Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 19 de 41

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Trindade

Capítulo 13

 

Os sinos da Abadia de St. Albans tocaram dez vezes quando a coluna do rei entrou na cidade. Diziam que o relógio de lá era uma maravilha dos tempos, capaz de prever eclipses tanto quanto dar as horas, com os monges usando suas mãos apenas para erguer os pesos que desciam lentamente e dar corda ao mecanismo.

As notas vibrantes soaram sobre as ruas desertas, embora todas as janelas estivessem lotadas de rostos nervosos. Nenhuma alma viva nos limites da cidade saíra de casa naquele dia para trabalhar ou comprar comida. As barraquinhas e as lojas estavam vazias ou ainda desmontadas, pilhas de madeira e lona, os donos fugidos.

Em marcha, vindos da estrada aberta, os homens do rei Henrique ficaram em silêncio quase fileira por fileira, intimidados pelas casas nos dois lados ao avançar cada vez mais na cidade. À direita, entre as filas de casas altas, todos sabiam existir uma força imensa em Key Field, à espera. Havia medo em todos eles mas também determinação. Os homens cavalgaram ou caminharam morro acima com o rei, que podia ser visto à frente da coluna, seus estandartes em ouro, vermelho e branco. Fortunas eram feitas e perdidas na batalha quando havia um rei presente. Cada homem de posição inferior pensava, pelo menos num instante de reflexão particular, que poderia ser abençoado naquele dia, talvez tornado cavaleiro por algum ato de coragem, ou até nobre pela mão do rei. Para alguns, essa possibilidade era a única chance de conquistar riqueza e poder para seu nome.

No centro da cidade, ficava a praça da feira, um triângulo comprido cercado por todos os lados pelos lares de mercadores ricos, com a Igreja de São Pedro num dos cantos. As fileiras da frente chegaram à praça antes que o relógio da abadia voltasse a tocar, e o rei parou. Mais e mais lordes preencheram o espaço com seus homens até que os últimos soldados tiveram de parar. Assim que apearam e pisaram na rua calçada de pedras, Somerset e Percy mandaram homens observarem as posições inimigas. Os capitães mais experientes arrombaram a porta das tavernas pelo caminho para proteger a cerveja de homens que talvez preferissem sumir nas adegas durante o dia. Outros forçaram a entrada em casas, contra os gritos aterrorizados dos proprietários, enquanto muitos simplesmente escolheram um lugar limpo na rua, chamando as carroças de bagagem e tomando emprestados gravetos secos e panelas para preparar a refeição do meio-dia. Sem a presença do exército de York ao lado da cidade, teria sido uma manhã alegre, mas a ameaça de violência deixava os homens carrancudos enquanto cumpriam suas funções.

Em torno da posição do rei no alto do morro, pedras foram arrancadas e estacas fincadas no chão para prender um grande toldo para Henrique descansar e ter privacidade. O rei apeou, esperando pacientemente que trouxessem das carroças mais abaixo bancos e uma mesa, carregados como tartarugas pela torrente de soldados ocupados. Em pouco tempo, Henrique e seus lordes mais importantes tinham um lugar para sentar e uma lona para protegê-los do vento e do olhar da plebe.

Enquanto seu cavalo era levado para ser escovado e alimentado, Henrique chamou Percy, Somerset, Buckingham e Derry Brewer para ajudá-lo. Descalçou as manoplas e acenou aos criados que puseram uma taça, uma jarra de vinho e um prato de carnes frias diante dele. Os quatro homens convocados entraram e ficaram de pé em silêncio, aguardando as ordens.

O rei Henrique tomou um gole generoso do vinho, estalando os lábios. Avistou os médicos em pé, além da primeira fila de guardas, e franziu a testa, fazendo mais uma vez seu exame íntimo. Não, ele estava bem, tranquilizou-se. Sabia que havia momentos de imprecisão em que perdia o fio dos pensamentos, mas eles vinham e sumiam rapidamente. Não precisava chamar aquelas aranhas velhas e suportar seus cutucões e suas misturas doces.

— Milordes, mestre Brewer, acredito que não ouviremos casos hoje. Aquela reunião da ralé traidora fora da cidade é nossa única preocupação. Que relatórios os senhores têm? O que sugerem?

Somerset falou antes dos outros. Havia mandado seus batedores percorrerem a cidade antes que o rei chegasse aos limites. Pela expressão do rosto, nada do que soubera tinha lhe agradado.

