Trindade
Capítulo 19
Salisbury esfregou o rosto recém-barbeado com um pano úmido e frio, fechando os poros e aliviando o ardor da navalha de Rankin. Naquela manhã, não havia feito nenhuma aposta com o criado, e suportou o processo em completo silêncio até se levantar e liberá-lo. Com 60 anos, Ricardo Neville sentia o peso da idade. Toda manhã, passava uma hora realizando exercícios pesados, mantendo o braço da espada forte e as articulações flexíveis. Nunca estivera acima do peso; embora tivesse rugas evidentes na pele flácida do pescoço, ainda não havia gordura para preenchê-las. Mesmo assim, a idade era o que mais o enfraquecia, ainda que trabalhasse para retardar seu progresso. Houve uma época em que toda decisão era simples e ele conseguia prever os acontecimentos seguintes, sabendo exatamente o que queria e a melhor maneira de consegui-lo. Só podia balançar a cabeça ao se lembrar da clareza durante a juventude. A vida era mais simples antigamente, quando sua tarefa era manter a família forte e espalhar a linhagem Neville pelas casas nobres da Inglaterra.
Sua esposa, Alice, entrou com alvoroço no quarto enquanto Rankin saía correndo, e percebeu o humor do marido ao colocar uma travessa de maçãs recém-colhidas sobre a cômoda. O Castelo de Middleham era abençoado com belos pomares, e a cidra feita na propriedade era boa o bastante para ser vendida. Era típico do marido não pensar em vender a bebida, permitindo que os criados a envelhecessem nos barris dos porões do castelo para que a aproveitasse depois.
Alice observou Salisbury terminar de limpar o rosto e o pescoço. Podia ver que ele estava distraído, procurando vagamente um lugar para deixar o pano até que ela se aproximou e o pegou.
— Você parece preocupado — disse, estendendo a mão e tocando o braço do marido.
Estavam casados havia quase quarenta anos e envelheceram juntos no “arreio leve”, como ele dizia. Usara a expressão muitas vezes para diverti-la, uma das várias que pronunciava apenas para vê-la sorrir. O humor talvez tivesse se perdido com o passar dos anos, mas a lembrança e o afeto permaneciam.
— Não me surpreende, com coisas como essa para me preocupar — murmurou Salisbury.
De pé em frente à janela, ele via as terras agrícolas douradas em torno de Middleham que se estendiam até o horizonte, povoadas por figurinhas de homens, mulheres e cavalos cortando e colhendo feixes de trigo dourado nos campos do conde. Em algum outro dia talvez aquela visão lhe trouxesse prazer, uma imagem do mundo funcionando como deveria, com homens colhendo alimento da terra e esperando uma caneca de cerveja ao pôr do sol. Enquanto os primeiros toques do outono bronzeavam as árvores, ele fitava tudo aquilo e muito além.
Alice não precisava perguntar o motivo da tensão do marido. Desde que um mensageiro chegara dois dias antes, o castelo era uma balbúrdia, com vários homens saindo em cavalos velozes para convocar cavaleiros e homens de armas onde quer que estivessem.
— Ricardo de York é meu lorde suserano — começou Salisbury. Ele falava quase para si, embora estivesse com a cabeça virada para a esposa e tocasse o rosto dela. — Eu o fiz chegar perto o bastante do trono para que o tomasse. E, no fim, York não o fez. Se o tivesse tomado, agora não haveria ameaça contra nós, nenhum boato sobre esse Ato de Desonra que pode nos destruir. Maldita indecisão dele, Alice! Quantas vezes um homem precisa receber a coroa até pegá-la para si? York poderia ter se tornado rei em St. Albans, e teria sido o fim dos problemas. Ele foi pacífico demais, ou se acovardou com as paredes da abadia em torno dele. E agora? Quatro anos se passaram em paz, e só o que conseguimos foi deixar o rei se fortalecer outra vez... ou melhor, deixar a rainha retomar as rédeas da situação. E agora isso! Os alicerces da casa de York abalados pelo selo do próprio rei, e eu não tenho escolha, Alice! Nenhuma escolha. Tenho de voltar ao campo de batalha. Tenho de pegar em armas e arriscar tudo o que fiz quando a situação poderia ter sido resolvida há muito tempo.
