Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 24 de 41

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Trindade

Parte II

 

 

1459

O reino da Inglaterra estava privado de toda governança

[...] pois o rei era simples [...] não tinha corte, não fazia

guerras.

Anônimo [Cronista inglês anônimo do século XV]

18

 

Derry Brewer estava em pé na chuva torrencial observando a coluna de soldados armados que percorria a grande via rumo ao Castelo de Kenilworth. Em campo aberto, não havia proteção contra o aguaceiro que despencava em cima deles. Cavalgavam de cabeça baixa, cerca de cento e cinquenta homens com armadura completa, levando estandartes tão encharcados que se enrolaram nos mastros. Mesmo assim, estavam atentos, prontos para atacar. Apesar de quatro anos de paz, o reino inteiro fervilhava, batendo e tilintando como a tampa de uma panela no fogo.

Derry entrou no caminho dos homens, ficando no meio da estrada. Ele escolhera seis rapazes grandes para acompanhá-lo, apenas para formar um grupo decente. Dois cavalos de arado brancos avançaram para bloquear a passagem, animais enormes com o dobro do peso e da musculatura até mesmo de um cavalo de guerra. Na situação ali presente, Derry duvidava de que algum visitante parasse só para um homem. O mau tempo não ajudava, nem o fato de que o castelo estava à vista, com toda a promessa de calor e segurança. Ele ergueu a mão, a palma para fora, aprumado e com a máxima confiança que pôde reunir enquanto a chuva açoitava sua pele. Ao seu lado, o amigo Wilfred Tanner erguia o estandarte real, um respingo vermelho e dourado que podia ser visto de muito longe. O pequeno contrabandista ossudo se mantinha empertigado e tremendo de orgulho por terem lhe permitido portar as cores do rei.

Mal havia se passado uma hora desde o meio-dia, embora as nuvens tenham escurecido a grande estrada. Derry fitava à frente os cavaleiros que se aproximavam, e observou o momento em que o avistaram e chamaram o duque que protegiam. Ele não conseguia enxergar além das primeiras fileiras, mas em algum lugar, na massa de soldados, estava o homem que precisava alcançar.

— Em nome do rei, parem! — gritou Derry acima do vento. E murmurou pragas contra a falta de resposta.

A coluna trotou até mais perto, tilintando na direção dele sem sinal de querer reduzir a velocidade. Se o homem que os comandava não desse a ordem, Derry sabia que passariam por cima de seu grupo miserável, fazendo-o debandar. Deus sabia que já havia desconfiança demais na Inglaterra naquele ano. Qualquer baronete, qualquer cavaleiro e seus vizinhos pareciam estar reunindo homens e comprando armas. O caldeirão estava prestes a transbordar com tanto calor.

Quando a fileira da frente estava a poucos passos dele, Derry ouviu outra voz dar uma ordem. Ela passou em ondas pelos homens, que ao menos a esperavam e pararam antes de derrubá-lo. Quando por fim se detiveram, se Derry estendesse o braço tocaria o focinho úmido das montarias mais próximas, embora preferisse não o fazer. Nenhum cavaleiro gostava de ver outro homem estender a mão para suas rédeas.

O aguaceiro aumentava sem trovões, apenas o céu se rasgando e despejando um mês de chuva num único dia. Pelo chão corriam mil torrentes, e grandes cortinas de água cintilante se estendiam por todo lado. A chuva tamborilava nas armaduras da coluna, um leve rugido que aumentava e baixava de volume a cada lufada.

— Quem é você para ficar no meio da estrada? — gritou um cavaleiro na segunda fila. — Você está no caminho do duque de Somerset. Saia daí.

Derry podia sentir a disposição para a violência nos cavaleiros que o observavam. Eles vieram armados para a guerra e estavam nervosos e agitados. Como ninguém erguera a viseira, era difícil saber quem falara. Poderiam ser estátuas de prata, semiocultas em capas azuis encharcadas, quase negras de tão molhadas.

— Falarei com Henrique Beaufort, duque de Somerset — declarou Derry com voz alta e clara —, cujo pai conheci bem e que já chamei de amigo. Falo pelo rei Henrique e pela rainha Margarida. Podem ver que não tenho homens para ameaçá-los, mas por ordem do rei devo falar com Somerset antes que entrem no castelo.

Os homens da primeira fileira o fitaram pelas aberturas da viseira. Os que estavam atrás viraram a cabeça, e Derry espichou o pescoço para ver um deles, que usava as cores de Somerset sob a capa, um tabardo encharcado listrado de azul e branco, com um brasão com flores de lis douradas e os leões da Inglaterra. Derry fixou o olhar naquela figura esguia, sentindo uma pontada no coração com a lembrança do pai. Um dos cavaleiros se inclinou para seu senhor e murmurou algo que Derry não conseguiu escutar. Para seu alívio, ele viu o jovem duque balançar a cabeça e fincar os calcanhares nos flancos da montaria, forçando o cavalo protegido por uma armadura a avançar até a frente. Como seu dono, o enorme animal estava ornado de placas de ferro no peito e na cabeça, segmentos que se movimentavam com o passo do cavalo e poderiam suportar quase qualquer golpe. Contra um homem desarmado, a própria armadura era uma arma, e Derry engoliu em seco, sabendo que, se desse um passo em falso, receberia um golpe.

