esmolas e rezavam em voz alta, os únicos idiotas que ficavam ali na chuva quando havia onde se abrigar. Windsor era uma cidade rica; o castelo ao qual servia ficava a pouco mais de trinta quilômetros de Londres apenas, assim como uns seis outros em torno da capital, todos a um dia de marcha. A presença da família do rei trouxera da capital alguns dos melhores ourives, joalheiros, comerciantes de vinhos e mercadores de tecidos, ansiosos para vender suas mercadorias. Com o próprio rei na residência, mais de oitocentos homens e mulheres a seu serviço aumentavam a multidão e faziam o preço de tudo subir, do pão e do vinho às pulseiras de ouro.
Com seu azedume, Derry supôs que monges franciscanos também seriam atraídos pelo fluxo de moedas. Ele ainda não tinha certeza se seus companheiros sujos eram algo além de mendigos espertos. Era verdade que o irmão Peter admoestava as multidões pela ganância e iniquidade, mas todos os outros monges levavam tanto facas para vender quanto pratos de mendigo. Um infeliz de ombros largos parecia resignado em seu papel de carregador de uma grande mó. Mudo Godwin andava com ela às costas, amarrada com cordinhas, e tão curvado que mal conseguia se erguer para ver aonde ia. Os outros diziam que ele suportava o peso como penitência por algum pecado antigo, e Derry não ousou perguntar qual fora.
Nos intervalos entre as missas diurnas na abadia, o grupo parava e rezava, aceitando oferendas de água ou cerveja caseira que lhes eram levadas quando montavam o pedal e faziam a mó girar para afiar facas e abençoar os que lhes entregavam uma moeda, por menor que fosse. Derry sentiu uma pontada de culpa pela bolsa de couro cheiinha que levava escondida junto à virilha. Tinha ali prata suficiente para que todos comessem até explodir, mas, se a mostrasse, desconfiava de que o irmão Peter a daria a alguém que nada merecia e deixaria os monges passarem fome. Derry inflou as bochechas, limpando a chuva dos olhos. Ela escorria pelo rosto numa torrente constante, de modo que tinha de piscar em meio a um borrão.
Parecera uma boa ideia se juntar a eles quatro noites atrás. Em consequência de seu humilde comércio, o grupo de quatorze monges estava bem armado. Eles também estavam acostumados a passar a noite na estrada, onde ladrões tentariam roubar até quem nada tinha. Derry se escondia no estábulo de uma taverna barata quando ouviu o irmão Peter falar de Windsor, onde iriam rezar pela recuperação do rei. Nenhum deles se surpreendeu quando outro viajante quis fazer o mesmo; afinal, a alma do rei estava em perigo e o reino inteiro era acossado por homens violentos.
Derry suspirou, esfregando o rosto com força. Soltou um espirro explosivo e se segurou ao abrir a boca para não xingar. Naquela manhã, o irmão Peter dera com o cajado num moleiro que berrara uma blasfêmia no meio da rua. Fora um prazer para Derry ver o dócil líder do grupo utilizar uma ira que lhe daria algum renome nos ringues de luta de Londres. Eles deixaram o moleiro na estrada, as orelhas sangrando com a surra recebida, a carroça virada e todos os sacos de farinha rasgados. Derry sorriu com a lembrança, olhando de relance para o irmão Peter, que tocava a sineta a cada décimo terceiro passo, de modo a ecoar nas muralhas de pedra no alto do morro.
O castelo assomava na chuva, não havia outra maneira de descrevê-lo. As muralhas imensas e as paredes curvas nunca tinham sido invadidas nos séculos decorridos desde que as primeiras pedras foram depositadas. A fortaleza do rei Henrique repousava acima de Windsor, quase uma cidade dentro da outra, lar de centenas de pessoas. Derry olhou para cima, os pés doídos nas pedras do calçamento.
Estava quase na hora de abandonar o grupinho de monges, e Derry pensou na melhor maneira de abordar o assunto. O irmão Peter se espantara quando o homem pediu para ser tonsurado como os outros. Embora aceitassem a tonsura como desaprovação da vaidade, não havia nenhuma necessidade de Derry adotar seu estilo. Fora preciso todo o seu talento de persuasão para o velho permitir que ele fizesse o que queria com a própria cabeça.