— Você não fracassará, Ricardo — declarou Alice com firmeza. — Você nunca fracassou. Em todos os seus negócios, os Nevilles prosperaram, por sua mão e por sua inteligência. Você foi um bom pastor para todos... ah, e para outros que não têm nosso nome. Você mesmo disse que treinou mais soldados do que qualquer outra casa poderia sustentar. Não ficou ocioso nos anos de paz! Anime-se com isso, com a perspicácia que o fez trazer tantos à sua bandeira enquanto outros cochilavam!
Salisbury grunhiu, contente com as palavras da esposa. Nunca havia sido de se gabar, mas lhe agradava que ela apreciasse seu talento, mesmo que aquilo só fosse dito em particular.
— Meu pai me disse para nunca travar a mesma batalha duas vezes, Alice. E me avisou que, se vencesse, teria de me assegurar de esmagar meus inimigos de tal forma que nunca pudessem se reerguer.
— E se perdesse? — perguntou ela.
Salisbury sorriu ao se lembrar.
— Fiz a mesma pergunta. Ele disse que, se eu perdesse, colocaria meu destino nas mãos de outros homens. A resposta era sempre não perder. — Então ele suspirou, balançando a cabeça. — Mas aqui estou, obrigado a apoiar York na guerra, quando um único golpe ou flecha pode dar fim a tudo. Estou velho demais para isso, Alice. Sinto na rigidez das articulações, na lentidão do pensamento. É um caminho para ser percorrido por homens mais jovens. Eu optaria por ficar aqui em paz e observar a colheita.
Alice conhecia o marido muito bem e sabia escolher as palavras com cuidado, cutucando-lhe a vaidade para afastá-lo daquele humor sombrio.
— Talvez você devesse permitir que nosso filho comandasse os homens. Tem notícias da volta de Ricardo de Calais? Se ele estivesse aqui, você sabe que ele não se recusaria, meu amor. Ele levaria os estandartes dos Nevilles junto dos de Warwick.
Alice observou o maxilar do marido enrijecer, o olhar se aguçar.
— Ele é um bom comandante — comentou Salisbury. — Meu coração se alegra quando me lembro do modo como liderou seus homens em St. Albans.
— E os seus, amor. Eles o seguiram quando ele tocou as trombetas. Você me contou como ele ficou bem de vermelho.
Salisbury mordeu o lábio inferior ao se lembrar daquilo, o queixo se projetando um pouquinho enquanto erguia a cabeça.
— Mas ele ainda é jovem, e talvez ainda não esperto o suficiente em sua juventude.
Alice escondeu o sorriso e concordou.
— E passou três anos na França, enquanto fiquei de olho em todos os boatos dessa corte de Lancaster. Não, devo comandar, Alice. Warwick terá sua oportunidade, e não vai demorar. Ele não virá a mim com a notícia desses Galantes da Rainha marchando e treinando. Esses Galantes do Rei cavalgando pelo norte e juntando arcos, piques e maças de ferro. Onde estaríamos sem os homens que pago para me passar essas informações? Perdidos, Alice. Só Deus sabe se o rei deixará o leito algum dia. Há mais de um ano não tenho ninguém em Kenilworth para me dizer como ele está. Dois jovens fortes, ambos mortos em acidentes? O jovem John Donnell se enforcou, embora eu soubesse que ele era uma pessoa alegre, nada melancólico. Sir Hugh Sarrow foi encontrado morto numa casa de má fama. Foi bastante estranho um homem receber um corte daqueles no leito, Alice. Eu soube há dois anos que tinha de reunir cavaleiros e homens de armas, por mais absurdo que fosse o custo. Eles tentaram arrancar meus olhos. Mas eu sabia. Se me queriam cego, devia haver algo que não queriam que eu visse. Não, é a rainha, aquela loba, por trás dessa ameaça, não Henrique. Aquele pobre homem alquebrado está à mercê dela e à mercê dos cortesãos e do conselho dela. Não duvido que os filhos de Percy ainda sintam a perda do pai. Eles planejaram tudo isso... e eu tenho de responder ou ver o trabalho de toda uma vida ser jogado ao fogo.
— Muito bem, Ricardo — disse Alice. — Fico contente de ouvi-lo dizer isso. Você manterá nosso filho a salvo, espero.