Enquanto o espião-mor o fitava, o novo duque de Somerset ergueu a viseira, revelando os olhos e os franzindo quando a chuva os atingiu.

— Vossa Graça, meu nome é Derry Brewer. Conheci seu pai.

— Ele falava de você — respondeu Henrique Beaufort de mau humor. — Disse que era um homem de confiança, embora eu prefira fazer minha própria avaliação. O que quer de mim?

— Uma palavra em particular, milorde, em meu nome, em nome de meu juramento de lealdade e de minha condição de servo do rei.

Derry aguardou sob o olhar frio do rapaz, mas outro cavaleiro falou antes que Somerset respondesse.

— Milorde, isso não cheira bem. Ser detido na estrada sob essa chuva torrencial? Vamos avançar até o castelo da rainha. Ouviremos tudo lá.

— É urgente, milorde — acrescentou Derry em resposta, aguardando. — Estou desarmado.

A sugestão de que Somerset se demorava devido a algo como medo ou cautela foi o suficiente para deixá-lo furioso imediatamente. Ele apeou, foi até Derry e, deliberadamente, se postou acima dele, ameaçadoramente perto. Em resposta, Derry se virou e conduziu o rapaz a uns dez passos de seus homens, que ficavam irritados conforme seu senhor se distanciava, prontos a esporear os cavalos para uma ação assassina ao primeiro passo em falso.

— O que você quer? — sibilou Somerset para Derry, aproximando-se. — Fui convocado aqui com apenas um selo real exigindo minha presença. O que precisa me dizer para me manter aqui na chuva?

Derry respirou aliviado.

— Há um homem em sua companhia, milorde, um homem que passou documentos ao conde de Salisbury há menos de um mês. Meus homens o viram fazer isso e depois seguiram aquele com quem se encontrou.

— Um traidor? — questionou Somerset, surpreso. — Por que então não me trouxe a notícia antes?

Derry sentiu as bochechas arderem, apesar da chuva gelada.

— Às vezes é útil saber quais homens são falsos, milorde, sem os acusar. Dessa maneira, podem ser levados a indicar o caminho errado a seus mestres, se o senhor me entende.

— Mas você me deteve agora — retorquiu Somerset, fitando com raiva o espião-mor desgrenhado à sua frente.

— O senhor ouvirá planos em Kenilworth que não são para os ouvidos dele, milorde. Achei que seria mais fácil e tranquilo fazer o problema desaparecer pelo caminho e não na presença da rainha.

— Entendo. Qual é o nome desse homem, a ser condenado apenas por sua palavra?

Derry fez uma careta com o tom de desconfiança do jovem lorde.

— Sir Hugh Sarrow, milorde. E disso não há dúvida, dúvida nenhuma. Mande-o de volta, se quiser, embora ele vá descobrir e fugir para junto de seus inimigos se o senhor o fizer.

Somerset lançou um olhar aos homens irritados.

— Sir Hugh? Era um dos homens de meu pai! Eu o conheço desde criança!

— Mesmo assim, milorde. Ele não pode entrar no castelo e ter permissão de escutar o que é apenas para seus ouvidos. Seu pai confiava em mim, milorde. O rei Henrique e a rainha Margarida ainda confiam em mim. Este é meu trabalho: encontrar traidores e usá-los ou destruí-los.

— Meu pai talvez o conhecesse, mestre Brewer. Eu, não. E se recusar?

— Sinto dizer que o senhor terá de dar meia-volta nos portões do castelo.

Derry teve de se esforçar para respirar normalmente, consciente de que homens como Henrique Beaufort estavam acostumados à obediência absoluta ao mínimo capricho.

— O senhor não poderá entrar com esse homem em liberdade, milorde. Por sua ordem, ele pode ser preso, amarrado e levado a uma cela enquanto o senhor fala com a rainha. Eu agradeceria a oportunidade de interrogá-lo, mas ele é um de seus homens. E a decisão é sua.

Derry se espantou quando Somerset se virou e vociferou para seus homens:

— Sir Hugh Sarrow! A mim, aqui.

As fileiras se remexeram e retiniram quando um homem veio à frente e apeou, andando rigidamente até seu senhor e Derry Brewer.

— Remova o elmo, Sir Hugh — ordenou Somerset.

O cavaleiro revelou um rosto estreito e preocupado, em parte obscurecido pelo bigode, enquanto os olhos castanhos iam rapidamente de um homem ao outro.

