Trindade
Capítulo 26
Tomás, lorde Egremont, preferiu olhar para as botas a enfrentar a raiva da rainha. Ele estava debaixo de um grande toldo de lona, consciente do príncipe de 6 anos que puxava a saia da mãe e exigia sua atenção, fazendo perguntas e mais perguntas enquanto Margarida encarava Egremont furiosa e ignorava o filho.
— Vossa Alteza — tentou Tomás outra vez. — Mandei meus batedores mais velozes ao meu irmão. Não posso lhes dar asas, mas ele já estará marchando para cá com seu exército para defender seu marido. Além disso, tenho os homens comigo e minha própria guarda pessoal.
— Não basta! — exclamou Margarida. Ela se virou de repente para Eduardo, segurando-o pelo braço. Pôde ver que assustara o filho, e suavizou a voz com evidente esforço. — Eduardo, meu querido, você não teria outra coisa a fazer além de me perguntar tudo isso? Vá procurar lorde Buckingham. Ele queria lhe mostrar a armadura nova.
O menininho saiu correndo empolgado, deixando Margarida diante do filho mais novo da família Percy. Tomás já sentia falta do garoto pela distração útil que oferecera.
— Milorde Egremont, se não pode me prometer o efetivo que reunimos em Ludlow, não tenho opção. Tenho de levar meu marido de volta a Kenilworth e esperar para ser atacada! O rei da Inglaterra, Tomás! Forçado a fugir de uma ralé de traidores!
Egremont meneou a cabeça. Desconfiava de que Margarida dizia aquelas coisas para chocá-lo e envergonhá-lo, embora não discordasse da avaliação dela. Batedores reais tinham partido de Londres para o norte com a notícia de um exército Neville assim que fora avistado na margem sul do Tâmisa. Os cavaleiros chegaram exaustos ao acampamento real de Northampton dois dias depois. Só Deus sabia quanto tempo haviam ganhado, chegando a trocar de cavalo nas tavernas e quase matando os animais que montavam. Mesmo que os condes yorkistas perdessem pouquíssimo tempo na capital, ainda teriam de vir no ritmo de homens em marcha. O acampamento real havia entrado em pânico desde a chegada da notícia, e todos os cavaleiros disponíveis tinham saído em disparada para convocar nobres e soldados em suas propriedades.
— Milady, compreendo sua raiva, mas, se a senhora recuasse para Kenilworth, teria tempo suficiente para trazer mais Galantes de seus lares e fazendas. Meu irmão e lorde Somerset já estão a caminho. Em dois ou três dias, dobraremos o efetivo que temos conosco agora. Então não importará se essas forças de York tiverem sitiado seu castelo. Cercos podem ser rompidos de fora.
— Então esse é seu conselho, lorde Egremont? — perguntou Margarida com descrença. — Depois do Decreto de Desonra contra York, Salisbury e Warwick? Depois da morte daquelas casas nobres e da distribuição de seus títulos e terras? Depois de uma grande vitória real em Ludlow e de ver os inimigos do rei fugirem na noite, você quer que eu recue?
Tomás desviou o olhar.
— Milady — disse, por fim. — Não, não quero. Temos tempo, e temos cinco mil homens. Lorde Buckingham, o barão Grey e eu somos proteção suficiente para o rei em campanha. Mas, se a senhora decidir levar seu filho e o rei Henrique para um lugar seguro, eu ficaria mais contente. Não posso prever o resultado na situação atual. Salisbury e Warwick já podem estar marchando para o norte. Não sabemos quanto tempo ficaram em Londres nem se foram para suas antigas propriedades engrossar suas fileiras. Não conhecemos seu efetivo nem a qualidade de seus homens, embora espere que seja má. Envergonha-me sugerir, mas Kenilworth fica a apenas cinquenta quilômetros. Eu não ficaria tão preocupado se soubesse que a família real está em segurança.
