Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 6 de 41

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Trindade

Prólogo

 

O visconde Michel Gascault com certeza não era um espião. Teria rejeitado tal designação com desdém se a ouvisse sendo usada a seu respeito. Naturalmente, não seria preciso dizer que o embaixador francês na corte inglesa contaria qualquer coisa de interesse ao seu monarca quando voltasse. Também era verdade que o visconde Gascault tinha considerável experiência tanto nos palácios reais da Europa quanto no campo de batalha. Ele sabia o que o rei Carlos da França gostaria de saber e, com isso em mente, anotava cuidadosamente tudo o que acontecia à sua volta, por menor que fosse. Espiões eram homens imundos, de origem vil, dados a se esconder em portais e sibilar senhas secretas entre si. O visconde Gascault, d’un autre côté — “por outro lado”, diriam nestas terras —, era um cavalheiro da França, tão acima desse tipo de coisa quanto o Sol em relação à Terra.

Esses pensamentos e outros semelhantes eram tudo o que tinha para se entreter nas horas de ociosidade. Com certeza mencionaria ao rei Carlos que fora ignorado durante três dias inteiros, deixado sem ter o que fazer numa câmara suntuosa do Palácio de Westminster. Ele notara que os serviçais enviados para cuidar de sua pessoa sequer estavam bem lavados, embora o atendessem prontamente. Um deles decididamente fedia a cavalo e urina, como se seu trabalho habitual fosse nos estábulos reais.

Ainda assim, as necessidades corporais de Gascault eram atendidas, ainda que as de sua embaixada não o fossem. Todos os dias começavam com seus próprios criados vestindo-o com os trajes e as capas mais vistosos que possuía, escolhidos entre as vestimentas comprimidas nos baús enormes que havia trazido da França. Ainda não fora forçado a repetir uma combinação de cores, e, se ouvisse um dos ajudantes de cozinha ingleses chamá-lo de “Pavão Francês”, não se incomodaria. As cores vivas o deixavam de bom humor, e ele tinha pouquíssima coisa para passar o tempo. Não gostava de pensar na comida que lhe serviam. Era bastante claro que haviam contratado um cozinheiro francês; e igualmente claro que o homem não tinha amor pelos compatriotas. Gascault tremeu ao se lembrar de algumas coisas moles que surgiram à sua mesa.

As horas se arrastavam como um funeral, e fazia tempo que lera cada detalhe de seus documentos oficiais. À luz de um candeeiro, recorreu enfim a um livro de cor parda em seu poder, todo marcado com suas anotações e comentários. De Sacra Coena, de Berengarius, havia se tornado um dos favoritos de Gascault. Obviamente o tratado sobre a Última Ceia fora banido pela Igreja. Qualquer discussão que enveredasse pelos mistérios do corpo e do sangue chamaria atenção dos cães de guarda papais.

Fazia tempo que Gascault adotara o hábito de procurar livros destinados ao fogo para acender as chamas de seus pensamentos. Ele esfregou o envoltório com as mãos. A capa original havia sido arrancada e totalmente queimada, é claro, e as cinzas cuidadosamente esfareladas para que nenhuma mão curiosa pudesse sequer imaginar o que tinham sido. O couro áspero e manchado era uma triste necessidade numa época em que os homens sentiam tanto prazer em denunciar uns aos outros aos seus senhores.

A convocação, quando por fim veio, interrompeu a leitura. Gascault estava acostumado ao sino retumbante que tocava a cada meia hora, acordando-o do sono e atrapalhando sua digestão, pelo menos tanto quanto os pobres pombos que jaziam tão moles no prato do jantar. Ele não contara, mas sabia que era tarde quando o criado-cavalariço, como o chamava, entrou correndo na sala.

— Visconde Gas-cart, o senhor foi convocado — avisou o menino.

Gascault não pareceu se irritar com o modo como o garoto trucidara um nome tão honrado. Sem dúvida, era uma pessoa simplória, e o bom Deus esperava misericórdia por esses pobres coitados, postos entre seus melhores para aprender a compaixão; ao menos, era o que a mãe de Gascault sempre dizia. Com cuidado, ele pousou o livro no braço da cadeira e se levantou. Alphonse, seu mordomo, estava apenas um passo atrás do garoto. Gascault deixou os olhos vagarem de volta ao livro, sabendo que seria sinal suficiente para que seu criado o protegesse de outras mãos em sua ausência. Alphonse fez um breve aceno com a cabeça, curvando-se enquanto o menino cavalariço fitava, confuso, a comunicação muda entre os dois homens.

O visconde Gascault afivelou a espada e permitiu que Alphonse lhe pusesse a capa amarela em volta dos ombros. Quando seu olhar voltou mais uma vez à cadeira, o livro tinha de alguma forma sumido. É verdade, seu criado era a personificação da discrição, e não só porque lhe faltava a língua. Gascault inclinou a cabeça em agradecimento e seguiu atrás do menino, atravessando os cômodos externos até o corredor gélido mais adiante.