O jovem monge que levara a navalha ao cabelo espesso de Derry havia conseguido cortar o couro cabeludo dele duas vezes e arrancar um pedaço de pele do tamanho de uma moedinha bem no cocuruto. Derry tinha suportado tudo quase sem um grunhido de reclamação e, finalmente, recebera do irmão Peter um tapinha satisfeito nas costas.
No aguaceiro, Derry se perguntava se tinha valido a pena. Já estava magro e enfraquecido. Com o velho hábito, poderia ter passado com a cabeça intacta, mas era um jogo perigosíssimo, e os homens que o caçavam já haviam demonstrado mais de uma vez sua determinação e implacabilidade. Com um suspiro, ele novamente disse a si mesmo que valera a pena pagar aquele preço, embora não conseguisse se lembrar de ter sentido tanto desalento na vida.
Ser inimigo jurado de Ricardo Plantageneta, duque de York, não era algo que teria escolhido para si. Quando se recordava de suas negociações, Derry achava que poderia ter sido mais conciliador. O homem que o treinara teria lhe metido o dedo na cara e reprovaria o orgulho que havia exibido. O velho Bertle o teria repreendido durante horas, dizendo que os inimigos nunca deviam ver sua força, nunca. Derry quase conseguia ouvir a voz exasperada do velho enquanto se esforçava para subir o morro. Quem acredita que somos fracos não manda assassinos inabaláveis de Londres atrás de nós. Não paga com prata qualquer boateiro atrás de notícias de nosso paradeiro. Não oferece um prêmio pela sua cabeça, Derry!
Se virar franciscano por algum tempo lhe salvara o pescoço ou simplesmente o fizera perder alguns dias, ele nunca saberia. Sem dúvida era verdade que Derry passara por grupos de homens de aparência hostil enquanto caminhava com os monges, homens que riram, zombaram e deram as costas quando o irmão Peter lhes pediu uma moeda. Qualquer um ou dezenas deles poderiam estar sendo pagos por York, Derry não tinha como saber. Mantivera os olhos no chão, caminhando junto aos outros.
A chuva parara por algum tempo, embora trovões retumbassem perto e nuvens escuras ainda corressem no céu. O irmão Peter escolheu aquele momento de paz para pôr uma das mãos no badalo da sineta e erguer a outra para deter o grupo tiritante.
— Irmãos, o sol está se pondo e o chão está molhado demais para dormirmos ao ar livre esta noite. Conheço uma família do outro lado da cidade, a pouco mais de um quilômetro, no alto do morro do Castelo. Ela permitirá que usemos o estábulo para dormir e comer em troca de bênçãos sobre sua casa e de poder rezar conosco.
Os monges se alegraram visivelmente com suas palavras. Derry percebeu que havia desenvolvido pelo menos um fiapo de respeito pela vida esquisita que levavam. Com exceção da massa taurina de Mudo Godwin, nenhum deles parecia forte. Ele desconfiava de que um ou dois consideravam a vida mendicante melhor do que o trabalho, mas eles levavam sua pobreza a sério, numa época em que todos os outros homens trabalhavam para sair daquele estado miserável. Derry pigarreou, sufocando a tosse que desenvolvera com o frio e a umidade.
— Irmão Peter, posso trocar uma palavra com o senhor?
O líder do pequeno grupo se virou imediatamente, com expressão plácida.
— É claro, Derry.
Os lábios do velho estavam azuis. Derry pensou de novo na bolsa gorda enfiada no lugar quentinho junto aos testículos.
— Eu... É... Eu não vou com os senhores — avisou Derry, olhando para os próprios pés para não ver o desapontamento que sabia que surgiria no rosto do monge. — Há um homem com quem preciso me encontrar no castelo. Ficarei algum tempo por lá.
— Ah — respondeu o irmão Peter. — Bem, Derry, vá pelo menos com a bênção de Deus.