— Vossa Alteza, há três entradas a leste. Duas são vias estreitas, quase becos. Passamos por espinheiros fora da cidade e, com um pouco de trabalho, essas duas podem ser bloqueadas contra o ataque mais decidido. A terceira é mais larga e mais difícil de fechar. Seria preciso tirar mesas das casas, talvez mesmo vigas, ou um cocho de cavalos.

Ele não disse que já dera essas ordens, e que quarenta homens trabalhavam com afinco para proteger aquele lado da cidade. Algumas coisas eram urgentes demais para deixar para depois, e Somerset meramente esperou que o rei fizesse que sim com a cabeça.

— Quer que me esconda atrás de espinheiros? — perguntou Henrique em voz baixa. — Eu... Isso não me agrada, milorde Somerset. A menos de cinquenta quilômetros de Londres, o rei da Inglaterra... — Ele se interrompeu, os dedos tamborilantes parando sobre a mesa de madeira.

Depois de um instante de silêncio desagradável, Derry engoliu em seco, nervoso. Desconfiou que o rei passava por um de seus momentos de inconsciência e preferiu falar, quer Henrique o ouvisse, quer não.

— Vossa Alteza, qualquer que seja a ofensa à sua honra, temos três lobos em campo. Ninguém deixa a porta de casa aberta com olhos tão famintos voltados para dentro.

Ele parou quando o rei Henrique piscou, balançou a cabeça como se tivesse tido um espasmo e ergueu os olhos com um início de confusão.

— Até sabermos o que York, Salisbury e Warwick pretendem, Vossa Alteza, é mero bom senso trancar a porta contra eles.

— Sim, sim, é claro, Derry — concordou Henrique. — Como quiser. Confio em sua avaliação.

Os olhos do rei se animaram, e ele ergueu a cabeça para descobrir que o conde Percy o fitava com estranheza.

— E então, conde Percy? Ficará aí parado como um mastro? — indagou Henrique, encarando o velho de volta. — Quantos deles estão em Key Field? Pode me responder agora às suas perguntas, as mesmas que fez ao escudeiro James.

O conde Percy franziu a boca numa linha fina. Deus havia posto seu inimigo mais perigoso em oposição ao rei, mas sua confiança vacilou como uma vela à brisa com a estranheza do monarca.

— Meus homens dizem que são três mil, Vossa Alteza. Falam em pelo menos quatrocentos arqueiros entre os homens de Warwick, todos vestindo vermelho. Talvez outros dois mil portem piques e machados, e o restante está a cavalo. Não é uma força pequena, Vossa Majestade... E traidores, como o senhor disse. Salisbury está lá com o filho, dois homens astutos que só demonstraram desprezo por sua autoridade real. Para mim está bem claro que a perda de suas graças os deixou feridos e ainda irritados. Não pode haver outra razão para se levantarem e ameaçarem o rei.

Henrique tomou outro gole de vinho, a taça enchida imediatamente por um criado em pé a seu lado.

— Três mil? — repetiu. — Por Deus, então é verdade. A fortuna de homens como York e Salisbury ficou grande demais, se eles se dão ao luxo de armar e alimentar tantos homens. — O rei olhou com argúcia para seu espião-mor. — Brewer. Sem contar os homens de minha casa nem juízes, advogados, serventes, arautos e outros do tipo, quantos homens armados estão comigo hoje?

Era uma pergunta em que Derry havia pensado junto de Somerset, e fizera uma contagem por alto enquanto se aproximavam da cidade.

— Mil e quinhentos no máximo, Vossa Alteza, embora possamos armar uma centena dos criados também, se for preciso.

— Os que estão conosco são soldados da mais alta qualidade — acrescentou Percy. — A guarda pessoal de seus lordes, Vossa Alteza. Cada um deles valeria dois ou mais daqueles que estão com os Nevilles, sem dúvida tremendo com a ideia de sitiar seu rei.

— E York, lorde Percy — disse Somerset, irritado. — Parece que você só pensa no pai e no filho Neville, enquanto é York quem comanda, York quem foi protetor e defensor. É a lealdade deles a York que nos preocupa, não suas disputas mesquinhas.

Antes que o conde Percy retrucasse, furioso, Somerset voltou a se dirigir ao rei.

— Vossa Alteza, tenho sua permissão de bloquear as três entradas? Não podemos investir contra tantos, mas podemos deixar que avancem sobre espinhos, caso ataquem.