Somerset se aproximou tanto que Derry sentiu o calor de seu hálito.

— Sou leal ao rei, mestre Brewer. A morte de meu pai ainda clama por vingança, e ela não me será negada. Se for uma prova de minha lealdade, eis minha resposta.

Sem aviso, ele desembainhou a espada, brandiu-a a partir do quadril e pôs toda a força num golpe no pescoço nu do cavaleiro.

A lâmina acertou a borda do gorjal do homem antes de cortar a carne, soltando uma fagulha que se lavou em sangue e chuva. Sir Hugh cambaleou com a força do golpe. A cor se esvaiu do rosto, que ficou branco. Em choque, o cavaleiro levou a mão à garganta, os olhos arregalados, e caiu com um estrondo na lama.

Derry fitou o rapaz à sua frente e viu uma fúria que estivera totalmente escondida.

— E acabou — disse Somerset. — Tem mais alguma coisa para mim, mestre Brewer? Estou molhado e com frio, e ainda tenho de ouvir o que me aguarda em Kenilworth.

— Obrigado pela confiança, milorde — agradeceu Derry, abalado.

Fez um gesto para seus companheiros, que saíram do caminho da coluna, pobre obstáculo que eram. Somerset voltou a passos largos e montou mais uma vez. A coluna passou por Derry com dezenas de elmos se virando para encará-lo com desagrado e desconfiança. Ele ficou cuidadosamente longe do caminho, seu serviço encerrado.

Após passarem, Derry fez um sinal a seus homens. Eles amarraram o cadáver de armadura aos cavalos de arado e o arrastaram pela lama, seguindo de volta para o castelo.

 

A expressão de Margarida era atenta enquanto observava Derry Brewer e outro homem entrarem e se curvarem em saudação. O cabelo do espião-mor estava grudado na cabeça por causa da chuva, embora ele tivesse vestido roupas secas antes de ir à sua presença. Por mais que Derry pudesse tê-lo avisado, seu companheiro estava visivelmente aterrorizado por se ver sob o escrutínio de uma rainha da Inglaterra. O homem ao lado de Derry era magro como um graveto, com um chumaço de cabelo castanho desgrenhado que parecia ter sido alisado com mão e cuspe. Ele tremia enquanto tentava imitar o que Derry fazia, dobrando uma perna diante do corpo e se curvando sobre ela. Para a diversão de Margarida, Derry teve de estender a mão e apoiar seu acompanhante antes que ele caísse.

Apesar da tempestade que castigava as paredes do castelo naquele dia, o longo verão de 1459 torrara Kenilworth; fizera rachar a massa corrida e transformara pastos verdes em campos secos e castanhos até onde a vista alcançava. Margarida adorava o lugar.

Três anos antes, vinte e seis grandes serpes foram içadas até o alto das torres e das muralhas de pedra, número suficiente para cobrir quinhentos metros com bolas de ferro — e carne e metal destroçados, caso inimigos ousassem se aproximar. Margarida não avisara York e Salisbury de suas intenções, sem dar nenhum sinal de que não estava absolutamente satisfeita com seu destino. Ela só contara seus segredos a Derry Brewer, o único homem em quem confiava. Juntos, conseguiram fazer com que Henrique saísse de seus aposentos no Palácio de Westminster, subornando os médicos com a necessidade do ar fresco do campo. Assim que saíram de Londres, Margarida correu com ele para o norte antes que qualquer um soubesse o que planejavam. Ela recebera uma centena de arautos e cartas indignadas nos três anos seguintes, mas o que York poderia fazer? Não se podia convocar novos parlamentos sem o rei. A lei e a ordem começaram a falhar e desmoronar no reino, mas Kenilworth era uma fortaleza. Nem York ousaria convocar um exército para arrancar o rei Henrique da própria esposa.

— Aproxime-se, mestre Brewer — pediu Margarida. — E traga seu... companheiro com você, para que eu possa avaliar a qualidade dos homens que emprega em nome de meu marido.

Derry se endireitou, percebendo o toque travesso nos olhos da rainha. Um sorriso lhe veio fácil.

— Esse maravilhoso espécime é Wilfred Tanner, Vossa Alteza. Tem me sido útil neste último ano. Já foi contrabandista, mas não dos bons...

— Derry! — sibilou Tanner, horrorizado ao ouvir sua antiga profissão citada em voz alta.

— ... mas agora está a serviço do rei — continuou Derry tranquilamente — e viaja comigo pela Inglaterra para recolher vossos contratos. — Ele ergueu uma bolsa de couro cheia de pergaminhos. — Mais uns cinquenta aí dentro, Vossa Alteza. Declarações assinadas de homens que se unirão aos Galantes por sua palavra e sua honra.

— O senhor me serve bem, mestre Brewer. Meu marido me falou várias vezes de sua lealdade. Se ele estivesse presente, sei que exprimiria sua gratidão por tudo o que o senhor fez nesses últimos anos.

