Trindade
Capítulo 20
Os Galantes da Rainha eram um grupo heterogêneo, pensou consigo o barão de Audley. Muitos foram convocados em seu próprio condado, Cheshire, assim como em Shropshire e nos condados vizinhos, trazidos das aldeias em duplas, trios ou dezenas. Alguns eram meros cavaleiros andantes, sem divisa nem libré além do cisne de prata da rainha alfinetado no peito. Pelo menos esses homens eram treinados para o combate, por mais pobres e mal-equipados que fossem. Os outros eram interioranos, ferreiros, construtores, açougueiros e pequenos proprietários. Vieram de toda parte, tendo em comum apenas a lealdade ao rei e o horror a York.
Derry Brewer era o vínculo entre todos eles, imaginou Audley, observando o espião-mor vir trotando pelo acampamento em seu cavalo de ossos salientes. Brewer havia percorrido aldeias e montara postos de recrutamento, convocando homens leais a defender o rei e a rainha. Com Wilfred Tanner, o espião tinha viajado até fazendas isoladas, aceitando o serviço de filhos, irmãos e pais, qualquer um que marcasse um X e aceitasse em troca a insígnia de prata. A tarefa de Audley nos meses anteriores fora transformar meninos e cavaleiros em soldados. Alguns estavam aos seus cuidados havia seis meses ou mais, no entanto os recrutas mais recentes ainda não sabiam muito bem em que lado do pique deviam segurar. Era a receita para o caos, e, quando se reuniram nas semanas anteriores, Audley constatara que Brewer era um auxiliar bastante útil. Era uma pena que as lembranças de grandes batalhas do espião-mor fossem todas pessoais, com pouca noção da extensão das táticas em campanha. Quando jovem, Brewer havia sido soldado de infantaria, sem visão do combate além das fileiras à frente e atrás enquanto marchava. Talvez por isso Derry tenha recusado um posto formal nos Galantes, dizendo a Audley que já tinha funções demais e não conseguiria dar conta de mais uma. O barão sorriu ao se lembrar da insolência de Brewer, que puxava as rédeas ao seu lado.
— Estão cada vez mais parecendo um exército, milorde — disse Derry, apeando. — Não vejo tantos desde a França. Contaram-me que as armas e as cotas de malha da rainha já chegaram. Está satisfeito?
— Não. Só ficarei satisfeito quando vir a cabeça de Salisbury no chão — respondeu Audley. O conde sabia muito bem que muitos homens conseguiriam escutá-lo, e ergueu a voz para sua mensagem chegar a eles. — Mas esses Galantes resistirão. Temos o triplo do efetivo que marcha com Salisbury, e ele não sabe o que o aguarda. Apostaria minha vida nesses homens.
Os que escutaram sorriram para o comandante veterano, de bigode e barba brancos, repetindo o comentário para os que estavam ao redor.
— Na verdade, preferiria levar esses homens contra Ludlow, contra o próprio York — continuou Audley em voz bem mais baixa. Ele ergueu a mão para impedir a objeção de Derry antes que começasse. — Sim, eu entendo que é bom para a causa derrotar Salisbury antes que ele possa dar as mãos a York e Warwick. É o mais simples bom senso. Ainda assim, isso me irrita. York é a verdadeira ameaça contra o rei. Ele é o homem que todos querem ver sentado no trono em vez de seu legítimo ocupante. York é o coração dessa facção rebelde, e farei com que seja punido e levado à desonra. Na verdade, espero ver isso há quatro anos.
Derry teria dado um tapinha no ombro de outro comandante, mas Audley era um velho rígido, pouco dado a demonstrações de intimidade. Por isso, o espião-mor só baixou a cabeça.
— E verá, milorde, não duvido. Assim que derrotarmos Salisbury, poderemos nos virar para o sul e nos unir aos Galantes do Rei. Antes do fim do ano, arrancaremos o espinho.
— Não seja precipitado, mestre Brewer — disse Audley, balançando a cabeça em reprovação. — Isso não é um passeio, não é uma marcha alegre pelo bosque. Os homens de Salisbury são bem-treinados e armados com bom ferro. Se não tivéssemos uma vantagem numérica tão grande, eu não estaria confiante.
— Mas temos. E o senhor está — declarou Derry, os olhos cintilantes.
O velho resmungou.
— Tudo bem. Veremos. Salisbury não pode chegar a Ludlow sem passar por nós. Mas o homem é esperto, Brewer. Vi o trabalho dele no extremo norte e ele não é nenhum idiota. Minha regra é só contar os estandartes conquistados ao fim da batalha. É tudo o que tenho a lhe dizer.
