Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 33 de 41

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Trindade

Capítulo 27

 

 

York passou a mão sobre um quadrado branco e liso, vazio e pronto para ser pintado novamente. Os painéis daquela sala já haviam sido um esplendor ininterrupto de cores, as armas de todas as casas nobres da Inglaterra. Um dos prazeres de sua juventude era ir ao Palácio de Westminster e ver o escudo de sua família descansar com orgulho ao lado de todos os outros. Não mais. Os painéis pintados se espalhavam pelas quatro paredes da sala, emblemas e histórias escritos nos símbolos das casas antigas. Três quadrados brancos estragavam a série ininterrupta. Três que haviam sido arrancados e cobertos com o mais claro tom de creme. Os escudos de York, Salisbury e Warwick foram removidos pelos arautos do rei. Dava algum consolo ver que o do condado de March ainda estava ali, com seus quartos azul, amarelo, vermelho e branco. Parecia que os agentes dos tribunais reais ficaram incertos sobre a inclusão daquele título no decreto, uma vez que já fora transmitido.

Salisbury observou o duque passar a mão sobre a massa vazia, perdido em pensamentos.

— Logo serão substituídos, Ricardo. O selo do próprio rei desfez todas as mentiras da rainha. Deu-me grande prazer ver todos aqueles homenzinhos do Parlamento correndo para fazer o que mandávamos.

York soltou o ar, os lábios retorcidos.

— Foi uma coisa imunda e não deveria ter sido feita. Nossas famílias são a Inglaterra, até os ossos. Mas vi seu escudo e o meu serem arrancados de pedra e madeira, retirados e alisados por limas e formões. Aqueles malditos arautos trabalharam enquanto eu estava na Irlanda. O Castelo de Ludlow foi despido, você soube? O Castelo de Sandal tinha tapeçarias e estátuas do tempo de Roma, mas todas sumiram, levadas embora quando eu não podia defendê-las. Levarei o resto da vida para recuperar os prejuízos desse decreto.

— Vi isso também, embora tenha me dado algum prazer recuperar minhas propriedades daqueles que as compraram. Agora algumas terras minhas estão nas mãos dos Percys, imagine só! Pelo menos você foi capaz de recuperar todas as suas. Enquanto Henrique Percy viver e me odiar pela morte do pai e do irmão, nunca recuperarei algumas das minhas sem derramamento de sangue.

Com isso, York se afastou da parede.

— Confiei em você em Ludlow. E você cumpriu sua palavra. Não me esquecerei disso. Você e seu filho me resgataram do desespero e do desastre, e um sentimento desses não voltarei a suportar por ninguém. Sempre estarei em dívida com vocês.

Ele estendeu a mão, e Salisbury aceitou o cumprimento, mão no cotovelo, segurando o antebraço.

Em Londres, todos os sinos começaram a dar meio-dia, um longo clamor que fez York e Salisbury se virarem para a porta.

— Como está o rei? — perguntou Salisbury quando saíram para o corredor.

— Bem o suficiente — respondeu York. — O bispo Kempe diz que ele é o hóspede mais agradável que já teve. Henrique passa o tempo na capela ou lendo, pelo que me contaram. Têm de lembrá-lo de comer.

— Já pensou no que fará com ele, agora que os Decretos de Desonra foram removidos dos livros?

— Já pensei nisso muitas vezes — respondeu York com rigidez. — Mas ainda não cheguei a uma decisão.

Os dois subiram uma escada, passaram pela sala onde se reuniam os Comuns e entraram na câmara da outra ponta. Já estava tomada por vozes, mas todas se calaram quando York foi avistado.

A Câmara Branca mal passava de uma sala de debates, muito menor que aquela no andar de baixo onde se reuniam os integrantes do Parlamento. Tinha bancos que se estendiam pelas laterais e um atril para quem se dirigisse aos presentes. De um lado, posicionado para ver a sala de cima, o assento do rei permanecia vazio, um simples trono de carvalho esculpido com três leões, com as bordas douradas.