Um grupo de cinco homens o aguardava. Quatro deles, evidentemente, eram guardas, com o tabardo real sobre a cota de malha. O último usava capa e túnica sobre as calças apertadas, com o tecido tão espesso e tão bem-feitas quanto as suas.

— Visconde Michel Gascault? — perguntou o homem.

Gascault notou a pronúncia perfeita e sorriu.

— Tenho essa honra. Estou a serviço de...?

— Ricardo Neville, conde de Salisbury e lorde chanceler. Devo me desculpar pela hora tardia, mas o senhor é aguardado nos aposentos reais, milorde.

Gascault acertou o passo ao lado do homem com facilidade, ignorando o estrépito dos guardas atrás deles. Em sua carreira, conhecera coisas mais estranhas que uma reunião à meia-noite.

— Para ver o rei? — indagou maliciosamente, observando o conde com atenção. Salisbury não era jovem, embora parecesse musculoso e saudável aos olhos do francês. Não seria bom revelar até que ponto a corte da França sabia dos problemas de saúde do rei Henrique.

— Sinto informar que Sua Alteza Real, o rei Henrique, sofre de uma febre, uma doença passageira. Espero que o senhor não se ofenda, mas esta noite vou levá-lo ao duque de York.

— Milorde Salisbury, sinto muitíssimo em saber disso — respondeu Gascault, deixando as palavras escapulirem.

Ele percebeu os olhos de Salisbury se apertarem um pouco e teve de sufocar um sorriso. Ambos sabiam que havia famílias na corte inglesa com laços fortes com a França, por sangue ou por títulos. A ideia de que o rei francês não conhecesse cada detalhe do colapso do rei Henrique era um jogo entre eles, nada mais. O rei inglês estava quase sem sentidos havia meses, num estupor tão profundo que não podia ser trazido de volta à consciência. Não era à toa que seus lordes haviam nomeado um dos seus como “protetor e defensor do reino”.Ricardo, duque de York, era rei em tudo, menos no título, e, na verdade, o visconde Gascault não tinha interesse em se encontrar com um rei perdido em sonhos. Fora enviado para avaliar o poderio da corte inglesa e sua disposição para defender seus interesses. Gascault permitiu seu prazer faiscar nos olhos apenas um instante antes de sufocar a emoção. Se relatasse que estavam fracos e perdidos sem o rei Henrique, bastaria sua palavra para trazer cem navios da França para atacar e queimar todos os portos ingleses. Os ingleses fizeram o mesmo com a França por tempo suficiente, recordou a si mesmo. Talvez finalmente tivesse chegado a hora de receberem o que lhes era devido.

Salisbury conduziu o pequeno grupo por uma extensão de corredores infindável, então subiu dois lances de escada até os aposentos reais no andar de cima. Mesmo em hora tão avançada, o Palácio de Westminster estava claro, com lâmpadas acesas a cada poucos passos. Mas Gascault conseguia sentir um cheiro de umidade no ar, um fedor de mofo antigo por causa da proximidade do rio. Quando chegaram à última porta guardada, ele teve de controlar o desejo de endireitar mais uma vez a capa e a gola. Alphonse não o teria deixado partir com algo fora do lugar.

Os soldados foram dispensados, e a porta foi aberta por guardas no interior da sala. Salisbury estendeu a mão para permitir ao embaixador que entrasse antes dele.

— O senhor primeiro, visconde.

Seus olhos eram argutos, percebeu Gascault ao fazer uma reverência e entrar. Salisbury não perdia nada, levando o visconde a se lembrar de ser cauteloso com ele. Os ingleses eram muitas coisas: venais, irritadiços, gananciosos, toda uma série de pecados. Mas ninguém jamais os chamara de estúpidos, em toda a história do mundo. Ah, se Deus permitisse que o fossem! O rei Carlos teria nas mãos suas cidades e seus castelos numa única geração.

Salisbury fechou a porta delicadamente, e o visconde Gascault se viu numa sala menor do que esperava. Talvez fosse adequado a um “protetor e defensor” não se permitir os atavios de uma corte real, mas o silêncio daquele cômodo fez o francês sentir um frio na espinha. As janelas estavam negras por causa da noite lá fora, e o homem que se levantou para cumprimentá-lo se vestia da mesma cor, quase perdido nas sombras das lâmpadas baixas ao avançar.

Ricardo, duque de York, estendeu a mão, convidando Gascault a avançar mais na sala. O francês sentiu um arrepio na nuca causado por um medo supersticioso, embora não demonstrasse indícios de desconforto. Ao dar um passo à frente, olhou para trás, e não viu nada mais estranho do que Salisbury observando-o intensamente.