Enquanto os dois conversavam, o imenso exército dos Galantes da Rainha entrara em formação em três grandes grupos, os capitães e os sargentos empurrando os soldados para seu lugar. Aos olhos de Audley, ainda era um trabalho mal executado, com indivíduos demais saindo da posição. Mas ao menos a vasta força que se formara na charneca de Blore Heath estava confiante e bem-alimentada, nove mil rapazes fortes dedicados à rainha. A princípio, o fervor deles surpreendera Derry. No início, a insígnia do cisne de prata havia sido usada apenas como forma de separar os dois exércitos, um modo de distingui-los. Era muito difícil dividir grandes forças em meio a uma campanha, e a guerra poderia exigir reações e movimentos rápidos. Mas as insígnias do cisne foram adotadas com orgulho e entusiasmo. Os rapazes das aldeias e das cidades inglesas haviam gostado da ideia de lutar por uma rainha ameaçada, e adotaram sua causa como deles. Derry tinha sido forçado a negar o cisne a centenas que o pediam e lhes dar a insígnia do antílope do rei no lugar.
Mil e duzentos Galantes levavam bons arcos de teixo, cada arma da altura do dono, que valia em prata o valor de um ano ou mais de salário. Derry adoraria dispor de arqueiros como Thomas Woodchurch, mas não os tinha. Porém havia arqueiros de menor qualidade em todos os povoados ingleses, e alvos eram despedaçados todo domingo. Os arqueiros Galantes conseguiriam cobrir o céu com flechas quando chegasse a hora, repetidas vezes, velozes como a respiração. Outros sete mil usavam cota de malha e portavam machados ou maças de ferro: armas para esmagar elmos e lâminas pesadas para matar homens depois de derrubados. Na retaguarda, oitocentos cavaleiros avançavam a passo majestoso. Derry gostaria de ter o triplo ou o quádruplo, mas cavalos de combate custavam uma fortuna, e só os ricos iam montados para a batalha. Custara ao rei e à rainha uma quantia imensa fornecer cavalos aos cavaleiros andantes, homens com habilidade que não tinham como custear seu material bélico. Derry vira os recibos pela última vez um ano atrás, e havia se recusado a voltar a vê-los, enquanto uma torrente de prata ainda se despejava do tesouro real. Cotas de malha e elmos por si só já eram caríssimos. Ele suava sempre que pensava no custo, mas não podia haver contenção de despesas. A riqueza de York era lendária, e ele com certeza não pouparia na hora de equipar seus homens.
Audley fez um sinal aos criados, que trouxeram a escada de montar e o cavalo, um corcel castanho-escuro que resfolegava e batia os cascos no chão. Derry se sentiu grato pelo animal ser bem mais jovem que o dono, e subiu em sua montaria, satisfeito de estar novamente na sela de Represália.
— Escolhi este lugar com cuidado, mestre Brewer — gritou Audley. — Blore Heath fica no caminho de Salisbury para Ludlow. Vê lá à frente? A oitocentos metros, mais ou menos, aquele morro com uma faixa de carvalhos e tojos? Esperaremos à sombra daquela grande sebe e, quando sairmos, cercaremos os três mil de Salisbury e os faremos em pedacinhos.
— Parece um pouco precipitado, milorde — respondeu Derry.
Audley ergueu os olhos para o céu pálido de outono.
— Mesmo assim. Esperei muito tempo por isso. A honra do rei foi manchada por traidores, e ele foi forçado a recuar para Kenilworth quando a Inglaterra inteira lhe pertence. Estou contente de ser sua maça, mestre Brewer, seu instrumento. Se Deus quiser, nós os deteremos aqui.
O barão fincou os calcanhares nos flancos do animal, preferindo cavalgar ao lado dos Galantes em marcha e ser visto.
No Castelo de Ludlow, York fitava por cima das ameias, olhando para o norte, onde esperava avistar o exército de Salisbury marchando em seu apoio. A oeste, ouvia o barulho do rio Teme, que contornava o castelo, com a aldeia e a ponte de Ludford que o atravessava ao sul. Ele fez um círculo completo, respirando profundamente o ar úmido e tentando encontrar paz. O castelo estava em polvorosa desde a chegada das cartas de Salisbury. York, apoiado nas ameias, apertou as pedras com tanta força que suas mãos doeram, enquanto pensava na traição à sua casa e ao seu nome. O rei Henrique não devia ter participado daquilo, disso ele tinha certeza. Só podia ser coisa da rainha francesa, sentada tecendo uma trama e fazendo todos os outros dançarem. York sabia que ela era sua inimiga desde que furtara o rei e o escondera em Kenilworth. Era uma raiva antiga e rememorada, um passo tão imprudente que ele jamais conseguiria prevê-lo. Apenas a influência dela seria capaz de dar a homens mais fracos a coragem de agir contra ele. Desonra! A própria palavra era um veneno, uma ameaça à qual teria de reagir sem misericórdia, sem importar quem havia começado a pronunciá-la relacionando-a ao seu nome. A brisa fresca do anoitecer ajudou a melhorar seu humor, mas ele não recuaria como tinha feito em St. Albans. Se o rei voltasse a cair em suas mãos, sua espada falaria por si, pensou, respondendo com um único golpe a todos aqueles que ousaram ameaçar seu nome e sua casa. York ainda sentia o horror que o dominara quando seus escribas desenterraram os registros e descreveram o terrível alcance daquele único documento selado pelo rei. O fim de uma linhagem real, o fim do bisneto de um rei, sem falar dos títulos que York não poderia passar adiante.