O pensamento de York ainda estava nos próprios prejuízos, e ele mal cumprimentou a assembleia de lordes. Eram de número e posto bastante modestos. Nenhum Percy tinha vindo, nenhum Somerset, nenhum Clifford, nenhum dos outros que lutaram pelo rei. York reconheceu uma dúzia de barões menores, Cromwell dentre eles. Parou no degrau elevado e inclinou a cabeça para lorde Grey. York notou que o barão havia engordado muito desde a batalha perto de Northampton, desenvolvendo uma papada mais adequada a um bispo. Pelo filho e por Warwick, York soubera todos os detalhes do papel de Grey naquela vitória. Agradava-lhe imaginar as forças do rei sendo informadas de que os inimigos estavam a quilômetros de distância quando estavam quase sobre eles. O mais importante fora Grey ter cumprido a palavra e voltar seus homens contra Buckingham no momento certo. Engordar com a nova riqueza e se tornar Tesoureiro da Inglaterra era uma pequena retribuição por uma traição tão importante.

Enquanto York se posicionava de pé junto ao atril, Salisbury veio andando e se uniu a Warwick, Eduardo de March e mais uns vinte nobres. Eles ergueram os olhos para o duque, e os de Salisbury se arregalaram quando York pousou a mão no assento real, como se o reivindicasse. Ele fez um sinal brusco com a cabeça, e York sorriu.

A expressão durou apenas um instante, enquanto os outros homens ali viam onde estava sua mão e o que isso poderia significar. York franziu a testa quando alguém sibilou e outro proferiu palavras furiosas. Ele ergueu os olhos para um grupo de rosto fechado e viu que só March, Grey, Salisbury e Warwick levantavam a mão em apoio. Quatro lordes espirituais estavam presentes e, com irritação, ele viu o bispo Kempe menear devagar a grande cabeça de um lado para o outro. York pensou em se sentar no assento real e zombar deles todos pelo desagrado e pelos suspiros. O chanceler William Oldhall entrou pela lateral e olhou com horror a cena que se apresentava.

York afastou a mão. A tensão na sala desapareceu no mesmo instante, e o chanceler veio falar, a voz quase um murmúrio enquanto os outros conversavam como passarinhos.

— Milorde York, o rei está vivo — murmurou Oldhall em seu ouvido. — Assim como seu herdeiro. Esses homens não ousam aceitar o senhor na atual situação, mas tenha certeza de que meu trabalho produziu frutos. Os bons integrantes do Parlamento discutiram o melhor curso para avançar. Se o senhor ocupar seu lugar, milorde, prometo-lhe que ficará satisfeito com o resultado.

Com má vontade, York se afastou do atril e do assento real, descendo para os bancos. Salisbury fez uma grande saudação ao recebê-lo, como se não tivesse visto nada de inconveniente.

Oldhall os conduziu pela oração de abertura e depois agradeceu com floreios pela suspensão dos Atos de Desonra sobre as casas de York, Salisbury e Warwick. Esse anúncio formal provocou aclamações dos lordes reunidos, servindo para aliviar um pouco o estado de espírito irritado de York.

— Milordes, tenho o prazer de lhes transmitir a vontade dos Comuns nessa questão. Os membros buscaram algum modo de demonstrar sua gratidão a Ricardo Plantageneta, duque de York, pelos serviços prestados ao rei, por manter o rei Henrique a salvo e por resgatar Sua Majestade das mãos de traidores. Foi proposto um Ato de Consentimento para nomear York herdeiro do trono da Inglaterra. A votação acontecerá ao pôr do sol de hoje. Se for bem-sucedida, a nova lei será redigida amanhã para receber o selo real.

York relaxou e se aprumou no banco, mal escutando os parabéns de todos os homens que franziram a testa para ele pouco antes. Os covardes de ambas as câmaras não lhe permitiriam reivindicar o trono, mas se dispunham a pôr o destino de Henrique em suas mãos e deixar que ele agisse. Naquele momento, sentia apenas nojo por todos eles, embora tivessem atendido à sua maior ambição. Ele olhou para o banco de trás e encontrou os olhos do filho. Eduardo sabia o significado daquilo, e sorria, segurando a madeira com as manzorras.

York se instalou de volta em seu lugar, sentindo uma onda de vitalidade e novas forças. Tinha sido obrigado a fugir em Ludlow. Vira seus castelos e suas terras serem distribuídos ou vendidos a homens sem direito de tomá-los. Até seu nome e seu escudo foram arrancados de cadeiras e tapeçarias, cortados da madeira e raspados do ferro e da pedra em todo o reino. Mas, se no fim ele se tornasse rei, tudo não passaria de uma temporada amarga. York sabia que a presença de um exército infestando Londres explicava por que os homens do Parlamento de repente ficaram tão dóceis e solícitos. Lorde Scales sobrevivera ao rompimento da muralha da Torre, fazendo uma barricada no interior e escapando da vingança sanguinária da multidão de Londres. Ele aguentara por tempo suficiente para se render a Warwick quando trouxeram o rei de volta. Isso não o havia salvado da vingança que merecia. Levara apenas dois dias para alguém chegar até ele em sua cela na Torre. York tinha visto o corpo, embora não sentisse pena do homem depois das ordens que ele dera. Ainda havia sangue nas ruas. O mais importante era que naquele dia só havia uma força em Londres, e era leal a York. Ele tinha o rei e a cidade nas mãos, e o Parlamento sabia disso.

