Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 21 de 41

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Trindade

Capítulo 15

 

 

Todos os homens na tenda real ficaram paralisados no instante em que ouviram o rugido “Warwick”. O som áspero veio de tão perto que aterrorizou e interrompeu todas as conversas. O rei acabara de entrar e se virou rapidamente na direção do ruído. Buckingham respirou fundo para berrar uma ordem que ficou sem ser ouvida quando flechas vieram rasgando o grupo, abrindo buracos no tecido e fazendo o mordomo do rei cair ajoelhado com uma flecha atravessada no peito.

Derry Brewer se jogou no chão. Buckingham viu algo reluzir e ergueu a mão, devagar demais para se proteger. Uma flecha atingiu a ombreira da armadura de um cavaleiro e resvalou, acertando no rosto de Buckingham. Ele soltou um gemido baixo, levou a mão à haste e a descobriu enfiada no osso, tendo-o perfurado logo acima dos dentes. O sangue jorrou em sua boca, fazendo-o ter de cuspir e cuspir de novo. Incapaz de falar, Buckingham foi em direção ao rei Henrique, sabendo que só estava vivo porque a flecha perdera grande parte da força no primeiro impacto.

O jovem rei estava completamente imóvel, o rosto pálido como nunca. Com os olhos lacrimejando, Buckingham viu que Henrique também fora atingido. Uma haste havia atravessado a articulação de metal entre o pescoço e o ombro. A flecha ainda estava lá, a ponta ensanguentada do outro lado. Buckingham começou a ofegar, em choque, o rosto inchando enquanto cuspia outra bola de sangue no chão, e conseguiu cambalear e ficar entre o rei e as flechas que rasgavam a tenda como borrões sibilantes. Buckingham ergueu a cabeça, quase incapaz de enxergar enquanto esperava.

O conde Percy estava com o escudo azul e amarelo erguido na direção do ataque quando também se jogou para proteger o rei Henrique. O conde franziu os lábios ao ver o sangue de Buckingham se despejar no chão e gritou quando, de repente, Henrique cambaleou e caiu. Derry Brewer chegou até ele como pôde, mantendo-se abaixado o tempo inteiro, e cobriu o corpo do rei com o seu.

— Médicos! — gritou Percy.

Scruton, o cirurgião do rei, entrou correndo, enfrentando as flechas que ainda abriam buracos na lona grossa. Mais escudos se ergueram acima do rei, formando uma concha em volta dele.

— Deixe-me ver — grunhiu Scruton para Derry Brewer, que assentiu e se afastou para o lado.

Protegido pelos escudos, o espião-mor do rei se agachou, ofegante, os olhos ensandecidos enquanto Scruton examinava o ferimento.

Buckingham acompanhava tudo com horror e enjoo. Sua boca parecia estar em ebulição, e cada movimento fazia o osso raspar. Ele sentia o rosto inchar em torno do ferimento, os lábios já gordos, enchendo-se de sangue. Tudo o que conseguiu fazer foi não entrar em pânico e puxar o projétil preso nele. Com uma torção selvagem, removeu um dente da frente afrouxado e começou a soltar a flecha em um silêncio soturno, ignorando o sangue que formava uma mancha na frente do pelote, até que uma onda de tontura o atingiu. Lentamente, Buckingham caiu sobre um joelho e rolou de costas.

Enquanto Scruton trabalhava no rei, o médico Hatclyf apareceu ao lado do duque sem dizer palavra e abriu a bolsa de couro para pegar ferramentas. Hatclyf afastou as mãos do duque, cortou a haste da flecha com uma tesoura pequena e pôs uma das mãos na testa do outro para segurá-lo enquanto tirava a flecha com navalha e pinças de ferro. O médico terminou a tarefa com um safanão rápido que arrancou outro dente solto e fez o céu da boca de Buckingham recuar até a garganta. O duque começou a engasgar e sufocar. Levantou-se e vomitou no chão. Havia sangue demais para cuspir, e Hatclyf só conseguiu apertar um maço de panos contra os lábios rasgados quando Buckingham desmaiou.

