Trindade
Capítulo 22
Os homens de Salisbury chegaram mancando a Ludlow, com os pés doídos e extremamente cansados. O conde que seguiam os pusera em marcha forçada por oitenta quilômetros, impelido pelo medo terrível de encontrar o castelo de York sob ataque. Chegaram mal capazes de se manter de pé, muito menos de lutar, mas não havia sinal de um exército sitiante. Salisbury agradeceu aos capitães e lhes permitiu acampar ao lado dos quatro mil que já estavam lá.
Os soldados de York observaram os homens famintos de Salisbury se amontoarem em torno das panelas no fogo ou simplesmente se deitar no capim para dormir. Os recém-chegados não tinham carroças depois da marcha forçada. Quando a lua surgiu baixa no céu, centenas de sargentos de York foram até os grupos amontoados de homens cansados para distribuir cobertores, água, cerveja e carne, o que quisessem, em troca de notícias da batalha.
A chegada do exército de Salisbury aumentou a tensão no grande acampamento em torno de Ludlow. Novas linhas de estacas de madeira afiadas foram instaladas, e muitos homens abençoaram o rio que passava a oeste e sul do castelo, forçando qualquer inimigo a vir do leste.
As carroças de Salisbury chegaram no dia seguinte, permitindo aos homens que armassem barracas e devolvessem as que tinham pego emprestadas. Os feridos que vieram andando chegaram da charneca no outro dia, cambaleando e desmoronando aliviados ao ver os hectares de barracas em torno da fortaleza de York. Um total de oitocentos homens faltaram à chamada, enquanto muitos outros mal passavam de fardos para os curadores e seus suprimentos.
Na noite do terceiro dia, os batedores de York chegaram com a notícia que todos sabiam que viria. Os Galantes do Rei tinham sido avistados a vinte quilômetros dali. Todos os seis mil homens em Ludlow fizeram uma boa refeição, consertaram o equipamento quebrado e afiaram as lâminas. Os que tinham cavalos cuidaram deles, enquanto a hoste de arqueiros assumiu posição nos flancos do castelo. Mais uma vez, as carroças de Salisbury formaram uma barricada, bloqueando o caminho de Ludford, ao sul, do outro lado da ponte.
Quando a noite caiu, o exército de York teve um sono perturbado, agitado por gritos e pesadelos antes de voltarem a dormir e escapar das horas escuras. Ludlow era a fortaleza, mas o rio protegia tão bem sua retaguarda quanto os muros de pedra atrás deles. Todos os soldados sabiam que, no fim, teriam permissão de correr para a proteção das muralhas — mas, se isso acontecesse, a batalha estaria perdida, e sem dúvida o castelo cairia. Eles eram o escudo e a espada, não as ameias de Ludlow. A mudança de guarda foi à meia-noite e, nessa hora, uma leve geada fez o acampamento cintilar. Os guardas agitavam os pés e sopravam as mãos, aguardando a aurora.
A lua sumiu ao sul, seu brilho desaparecendo depressa. Conforme a escuridão e a luz das estrelas desapareciam do céu com os primeiros tons de cinza do dia, Salisbury e Warwick subiam a escada até o ponto mais alto para fitar o leste. York e Eduardo de March já estavam lá, conversando em voz baixa, quando os Nevilles, pai e filho, chegaram ao último degrau.
— Venham cá e os verão — disse York com um gesto.
Salisbury franziu os olhos para a obscuridade e avistou pontinhos de luz minúsculos à distância, mexendo-se e disparando de um lado para o outro.
— Quantos? — perguntou Salisbury, uma pergunta tanto aos mais jovens de olhos aguçados quanto ao próprio York.
— Todos os que você deixou vivos na charneca mais as forças do rei — respondeu York.
Ele gritara e ralhara na primeira noite, ao saber quantos Salisbury permitira que escapassem. O amigo havia suportado a arenga, sabendo que era proveniente do medo. Era verdade que Salisbury poderia ter perseguido e matado os Galantes da Rainha que fugiam dele. Poderia também ter sido vencido por eles quando se reagrupassem e contra-atacassem. Em vez disso, tinha escolhido seguir o plano original e reforçar Ludlow. Não fazia sentido desejar que as escolhas tivessem sido diferentes.
