Trindade
Capítulo 7
O rei Henrique sentiu que tremia ao chegar à grande curva do rio Tâmisa. Embora pudesse ver o Palácio de Westminster, ainda estava quase um quilômetro a oeste da cidade de Londres. Dizia-se que, a cada ano, as duas partes se aproximavam aos poucos, com mercadores que construíam oficinas e armazéns na terra barata ao alcance dos mercados londrinos, e a cidade crescia para além de suas muralhas romanas.
A escuridão só aumentava o frio terrível e penetrante. O vento trouxe um pouco de granizo quando o sol se pôs, mas a fraqueza que o rei sentia era só sua. Henrique estava horrorizado com sua fragilidade, com membros tão extenuados que meros trinta quilômetros a cavalo o reduziram a uma massa ofegante de dores, com suor escorrendo debaixo da armadura. Às vezes, achava que apenas o ferro o impedia de cair.
Não pretendia cavalgar num cortejo até o Palácio de Westminster, mas já havia quase quarenta lordes leais à espera em Windsor. Quando a notícia de que o rei se levantara da cama e pretendia ir a Londres se espalhou, os nobres começaram a dar vivas e bater os pés, o barulho aumentando por todo o castelo até chegar à cidade do lado de fora, e foi repetido por mil gargantas até se tornar um grande urro que se igualava aos ventos de inverno.
Antes de partir, o rei Henrique assistira à missa de Natal na Capela de São Jorge, sentado pálido e imóvel enquanto todos os presentes agradeciam a Deus por sua recuperação. O grande banquete que os aguardava fora pilhado pelos homens que passavam e, empolgados, chamavam cavalos e criados para se unir ao rei que se colocava a caminho. O sol de inverno já estava baixo no céu rubro quando Henrique chegou à estrada com mais de cem homens, todos portando armas e vestindo armaduras, com as flâmulas do leão real ondulando ao vento gelado.
O Palácio de Westminster fora construído no alto da cidade, longe dos miasmas imundos que causavam doenças todo verão. Henrique tomou a estrada que acompanhava as margens do rio, com Buckingham de um lado, o conde Percy do outro e Derry Brewer atrás; o restante seguia em fileiras cerradas. O rei levava o cavalo a passo para prolongar suas forças. Já havia cinco horas ou mais que percorriam a distância desde Windsor, e Henrique temia ter se forçado além de suas condições. Sabia que, se desmaiasse e caísse, seria um golpe à sua posição do qual talvez nunca se recuperasse. Mas Somerset ainda estava preso por ordem de York. Henrique sabia que, caso se demorasse demais, o conde poderia sumir. Mesmo sem essa preocupação, queria tirar seu selo real do duque. Ele não tinha opção senão prosseguir e ignorar o coração palpitando e a dor em todas as articulações e ligamentos. Não conseguia se recordar de tamanha exaustão física, mas se lembrou várias vezes de que Cristo caíra três vezes no caminho do Calvário. Ele não cairia, disse a si mesmo, ou, se caísse, se levantaria e montaria outra vez.
Com Westminster à vista, Henrique sentia a expectativa dos que cavalgavam às suas costas, o peso da fé de todos aqueles homens que foram afastados pelos favoritos de York no ano anterior. Suas queixas contra os Nevilles foram parar em ouvidos moucos, seus processos legais desdenhados por juízes pagos pelo protetor. Mas o rei acordara, e eles estavam jubilosos, quase inebriados de alegria. O fato de os habitantes das aldeias em torno de Londres se derramarem na estrada para ver Henrique passar ajudou. Eles deixaram suas missas e ceias de Natal para ali ficar dando vivas, reconhecendo as flâmulas e entendendo que o rei finalmente voltara ao mundo. Centenas corriam ao lado quando havia espaço, tentando manter o monarca à vista, enquanto Henrique só queria descansar. As pernas tremiam dentro da armadura, e mais de uma vez ele ergueu a mão para limpar o suor que coçava nos olhos, só conseguindo fazer a manopla se chocar ruidosamente no ferro.
A princípio, ele achara que entraria na cidade e a atravessaria até a Torre para libertar Somerset da prisão. A dor intensa o fez reconsiderar, e o Palácio de Westminster se tornou o único lugar que conseguiria alcançar naquela noite. Avançando, ele pediu a Deus que fosse capaz de se recuperar lá, pelo menos por algum tempo.