Antes que Margarida pudesse responder, lorde Grey entrou na tenda de lona atrás de Egremont e fez uma profunda reverência diante da rainha. Mais velho que o filho de Percy, ele inclinou a cabeça apenas um pouquinho em saudação. Margarida não sabia se lorde Egremont conhecia o apetite desagradável de Grey. Qualquer que fosse a razão, nenhum dos dois achara no outro muito de que gostar.
— Vossa Alteza, lorde Egremont, meus cavaleiros anunciam as forças de Warwick e March. — Grey parou um instante, calculando quanto teriam percorrido no tempo necessário para que seus batedores voltassem com a notícia. — Estão a pouco mais de... quinze quilômetros ao sul, e avançam rapidamente. O rei Henrique me dará ordens?
Apesar do choque da notícia, Margarida, por sobre o ombro, olhou de relance para onde Henrique estava sentado, recostado num divã nos fundos da tenda. Seus olhos estavam abertos e ele usava armadura de campanha, mas não se movia nem dava mostras de perceber o interesse dos outros. Um breve espasmo de desagrado percorreu o rosto de Grey quando os olhos da rainha se afastaram dele. O barão tinha vindo servir a um rei recuperado de sua fraqueza. Em vez disso, encontrara uma criança aturdida, totalmente incapaz de perceber o que acontecia em volta.
Margarida sentiu a irritação do barão e falou com mais rudeza do que pretendia.
— Quinze quilômetros? — Ela olhou para Egremont e viu que ele estava tão consternado quanto ela. — Quantos homens estão vindo, lorde Grey? Isso o senhor sabe?
— Oito a doze mil, Vossa Alteza. Alguns com armadura e cota de malha, a maioria sem. Meus rapazes falaram de uma turba encabeçada por soldados que pareciam ter um mínimo de qualidade.
— Então suas ordens não mudaram, milorde. Defenda o rei. Mantenha a posição. Está bem claro?
Grey contraiu os músculos do maxilar, fazendo que sim com rigidez. Mais uma vez, lançou um olhar à figura sentada atrás deles, a armadura do rei cintilando nas sombras.
— Sim, milady. Bastante claro. Obrigado — disse, virando-se e sumindo ao sol.
— Velho sodomita imundo — murmurou Egremont entre os dentes.
Ele ainda pensava em como resistir àquele número, os olhos vagos enquanto mordiscava a parte interna do lábio inferior.
— E então, Tomás? — indagou Margarida. — O que devemos fazer? Mando meus criados buscarem Buckingham?
— Eles estão muito mais próximos do que imaginava, milady. Devem ter subido a Grande Estrada do Norte em marcha forçada, quase sem perder tempo na cidade. Sem dúvida estarão cansados, e isso é bom. Mas o número... — A voz dele sumiu, e a cabeça balançou mais uma vez. — Esse exército está quase sobre nós. Agora não haverá tempo para meu irmão trazer seus homens, ou Exeter, ou Somerset, ou qualquer um dos outros. A menos que cheguem em uma hora, teremos apenas os que estão conosco neste momento, e, milady, eles não são suficientes.
Ele quis chamar Grey de volta para saber quantos homens montados havia no exército que se aproximava, a mão se fechando no ar enquanto pensava depressa.
— Vossa Alteza deve partir agora. Leve seu filho e seu marido para Kenilworth.
— Quando não está bem, meu marido não consegue cavalgar, Tomás.
A tensão se revelou na resposta de Egremont, e a raiva a espantou.
— Então salve-se e salve seu filho, milady. Salve alguma coisa! Leve uma das carroças de suprimentos e deite nela o rei Henrique! A senhora entende? Eles têm vantagem numérica em campo aberto. Podemos preparar uma estacada e podemos segurá-los por algum tempo, mas será difícil e sangrento, sem que nenhum homem saiba o resultado antes do final. Quer que o príncipe Eduardo assista a uma coisa dessas? Sou seu homem, Vossa Alteza, e tenho minhas contas a acertar com os Nevilles. Deixe-me lutar pela senhora e pelo rei.
Margarida empalidecera enquanto ele falava, desacostumada àquele tom de voz. Seus olhos se arregalaram com o medo e a tensão que viu no barão de Egremont.
