Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 14 de 41

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Trindade

Capítulo 8

 

 

Margarida escutou o sino de Westminster tocar sete vezes enquanto se aproximava do palácio real. O sol do amanhecer estava oculto em algum lugar atrás de um acúmulo de nuvens escuras do outro lado da cidade, mal passando de um brilho indistinto. Durante o anoitecer, ela ficara sentada em Windsor, um castelo subitamente esvaziado de toda a vida e movimentação do Natal. A meia-noite chegara e se fora enquanto ela aguardava notícias, então decidiu que não esperaria mais. Seu marido havia ido para Londres com seus lordes mais leais, porém era muito fácil imaginar Henrique se esforçando demais, caindo e desmaiando ou se perdendo outra vez, enquanto ela permanecia sentada a salvo junto a um fogo quentinho, vendo a noite escorrer entre seus dedos. Embora soubesse que não fazia sentido pensar assim, parecia uma traição Derry Brewer ter ido com o marido. O lugar dele era ao lado do rei, Margarida sabia, mas se acostumara a sua companhia. Sem a presença do espião-mor, ela ficava andando em círculos, em voltas cada vez mais apertadas.

Ela havia tirado os criados da cama para ajudá-la, não contando só com os que permaneciam acordados à noite ou percorriam as muralhas do castelo. Tradicionalmente, os doze dias do Natal eram uma época de trégua. Margarida não sentiu remorsos por desguarnecer ainda mais o castelo, levando vinte e quatro guardas para mantê-la a salvo de bandoleiros na estrada. Os três homens que supervisionaram o tratamento de Henrique durante a doença não demoraram a pedir para acompanhá-la. Sem o rei para cuidar, os médicos não tinham com o que se ocupar, e ela percebeu que Hatclyf, Fauceby e Scruton ficaram bastante satisfeitos com a oportunidade de observar a recuperação de Henrique mais de perto.

Seu filho, Eduardo, ficaria a salvo com a ama de leite num lugar quente, disse a si mesma mais uma vez. Não tinham se separado durante nenhuma noite desde que ele havia nascido, e era doloroso pensar no filho fungando, procurando a mãe e depois chorando porque ela não estava lá. Margarida franziu os lábios por causa da decisão e do frio penetrante, apertando mais o capuz da enorme capa em torno do corpo, comprida o suficiente para cobrir os quartos do cavalo.

A estrada estivera escura demais para cavalgar com velocidade, mas mesmo a passo percorreram quilômetros. Seu rosto ficou completamente dormente, as sobrancelhas brilhantes com minúsculos cristais de neve ou gelo. Margarida cavalgara rumo à aurora e, mesmo assim, não se sentia cansada, não com a expectativa de ver Henrique mais uma vez. Aquela alegria não começara a empalidecer. Preenchia-a a cada respiração, um calor interno que derrotava o frio do inverno.

Ela também se sentia ressentida, por mais que tentasse negar. Durante todo o tempo em que o marido permanecera indefeso, havia trabalhado para manter viva sua autoridade; mas, no momento em que acordou, Henrique partiu com homens como Buckingham e Percy, deixando-a para trás. Era um hematoma em sua mente, um ponto dolorido que ela não conseguia evitar de cutucar, voltando a ele várias vezes sem nenhum alívio.

O grande salão do Palácio de Westminster parecia um quartel quando ela chegou, com cavalos levados para dentro relinchando onde durante o dia só andavam advogados e parlamentares. Lâmpadas foram acesas, de modo que ela via o brilho do lado de fora. Margarida apeou ali e seguiu seus guardas, que levaram seu cavalo para a construção abobadada, com pardais dando voltas lá em cima na escuridão. Seu rosto parecia uma tábua, como se fosse se quebrar caso ela sorrisse. Longe do vento, Margarida aproveitou um instante para esfregar as bochechas com as mãos enluvadas, dando um pouco de cor e vida à pele gelada. O salão estava em silêncio, mas, assim como os cavalos soltos ou amarrados, dezenas de homens dormiam onde conseguiram espaço, qualquer que fosse sua posição social. Um dos mordomos do rei Henrique a viu entrar e saiu correndo, ajoelhando-se desajeitado na palha.

— Onde está meu marido? — sussurrou Margarida.

— Ele dorme, Vossa Alteza. Nos aposentos reais. Por favor, siga-me.

