Trindade
Epílogo
Eduardo de March remoía seus pensamentos. Sua armadura estava respingada de sangue e lama seca, e ele estava cansado, embora sentisse que os braços doídos tivessem sido bem-usados. A escuridão caía, e ele ouvia os gritos dos feridos pelo campo coberto por sombras, silenciados conforme eram encontrados e tinham a garganta cortada. Seus homens marchavam em fileiras, com armaduras e cotas de malha tilintando. Não havia gritos de vitória nem risadas. O humor grave do conde manchara a todos. Eles se mantinham calados ao passar pelo ponto onde ele descansava sobre uma árvore caída, olhando ao longe, a grande espada sobre os joelhos.
O pai e o irmão Edmundo estavam mortos, derrubados por cães e homens vis. A notícia viera poucos dias antes com a fileira de cavaleiros entre eles, enquanto um exército galês se aproximava o suficiente para atacar. Então March se perdera por algum tempo. Recordava-se de organizar seus homens em fileiras, e do jeito como o olharam, com medo no rosto. Eles enfrentaram quatro mil soldados, entre os quais os melhores arqueiros do mundo, mas Eduardo ordenara que avançassem mesmo assim. O resultado estava em volta dele, um campo de cadáveres afundando na lama. Com sua fúria, ele jogara fora aquelas vidas. Golpeara e golpeara até embotar o fio da espada, e continuou a esmagar e quebrar a cada golpe. Quando a loucura passou, a batalha havia sido vencida, com os últimos deles fugindo do gigante em lágrimas vestido de ferro que os jogava longe como folhas secas.
Ele não sabia quantos homens seus jaziam entre os mortos. Não importava que tivesse perdido quase todos. Owen Tudor fora morto, seu exército de galeses massacrado, seus filhos forçados a fugir. Eles tinham escolhido se levantar contra Eduardo e fracassaram. Isso era tudo o que importava.
Eduardo se levantou com esforço, sentindo dores e machucados que não havia notado antes. O sangue escorria na lateral da armadura, e ele fez uma careta quando apertou o local e sentiu as costelas se mexerem. A noite seria longa, e ele ergueu o rosto para o céu escuro, desejando sentir a luz do sol mais uma vez. Vivia, pensou espantado. Esgotara as paixões sombrias que o consumiram, esvaziando-se até se sentir oco. Cobrara em sangue o preço do pai.
Ele respirou fundo e se lembrou da estranha visão que tivera na manhã anterior à batalha. Assistira ao sol começar a nascer, embora não houvesse mais nenhuma alegria nisso. Quando o astro rompeu o horizonte, dois outros sóis tinham aparecido, um de cada lado, brilhantes olhos de ouro que formavam sombras estranhas e nauseantes nas fileiras à espera. Seus homens apontaram e arfaram de medo. A escuridão ainda estava enrolada no interior dele naquele momento. Eduardo permanecera observando até achar que ficaria cego, sentindo o calor no rosto nu.
Eduardo não sabia se aquela visão fora a última bênção de seu pai. Sentia ter renascido sob a luz daquela estranha trindade. Havia sido renovado. Tinha 18 anos. Era o duque de York. Era o herdeiro do trono.