Trindade
Capítulo 25
Lorde Scales estava rubro com a emoção sufocada enquanto andava ao longo das muralhas da Torre de Londres, olhando para as ruas lá embaixo. Daquela grande altura, conseguia ver o exército que se reunia mais de um quilômetro depois do rio. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo com o som das trombetas que assinalava terem entrado em Londres. Naquele momento, daria tudo por mais mil homens.
A lembrança da rebelião de Jack Cade ainda estava viva, embora tivesse acontecido havia uma década. Durante muito tempo ele sofrera com o fracasso na defesa da cidade, e mais ainda com sua participação nele. Sem nenhum esforço, Scales conseguia se lembrar de ter testemunhado centenas de mortes quando os homens revoltados transformaram a cidade num matadouro. A ordem se desfizera completamente naquela noite apavorante. A ideia de ver algo parecido outra vez fazia seu velho coração doer, e seus punhos se cerraram até dar cãibra. Ele sabia que acabaria sofrendo uma apoplexia e o risco de ter um colapso. O médico o havia alertado para sua cor, seus humores desequilibrados conforme a velhice acabava com suas forças. Mas só a raiva controlaria o medo terrível que o fazia suar em bicas.
A recompensa por aquela noite, dez anos antes, fora uma pensão de cem libras por ano e o uso de uma embarcação mercante real. Scales havia enriquecido com o comércio, comprando e vendendo pequenos carregamentos de lã e tecido. O comando da guarnição da Torre era o último posto antes da aposentadoria, uma sinecura com pensão generosa e uma casa cheia de criados para servi-lo. Aos 63 anos, o lorde sabia que não era mais homem de sair e enfrentar com espada e escudo uma revolta ensandecida. Sentia a fraqueza nas articulações doloridas e no chiado baixo de cada respiração.
Ao longo das muralhas, a guarnição dos canhões aguardava sua ordem. O único consolo era as defesas terem sido bastante reforçadas desde a rebelião de Cade. Se uma força inimiga tentasse romper o portão, havia canhões pesados para cobrir a rua com trapos ensanguentados. Ao longo das ameias, também havia catapultas de torção, um projeto que qualquer legionário romano reconheceria, prontas a lançar por cima das muralhas a arma mais aterrorizante que ele controlava, muito pior que os canhões de bronze e ferro. Scales fez o sinal da cruz e beijou o anel em seu dedo que exibia o escudo da família. Ele não permitiria que a Torre fosse invadida. E quase sorriu com a ideia do que poderia lançar contra os homens de Kent dessa vez.
— Pois que venham — murmurou, fitando a névoa obscura do outro lado do rio, onde tantos ainda aguardavam para atravessar.
À distância de mais de um quilômetro, podia ver a turba de Kent como uma mancha no terreno que se encolhia conforme entrava em sua cidade. O povo de Londres não fazia esforço nenhum para detê-los, pensou, fervendo por dentro. Seria de se esperar que se lembrassem do terror e dos prejuízos da última vez, mas não; ele conseguia ouvir aclamações na brisa, tolos agitando o chapéu para homens que deixariam a capital em chamas. Pois bem, não teriam a Torre, mesmo que Londres ardesse completamente ao redor, jurou Scales a si mesmo.
Era um pobre consolo. Seu serviço era defender da turba a boa gente da cidade, mas não podia ajudá-la. Além de alguns poucos vereadores com sua guarda pessoal, sabia que comandava os únicos soldados de Londres. Ele trincou os dentes, os olhos frios e calmos. Os nobres do rei estavam todos no norte, em suas grandes propriedades ou perto de Coventry. Scales dispunha de pouquíssimos homens para sair numa investida, por maiores que fossem os horrores que visse das muralhas. O máximo que poderia fazer seria honrar a descrição exata de seu cargo e defender a Torre até o momento em que reforços chegassem à cidade. Mais uma vez, olhou lá embaixo para a linha de canhões voltada para oeste, acima das ruas. O rio corria pelo sul da muralha, sem nenhuma ponte naquela direção que o fizesse temer um ataque pelo flanco. A Torre era uma fortaleza, e falaria com fogo com quem se aproximasse.
— Preparem-se para minha ordem — gritou, ouvindo a voz ecoar pelas antigas pedras.
Seus oitocentos homens se retesaram à espera. As guarnições dos canhões verificaram os braseiros e as mechas uma última vez, as balas de ferro e os sacos de grãos de pólvora já no lugar. A torre branca se elevava acima de todos eles. Scales se lembrou da carnificina e do chão respingado de sangue que vira por toda parte na outra vez e meneou a cabeça. Não voltaria a acontecer.
Warwick, Salisbury e March cavalgaram lado a lado pela Thames Street, seguindo para leste, rumo à Torre. O avanço lento ajudou a bloquear a multidão que os seguia, embora mais e mais pessoas se lançassem correndo sob os cavalos e em torno deles. Os três estavam com as espadas desembainhadas e prontas, levados numa maré de londrinos aos gritos que pareciam estar à espera de uma oportunidade para descarregar a própria raiva, não importando o que pretendessem os condes ou os homens de Kent. Warwick viu centenas trazendo porretes ou facões, correndo de rua em rua. Seu cavalo foi detido pelos que tentavam forçar a passagem, e ele se esforçou para entender o que estava acontecendo. Quisera ser a fagulha da rebelião, isso era verdade. Não sabia que estava sentado num barril de pólvora quando acendeu o fósforo.
Não havia mais condição de comandar a multidão. Todos sabiam onde a guarnição do rei estava, e corriam rumo à Torre com o exército de Warwick, acenando para que avançassem. Mulheres e crianças seguiam com a turba, e o ritmo se acelerava a cada momento, até que Warwick e o pai se viram trotando para manter Eduardo de March à vista. Sir Robert Dalton e a grande silhueta de Jameson corriam ao lado do jovem conde, de olho em qualquer perigo. Eduardo cavalgava despreocupado, claramente satisfeito com o caos enquanto acompanhava a maré.