Lá longe, a linha de tochas não parava de aumentar, espalhando-se pelo horizonte até os quatro homens só conseguirem fitar em um silêncio austero. York conhecia melhor que ninguém a terra a leste, e era o mais afetado, esfregando a nuca e balançando a cabeça.
— Ainda pode ser um truque. Talvez homens espalhados para levar as tochas, para que pareçam um exército maior do que realmente são.
Ele não acreditava nisso, e nenhum dos outros respondeu. O sol revelaria a extensão do exército do rei diante de Ludlow.
— Ludlow nunca foi vencida — declarou York depois de algum tempo. — Essas muralhas durarão muito mais que nós todos, não importa quantos fazendeiros e curtidores eles encontraram para marchar contra elas este ano.
O céu atrás do exército que se aproximava se iluminava lentamente, claro e pálido. York enrijeceu quando começou a perceber as formas escuras dos canhões puxados junto do exército. Logo que passou a conseguir discerni-los, tentou ver mais longe, inclinando-se sobre as pedras até Salisbury ficar com vontade de segurar o braço do duque antes que ele caísse. Doze serpes pesadas foram arrastadas na direção de Ludlow, cada uma delas capaz de lançar uma bola de ferro um quilômetro e meio no ar. Contra muralhas de castelos, mesmo as de Ludlow, provocariam uma destruição terrível.
— Vieram para acabar conosco — murmurou Salisbury.
Ele sentiu a raiva de York com suas palavras, mas a luz antes da aurora era forte o suficiente para que todos vissem a extensão das forças do rei. Mal conseguiam distinguir os estandartes nobres no cinza suave, porém o efetivo era assustador, pelo menos o dobro dos homens que estavam reunidos em nome de York.
— Vejo as cores de Percy — disse Eduardo, apontando. — Lorde Grey está lá. Exeter. Buckingham. Somerset à esquerda, estão vendo? Aquele é o estandarte dos Cliffords?
— É — respondeu York. — Uma grande matilha de órfãos e vira-latas, ao que parece. Eu deveria ter matado Buckingham em St. Albans quando estava caído, com o rosto cortado ao meio. Procurem as flâmulas com os leões do rei. Ou o cisne da rainha. Aquela loba estará entre eles, tenho certeza.
O exército real parou a mais de quinhentos metros, tocando as trombetas para despertar os mortos, ou pelo menos qualquer soldado de York que tivesse conseguido dormir com o estrondo e o troar de sua aproximação. As fileiras de tochas foram apagadas quando a aurora enfim chegou, e York e Salisbury puderam apenas observar consternados as dezenas de cavaleiros de armadura que cavalgavam de um lado para o outro na primeira fileira, portando os estandartes desfraldados de todas as casas que representavam, encabeçados por três leões dourados em um campo vermelho. Era uma demonstração que visava chocar e intimidar — e cumpriu bem seu papel.
Na primeira fileira, as guarnições dos canhões ergueram os imensos canos de ferro preto e puseram blocos de madeira debaixo deles. York cerrou a mão direita ao ver braseiros acesos e homens correndo com sacos de pólvora. Diante do exército do rei, filetes de fumaça subiam no ar claro. Os homens nas ameias ouviram a ordem, uma voz única respondida com um trovão estrondeante e uma explosão de fumaça tão grande que metade da força real sumiu atrás dela.
Nenhuma bola de ferro cruzou a distância entre eles. As chamas e a fumaça foram um aviso e uma demonstração de poder. Não restou a quem as viu nenhuma dúvida de que o próximo disparo dilaceraria homens e acertaria os muros do castelo. Mas ele não veio. Em vez disso, um único arauto avançou à frente do restante, acompanhado por seis homens. Dois deles tocavam trombetas enquanto os outros levavam os estandartes reais, os leões adejando. Eles chegaram perto das forças de York, e o arauto declamou a plenos pulmões. Poucas palavras suas chegaram às ameias, embora os quatro homens no alto espichassem o pescoço para escutar. York observou com azedume o arauto terminar seu discurso e continuar fora do campo de visão, seguindo para o castelo. Ele teria permissão de entrar e entregar sua mensagem ao senhor de Ludlow.
