Trindade
Capítulo 10
Depois das primeiras neves cruéis, o inverno fora quase brando naquele ano. Mas os aposentos reais na Torre ainda eram aquecidos com fogo em todas as lareiras, às vezes em ambos os lados do mesmo cômodo, lutando para esquentar a antiga fortaleza contra o frio e a umidade do rio que corria junto à muralha.
Derry Brewer havia recuperado parte do peso que perdera. Seu cabelo tinha crescido e fora aparado pelo barbeiro do rei, e a pele havia perdido o tom pálido de cera amarelada de quem come de menos e se preocupa demais. Por ordem dos médicos Hatclyf e Fauceby, ele enchera o estômago até explodir com tigelas de caldo de carne e repolho roxo toda manhã, seguidas por três canecas de cerveja pouco alcoólica — quase a mesma dieta que o rei teve de aguentar para restaurar o sangue. Derry havia ficado enjoado de repolho, verdura que parecia persegui-lo como um fantasma, muito embora limpasse a boca com conhaque francês de um frasquinho. Gostava de sentir as forças voltando, como Sansão quando o cabelo cresceu.
O espião-mor notou que o rei também tinha um pouco de cor nas faces. Henrique estava sentado em silêncio, mas com olhos atentos, o rosto não mais uma máscara flácida. Esse mero interesse era espantoso para os que o conheceram antes do colapso. Sentado a poucos metros do rei, Derry tinha de se esforçar para não o encarar. O homem que havia conhecido era apenas uma sombra perto do homem que voltara, não havia outra maneira de descrever. Ele sabia que Margarida ainda sentia fragilidade no marido, como se Henrique fosse um vaso capaz de se estilhaçar com o mais leve toque. Mas de certa forma o sono profundo restaurara o rei, curando sua força de vontade alquebrada, apesar de todas as rachaduras que talvez permanecessem sob a superfície.
Henrique sentiu o exame silencioso de Derry e ergueu os olhos questionadores no momento em que o espião-mor baixou os seus para as botas. Derry já vira a loucura sob muitas formas, provocada pela fúria, pelo pesar, pela bebida ou vinda de lugar nenhum, com o vento do verão. Sabia que a mente era um mundo próprio, todas as estrelas e planetas eram menos complicados que os pensamentos de um homem. Qualquer que tenha sido o demônio ou a enfermidade que sugara a força de vontade do rei e o transformara em criança tinha sumido. O homem que estava por baixo daquilo enfim podia falar.
Derry soltou a respiração, sentindo os olhos se encherem de lágrimas, surpreendendo-se. De cabeça baixa, limpou-os antes que alguém visse, pensando no trabalho, com todos os incômodos mesquinhos. Já fora obrigado a sufocar boatos de que o espírito do rei fora infectado em outro lugar. Às vezes ele achava que os moradores de Londres tinham talento para fofocas. Na menor oportunidade, cobriam a boca com a mão e sibilavam sobre demônios, bastardos ou judeus secretos em altos cargos. Ele mesmo dera início a algumas mentiras do tipo, e rechaçá-las era muito mais difícil. Às vezes, pensava Derry indolentemente, o povo precisava ou de um bom pastor ou de um bom chute no traseiro.
Enquanto Derry ficava ali sentado de cabeça baixa, Somerset andava de um lado para o outro, seu nervosismo uma consequência do cativeiro. Edmundo Beaufort passara muitos meses preso na Torre, embora sua posição social lhe assegurasse o confinamento em dois cômodos grandes, com cama macia, escrivaninha e criados para atendê-lo. Derry ergueu os olhos para observar com interesse a agitação do homem, vendo como a calma de Somerset havia desaparecido apesar de todo o conforto do cárcere. Pelo menos a inimizade do homem por York era certa. Dava algum prazer ao espião-mor ouvir aquele nome sendo enodoado e vilipendiado sem medo de represálias. Somerset recebera um ducado pelo amparo e pela lealdade, sinal do apoio do rei que não deixaria de ser notado pelos que preferiam York e Salisbury. Derry sorriu com seus botões ao pensar nisso.