— Tudo bem, Tomás. Procure meu filho e mande que o tragam a mim. Precisaremos de três cavalos selados. Cuidarei de meu marido.
Como se libertado de uma armadilha, lorde Egremont saiu correndo. Margarida foi rapidamente até onde Henrique parecia observá-la. Devagar, abaixou-se ao lado dele, olhando profundamente em seus olhos. Num impulso, pegou o braço do marido e sentiu o metal frio escorregar sob os dedos.
— Você escutou? Consegue se levantar, Henrique? Não é seguro aqui. Temos de partir.
— Como quiser — sussurrou ele, pouco mais que a respiração atravessando os lábios. Mas não se mexeu.
— Henrique! — exclamou ela irritada, sacudindo-o. — Levante-se agora, para montar. Vamos.
— Deixe-me aqui — murmurou ele, soltando-se dela.
Alguma vida voltou aos seus olhos, e Margarida se perguntou outra vez quanto ele realmente compreendia.
— Não deixarei.
A cabeça dela se virou em choque ao ouvir trombetas soando a distância. O pânico aumentou e a fez tremer. Como podiam estar tão perto? Lorde Grey dissera quinze quilômetros! Margarida se afastou do marido e saiu ao sol, vendo ao longe a coluna de homens que se aproximava do acampamento real. Ou Grey se enganara ou os homens de Kent correram os últimos quilômetros. Margarida balançou a cabeça com a confusão e o terror crescentes, olhando para a penumbra da tenda. Tremeu ali de pé, presa entre necessidades que a dilaceravam.
O som de cascos e arreios anunciou um criado que chegava à tenda com os cavalos. Margarida teve vontade de chorar de alívio quando o filho Eduardo correu para dentro, os olhos brilhantes.
— Bucky disse que tem um exército chegando! — gritou o menininho, pulando de pé em pé. — Diz que são um bando de canalhas!
Ele engrolou de propósito a última palavra, imitando a fala arrastada do homem que tivera o céu da boca perfurado em St. Albans e não conseguia mais falar com clareza.
— Eduardo! — ralhou Margarida na mesma hora. — Lorde Buckingham não deveria ter lhe ensinado palavras como essas, e ele é um homem bom demais para ser ridicularizado.
Ela falou quase sem pensar conscientemente, distraída com o problema de levar o marido para um lugar seguro. Margarida fechou os olhos um instante e sentiu que tremia. Lá fora, o barulho de homens em marcha ficava cada vez mais alto, pisando e tilintando. Gritos eram dados pelo campo, mandando as forças do rei se aprontarem. Ela correu de volta para o marido e o beijou no rosto.
— Por favor, Henrique. Levante-se agora. Há soldados chegando, e haverá luta. Venha comigo, por favor.
Os olhos dele se fecharam, embora Margarida achasse que Henrique ainda conseguia ouvi-la. Não havia mais tempo. Ela escolheu entre o marido e o filho, o coração dilacerado.
— Então a resposta é não — disse ela. — Desculpe. Tenho de manter Eduardo a salvo. Que Deus o proteja, Henrique.
O cavalo de Warwick havia sofrido sob o peso de um homem com armadura. Ele o açoitara e esporeara até deixá-lo em carne viva para chegar a Northampton, e sabia que teria de apear para lutar. O animal estava mais acostumado a puxar carroças de cevada maltada para os cervejeiros de Londres. O estrondo de armas e o cheiro de sangue sem dúvida o fariam fugir.
Ao seu lado, Eduardo de March cavalgava em um animal ainda mais desafortunado. Para não ver a montaria desmoronar, March fora forçado a despir a armadura. Cada parte havia sido levada com orgulho pelos homens ao redor, que dividiram entre si o peso do ferro enquanto o jovem conde cavalgava vestido de lã marrom. Seu rosto estava tão corado que ninguém ousava dizer uma palavra.