Derry notou que a menção ao rei Henrique provocou uma ruga entre as sobrancelhas dela. Margarida ainda não tinha 30 anos e ficara extraordinariamente bela nos anos anteriores, desde o casamento. O cabelo era escuro, uma trança lustrosa que chegava quase à cintura. Enquanto a fitava, Derry se perguntou se Margarida saberia o efeito que causava nos homens. Apostava que sim, até o último centavo. Ela estava sentada numa cadeira de madeira entalhada, com um vestido de seda azul-escuro que enfatizava sutilmente sua silhueta. Nenhum segundo filho viera forçar aquelas costuras, não nos seis anos após o nascimento do príncipe Eduardo. Derry inclinou a cabeça um pouco para observar a rainha, sem sentir nenhum tremor de paixão, apenas o prazer, o quase assombro, do homem que fita uma bela mulher. A luz de uma das grandes janelas se derramava sobre a rainha, fazendo seus olhos brilharem e enchendo o ar em torno dela de pontos dourados.

— Esses novos homens de nossa causa são Galantes da Rainha? — perguntou Margarida. — Ou de meu marido?

— Esses quarenta e seis juraram à senhora, milady. Wilfred distribuiu suas insígnias do cisne e posso relatar que são usadas com grande orgulho. Acho que precisarei de outra grosa quando partir de novo. Em alguns lugares, estão no auge da moda, e muitos homens presenteiam as esposas com elas.

— Mas, quando os convocarmos, mestre Brewer, eles devem usar minha insígnia ou o antílope de meu marido, entendido? Seja lá qual for a moda, nossos Galantes têm de se reconhecer pelas insígnias.

Derry fez um gesto leve com a mão.

— Galantes do Rei ou da Rainha, eles servem à Coroa, Vossa Alteza. Tem sido uma alegria para mim ver o fervor nas cidades e aldeias. Sou tratado como um nobre visitante, sempre que me avistam sobre Represália.

— Avistam sobre...? Ah. Esse nome não é inventivo demais para um cavalo, mestre Brewer?

— Na verdade, ele é uma fera vingativa, milady. Acho que o nome lhe cai muito bem, assim como o serviço combina comigo. Wilfred aqui ganhou várias namoradas só por levar minha bolsa de insígnias e documentos.

Margarida riu, e Wilfred Tanner enrubesceu intensamente, o cotovelo cutucando Derry, embora estivesse fora de alcance.

Um dos mordomos da rainha entrou na sala de audiências atrás dos dois homens, atravessando em silêncio as grandes portas com seus sapatos de feltro. Quando se dirigiu à sua senhora, Derry e Wilfred Tanner levaram um susto com a surpresa. Margarida sabia que armas eram proibidas em sua presença, e foi com interesse que viu as mãos deles dispararem para partes diferentes das túnicas e das mangas. Ambos logo se recuperaram, trocando um olhar envergonhado.

— Vossa Alteza. Henrique Beaufort, duque de Somerset, e Sir John Fortescue, juiz-mor do Tribunal do Rei — anunciou o mordomo, recuando para permitir que os dois homens entrassem na sala onde estava a rainha.

Em resposta, Derry se curvou mais uma vez.

— Posso permanecer, milady? Gostaria de ouvir esses homens em meu papel de seu conselheiro.

Margarida inclinou a cabeça, permitindo que Derry conduzisse Wilfred Tanner para a lateral da sala. Ali ficaram timidamente, embora Derry Brewer observasse com atenção. No extremo da câmara, dois homens bem diferentes entraram.

Henrique Beaufort, duque de Somerset, tinha apenas 23 anos. Derry, que conhecera bem seu pai, conseguia discernir poucos traços do antigo duque no rosto do filho, embora já soubesse que aquela expressão neutra ocultava uma fúria terrível, ainda ardendo em brasa quatro anos depois. Beaufort talvez fosse um pouquinho mais alto que o pai Edmundo, e avançava com passos ágeis na presença da rainha. As barbas tinham voltado à moda nos quatro anos decorridos desde a batalha em St. Albans, mas o jovem Somerset parecia cultivar a sua indiferente a isso, uma mistura de castanho-escuro e ruivo, com as pontas do bigode um pouco curvadas para cima.

— Vossa Alteza — saudou Somerset, fazendo uma reverência ainda mais elegante que a de Derry.

O olhar do duque descansou sobre Derry um instante quando se levantou, reconhecendo o espião-mor.

— Milorde Somerset, saúdo sua presença — disse Margarida. — Aguarde apenas um instante enquanto cumprimento seu companheiro.

