Trindade
Capítulo 21
Blore Heath era um campo aberto, quilômetros e quilômetros de charneca coberta de tojo e capim marrom. Os três mil soldados de Salisbury tinham avançado bem nos seis dias anteriores, cortando caminho pelo campo e só usando as estradas principais quando elas seguiam em linha reta para o Castelo de Ludlow a sudoeste. Se tivesse apenas soldados de infantaria e cavalaria, aquela distância teria sido percorrida em quatro marchas forçadas, mas as carroças retardaram o avanço, arrastando-se no terreno pantanoso. Ele suspeitara desde o começo de que não seria um único ataque nem um choque único de armas. Até onde Salisbury sabia, ele não veria novamente paz e o lar por um ano ou mais — por isso se deslocava no ritmo das carroças mais lentas, que levavam comida e equipamento, ferramentas, montarias extras e pequenas forjas, tudo o que seria necessário numa campanha. A alternativa era avançar para a batalha despreparado ou depender da ajuda e do material bélico de York. Toda manhã, Salisbury ficava preocupado com o tempo perdido; depois, tomava mais uma vez a decisão e continuava com as carroças na retaguarda. Metade do dia anterior fora perdido fazendo os pesados veículos atravessarem o leito de um riacho, embora centenas de homens tivessem aliviado o trabalho.
Pelo menos a charneca era uma terra seca, com colinas marrons que se estendiam rumo ao sul. Salisbury tinha bons mapas. Escolhera o caminho mais curto para Ludlow, e avançava na melhor velocidade possível. Quando um de seus batedores voltou a galope, as fileiras em marcha já estavam na metade do caminho da charneca, espalhando ovelhas e seguindo para um riachinho sem pontes indicadas no mapa. Os pensamentos de Salisbury estavam na travessia daquele obstáculo, e ele ergueu os olhos com a testa franzida quando o cavaleiro puxou as rédeas. Dois outros vinham correndo logo atrás, e ele sentiu o pulso se acelerar.
— Homens armados à frente, milorde. Vi piques e estandartes num declive do terreno.
— Quantos? — perguntou Salisbury, olhando para a frente como se pudesse ver através dos morros e das ondulações da charneca.
— Não deu para ver, milorde, embora seja um número grande. Avistei-os e voltei com a notícia.
Ambos se viraram para o homem que chegou em seguida. Ele ofegava com a mão na testa.
— Quantos? — perguntou Salisbury outra vez. O terceiro cavaleiro vinha a galope, e a notícia já se espalhava pelas fileiras em marcha.
— O dobro ou o triplo dos homens que temos, milorde.
O segundo batedor apontou enquanto falava.
— Estão escondidos por aquele morro e pela linha de árvores e tojos que o senhor pode ver ali.
Então Salisbury deu ordem de parar, ordem passada de capitão em capitão até toda a massa de homens ficar imóvel no capim da charneca, todos conscientes da falta de cobertura ao redor. O terceiro batedor confirmou os números e Salisbury praguejou em voz baixa. Tivera esperança de que estivessem errados, de que um exército daqueles não pudesse ser reunido pelos que se levantavam contra ele.
— Muito bem. Vão de novo e examinem o terreno entre nós. Encontrem-me um local para atravessar o riacho.
Salisbury se virou para os outros batedores.
— Vocês dois, aproximem-se o máximo que puderem, mas, se forem perseguidos, mantenham-se fora do alcance inimigo. Preciso que os vigiem. Vão!
Os três cavaleiros saíram em disparada outra vez, e Salisbury ficou sozinho para se afligir e se preocupar. Sem os batedores, teria caído direto numa emboscada grande o bastante para matá-lo. Ele queria recuar diante de um efetivo daqueles, mas trincou os maxilares ao pensar nisso, sabendo que não podia. A menos que chegasse a York para lhe dar apoio, os exércitos do rei sitiariam e destruiriam seu aliado mais próximo. Não demoraria para que chegassem a Middleham com seus Decretos de Desonra. Salisbury apertou o alto do nariz, entre os olhos, contraindo o rosto. Nesse momento, seu filho Warwick já deveria ter chegado a Ludlow, e todas as opções de Salisbury desapareceram na brisa. As chances não importavam, teria de lutar. Ele murmurou uma oração, quase uma blasfêmia, e convocou os capitães para ouvi-lo.
Sessenta homens foram até o conde na vanguarda, o rosto sério e contraído. A notícia já se espalhara, e Salisbury viu alguns soldados comuns se abaixarem para tocar o chão. Franziu a testa diante da superstição de dizer à terra para se preparar para seu sangue.