Henrique avançou entre o palácio real e a Abadia de Westminster, fazendo o cavalo dar uma volta fechada para apear. Buckingham sentiu que seu rei estava prestes a desmaiar e pulou da sela para ficar ao seu lado, protegendo-o o máximo que pôde de olhares curiosos. Henrique se inclinou para a frente e se esforçou para chegar ao chão, parando um instante com as manoplas ainda no alto da sela até ter certeza de que as pernas suportariam seu peso. Os arautos reais tocaram longas notas pelo pátio, embora já houvesse homens correndo para levar a notícia da chegada do rei, berrando pelo caminho.
Henrique ficou bem ereto, sentindo que tinha forças. Estendeu a mão e a descansou por um breve instante no ombro de Buckingham.
— Obrigado, Humphrey. Se me conduzir para dentro, farei com que meu selo seja trazido às minhas mãos.
Buckingham encheu o peito, fazendo a armadura ranger. Num impulso, ele se ajoelhou. O conde Percy apeava, lançando as rédeas para um dos homens que trouxera consigo. Embora o vento fosse penetrante e os joelhos do velho protestassem, ele também se abaixou lentamente nos seixos do chão, apertando as peles em torno dos ombros. Ao redor deles, os nobres e os cavaleiros fizeram o mesmo, até que apenas Henrique permanecesse de pé. Ele respirou fundo, olhando por sobre a cabeça deles para a grande porta do Palácio de Westminster.
Fazia muitíssimo tempo.
— Levantem-se, cavalheiros. Está frio demais para ficar aqui no escuro. Conduza-me para dentro, Buckingham. Conduza-me.
Buckingham se levantou com a alegria estampada no rosto, andando à frente. O restante seguiu Henrique como um regimento, pronto para tudo.
Henrique poderia abençoar a armadura ao caminhar pelo longo corredor central do Palácio de Westminster. Sem dúvida o peso lhe roubava forças, mas lhe dava volume, fazendo-o parecer o homem que deveria ter sido. A criadagem do palácio estava com os olhos vermelhos de chorar por sua recuperação e ia à frente para guiar o grupo do rei até os aposentos reais, onde York tomara residência. Pelo menos o protetor não estava em lugar nenhum ao norte, embora isso talvez facilitasse alguns aspectos do dia. O selo não passava de dois pedaços de prata num saquinho dentro de um cofre, mas nenhuma proclamação real nem lei poderiam ser feitas sem ele. Para todos era um mero símbolo: quem tivesse o selo aparentaria ter algum poder na terra.
Estava um pouco mais quente longe do vento, embora o Palácio de Westminster fosse um lugar frio e úmido mesmo com o melhor tempo. Henrique ainda suava com a cavalgada e andava de cabeça descoberta, com a armadura barulhenta, pela longa rota até seus aposentos que davam para o rio. Enquanto avançava, lutava para encontrar as palavras certas a dizer ao protetor e defensor do reino. Ele já sabia que Ricardo Plantageneta não arruinara o reino, que não o empobrecera com guerras. Pelos comentários dos lordes, parecia que York não havia sofrido revoltas, rebeliões nem praticamente nada enquanto Henrique cochilava e sonhava em Windsor. Era difícil explicar por que a notícia enraivecera o rei, mas essa emoção também tinha sua utilidade, qualquer que fosse a causa. Ele não se permitiria fraquejar até depor o homem que reinava em seu nome.
Após subir uma longa escadaria, Henrique foi obrigado a parar e ofegar, aguardando que seus músculos trêmulos se recuperassem. Em parte para ocultar a necessidade de descanso, deu ordens a Buckingham para preparar cavaleiros velozes para levar à Torre a ordem de libertação de Somerset assim que o selo estivesse em suas mãos. As instruções para buscar os guardiões do selo em seus aposentos foram passadas pela multidão que acompanhava o rei.
A boca de Henrique estava seca. Ele tocou a garganta e tossiu, depois aceitou de Derry Brewer um frasco que o espião-mor ergueu sem nada dizer. O rei ficou corado e engasgou ao descobrir que era uísque. Derry inclinou a cabeça, se divertindo, com um sorriso irônico.
— Melhor que água. Vai lhe dar forças, Vossa Alteza.
O rei Henrique quase retorquiu com uma resposta irritada, mas decidiu que fazia efeito e tomou outro gole antes de devolvê-lo. A “água da vida”, diziam em alguns lugares. Ele podia sentir seu calor se espalhar.
