Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 30 de 41

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Trindade

Capítulo 24

 

 

A primavera chegou à costa francesa, trazendo uma brisa suave e um céu azul cheio de cormorões e gaivotas. A frota roubada se mostrara fundamental para subir o litoral da Inglaterra e recolher soldados e lordes leais à causa yorkista. Em junho, a fortaleza de Calais transbordava de soldados ingleses, amontoados em todos os espaços e estábulos vagos. Dois mil deles atravessariam o canal da Mancha para invadir, deixando oitocentos para trás. Como último território inglês na França, Salisbury e Warwick não queriam ser responsáveis pela perda da fortaleza em sua ausência. As muralhas de Calais tinham de ser bem guarnecidas, não importava o que estivesse em jogo.

Warwick não ficara ocioso nos meses transcorridos desde o passeio até Kent. As palavras do vigia o interessaram, e raramente se passava uma noite sem que alguma pequena coca se esgueirasse pelas águas escuras, levando os melhores porta-vozes que conseguia encontrar. No decorrer da primavera, encontravam-se homens de Warwick em todas as cidades e aldeias de Kent, clamando pelos que desejavam vingar Jack Cade e retribuir a selvageria de Ludford. Dez anos antes, Cade invadira Londres com uns quinze mil homens. Embora alguns fossem de Essex e de outras regiões, o rei e seus oficiais eram tão pouco populares em Kent quanto uma década antes. Uma nova geração de meninos havia crescido sob o jugo de punições cruéis e tributação violenta. Depois da triste notícia dos Decretos de Desonra baixados contra York, Salisbury e Warwick, todas as notícias que este recebia ajudavam a reanimar seu espírito.

No fim de junho, eles estavam prontos. Só o mau tempo os mantinha no porto, o mar revolto demais para arriscar a travessia. Preocupado com o juramento que havia feito a York, Warwick se irritava com cada dia perdido, mas era preciso esperar a ventania passar. A frota de quarenta e oito barcos pequenos conseguiria levar os dois mil soldados para o outro lado de uma só vez, com metade da guarnição de Calais utilizada para levar as embarcações de volta à França. Após a deserção do capitão Trollope, que foi para o lado do rei, aqueles homens se esforçavam ao máximo para ajudar os condes.

Enquanto marchavam para os barcos e remavam para as embarcações maiores, Warwick se sentia fascinado ao pensar em homens como César, que fora forçado a construir uma frota para levar suas legiões até Kent, mil e quinhentos anos antes. O alvo era o mesmo: Londres. Além da guarnição real, que não ousavam deixar às suas costas, Londres significava o Parlamento, o único grupo com poder para reverter os Decretos de Desonra. Londres era a chave da Inglaterra, como sempre havia sido.

O vento soprava com força na direção do litoral inglês quando a frota zarpou. Nuvens cinzentas estavam baixas no céu, e a garoa constante gelava os homens amontoados nas embarcações. No entanto era um percurso curto, e eles conseguiram ver o ponto de desembarque após cerca de uma hora no mar. Um a um, os barcos se aproximaram, com o máximo de velas que ousaram içar. Os capitães não podiam levar as embarcações até a praia, temendo romper o casco. Os homens demoraram para se posicionar nos barcos menores e, o tempo todo, a milícia local podia ser vista correndo pelo cais e pelas docas, reunindo soldados para rechaçar a invasão. Eram pouquíssimos para enfrentar tantas embarcações cheias que desembarcavam ao mesmo tempo. Um breve combate se desenrolou antes que a milícia desistisse, deixando corpos no cais e mais homens fugindo.

Warwick desembarcou um pouco mais abaixo no litoral; estabeleceu uma posição defensiva numa longa praia de cascalho e colocou os arqueiros em formação. Sem combate, ele e seus homens marcharam de volta ao porto de Sandwich e o ocuparam, observando as embarcações darem meia-volta e içar as velas, seguindo para o mar revolto e o vento que ficava mais forte. Mesmo então, havia centenas de pequenos barcos ainda remando para a margem, em número tão grande que ondulavam juntos, como madeira à deriva. Alguns tiveram pouca sorte e a embarcação frágil virou ao ser pega por uma onda. Os homens que caíram no mar com cota de malha não voltaram a ser vistos.