York se virou para os condes ali com ele, os olhos pousando por fim no filho que se elevava acima de todos com sua armadura. Como os outros, York estava pálido, a confiança abalada. Sabia que o arauto do rei seria levado até ele, e falou depressa antes que não estivessem mais a sós.
— Não pensei que veria o próprio Henrique vir contra mim. Mas eles o trouxeram, e não sei se os homens resistirão, não agora.
A angústia sentida por aquele pequeno grupo nas ameias inundaria cada soldado lá embaixo. Uma coisa era erguer as armas contra outro lorde, principalmente aqueles que York acusava de serem traidores e manipuladores do rei e da rainha. Outra coisa bem diferente era se levantar contra o próprio rei da Inglaterra no campo de batalha. Todos podiam ver a tenda de bandeiras e estandartes sendo erguida no centro da linha.
— Metade deles são filhos de fazendeiros — comentou Eduardo no silêncio. — Podem ser derrotados, exatamente como aconteceu em Blore Heath. Que eu e Warwick levemos nossos dois mil contra o flanco. Vamos comprimi-los enquanto o restante ataca o centro. Nossos homens são veteranos, senhor. Cada um deles vale dois ou mais daqueles lá.
Enquanto falava, o conde de March sentia o desespero de Salisbury e do pai. Olhou para Warwick em busca de apoio, mas até ele balançou a cabeça.
Salisbury olhou de relance para o alto da escada, avaliando se já poderia ser ouvido.
— As terras de meu pai sofreram muitos ataques — disse, de repente —, todos comandados pelo mesmo laird, o mesmo nobre escocês. Ralph Neville era um homem cauteloso, mas em certa ocasião se viu em desvantagem numérica em campo aberto. Ele sabia que, se ficasse e lutasse, perderia tudo.
Os três homens com ele escutavam, enquanto Salisbury espiava novamente a escada.
— Ele mandou à frente seus serviçais, três rapazes grandes com dois cofres de prata, deixando-os sozinhos num prado enquanto os homens do clã se esgueiravam como os lobos que eram. Talvez tenha sido a boa sorte inesperada que os deixou cautelosos ou simplesmente haviam aprendido que o conde era um inimigo esperto. Os escoceses esperavam uma armadilha, e, quando perceberam que não havia nenhuma, meu pai já recuara para a fortaleza e estava fora do seu alcance.
— E a prata e os homens? — perguntou Eduardo.
Salisbury deu de ombros.
— Foram todos levados. Os homens foram mortos, e a prata, levada para a casa do laird. Eles beberam até cair com a riqueza que conquistaram, e ainda dormiam quando os homens de meu pai caíram sobre eles na escuridão. Com soldados mais que suficientes para o serviço, ele seguira a trilha dos escoceses que carregavam os cofres pesados, atravessando o campo e a floresta. Os homens de meu pai mataram o laird em sua casa e massacraram seus serviçais antes que pudessem se levantar e se defender. Pela manhã, recuperaram os cofres e retornaram para o outro lado da fronteira. Era uma lembrança que meu pai alimentava com carinho em seus últimos anos. Dizia que, no frio, recordar a surpresa deles o mantinha aquecido.
O barulho de passos fez Salisbury erguer a mão em aviso a todos, impedindo-se de dizer qualquer outra coisa. O arauto do rei estava vestido de rosa e azul, um gaio entre os corvos naquele telhado. Ele ofegava e fez uma complexa reverência, cumprimentando os três condes e York por último.
— Milordes, falo em nome de Sua Majestade Real, o rei Henrique da Inglaterra, da Irlanda e da França, protetor e defensor do reino, duque de Lancaster e da Cornualha, que Deus abençoe seu nome. — O arauto fez uma pausa e engoliu em seco, pouco à vontade sob o olhar frio dos homens com quem falava. — Milordes, devo lhes dizer que o rei perdoará todos aqueles que pegaram em armas contra ele. Demonstrará misericórdia por qualquer homem que aceite seu perdão sem demora. — Ele teve de tomar coragem para continuar, o brilho do suor surgindo na testa. — Com exceção apenas do duque de York, do conde de Salisbury e do conde de Warwick. Esses homens são declarados traidores e devem ser entregues às forças reais e às autoridades do próprio rei.