Derry viu as faces do rapaz ruborizarem, e ergueu a sobrancelha com interesse enquanto Somerset se afastava. O duque ainda não se casara, e Derry se perguntou se deveria aconselhar o rapaz a ter cuidado com os olhares lançados à rainha quando outros pudessem ver. Então se lembrou da violência súbita a que assistira no caminho para o castelo e decidiu não falar nada. O espião-mor supôs que o rapaz já era bonito o suficiente, de um jeito pouco inspirador. Derry se pegou alisando os próprios cachos e depois balançou a cabeça, espantado com a tolice dos homens em geral.

Sir John Fortescue, que entrara atrás do jovem nobre, vestia-se totalmente de preto, das volumosas pregas da túnica aos poucos centímetros à mostra das meias de lã e às botas de couro preto. Com 62 anos, seu rosto quase não tinha rugas. Ele lembrou a Derry os membros de algumas ordens monásticas que passavam tanto tempo da vida em oração com o rosto relaxado que não envelheciam como os outros homens. Embora Fortescue não usasse barba, um bigode fino se assentava sobre o lábio, escuro no centro e branco nos cantos da boca larga. Servia um pouco para disfarçar a falta de dentes em cima e embaixo num dos lados do maxilar, o que lhe dava uma expressão zombeteira mesmo quando estava repousado. Os dentes que mantivera eram fortes e amarelos, mas metade da boca era só gengiva. Derry percebeu o pestanejar de Fortescue em sua direção. O juiz-mor do rei era um observador famoso e, naquele único instante, o espião-mor sentiu ter sido avaliado e desdenhado, com Tanner ainda encolhido ao seu lado. Sem dúvida Fortescue observaria os sintomas da paixão de Somerset com os mesmos olhos frios e sorriso torto.

— Posso me aproximar, Vossa Alteza? — perguntou Fortescue.

Sua voz era forte e firme, como cabia a um homem acostumado a se dirigir ao tribunal como juiz-mor. Derry notou o leve sibilar de quando a língua de Fortescue encontrava o espaço onde antes havia dentes.

— Pode, é claro, Sir John — respondeu Margarida. Ela viu Fortescue dar uma olhada nos outros que estavam na sala e falou antes dele. — O senhor também pode confiar nos que encontra neste recinto, ou em nenhum deles. Entendido? Por mais que os senhores não se conheçam, conheço-os todos como homens leais.

Os quatro visitantes passaram um momento em silêncio, cada um avaliando os outros. Tanto o duque quanto o juiz Fortescue franziram a testa para Wilfred Tanner, que coçou o queixo e parecia desejar estar em qualquer lugar, menos ali. Tanner já encontrara um ou outro juiz na vida.

Margarida perdeu a paciência com a tensão entre eles.

— Milorde Somerset, cavalheiros, amigos. Em nome do rei, cada um de vocês tem seu papel num grande empreendimento. O mestre Brewer aqui passou dois anos na estrada por mim, reunindo homens leais ressentidos com o mau tratamento que o rei recebe de seus lordes mais poderosos. York, Salisbury e Warwick zombaram do trono, zombaram da Inglaterra e da Coroa. Pronto, me declarei. Eles pegaram em armas para derramar o sangue dos nobres conselheiros do próprio rei, mas os céus não os atingiram. Eles ainda prosperam, exibindo-se como galos de briga, enquanto homens melhores jazem sob a grama.

Margarida percebeu que cerrara a mão e a relaxou, vendo os dedos brancos se abrirem como uma flor.

— Não dormi uma única noite desde então sem pensar em alguma punição para aqueles homens. Sir John veio a mim explicar a lei, mas o que é a lei, mesmo a lei da Inglaterra, se não puder ser cumprida? Quantos já juraram aos meus Galantes da Rainha, mestre Brewer? Quantos até agora?

Derry hesitou. A mulher sentada tão imóvel para ralhar com eles perdera todos os traços de leveza. Ele viu novamente a jovem rainha que recebera a notícia do ferimento do marido e da ascensão de York. Não pesar, mas uma fúria gélida. Embora sem dúvida tivesse se despedaçado, os pedaços eram afiados, capazes de cortar.

— Nove mil homens usarão o cisne, Vossa Alteza. Não... Não posso responder por sua qualidade, na maior parte dos casos. Embora cerca de oitocentos cavaleiros tenham se comprometido com a senhora, os outros são agricultores, ferreiros, pequenos proprietários. Eles precisam de bons homens que os liderem, mas juraram se levantar em nome de sua causa.

— E o segundo de nossos grandes empreendimentos, mestre Brewer? Diga a Sir John quantos homens usarão o antílope de meu marido quando o rei for ameaçado por seus inimigos.

— Oito mil, Vossa Alteza. De Dorset a Northumberland, eles vêm treinando para marchar e lutar. Simplesmente aguardam a ordem do rei.

— Obrigada, mestre Brewer — disse Margarida. — E então, Sir John? Acha satisfatório? Esses números lhe agradam?

Sir John Fortescue escutara fascinado. Ele se curvou mais uma vez, um sorriso brincando nos lábios.

