Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 11 de 41

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Trindade

Capítulo 5

 

Tomás via o Castelo de Alnwick crescer à sua frente, a vasta fortaleza amarelo-clara dominando a paisagem. A visão não o alegrou. Após três dias na estrada, estava dolorido e sujo, fedendo a suor velho e sangue seco. Finalmente conseguira remover o elmo com óleo e água quente, mas ele tinha no alto da cabeça uma linha de pontos do comprimento de um dedo que ardia, e, ao ver a mossa que a havia causado, apenas ficara observando-a. Tomás sentia seu estado de espírito afundando a cada passo de Balion. Tinha mil lembranças da infância daquelas muralhas de ouro pálido, mas, antes de tudo, Alnwick significava o velho. Significava encontrar o pai.

Quando se afastaram do campo de batalha, a princípio o humor dos homens estava quase alegre. Era verdade que Salisbury escapara deles, mas essa preocupação era do filho de Percy. Para os outros, por Deus, eram sobreviventes, alegrai-vos. Haviam passado pelo horror da batalha, cada homem ali possuía várias histórias de combates corpo a corpo ou de uma ferida terrível da qual tinha escapado por pouco. A primeira noite na estrada havia sido turbulenta, com grandes soldados barbados rindo e imitando o golpe que deram ou de que se esquivaram. Um deles tinha um apito de junco, com furos que ele mesmo fizera. O sujeito conseguia tirar dele uma música animada, e alguns homens pularam e dançaram como se estivessem bêbados. Tomás pensara em ordenar que fizessem silêncio quando o sol se pôs. Até onde sabiam, os Nevilles podiam estar atrás deles. Parecia loucura berrar sua posição sob o céu noturno.

Talvez Trunning tivesse adivinhado seus pensamentos pela cara fechada. O homenzinho tinha se aproximado e levado Tomás para longe, para uma conversinha reservada.

— Eles se acalmarão, milorde — sussurrara Trunning, fitando o sol poente. A voz rouca havia se tornado quase um ronronar, fazendo a pele de Tomás se arrepiar. — Tenho batedores por aí para ver se há alguém se esgueirando atrás de nós. Não seremos pegos de surpresa, juro ao senhor. Os rapazes só estão... felizes de estarem vivos, milorde, com todos os dedos inteiros. Deixe que cantem um pouco, se puder. O sangue quente vai esfriar bem depressa. Eles acordarão um pouco mais sérios, talvez um pouco mal-humorados, mas estarão tão bons quanto chuva pela manhã.

Tomás não conseguira dizer nada. Houvera então certa gentileza no rosto corado e manchado de Trunning. Dizer que o barão havia achado essa observação surpreendente não fazia justiça à palavra. Se o sol subisse de volta no horizonte, talvez ele tivesse uma sensação igual de haver algo errado no mundo. Mas ali estava, uma faísca de afeição pelos soldados de rosto corado que vociferavam alguma cançoneta sentimental, homens que quebrariam a cara do primeiro que sugerisse haver neles qualquer coisa além de pedra de Alnwick, sangue, ossos e juramentos. Com um movimento de cabeça brusco, Tomás concordou com Trunning, e o mestre de armas do pai se afastou. Trunning não olhara para ele diretamente uma única vez. O discurso inteiro havia sido proferido para o ar, como se estivessem lado a lado mijando no mesmo cocho.

Os homens que tinham se ferido ficaram afastados da fogueira. Quando saíram do campo de batalha, Trunning “encontrara” algumas carroças na primeira aldeia do caminho, mas não eram suficientes para os cerca de sessenta homens que precisavam delas. O mestre de armas dos Percys tinha posto todos em fila para inspeção, conferindo cada ferimento com as mãos ásperas e dizendo “Carroça” ou “A pé” antes de passar ao seguinte. Um ou dois estavam morrendo ali de pé, os ferimentos deixando-os pálidos e encolhidos. Trunning havia parado diante de cada um deles, os olhos escuros ao balançar a cabeça. Eles também sabiam. Ainda assim os deixou nas carroças, para morrerem em paz.