— E o conde de March? — indagou Eduardo, sinceramente ofendido por não ter sido mencionado.
O arauto olhou, nervoso, para o homem enorme e balançou a cabeça.
— Não me ordenaram que dissesse esse nome, milorde. Eu... não posso...
— Vá, senhor — ordenou York de repente. — Mandarei minha resposta ao meio-dia por um homem meu. O senhor retornará para o lado do rei?
— Sim, milorde. Sua Alteza aguarda a resposta que o senhor desejar que ele escute.
— Então o rei Henrique está com o exército? Está presente em campo?
— Eu o vi com estes mesmos olhos, milorde. Juro. Aguardarei sua resposta, se o senhor desejar.
— Não — respondeu York, mandando-o embora com um gesto ríspido. — Retorne ao seu senhor.
O arauto fez outra reverência e desapareceu, escoltado pelos homens de York.
Salisbury pôde ver que York se preparava para dar ordens furiosas. Quando o arauto saiu, ele falou depressa.
— A história de meu pai é a chave deste cadeado. Não podemos resistir hoje. Não temos homens nem muralhas para resistir a um exército daqueles.
— Quer que eu fuja? — indagou York, encarando o amigo mais velho.
— O rei não ofereceu perdão? — retrucou Salisbury imediatamente.
Sem saber, o arauto o ajudara. Mas Salisbury ainda teria de encontrar palavras que aplacassem a honra sensível de York.
— Diga aos seus capitães que aguardem seu retorno. Diga-lhes que o rei não passa de uma marionete dos Percys ou de um peão da rainha francesa. — Ele ergueu a mão e falou mais alto quando York começou a argumentar. — Diga-lhes que voltará na primavera, e que um líder escolhe o lugar onde resistirá... e não permite que os inimigos escolham por ele! Deus sabe que o rei não é popular. Ele mal saiu de Kenilworth nos últimos... Há quanto tempo? Nenhum parlamento convocado em três anos, nenhuma ordem dada. Há pouco amor por ele, e mais por você. Deixe seus homens e os meus receberem seu perdão, Ricardo! Deixe que voltem aos seus lares, sabendo que é apenas uma trégua entre golpes, antes de fazermos essa ralé real em pedacinhos, lorde por lorde, homem por homem!
York o fitava, a boca entreaberta. Parecia que lutava com a traição, e o filho de Salisbury acrescentou sua voz ao argumento.
— Não podemos vencer aqui — disse Warwick em voz baixa. — O senhor sabe que é verdade. Podemos morrer aqui, com toda a certeza, mas prefiro lhes dar seu pequeno triunfo e depois voltar e cair sobre eles quando estiverem cochilando, embriagados com o sucesso. A vitória final é que importa, milorde York, não como será obtida.
A raiva de York se esvaiu, e ele deixou a cabeça pender, encostando-se nas ameias de pedra. Ignorou Warwick e seus olhos buscaram Salisbury.
— Acha que podemos retornar depois de uma derrota dessas? — perguntou, a voz rouca de dor.
— Eles nos surpreenderam aqui. Vamos surpreendê-los em troca. Não há desonra nesse curso de ação, Ricardo. Se houvesse, eu mandaria tocar as trombetas com você e resolveria tudo hoje, de um jeito ou de outro. Quer que eu jogue fora minha vida neste lugar? — Salisbury ergueu o queixo. — Se você der essa ordem, lutaremos até o último homem. Golpearemos com força o exército do...
Os passos e o tilintar de homens de armadura o interromperam, e os quatro olharam por sobre as ameias para os exércitos reunidos lá embaixo. Warwick exclamou ao ver as cores dos soldados em marcha.
— O que estão fazendo? — questionou, chocado. — É o capitão Trollope, levando meus homens embora! O que ele...?