— Vossa Alteza — disse Somerset —, tenho juízes e seus homens ocupando os quartos de todas as estalagens da cidade. A própria Torre está apinhada de homens de armas, os melhores guardas para acompanhar Vossa Alteza ao norte. Esperamos apenas alguns poucos nomes agora, sendo Henrique Holland, duque de Exeter, o mais proeminente dentre eles.
— Antes o primo Exeter tinha quatrocentos homens — comentou em voz baixa o rei Henrique. “Antes” passara a significar o período anterior à queda dele num estado sonhador. — Muito passional, eu me lembro, o jovem Holland. Ele recebeu meu mensageiro?
— Com certeza, Vossa Alteza — respondeu Somerset. — O pergaminho foi posto em suas mãos. Acredito que tenha se enfraquecido muito durante a prisão em Gales, mas ele presta seu juramento de que virá. Não tem amor nenhum por York.
— Mesmo assim, é casado com a filha dele — interveio Margarida, sentada ao lado do marido, reivindicando-o com sua proximidade. Derry ergueu os olhos quando ela falou. — Essa aliança ainda pode afastá-lo.
— Não — retrucou Henrique. — York o puniu por ficar do lado dos Percys. A lealdade de Exeter está estabelecida. Tudo o que ele é vem de minha mão. Não duvido dele pela esposa Plantageneta, assim como não duvido do conde Percy pela esposa Neville. Mas não aguardarei por ele. O que mais?
Somerset se virou para seguir outra linha do tapete diante do fogo. Com a oportunidade, Derry decidiu responder à pergunta do rei.
— Vossa Alteza, ainda me preocupa não termos abordado York nem Salisbury. Somerset e eu podemos ter nossos desentendimentos com esses homens, mas, se eles não forem trazidos a Londres para prestar um juramento de vassalagem, temo seus exércitos. Com o jovem Warwick, eles têm mais terras e homens que todas as outras facções além da própria casa real. Sozinho, York é o lorde mais rico da Inglaterra, Vossa Alteza. Um homem desses pode ser ignorado?
Nos anos anteriores, Derry sabia que o rei teria feito que sim com a cabeça ao fim de suas palavras, dizendo “Como quiser, Derry” quase antes que terminasse de falar. Era estranho e desconfortável ver o homem sopesar uma contribuição em vez de despejar impulsivamente sua concordância. Mas foi Margarida quem falou primeiro, antes do marido.
— Estamos a sós aqui, mestre Brewer, não é?
— É claro, Vossa Alteza. Tenho homens de minha mais alta confiança em torno desta sala. Ninguém pode escutar uma única palavra.
— Então direi em voz alta o que está há muito tempo em meus pensamentos. Não haverá paz enquanto York viver. Ele cobiça o trono de meu marido e o tomará se lhe dermos a menor oportunidade. Essa grande reunião para levar tribunais às cidades da Inglaterra não é apenas isso, pois também serve como uma demonstração de força. Os lordes que vão para o norte com seu rei verão quantos mais se levantam em apoio à casa de Lancaster. Verão que o rei está recuperado para governar, curado pela graça de Deus. Se York e Salisbury nos desafiarem, serão enfrentados por exércitos, por milhares que se levantarão em seu caminho. Pelo menos então a questão será resolvida.
Derry franziu a testa enquanto ouvia.
— Milady, se York e Salisbury se tornarem traidores, se erguerem seus estandartes contra o rei da Inglaterra, não acredito que o resultado esteja determinado... e há coisas demais em jogo para dar um passo em falso. York e Salisbury têm seus inimigos, é claro, mas há muitos outros que insinuam terem sido mal recompensados por sua lealdade. Não posso conhecer os segredos do coração de todos os lordes, Vossa Alteza, só sei que alguns deles sentem simpatia por aqueles dois homens. E sei que alguns prefeririam que fossem mimados e trazidos de volta, e até recompensados pelo bom serviço.
Ele baixou a cabeça mais uma vez quando o olhar de Margarida se aguçou, e desviou seus olhos para o fogo.