— Sim, dê a ordem — respondeu Henrique, sombrio, ainda pensando no efetivo adversário.

Somerset fez questão de chamar um de seus homens e lhe dar instruções. O homem sabia muito bem que as barricadas já estavam sendo construídas, e o lorde o mandou rispidamente embora antes que sua confusão virasse um problema.

Quando Somerset voltou à presença do rei, Henrique se levantara. O rosto estava um pouco corado devido ao vinho, mas ele parecia resoluto e consciente.

— Ponha um homem na torre daquela igreja no fim da praça, pronto para tocar o sino e avisar de ataques vindos de quaisquer outras direções. Não serei flanqueado agora que cheguei a este lugar. Rezem, cavalheiros, para que aqueles que ficaram à minha espera ainda não tenham considerado o verdadeiro alcance e resultado de suas ações. Não sairei daqui até essa ameaça ter sido destruída ou dispersada. Que venham, se quiserem. Transformaremos esta cidade em fortaleza, contra a qual eles baterão suas cabeças. Cuidem do que for necessário. O que quer que York e Salisbury pretendam...

O rei Henrique se interrompeu com um tumulto crescente fora da tenda. Um arauto de roupa preta, marcada com uma rosa branca no ombro, tentava atravessar a multidão de soldados, embora fosse golpeado e empurrado a cada passo. Já havia uma gota de sangue escorrendo de algum corte no couro cabeludo, e ele parecia aterrorizado e enlouquecido quando gritou pelo rei.

— Deixem-no vir até aqui! — ordenou Henrique, irritado, a voz alta a ponto de os soldados recuarem imediatamente. — Afastem-se!

Um espaço se abriu nas fileiras ondulantes. O arauto estava pálido e ofegante ao se ajoelhar nas pedras e estender um pergaminho selado com cera branca e a rosa de York. Com a mão livre, ele tocou a ferida na cabeça e olhou consternado para a mancha vermelha nos dedos.

Embora o homem não parecesse ameaçador, foi Somerset quem pegou o pergaminho e quebrou o selo, para não permitir que nenhum possível inimigo se aproximasse o suficiente para atacar seu rei. O arauto aturdido foi levado para longe, enquanto o duque lia rapidamente, a expressão se endurecendo.

— E então? — quis saber Henrique com impaciência.

— York chama por mim, Vossa Alteza — começou Somerset, com azedume. — Que eu seja levado até ele, com o conde Percy. Ele afirma que somos má influência para Vossa Majestade e que espalhamos mentiras sobre seu dever, sua fé e sua lealdade. Pede sua misericórdia e perdão por estar presente com homens de armas, mas... — ele continuou lendo, os lábios se movendo — ... pede apenas que se observe que nada deseja para si além do julgamento justo daqueles “cruéis mexeriqueiros” em sua corte.

— Eu sou mencionado? — perguntou Derry Brewer.

— Não — respondeu Somerset sem erguer os olhos.

— Ora, que ele vá para o inferno! — exclamou Derry de pronto. — Sou um espinho na vida daquele homem há anos e ele sequer me põe na lista? Isso é pior que ser negligenciado, milorde!

A indignação do espião-mor fez Somerset segurar um risinho enquanto continuava a ler. Por sua vez, Derry observou o rei, na esperança de ter impedido uma explosão de raiva. Henrique tinha ficado completamente imóvel enquanto Somerset lia em voz alta, o sangue fugindo de seu rosto.

— Não admitirei que um de meus lordes me faça tais exigências — declarou Henrique, quase sussurrando. — Responda-lhe, Somerset. Mande seu arauto proclamar, para quem quiser ouvir, que York, Salisbury e Warwick serão declarados traidores, jurados e condenados, se não partirem imediatamente deste lugar para aguardar meu julgamento e rezar por minha misericórdia. Diga-lhes isso e nada mais. Então veremos.

O conde Percy estava radiante, notou Derry. O ventoso dia de primavera dificilmente seria melhor para ele, com a fúria do rei tilintando contra seus próprios inimigos. Somerset fez uma reverência e saiu. Derry parou apenas para pedir licença ao rei para sair antes de segui-lo, levando o arauto de York, que ainda sangrava, com força pelo braço enquanto o pequeno grupo seguia para as barricadas.