— O melhor que puder. Se Deus quiser, acabaremos com isso. — Ele baixou a cabeça um pouco, fazendo sombras passarem por seus olhos. — Estou lhe dizendo, Alice, se Henrique tiver de cair, não evitarei ajudar no processo, como fez York. Não com minha casa e meus títulos em risco. Darei o golpe que acabará com essa guerra de sussurros e segredos. Pois, se York cair, Salisbury será o próximo... e depois Warwick. Um Ato de Desonra levará a outros, e seremos arrasados na Inglaterra. Morrerei antes de permitir isso.
— Raposa velha — disse ela, avançando para seu abraço, e ele a envolveu e descansou o queixo sobre a cabeça dela. — Volte para mim a salvo quando acabar. É tudo o que peço.
— Voltarei — disse ele, respirando fundo com os lábios apertados no cabelo dela. Salisbury a sentiu tremer sob seu toque. — Psiu! Não tema por mim, amor! Tenho três mil homens, e York mais dois mil. Nosso filho trará dois mil com seus tabardos vermelhos, quase metade desse número da guarnição de Calais. Sete mil, Alice! E não são camponeses acostumados a foices e enxadas, mas bons soldados de cota de malha. Uma faca de ferro, meu amor, para golpear ou bloquear as tropas da rainha. Não fomos chamados para o Grande Conselho de Coventry? Por ordem do próprio rei, tenho permissão de levar meu exército por terra; eles que foram tolos por permitir. Não nos deslocaremos à noite, mas durante o dia, uma reunião por ordem real. Estou lhe dizendo, antes que a neve caia destruirei meus inimigos. Derrotarei e dispersarei todos eles, como as sementes fracas da linhagem fraca que são. Por minha honra, Alice, eu o farei.
O mar estava trinta quilômetros para trás, embora Warwick ainda conseguisse sentir seu cheiro nas roupas, aquela mistura de umidade velha e sal limpo que, de certo modo, nunca deixava de animá-lo. Desde a França, a pele fora açoitada pela espuma na travessia, e ele sentia o amargor no antebraço nu. No círculo de tochas, ergueu a caneca de estanho e brindou com os homens enquanto Eduardo de March fazia outro cavaleiro cair de costas, grunhindo. A primeira noite em solo inglês em quase quatro anos havia sido muito mais longa para os seiscentos homens de Calais. Alguns choraram ou dançaram ao chegar ao reino de seus pais, abaixando-se para tocá-lo e acariciá-lo ou para juntar um punhado de terra numa bolsa. Eles sofreram a queda da França dez anos antes, além de temporadas inteiras sem soldo, quando toda a Inglaterra parecia ser consumida pelas chamas. Não eram jovens, nenhum deles, mas veteranos grisalhos, a quem os prazeres do lar foram negados por tanto tempo que não se lembravam mais de nenhum conforto. Andrew Trollope, o capitão, fora forçado a limpar as lágrimas dos olhos com os nós dos dedos quando Warwick lhe disse que enfim voltaria para casa.
Warwick observou com prazer o filho de York se esquivar de um bastão que era manejado com selvageria e enganchar a perna do homem com a mão livre, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sobre outros dois. Sempre havia perigo numa peleja, mesmo com bastões de madeira em vez de maças ou lâminas. Mas, a poucos meses de completar 17 anos, o conde de March fazia cavaleiros mais experientes parecerem crianças — e os homens que assistiam o amavam por isso, dando vivas a cada golpe. Warwick ouvia a risada de Eduardo vindo de dentro do elmo, o som surpreendentemente alto e grave para alguém tão jovem. Não pela primeira vez, Warwick mal podia esperar para ver a expressão de York quando visse o gigante que o filho tinha se tornado. Com um metro e noventa e robusto, Eduardo superava até a altura lendária de seu homônimo, o rei conhecido como “Pernas Longas”. Warwick havia sido forçado a contratar os melhores artífices da França para envolver o conde em ferro conforme crescia. Porém, enquanto outros meninos talvez fossem enfraquecer com um crescimento tão veloz, March chegara à idade adulta em meio aos veteranos de Calais, treinando com eles todos os dias e aprendendo todos os truques cruéis que puderam lhe ensinar para usar no campo de batalha.