Sem dizer palavra, os dois médicos reais e o sargento-cirurgião foram atrás dela, levando seus sacos de couro preto. Margarida se sentia um fantasma ao contornar os homens adormecidos o mais silenciosamente possível, sorrindo quando murmuravam e se mexiam no sono. Aqueles homens foram àquele lugar pelo rei Henrique, e ela sentia afeição por todos eles.

Margarida conhecia muito bem o caminho, mas o mordomo do marido parecia contente de conduzir o pequeno grupo pelos corredores e pelos dois lances de escada até os aposentos do rei. Os homens ali estavam mais alertas, inclusive dois guardas à porta que se puseram em posição de sentido, com as espadas desembainhadas, ao ouvirem a aproximação dos passos, até reconhecerem a jovem rainha.

Margarida conseguiu ouvir uma conversa em voz baixa ao entrar no salão de recepção, interrompida quando a porta se abriu. Buckingham e o conde Percy se levantaram, ambos em silêncio, e depois fizeram uma profunda reverência. Margarida viu que o rosto de Henrique Percy estava manchado de veias rompidas, e ele pareceu irritado com a interrupção, sem dizer nada quando Buckingham avançou até ela.

— Vossa Alteza, não esperava vê-la hoje. A senhora deve ter cavalgado a noite inteira, e nesse frio! O conde Percy e eu estamos pensando numa caneca de hidromel quente para tirar o gelo de nossos ossos velhos. A senhora se juntaria a nós?

Buckingham ignorou os médicos atrás dela. Por sua vez, eles ali ficaram de cabeça baixa.

Margarida fez que não, sentindo que era uma invasora naquela sala e ressentida com a expressão mal-humorada do conde Percy observando-a.

— Onde está meu marido, Humphrey? — perguntou ela, tocando-lhe o braço.

— Adormecido atrás daquela porta, mas dormindo bem, Vossa Alteza. A pura força de vontade o manteve na sela, e ele está exausto. — Sua voz se amaciou um pouquinho, ficou mais gentil. — Se for seu desejo, posso mandar acordá-lo, mas, Margarida, acho que o rei precisa descansar. Esses homens não podem esperar para sangrá-lo e cutucá-lo?

Margarida se virou para os médicos, ainda de pé agarrados a seus sacos, com a cabeça baixa como crianças sendo punidas.

— Esperem lá fora, cavalheiros. Mandarei chamá-los quando o rei acordar.

Eles saíram juntos, fechando a porta sem fazer barulho e deixando Margarida sozinha com os dois homens mais velhos. Com dignidade estudada, ela se sentou numa cadeira estofada, ajeitando as saias e sem mostrar sinal das dores nas pernas, ainda sofridas com a cavalgada.

— Sentem-se, por favor, vocês dois. Se Henrique dorme, não há urgência. Mestre Brewer está deitado?

— Ele estava exausto, milady — respondeu Buckingham. — Está que nem pinto no lixo desde que seu marido dispensou York e Salisbury. Deve estar aqui por perto, se a senhora quiser que o mande chamar.

Margarida abriu a boca para dizer que queria e mudou de ideia, decidida a não demonstrar aos dois homens nenhum vestígio de fraqueza.

— Não, creio que não. Deixe-o dormir. Os senhores podem me contar tudo o que aconteceu; depois talvez possamos considerar nossas opções.

Buckingham sorriu consigo mesmo ao se sentar num banco de carvalho ornamentado encostado na parede da sala. O conde Percy permaneceu de pé, as enormes sobrancelhas e o grande nariz fazendo-o parecer estar sempre furioso. Sob o olhar inquisidor de Buckingham, o conde soltou um som profundo pela garganta e se sentou numa cadeira diante dos outros dois, três pontas de um triângulo, com o fogo crepitante atrás de Margarida.

Buckingham repetiu as ações do rei desde sua chegada a Westminster na noite anterior, uma lista curta de ordens dadas, embora Margarida o fizesse repetir cada detalhe da dispensa de York e Salisbury. O conde Percy se remexeu no assento enquanto Buckingham falava, sem conseguir esconder a impaciência. Sob tal provocação, Margarida ficou tentada a fazer Humphrey repetir tudo de novo, não só pela alegria de ouvir as ordens diretas do marido. Porém permitiu que o duque se calasse. Buckingham se inclinou sobre os joelhos e fitou cordialmente o fogo enquanto ela pensava nas palavras dele.