 

Derry percebeu que os homens de Somerset estavam ocupados desde o primeiro momento da chegada à cidade. Além dos espinheiros arrancados do solo, dezenas de mesas e cadeiras pesadas foram amarradas no meio das três entradas a leste. Não era uma barreira intransponível — tudo o que um homem fizesse poderia ser demolido por outros —, mas Jasper Tudor levara seus arqueiros galeses até lá por iniciativa própria: homens pequenos e morenos, com arcos longos feitos de teixo para defender as barricadas e até escalá-las para ter o melhor campo de visão. Derry sentiu um calafrio com a ideia de atacar uma posição daquelas. Não invejava as forças de York caso viessem contra o rei.

Somerset ajudou o arauto de York a subir na massa de madeira e espinhos, ignorando todos os protestos quando as roupas do homem se agarraram e se rasgaram. Mesmo quando foi mandado embora, Derry pôde ver o arauto observando cada detalhe dos arqueiros. O homem não pareceu gostar do que via.

Uma pedra veio de algum lugar lá fora, fazendo um arco no ar e levando um arqueiro a praguejar em galês quando teve de se desviar para não ser atingido. A boca de Derry se franziu de raiva.

— Milorde Tudor! — chamou em voz alta. — Seus homens sabem que o rei Henrique deu ordens de ficar aqui e não atacar?

Não era estritamente verdade, mas o grito era para aqueles que talvez deixassem a raiva ou a dor súbita dominar seu pensamento. O arqueiro que se desviara da pedra olhou para o espião-mor de sua posição no alto da barreira furioso, mas o conde Jasper Tudor fez que sim, falando em galês e apontando para o homem até que ele baixou a cabeça e se virou para fitar o inimigo mais uma vez. Outro grande pedaço de sílex acertou a madeira, e Derry praguejou para si mesmo. Somerset estava ocupado com seu arauto, mas o problema era que homens armados sob ameaça de ferimento não eram nada confiáveis. Ele ouviu um dos galeses gritar um insulto zombeteiro a alguém do outro lado fora do campo de visão. Todos os companheiros do homem caíram na gargalhada, enquanto o humor de Derry afundava. A barreira era quase toda de madeira seca. Ele viu que havia baldes d’água para o caso de incêndio, mas havia muitos tipos de fagulha.

O arauto de Somerset fez que sim com a cabeça, concordando com todas as instruções, e foi auxiliado pelos galeses a escalar a barricada nos calcanhares do homem de York. O arauto estava pálido ao avançar, não gostando da ideia de passar por soldados aos gritos do outro lado da barreira.

Somerset andou até Derry, que espiava de cara feia pelos espaços entre os espinhos.

— Se York tiver bom senso, vai afastar seus homens antes que alguém enfie uma flecha na garganta de meu arauto ou grite o insulto errado — comentou Somerset.

— Esses são homens de Salisbury, milorde. E parecem estar loucos por uma briga. Milorde, se ficar sabendo que o conde Percy pretende vir para cá, o senhor talvez devesse dissuadi-lo. Há contas a ajustar entre Percy e Neville, e não quero que sejam ajustadas hoje, se é que o senhor me entende.

Enquanto Derry falava, veio outra chuva de pedras, derrubando um dos arqueiros, que caiu gritando no meio dos espinheiros após escorregar entre duas grandes mesas de carvalho. Os homens que estavam perto dele gritaram de raiva, e Derry viu um deles puxar o arco, mostrando os dentes, com sangue escorrendo pelo rosto. Jasper Tudor berrava uma ordem, mas o arqueiro lançou a flecha e depois uivou de triunfo. Alguns outros homens entenderam que era o sinal de ataque, e as ordens de Tudor se perderam num rugido dos dois lados.

Derry ouviu um grito de dor soar acima do barulho, então quase perdeu o equilíbrio quando a barricada inteira oscilou, balançando de um lado para o outro. Sentiu machados acertarem a madeira, e puxou o facão da bainha na cintura.

— Por Cristo! — murmurou. — Milorde Somerset, precisamos de mais homens aqui!

Em resposta às suas súplicas, uma tropa de soldados já corria em direção à rua bloqueada, com as espadas desembainhadas e prontas. Somerset os organizou em fileiras, e Derry recuou para observar as defesas. A barreira era um obstáculo brutal, tanto para um mero grupinho de homens zangados quanto para as primeiras fileiras de um ataque total das forças de Salisbury. Aguentaria algum tempo, com os arqueiros de Tudor atirando em saraivadas, berrando a contagem uns para os outros quando acertavam alvos a curta distância. Para espanto de Derry, um deles declamava em versos, com chamado e resposta, e todos os arqueiros galeses participavam.