Um grito subiu da vanguarda quando as fileiras avistaram o exército do rei. Tinham marchado muito para chegar àquele lugar, mas a recompensa estava à vista. Os estandartes com o leão do rei Henrique adejavam em campo aberto, no terreno de uma abadia. O exército real parecia pequeno comparado à grande coluna que viera para o norte, mas Warwick podia ver que os soldados inimigos vestiam cota de malha e seu coração se apertou ao ver centenas de cavaleiros e arqueiros. Seus homens de Kent não tinham piques para resistir à cavalaria, e a vantagem numérica era relativa contra soldados bem-treinados. Ele sentiu suor brotar novamente na pele e, dessa vez, desejou que o pai estivesse presente. Tinha decisões a tomar que significariam vitória ou destruição completa. O sol ainda não chegara ao meio-dia, e ele não conseguia afastar a sensação crescente de temor.
— Acreditará na palavra do barão Grey? — perguntou Eduardo de March, aproximando seu cavalo.
Como lorde mais elevado, o comando do exército era de Warwick. Ele não esquecera a desobediência súbita de Eduardo na Ponte de Londres, mas não havia mais ninguém.
— Esse é o maldito espinho, Eduardo — respondeu ele, inquieto. — Como confiar nele?
Os batedores de lorde Grey o acompanharam durante toda a manhã e parte do dia anterior. Um deles se aproximara com as mãos erguidas e abertas, para mostrar que não pretendia nenhuma traição. Havia trazido uma proposta extraordinária, e Warwick ainda não sabia se não seria algum truque para atraí-lo à ala mais forte dos homens do rei.
— O que temos a perder? — respondeu March dando de ombros. — Ele queria uma bandeira vermelha erguida, então mande erguê-la. Ele cumprirá a palavra ou o mataremos com os outros.
Warwick não permitiu sua irritação transparecer. Eduardo era muito jovem e ainda não vira toda a vilania dos homens.
— Se ele for fiel à sua palavra, atacaremos sua força pelo flanco. Consegue vê-los daqui? Mas, se seu homem mentia e for uma armadilha, Buckingham terá todos os seus melhores guerreiros naquele lugar, prontos para nos dilacerar.
Para sua irritação, Eduardo de March deu uma risadinha.
— Pois que venham! Comandarei o ataque quando vestir minha armadura. De um jeito ou de outro, vamos passar por eles.
Warwick deu ordem de parar e apeou, guiando o cavalo exausto para o lado enquanto a coluna se alargava. Ele havia mandado seus capitães imporem alguma disciplina aos recrutas de Kent. Podia ouvi-los berrando ordens a plenos pulmões, conscientes de que os dois condes observavam. Pouco a pouco, a linha em marcha assumiu nova estrutura, em longas fileiras e quadrados, diante do exército do rei a menos de um quilômetro em campo aberto. Warwick ouvia as trombetas de aviso soarem naquele acampamento, com criados e cavaleiros correndo por toda parte. Pouco mais de oitocentos metros os separavam, o suficiente para avistar os largos estandartes de Buckingham ao centro. Havia uma abadia a curta distância, e Warwick avistou a silhueta escura dos monges observando suas manobras.
Atrás das forças do rei, um rio corria veloz com as chuvas de verão. Warwick não fazia ideia da existência de alguma ponte, mas aquilo significava que a retirada não seria fácil para os homens de Buckingham. Os estandartes do rei ainda adejavam em sua tenda, e, se sua presença não bastasse, o rio os forçaria a ficar e lutar até o último homem. Warwick teve vontade de saber se a rainha estaria por perto. Sua lembrança dela era mais carinhosa do que tudo o que sentia pelo rei que manchara sua família. Ele balançou a cabeça, recordando a certeza do pai de que a rainha era a serpente enrolada em torno de Henrique, mais que qualquer um de seus lordes.
— Marcha lenta até quinhentos metros! — ordenou Warwick quando estavam prontos.
Levaram muitíssimo tempo para entrar em formação, mas estavam em boas condições e ansiosos para enfrentar os homens do rei. Deram um passo à frente, irmãos e filhos de Kent juntos nas linhas. Mil e seiscentos soldados com cota de malha formavam as duas primeiras fileiras, um martelo de ferro com o cabo de carvalho dos rebeldes de Kent atrás. Warwick conseguia sentir o desejo de atacar que crescia neles. Ele ia à frente com ordens ríspidas, mantendo-os na linha e caminhando a passos lentos. Precisava se aproximar e observar as posições inimigas.