Aquela primeira noite poderia facilmente se transformar num banquete se houvesse algo para comer além das tiras de carne seca nas bolsas. Quando a lua subiu, Trunning decidiu que era hora de acabar com o barulho, surgindo da escuridão para ralhar com os homens que riam para que baixassem a cabeça e guardassem forças para o dia seguinte. Tomás se perguntara se a luz do dia faria os rastreadores Nevilles surgirem no horizonte. Na escuridão, todos os seus maiores temores pareciam possíveis. Salisbury poderia se armar para a guerra assim que chegasse a uma fortaleza. Só o tempo revelaria quantos soldados o conde teria a seu dispor. A grande verdade era que Tomás havia arremessado a lança contra um velho javali selvagem e, sem dúvida nenhuma, errara.

Nenhum soldado Neville apareceu no rastro deles na manhã seguinte nem na outra. Trunning organizou a guarda e verificou cada turno, parecendo não precisar de mais do que alguns cochilos antes de se levantar e sair de novo, marchando pelos limites de seu pequeno acampamento. Eles eram setecentos apenas uma semana antes. Com os feridos, restavam duzentos e quarenta homens para andar ou cavalgar de volta a Alnwick.

Era estranho se aproximar da fortaleza no terceiro dia, sem tamborileiros nem bandeiras erguidas com orgulho à frente. Os aldeões os ouviram passar, é claro, e saíram de casa. As mulheres seguravam as saias para correr até a estrada principal, franzindo os olhos por causa do sol poente para ver se seus homens tinham voltado. Tomás apertou os lábios, firmando a mandíbula ao passar a cavalo por elas. Não podia tapar os ouvidos aos gritos e clamores enquanto esposas desesperadas perguntavam pelos maridos e crianças começavam a chorar pelos pais perdidos. A visão dos homens nas carroças fez com que os aldeões lamentassem profundamente. Os feridos eram uma coleção de dar pena, alguns com febre alta, outros mortos havia dois dias, inchados de gás e podridão.

Sem olhar para o lado, Tomás conduziu Balion para dentro, tremendo um pouco ao passar por baixo dos degraus dos arqueiros. Havia operários trabalhando ali naquela noite, precariamente empoleirados enquanto passavam argamassa e punham novas pedras no lugar.

Tomás viu o cavalo magro de Trunning passar à sua frente e fez uma leve pressão com os calcanhares nos flancos de Balion para o animal avançar a trote. Não olhou para trás quando Trunning resmungou alguma coisa entre os dentes. Era o filho de Percy, era o barão de Egremont. Seria o fim se deixasse alguém entrar em Alnwick antes dele. Sem dúvida o pai observava das janelas altas. Tomás ergueu o queixo, sentindo a cabeça latejar quando deixou para trás o som da multidão chorosa e entrou no pátio principal.

Criados correram para segurar as rédeas de seu cavalo de guerra, transformando o pátio silencioso num caos de ruído e algazarra. Os homens que voltavam eram melancólicos ao dar respostas e balançavam a cabeça várias vezes a cada pergunta. Tomás sentiu o coração bater forte quando ergueu os olhos para a torre e viu o velho corvo envolto em suas peles, olhando para baixo.

— Cuide dos homens, Trunning — gritou Tomás. — Levarei a notícia ao meu pai.

 

Salisbury avançou segurando as rédeas com tanta força que uma dor seca subiu pelos braços, somando-se a todos os outros ferimentos. Ser forçado a fugir de um inimigo Percy era uma humilhação que doía tanto que até pensar se tornava difícil. Uma semana antes, o barão de Cromwell havia reunido os moradores da aldeia de Tattershall para acenar e dar vivas quando a sobrinha Maud partira com o novo marido e duzentos soldados. Seis dias depois, eles voltavam mancando, menos de metade dos que tinham partido, com muitos ferimentos enrolados por um pedaço de pano qualquer. Era dever de Salisbury explicar o que acontecera e assegurar ao barão que sua sobrinha estava ilesa. Imaginando a reação de Cromwell, Salisbury grunhiu baixinho, balançando a cabeça como se tivesse várias convulsões, todas filhas amargas da vergonha que sentia transbordar.