Para surpresa de Derry, o velho estendeu a mão e a colocou sobre a pele machucada do cocuruto, baixando sua cabeça com uma pressão suave. Ele aguentou, estranhamente comovido com a fé do velho, enquanto o irmão Peter clamava a são Cristóvão e são Francisco para guiá-lo em suas viagens e dificuldades à frente.
— Obrigado, irmão Peter. Foi uma honra.
Então o velho lhe sorriu, deixando a mão pender.
— Só espero que aqueles que deseja evitar se ofusquem com o sol, Derry. Rezarei para que fiquem tão cegos quanto Paulo de Tarso quando você passar por eles.
Derry piscou para ele, surpreso, fazendo o irmão Peter dar uma risadinha.
— Poucos que se unem a nós insistem numa tonsura com apenas um ou dois dias na estrada, Derry. Ainda assim, ouso dizer que não lhe fez mal, apesar da rudeza do irmão John com a lâmina.
Derry o fitou, divertido apesar do desconforto.
— Eu realmente me perguntei, irmão, por que alguns dos senhores têm um círculo de no máximo uns três dedos na cabeça, enquanto parece que me rasparam até as orelhas.
Os olhos escuros do irmão Peter faiscaram.
— Essa decisão foi minha, Derry. Achei que, se um homem estava tão ansioso para ter uma tonsura, talvez devêssemos cumprir seu desejo ao máximo. Perdoe-me, filho, se puder.
— É claro, irmão Peter. O senhor me trouxe até aqui são e salvo.
Num impulso, Derry levantou o hábito, enfiou a mão profundamente entre as dobras e tirou a bolsa. Apertou-a nas mãos do irmão Peter, dobrando os dedos dele sobre o couro úmido.
— Isso é para o senhor. Há o bastante aí para sustentar todos vocês por um mês ou mais.
O irmão Peter sopesou a bolsa, pensativo, e a estendeu de volta.
— Deus provê, Derry, sempre. Pegue-a de volta, embora sua bondade seja comovente.
Derry fez que não, recusando com as mãos erguidas.
— É sua, irmão Peter, por favor.
— Tudo bem, tudo bem — aceitou o velho, guardando-a. — Tenho certeza de que encontraremos uso para ela, ou alguém com mais necessidade que nós. Vá com Deus, Derry. Quem sabe, talvez chegue um tempo em que decida andar conosco por mais do que apenas alguns dias. Rezarei por isso. Venham, irmãos, está começando a chover outra vez.
Cada um do grupo foi até Derry lhe dar um aperto de mão e desejar boa sorte, até Mudo Godwin, que esmagou sua mão com o grande punho e lhe deu uns tapinhas no ombro, ainda curvado sob o peso da mó nas costas.
Derry ficou sozinho na rua, no alto do morro, ao lado do castelo, observando o grupo de monges descer o caminho devagar. Era verdade que a chuva voltara a cair, e ele tremeu, virando-se na direção da guarita da fortaleza real. Tinha uma forte sensação de estar sendo observado, e se moveu com passos rápidos, seguindo para o abrigo das muralhas e se aproximando da silhueta escura do guarda a postos. Derry apertou os olhos na obscuridade ao se aproximar. O homem estava molhado até os ossos, assim como Derry, ali de pé sob qualquer condição climática, com a alabarda e a sineta para dar o alarme.
— Boa noite, meu filho — saudou Derry, erguendo a mão para fazer o sinal da cruz no ar.
O guarda olhou para ele.
— O senhor não tem permissão de pedir esmolas aqui, padre — disse o guarda com rispidez. — Sinto muito — acrescentou, depois de pensar um instante.
Derry sorriu, os dentes surgindo brancos no rosto queimado de sol.
— Avise seu capitão. Ele há de querer descer para me ver.
— Ah, na chuva ele não vai, não, padre, essa é a pura verdade — respondeu o outro com desconforto.
Derry olhou rapidamente para um lado e para o outro da rua. Não havia ninguém por ali, e ele estava cansado e com muita fome.
— Diga-lhe “vinhedo” e ele virá.