A ideia se fixou em sua mente e o fez hesitar. Ele marchava rumo ao rei da Inglaterra, e o homem, de certo modo, era seu inimigo. Apenas um ano antes, ele riria se alguém imaginasse uma cena daquelas. Mas os Atos de Desonra foram aprovados, e não havia mais Warwick. Seus homens tomavam o cuidado de usar o título quando lhe falavam, mas ele perdera tudo, junto de Salisbury e York. Eduardo de March caminhava ao seu lado, segurando a espada com força e claramente imaginando o combate sangrento.
Eles pararam mais uma vez, com a abadia muito mais perto, no flanco direito. Além do rio, Warwick podia ver a cidade de Northampton, suas muralhas e igrejas visíveis, meio indistintas. Ele forçou o olhar em todas as direções, vendo uma floresta de estacas em torno das forças reais, além de arqueiros nas laterais. No silêncio terrível, Eduardo de March se sentou no capim e permitiu que Jameson lhe enfiasse as últimas peças da armadura. Sir Robert Dalton não era visto desde Londres. March só se recordava de que ele fora arrastado pela turba, sumindo de repente sem dar sequer um grito. O jovem conde sentia a ausência dele ao seu lado, o que o deixava inquieto.
Warwick viu fumaça subir de braseiros entre os soldados do rei e praguejou em voz baixa. Os homens com ele viram o efeito de grandes canhões na multidão, a lembrança ainda recente e terrível. Enfrentar tais armas sem temor exigia certo tipo de loucura combinado à crença que todo jovem tem de que sempre seria outro a cair. Não fazia sentido nenhum, mas ele podia ver que os rapazes de Kent desdenhavam das forças à frente. Sem medo nenhum! Warwick olhou com mais atenção para os homens de Kent e viu que estavam dispostos a avançar correndo a uma única palavra, muitos o observando, aguardando que abrisse a boca. Queriam correr e começar a matança. De repente ele entendeu por que os franceses perderam tantas guerras para esses exércitos. Podia ver o porquê nos xingamentos e nos movimentos bruscos de Eduardo, no modo como os homens de Kent seguravam o cabo dos machados, esfregando as mãos na madeira como se estrangulassem crianças. Eles queriam lutar. Queriam que começasse. Warwick faria a vontade deles.
— Avançar!
Todos os seus capitães conheciam a primeira manobra contra os homens do rei. Com exércitos tão próximos, não adiantaria gritar ordens pelo campo, deixando Buckingham saber suas intenções. Em vez disso, Warwick marchou direto pelo centro, reduzindo a distância com bom passo.
Nuvens de flechas subiram de ambos os lados, e Warwick sentiu o terror que elas causavam. Somente as primeiras fileiras tinham escudos, e os arqueiros do rei lançavam flechas acima da cabeça, ferindo ou matando dezenas a cada saraivada que zunia. Quase pior era o estrondo como um trovão quando os canhões lançavam chamas. Borrões acertaram seus homens, e flechas se afundaram na terra diante de seus pés. Mais e mais delas voavam, zumbindo e atingindo carne e ferro. Havia gritos de choque e agonia mais além, porém ele não olhou para trás. A duzentos metros, todos os instintos gritavam para atacar e matar. As fileiras da vanguarda se lançaram numa corrida lenta e ofegante.
— Bandeira vermelha! — gritou Warwick, aguardando o arauto erguer o pano escarlate no cabo de um pique, segurando-o bem alto por dez passos antes de baixá-lo.
Aquilo nada significaria para Buckingham, mas era o sinal que lorde Grey solicitara. Em instantes, Warwick saberia se o homem zombara dele.