— Visconde Gascault, sou York. É um prazer lhe dar as boas-vindas, e fonte de grande pesar ter de mandá-lo para casa tão cedo.

— Milorde? — questionou Gascault, confuso.

Ele se sentou onde York indicou e tentou se recompor enquanto o inglês se acomodava do lado oposto de uma mesa larga. O queixo do duque era quadrado e bem barbeado, embora o homem parecesse bastante magro em suas roupas pretas. Enquanto o visconde o encarava, York afastou o cabelo da testa com uma das mãos. Ele inclinou a cabeça para fazê-lo, mas seus olhos não se desviaram dos de Gascault.

— Temo não ter compreendido, milorde York. Desculpe-me, ainda não aprendi o termo correto para me dirigir a um protetor e defensor.

Gascault olhou ao redor, atrás de algum sinal de vinho ou comida, porém não havia nada à vista, apenas o dourado profundo do carvalho da mesa, estendendo-se à sua frente.

York o olhou sem piscar, franzindo o cenho.

— Fui lugar-tenente do rei na França, visconde Gascault. Tenho certeza de que lhe disseram isso. Lutei em solo francês e perdi propriedades e títulos para seu rei. Tudo isso o senhor sabe. Só o menciono para lhe recordar que também conheço a França. Conheço seu rei... e, Gascault, eu o conheço.

— Milorde, só posso supor...

York continuou sem se interromper, como se Gascault não tivesse falado.

— O rei da Inglaterra dorme, visconde Gascault. Chegará a acordar? Ou morrerá no leito? É o que se comenta em todas as feiras daqui. Não duvido que seja o assunto de Paris também. Será a oportunidade para a qual seu rei se planejou e pela qual tanto esperou? Os senhores, que não são suficientemente poderosos para nos tomar Calais, sonhariam com a Inglaterra?

Gascault fez que não, a boca aberta para começar a negar. York ergueu a mão.

— Convido-o, Gascault. Lance seus dados. Aproveite a oportunidade enquanto o rei Henrique cochila. Eu voltaria a pisar em terras que já foram minhas. Marcharia mais uma vez com um exército sobre terras francesas, se tivesse a oportunidade. Por favor, pense no meu convite. O canal da Mancha é apenas uma linha. O rei, apenas um homem. Um soldado, bem, se for um soldado inglês, ainda é um homem, não é? Pode falhar. Pode cair. Venham contra nós enquanto nosso rei dorme, visconde Gascault. Escalem nossas muralhas. Ponham os pés em nossos portos. Darei as boas-vindas, assim como nosso povo dará as boas-vindas a todos os senhores. Serão boas-vindas rudes, garanto. Somos um povo rude. Mas temos dívidas a pagar, e somos generosos com nossos inimigos. Para cada golpe que recebemos, damos três, e não poupamos despesas. Está me entendendo, visconde Gascault? Filho de Julien e Clémence. Irmão de André, Arnaud e François. Marido de Elodie. Pai de dois filhos e uma filha. Devo citar os nomes deles, Gascault? Devo descrever o lar de sua família, com as ameixeiras rubras que ladeiam o portão?

— Basta, monsieur — pediu Gascault em voz baixa. — O que diz está bastante claro.

— Eu me pergunto se está realmente claro — continuou York. — Ou eu deveria enviar uma ordem que voe mais depressa do que o senhor consiga cavalgar, mais depressa do que consiga navegar, para que compreenda o que quero dizer tão bem quanto pretendo ao retornar ao seu lar? Estou disposto, Gascault.

— Por favor, não, milorde — respondeu Gascault.

— Por favor? — indagou York. Seu rosto estava rígido, escurecido pelas lâmpadas que minguavam, como se sombras se esgueirassem por seu maxilar. — Decidirei após a partida do senhor. Há um navio à sua espera, Gascault, e homens que o levarão até a costa. Quaisquer que sejam as notícias que transmitirá ao seu rei, desejo-lhe toda a sorte que merece. Boa noite, visconde Gascault. Vá com Deus.

Gascault se levantou com as pernas bambas e seguiu até a porta. Salisbury manteve a cabeça baixa ao abri-la, e o francês respirou fundo de medo ao ver os guardas reunidos do outro lado. Na obscuridade, tinham um aspecto ameaçador, e ele quase gritou quando o deixaram sair e se viraram para acompanhá-lo.

Salisbury fechou a porta delicadamente.

— Acho que eles não virão, pelo menos não este ano — comentou.

York fez um muxoxo.

— Juro que estou dividido. Temos os navios e os homens, se me seguirem. No entanto, eles esperam como cães para ver se Henrique acorda.

A princípio, Salisbury não respondeu. York notou a hesitação e deu um sorriso cansado.

— Ainda não é muito tarde, eu acho. Mande chamar o espanhol também. Repetirei a ele a minha fala.