Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 39 de 41

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Trindade

Capítulo 33

 

Não era pouca coisa desarmar um exército. Homens que portavam espadas e machados durante anos desenvolviam afeição por eles. Os donos relutavam em abrir mão das armas, que seriam jogadas numa pilha para enferrujar ou dadas a algum idiota sem valor. O vento empurrava e açoitava todos eles, fazendo-os tremer e fechar os braços em torno do corpo, agora que o calor do combate terminara.

Lorde Clifford levou um grupo de cavaleiros até a fortaleza de Sandal, em busca de quaisquer homens armados de York que ainda pudessem estar à espera numa emboscada. No campo gelado, soldados ofegantes de ambos os lados se examinavam, a si e ao equipamento, em busca de ferimentos que ainda não tivessem sentido. Muitos praguejaram ao encontrar cortes e até perfurações de flecha, fitando os machucados com espanto enquanto rasgavam tiras dos tabardos para atá-los.

Todos os homens de York foram revistados. Quando não tinham mais armas, Somerset mandou os soldados tirarem as cotas de malha deles. Os soldados resmungaram e praguejaram, é claro, embora soubessem que era melhor não recusar. Debaixo das árvores, as pilhas de equipamento aumentavam: elmos e escudos, cotas de malha, armaduras e machados, todos misturados. Os mortos foram despidos de tudo que tivesse valor, e até suas botas foram arrancadas e empilhadas. Depois de algum tempo, todos os cadáveres estavam descalços, e os soldados carrancudos passaram por eles mais uma vez, levando os mortos para serem dispostos no solo duro, dobrando seus braços sobre o peito.

O trabalho levou horas, e o sol já estava no horizonte quando os primeiros sobreviventes tiveram permissão de partir. Em grupos de doze, os soldados da rainha apontaram o sul para os que conseguiam andar e lhes deram a ordem de seguir caminho. Alguns usavam máscaras de sangue congelado ou exibiam novas bocas abertas onde as lâminas lhes cortaram. Outros apertavam com a mão perfurações que sangravam ou ninavam tocos e se balançavam onde estavam, pálidos e enjoados de tanta dor. Os que não conseguiam andar foram deixados ali para morrer ao vento, fitando o nada.

Derry Brewer fez questão de falar com alguns capitães de York que se preparavam para partir. Muitos homens espancados e tremendo voltariam para casa a pé, furtando no caminho e passando fome até estarem longe de Sandal e de todas as lembranças daquela derrota. Ele não duvidava de que alguns sobreviventes seriam encontrados mortos pela estrada no mês seguinte, enquanto uns poucos seriam capturados e enforcados por roubar comida. Derry meramente mencionou que os fortes, os incólumes, talvez quisessem aguardar perto de Sheffield. Disse-lhes que talvez tivessem a oportunidade de entrar para as fileiras do exército da rainha, que voltaria para o sul. Riram do espião-mor, mas o caminho de volta era longo, e eles não tinham comida. Derry sabia que alguns se lembrariam do que ele disse e esperariam. Não gostava de ver bons homens desperdiçados, não sem saber onde estavam os exércitos de March e Warwick.

O sol se punha nos morros a oeste, manchando o céu. A espada de York fora tirada dele, embora tivessem deixado sua armadura. Seu cavalo havia sido levado, e suas mãos estavam amarradas com firmeza às costas. Dois soldados foram postados perto dele, rosnando para quem se aproximasse para cuspir ou bater. Nada lhe disseram, e ele esperou, sozinho, enquanto seus inimigos limpavam os detritos da batalha.

O pôr do sol se afundava em ouro, e o duque o fitou até seus olhos arderem. Por todo lado, os remanescentes de seu exército iam embora pela estrada do sul, uma grande torrente de figuras curvadas que lhe recordavam os refugiados da França uma década antes. Ele manteve a cabeça erguida, pálido e ereto enquanto passavam. Alguns murmuraram xingamentos para ele ao passar, enquanto muitos outros sussurraram desculpas. York não respondeu a ninguém, dando as costas para o sol e se virando para a rainha e seus lordes.

Quando o campo diante de Sandal estava quase vazio, Derry Brewer foi até ele.

— Há alguns que querem lhe falar. Vamos.

Ele pegou York pelo braço e o puxou pelo campo em direção à rainha.

York fez uma careta com seu toque.

— Sou de sangue nobre, Brewer. Tenha cuidado.

Derry deu uma risadinha, embora o som não fosse agradável. Ele puxou York até a borda da floresta, onde uma dúzia de nobres e a rainha em pessoa se viraram para observar sua aproximação. York levantou a cabeça mais um pouquinho, recusando-se a ser intimidado por eles. Seus olhos caíram sobre uma figura amarrada, de joelhos e balançando no chão. York sorriu de alívio ao ver Salisbury vivo, embora a cabeça do velho estivesse ensanguentada e os olhos, baços.