A cem metros, Warwick deu novas ordens para virar à esquerda. Nisso, as flechas derrubavam homens a curta distância, perfurando cotas de malha e acertando escudos. Warwick se viu aliviado por não estar a cavalo e, com isso, não ser um alvo óbvio. As duas fileiras da vanguarda mostraram a experiência ao entrar em formação. Os rapazes de Kent foram atrás, fazendo um ângulo agudo pelo campo e rumando para o flanco de Buckingham. Eles deixavam para trás um rastro de mortos e feridos gritando.
Os arqueiros do rei estavam protegidos por um campo de estacas que deteria a cavalaria, mas não homens a pé que simplesmente passaram por entre os pedaços de madeira. Os arqueiros não estavam preparados para resistir ao melhor de dez mil homens. Os soldados de Warwick avançaram sobre eles gritando, numa corrida súbita, passando entre os arqueiros enquanto estes disparavam suas flechas e tentavam sair do caminho. A investida sob as flechas fora aterrorizante, com o preço de centenas ou até de milhares de mortos e feridos. Os soldados do rei foram engolidos por uma maré de fúria rubra, dilacerados por espadas e machados de homens movidos pela raiva que chegaram longe demais para ter alguma cautela.
Quem comandava a cavalaria naquele flanco externo preferiu recuar a manter os homens em posição para enfrentar o ataque. Enquanto os arqueiros eram feitos em pedaços, a intenção do oficial seria contornar e atacar o flanco das forças de Warwick, encurralando-as entre o exército principal e os cavalos do rei. Sem cavaleiros montados, Warwick não poderia bloqueá-los. Seus homens tinham de ignorar os cavalos em movimento, arremetendo contra escudos em vez de investir contra homens montados, abrindo caminho rumo ao centro.
Warwick havia cumprido a palavra. Aguardou, e seus homens pararam à espera de novas ordens. Por algum tempo, satisfizeram-se em arremeter com uma linha de escudos. Nos dois lados, alguns foram mortos. No calor da batalha, os homens ficavam enlouquecidos e não podiam ser impedidos. Mas as duas fileiras da vanguarda mantiveram a disciplina, e a linha de escudos aguentou.
À frente, Warwick viu lorde Grey girar o cavalo no meio de seus homens, fazer um gesto para longe das forças de Warwick e assinalar um ataque ao centro. Todas as gargantas no campo de batalha emitiram um grande rugido. Os homens de Warwick gritaram num triunfo selvagem, enquanto as forças de Buckingham berravam de horror com a traição. O centro fraquejou, e Warwick se viu avançando numa corrida rápida, quase caindo no espaço deixado pelos homens do rei pressionados pelos seus soldados. Lorde Grey também cumprira sua palavra.
Eduardo de March correu por mais dez fileiras de aliados para se chocar contra o centro das forças inimigas, onde a batalha fervilhava, transformando escudos em lascas com golpes poderosos. Warwick quase parou para observar com assombro a imagem do guerreiro imenso lançando homens para trás com movimentos ágeis, fazendo de si e de Jameson a ponta de uma cunha de soldados, cortando profundamente as fileiras em torno de Buckingham.
Warwick olhou para trás, de onde vinha a cavalaria que ele ainda temia, mas a viu parada, num grupo compacto, a alguma distância. Homens de Grey, percebeu, respirando aliviado. Eles não participariam do combate.
Diante da traição de lorde Grey, os soldados de Buckingham cederam. Tentaram recuar em ordem, atrapalhando-se e morrendo aos montes ao serem pressionados e cortados a cada passo. Warwick viu os homens de Kent se despejarem sobre os adversários, atacando quem conseguissem alcançar e enfiando os machados nos que se viravam e fugiam. Era loucura e massacre, mas nesse momento os dez mil não poderiam ser contidos. Tinham viajado muito para combater os soldados do rei, e sabiam que os haviam vencido.
No centro do exército real, Warwick viu Buckingham sem cavalo. Eduardo de March correu na direção dele, arremetendo com espada e escudo contra um amontoado de cavaleiros. Com o olhar fixo no duque caído, March os tirou do caminho com golpes amplos, e dois ou três inimigos caíram. Estes começaram a se levantar com sangue nos olhos, mas Jameson estava ali, ao lado do conde, com a espada pronta, e ninguém desafiou o jovem gigante que os tratara de forma tão despreocupada. Warwick ainda estava a doze passos de distância quando Buckingham ficou de pé e ergueu a espada mais uma vez. O rosto arruinado do duque estava oculto atrás da viseira, e Warwick notou que ele mantinha o braço esquerdo na lateral do corpo, protegendo costelas quebradas.