O guarda o observou desconfiado e, por algum tempo, o fitou enquanto Derry aguardava, tentando exibir o máximo possível de confiança. Após um tempo, a força de vontade do guarda se esvaiu e ele encolheu os ombros, dando um assovio agudo. Uma porta se abriu atrás dele, e Derry ouviu uma voz praguejar com a chuva e o frio que entraram.
O homem que saiu usava um belo bigode, já se desfazendo na chuva. Estava no processo de limpar as mãos com um pano, com vestígios despercebidos de ovo fresco nos lábios. Ele ignorou o monge em pé na chuva e se dirigiu ao guarda.
— O que foi?
— Esse monge, senhor. Pediu que eu o chamasse.
Derry sentiu seu temperamento se inflamar quando o capitão da guarda continuou ignorando sua presença. Falou depressa, embora o tiritar dos dentes dificultasse formar as palavras.
— Estou com frio, molhado e faminto, Hobbs. A palavra é “vinhedo” e a rainha há de querer me ver. Me deixe entrar.
O capitão Hobbs abriu a boca para responder irritado por ser tratado nesse tom, quando percebeu que tinham usado seu nome, além da palavra que, algumas semanas antes, lhe disseram que não esquecesse. Então ficou imóvel, seus modos se alterando no mesmo instante. Ele olhou com mais atenção para o monge imundo em pé à sua frente.
— Mestre Brewer? Bom Deus, homem, o que aconteceu com sua cabeça?
— Estou disfarçado, Hobbs, se não notou. Agora pode me deixar entrar? Meus pés estão doendo e estou prestes a morrer de frio bem aqui.
— Sim, senhor, é claro. Vou levá-lo à rainha. Sua Alteza perguntou pelo senhor faz poucos dias.
A chuva caía com mais força, tamborilando no pobre guarda, quando o deixaram para trás e entraram num lugar quente.
Por mais cansado e maltrapilho que estivesse, Derry não pôde deixar de notar a aura de silêncio que aumentava conforme Hobbs o conduzia aos aposentos do rei. Os criados andavam sem fazer o barulho costumeiro, falando em sussurros, se é que falavam. Quando Hobbs chegou à porta certa e deu outra senha aos dois homens que faziam sua guarda, Derry teve certeza de que não houvera melhoras na saúde do rei. Tinham se passado uns quatorze meses desde que o rei Henrique caíra num estupor tão profundo que não podia ser despertado. O verão do ano de 1454 chegara ao fim sem que houvesse um rei no trono de Londres, apenas o duque de York governando em seu cargo de “protetor e defensor do reino”. A Inglaterra tinha uma longa história de regentes de crianças reais — o próprio Henrique precisou de bons homens para governar em seu nome quando herdou o trono ainda menino. Ainda assim não havia precedente para a loucura, herdada, sem dúvida, da mãe de Henrique e da mácula de sua linhagem real francesa.
Derry suportou uma revista meticulosa de sua pessoa. Quando os guardas se convenceram de que não levava armas, ou pelo menos não encontraram nenhuma, anunciaram-no e abriram a porta dos cômodos interiores.
Ele entrou rapidamente, tendo uma visão do jantar da rainha com o marido. À primeira vista, o rei Henrique parecia estar sentado normalmente, fazendo que sim com a cabeça acima de um prato de sopa. Derry avistou as cordas que o prendiam à cadeira para que não caísse, assim como o criado que ergueu os olhos quando ele entrou, segurando uma colher de sopa para alimentar seu senhor. Ao se aproximar, Derry viu que Henrique usava um babador que recebera tanta sopa quanto a que entrara nele. O caldo substancioso pingava dos lábios moles do rei e, quando se ajoelhou e baixou a cabeça, Derry escutou sons suaves e engasgados saindo de Henrique.
O capitão Hobbs não atravessara a soleira. A porta se fechou atrás de Derry, que viu a jovem rainha se levantar da cadeira com uma expressão de horror no rosto.
— Ah, sua cabeça, Derry! O que você andou fazendo?
— Vossa Alteza, preferi vir até a senhora sem que cada passo de meus movimentos fosse observado e revelado. Por favor, não foi nada. Sem dúvida voltará a crescer, ou assim me disseram. — Ele notou, exasperado, que a rainha parecia lutar para não rir.