— Vossa Alteza, estou assombrado. Acredito que seja suficiente. Não, tenho certeza.

O juiz poderia ter continuado, mas Henrique Beaufort pigarreou. Ele devia ser um duque havia apenas quatro anos, mas, até onde Derry podia ver, Somerset já exibia parte da arrogância da raça. O rapaz ergueu um único dedo e, em resposta, o juiz mais importante do rei fechou a boca de repente.

— Vossa Alteza, essas notícias são bem-vindas — comentou Somerset. — Sinto-me honrado de estar incluído neste círculo. — Então ele lançou um olhar para Wilfred Tanner, permitindo que uma expressão de dúvida passasse por seu rosto. — Eu aceitaria qualquer posição de autoridade nesse... Como a senhora chamou, milady? Nesse “grande empreendimento”. Vossa Alteza pode contar com minha lealdade até soarem as últimas trombetas.

— Ah, conto, sim, milorde Somerset — respondeu Margarida friamente. — Nisso não há meio-termo. O planejamento já levou tempo demais. Nesta mesma manhã, encontrei os lordes Buckingham, Clifford, Grey e Audley. Os nobres de meu marido ficarão com ele ou em seu caminho. Digo-lhe agora que ele não terá misericórdia para com aqueles que fizerem a escolha errada.

Para o prazer de Derry, Henrique Beaufort ergueu o dedo mais uma vez, pedindo permissão para falar. A boca de Margarida se estreitou, mas ela assentiu.

— Vossa Alteza, se esses exércitos só marcharão quando o rei for ameaçado, tenho de perguntar: onde está a ameaça? Mesmo sem Parlamento, York parece satisfeito com tudo o que conquistou. Warwick está em Calais. Salisbury promove seus banquetes e suas caçadas, mas não se pode dizer que algum deles ameace Sua Majestade diretamente.

A expressão de Margarida ficou soturna quando Somerset falou, a cordialidade anterior desaparecendo.

— Sim, eles consideram todas as batalhas vencidas. É uma boa questão, que tem me preocupado. Achei que nunca a superaria até que Sir John me explicou o que é o Ato de Desonra. Essa é a fagulha que fará com que se revelem, milorde. Essa é a pedra que quebrará suas cabeças.

Somerset assentiu, tocando os lábios com o dedo. Ficou bastante claro para Derry que o jovem duque não conhecia a expressão. Todos os homens se voltaram para Fortescue, que moveu a boca semivazia, mostrando prazer com a atenção deles.

— É uma lei para traidores — explicou Fortescue. — Há muito tempo nos anais, mas raramente usada, talvez devido ao poder que confere. Com o selo do rei num Ato de Desonra, o nobre vira plebeu. Seus títulos são anulados, sua sucessão é negada. Toda propriedade volta para o rei. Em resumo, é a morte nas cinzas de uma casa nobre.

— York nunca permitirá isso — retrucou Derry imediatamente, como combinara com a rainha numa reunião particular. Para sua exasperação, Sir John sacudiu o dedo para ele, sorrindo.

— Esse ato legislativo foi criado para as ameaças mais extremas à casa real, mestre Brewer. Os que a inscreveram na legislação inglesa entendiam que haveria ocasiões em que o tempo seria pouco e os traidores estariam perigosamente próximos do sucesso. Exigem-se pouquíssimas provas. Embora em algum momento tenha de ser referendada pelo Parlamento, ela pode ser selada como lei para o processo começar com apenas um quórum de lordes e a concordância do rei.

Para influenciar Somerset, Derry esfregou a testa como se pensasse, fingindo ouvir aquilo pela primeira vez.

— Sir John preparou o decreto — disse Margarida. — Meu marido concordou em aplicar seu selo. Os lordes Percy e Egremont perderam muitíssimo com a morte de seu pai. Com o senhor, milorde Somerset, eles comandarão os Galantes de meu marido. — Seu tom de voz não dava chance para recusas, e Somerset baixou a cabeça. — Depois de iniciado o processo, cavalheiros, o Ato de Desonra não pode ser revogado. É um chamado às armas. A casa de York cairá ou lutará... e ainda assim cairá.

Sua voz tremia enquanto ela falava, como era preciso, pensou Derry. York viria como um cachorro louco quando soubesse, isso era certo. A rainha provocaria uma guerra com apenas um pedaço de pergaminho.

Margarida continuou, os olhos cintilando por ter chegado a esse ponto depois de meses e anos de preparação.

— Meu marido convocará um Conselho de lordes leais em Coventry para ouvir a leitura da lei. Chega de Londres, cavalheiros. Coventry fica a apenas oito quilômetros deste lugar. Servirá como nossa sede. Mestre Brewer, o senhor convocará os homens que juraram à Coroa seu serviço e sua vida. Use as palavras que quiser, mas traga ao campo até o último deles e os faça treinar. Tenho um comandante para meus Galantes em James Tuchet, barão de Audley. Meu marido irá a campo em pessoa com seu exército.