Derry levou o duque até Salisbury e lhe deu um tapinha no ombro para lhe dizer que devia se ajoelhar. Por um momento, York se manteve em pé, mas sentia a corda áspera nos pulsos e sabia que não tinha opção senão aguentar.

York se ajoelhou no chão enlameado, com água fria se infiltrando na armadura. Quando se posicionou, Margarida se aproximou dele, a cabeça inclinada enquanto o observava com intensidade pouco natural. Somerset e Henrique Percy estavam ao lado dela, parecendo tão arranhados e desgrenhados quanto York se sentia.

— Devo congratulá-la, milady? — perguntou York. — Parece que sou seu prisioneiro.

— Não preciso que me diga isso — retrucou Margarida. Seus olhos cintilaram de maldade para o homem que capturara seu marido e deserdara seu filho. — Onde está o rei, milorde? Isso é tudo que quero ouvir do senhor.

— Longe... e a salvo — respondeu York. Ele pensou um instante. — Se sua intenção é nos exigir resgate, talvez o rei Henrique possa ser o preço.

Margarida fechou os olhos, uma das mãos se fechando.

— Não, milorde York. Não. Falei e falei o ano inteiro. Não farei outro acordo agora. Acabou. Se o senhor não me disser onde está meu marido, não tenho mais utilidade para o senhor. — Ela se virou para Somerset, em pé, de armadura, com a espada desembainhada. — Corte a cabeça de Salisbury, milorde. Encontrarei um lugar para ela.

York se enrijeceu de choque e fúria.

— Como a morte dele serviria à sua causa? Fique longe dele, Somerset!

Ele se virou desesperado e viu que Salisbury o observava, os tendões do pescoço destacados como arames. Quando seus olhos se cruzaram, Salisbury deu de ombros. Seu rosto estava inchado, cheio de hematomas. O conde ergueu os olhos quando Somerset ergueu a espada e ficou ao seu lado.

— Deus tenha piedade de minha alma — murmurou Salisbury.

Ele fechou os olhos e esticou o pescoço, tremendo. Somerset levantou a espada o máximo que pôde e depois a fez cair com uma imensa força, cortando a cabeça do conde, que caiu na lama. O corpo amoleceu e caiu de lado, enquanto York arfava de horror e pesar. Ele ergueu os olhos para Margarida e viu sua morte nos olhos dela.

Um grito soou ali perto, e os nobres em torno da rainha levaram a mão às espadas e depois a deixaram pender ao verem que era lorde Clifford voltando. O barão sorriu ao avistar o corpo de Salisbury e York amarrado e de joelhos. Fez o cavalo trotar até eles e apeou, caminhando os últimos passos para olhar York de cima.

— Sinto alegria ao vê-lo tão reduzido — declarou Clifford. — Agradeço a Deus por ter voltado a tempo. Peguei um mocinho junto às muralhas, dois rapazes com ele. Disse que era seu filho antes que eu o matasse.

York fitou Clifford, que levantou a mão direita, mostrando uma adaga com sangue vermelho vivo.

O prazer desdenhoso de Clifford pareceu azedar o momento de Margarida.

— Cuide de seus homens, barão — disse ela com rispidez.

Clifford pareceu ofendido, mas obedeceu e se afastou.

Margarida balançou a cabeça, cansada e enjoada.

— Você causou tanta dor, Ricardo — disse ela. — Tantos pais e filhos morreram, tudo porque você não quis aceitar Henrique no trono.

— Era uma cadeira boa demais para ele — retorquiu York. — Acha que obteve a vitória?

A voz dele se fortalecia a cada palavra. A morte de Salisbury e o assassinato do pobre Edmundo o atordoaram por algum tempo. Como vinho forte, algo no ódio mesquinho e cruel de Clifford restaurou seu orgulho e fez seu coração bater forte. York endireitou as costas quando o duque de Somerset chegou ao seu lado. Ele pôde sentir a espada ensanguentada se erguer acima dele, e viu o sinal de cabeça de Margarida.

— Tudo o que a senhora fez foi liberar nossos filhos! — berrou York. — Deus salve minha alma!

A espada desceu e a cabeça de York rolou. Margarida soltou um suspiro lento e trêmulo.

— É o fim — sussurrou. — Bons homens foram vingados. — Ela ergueu a voz para os lordes em volta. — Peguem as cabeças e as espetem nas muralhas de York.

Margarida observou, com fascínio e enojada, os itens sinistros serem reunidos, o sangue escorrendo pelo braço do homem que os segurava. Ela foi até bem perto e estendeu a mão para tocar a expressão frouxa de York. Sua mão tremia como se ela estivesse sofrendo um ataque epilético.

— Ponham uma coroa de papel nesta, que desejava usar a coroa real. Que o povo de York saiba o preço de sua ambição.

O soldado assentiu e levou as cabeças embora.

O conde Percy se aproximou de Margarida, pálido com o que vira.

— E agora, milady?

— Agora? — disse ela, virando-se para ele. — Agora para Londres, para recuperar meu marido.