Somerset viu Derry hesitando, quase dançando de indecisão.

— Eu cuido da situação aqui, Brewer. Vá!

Derry correu, cortando caminho em torno da casa de madeira de algum mercador rico e ao longo da segunda e da terceira barreiras. Eram ainda mais fechadas que a primeira, os becos mais estreitos bloqueados até a altura de dois homens e enxameando de soldados que escalaram as vigas das casas dos dois lados para dar uma olhada no inimigo.

— Mantenham a posição! — berrou Derry quando os alcançou, sem se importar com seu direito de dar ordens. — Eles não passarão!

As barricadas eram bastante sólidas, percebeu ele, disparando morro acima até a praça da feira, onde o rei e o grosso da coluna real ainda estavam amontoados. A cada passo, Derry via homens abandonarem refeições e lugares de descanso, descendo a toda em sentido contrário, rumo ao som da luta. Era o caos, sem nenhuma figura evidente no comando daquilo. Entre os dentes, Derry amaldiçoou York e Salisbury enquanto corria morro acima, até a respiração arder como fogo nos pulmões.

 

York cerrou o punho com força às costas ao encarar o arauto de Somerset. O homem se pusera de joelhos na presença de um duque e do conde de Salisbury, mas o fato de usar a libré de Somerset e não a do rei fez com que York soubesse o que diria antes que abrisse a boca. Sua expressão se fechou ainda mais quando o homem nervoso gaguejou a mensagem que lhe deram. As palavras ditas pelo rei Henrique quando cercado pelos lordes leais soaram muito mais severas na tenda de York.

— ... o senhor deve, então, p-partir imediatamente deste lugar para aguardar o julgamento do rei e...

O arauto pigarreou e esfregou a nuca sob o olhar frio de York.

— ... e rezar pela misericórdia real.

Ele fechou a boca e baixou a cabeça, rezando por seu próprio bem, para não ser surrado nem morto por transmitir uma mensagem daquelas. Lá atrás, na direção da cidade, começava algum alvoroço, com vozes furiosas aos gritos. Tudo parecia muito longe naquele momento, e o arauto engoliu em seco com desconforto.

— Jurado e condenado? — repetiu York com espanto, balançando a cabeça. — O rei Henrique só me oferece a condenação?

— Recebi ordens apenas de repetir as palavras do rei, milorde. Não... Não tenho permissão de acrescentar mais nada.

Os gritos se tornaram um berreiro, e York afastou os olhos do pobre alvo de sua fúria.

— Salisbury? Mande alguém lá ver... Não, vou eu mesmo.

Ele passou pelo arauto sem se dar ao trabalho de dispensá-lo. Salisbury foi atrás de York, e o homem foi deixado na tenda de comando vazia, secando o suor da testa.

York praguejou ao olhar para o campo e ver a barricada da New Lane balançar de um lado para o outro, com gritos e berros soando pelo campo. Conseguia ver arqueiros lutando em torno da construção improvisada, lançando flechas enquanto se esforçavam para manter o equilíbrio.

— Mande seus homens recuarem para fora do alcance — ordenou York, irritado. — Depois convoque os capitães.

Salisbury inclinou a cabeça sem dizer palavra, tomando o cuidado de não demonstrar sinais da própria satisfação. A oportunidade de paz viera e se fora com poucas palavras rudes do rei. Salisbury sentiu vontade de abençoar Henrique naquele momento.

O sol ainda subia quando trinta e dois homens se reuniram ao redor de York. Todos eram veteranos, bem-armados e muito experientes para chegar a postos de comando junto a seus nobres suseranos. Ele viu a determinação sisuda dos homens e escolheu bem as palavras.

— Recebi o arauto do rei Henrique — começou York, fazendo uma fração respeitável da raiva e da traição que sentia soar em sua voz.

Centenas de soldados começaram a se aproximar daquele pequeno grupo de capitães quando perceberam que seu destino estava sendo decidido. As barricadas ficaram para trás, com os arqueiros galeses zombando dos soldados que recuavam. Mais de dez corpos jaziam ao pé dos espinheiros e da madeira empilhada, já esfriando.