Essa ideia o fez se lembrar do filho extraordinário que voltara com Warwick duas noites antes. York achou que explodiria de orgulho ao ver o tamanho do homem em que Eduardo se transformara. Nenhum dos outros filhos atingira tamanha altura e largura. O mais novo deles ainda era cruelmente deformado, embora aos 7 anos o pequeno Ricardo tivesse por fim aprendido a parar de guinchar fechando a boca. O contraste entre os filhos de York nunca fora mais óbvio. O duque havia elogiado Eduardo num banquete, e havia percebido de relance que Ricardo os observava. Então, com assuntos mais importantes a discutir, ele mandara embora o menino irritado. A casa de York nunca havia sido mais forte, tendo um guerreiro daqueles como herdeiro — no momento de maior perigo.
York estendeu a mão para a jarra de vinho de Malmsey que colocara com cuidado nas ameias de pedra. Sabia que estava bêbado, mas por apenas uma noite se achou no direito de tornar indistintos os contornos das preocupações, deixando-as se afastar enquanto ele ficava ali, no frio, tomando taça após taça. Parecia que a guarnição de Calais havia trazido de volta muitas coisas boas. Warwick também parecia ter se tornado mais rígido com o tempo e a distância. O filho de Salisbury aproveitara bem o período, atacando embarcações estrangeiras no canal da Mancha, barcos da Espanha e de Lübeck ou de quaisquer reinos cujos comandantes ousassem se arriscar ao longo do litoral. Na avaliação de York, Warwick voltara como líder, e não apenas como quem havia herdado um título no casamento. Quem o visse agora jamais questionaria seu direito de voltar a comandar.
— E contra nós, meros cisnes e antílopes — murmurou York.
Os dois mil homens de Warwick vislumbraram colunas em marcha quando se aproximaram das terras em torno de Ludlow. Não foram desafiados, não com tantos soldados, mas a verdade era que o reino tinha ido às armas, e York não fazia ideia do efetivo que se levantaria contra ele. Agradeceu a Deus por ele e Salisbury terem reunido e treinado tantos homens nos anos de paz. Assim que Salisbury chegasse, eles teriam sete mil soldados, o suficiente para aguentar uma hoste de “Galantes” enganados por ideais românticos e pelos favores da rainha.
Quando a bebedeira azedou, York se perguntou se Margarida amarraria o marido num cavalo e o exibiria enquanto os homens davam vivas. Irritava-lhe que Kenilworth fosse uma fortaleza, fechada tanto a espiões quanto a mensageiros. Pelo que York sabia, o rei havia se recuperado de sua doença, a ponto de conseguir cavalgar com seus estandartes. A ideia era como uma faca gelada sendo enfiada no meio das costelas, e ele bebeu de novo, esvaziando a jarra e se sentido um pouco zonzo. Podia confiar em Salisbury e em Warwick. Podia confiar no filho e nos homens de Calais que ele levara a Ludlow. O restante da Inglaterra simplesmente veria o rei ameaçado outra vez. York ouviria pessoas cochichando em seus ouvidos o chamando de traidor aonde quer que fosse, a menos que os boatos mais sombrios se concretizassem e ele ocupasse o trono.
O duque fez que sim, virando-se outra vez para o norte à luz das estrelas que giravam lá em cima.
— Venha, velho amigo — murmurou, erguendo o copo à saúde de Salisbury, arrastando a voz. — Venha a mim e me deixe fazer o que eu deveria ter feito antes. Dessa vez não darei as costas.
O rei chorava, e as lágrimas o deixavam cego, enquanto Margarida e dois criados se esforçavam para enfiá-lo na armadura. A rainha já estava enrubescida e sem graça diante da reação do marido, embora os homens que estivessem com ela cuidassem de Henrique havia anos, em Windsor e Kenilworth. Ela era mais ríspida que eles, e forçava os membros de Henrique para a frente e para trás e fechava os trincos um a um.
— Agora nos deixem — ordenou ela, afastando irritada um cacho de cabelo que se enrolara diante do rosto.