Warwick viu os dois companheiros mais leais do jovem conde darem vivas com os outros, acompanhando cada movimento com olhos experientes. O ferreiro Jameson era um dos maiores homens que o conde já vira, embora até ele tivesse de erguer os olhos para March quando se encontravam. Sir Robert Dalton assumira o treinamento com espadas de toda a guarnição de Calais, afirmando que nunca tinha visto tantos homens preguiçosos e enferrujados em toda a sua vida. A lealdade dos dois ao filho de York era óbvia e evidente, misturada a orgulho quando o viam lutar. O conde seria um terror na guerra, disso Warwick tinha certeza. Sua cabeça e seus ombros ficavam acima da maioria dos homens adultos, e ele conseguia atacar com tanta força que, geralmente, um golpe era o suficiente.
Ao lado de Warwick, o capitão Trollope sorria, já bêbado com a cerveja e o hidromel da primeira taverna que haviam encontrado no litoral naquela manhã. Os homens de Calais avançaram rápido o suficiente para rolar os barris pela rua quando deixaram o mar para trás.
— Ninguém aposta contra ele, não mais — comentou Trollope, erguendo a caneca e batendo-a na de Warwick. — À sua saúde, milorde. Já venci dele várias vezes no começo, mas agora? Nem mesmo quando enfrenta três ou quatro homens ao mesmo tempo.
O último dos cavaleiros combatentes viu a oportunidade de segurar a perna do jovem conde. Avançou sobre ela, mas se percebeu erguido no ar, e foi deixado cair com o metal fazendo um estrondo, o que o deixou zonzo. Suas mãos se balançavam debilmente, como um besouro virado de costas. O grupo de soldados gritou de satisfação, e Warwick teve de sorrir quando March veio cambaleando e se deixou cair com um barulho alto no capim ao seu lado. Ofegava, seu corpo emanava calor em ondas, como se eles estivessem sentados perto demais de um forno. Warwick viu Sir Robert e Jameson se levantarem de seu lugar no círculo de tochas para se unir ao jovem sob seus cuidados, que pediu canecas de cerveja para os três.
O filho de York lutava contra o elmo e se queixou, com a voz abafada, que a coisa havia emperrado. Ele forçou mais e mais até que o metal rangeu e algo estalou, revelando o rosto corado e a juba de cabelos pretos e revoltos.
— Minha nossa, achei que nunca sairia! Terei de mandar o ferreiro dar uma olhada antes de voltar a vesti-la. Viu, Ricardo? Capitão Trollope? Ah, Sir Robert! Sente-se aqui ao meu lado, por favor. Viu aquele último? Eu conseguiria jogá-lo por cima de um celeiro. Mas ele quase pegou minha perna, se tivesse força suficiente para levantá-la.
Warwick sentiu cheiro de cerveja, doce e forte, no hálito do conde que ofegava. Ele passou uma caneca cheia para as mãos protegidas por manoplas e observou, achando divertido, Eduardo esvaziá-la e depois cobrir o lábio superior com o inferior para tomar a espuma. Era esquisito erguer os olhos para um homem estando ambos sentados. Desde o último estirão de crescimento, Eduardo passara a ter músculos que davam a guerreiros experientes vontade de olhar para os pés em sua presença. Combinados à juventude, isso poderia torná-lo aterrorizante, se não fosse seu bom humor. Mais de uma vez, Trollope o comparara a um de seus mastins de Calais — cães imensos levados da Inglaterra para formar a raça havia cerca de um século. Os enormes animais não tinham maldade nenhuma, talvez porque nenhum outro cão conseguisse deixá-los com medo.
Enquanto Warwick se preocupava com as cartas do pai que o convocavam a voltar para casa, o filho mais velho de York parecia ver tudo aquilo como uma grandiosa aventura, motivada pelo desejo de voltar a ver o pai e a mãe. Warwick hesitou quando March soltou um grande arroto. Ele se perguntou se não deveria lembrar ao rapaz que os modos da guarnição talvez não servissem para os círculos da corte. Mas balançou a cabeça com um sorriso irônico. Aos 30 anos, ele não era pai de Eduardo nem de nenhum rapaz, embora fosse gostar disso. Tinha duas filhas aos cuidados da esposa e, quando olhava para o cavalão que era o filho de York, era difícil não sentir uma pontada de arrependimento. Ele deixou a tristeza de lado. Ainda havia tempo para gerar uma ninhada de meninos e, na verdade, Eduardo era mais como um irmão mais novo, esperando a aprovação de Warwick em tudo o que fazia.