— Esperei tanto tempo para ouvir essas coisas — comentou Margarida baixinho. — Saber que York e Salisbury foram forçados a partir para lamber as feridas longe daqui. Saber que o espírito de meu marido voltou a ele. Rezo para que o conde de Somerset possa ser trazido a salvo da Torre, que não tenha sido alquebrado pelo confinamento. Sua lealdade tem sido uma pedra fundamental enquanto outros se afastam. Confio nele, Humphrey. Não duvido de que Somerset terá seu papel no que está por vir.

— No que está por vir, Vossa Alteza? — perguntou Buckingham em voz baixa.

— Não basta Henrique trocar de quarto! O que o reino sabe da volta da saúde de meu marido, além dos poucos que o viram cavalgar até aqui? Não, ele tem de ser visto! Em Londres, é claro, mas por todo o território também. Todos devem ver o rei e seus nobres para saber que York não tem mais poder, que o verdadeiro protetor e defensor do reino é, mais uma vez, o rei Henrique de Lancaster.

Buckingham ia responder, mas o conde Percy falou primeiro, sua voz era o chiado agudo dos velhos, um som que fez a pele de Margarida se arrepiar.

— O rei Henrique tem os chefes das famílias nobres para aconselhá-lo quando acordar, Vossa Alteza. É melhor deixar para outra ocasião a maneira e os detalhes de seu retorno à vida pública. A senhora não deve temer por seu marido. Sua Alteza tem ingleses leais ao redor, sem amor por York, Neville ou Salisbury. Seguiremos pelo caminho que precisa ser trilhado. Cortaremos o joio, se for o que tiver de ser feito.

Margarida sentiu o rosto enrubescer. Durante um ano e meio ficara isolada, esquecida em Windsor com o marido sonhador. O conde Percy não a visitara nenhuma vez naquele período. O que ele queria dizer era bem claro, mas à luz do fogo ela sentiu um ressentimento enorme pelo corvo coberto de peles, disposto a voar de volta para o lado de seu marido agora que havia carne sobre seus ossos. Margarida fechou a boca à primeira resposta, depois falou devagar, medindo cada palavra.

— Fui a voz de meu marido quando ele não a tinha, milorde. Essa lealdade que menciona... é uma coisa que os homens adoram, não é? Já os ouvi usar a palavra muitas vezes, desde que Henrique foi atingido por sua enfermidade. Talvez, quando exige esforço e trabalho duro, a prefiram mais no ideal que na realidade.

O conde Percy coçou a lateral do nariz quando olhou para Margarida.

— Vejo que de algum modo a ofendi, Vossa Alteza. Não foi minha intenção. O rei Henrique...

— Precisa ser visto, conde Percy — interrompeu Margarida. E foi recompensada por um rubor que se aprofundou debaixo da teia de veias roxas que cruzava as faces e o nariz dele. — Que sorte que alguns de nós planejaram o que se deveria fazer quando Henrique voltasse. Não duvidei, conde Percy. Tive fé, e minhas orações foram atendidas, todas elas.

— Como quiser, Vossa Alteza — respondeu o conde Percy, a boca franzida.

Margarida fez que sim com firmeza.

— Quando o rei se levantar, começarei os preparativos para levar um tribunal pelo reino. Passei por Westminster Hall uma hora atrás, milorde. Vi metade das cadeiras de advogados cobertas com panos, sem uso há tempo demais. Faz mais de um ano que os juízes do Tribunal do Rei percorreram o país para ouvir casos e fazer julgamentos. Haverá maneira melhor de ser visto que distribuindo justiça ao povo da Inglaterra? Ouvir suas queixas e fazer justiça... e punir criminosos? Uma grande viagem real, com vinte juízes, o xerife dos condados, mil homens de armas, todas as casas nobres no séquito do rei! Do mais alto ao mais baixo, todos saberão que Lancaster retornou ao reino. Uma casa com herdeiro e o apoio dos lordes mais poderosos do rei. Esse é o caminho que meu marido deve percorrer agora, nenhum outro.

O conde Percy virou a cabeça para observar a luz da aurora, brilhando para além das janelas. Buckingham o fitou de soslaio, com um olhar que continha um bom quinhão de divertimento. Nos meses passados em Windsor, Buckingham se acostumara ao sotaque francês de Margarida, um deleite para os ouvidos que fazia contraste com a força de suas palavras. O conde Percy estava descobrindo a determinação da jovem rainha de uma só vez, numa refeição talvez apimentada demais para que a apreciasse.