Só um homem na tenda morrera na hora, um golpe de maravilhosa sorte contra todas as probabilidades. Todos os outros olhavam para cima com medo enquanto ouviam pés virem correndo na direção deles. Fora do toldo, havia muitos outros, feridos ou imóveis. Cavaleiros vinham mancando para proteger o rei, com flechas ainda na armadura, ou jaziam curvados, dando o último suspiro. As flechas tinham parado, substituídas pelo grito de “Warwick” outra vez, cada vez mais alto.

— A mim, Percy! Protejam seu rei! — vociferou o conde Percy a plenos pulmões.

Porta-estandartes e cavaleiros avançaram, vindos de todas as direções, dando início a uma onda ascendente vinda das forças que estavam no morro. O impasse nas barricadas fora resolvido no momento em que Henrique havia sido ferido, sem que nenhum homem soubesse ainda se o ferimento era fatal ou não.

— Milorde Percy, alguém tem de dar ordens para defender a cidade baixa! — gritou Derry Brewer de repente. — Com o rei ferido, todos os nossos homens virão para cá. York e Salisbury os seguirão. Por favor, milorde! Dê a ordem.

O conde Percy o ignorou, como se Derry não tivesse falado. Com um xingamento entre os dentes, Derry saiu correndo em busca de Somerset. Ao sair, o toldo rasgado despencou com um estrondo quando algum mastro importante foi chutado ou quebrado. Grandes ondas de lona cobriram o rei e o médico que se esforçava para cortar a flecha e tirá-la sem rasgar as veias delicadas tão perto da garganta de Henrique. Havia sangue real nas mãos do cirurgião, que escorregavam tentando segurar a haste cortada. As mãos de Henrique não paravam de se dirigir ao ferimento, e Scruton agarrou um dos camareiros do rei pelo colarinho e mandou que as segurasse. O homem ficou parado, completamente em choque ao ver seu senhor caído, e Scruton teve de sacudi-lo para que saísse do estupor e ousasse segurar o rei para o médico trabalhar. Ao redor deles, cavaleiros cortavam ou erguiam a lona pesada, deixando o rei ao ar livre.

Os soldados de Warwick desceram a St. Peter’s Street correndo com espadas e escudos erguidos, uivando com uma alegria descontrolada pelo caos que provocaram. Os guardas do próprio rei avançaram contra eles, formando uma linha de escudos para receber o primeiro impacto. Mais e mais homens inundavam aquele ponto, e as duas forças se chocaram.

Derry Brewer se viu lutando contra uma torrente de homens enquanto corria morro abaixo, gritando para que mantivessem suas posições. Deus sabia que a vida do rei corria perigo, mas, se todos abandonassem as barricadas, o dia estaria perdido. Afastando-se cada vez mais da praça da feira, Derry viu uma hoste de soldados se empurrando e correndo morro acima. Na parte mais baixa da cidade, houve um grande rugido quando York e Salisbury descobriram que as barreiras estavam desguarnecidas. As forças do rei recuavam diante deles, deixando as barricadas caírem.

Derry Brewer parou em choque, os ombros abalroados por homens que ainda tentavam passar até que ele se espremeu contra uma casa e foi deixado em paz. Ninguém pensava com clareza quando o monarca estava em perigo. Soldados leais estavam quase fora de si de tanta fúria, decididos a repelir quem quer que ameaçasse a pessoa do rei. Derry hesitou, a boca seca. Sabia que teria pouca utilidade na marcha para o norte. O espião-mor do rei trabalhava em segredo, descobrindo traidores ou cortando gargantas no escuro. À luz da manhã, em plena rua, era apenas mais um corpo, sem sequer uma armadura para mantê-lo a salvo.

Derry fitou a parte baixa do morro, vendo a linha de homens de York já rompendo a barricada, afastando espinhos e tampos de mesa num frenesi. Nisso, alguns dos que saíam das barreiras olhavam para trás, cientes da ameaça. Escolheram continuar subindo o morro, talvez na esperança de se juntarem lá para lutar pela cidade. Derry balançou a cabeça, enjoado. York tinha um exército muito maior, o dobro dos combatentes que cercavam o rei Henrique. Só haveria um resultado, ainda mais agora que o rei tinha sido ferido. Sem dúvida Deus hesitara quando aquele único arqueiro lançara sua flecha, para que ela causasse tamanho dano.