— Parece um ovo, Derry! Não lhe deixaram praticamente cabelo nenhum!
— Pois é, Vossa Alteza, o franciscano que brandia a navalha foi meticuloso demais.
Quando se levantou, ele sentiu que cambaleava de leve, com a combinação da fome e do calor da sala provocando uma onda de fraqueza.
A rainha notou sua fragilidade e o sorriso lhe sumiu.
— Humphrey! Ajude mestre Brewer a se sentar antes que caia. Depressa, ele está quase desmaiando.
Derry, zonzo, se virou para olhar para o homem a quem ela se dirigira, sentindo-se seguro sob os braços e deixado numa cadeira de madeira larga. Piscou, tentando recobrar a consciência que se dispersara de repente. Aquela fraqueza era embaraçosa, principalmente considerando que ele sabia que o irmão Peter ainda estava lá fora, na chuva, seguindo para seu estábulo e local para dormir.
— Estarei bem num instante, Vossa Alteza — disse Derry. — Passei muito tempo na estrada.
Ele não disse que havia sido caçado, forçando sua inteligência e seus contatos ao máximo só para se manter à frente dos homens que o procuravam. Fora avistado e perseguido três vezes no mês anterior, duas delas na semana anterior a qual se juntara aos monges. Sabia que chegaria o momento em que as pernas falhariam ou que não conseguiria encontrar um lugar seguro para se esconder. Os homens do duque de York fechavam a rede ao seu redor. Ele já quase sentia o cordão áspero na garganta.
Derry ergueu o olhar para agradecer ao homem que o ajudara, e seus olhos se arregalaram ao reconhecer o duque de Buckingham. Humphrey Stafford era grande e corado, um homem de apetites enormes. Manuseara Derry com facilidade, como se fosse uma criança, e o espião-mor só conseguia pensar no peso que tinha perdido na estrada.
O duque se inclinou para espiá-lo, seu grande nariz inchado se torcendo de desagrado.
— Quase morto de cansaço — anunciou Buckingham, que, para desconforto de Derry, inclinou-se ainda mais e o farejou. — Seu hálito está doce, Vossa Alteza, como algo podre. Seja lá o que ele tem a dizer, é melhor que fale agora, antes que morra aqui mesmo.
Derry franziu os olhos para o rosto que assomava sobre ele.
— Vou sobreviver, milorde. Geralmente sobrevivo.
Em momento nenhum eles olharam diretamente para o rei Henrique, sentado mudo à mesa, sem ver nem sentir. Derry arriscou uma olhada sob o cenho franzido e preferiu não o ter feito. O rei estava magro e pálido, mas não era isso o mais estranho. Os olhos estavam abertos e totalmente vazios. Derry poderia acreditar que se tratava de um cadáver se ele não respirasse, a cabeça balançando de leve a cada inspiração.
— Caldo quente para o mestre Brewer — Derry ouviu a rainha Margarida dizer. — E pão, manteiga, mais carne fria com alho, tudo o que conseguir encontrar.
Ele cerrou os olhos em agradecimento, deixando as dores se distanciarem enquanto o calor da sala se instalava em seus ossos. Derry não ficava perto de um bom fogo havia muito tempo. O alívio e a exaustão o inundaram, e estava quase adormecido quando puseram pratos à sua frente. O aroma o despertou, e foi vítima de uma torrente de apetite tão súbita que provocou uma fagulha de riso nos olhos de Margarida. Ele conseguiu sentir a sopa quente trazê-lo de volta à vida, como se a nutrição chegasse diretamente aos membros e se entranhasse nos ossos. Derry estalou os lábios e rasgou um pão tão fresco que nem precisou mergulhá-lo na sopa para amolecer.
— Acho que viverá — comentou Buckingham com ironia do outro lado da mesa. — Eu tomaria cuidado com a toalha de mesa se fosse Vossa Alteza. Ele pode comê-la, pelo jeito como enfia comida na garganta.
Derry olhou para o outro com frieza, mordendo a língua para não fazer outro inimigo. Provavelmente um duque querendo matá-lo já bastava, pelo menos por enquanto.