Perto do ponto onde Warwick tocara sua terra natal, duas cocas mercantes foram levadas até o cascalho. Quando os barcos se inclinaram e pararam, os capitães lançaram pranchas do ponto mais baixo do convés para que doze cavalos de guerra vendados fossem a passo até terra firme. Aqueles barcos apodreceriam onde estavam, mas homens como Salisbury estavam velhos demais para marchar os cem quilômetros até Londres.

O sol se punha quando a última embarcação da frota desapareceu na neblina e nas nuvens sobre o canal, deixando-os a sós. Na garoa fina, os homens se instalaram junto de fogueiras na praia e nas docas. Comeram, beberam e se cobriram o melhor possível, tentando aproveitar algumas horas de sono.

Com o retorno do sol, uma coluna de homens entrou marchando na cidade. Soldados pularam em torno de Warwick, prontos para um ataque. Mas não era a milícia local que voltava para repelir seus homens, nem mesmo parte das forças do rei. A notícia do desembarque já havia se espalhado, e centenas de homens de Kent chegavam com machados, piques e clavas. Eles pararam junto às docas, e Warwick só conseguiu sorrir ao aceitar a seu serviço, por quatro centavos ao dia, o vigia Jim Wainwright. O exército dos condes começou a se deslocar para oeste, e aquelas primeiras centenas se tornaram milhares, e seu efetivo aumentava a cada cidade por onde passavam.

A cavalo, Warwick e o pai cumprimentavam a multidão que os aclamava em cidades e aldeias, famílias de Kent os saudando como salvadores e não como inimigos da Coroa. Era estonteante, e Warwick mal podia acreditar no sucesso de seus recrutadores. Os homens de Kent tinham se erguido novamente, e desta vez ele era a fagulha. Não pôde deixar de pensar em quantos saberiam que os havia combatido na última noite escura em que entraram na capital.

Ele não deixou de notar a ironia da situação. Nos mesmos passos de Jack Cade, ele teria de reuni-los em Southwark e atravessar a Ponte de Londres, seguindo para a Torre, a única força capaz de impedir seu avanço.

 

Eles chegaram à margem sul do rio de Londres na tarde do terceiro dia, depois de três marchas forçadas. Warwick ordenara a contagem e descobrira que mais de dez mil homens de Kent tinham se unido a ele. Talvez estivessem sem armadura e não fossem treinados, mas Cade usara homens como aqueles com bastante competência. Warwick se recordava muitíssimo bem daquela noite de sangue e caos.

Com seu pai e Eduardo de March, Warwick rumou diretamente para a extremidade sul da Ponte de Londres, ignorando a multidão da cidade que assistia a tudo como se fosse um dia de feira.

— Não vejo homens do rei — comentou Salisbury. — Os nossos estão cansados, embora os mais fracos tenham ficado para trás ainda ontem. Eu os levaria para dentro.

Seu orgulho ficava evidente ao olhar para o filho, aceitando que a decisão seria de Warwick.

A imensa hoste de homens de Kent tinha vindo por causa dos recrutadores de Warwick. Eles esperavam ordens do jovem conde, não do pai. O filho de York fez o mesmo. Salisbury tivera uma revelação ao ver os grupos no desembarque. Podia confiar no comando do filho. Exigia certo esforço, mas ele nunca fora idiota de assumir uma autoridade além do quanto devia. Apesar de toda a experiência em combate, Salisbury havia descoberto que recuaria e cederia o comando ao seu herdeiro, embora não a outros homens.

Warwick sentiu a satisfação do pai e agradeceu por dentro pelos anos que passara em Calais. Todo pai se lembra de quando o filho roubou, mentiu ou se fez de idiota com algum amor juvenil. A possibilidade de se distanciar por alguns anos havia permitido que o caráter de Warwick fosse construído longe daqueles olhos exigentes.