— Mandem levar as carroças para nosso flanco direito — ordenou, tentando passar confiança. — Avistamos a armadilha a tempo.
Enquanto falava, ele se lembrou da festa de casamento do filho e do exército de Percy que tentara destruí-lo. Naquele dia, ele vencera ao recuar, levando-os a fracassar. Um pouco da tensão o deixou. Não precisava esmagar o exército que enfrentaria. Só precisava sobreviver ao choque e contorná-lo. As carroças poderiam ser abandonadas, e Salisbury sabia que conseguiria manter uma retirada em combate até Ludlow, no máximo dois dias ao sul. Se enviasse os batedores à frente, York poderia até mandar reforços para encontrá-lo. Haveria uma saída, se conseguisse descobrir o momento certo de se afastar e sair dali.
As carroças vieram da retaguarda fazendo muito barulho, quarenta e dois veículos pesados, carregados de armas e armaduras, alimentos e ferraduras, tudo o que ele achava que poderia precisar. Naquele momento, seu melhor uso seria como bloqueio para proteger o flanco, mas Salisbury sabia que não poderia se entrincheirar. Tinha de chegar a Ludlow. Tinha de continuar. Mas viu os homens se animarem quando a barreira sólida de carroças tomou forma, e fez que sim rapidamente para si mesmo. Durante anos, havia combatido os escoceses nos pântanos do norte. Salisbury travara dezenas de batalhas durante sua vida, suficientes para saber que a vantagem numérica não era o único segredo da vitória. Disciplina e tática tinham a mesma importância. Talvez fosse a hora de ver o tipo de homem que defendia o rei.
— Arqueiros, à frente! — berrou acima do barulho dos homens. — Avanço lento até chegar ao alcance. Mostraremos a esses fazendeiros como um exército de verdade luta.
Os homens aclamaram devidamente, embora, quando voltaram a marchar, Salisbury ainda visse alguns se abaixando entre as fileiras, tocando o capim seco e fazendo o sinal da cruz enquanto murmuravam orações. Os cavalos que levavam as carroças foram forçados a avançar com eles, protegendo seu flanco direito com madeira, rodas e ferro. Os arqueiros encordoaram as armas e prepararam as aljavas nos quadris, passando as mãos pelas penas brancas de ganso e sacudindo o braço livre para relaxar os músculos. Salisbury desamarrou o escudo de onde pendia nos quartos da montaria, enfiou-o no braço coberto pela armadura e sentiu certa satisfação com o peso. Não precisava vencer, lembrou-se. Tinha de passar pelos inimigos. Depois disso, não se importava se os canalhas ficassem com suas carroças e o perseguissem até Ludlow. O riacho ficava maior conforme ele se aproximava, até ser forçado a dar ordem de parar mais uma vez, praguejando consigo mesmo. As terras nas laterais do rio sofreram com a erosão da água só Deus sabia por quanto tempo, de modo que havia um declive de quase um metro e meio das margens às águas que corriam e, em seguida, outra margem íngreme para escalar. Teria sido um obstáculo difícil se estivessem sozinhos na charneca. Então Salisbury ergueu os olhos e viu uma nuvem de flechas se lançar como pardais, vinda detrás das árvores e do morro à frente.
Audley estava satisfeito. A força que enfrentava mal chegava a um terço do seu efetivo. Melhor ainda, ele escolhera o melhor ponto em quilômetros para defender. Apenas para chegar à sua posição, Salisbury teria de atravessar o riacho, escalar um morro íngreme e fazer tudo isso enquanto flechas choviam sobre suas forças. Audley observou as flechas subirem de ambos os lados, parecendo flutuar a princípio e depois se acelerar ao mergulhar e ferir. A maioria caiu longe, e as poucas que atingiram sua posição no alto do morro sumiram nos tojos sem que um único grito de dor subisse de seus homens. Os cantos da boca de Audley se curvaram em sinistra aprovação. Havia uma última carta a ser lançada, e ele havia encontrado o lugar certo para usá-la.
— Guarnição de canhões. Fogo no inimigo! — berrou Audley por sobre o ombro.
Ele se virou imediatamente para observar, encolhendo-se contra a vontade quando estalos estrondosos soaram à esquerda e à direita. Audley viu borrões pretos idênticos cintilarem rumo às forças de Salisbury, desaparecendo nas fileiras de homens de armadura além do riacho. Um deles pareceu não causar nenhum efeito, mas o outro devia ter pulado e ricocheteado, derrubando homens, e seu voo pôde ser visto no colapso súbito de corpos. Audley assoviou para si, só desejando ter uma dúzia daquelas armas pesadas em vez de duas.