— Conheço lorde Audley — comentou Derry. — É um veterano, com barbas brancas, mas em serviço, Vossa Alteza. Não discuto sua decisão. Mas devo perguntar se o rei Henrique está bem de saúde para o que o espera.

Enquanto falava, Derry baixou os olhos, sem graça. Ele e Margarida combinaram essa pergunta, embora essa parte de seu papel não lhe agradasse, nem as mentiras que a rainha com certeza contaria. O rei era mais notável por sua ausência, com tantas questões importantes sendo decididas em torno dele. Derry quase conseguiu sentir o olhar de Margarida se aguçar.

— Meu marido está ansioso, mestre Brewer. Sua saúde tem sido inconstante, mas ele fica mais forte a cada dia. Não tema quanto a essa questão. — Ela fez um gesto como se quisesse afastar a ideia. — Comprei outro lote de piques e maças de chumbo para meus Galantes, empilhado nos arsenais de Kenilworth. Mandarei que os inspecione e tome providências para que sejam levados aonde forem necessários. Daqui a um mês, espalhe a notícia desse Ato de Desonra de York. Mande seus plantadores de boatos fazerem o serviço, para que York e Salisbury também saibam. Então eles virão. E serão enfrentados.

— Sim, Vossa Alteza — disse Derry, aceitando as ordens.

Enquanto permanecia ali, não pôde deixar de recordar o último grande plano da casa real — assegurar uma trégua e uma esposa francesa em troca dos territórios de Maine e Anjou. Derry fora um dos arquitetos daquele plano, e a rainha diante dele era parte do resultado. Mas lorde Suffolk fora morto, Londres havia sido invadida, e quase todas as terras inglesas na França foram perdidas. Ele não pôde evitar o arrepio de medo que o percorreu ao pensar em outro esquema para mover nações e casas nobres como peças num tabuleiro. As repercussões da catástrofe anterior levaram aonde estavam nesse dia — e ainda se espalhavam.

Por um momento, Derry deixou de lado suas apreensões e pousou um joelho no chão, imitado imediatamente por Wilfred Tanner, enquanto Somerset e Sir John Fortescue olhavam.

Margarida se alegrou mais uma vez, abandonando a fria expressão de autoridade.

— Uma refeição está servida para todos vocês. Gostaria de contar com sua companhia. Não duvido que ainda tenham perguntas a fazer. Por favor, sigam meu mordomo e me unirei a vocês à mesa.

 

Naquela noite, depois que as completas soaram na capela do castelo, Margarida se despediu do último homem que veio visitá-la naquele dia. Ela recebera mais de vinte soldados e lordes, além de mercadores encarregados de fornecer armas e suprimentos para dois exércitos. Os rostos flutuavam diante de Margarida, que carregava uma pequena lâmpada pelos corredores até os aposentos do marido, no alto da torre leste do castelo.

Ela murmurou uma saudação aos guardas à porta de Henrique, entrou com passos leves e atravessou os cômodos reais. Os únicos ruídos eram o farfalhar do vestido e o toque suave dos sapatos de couro nas pedras.

— Quem está aí? — gritou Henrique lá de dentro.

Margarida deu um sorriso cansado ao ouvir sua voz. O dia era bom quando ele estava acordado e alerta. O rei Henrique dormia por períodos extraordinariamente longos e ficava sem sentidos durante um dia inteiro com facilidade. As poucas horas de vigília costumavam ser passadas na capela, rezando com as mãos entrelaçadas. Semanas ou meses podiam se passar quase sem nenhuma fagulha de vida além desses movimentos. O rei comia e bebia sem sequer perceber o que estava ingerindo e com os olhos vazios. As horas que passava desperto vinham devagar, como um homem acordando de um sono profundo. Ela havia perdido a conta de quantas vezes a energia de Henrique voltara e lhe dera esperança, só para desaparecer mais uma vez. A qualquer dia, podia encontrá-lo vestido e vigoroso, conversando animado sobre seus planos. Esses episódios de recuperação duravam um dia, uma semana e até um mês, antes de o estupor o arrastar de volta e novamente ele se afogar e se perder. Margarida nunca sabia o que encontraria a cada noite.

Ela ainda lamentava ter deixado de amá-lo. O sentimento não sumira de uma vez só, e havia ocasiões em que sentia brasas de afeto em meio à tristeza mais fria. Tinha sido para ele mais mãe que esposa, desde que conseguia se lembrar. Talvez esse fosse o motivo principal. Como tantas outras coisas, seu amor por Henrique se deixara drenar com o passar dos anos, arrastado fio por fio, até ela se esvaziar. O estranho é que não importava. Quer fosse mãe, quer fosse esposa, Margarida sabia que não descansaria até os inimigos dele estarem frios, debaixo da terra. York não havia lhe deixado nada, e ela culpava o duque por afundar a cabeça de Henrique debaixo d’água outra vez. Quando ela se lembrava de como Henrique estava antes de St. Albans, o brilho e a promessa nos olhos dele, o coração voltava a se partir. Ele tivera uma oportunidade de viver, de estar vivo — e York a roubara, afundando-o em pesar até que Henrique se foi.