— Milady, eu ficaria satisfeito de ouvir que nossa intenção é atacar Ludlow, sitiá-lo e fazer York morrer de fome ou derrubar suas muralhas. Essa outra história, essa viagem real no norte, é uma mera distração, sem nenhuma segurança de ser bem-sucedida. York é um homem sutil, Vossa Alteza, um homem sutil e vingativo, com riqueza e soldados à disposição. Eu preferiria vê-lo alquebrado em vez de ignorado.
— Conheço-o bem melhor que você, mestre Brewer — comentou o rei Henrique, saindo de seus pensamentos. — Embora não possa conhecer os “segredos de seu coração”, Ricardo de York não pode ser trazido às boas graças com presentes e promessas; como o senhor diz, é quase impossível elevá-lo ainda mais, com todos os títulos que tem e com toda a sua riqueza. Se o convocasse, seria como trazer uma víbora ao meu peito suplicando para que não enfie os dentes em mim. Não, minha esposa está certa nisso, mestre Brewer. Um exército leal ocupa Londres, e com ele cavalgarei para o norte até Leicester. Se York manchar sua alma sem redenção, se quebrar seu juramento e aceitar a danação inescapável, eu lhe responderei...
As palavras do rei se esvaíram, e ele fitou o nada enquanto os outros aguardavam, cada vez mais ansiosos. Por fim, Henrique sacudiu a cabeça, parecendo confuso enquanto um profundo rubor se espalhava por seu rosto.
— O que eu estava dizendo?
— York, Vossa Alteza — respondeu Somerset, desconfortável.
O duque havia empalidecido, sua expressão refletida tanto na rainha quanto em Derry Brewer, que temiam pelo espírito sobrecarregado de Henrique. Derry reprimiu um arrepio ao pensar no retorno da fraqueza do rei, ainda enrolada como uma trepadeira tenebrosa no jovem a quem ele seguia.
— York... Isso mesmo — continuou Henrique. — Se ele trouxer seus seguidores contra mim, o reino se erguerá com essa traição. Cada um dos meus companheiros condes, cada duque, cada barão, cada cavaleiro e homem de armas empunhará espadas, arcos e lanças contra ele. Cada aldeia, cada povoado, cada cidade! Não se pode tocar o rei, Somerset. O rei é inviolável, ungido por Deus. Qualquer homem que se levantar contra mim queimará no fogo do inferno. Essa é a resposta a homens como York e Salisbury. Irei ao norte em paz, mas responderei com guerra caso ele dê um passo para fora de sua fortaleza. — O rei Henrique parou para massagear as têmporas doloridas, fechando os olhos. — Margarida, você me faria o grande favor de chamar Hatclyf? Ele prepara uma excelente tisana para a dor, e minha cabeça está explodindo.
— É claro — disse Margarida, levantando-se.
Derry se levantou com ela, que enxotou os homens do quarto para cuidar do marido, gritando pela porta aberta para exigir a presença do médico. Um criado saiu correndo para buscá-lo.
Quando a porta se fechou, Derry estava num corredor muito mais frio. Dirigiu um breve olhar a Somerset e viu sua própria preocupação refletida no rosto do duque. Tinha certeza de que nenhum dos dois mencionaria o lapso súbito do rei. A ideia de que Henrique poderia ter pouco tempo antes de ser sugado de volta à loucura sonhadora era horrível demais, um horror que fez Derry tremer e se sentir mal. Pôr aquele medo em palavras seria torná-lo real. Com o silêncio, ambos poderiam dizer a si mesmos que o imaginaram.
— Podemos evitar a guerra, Brewer? — perguntou Somerset de repente.
— É claro, milorde. A questão é: devemos evitá-la? Estou quase convencido de que nossa jovem e zangada rainha está certa. Talvez devêssemos rasgar as falsas vestimentas desse tribunal itinerante e levar os exércitos do rei contra York. Escolher o momento de atacar é parte de qualquer vitória. Não quero perder a melhor oportunidade que jamais teremos.
Somerset o observava com atenção enquanto Derry falava.
— Mas... — provocou.
A boca de Derry se contorceu.