— Embora meu objetivo fosse resolver essa disputa sem recorrer às armas — continuou York, com severidade —, isso me foi negado. O rei Henrique tem a seu lado homens maus que só pensam em pisar nos nomes de York e Salisbury. Ah, e Warwick também. — Ele foi tomado pela fúria, sua voz se tornou um rugido. — Não me entendam mal! Minha querela não é com o rei! Não sou um traidor, embora haja alguns pobres coitados que me chamem assim e que chamarão de traidores todos os homens aqui. Não acredito que meu pedido de justiça tenha chegado ao rei; deve ter sido interceptado e recebido por mentirosos e canalhas. Se o rei ouvisse meu apelo, teria me concedido um encontro sob trégua.

York parou para lançar um olhar raivoso aos homens reunidos e ver que suas palavras chegavam a uma vasta plateia. Ele encheu o peito, enquanto Salisbury permanecia em silêncio, observando a raiva do amigo tomar conta de todos aonde quer que chegasse.

— Em vez disso, fui desprezado! Afastado das boas graças do rei por homens mesquinhos. Todos os que estão em Key Field serão caçados e enforcados como traidores, a menos que resolvamos isso hoje. Essa é a escolha que me foi dada. Devo escolher a fuga? Devo deixar o rei nas garras de traidores mexeriqueiros para aguardar um julgamento que será o fim da casa de York?

Era demais para os homens atrás dos capitães. Eles gritaram em seu apoio, um grunhido de palavras malformadas. Muitos nasceram em Yorkshire, leais àquela casa acima de todos os seus outros deveres. Mesmo entre os seguidores vermelhos de Warwick, houve punhos erguidos e vozes gritando para acabar com os conselheiros do rei.

— Eles já derramaram o sangue de homens bons que só desejavam a paz! — vociferou York, apontando para as barricadas e para os cadáveres largados. — Agora terão minha resposta. Terão uma resposta que derrubará seus montes de espinhos e libertará o rei de seu domínio.

Mais e mais homens lhe deram vivas, respirando mais depressa enquanto escutavam, empertigados sobre a terra revolvida.

— A segurança do rei Henrique é responsabilidade minha e de vocês — avisou York a todos. — Ele não sofrerá um arranhão, pela alma e pela honra de cada um. Não sou traidor! E não vejo traidores aqui.

O barulho aumentava a cada momento, e York teve de gritar a plenos pulmões só para ser ouvido.

— Capitães! Retornem aos seus homens. Abriremos uma brecha na cidade e resgataremos o rei Henrique daqueles que o guardam. Vão, cavalheiros, com sua fúria. York guarda a esquerda, Salisbury o centro, Warwick a direita. Formem fileiras por mim agora. Tomem essa cidade para mim. Salvem o rei. Que Deus salve o rei!

Conforme suas últimas palavras ecoavam num grande rugido rouco, os capitães corriam para suas posições, seguidos por centenas de homens, de modo que a multidão pareceu explodir a partir de onde York estava. Levou pouquíssimo tempo para três grupos de mil soldados pegarem armas e armaduras e correrem para entrar em posição diante da cidade.

Salisbury, Warwick e Eduardo, o filho de York, aguardavam juntos em silêncio quando York se virou para eles, o rosto vermelho de tanto gritar. Salisbury balançou a cabeça, espantado.

— Bom Deus, Ricardo. Vi em você seu bisavô. Acho que quem sai aos seus não degenera.

— Lembre-se de que eu queria a paz em primeiro lugar — declarou York, o olhar caindo sobre o filho. Ele manteve os olhos sobre Eduardo, querendo que compreendesse. — Libertarei o rei Henrique daqueles que o mantêm como refém e nada mais. Essa é minha ordem. Podem me chamar de traidor, mas isso eu não serei.

Eduardo engoliu em seco e fez que sim com a cabeça, o orgulho perceptível.

— Fique ao meu lado, rapaz — disse York, suavizando a voz. Ele ergueu a cabeça para dar a ordem formal. — Conde de Salisbury, se me der a honra, sua posição é no centro. Conde de Warwick, a sua é no flanco direito. Há três entradas na cidade, cavalheiros. Todas guardadas e bloqueadas. Aposto que subirei o morro antes de vocês.

Os outros sorriram, como ele queria que sorrissem, enquanto sua expressão ficava séria.

— Protejam o rei, cavalheiros. Acima de tudo e com a própria vida, se for preciso. Nossa briga é com Somerset, Buckingham e Percy, não com Henrique de Lancaster. Deem-me sua palavra.

Os três fizeram um juramento por sua honra, e York assentiu, satisfeito.

— Esta manhã já vai alta. Aproveitemos a luz.