Os dois criados saíram correndo sem olhar para trás, deixando o rei e a rainha sozinhos. A armadura de Henrique rangeu quando ele se sentou na cama. Margarida se ajoelhou diante dele, levantando a mão para tocar seu rosto enquanto Henrique piscava e sufocava soluços como uma criança.
— Não haverá sangue, Henrique, já lhe disse. — Em sua frustração, ela tivera de combater a vontade de lhe dar um tapa. — Você tem de cavalgar com seus Galantes. Tem de ser visto de armadura, com os estandartes desfraldados. Somerset e Buckingham comandarão com o conde Percy e o barão de Egremont. Estarei lá ao seu lado o tempo inteiro.
— Eu não consigo — murmurou Henrique, balançando a cabeça. — Você não sabe o que me pede.
— Só lhe peço que aja como o rei da Inglaterra! — explodiu ela.
As palavras feriram o marido, mas o afogamento era mais forte. Seu rosto perdeu o vigor, a fagulha de consciência se apagou num vazio dentro dos olhos. Então Margarida perdeu inteiramente a paciência e sacudiu o marido com tanta força que a cabeça dele balançou.
— Fique atento, Henrique! Mobilizei o reino inteiro para trazê-lo a este lugar. Fiz a Inglaterra envolver Kenilworth, como uma pedra num barbante. Subornei, prometi e ameacei homens perigosos, mas você precisa ter força de vontade, senão perderá tudo. E então quanto valerá a vida de seu filho? Menos que uma vela na ventania, Henrique. Nem isso. Levante-se por mim, agora. Levante-se e fique firme em sua armadura. Tome sua espada.
Henrique não saiu de onde estava, o corpo frouxo, fitando o nada. Margarida se levantou e o olhou de cima com raiva e desespero. Oito mil homens juraram lutar pelo rei. Seis mil deles eram soldados trazidos por seus lordes. Todos vieram, de Somerset e Northumberland a uma dezena de lordes menores, como João Clifford, tornado barão depois da morte do pai em St. Albans. Mas um quarto do exército do rei era de recrutas novatos, vindos de cidades e aldeias, tão inexperientes quanto os Galantes da Rainha. Margarida sabia que, com sua simples presença, Henrique lhes daria uma determinação de ferro, faria com que se erguessem quando os canhões atirassem, as flechas voassem e as entranhas se dissolvessem de terror. Ela se agarrara à esperança de que vestir a armadura animaria Henrique, qualquer que fosse o estágio da doença que o dominava. Os médicos do rei falaram de poções estimulantes ocultas em bebidas que atiçariam o sangue e o arrancariam de onde quer que ele se escondesse. Margarida esperara não ter de usá-las, mas talvez não houvesse opção.
— Ah, então fique aí. Que suas lágrimas enferrujem a armadura — disse ela, a fúria emprestando desprezo à voz. — Vou me ausentar por três dias, quatro, no máximo. Quando eu voltar, os seus médicos lhe ministrarão fogo nas veias. Eles o obrigarão a se levantar! Está me ouvindo, Henrique? Mesmo que passe o resto da vida nessa sonolência fraca, você cavalgará contra York este mês. Por mim e por seu filho, se não for por você mesmo.
O marido ergueu os olhos para ela, arregalados e inocentes.
— Eu irei, se é o que me pede, Margarida. Como quiser, se é preciso, eu irei.
Ela sentiu a fúria aumentar até ter certeza de que lhe daria um tapa no rosto. Sem mais palavras, saiu a toda do quarto. Os mordomos do quarto do rei aguardavam amontoados um pouco além, no corredor, e Margarida foi até eles.
— Vou me ausentar por alguns dias. A não ser vocês, ninguém falará com o rei enquanto eu estiver fora. Nem uma única alma até eu retornar. Mandem o doutor Hatclyf se preparar para purgar e medicar o rei na próxima terça-feira de manhã. Então ele se levantará para se unir aos seus lordes e aos Galantes do Rei. Entenderam?
Os homens se curvaram e murmuraram que sim, percebendo e temendo a raiva da rainha. Margarida passou por eles, seguindo diretamente para os estábulos, onde havia três cavalos selados à espera. Seus Galantes logo lutariam, o primeiro exército jurado a ela de que já ouvira falar. Tudo mais poderia esperar enquanto assistia àquela batalha para ver o primeiro triunfo de Lancaster, há tanto tempo atiçado nas brasas. Era uma noite de sexta-feira, e Margarida correria para vê-los destruir Salisbury em Blore Heath. Nem mesmo Derry Brewer sabia que ela estaria lá, cavalgando com apenas dois espadachins para mantê-la a salvo de bandoleiros na estrada.