— Mas... Ah, há mais de cem “mas”, milorde. “Mas” a rainha Margarida está certa ao dizer que o rei precisa ser visto depois de ficar tanto tempo ausente do reino. “Mas” York ainda não é traidor, por mais que a rainha o deteste. Deus sabe que não sou amigo de York, mas ele deu ao filho de Margarida o título de príncipe de Gales e governou com diplomacia e habilidade enquanto teve esse direito. Eu não confiaria em Salisbury a menos de cento e cinquenta quilômetros do conde Percy, veja bem. Eles se odeiam. Mas York? Não consigo vê-lo tentando alcançar o trono. Por mais que o homem me desagrade, ele ainda está tomado por sua honra irascível. E, se chegarmos a espadas, arcos e machados, ainda podemos perder, milorde, sem oportunidade de voltar a este dia e escolher um caminho melhor.
— A rainha Margarida vê York como uma ameaça ao marido e ao filho — comentou Somerset. — Não acho que ela vá se satisfazer com alguma solução que não signifique a cabeça dele em um espeto.
— E ela tem influência sobre o rei — acrescentou Derry, afastando os olhos e refletindo. — Homens como eu, o senhor ou o conde Percy podem gritar e discutir do amanhecer ao pôr do sol, mas ela ainda estará lá à noite para cochichar nos ouvidos dele.
Derry suspirou de forma audível.
— Se pudéssemos enfiar uma espada entre York e Salisbury, ou entre Salisbury e o filho, perderíamos apenas um e manteríamos dois, restabelecidos e nas boas graças do rei. Sei que a rainha Margarida admira o jovem Warwick e não gostaria de vê-lo caído ao lado do pai. Eu poderia lhe escrever, milorde, se conseguisse encontrar as palavras certas. Sempre existem palavras certas, quando o homem é inteligente o suficiente para vê-las.
— O conde Percy diz que deveríamos pensar em Eduardo de March, o filho de York — sussurrou Somerset. — Ele se pergunta em voz alta se a morte de York, por doença ou infortúnio, daria fim a todas essas ameaças.
Derry olhou nos olhos do duque e viu a tensão.
— E como o senhor lhe respondeu, milorde?
— Ora, eu lhe disse que fosse para o inferno, Brewer. Espero que diga o mesmo caso ele lhe mencione uma coisa dessas.
Derry se sentiu relaxar um pouco, aliviado. Ele gostava de Somerset, um homem que não via tons de cinza em suas avaliações. E inclinou a cabeça.
O doutor Hatclyf veio às pressas, corado e transpirando por correr toda a extensão do terreno da Torre.
— Com licença, milorde, mestre Brewer. O rei solicitou minha presença.
Os dois homens se afastaram, e o médico entrou apressado, fechando bem a porta.
Derry se virou de volta para Somerset quando Hatclyf entrou.
— York escreve cartas, milorde. Vi algumas, copiadas para mim por aqueles que desconfiam do duque.
— Traição? — indagou o duque, os olhos se animando.
— De jeito nenhum. Ele louva Henrique a cada palavra, mas se queixa amargamente do senhor, de Percy e dos outros lordes que cercam o rei. Ele não conhece este Henrique. Em parte, acho que ainda vê o rei como era antes: o cordeirinho, o menino imberbe. Deus sabe que anseio pela queda de York, milorde. Não desejo nada além de me erguer acima de seu corpo frio num campo frio. Enquanto viver, ele ameaça o rei, simplesmente por sua força e pelo apoio dos Nevilles, quer ouse tomar o trono, quer não.
Frustrado e exausto, Derry chutou uma pedrinha no piso marcado, fazendo-a sair pulando.
— Acredito que eu tenha falado a verdade. Se espadas forem desembainhadas, não tenho certeza de quem será o vencedor. Tem de haver outra saída, uma solução para o problema de York. Juntos, a encontraremos. Até soarem as trombetas, milorde. Até então, ainda há uma possibilidade de disciplinar York. Se soarem, teremos deixado de encontrá-la.
— E se realmente soarem? — perguntou Somerset, embora ambos soubessem a resposta.
— Então eu e o senhor trabalharemos para destruir York e todos os que ficarem ao seu lado. Daremos a vida por isso, se for preciso. Quando a diplomacia falha, milorde Somerset, a guerra tem de acontecer; e, caso aconteça, não verei York triunfar enquanto estiver vivo. — Então, Derry deu um sorriso amargo. — Afinal de contas, ele não deixaria nenhum de nós permanecer vivo por muito tempo.