Warwick e o capitão Trollope trocaram um olhar divertido quando o conde engoliu mais duas canecas tão grandes quanto a primeira, deixando a cerveja escorrer pelo queixo e pelo peito.
— Vamos levantar acampamento e marchar cedo, Eduardo — avisou Warwick, contra toda sensatez. — Vai ser difícil cavalgar com tanta cerveja aí dentro.
— Estou morrendo de sede, é só isso — respondeu o outro, pedindo que lhe trouxessem mais uma. — Erguer homens no ar seca a garganta.
Warwick deu uma risadinha e desistiu. Por experiência, sabia que no dia seguinte o conde estaria gemendo e perguntando por que não o impediram, embora nunca fosse fácil impedi-lo de fazer o que quisesse. Apesar de todo o bom humor, Eduardo tinha um temperamento feroz, contido e arreado. Os homens sentiam isso e se afastavam. Como um mastim de Calais, ninguém com bom senso gostaria de ver aquele mau humor à solta.
Para surpresa de Warwick, Eduardo despejou a quarta caneca no capim e dispensou com um gesto o criado que a encheria de novo.
— Muito bem, basta. Meus sentidos estão zonzos e não serei o preguiçoso que vai nos atrasar amanhã. Quantos dias até Ludlow, até eu ver meu pai?
— Oito ou dez, dependendo do terreno — respondeu Warwick. — As estradas estão boas, e podemos fazer trinta quilômetros por dia, mais se cortarmos caminho a oeste de Londres.
— Então serão oito — disse o rapaz, fechando os olhos um momento porque a cerveja o havia deixado tonto. — Meu pai precisa desses homens, e ficarei com ele. Vou marcar o ritmo, Warwick. Você só precisará me acompanhar.
Warwick aceitou a presunção sem comentários, sabendo que March era mais que capaz de cumprir o que prometia. Os arquivistas de Calais tinham explicado o que o Decreto de Desonra significava. A ameaça à casa de York também poderia envolver o conde de March. As propriedades e rendas que Eduardo já possuía poderiam ser tomadas dele, além da ferida mais dolorosa de lhe negarem o nome de York e o ducado que esperava herdar.
O capitão Trollope se remexeu, relaxando as pernas que enrijeciam quando se sentava. Com 50 anos, sentia-se velho e quase tão coberto de musgo quanto uma montanha quando comparado a Warwick e ao filho de York. Ainda assim os dois jovens o levaram de volta à Inglaterra, e ele lhes era imensamente grato.
— Rezo, milordes, para que esse Decreto de Desonra possa ser derrubado sem precisarmos recorrer às armas. Ouvimos falar de St. Albans, mesmo na França. Soubemos que York salvou o rei de seus conselheiros tenebrosos, arrancando-o de seu controle e levando-o para a proteção da abadia. Foi uma façanha nobre. O pai do rei teria adorado o homem que salvou a vida do filho, disso não tenho dúvidas.
— Você conheceu o antigo rei Henrique? — perguntou Warwick, erguendo as sobrancelhas.
O capitão fez que não.
— Eu era apenas um menino quando ele morreu, milorde, mas gostaria de ter conhecido. Nunca houve homem tão bom quanto o velho rei Henrique, que conquistou a França para nós.
— E homens como Somerset e Suffolk a perderam — respondeu Warwick. — A verdade é como lhe contei. Esse rei Henrique não passa de um menino, embora habite o corpo de um homem. Ele está cercado de cortesãos e lordes que agem em seu nome, cada um deles um rei se assim desejar. Salisbury, meu pai, viu a verdade quando derrotou Percy e Somerset. Agora eles ficaram ousados outra vez, gente arrogante provocada e mantida por uma rainha francesa.
O capitão Trollope enrubesceu e desviou o olhar em vez de responder. Em épocas normais, a rainha Margarida estaria além de qualquer culpa ou censura, considerada muito acima das manobras sórdidas de lordes e cortesãos da Inglaterra. Até uma sugestão de crítica deixava o capitão pouco à vontade. Antes que Warwick pudesse aliviar sua sensibilidade ferida, Eduardo falou. Depois de tanta cerveja, sua voz estava alta demais, e ele não abria os olhos.