Derry respirou fundo, sentindo o coração bater forte e as mãos tremerem. Conseguiria escapar, tinha quase certeza. Havia pensado numa rota de fuga assim que entrara na cidade, como sempre fazia. A abadia se erguia acima de St. Albans, e Derry sabia que podia correr para lá. Não seria difícil encontrar um hábito de monge para jogar sobre o corpo, escondendo-se entre os irmãos em suas celas ou seguindo para oeste da cidade antes que York e Salisbury chegassem à praça da feira. Se o fizesse, Derry sabia que sobreviveria para levar a notícia à rainha. Disse a si mesmo que alguém tinha de escapar. Alguém tinha de sobreviver ao desastre que ainda se desenrolava, e esse alguém poderia ser ele. O espião-mor viu uma rua lateral que cortava a rua principal, descendo o morro. Ele atravessaria contra a maré de homens e simplesmente sumiria. Já fizera isso. York não o deixaria vivo, isso era tão certo quanto o pôr do sol. Derry podia ver as fileiras de novos soldados yorkistas forçarem o caminho morro acima rumo ao ponto onde estava. A rua estava vazia entre os dois exércitos, com a praça da feira apinhada com os homens do rei. York e Salisbury vinham com sangue nos olhos, e Derry estava sozinho entre eles.

— É só correr — murmurou com seus botões. — Corra, seu canalha idiota.

O rei Henrique poderia já estar morto. Derry ouvia o choque das armas na praça da feira, e o pisotear da marcha sobre a pedra se aproximou até parecer sacudir a cidade inteira. Os Nevilles e os Percys estavam livres para se massacrar em plena luz do dia, e Derry sabia que não tinha opção. Era um homem do rei. No fim das contas era isso que importava. Arrastando o passo, viu-se voltando pelo caminho por onde viera.

 

York conseguira ver a fina torrente de soldados vermelhos subir correndo o morro rumo à St. Peter’s Street. De Key Field, não conseguia ver a praça da feira, mas acreditou ter ouvido gritarem “Warwick” antes que o nome fosse levado pelo vento. O sol do meio-dia estava a pino quando seus homens na barricada começaram a gritar em triunfo, arrancando grandes pedaços, cada vez mais depressa, enquanto os soldados do rei a abandonavam. York não entendeu a razão da súbita falta de defesa, mas se aproveitou dela, lançando todos os guerreiros que tinha contra os obstáculos restantes para arrancá-los em grandes blocos. Seus homens passaram por cima da confusão de espinhos e pedaços de madeira espalhados, avançando sem que nenhuma resistência os detivesse.

As forças de York foram mais velozes que as de Salisbury, de modo que ele chegou primeiro às ruas da cidade, e puxou as rédeas para fitar a massa de homens que corria morro acima, afastando-se dele. Mais uma vez, York ouviu “Warwick” ser rugido na praça da feira, e precisou apenas apontar para aquela direção para seus capitães ordenarem que as fileiras continuassem na perseguição. Deus abençoara o momento, e York estava decidido a não desperdiçar a oportunidade. Viu o filho trazer o cavalo pela brecha, e chamou o rapaz para ficar ao seu lado.

À sua direita, os homens de Salisbury vieram com tudo, fazendo os soldados yorkistas assoviar e zombar deles por se atrasarem para a luta. York ainda não conseguia ver Salisbury, mas o conde encontraria seu caminho até o rei. O duque fez a montaria trotar morro acima rumo ao combate, movimentando o ombro direito e segurando o escudo com firmeza enquanto baixava a viseira e espiava o mundo por uma fenda estreita. Os cavaleiros de seu estandarte avançavam ao lado dele, e seus homens gritavam “York!” conforme subiam, dispostos a gastar toda a frustração das barreiras naqueles miseráveis que as abandonaram.