York fechou os olhos um instante, sentindo uma antiga dor. Visitara Henrique no Palácio de Fulham, mais abaixo no rio, e rezara durante horas com ele, tentando entender o rapaz e sua fraqueza. Em todos os anos de disputa, York nunca passara tempo suficiente com Henrique para verdadeiramente conhecer o caráter do rei. Ele sentiu os olhos se estreitarem com a ideia de matá-lo. Seria o assassinato de um verdadeiro inocente, o mais terrível dos pecados, qualquer que fosse o meio utilizado. Estaria condenado, sem dúvida alguma, embora ser condenado o tornasse rei. York buscou a força de vontade de ir até o fim e se lembrou novamente de como a misericórdia quase lhe custara a vida e a casa. York abriu os olhos mais uma vez, a decisão tomada. Por decência, não faria nada por algum tempo. O Parlamento faria dele o herdeiro e, antes do fim do ano, Henrique dormiria em silêncio para nunca mais acordar. York seria rei, como seu bisavô Eduardo. O filho seria rei depois dele.

Outra ideia lhe ocorreu enquanto respirava, enchendo-o de alegria. O filho não seria condenado pelo assassinato de um inocente. Eduardo governaria a casa de York e toda a Inglaterra — e que pai recusaria dar um presente desses, custasse o que custasse? York disse consigo mesmo que naquele mesmo dia escreveria a Cecily, ocupada em Ludlow com a reforma e com a supervisão de centenas de artesãos. Ele sorriu ao imaginar a reação dela. Mais um ato do Parlamento e teriam tudo o que sempre quiseram. O mundo seria endireitado após tantos anos com uma linhagem fraca no trono. Ele poderia até recuperar as terras perdidas na França. Quem lhe recusaria esse direito quando fosse rei? York sentiu a mente se encher de imagens gloriosas, e foi preciso o cotovelo pontudo de Salisbury na lateral de seu corpo para trazê-lo de volta e fazê-lo escutar William Oldhall e a discussão que ainda se desenrolava.

— ... ainda não há notícias da rainha Margarida nem de seu filho, não, lorde Grey. Ouvi relatos de que foram vistos passando para Gales, mas seu paradeiro agora é desconhecido. — Oldhall mostrou seu desconforto enquanto olhava de relance para York. — Há ausências hoje nesses bancos, espaços vazios que falam com bastante ênfase. Se lorde York se tornar herdeiro, não duvido de que receberemos notícias desses nobres que não vieram a Londres, a esta câmara.

York baixou os olhos, sem se importar em escutar. Sabia muito bem o nome dos que apoiariam a rainha: Percy, Somerset, Clifford, Exeter. Dava-lhe mais prazer pensar em homens como Buckingham e Egremont, que não poderiam mais incomodá-lo.

A notícia de um novo herdeiro do trono faria Margarida arrancar os cabelos de fúria quando soubesse. Essa imagem fez seus lábios se contorcerem, depois de tudo o que sofrera com o Decreto de Desonra. Pensar em seus torturadores sofrendo era um prazer tão simples quanto um verão na infância. Margarida havia perdido o marido. Quando a lei fosse aprovada, perderia também a herança do filho. Ele riu em voz alta com essa ideia, interrompendo um barão idoso, que parou de falar e o fitou. Salisbury também riu. Tinha observado atentamente York devaneando, quase capaz de seguir os meandros de sua mente e adorando cada momento.

 

Margarida corou, feliz com a atenção e os elogios. Jasper e Edmundo Tudor haviam se tornado condes pela mão do marido dela, mas ainda mantinham um silêncio respeitoso na presença do pai.

Owen Tudor segurou a mão dela para ajudá-la a entrar, sorrindo com malícia porque Margarida talvez acreditasse que ele já encantara uma rainha francesa. Era trinta anos mais velho que ela e, embora fosse calvo, com poucos fios brancos, mantivera rara vitalidade, a boa saúde se revelando na pele bronzeada, nos olhos límpidos e na mão firme. Parecia um cavalheiro do campo, com poucos sinais do soldado que já fora.