Pensativo, Somerset assentiu.
— Sabe, Derry, quando jovem, escapuli no verão para visitar uma feira no campo, correr atrás de mocinhas locais, beber e pedir para lerem meu futuro. Meu pai nunca soube sequer que eu havia saído do quarto. Você deve ter feito o mesmo tipo de coisa.
Derry abriu um grande sorriso ao ouvir isso, balançando a cabeça.
— Desconfio de que minha infância tenha sido um pouco menos... nobre, milorde, mas continue.
— Bebi cerveja e hidromel demais, é claro, e me lembro de importunar uma moça que insistiu em ser paga antes de me deixar deitar com ela. A noite quase toda é um borrão, mas me recordo de uma cigana numa barraca estampada. Ela leu minha mão no escuro enquanto a tenda balançava à minha volta, e o máximo que eu conseguia fazer era segurar o vômito.
Os olhos dele ficaram vidrados com a lembrança, e Derry cruzou os braços.
— E o senhor foi roubado? Ou era ela a moça no capim alto? — provocou.
— Bom Deus, eu não estava tão bêbado assim. Não, ela me disse que Somerset morreria no castelo, não no campo de batalha nem de um resfriado ou doença. Eu não tinha lhe dito o nome do meu pai, Derry, embora de qualquer forma ela soubesse.
Derry olhou de relance para o sinete no anel, com o brasão da família, que adornava a mão do duque.
— A arte delas é procurar sinais, milorde. Tenho certeza de que recebeu suas moedas pelas promessas que fez e disse praticamente o mesmo ao freguês seguinte.
— Você não acredita nessas coisas? Lutei em mais de dez campanhas desde aquele dia e nunca fui ferido, Derry. Nem um arranhão. Também nunca fiquei doente, embora conheça mais de dez pessoas que morreram antes da hora, não, mais de vinte, suando a vida pelos poros com algum flagelo da carne. Compreende? Tenho levado uma vida encantada enquanto outros morrem à minha volta. E sabe por quê?
Somerset se inclinou para bem perto de Derry, os olhos brilhantes enquanto fazia confidências.
— Nunca fui a Windsor, nenhuma vez em trinta anos. É a residência do próprio rei, a maior do reino. Que outro castelo poderia ser “o” castelo, entende?
Derry riu de repente, uma gargalhada tão alta que o duque se sobressaltou.
— Sinto muito, milorde — disse Derry, arfando no meio da risada. — O senhor é um homem que respeito e escolheu dividir esse assunto privado comigo. Eu não deveria... — Ele se interrompeu de novo, incapaz de controlar a vontade de rir.
Somerset pareceu ofendido, e sua expressão injuriada fez Derry ofegar e se apoiar na parede.
— Eu ia dizer que York não será meu fim, apesar de todo o seu desagrado — continuou Somerset, muito rígido. — Temi por algum tempo, enquanto estive na Torre. As previsões podem ser vagas, e achei que aquele poderia ser o local de minha morte, mas então fui liberto e convocado outra vez para servir ao rei. Nada mais me causará medo novamente, nem York, nem Salisbury nem... nada.
— Sinto muito, milorde. Eu não deveria ter rido — desculpou-se Derry, secando as lágrimas e se controlando. — Gostaria de ter algum talismã mágico ou a promessa de alguma mendiga para me ajudar além de minha inteligência, gostaria mesmo. Gostaria de saber com certeza se a ameaça é York, Salisbury ou algum outro demônio que ainda não notei, escondido em algum canto escuro.
Somerset estava longe de se sentir satisfeito; os músculos do maxilar ainda se retesavam.
— Há pessoas com poderes verdadeiros, Derry, quer venham de demônios, quer venham de anjos, quer você prefira acreditar, quer não. Minha intenção era lhe dar um pouco de tranquilidade, não me tornar alvo de sua zombaria. Desejo-lhe boa-noite.
O duque inclinou a cabeça e se afastou, deixando Derry fitando-o e se divertindo.