Quando se aproximaram da St. Peter’s Street, York viu apenas caos. Um combate ocorria numa das pontas da praça do mercado, dava para ouvir. À frente de sua posição, os soldados do rei pareciam dispostos a simplesmente recuar e recuar, sem ninguém para comandá-los. Ele levou o cavalo à primeira fileira de soldados, avançando em linha com eles. Mais de uma vez, viu um soldado do rei parar e lhe lançar um olhar maligno, depois dar as costas e se afastar às pressas. A inspiração lhe veio quando um grupo de três homens assumiu posição bem no seu caminho, portando machados como se quisessem usá-los.

— Por Deus, saiam do meu caminho e protejam o rei! — vociferou York.

E deu um leve sorriso de surpresa quando eles também se viraram e correram rumo ao tumulto à frente. York balançou a cabeça com a confusão em volta. Seus capitães mantinham os homens em ordem, enviando-os para ruas laterais, de modo que, com o tempo, cercassem a praça triangular. Enquanto isso, encontraram-se com homens de Salisbury que faziam o mesmo, berrando o nome dos patronos para não se atacarem por engano.

Na borda da feira propriamente dita, York viu seu caminho finalmente bloqueado por fileiras decididas. Preocupado com o filho, agradeceu a Deus por não haver arqueiros entre os inimigos, um dos muitos golpes de sorte daquele dia de assombros. York olhou para a parede de escudos com cautela, mas seus homens avançaram sem hesitar, correndo com cada um dos capitães controlando a multidão da melhor maneira possível. O duque os ouviu gritar para abrir caminho para ele, que avançou devagar com Eduardo, as montarias a passo, ignorando o combate, com moribundos de ambos os lados enquanto rompiam a parede de escudos e abriam uma trilha estreita no combate. Então York viu flechas sendo lançadas sobre a multidão. Apeou depressa para não se tornar um alvo muito fácil. Eduardo de March e os cavaleiros de seu estandarte se jogaram no chão ao seu lado, deixando os cavalos serem engolidos pela multidão que lutava. O filho de York olhava em volta espantado, mantendo a espada erguida.

Era como se caminhassem num sonho. Mais de uma vez, soldados tentaram alcançar o pequeno grupo de homens de York e foram repelidos por outros com as cores do duque, derrubados por soldados que praguejavam e pela força do número. Em terreno aberto, sobre a rua de pedras, eles caminharam intocados até que, para espanto de York, chegaram às pilhas de lona rasgada e ao próprio rei, caído no chão.

York olhou ao redor, compreendendo por fim a confusão e o pânico absoluto dos seguidores do rei. Avistou Salisbury à direita, ainda montado, trabalhando duro no combate contra as forças de Percy. Ele também se aproximava aos poucos, da melhor maneira possível, do mesmo local.

Mais flechas sibilaram no céu, e York viu uma delas acertar e se estilhaçar no chão de pedra, não muito distante de onde cuidavam do rei. Ele olhou para trás a tempo de ver Eduardo se encolher e se jogar no chão. O duque só pôde admirar a coragem do médico que enfaixava friamente a garganta do rei, enquanto Henrique o tocava debilmente.

O rei ergueu o olhar ao perceber a sombra de York sobre seu rosto. Os olhos de Henrique se arregalaram, e ele balançou a cabeça, afastando-se do toque do médico. Scruton praguejou em voz baixa ao ver as ataduras se avermelharem de novo, sem dar atenção ao duque nem a mais nada enquanto lutava para salvar a vida do rei. A cabeça de Henrique pendeu, seus olhos reviraram quando perdeu a consciência. Por um longo tempo, York só conseguiu ficar olhando, de pé, com a espada desembainhada e empunhada inutilmente. À sua volta, o duque sentiu o combate se intensificar entre os soldados com as cores de Percy e os homens de Salisbury, com alguns tabardos vermelhos de Warwick envolvidos na briga. York tomou uma decisão e se virou para os cavaleiros de seu estandarte. Entre tudo o que havia esperado para o dia, isso não estava planejado.

— Levem-no para a abadia, para um lugar seguro. Protejam o rei no solo sagrado, nem que custe suas vidas e seus bons nomes. Eduardo? Vá com eles.