Salisbury sentia os olhos da esposa e do filho em suas costas enquanto guiava os soldados feridos para o sul, rumo ao Castelo de Tattershall. Alguns garotos da região corriam à frente, levando a notícia de seu retorno. Não havia nada que pudesse fazer para impedi-los, e ele só fervia de raiva, cabisbaixo e com a respiração rascante. Salisbury sabia que se remoía quando a situação se virava contra ele. O pai dava de ombros após o pior revés e seguia em frente, com calma e capaz de rir do próprio mau humor. Ricardo, conde de Salisbury, era mais rabugento. Tivera grandes alegrias na vida, mas mesmo nos momentos de triunfo havia sempre algo que o puxava para trás, contorcendo músculos e pensamentos nas trevas.

A cidade ficava ao norte do castelo de tijolos, que se erguia como uma lança vermelha sobre um morro cujo topo fora aplainado para sustentá-lo. Salisbury olhou para além do rosto chocado de mercadores e aldeões, todos saindo para olhar e cochichar, balançando a cabeça e fazendo o sinal da cruz. Havia trabalho a ser feito, um trabalho do qual não gostava, pensou, mas que ainda assim era fundamental. Não tinha conseguido recolher os Nevilles mortos no campo de batalha. Para salvar a si e aos homens que restavam, Salisbury ordenara a retirada. Alguns feridos gritaram descrentes quando o viram partir. Ergueram os braços, como se ele simplesmente fosse voltar ao ver isso, como se só precisassem acenar para Salisbury retornar. Tudo isso queimava dentro do conde, um líquido ácido que subia e sufocava seu peito a tal ponto que achou que escorreria pela boca e abriria buracos no jaquetão coberto de sangue que vestia.

Fúria. Ele não sentia o prazer da sensação havia anos, a ardência limpa e quente que fortalecia os braços e elevava a confiança de um homem a níveis perigosos. Enquanto cavalgava, lutava pela calma de que precisaria para planejar e se preparar, mas não conseguia encontrá-la. A fúria o enchia como água numa jarra. Ele reuniria seus homens. Ele reuniria um exército — e transformaria as fortalezas dos Percys em cinzas. Salisbury fez o juramento com Tattershall crescendo à sua frente.

Ele não se surpreendeu ao ver cavaleiros saírem pelo portão principal antes que chegasse à colina, descendo a meio galope a encosta íngreme que separava da cidade o terreno do castelo. Cromwell havia confiado a segurança da sobrinha ao líder dos Nevilles. O homem devia estar esperando a pior notícia possível.

Salisbury levantou a mão, fazendo seus seguidores pararem quando os três primeiros cavaleiros se aproximaram para encará-lo. Ralph Cromwell não era um homem de boa saúde, o rosto inchado perto do colarinho, de um vermelho escuro demais, embora Salisbury soubesse que os médicos o sangravam regularmente. Com 60 anos, seu cabelo era branco como osso e fino como o de um bebê, e, na brisa, ondulava de um lado para o outro no topo calvo da cabeça. Ele saíra sem bandeiras, ainda vestindo uma túnica respingada com o que quer que estivera comendo antes.

— Milorde Salisbury — saudou Cromwell, embora o olhar atravessasse Ricardo Neville e buscasse os outros.

Quando os olhos úmidos do velho pousaram sobre a sobrinha, Salisbury o viu relaxar na sela, com alívio em cada ruga. Soube então que Cromwell não havia participado da conspiração. Embora o barão não tivesse filhos, era de conhecimento geral que amava a filha da irmã como se fosse sua. Salisbury tinha quase certeza de que o homem jamais a poria em perigo. Mas o “quase” o deixara perto de matar Cromwell. Poucos sabiam que Ricardo Neville estaria presente em Tattershall. Salisbury precisou se esforçar para tirar a mão do punho da espada, tão intensa a força com que o segurava.

O olhar de Cromwell se voltou de repente, talvez sentindo algo da ameaça na expressão sombria do grupo abatido. Salisbury inclinou a cabeça numa saudação amarga.