O príncipe Eduardo passou correndo por todos eles e soltou gritinhos animados com o banquete posto à mesa. Ele corria e pulava enquanto Margarida se sentava à cabeceira da mesa, e foi para sua cadeira com enorme relutância. Tinha quase 7 anos, e via a viagem a Gales como uma aventura. Como crescera em Kenilworth, não se assombrara muito com o Castelo de Pembroke. Havia passado a manhã correndo a toda e incomodando os criados, que já pareciam mimá-lo.

Pembroke fora um presente do rei Henrique a Jasper Tudor, mas este não se sentou à cabeceira, cedendo o lugar ao pai com elegância e alegria. Margarida podia ver que os três galeses se gostavam, e sentiu algo relaxar dentro dela enquanto bebericava seu vinho e olhava para o cordeiro fumegante trazido à mesa como prato principal.

— Faz bem ao meu coração ver uma família cujos membros não querem se matar — comentou ela. — Se eu não conseguisse vir para cá, não sei o que faria.

Owen Tudor olhou para Margarida, os olhos apertados de prazer por ter uma beldade daquelas em sua presença. Não podia resistir a sorrir para a rainha, apesar dos desastres que a levaram para as terras do filho.

— Vossa Alteza... — começou ele.

— Margarida, por favor.

— Muito bem. Margarida. Fico contente por ter se lembrado de que tem amigos aqui. Minha família tem uma grande dívida com seu marido, que não pode ser paga com vinho e cordeiro... mesmo que seja um cordeiro galês, o melhor de toda a criação.

Ela sorriu, e Owen Tudor fez um sinal para que outra grossa fatia, pingando caldo, fosse posta no prato da rainha.

— Margarida, quando minha esposa faleceu, a notícia de nosso casamento e de meus garotos se espalhou. Fui capturado, sabia? Pois é. Passei um tempo na prisão de Newgate, por ordem do orador William Tresham. Foram poucos meses, mas vou lhe dizer: nunca fiquei mais feliz de sentir o sol na pele do que quando me deixaram sair.

— Por que o senhor foi preso? — perguntou Margarida, interessada apesar das próprias preocupações.

Owen Tudor deu de ombros.

— Irritei pessoas porque me casei com a noiva do rei Henrique V. Foi o que bastou para mandarem soldados atrás de mim. Acho que poderia ter sumido nas montanhas, mas eu não conseguia entender por que me prenderiam por desposar uma rainha, não depois de o primeiro marido dela estar debaixo da terra. Mas acredito que eu ainda estaria lá se seu marido não assinasse minha ordem de soltura, que Deus lhe abençoe. Ele foi correto comigo e não guardou rancor de quem amou sua mãe tanto quanto ele. — O velho balançou a cabeça com a lembrança. — Ela foi a melhor parte de minha vida. Minha Catarina me deu esses patifes como filhos, e seu marido os transformou em condes. Fui abençoado além de todos os sonhos que tive quando jovem e tolo, embora ainda sinta saudades dela.

Para sua surpresa, Margarida viu lágrimas iluminarem os olhos dele, que as secou rapidamente. Era difícil não gostar daquele homem.

— Gostaria de tê-la conhecido — comentou ela.

Owen Tudor concordou.

— E eu gostaria que seu marido tivesse mantido as forças. Fico mais que triste de saber de sua doença. Cada ano traz notícias piores. É cruel o que ele tem de suportar, uma situação difícil para qualquer homem, mas muito pior para um rei. Eu sei como os cães se juntam em torno de um veado ferido, Margarida. Eles sabem ser cruéis.

Foi a vez de Margarida sentir os olhos arderem com lágrimas. Ela os desviou, brincando com a taça de vinho para não permitir que, com a pena que via em Owen Tudor, seu pesar se transformasse em choro.

— E têm sido — acrescentou ela em voz baixa. — Henrique foi capturado, e bons homens foram mortos tentando salvá-lo. Agora York está com ele, escondido em algum lugar. Isso me parte o coração... — Ela se obrigou a parar antes que o pesar tomasse conta.

— Mas a senhora poderia ter ficado em Kenilworth, milady — continuou Owen.

Margarida sentiu os filhos dele se aproximarem, o interesse se aguçando.

— Fico feliz e mais honrado do que pensa com a vinda da senhora para cá, mas ainda não sei por que nos procurou.