Eduardo de March lhe fez um sinal com a cabeça, aguardando com ambas as mãos no punho da espada.
— Está pronto, milorde? — perguntou March, a voz ecoando no ferro.
Buckingham fez que sim em resposta, e morreu um instante depois. March cravara a grande lâmina entre as placas da ombreira do duque, atravessando o ferro e desferindo um corte profundo. Warwick deixou Eduardo arrancando a espada enfiada em Buckingham empurrando o peito do duque com pé. Alguns homens do rei tentavam se render, mas Warwick vira os estandartes azuis e amarelos dos Percys e não levou a trombeta aos lábios. O massacre continuou em torno dele, e March veio correndo para o lado de Warwick, a armadura coberta de sangue e seu companheiro sorrindo com orgulho sinistro. Warwick ergueu os olhos para os dois quando o jovem conde tirou o elmo e passou a mão nos cabelos.
— Você me viu matar Buckingham? — perguntou March.
— Vi — respondeu Warwick.
Ele gostava de Humphrey Stafford, e lhe passou pela cabeça que o homem merecia um fim melhor por seu serviço fiel. Mas a vida era assim. Warwick achava que não haveria um único homem na Inglaterra aquele ano que pudesse resistir a March com uma espada.
— Egremont é meu — avisou Warwick.
March fez um gesto, como se permitisse que o outro atravessasse primeiro uma porta, depois se virou de repente quando Jameson se lançou com a espada contra um homem que corria para eles, atravessando a cota de malha do sujeito. March riu, dando um tapinha no ombro do grande ferreiro e fazendo Warwick pensar mais uma vez nos mastins de Calais. Poderia ter falado, mas atravessara uns cem metros de corpos e, à frente, as cores de Percy de repente tremularam e caíram. Warwick praguejou, empurrando os homens de Kent.
— Egremont! Meu! — gritava Warwick enquanto avançava, com medo súbito de lhe negarem a vingança contra o inimigo da família.
Seus homens recuaram e revelaram seis cavaleiros protegidos por armaduras em torno de seu senhor.
Tomás Percy estava em pé, com as mãos descansando no punho da espada, furtando um momento para respirar e descansar. Ele ergueu a viseira.
— Ricardo Neville! — gritou. — Que já foi conde. Quem é esse troll enorme ao seu lado, Ricardo?
— Deixe que eu o mato — vociferou March.
— Se eu cair, sim. Até então, não — respondeu Warwick.
Warwick ainda estava descansado, protegido da luta pelas fileiras da vanguarda. Percebeu que havia perdido o escudo em algum lugar e aceitou o que lhe foi entregue por um de seus homens, enfiando-o no braço. A armadura parecia leve e ele estava confiante, embora Tomás, lorde Egremont, fosse famoso pela habilidade.
O lorde Percy avançou para enfrentá-lo. Os cavaleiros cansados ao seu lado não pareciam ter pressa de continuar a luta, cercados daquele jeito. A imobilidade daquele ponto central se espalhou pelo campo, e os combatentes se afastaram uns dos outros, e os homens do rei lançaram as armas ao chão para não serem mortos.
— Vai se render, Tomás? — perguntou Warwick. — Parece que o dia é nosso.
— Você o permitiria, se eu o fizesse?
Warwick sorriu e fez que não.
— Não, Tomás. Não permitiria. Só queria ver se você tentaria.
Egremont baixou a viseira em resposta e avançou. O primeiro golpe se chocou com o escudo de Warwick e foi seguido por outros três, forçando o conde a recuar. Lorde Percy era rápido, mas o quarto golpe parecia ter sido mais fraco e ele cambaleava. Warwick atingiu e derrubou o escudo do outro e fez uma grande mossa na lateral de sua armadura.