— Sou eu, Henrique — respondeu ela. — Margarida.

Para sua surpresa, ele estava sentado na cama, com livros e papéis espalhados desordenadamente em volta.

— Ouvi vozes masculinas mais cedo. Quis me levantar e ir até eles, mas...

Henrique balançou a cabeça, incapaz de explicar a letargia que lhe furtava a força de vontade e fazia a tarefa mais simples exigir um tempo imenso.

Margarida ajuntou as saias e se sentou ao seu lado, olhando para os documentos ao redor dele em cima da colcha. O rei percebeu o interesse dela e fez um gesto para mostrá-los.

— Atos de Desonra, querida. E a Grande Carta aos meus pés. Mandei que me trouxessem, embora não me lembre de ter pedido.

Margarida disfarçou a irritação reunindo-os. Ela jurou castigar o criado que havia levado os documentos ao marido. Em condições de completo sigilo, ela ordenara que uma quantidade enorme de documentos dos arquivos em Londres lhe fosse enviada, escondendo os que realmente queria em meio a outras centenas. Então, por fim, os últimos e importantíssimos pacotes foram entregues nas mãos de Henrique e não nas dela.

— Fui eu que pedi, Henrique. Não queria que você se incomodasse com meros documentos enquanto ainda não está bem.

— Não, eles despertaram meu interesse! — exclamou ele, animado. — Passei o dia lendo. Esses Decretos de Desonra contam histórias de terror, querida. Ainda tremo com o que causaram. Já leu os registros da execução dos Despensers? O pai foi esquartejado e comido por cães, o filho...

— Não quero ouvir, Henrique — respondeu Margarida. — Tenho certeza de que mereceram o que lhes aconteceu, caso tenham se erguido contra seu legítimo rei.

— Acho que ficaram ao lado dele, Margarida. Os Despensers apoiaram o segundo rei Eduardo, mas, após a aprovação do Decreto de Desonra contra eles, o filho foi arrastado, depois escreveram com uma faca em sua pele versos contra o pecado, depois...

— Henrique, por favor! Chega. Você me provoca arrepios me fazendo ouvir essas coisas. Deveria descansar e não estimular seus pensamentos com imagens terríveis. Como dormirá agora, com imagens como essa em sua mente?

O rei pareceu abatido.

— Como quiser, Margarida. Sinto muito. Não queria angustiá-la. Vou deixar os documentos de lado.

Margarida continuou a reunir os documentos num grande maço e os enfiou debaixo do braço. Um dos maços estava preso com uma fivela de ferro antiga que beliscou seu dedo, fazendo-a sibilar de dor. Gotas rubras de sangue se derramaram da ponta do dedo, e ela ouviu o marido respirar fundo, angustiado, e virar o rosto. Ela chupou o dedo machucado, irritada consigo ao ver uma mancha vermelha na colcha branca. Depois de St. Albans, o marido havia passado a sentir pavor de sangue. Ele ainda não notara a marca, mas, quando notasse, não voltaria a dormir.

Margarida, levando os documentos, remexeu o baú aos pés da cama e puxou cobertores e outra coberta, acolchoada e grossa para o frio.

— Deite-se, meu amor — pediu, movendo-se com rápida eficiência.

Ela tirou as cobertas da cama e as trocou, vislumbrando as pernas nuas do marido sob a camisola. Henrique se acomodou, as rugas de tensão sumindo do rosto. Ele bocejou quando Margarida se sentou mais uma vez para acariciar sua testa.

— Viu? Você se cansou — comentou ela.

— Você pode deixar a luz acesa, Margarida? Não gosto de acordar no escuro.

— Vou deixá-la aqui, junto à cama. Seus criados estão sempre por perto.

Ela continuou a acariciar a testa de Henrique, e os olhos dele se fecharam.

— Eu te amo, Margarida — murmurou ele.

— Eu sei.

Sem razão nenhuma, os olhos da rainha se encheram de lágrimas.

Quando a respiração dele ficou regular e ela teve certeza de que adormecera, Margarida levou os documentos para outro cômodo, onde pôs uma lâmpada junto à mesa e se sentou para examinar o destino da família Despenser e o resultado do Ato de Desonra emitido contra ela. Quando leu que o importantíssimo documento havia sido ordenado por uma rainha francesa que chegara à Inglaterra para se casar com Eduardo II, Margarida se empertigou. A história tinha lições a ensinar, e ela quase conseguiu ouvir a voz de sua conterrânea um século antes. Extasiada e fascinada, Margarida não se moveu do lugar até o sol nascer.