— De novo! Atirem de novo! — vociferou. — Mirem no centro!
As guarnições correram como formigas sobre uma carcaça, e ele as fitou com raiva enquanto os minutos se passavam e elas ainda não estavam prontas.
Salisbury não havia ficado ocioso ao ver como estava exposto ao alcance deles. Toda a seção intermediária das forças de Salisbury recuava, deixando os mortos para trás, sozinhos ou em pares, para mostrar onde balas ou flechas tinham caído.
Audley mostrou os dentes quando os canhões atiraram mais uma vez, ribombando no ar parado. O segundo tiro teve menos sorte, com uma bola sumindo no chão e a outra matando um único homem que se virara para correr. Mesmo assim, as forças de Salisbury avançaram com mais velocidade, começando a entrar em pânico. Audley girou num movimento rápido quando os Galantes da Rainha rosnaram com selvageria, levados a um frenesi imediato ao ver os inimigos correndo diante deles.
— Parados! — gritou Audley. — Capitães! Segurem-nos!
Mas, para sua fúria, os capitães nada puderam fazer. Alguns homens já corriam pela borda do alto do morro, descendo às pressas pelo outro lado, em direção ao riacho. Audley praguejou, a voz ficando rouca enquanto berrava para o restante se manter em posição.
Milhares de homens passaram por ele, o rosto ensandecido pela empolgação e pela cobiça do combate.
— Maldição! — exclamou Audley. — Tragam meu cavalo, depressa!
Ele foi atingido pelo turbilhão em que seus homens se transformaram, jogando fora toda a vantagem do terreno com o desejo de matar o inimigo em fuga. Audley ardia de raiva com a estupidez e a irresponsabilidade dos Galantes, mas não havia o que fazer. Eram nove mil homens contra os três mil do inimigo, e ele não podia permitir que se transformassem numa turba caótica contra soldados bem-treinados. Ao montar, viu os primeiros mergulharem no rio, pulando das margens e se chocando com a água corrente.
À frente deles, no terreno que se elevava acima do riacho, as forças de Salisbury pararam e voltaram a entrar em formação. Audley sentiu o coração bater forte quando eles começaram uma marcha constante rumo aos seus homens, que ainda se esforçavam para atravessar a água e subir pela margem.
Numa única corrida louca, seus Galantes abandonaram todas as vantagens, menos uma. Ainda eram mais numerosos que o inimigo, porém os soldados de Salisbury marchavam num declive contra homens cansados.
Audley esporeou a montaria morro abaixo, chegou ao riacho e se lançou nele em uma velocidade perigosa. Gritou para os Galantes pararem e se defenderem, mas o rio era mais largo e mais profundo do que tinham imaginado, e os homens lutavam para sair dele, ficando esgotados enquanto seu número aumentava. Centenas estavam em pé, tremendo de frio, gritando para os da frente avançarem enquanto esperavam para subir pela margem.
À frente, a primeira fileira de Salisbury parou, uma muralha de espadas e machados com escudos à frente. Nos flancos, Audley podia ver os cavaleiros em formação, esperando para enfrentar seus cavaleiros e sargentos montados. Eles desceram até o riacho em lenta procissão, homens mais experientes, imunes à ânsia da perseguição. Audley não poderia deixar sua cavalaria do outro lado, embora amaldiçoasse a sorte e a indisciplina dos jovens tolos que comandava. Ele puxou a trombeta que pendia junto ao joelho e deu o duplo toque para atacar, o que também serviu para acalmar os soldados da infantaria, que se viraram e viram que o barão de Audley estava presente para comandá-los.
As forças de Salisbury avançaram a passos lentos, dominando o morro daquele lado do riacho e matando quem atravessasse para atacá-los. Por um tempo, o massacre foi terrível, e um arrepio de medo passou pelos Galantes, que só viam a morte à frente. Milhares ainda estavam secos, incapazes até de chegar ao rio por causa aglomeração de homens irritados aos berros. Audley forçara a montaria a passar por eles e reuniu uma dúzia de capitães, com quatrocentos ou quinhentos homens que tiveram o bom senso de parar e se defender enquanto o restante saía do rio. Salisbury percebeu o perigo, e suas trombetas puderam ser ouvidas pela charneca quando seus homens atacaram cruelmente os Galantes, com seus arqueiros atirando dos flancos até as águas do rio correrem vermelhas, arrastando corpos.