Ele se calou quando as fileiras de seiscentos veteranos de Calais ergueram uma bandeira branca e se aproximaram das forças do rei. Eles foram recebidos pelos piques hostis erguidos e por cavaleiros e lordes que foram encontrá-los a cavalo. Enquanto Warwick observava com desagrado, as fileiras se abriram para permitir que a coluna em marcha passasse.
— Pelas chagas de Cristo, é o fim! — exclamou Salisbury. — Precisávamos daqueles homens. — Ele se virou para York. — Não é pouca coisa se levantar contra o rei, meu amigo. Se partir deste lugar, poderemos preparar nossos capitães para nossa volta. Não ficarei ocioso, juro. Mandarei uma carta a cada um jurando minha lealdade ao rei e pedindo apenas que defenda Henrique de homens cruéis.
— Não posso ir embora! — gritou York, calando-o. — Não entende? Se partirmos hoje, cairemos em desonra, cada um de nós! York e Salisbury acabarão! Warwick acabará! March acabará! O trabalho da minha vida, minha casa, meu nome, enegrecidos pelos decretos deles, destruídos, esfacelados! Dane-se você. Dane-se o rei Henrique e sua cadela francesa. Prefiro morrer aqui, com esses muros às costas.
— Eu preferiria continuar vivo — comentou Warwick, falando com firmeza por cima do pesar de York. — Viveria para poder derrubar todas as leis que fizerem. Viveria para tomar o Parlamento e obrigá-lo a derrubar esses Decretos de Desonra. E viveria para me vingar de meus inimigos com homens que compreendessem que York também é uma linhagem real. É o que eu faria, milorde. Mas meu pai falou a verdade. Se desejar, resistirei com o senhor enquanto os soldados despojam seu lar e aqueles que ama. Ficarei ao seu lado quando se puserem a estuprar e torturar, a queimar e estilhaçar tudo o que lhe é caro. Esse é meu juramento e a força de minha palavra. Meu destino está em suas mãos.
York olhou para os três homens ao redor, que aguardavam sua decisão. Estava cercado, preso entre dois caminhos, ambos tão apavorantes que só conseguia ficar parando e tremendo. Depois de um bom tempo, assentiu.
— Ainda tenho amigos na Irlanda. Homens que não dão a mínima a Decretos de Desonra e que me protegeriam em minhas propriedades. Virão comigo?
— Eu, não — disse Salisbury. — Calais me manterá longe das garras das autoridades do rei, mas fica perto de Kent. Perto o suficiente para chegar lá numa noite escura no ano que vem.
— Warwick? — perguntou York.
— Calais — respondeu Warwick com firmeza.
— Eduardo? — perguntou York, virando-se e erguendo os olhos para o filho, ali em pé como uma árvore acima de todos eles.
O rapaz se encolheu, dividido entre lealdades conflitantes.
— Se o senhor permitir, meu pai, preferiria voltar à França. Não há lugar melhor para reunir um exército e voltar.
Se a escolha do filho foi outro golpe, York não deixou transparecer. Assentiu e deu um tapinha no ombro de Eduardo.
— Há um caminho e uma ponte para os prados a oeste de Ludlow. É uma rota tranquila e nos levará longe. Tenho de conversar com minha mulher e com meus capitães antes de partir. Eles têm de saber o que os espera. O que me diz de abril, daqui a seis meses, para o nosso retorno?
— Dê-me nove meses, milorde — respondeu Warwick. — Nove meses e reunirei homens suficientes para reconquistar tudo o que perdemos.
York fez que sim, fingindo confiança em meio a uma desolação gélida que deixava seus membros dormentes.
— Muito bem. Espero saber que desembarcaram no primeiro dia de julho, por suas almas, todos vocês. Jurem a mim que porão os pés em solo inglês em julho do ano que vem ou serão para sempre conhecidos como homens perjuros e sem fé. Com a bênção de Deus, eles pagarão por toda essa desgraça.
Os três condes fizeram um juramento pessoal, segurando o braço de Ricardo de York e ajoelhando-se nas ameias. Com humor sombrio, desceram para organizar a fuga.