Derry se recostou na cadeira, sabendo que a rainha era mais indulgente com ele do que com a maioria dos que a serviam. Era grato por isso. Ele usou a toalha de mesa para limpar os cantos da boca e sorriu para Buckingham.
— Vossa Alteza, obrigado pela paciência. Estou suficientemente revigorado para contar as notícias que trago.
— Você passou dois meses fora, Derry! O que o manteve longe do rei por tanto tempo?
Derry se empertigou, empurrando o prato bem a tempo de ser levado por um criado.
— Vossa Alteza, andei reforçando os laços com aqueles que me trazem informações. Tenho homens e mulheres leais ao rei Henrique em todas as casas nobres. Alguns se foram, descobertos e mortos ou forçados a fugir. Outros passaram a posições de maior autoridade, e parecem acreditar que isso significa merecerem um pagamento melhor. Demorei-me explicando que a lealdade ao rei não pode ser medida em prata, embora alguns pedissem trinta peças de cada vez.
A rainha Margarida era uma linda moça, ainda com 20 e poucos anos, de pele clara e pescoço fino. Ela franziu os olhos enquanto Derry falava, dando uma olhada no marido como se ele pudesse responder depois de tantos meses de silêncio. O coração de Derry se comoveu com ela, esposa de um homem que não a conhecia.
— E York, Derry? Fale-me dele.
Derry ergueu os olhos para o teto ornamentado enquanto respirava, tentando decidir como descrever melhor o protetorado sem destruir as esperanças da rainha. A simples verdade era que York não fizera um mau serviço governando o reino. Entre todas as acusações que Derry poderia fazer a Ricardo Plantageneta, não estava a de incompetência. No fundo do coração, ele sabia que o duque gerenciava o vasto e complexo empreendimento do Estado com habilidade e compreensão bem maiores do que o rei Henrique jamais tivera. Não era o tipo de coisa que diria à jovem esposa do rei, desesperada por boas notícias.
— Ele não faz segredo de seu apoio aos Nevilles, Vossa Alteza. Juntos, York e o conde de Salisbury estão conquistando feudos e terras por todo o reino. Eu soube de uma dúzia de casos levados ao tribunal que, no fundo, se resumiam à tomada de terras por algum Neville.
Rugas surgiram na testa da rainha e ela fez um gesto de impaciência.
— Fale-me de agitação, Derry! De seus fracassos! Diga-me que o povo da Inglaterra está retirando seu apoio a esse homem.
Derry hesitou um instante antes de continuar.
— A guarnição de Calais se recusou a cumprir ordens, Vossa Alteza. É um obstáculo que York terá de superar. É o maior exército à disposição da Coroa, e os homens afirmam não ter recebido nenhum pagamento desde a perda de Maine e Anjou. A última notícia que recebi foi de que tomaram a lã da temporada e ameaçam vendê-la e guardar o dinheiro em seu cofre.
— Melhor, Derry, muito melhor. Ele poderia mandar o conde de Somerset lidar com eles se não tivesse perdido o apoio daquele bom homem com seus ataques ao meu marido. Eles dariam ouvidos a Somerset, tenho certeza. Sabia que York reduziu a criadagem do próprio rei? Seus homens vieram com decretos e selos, dispensaram servidores leais sem uma pensão sequer, tiraram cavalos de nossos estábulos para distribuí-los entre os partidários de seu senhor. Linhagens que nunca mais poderão ser reunidas num só lugar. Tudo em nome de suas cruéis moedinhas de prata, Derry!
— Ouvi falar disso, Vossa Alteza — disse Derry, pouco à vontade.