Os homens ao redor de Audley foram isolados por uma linha contínua de soldados de cota de malha, que matava com terrível eficiência. Ele ouviu o troar dos cascos quando a cavalaria de Salisbury atacou a sua, as duas se golpeando com força suficiente para fazer o chão tremer enquanto os dois exércitos continuavam o combate. Um grupo de cavaleiros atravessou a posição de seus cavaleiros andantes e atacou o flanco dos Galantes, fazendo-os recuar até chegarem ao próprio Audley. Ele mal teve tempo de erguer o escudo e a espada quando foi atingido no peito por um machado, que amassou o metal e o fez cuspir sangue. Ele sentiu a força lhe fugir quando manejou a espada para desferir um poderoso golpe que acertou o adversário na articulação entre o pescoço e o ombro, fazendo o cavaleiro cambalear. Dois outros homens vieram a toda, e Audley viu uma maça erguida. Não conseguiu trazer a espada de volta a tempo, e a pesada arma de ferro caiu sobre seu elmo, quebrando seu crânio e o jogando no chão.
Os Galantes da Rainha eram pressionados por todo lado, ainda com flechas caindo sobre eles. Os que ainda não tinham atravessado o rio perderam o desejo de dar mais um passo contra um inimigo tão terrível e começaram a recuar. Dois mil Galantes ainda lutavam em torno do corpo de Audley, alguns chamando os de trás desesperadamente enquanto os viam partir. Com isso, já sabiam que seriam massacrados se voltassem para o rio, e continuaram lutando, caindo com as flechas ou com os golpes de homens com armas melhores. Em sua fúria, abriram brechas nas linhas de Salisbury, mas nunca era o suficiente, e as brechas voltavam a se fechar com escudos, várias e várias vezes, até que o último deles foi massacrado, rolando pelo chão.
As águas frias do riacho drenaram o sangue de todos os corpos dentro dele, empilhados a tamanha altura em certos pontos que quase seria possível atravessar sobre os cadáveres destroçados. Os homens de Salisbury não chegaram a atravessar o riacho, contentando-se em massacrar todos os que ficaram no seu lado e ignorando o restante.
Quando a luta cessou, Salisbury foi até a beira d’água. O sol começava a se pôr, e ele olhou para o morro que se elevava do outro lado do rio, perguntando-se se os canhões ainda estariam no topo. Não havia sinal de nenhum dos Galantes por lá. Todos fugiram.
Salisbury estalou o pescoço, que estava rígido embora ele não tivesse dado um único golpe durante o combate. Talvez mil homens seus tivessem morrido, perda com a qual não poderia arcar, por mais que lhe tivesse trazido a vitória. O triplo disso, ou mais, jazia morto no riacho e em torno dele. Seus homens já recolhiam braçadas de insígnias do cisne de prata, rindo do saque e chamando os colegas para virem juntar mais.
Ele chamou os capitães para longe da busca, encarando-os com uma expressão soturna enquanto decidia ignorar seus bolsos cheios.
— Levem minhas carroças para o outro lado desse maldito rio antes do anoitecer. Verificaremos o acampamento dos Galantes, mas temos de avançar.
Salisbury sabia que os outros esperavam algumas palavras de congratulação, mas havia perdido um terço de seu exército, homens dos quais ele e York precisavam desesperadamente. Não sentia alegria com aquilo.
— Milorde, teremos tempo de cuidar dos feridos? — perguntou um de seus capitães. Salisbury o fitou com raiva, irritado com as decisões que estava sendo forçado a tomar.
— Não vejo nenhum Percy nem Somerset aqui. Há outro exército em campo, e tenho de chegar a Ludlow. Se puderem andar, que nos sigam mais devagar. Deixe uma boa faca com os que não sobreviverão à noite. Perdemos meio dia aqui, cavalheiros. Não podemos perder mais. Aprontem-se para marchar.
Os capitães assentiram, seus sorrisos se desfizeram, e eles assumiram mais uma vez a responsabilidade de seu posto. Um a um, afastaram-se, olhando para o matadouro em que transformaram a charneca e o rio, que ainda correria rubro durante dias.