— Maud está viva, lorde Cromwell. Assim como minha esposa e meu filho. Assim como eu. A horda dos Percys fracassou, embora tenha levado três para cada um dos meus.

Ele observou Cromwell entender e se enrijecer de leve, os cabelos ondulando ao vento como uma bandeira branca.

— Percy?

Salisbury viu os lábios do homem se apertarem.

— Então foram as propriedades do dote. Milorde, conheço o despeito deles, mas nada de suas intenções. Juro pela honra de minha casa e de meu nome.

— Considero-o inocente, milorde. Caso contrário, não retornaria a Tattershall.

Parte da tensão no rosto do barão se desfez. Ricardo Neville não era homem de quem se devesse ficar no caminho, não com a influência que ele tinha sobre o protetor. Cromwell limpou a testa, que começara a ficar lustrosa.

— Mas, por enquanto — continuou Salisbury —, devo pedir que meus homens sejam entregues aos seus cuidados enquanto envio a notícia.

— Envia a notícia, milorde? — perguntou Cromwell.

Parecia que seus olhos estavam sempre úmidos como uma ostra, avermelhados e brilhantes enquanto iam de um lado a outro entre os que o observavam.

— A Ricardo de York, barão. O protetor do rei. Ao meu filho, o conde de Warwick. — Apesar da luta para manter a calma, Salisbury ouviu sua voz ficar alta e ríspida. — A todos os homens de armas a serviço dos Nevilles na Inglaterra, a todas as casas ligadas a nós por sangue ou matrimônio. Eu convocarei a todos, barão. Eu cortarei raízes e galhos da família Percy e os lançarei ao fogo!

Teria sido uma cortesia permitir que Cromwell os conduzisse de volta ao castelo, mas Salisbury tinha uma posição superior à dele e, naquele momento, estava além dessas delicadezas. O conde fincou os calcanhares na montaria e o cavalo se lançou num trote ao passar pelo barão espantado, seguido por oitenta homens feridos e enfurecidos. O filho, João, o acompanhou, ficando ao lado do pai. Apenas Maud e Alice, a esposa de Salisbury, ficaram para trás, a mais velha estendendo a mão para impedir que Maud trotasse atrás do marido, como era seu dever.

— Barão de Cromwell — chamou ela —, Ricardo gostaria de que eu lhe agradecesse por permitir que nos abriguemos em Tattershall mais uma vez. — Ela não podia pedir desculpas pela rudeza do marido, e procurou palavras para acariciar as penas eriçadas do velho. — O senhor pode ter certeza de que seu nome será pronunciado em Londres como um homem que honramos e em quem confiamos.

Cromwell baixou a cabeça, ainda irritado ao olhar para as costas dos homens que cavalgavam rumo ao seu lar.

— Tenho certeza de que Maud apreciaria sua companhia, barão — continuou Alice. — Vou deixá-la com o senhor, aos seus cuidados, onde ela foi sempre bem-tratada...

— Basta, Alice — interrompeu Cromwell, com triste divertimento. — Seu marido entra em meu castelo sem esperar minha permissão, mas quem poderia condená-lo depois do que viu? Se fosse mais jovem, eu mesmo estaria tocando as trombetas após o que ele sofreu. Está esquecido, embora eu lhe agradeça a gentileza.

Alice aquiesceu, sorrindo para um homem de quem gostava muitíssimo. Era uma vergonha que a esposa de Cromwell tivesse morrido antes de produzir filhos, deixando-o a perambular sozinho em Tattershall. Ela incitou o cavalo e foi atrás do marido, deixando tio e sobrinha a sós.

— Sua sogra é uma boa mulher — elogiou Cromwell, olhando-a. — Agradeço a Deus que tenha chegado a salvo, Maud. Se eu soubesse... Se eu tivesse ouvido um suspiro de ameaça a você...

— Eu sei, tio, o senhor não teria me deixado ir, nem com duzentos guardas Nevilles. Fique em paz, vi pouquíssimo da matança. João e a condessa Alice me levaram para longe antes que a batalha começasse de verdade.

Enquanto falava, a moça estremeceu, um arrepio subindo pelos braços revelando a mentira de suas palavras.