— Vossa Alteza busca trazer a paz por ordem real — declarou por fim o conde Percy. Os nós de seus dedos empalideceram quando ele apertou as mãos nas peles, apesar do calor do fogo. — Vossa Alteza acredita que um homem como York se submeterá docilmente? Um homem como Salisbury? Vossa Alteza os obrigará a seguir atrás do rei com passos comedidos? — O velho hesitou ao ter uma ideia e olhou com mais atenção para a jovem morena sentada tão corretamente em sua cadeira, a cabeça inclinada para escutar. — Ou será que Vossa Alteza acredita que eles não atenderão a esse chamado e os fará quebrar a promessa para, assim, serem considerados traidores? Esse... seria um caminho que eu percorreria, milady.

Margarida, por sua vez, o observou, sentindo de novo um desagrado instintivo pelo velho diante dela. Seus olhos eram cruéis, pensou a rainha, mas ele estava ao lado de seu marido, quaisquer que fossem suas razões. Era isso o que mais importava.

— Se meu marido convocasse aqueles lordes e eles não viessem, isso significaria uma guerra para dividir a Inglaterra. Não, não acredito que essas feridas possam ser curadas e esquecidas. Se dermos um passo em falso, elas apodrecerão e estragarão toda a carne boa.

Margarida falava com calma certeza, as palavras saindo dela para manter imóveis os dois homens.

— Milordes, não tenho a mínima intenção de convidar York, Salisbury ou Warwick para acompanhar meu marido. Que esses homens roam suas unhas e se preocupem enquanto o rei da Inglaterra reúne em torno de si seus mais ardentes partidários. Que York veja a força que se uniria contra ele caso ousasse erguer um único estandarte. — Margarida se inclinou para a frente, sem piscar. — Não duvido que York continue a ser uma ameaça, milorde. Esse tipo de homem, depois de provar o poder, sempre desejará tê-lo de volta. Vi isso em meu próprio pai e em todas as coroas que ele pretendeu e não conseguiu conquistar. Mas meu marido está apenas a um dia de despertar. Ele tem de mostrar sua força e cavalgar sob os três leões. Tem de ser visto, vivo e bem de saúde, antes de voltarmos nossos esforços para a ameaça de York e Salisbury. Warwick ainda pode ser salvo, não sei. O senhor compreende? O senhor me acompanha, milorde?

O duplo sentido da última frase não passou despercebido pelo velho. Sua boca se mexeu como se ele tentasse arrancar um fiapo dos dentes de trás. No silêncio, baixou a cabeça, olhando por sob as sobrancelhas.

— É claro, Vossa Alteza. Acredito que desejamos as mesmas coisas. O rei forte. A destruição da mancha Neville em todos aqueles que alimentam a traição dentro do peito. O rei Henrique tem meu apoio, por minha honra e pela honra de minha casa.

Margarida se recostou. O homem poderia desprezá-la. Seguiria Henrique, não os desejos de sua rainha francesa. Ela inclinou a cabeça como se aceitasse suas palavras, embora fervesse por dentro.

Buckingham soltou um bocejo grande e prolongado até Margarida ter de sufocar o seu.

— Acredito que o rei se levantará tarde hoje — disse Buckingham, erguendo-se. — Vou dar um cochilo para restaurar as forças antes que elas me faltem.

O conde Percy se levantou em seguida, os dois homens se curvando e pedindo licença para se ausentar da presença de Margarida. Ela os observou saindo, desconfiada de que continuariam a conversa em outro lugar do palácio onde não pudesse escutar nem interferir. Juntou as mãos enquanto olhava para o fogo. Precisava do conde de Somerset. Precisava de Derry Brewer. Mais que tudo, precisava que o marido e seus lordes lhe dessem ouvidos. Estava bastante claro que queriam negociar e proceder sem a intervenção dela. Era irritante, mas Margarida não recuaria. Henrique era seu marido. Ela, sua esposa. Todos dariam com ela no caminho, qualquer que fosse o escolhido.

Sozinha, Margarida se levantou e atravessou as portas até o quarto do marido. Encontrou-o lá, roncando suavemente sob os cobertores grossos, o cabelo escuro e comprido solto e desgrenhado sobre o travesseiro. Parecia em paz, com um bom rubor nas faces. Margarida foi atingida pelo cansaço da longa noite em claro; soltou o broche da capa e se deitou ao lado do rei, puxando uma única coberta e virando o corpo para sentir o calor do marido. Henrique murmurou alguma coisa com seu toque, embora não tivesse acordado, e ela logo adormeceu ao seu lado.