— O senhor sabe — disse Margarida, limpando os olhos com um pano. — Se tivesse ficado onde estava segura, seria como desistir. Seria o fim. Em vez disso, vim lhe pedir um exército, Owen. É como um ferro em brasa em minha pele ter de pedir, mas, se sente que tem uma dívida, posso solicitar o pagamento.

— Ah, eis o cerne da questão — murmurou Owen Tudor, sem piscar. — Embora não haja opção, para mim ou para meus filhos, milady. Já conversamos antes, e nunca houve dúvidas, não se a senhora pedisse. Houve, rapazes?

— Nenhuma — respondeu Jasper Tudor, convicto.

O irmão Edmundo repetiu a concordância, os três homens soturnos com a tristeza da rainha. O príncipe Eduardo se calara, fitando em volta as vozes sérias dos adultos. Um dos criados se aproximou com frutas cortadas para ele, que puxou a manga da mãe para lhe mostrar. Margarida sorriu para o filho, entre lágrimas que não paravam de escorrer.

— Sou muito grata a todos os senhores — disse ela. — Esperava por isso quando pensei em vir para cá, mas os senhores devem saber que York e Salisbury, Warwick e March, todos ameaçam minha família. Precisarei encontrar e convocar todos os homens da Inglaterra e de Gales, e além, para resistir a eles.

— Além, milady? — perguntou Owen Tudor.

— Se me conseguir uma embarcação, pensei em ir à Escócia e conversar com o rei Jaime. No passado ele apoiou a causa de York, mas creio que posso lhe fazer uma oferta à qual ele achará difícil recusar.

Os filhos Tudors esperaram o pai considerar esse desenrolar. Por fim, ele falou, assentindo.

— Não gostaria de ver os escoceses descerem de suas montanhas, milady. São uma raça feroz, com toda certeza, e sem dúvida um terror no campo de batalha. Mas a senhora deve saber que o rei deles cobrará um preço alto pela ajuda. Seja lá o que a senhora tem em mente, e não perguntarei algo tão particular, ele há de querer tudo e mais um centavo, se é que a senhora me entende.

— Não há preço alto demais a pagar para ver os inimigos de meu marido destruídos — respondeu Margarida.

— Eu não diria isso a ele, milady, senão o rei Jaime pedirá Londres e mais um centavo — respondeu Owen Tudor.

Ela viu os olhos dele cintilarem e sorriu de volta, a contragosto. Não teve dúvida então de que a rainha Catarina o havia amado, aquele galês simples e sólido que aliviara sua tristeza pela morte do primeiro marido.

— Mandarei aprontar uma embarcação para a senhora, milady — avisou Jasper Tudor. — As tempestades podem ser terríveis mais para o fim do ano, mas, enquanto é verão, a senhora provavelmente estará a salvo. Mandarei também vinte de meus guardas com a senhora, para impressionar os escoceses.

— Bom rapaz — elogiou o pai. — Não podemos deixar a rainha e nosso príncipe aparecerem sozinhos nas terras selvagens da Escócia. O rei Jaime esperará uma bela demonstração de poder. Agora, não se preocupe. Levarei os homens de Gales, milady. Talvez até vá com eles para mostrar a esses filhotinhos o que um cachorro velho sabe fazer.

Jasper resfolegou, e Margarida ficou emocionada com a afeição evidente entre eles. Era algo que nunca havia conhecido, e cada momento parecia quase levá-la às lágrimas, até que ela se exasperou. Provavelmente, ter chorado à mesa dos Tudors não reduzira a chance de conquistar seu apoio, isso Margarida entendia. Alguns homens moveriam o mundo para ajudar uma mulher que sofre.

— Você me dá esperanças, Owen — comentou ela, a respiração ainda trêmula. — Rezo para que meu marido seja capaz de lhe agradecer como merece.

— A honra é toda minha — respondeu Owen Tudor. — Ele é um bom homem. O mundo não precisa de mais diabos espertos, Margarida. Desses já temos bastante. Está ouvindo, rapaz? — Ele dirigiu a pergunta ao príncipe Eduardo, que fez que sim com a cabeça, os olhos arregalados. — Eu disse que precisamos de bons homens para governar. Algum dia será você como rei, sabia disso?

— É claro — respondeu o menino com desdém, fazendo o velho sorrir.

Margarida estendeu a mão e deu um puxão na orelha de Eduardo, que gritou.

— Tenha mais respeito, Eduardo — disse ela. — Aqui você é um hóspede.

— Perdão, senhor — respondeu o menino, esfregando a orelha e olhando para a mãe com raiva.