— Se vão decretar Atos de Desonra, estes deveriam ser contra Percy, Egremont e Somerset. Nossos pais arrancaram a cabeça das serpentes, mas os filhos as substituíram. Seria melhor queimar esses nomes dos pergaminhos para que não pudessem se levantar outra vez. Não cometerei esse erro quando tudo acabar. — Então Eduardo abriu os olhos vermelhos e fitou os homens em volta. — Meu pai salvou o rei e o salvará de novo, mas mostrou misericórdia com casas que deveriam ter caído em desonra e ter sido destruídas. Esse erro eu não cometerei.
Seguiu-se um momento de silêncio, e Warwick pressionou os lábios, o discurso arrogante do rapaz o irritou sobremaneira. Para sua surpresa, foi o capitão Trollope quem respondeu.
— Os ingleses de Calais ficarão ao seu lado, milordes. Isso juramos. Não contra o rei, é claro, porque seria traição, mas sem dúvida contra aqueles que usam seu nome.
Warwick percebeu a preocupação do homem mais velho, assoberbado por toda aquela conversa de política e casas nobres. Nada era tão simples quanto um inimigo claro a ser enfrentado e esmagado.
— O rei Henrique não irá a campo de batalha — declarou Warwick com firmeza. — Ele é como uma criança ou um monge, dedicado ao sono e à oração da aurora à escuridão. Não precisa temer por sua lealdade nem por seus juramentos enquanto o rei Henrique dorme a salvo em Kenilworth. Tudo o que nos espera é enfrentar e vencer os homens que governariam em seu nome, como você disse. Iremos a Ludlow e eles virão a nós. Será difícil e sanguinolento, mas estaremos de pé quando acabar.
— Nós os destruiremos — acrescentou Eduardo, deitado no chão e bocejando. — E York continuará com sua honra. Então me lembrarei dos amigos... e dos inimigos.
O mensageiro chegou a Kenilworth no meio da noite, despertando o castelo e tirando a rainha Margarida da cama. Ainda de robe, ela recebeu o rapaz na sala de audiências, em pé, com os cabelos presos e o rosto rosado e marcado de sono.
— Vossa Alteza, tenho notícias do barão de Audley. Ele mandou que eu lhe dissesse a palavra “Represália”.
Apesar da tensão, Margarida deu uma risadinha. Sabia que só Derry Brewer sugeriria o nome de seu amado pangaré como senha para algo tão grave. O mensageiro olhou para ela sem expressão.
— Fale, então — disse ela. — Servirá.
O cavaleiro era um homem experiente. Ele fechou os olhos e recitou o que lhe mandaram decorar para que a mensagem não corresse o risco de ser interceptada caso fosse escrita. Sem que soubesse, outro mensageiro chegaria dali a uma hora com a mesma mensagem — garantias de Derry para o caso de algum deles se perder.
— Vossa Alteza, Salisbury está se mobilizando. Ele começou a marchar para Ludlow, ao sul. Os Galantes da Rainha estarão em seu caminho, impedindo-o de unir seus homens aos de York. O paradeiro de Warwick e March ainda não é conhecido. Lorde Audley pede respeitosamente que Buckingham, Percy, Egremont e Somerset sejam informados e que os Galantes do Rei sejam preparados para ir a campo. Além disso, o conde deseja que Deus lhe abençoe e boa sorte.
O mensageiro abriu os olhos, o suor escorrendo de alívio por cumprir a missão.
— Você voltará para o lado de lorde Audley? — perguntou Margarida.
O homem fez que sim, empertigando-se apesar do cansaço.
— Diga-lhe que os Percys e Somerset estão com os Galantes do Rei em Coventry, armados e prontos para marchar. Buckingham e meu marido irão a campo com eles. Diga a Audley que Deus lhe abençoe e lhe deseje toda a boa sorte. Isso é tudo. Gostaria que você fosse alimentado e que descansasse agora, mas o tempo é curto. Meu mordomo encontrará algo que possa comer na viagem de volta.
— Vossa Alteza é muito generosa — respondeu o mensageiro cansado, fechando os olhos mais uma vez enquanto murmurava a mensagem para si mesmo, guardando-a na memória.
Ele saiu da sala quase correndo, e deixou Margarida mordendo o lábio e pensando no que teria de dizer e fazer para despertar o marido. Henrique era fundamental naquilo tudo, e não usava armadura desde St. Albans.