Outra longa escadaria o levou ao andar de seus aposentos. Henrique apressou o passo, com os criados abrindo as portas à frente. Ele se lembrava do julgamento do pobre Suffolk naquele lugar, William de la Pole, condenado ao exílio e depois assassinado no mar quando partiu da Inglaterra. Vislumbrar esses eventos era como vê-los através de uma nuvem, quase lembranças de outro homem, um que mesmo naquela época já se afogava. Enquanto avançava, Henrique percebeu que sua mente estava limpa, como se o tecido sufocante tivesse sido rasgado em farrapos. A ideia de se perder outra vez era um horror constante e arrepiante, como o de um marinheiro que, afastado do mar, deve se recordar das ondas escuras que ainda o arrastavam.
— Deus, concedei-me força de vontade — murmurou Henrique ao entrar na sala, seu olhar se direcionando aos dois homens que já estavam de pé para saudá-lo.
Ricardo de York engordara um pouco desde que o rei Henrique o vira pela última vez, perdendo os últimos vestígios do rapaz ágil que fora. Estava barbeado, o cabelo preto, sua força aparente nos ombros largos e na cintura grossa e musculosa. Ricardo, conde de Salisbury, era uma geração mais velho que York, embora continuasse magro, um homem da fronteira do norte, com um saudável tom rosado nas faces. Henrique viu a expressão de Salisbury se fechar quando avistou o conde Percy, mas tanto ele quanto York se apoiaram em um joelho, de cabeça baixa.
— Vossa Alteza, estou muito satisfeito de vê-lo bem — disse York quando Henrique fez um gesto para que se levantassem. — Rezei por esse dia e agradecerei em todas as igrejas de minhas terras.
O rei olhou para ele irritado, percebendo que parte de sua raiva se devia ao homem ter sido tão hábil na posição que conquistara para si. Sem dúvida seria vil buscar defeitos em York ou em seu chanceler, mas então Henrique se lembrou de Somerset, preso para ser julgado e executado por ordem do duque. Sua vontade se fortaleceu. Todo tipo de maldade lhe era estranho, mas, apenas por um momento, ele se alegrou com a vantagem de sua posição.
— Ricardo, duque de York, ordenei que o selo real fosse trazido a esta sala — declarou Henrique. — Você o passará às minhas mãos. Quando o fizer, estará dispensado do cargo de protetor e defensor do reino. Seu chanceler Ricardo, conde de Salisbury, está dispensado desse cargo. Por ordem minha, aqueles que prendeu serão libertos. Aqueles que libertou serão presos!
York empalideceu ao sentir o açoite da raiva do rei.
— Vossa Alteza, só agi no melhor interesse do reino enquanto o senhor... — Ele escolheu as palavras com cuidado para não proferir nenhum insulto. — Enquanto o senhor estava enfermo. Vossa Majestade, minha lealdade, minha fé é absoluta.
Ele ergueu os olhos ainda com a testa abaixada, tentando avaliar as diferenças no homem que o encarava tão friamente. O Henrique que conhecera era fraco de corpo e ideias, um homem sem desejos além do amor ao silêncio e à oração. No entanto, o rei em pé diante dele parecia possuir muita força de vontade, embora estivesse pálido como cera.
Qualquer que fosse a resposta de Henrique, todos os homens na sala se viraram para a porta quando os quatro guardiões do selo entraram atrás do rei, trazendo a caixa de prata sob sua responsabilidade. Todos arquejavam por causa da longa corrida pelo palácio real, as mãos do chaff-wax trêmulas quando a pousou na mesa.
— Abra, Ricardo — ordenou Henrique. — Entregue-me minha imagem, meu selo.
York respirou fundo e fez o que lhe mandavam, embora mal pudesse acreditar que fosse o mesmo homem, dando ordens tão claras. Para onde fora o menino imberbe para voltar tão furioso e rígido? York abriu a caixa e revelou o saquinho de seda, com as metades tilintantes de prata ali dentro. Ele puxou a cordinha e removeu as peças de metal, passando-as para a mão do rei.
— Sou-lhe muito grato, Ricardo Plantageneta, duque de York. Agora, está dispensado de minha presença até que eu volte a chamá-lo. Os dois. Deixem-me descansar. E, se forem rezar, peçam para que lorde Somerset ainda esteja são e salvo na Torre.
York e Salisbury fizeram uma profunda reverência, lado a lado, mantendo-se inabaláveis com toda a dignidade que conseguiram reunir antes de sair da sala. O conde Percy os viu ir embora com enorme satisfação no rosto.
— Este é um dia que recordarei por muito tempo, Vossa Alteza — comentou Percy. — O dia em que o senhor voltou para casa, para reinar e expulsar serpentes e vilões.