— As melhores informações que temos calculam a guarnição da Torre em mil homens — avisou Warwick. — Eles podem se render, embora eu tenha pouca esperança de que isso vá acontecer. Só sabemos que não podemos deixar que saiam de Londres para investir contra nós. Forçaremos a entrada ou os manteremos atrás de suas muralhas. Os senhores conhecem o plano. Rapidez é tudo, se quisermos ter alguma chance de sucesso. Cada dia que perdemos aqui é mais um dia para as forças do rei crescerem e se prepararem.

Ele não mencionou os Atos de Desonra, que haviam sido sancionados. Naquele momento, 5 de julho de 1460, todos os seus títulos e propriedades lhes foram arrancados. Embora não falassem daquilo, todos sentiam a perda como uma ferida aberta que sangrava até empalidecerem. Mas, depois de Ludlow, o exército do rei teria se dispersado e voltado a fazendas e outras propriedades. Warwick e o pai apostavam num único ataque ao reino, em chegar ao rei Henrique antes que seus lordes pudessem se reunir outra vez. Depois disso, quando tivessem o rei e seu selo real, tudo o que tivesse sido definido poderia ser revertido.

Eduardo de March escutara, observando o orgulho entre pai e filho. Ali ficou como uma estátua de armadura, sem o elmo. Ele também havia cavalgado desde a costa, o cavalo mais adequado a puxar arados do que a carregar homens. O animal pastava o capim a alguma distância, enquanto o mar inquieto de homens de Kent batia os pés e esperava entre as fileiras cobertas de armadura. Havia uma sensação de expectativa no ar; todos podiam senti-la. Assim que atravessassem aquela ponte, a marcha agradável pelo campo terminaria.

— Não vou passar outra noite no chão frio quando posso descansar numa boa cama, com carne e cerveja — declarou Eduardo. — Hoje os homens chegaram até aqui. Cansados ou não, marcharão mais um quilômetro.

Comparado a Salisbury, Eduardo ainda estava descansado, sua força e resistência quase sem limites. Havia sido o primeiro a acordar em toda aurora, levantando rápido e mijando alegremente antes de vestir as partes da armadura e gritar para os criados lhe levarem comida. Warwick não podia condená-lo pelo entusiasmo, embora, na verdade, a energia do jovem conde pudesse ser cansativa caso se ficasse tempo demais em sua presença.

— Muito bem — disse Warwick. — Vejo que vocês dois não ficarão satisfeitos enquanto não estivermos na cidade. Traga os cavaleiros e os homens de armadura para a vanguarda, Eduardo. Cade enfrentou arqueiros, e quero os escudos prontos.

— Parece bastante seguro — comentou Eduardo, espiando entre as casas e os estabelecimentos de seu lado da ponte. — Eu poderia atravessar agorinha mesmo.

Ele deu um passo, e a expressão de Warwick se fechou.

— Quando estiver no comando, Eduardo, faça o que quiser. Até então, fará o que eu mandar.

O jovem conde enfrentou seu olhar sem constrangimento, deixando o momento de silêncio se alongar.

— Então mande outra pessoa buscar os cavaleiros. Acho que serei o primeiro a entrar na cidade. Pela honra de meu pai.

Warwick se retesara sob o olhar fixo do gigante. Ele enrubesceu de leve, trincou os dentes e assoviou para que um mensageiro levasse a ordem. Sua autoridade havia sido questionada diante de seu pai, mas a verdade era que seriam necessários muitos homens para deter o conde de March caso ele decidisse defender sua posição. Não era hora de brigar, e Warwick escolheu a prudência, embora sua voz estivesse tensa quando passou a ordem de entrar em formação.

Os soldados vieram correndo, com armas e escudos prontos. Atrás deles, a hoste de seguidores de Kent se reuniu, os veteranos do exército de Cade contando a quem quisesse escutar histórias da última vez. O estado de espírito era alegre, e só Warwick avançou rigidamente quando as trombetas soaram e as primeiras fileiras pisaram na rua larga que corria pelo meio da Ponte de Londres.

Tinham entrado na cidade, e a multidão ainda acenava e dava vivas enquanto atravessavam o rio e chegavam às ruas além. Warwick vociferou uma ordem, e a vanguarda de homens de armadura se virou para a direita, seguindo para a Torre e para a guarnição real.