Ele se perguntou a que horas York dormia, para ter realizado tanto num único ano. Os problemas da guarnição de Calais eram uma das poucas e pequenas manchas no protetorado do duque. O reino ia muito bem e, embora alguns fossem contrários à redução da criadagem real, York fora implacável na coleta de fundos estatais, e gastava a receita com sabedoria para obter ainda mais apoio. Derry conseguia prever uma época em que a Inglaterra preferiria que o rei Henrique nunca acordasse, desde que tudo continuasse como estava. Ele e Margarida precisavam que um desastre acontecesse com York ou que o rei recuperasse a consciência. Precisavam disso principalmente antes que fosse tarde demais. Derry olhou de novo para o monarca de rosto vazio fazendo que sim na cadeira, e sentiu um arrepio percorrer o corpo e os pelos do braço se eriçarem. Ver um homem vivo reduzido a tal estado era muito cruel.
— Não houve nenhuma melhora na doença do rei? — perguntou.
Margarida se sentou um pouco mais ereta, blindando-se contra a dor para responder.
— Há dois novos médicos para cuidar dele, agora que aquele idiota do Allworthy se foi. Suportei homens piedosos de todo tipo que vieram cutucar, revirar e rezar sobre meu marido. Ele sofreu muito mais, com práticas nojentas que não lhe descreverei. Nenhuma delas trouxe seu espírito de volta à carne. Buckingham tem sido um grande consolo para mim, mas às vezes até ele se desespera, não é, Humphrey?
O duque soltou um som descomprometido, preferindo sorver do prato de caldo à sua frente.
— Mas seu filho, Vossa Alteza? — indagou Derry, com o máximo de gentileza possível. — Quando o mostrou ao rei Henrique, não houve nenhuma reação?
A boca de Margarida se apertou.
— Você parece aquele abade Wheathamstede, com suas perguntas indiscretas. Henrique ergueu os olhos quando lhe mostrei o bebê. Ergueu os olhos um instante, e tenho certeza de que entendeu o que lhe diziam.
Os olhos dela cintilaram de lágrimas, desafiando-o a contradizê-la.
Derry pigarreou, começando a desejar não ter vindo.
— O conselho dos lordes se reunirá no mês que vem, Vossa Alteza, para nomear seu filho Eduardo herdeiro real e príncipe de Gales. Se York interferir, sua ambição ao trono será revelada. Seria um golpe brutal, mas quase torço por isso, para que os outros conheçam a verdadeira face de seu protetorado e o que ele pretende. Os nobres que ainda se vangloriam e se recusam a ver a verdade não serão mais capazes de negá-la.
Margarida olhou para o marido, a angústia revelada com clareza em seu rosto.
— Não posso esperar por isso, Derry. Meu filho é o herdeiro. Pelo pequeno Eduardo, sofri a humilhação de ter York e Salisbury presentes ao parto, esgueirando-se em torno do leito e espiando sob as cobertas para ter certeza de que o bebê era mesmo meu! Lorde Somerset quase foi às vias de fato para proteger minha honra, Derry. Há ocasiões em que gostaria que ele tivesse enfiado a espada no Plantageneta naquela hora, pelo atrevimento e pelos insultos. Não, mestre Brewer. Não! Não devo sequer pensar naqueles covardes negando ao meu filho seu direito de nascença.
Derry ruborizou com o que ela havia sofrido, embora já tivesse ouvido a história mais de uma vez. Uma parte sua conseguia admirar a mente distorcida de York por pensar que a gravidez poderia ser falsa e que outra criança seria trazida. Pelo menos isso tinha sido esquecido, embora ainda houvesse boatos de um pai diferente. Cochichava-se o nome de Somerset, devidamente relatado aos ouvidos atentos de Derry. Conhecendo a honra irritadiça de Somerset, Derry duvidava de que fosse algo além de uma mentira indecente, embora engenhosa.
Pensando sentado ali, Derry percebeu que balançava a cabeça quase no mesmo ritmo do rei, a exaustão tomando conta dele outra vez. Teve vontade de abençoar Margarida quando ela percebeu seu cansaço e o mandou embora para ser cuidado e descansar. Ele se ajoelhou diante da rainha e fez uma reverência para o duque de Buckingham ao sair, observando mais uma vez o rei em seu estupor, cego e surdo a tudo o que acontecia em volta. Derry saiu aos tropeços atrás de um criado até lhe indicarem um quarto que cheirava a pó e umidade. Sem sequer se dar ao trabalho de despir o hábito molhado, se jogou na cama e dormiu.