— Eu a entreguei para ser uma Neville, Maud — comentou Cromwell, olhando para os soldados que entravam em seu lar. — Salisbury falou de casas aliadas à dele e o conde não estava se vangloriando. Os Nevilles estão em todas as linhagens, em todas as casas importantes, pelo menos agora que a minha se uniu à deles.

Cromwell sorriu da própria presunção e foi recompensado por covinhas na bochecha da sobrinha antes que voltasse a ficar sério.

— Se houver guerra, Maud, escolhemos nosso lado com seu casamento. Não invejo os que se erguem contra esse homem, não com Ricardo Plantageneta numa das mãos e o conde de Warwick na outra. Juntos, esses três podem rachar o país ao meio, se assim quiserem.

— Talvez não chegue a tanto, tio. Certa vez o senhor me disse que o ouro causa e termina guerras. Talvez o conde Percy indenize os danos que causou.

O tio meneou a cabeça.

— Acho que não há ouro suficiente no mundo para impedir a guerra agora. Rezarei pela paz, Maud, mas existem épocas em que há bolhas que precisam ser perfuradas, quando a imundície tem de ser extraída para limpar o ferimento. Querida, podemos estar em tempos assim.

 

Tomás Percy percorreu sozinho os corredores do Castelo de Alnwick. Talvez os criados evitassem o velho quando havia más notícias a caminho; Tomás não sabia. Qualquer que fosse a razão, ao andar pelo local, as esporas manchadas de sangue tilintando, tudo parecia vazio. Tomás deixara a bexiga se esvaziar durante a batalha, não por medo, mas simplesmente pela impossibilidade de encontrar um lugar tranquilo para retirar a armadura. Quatro vezes desde então, cavalgando, deixara a urina quente escorrer pela perna e sair pela ponta aberta da bota. O acolchoado interno da armadura estava encharcado, irritando a pele das coxas até deixá-la em carne viva. Ele sentia o fedor forte, embora agradecesse a Deus porque os intestinos pareciam bloqueados. Houvera batalhas em que tropas de cavaleiros inteiras voltaram com manchas marrons descendo pelo flanco dos cavalos. Embora fosse um mal necessário, os homens ainda forçavam a inteligência em comentários impiedosos quando viam uma coisa daquelas. Pelo menos disso ele seria poupado ao encontrar o pai.

No pátio de manobras, ele vira o conde Percy de pé junto à janela da biblioteca da torre. Tomás subiu a escada até lá sem encontrar vivalma. A ausência da mãe era o mais estranho de tudo, e ele se perguntou se o pai a havia mandado para outra propriedade Percy para que não assistisse ao seu retorno nem exigisse saber o que acontecera.

Ele chegou à porta e a encontrou encostada, abrindo-a com a manopla. O pai estava lá dentro, ainda de pé junto à janela, olhando para fora. Tomás pigarreou, sentindo uma súbita onda de raiva por ter de se aproximar do velho daquela maneira, como se fosse um menino que tivesse de ser castigado depois de furtar. Houvera muitas dessas surras em sua infância, quando o homem à janela era mais jovem. Tomás percebeu que seu coração batia forte, e imaginou como seria bom empurrar o pai pelo vitral e vê-lo se quebrar no chão lá embaixo. Pensar na expressão de Trunning ao ver aquilo quase o fez sorrir quando o pai se virou.

— Eu o mandei com setecentos homens — disse o conde Percy.

O rosto do velho estava levemente inchado, as veias das bochechas e do nariz parecendo quase pretas na pele vermelho-tijolo. Os olhos estavam atentos quando ajeitou as peles em torno dos ombros.

— Estou surpreso que tenha ousado voltar para casa com tão poucos atrás de si. Vejo pelos olhares assustados que você não me trouxe a vitória. Os homens no pátio estão cabisbaixos, como deveriam, se setecentos não conseguiram massacrar um jovem noivo com seus criados. E então? Diga a verdade, garoto. Estou cansado de esperar.

— Salisbury estava com sua guarda pessoal. Duzentos ou mais de seus melhores homens, sessenta arqueiros entre eles. Matamos e ferimos dois terços ou mais, mas Neville escapou com o filho e a noiva Cromwell.