Egremont caiu sobre um joelho, arfando de forma audível dentro do elmo. Warwick esperou. Quando Egremont se levantou, a espada veio rápida de baixo, chocando-se com a borda do escudo de Warwick e quase o arrancando do braço do conde. O contragolpe atingiu o mesmo ponto da armadura do outro, rompendo as placas.
Mais uma vez, Egremont caiu sobre um joelho, a respiração chiada. Com um gemido, obrigou-se a se levantar uma segunda vez, protegendo o flanco quando Warwick levou a espada num golpe violento contra seu pescoço. Então Tomás Percy desmoronou, o corpo mole, o rosto voltado para baixo, com o elmo enfiado no capim. Pela primeira vez, Warwick pôde ver o cabo de couro de uma adaga que havia sido enfiada entre as placas das costas da armadura do homem. O sangue escorrera dele a cada momento da luta, e sem dúvida Egremont sentira suas forças se esvaírem. Ele não se levantou outra vez, e foi March quem arrancou o elmo de Tomás Percy e revelou o rosto sem vida, marcado e lívido.
Warwick olhou ao redor e viu as espadas lançadas ao chão e os corpos por todos os lados. Sentiu o sangue pulsar e tirou o elmo, lançando-o para o ar enquanto bramia pela vitória. Milhares de homens de Kent fizeram o mesmo, um grande grito rouco que podia ser ouvido a quilômetros de distância.
Warwick se virou para March, sentindo, dessa vez, que nada que o jovem conde dissesse estragaria seu bom humor.
— O rei? — perguntou March, rindo da cara do outro.
— Isso. O rei — respondeu Warwick.
Os dois se viraram juntos para enfrentar a tenda real atrás deles.
Eles encontraram o rei Henrique sentado na penumbra da tenda. Ele despira a armadura e estava ali sentado, usando apenas pano preto, uma túnica comprida e calças tingidas da mesma cor, sem anéis nem joias além do escudo real bordado em fio de ouro no peito. Quando se abaixou para entrar sob o toldo, March tremeu com a ideia do rei sentado o tempo todo em silêncio enquanto milhares morriam ali perto.
— Vossa Majestade? — chamou Warwick. Ele embainhou a espada ao ver que não havia guardas por perto nem sequer criados para cuidar do rei. Todos tinham fugido. Henrique ergueu os olhos, franzindo a testa.
— Vão me matar? — perguntou. Warwick pôde ver que ele tremia. — Haverá sangue?
— Deveríamos — respondeu March, dando um passo à frente. Olhou para o lado, irritado, quando Warwick segurou seu braço com força. Era como segurar um tronco de árvore, e ambos sabiam que March conseguiria se soltar.
Warwick falou depressa, a voz baixa.
— Se o rei morrer aqui, seu filho Eduardo de Lancaster herdará o trono. Um menino que não teria nenhum amor por nós.
March rosnou, com raiva, e os olhos de Warwick se arregalaram ao ver que o jovem conde empunhava um longo punhal na mão direita.
— E por que eu me importaria com isso? — vociferou March, fitando o homem magro que observava os dois. — Ele é de uma linhagem fraca. Não tenho medo.
Warwick sentiu a raiva crescer.
— Então pense em seu pai! Ele só será York se o Decreto de Desonra for anulado. Com o rei Henrique vivo, seu selo e o Parlamento devolverão a nossas famílias tudo o que perdemos.
Para seu alívio, March resmungou e guardou a lâmina.
— Muito bem, mas ainda acho que isso virá a acontecer. Não tenho utilidade para um rei que me tiraria minha herança.
Warwick deixou a mão cair, sentindo-se mal ao perceber que March chegara perto de matar o homem que ainda os fitava com olhos escuros e arregalados. A possibilidade de violência permanecia em cada olhar raivoso de March.
— Obtivemos o que esperávamos, Eduardo — declarou Warwick devagar, como se falasse a um cão perigoso que pudesse se tornar selvagem a qualquer momento. — Levaremos o rei de volta a Londres e encontraremos seu pai lá. Fique em paz. Vencemos.