Margarida se levantou de onde se agachara, perfeitamente imóvel, durante muito tempo. Fazia horas que havia se instalado naquele ponto, uma colina a leste da charneca que lhe dava uma boa visão das forças de Audley e depois do exército de Salisbury que atravessava o terreno. Estava lívida de horror com o que assistira, uma visão de crueldade e violência que continuava exibindo imagens em sua mente durante o crepúsculo, fazendo-a querer enxotá-las como moscas pousando na pele. Pela manhã, ela havia imaginado formações organizadas, uma diante da outra, e não o caos e os gritos de loucura de homens esmagados e afogados no rio, cortados e atingidos de perto por inimigos que riam e zombavam. Ela balançou a cabeça, tentando em vão apagar as lembranças. Aqueles homens tinham feito um juramento a ela e ao seu cisne. Foram àquele local com confiança e espírito marcial, dispostos a lutar pelo rei e pela rainha contra traidores imundos. Ao desviar os olhos, ela ainda conseguia ver a mancha escura nas águas enquanto o riacho levava o sangue dos homens. Margarida tremeu, sentindo-se pequena e fria com o crepúsculo se aproximando. Não sabia o que aconteceria depois da batalha, se Salisbury pararia para enterrar os corpos ou se avançaria para Ludlow. Ainda havia dezenas de cavaleiros dele percorrendo as encostas, e ela foi tomada pelo medo súbito de que um deles a visse e a perseguisse.
A garganta secou, e ela agitou as mãos com a ideia. Dois homens a esperavam no sopé da colina. Margarida não os deixara subir a encosta para assistir com ela, sabendo que serem vistos por alguém seria um convite ao desastre. Pela manhã, eles pareciam guerreiros fortes e temíveis, mas quando ela desceu pareciam tão frágeis quanto qualquer um dos outros homens que morreram naquele dia.
Margarida montou sem dizer uma palavra, sem confiar em si mesma para falar. Atrás, escutou alguma trombeta soar mais uma vez e se encolheu na sela, as sombras crescentes fazendo parecer que já era perseguida por caçadores. Eles percorreram mais de um quilômetro, deixando a charneca para trás, e ela se virou para olhar mais de uma vez.
Na primeira aldeia pela qual passaram, Margarida viu a forja de um ferreiro acesa, ainda trabalhando em seu ofício apesar da hora tardia. A mente dela estava focada na ameaça de perseguição e no prazer que Salisbury sentiria com sua captura. Ela quase continuou avançando, mas puxou as rédeas bruscamente ao ouvir o som de cravos num casco.
— Busquem o ferreiro — ordenou ela, aliviada ao ouvir que sua voz rouca estava mais firme do que esperava.
O homem que veio atender à sua ordem limpava as mãos num pano engordurado. Ele percebeu a fina capa da beldade que o fitava e preferiu fazer uma profunda reverência.
— Precisa de ferradura, senhora?
Ele estendeu a mão para acariciar o pescoço do cavalo e ficou paralisado quando um dos guardas desembainhou a espada, som que ele conhecia muito bem.
— Preciso que todas sejam retiradas e invertidas nos cascos — respondeu Margarida.
Sua mãe se queixara de caçadores ilegais que faziam o mesmo em Saumur quando ela era pequena. Quem fosse atrás deles encontraria rastros no sentido contrário e iria por outro caminho. Era um truque bastante simples, embora o ferreiro tenha ficado surpreso, dando uma olhada na estrada atrás deles. Margarida pôde ver que ele adivinhara que tinham vindo da batalha travada naquele dia, a confusão e um pouco de medo escritos com clareza no rosto sujo de fuligem.
— Paguem-lhe meia moeda de ouro pelo trabalho — disse Margarida.
Os olhos do ferreiro se arregalaram; ele pegou a moeda de ouro no ar quando lhe foi lançada e a guardou com cuidado. Margarida apeou, e o ferreiro, em silêncio, levantou cada casco e tirou os cravos rápido, com habilidade, jogando os tortos numa bolsa para serem endireitados e substituindo-os por outra dúzia, martelados com força. Não perdeu tempo, nervoso com os olhares lançados pela estrada atrás do pequeno grupo. Em pouco tempo, os três cavalos tinham sido ferrados ao contrário, e os três voltaram a montar. Margarida hesitou, incapaz de resistir a dizer mais alguma coisa antes de deixar aquele homem eternamente para trás.
— O senhor fez um bom serviço à casa real, mestre ferreiro. Em nome do rei, peço que ninguém saiba o que o senhor fez esta noite.
O ferreiro tinha plena consciência dos homens armados que o observavam. Recuou, fazendo que sim com a cabeça e erguendo as mãos até estar a salvo na ferraria, aquecido pela forja.
Margarida fincou os calcanhares nos flancos do cavalo. A noite caíra enquanto aguardava, mas a lua estava alta, a estrada, boa e o céu, limpo. Ela avançou veloz para Kenilworth, lar e segurança.