O velho atravessou a sala com passos desconjuntados, parando para observar o filho numa avaliação carrancuda.

— Você volta a Alnwick sem nada? Se eu tivesse mandado seu irmão, Henrique, acha que ele estaria aqui de pé com a mesma expressão emburrada, me dizendo que fracassou?

— Não sei — retorquiu Tomás, a voz rouca com a raiva crescente. — Salisbury estava com seus melhores homens. Eles lutaram com bravura, e mesmo assim matamos mais da metade deles antes de conseguirem escapar. Não acho que Henrique teria conseguido mais que isso!

Sua voz subira conforme respondia, e o velho estendeu a mão de repente e lhe deu um tapa no rosto com força. Por uma fração de segundo, Tomás se encolheu, o instinto e as lembranças da infância o dominando. No instante seguinte, sentiu raiva e vergonha da própria reação. Levou a mão à espada, subitamente decidido a desembainhá-la e cortar o pai ao meio.

A mão do conde Percy segurou a dele, uma garra que o manteve imóvel.

— Ora, controle-se! — ralhou Percy. — Controle a cólera, garoto insolente! Você fracassou, embora pudesse ter vencido. Eu conhecia o risco quando o mandei. Neville é esperto, e não achei que morreria com facilidade. Mas tentar valia as vidas que você perdeu, compreende? Valia a pena o risco que corri, com meus homens e meu filho, pelo ganho que você poderia ter obtido.

Tomás retesou o braço para puxar a espada mais uma vez. Sentiu a força do velho fraquejar e percebeu que era mais forte, que poderia desembainhar a espada e cortar se quisesse, e que não havia nada que o pai pudesse fazer para impedi-lo. Saber disso foi tão surpreendente que ele deixou a mão pender.

O pai grunhiu de satisfação.

— Domine esse temperamento, Tomás, antes que ele o domine. Esse sempre foi um defeito Percy, embora consigamos muito bem controlá-lo.

Tomás viu um reflexo de metal entre as capas do pai. Seus olhos se arregalaram com a ideia de que havia uma adaga ali, escondida tão depressa que nunca teria certeza. Ele deu um passo atrás, e o conde Percy inclinou a cabeça, observando-o com divertimento.

— Não posso dar um passo atrás, Tomás. Nenhum. Você fracassou porque Neville é desconfiado e cauteloso... e tem de ser! Não importa. Planejei isso também. Sua mãe está num convento, presa às ordens sagradas. Pedi à abadessa que lhe impusesse voto de silêncio, mas a velha megera disse que não era assim que funcionava. Acho que ela vai se arrepender!

Para surpresa de Tomás, o velho deu uma risadinha e balançou a cabeça.

— Ainda assim, é bom que ela esteja longe de mim, antes que eu a mate ou que ela use uma adaga em mim enquanto durmo. Fogo e azeite, garoto, sua mãe e eu, um piora o outro.

O conde Percy viu a confusão do filho e lhe deu um tapinha no ombro.

— Agora preste atenção. Você golpeou o coração do clã Neville e errou. Eles virão atrás de nós, este ano ou na primavera que vem. Tudo o que fiz, tudo o que consegui para o nome Percy está em perigo agora. Mas prefiro ir para o túmulo sabendo que tentei e falhei do que não ter ousado tentar, entende? Iremos à guerra contra os Nevilles, contra os Yorks se for preciso, aquela serpente Plantageneta enrolada com tanta força em torno do rei e de seu filho! Nenhum Percy pesa as probabilidades nem conta as baixas quando erguemos os estandartes. Gosto disso, Tomás. Gosto da oportunidade de ir ao campo de batalha uma última vez. De que me adiantam essas velhas articulações se eu não conseguir cavalgar contra meus inimigos? Quando eles vierem, vamos encontrá-los em nome do rei Henrique. Resistiremos com condes e duques mais leais ao rei Henrique do que esse maldito protetor York casado com uma Neville. Você entende? Apostei que terminaria em um dia, mas um lance errado não é o fim, Tomás. É o começo!