Foi o próprio York que estendeu a mão para tocar o ombro do médico Scruton, interrompendo o homem em seu trabalho.

— Afaste-se do rei, senhor. Pode acompanhá-lo até a abadia, mas ele tem de ser retirado deste lugar.

Scruton ergueu os olhos pela primeira vez e ficou paralisado de medo ao ver York com armadura completa, em pé diante dele. O cirurgião sabia que o dia ia mal para as forças do rei, mas ver o homem responsável por tudo aquilo de pé com a espada desembainhada o reduziu a um estado de choque, fazendo-o gaguejar.

— Ele não deve, não pode... Milorde, ele não pode ser removido.

— Não. Ele tem de ser removido. Afaste-se e deixe meus homens levarem-no a um lugar seguro. Não aceitarei recusas, senhor. Não verei o rei pisoteado por homens enlouquecidos nestas ruas.

Scruton se levantou, limpando as mãos ensanguentadas no avental enquanto reunia suas ferramentas e tiras de linho e as guardava na bolsa. Um dos cavaleiros de York segurou Henrique pelas axilas e outro o pegou pelos pés, levando-o para longe do caos e dos gritos. O rei gemeu, quase sem sentidos, fraco demais para reagir. York chamou mais dois capitães e doze soldados robustos para acompanhar a marcha do rei, dando ordens de matar todos que ficassem no caminho, quaisquer que fossem suas cores ou lealdades. Suas ordens prevaleceriam sobre todas as outras, York se assegurou disso. O mais importante era que o filho ficaria a salvo. O cirurgião do rei reuniu coragem e foi atrás do séquito quando o pequeno grupo tirou Henrique da luta, seguindo para a abadia. O duque observou o filho se afastar até que os homens sumiram por trás da massa de soldados que ainda chegavam para combater.

Salisbury apeara ou seu cavalo havia sido morto. O conde tinha aberto caminho lutando para chegar até onde York estava, no local com as pedras ensanguentadas e a lona rasgada, e ofegava muito, corado e suando. Sir João Neville estava em pé para guardar as costas do pai, vigiando para o caso de alguém tentar pegar Salisbury desprevenido.

— Onde está o rei? — indagou Salisbury.

York se virou para ele, levantando a viseira para responder.

— Mandei que o levassem para a abadia. Ele estava muito ferido, mas agora estou com ele, vivo. — A percepção da vitória cresceu dentro de York, fazendo-o encher o peito. — Mandarei soar as trombetas para ordenar a trégua. Não há mais nada pelo que lutar por enquanto.

— Não! — retorquiu Salisbury. — Você não fará isso. Tenho um trabalho a fazer antes de terminar. Por nossa amizade, faça-me uma promessa. Você não fará soar as trombetas, Ricardo. Percy e Egremont estão vivos. Meu fim ainda não chegou.

York semicerrou os olhos com a atitude agressiva de pai e filho.

— A batalha acabou — declarou York com firmeza. — Não me ouviu dizer que temos o rei? — Como o chefe da família Neville não respondeu, York apontou para o peito dele. — Você jurou me seguir, Salisbury.

O duque notou um espasmo de tensão atravessar o rosto do velho. O filho João começou a falar, mas York lhe lançou um olhar frio.

— Cale a boca, garoto.

Furioso, Sir João Neville olhou para o outro lado.

— Meu juramento se mantém — avisou Salisbury com rigidez, irritado com a humilhação do filho e a lembrança de sua honra. — Dê-me uma hora apenas. Isso é tudo. Se até lá não conseguir vencê-los, eu mesmo mandarei soar as trombetas. Dou minha palavra.

— Uma hora, então. Avisarei aos meus arautos — aceitou York, preferindo não insistir na questão.

Salisbury se virou para observar o desenrolar do combate que continuava na praça, e York ficou imóvel, observando-o, percebendo com mais clareza que nunca — o destino da casa de York, e até o destino do rei, nunca preocuparam Salisbury. York pensou em seus homens, que aguardavam suas ordens ao redor dele.

— Forcem o caminho até a abadia — disse-lhes. — Que Deus queira que Henrique ainda viva, que eu possa falar com o rei.