Quando a noite caiu, tochas se acenderam no Castelo de Ludlow e em toda a aldeia de Ludford, ao sul. Os grandes portões da fortaleza se escancararam, e as primeiras fileiras de cavaleiros de armadura entraram, portando os estandartes das casas nobres que representavam. Rígida e imóvel, a duquesa Cecily de York os aguardava de pé no pátio ao ar livre, enquanto cavaleiros armados passavam por ela, buscando algum sinal do marido ou o primeiro vislumbre de uma armadilha. Eles percorreram todo o castelo, abrindo portas a pontapés e aterrorizando os criados, que tremiam de cabeça baixa, esperando o golpe de uma lâmina a qualquer momento.
Duas horas se passaram até a rainha Margarida entrar em Ludlow, cavalgando à frente de cem de seus Galantes. Ela montava de lado em seu cavalo, e foi Tomás, lorde Egremont, que a ajudou a apear. O rosto da rainha estava gélido de desdém quando foi até a esposa de York e olhou para a mulher mais velha com frieza e fascínio.
— Então seu bravo marido fugiu — comentou Margarida. — Um covarde no fim das contas.
— E não se vê o seu em lugar nenhum. Estará dormindo ou em oração? — retrucou Cecily com doçura. Os olhos de Margarida se estreitaram enquanto Cecily continuava. — A senhora venceu esta noite, minha cara, mas meu marido cobrará o que lhe devem. Nunca duvide disso.
— Ele não terá este lugar — disse Margarida, indicando os muros de pedra em volta e sorrindo para a mulher mais velha que antigamente a intimidava. — O Castelo de Ludlow será vendido, agora que York é um plebeu, junto de todas as outras pedras e terras que já possuiu. Onde descansará então sua cabeça, Cecily? Sem criados para atendê-la, sem nenhum título além de esposa de um traidor? Vi os decretos com o selo de meu marido orgulhosamente sobre eles. A senhora não poderá se abrigar com Salisbury nem com Warwick depois deste mês. Todos estão sujeitos ao Decreto de Desonra, e essa trindade imunda está desfeita.
Cecily de York tremeu como se as palavras fossem golpes. Não muito longe, ambas ouviram gritos e berros quando os soldados do rei invadiram a aldeia de Ludford, obedecendo à ordem de procurar York.
— Eu me casei com um homem, querida — disse Cecily —, não com uma criança. Talvez, se tivesse feito o mesmo, a senhora entendesse por que não estou com medo.
— Eu me casei com um rei — retorquiu Margarida, furiosa com a calma da outra.
— É verdade. E em troca ele perdeu a França. Não acho que tenha sido um bom negócio, querida. Não concorda?
Margarida estava com tanta raiva que ficou tentada a bater em Cecily de York. Poderia tê-lo feito se os filhos pequenos da outra não estivessem amontoados em torno dela. Edmundo, o segundo filho de York, tinha um dos braços em torno de duas irmãs menores. Com 16 anos, ele era quase da altura de um homem, embora só usasse uma túnica com cinto, calças apertadas e não portasse armas. Edmundo levava no colo o irmão caçula. Ricardo estava sem jeito ali, agarrado ao irmão como um gato assustado, fitando tudo com olhos arregalados.
Cecily se virou para eles e estendeu os braços para o pequeno.
— Venha comigo, Ricardo — disse, e sorriu quando ele quase pulou do irmão para os braços dela, que cambaleou com o peso.
O menininho fez uma careta enquanto subia até uma posição segura, dando um gemido baixo e animalesco até que Cecily lhe deu um beijo na testa. Então ela se virou para Margarida e ergueu as sobrancelhas numa pergunta calada.
— Agora vou levar meus filhos embora, a menos que a senhora tenha mais a me dizer.
Uma das menininhas começou a chorar e soluçar, ao ver tantos soldados estranhos em sua casa. Cecily a tranquilizou, aguardando que a rainha lhe desse permissão de partir. Margarida mordeu o lábio, mas não teve nenhum prazer ao mandar embora a esposa de York. Ficou observando-a enquanto cruzavam os portões, confusa com sua própria tristeza e inveja.