Fazia mais de três anos que nenhuma reunião do Parlamento era convocada. Muito atrás deles, o Palácio de Westminster estava trancado e úmido, sem ser aquecido por lareiras nem pelas palavras dos homens. Warwick sabia que o rei Henrique havia ficado escondido em Kenilworth, mas não sabia como o restante do reino vivera sem que o governo se mobilizasse. Parecia que os representantes do rei tinham sido cruéis ao serem deixados para impor as leis por conta própria. Havia uma fúria irracional por todo lado, e Warwick começou a se perguntar se conseguiria controlar o que tinha provocado. Quando Cade entrara em Londres, os bons cidadãos construíram barricadas em casa. Dessa vez, eles iam à frente.
A turba crescia sem parar, enchendo ruas secundárias, pátios e becos com pessoas prontas para o combate, todas convergindo sobre a Torre e sua guarnição de odiados soldados do rei. A terra estava limpa em torno daquelas muralhas, um vasto espaço de lajes de pedra que Warwick reconheceu como um campo de morte enquanto era forçado a entrar lá. A multidão guinchava e berrava com raiva para as ameias da Torre, olhando para os homens de Kent como se esperassem que marchassem diretamente para o portão e, com um pontapé, o derrubassem.
Warwick parou sua montaria junto do pai, criando uma área imóvel na confusão de pessoas correndo antes que fossem empurrados contra a própria Torre. Mesmo assim, os cavalos de guerra bateram os cascos e tentaram girar para a direita e para a esquerda, nervosos com o barulho e a multidão em volta.
Salisbury observava o ponto mais alto das muralhas e estreitou os olhos ao ver figuras escuras e fumaça subindo. As bocas negras dos canhões assomaram acima da multidão, apontadas para ela. Ainda assim, as pessoas afluíam mais e mais, em uma confusão descontrolada, enchendo a área aberta até que mal houvesse espaço para se mexer.
— Está vendo os canhões? — berrou Salisbury ao filho, apontando.
Warwick fez que sim, o barulho alto demais para responder. Era o caos, e ele viu alguns dos seus capitães surrando homens com bastões para que recuassem e abrissem espaço para eles. Aqueles homens estavam ficando com medo da confusão de pessoas, com gente demais amontoada ao redor. Já estavam roucos e vermelhos de tanto gritar e empurrar os homens para longe.
— Entreguem machados aos homens de Londres! — gritou Salisbury a plenos pulmões. Algumas pessoas da turba o ouviram e comemoraram. — Que abram caminho pelos portões!
Warwick só conseguiu escutar uma de cada três palavras, mas fez um gesto para que seus homens avançassem até o ponto mais vulnerável da fortaleza da Torre. Cade abrira caminho à força uma vez. Eles o fariam de novo.
Lá no alto, Warwick ouviu uma única voz dar uma ordem e dezenas de outras responderem. Ergueu os olhos, de repente com medo.
Scales olhava com raiva para a multidão que aumentava no terreno aberto em torno da Torre. Via uma verdadeira turba, gente comum ensandecida com a oportunidade de quebrar e destruir. A vida inteira ele defendera a ordem e a estabilidade, e agora ali estava uma horda de loucos com olhos arregalados que vinham dilacerar tudo aquilo. Soldados armados com cota de malha lutavam no meio deles como seixos jogados num rio. Centenas de homens de Kent berravam o nome de Jack Cade, como se pudessem trazê-lo dos mortos apenas com sua fúria.
Mais e mais pessoas chegavam, e Scales sentia o suor escorrer das axilas debaixo da túnica. Conseguia sentir o ódio dos despossuídos que uivavam para ele. Homens que não viam valor na lei do rei da Inglaterra, que poriam tudo de lado numa orgia de violência. Ele temera os danos que poderiam causar longe de seu alcance. Em vez disso, foram até ele.
Ele se inclinou para a frente, apoiando-se no muro de pedra e olhando para baixo. Dezenas de homens com machados se reuniam numa formação em cunha, sua intenção óbvia enquanto abriam caminho pela multidão, seguindo para o portão da Torre. Scales praguejou ao ver dois homens a cavalo na retaguarda, uma ilhota no redemoinho de loucura. Achou que podia sentir o olhar daqueles cavaleiros sobre ele. Balançou a cabeça com descrença ao reconhecer nos tabardos as cores de Salisbury e Warwick. Uma pontada de fúria o fez tremer com o tamanho da traição dos condes do rei. Não, lembrou-se de repente. Eles agora eram plebeus.
Três canhões das muralhas foram carregados sem balas redondas. Quando a turba encheu o terreno aberto lá embaixo, Scales encheu o pulmão.
— Canhão de aviso! Sem bala! — ordenou, a voz ecoando na Torre Branca atrás de si.
Um estalo triplo soou, lançando longas labaredas dos canos e amortalhando as guarnições com uma fumaça arenosa. Scales não conseguia mais ver a turba lá embaixo enquanto a nuvem se desfazia. Ouviu gritos, mas, quando o ar clareou, eles avançaram num espasmo. Machados se erguiam e caíam sobre o portão externo, e ele praguejou, sem se importar com quem ouvisse.
Não. Ele não perderia a Torre. Scales estava pálido quando ergueu os olhos e viu o rosto das guarnições de artilharia à espera da ordem. Estavam com medo, com todo o direito. Ninguém sobreviveria à loucura se ele permitisse que ela entrasse.
— Tragam o fogo grego — ordenou Scales.
Homens desceram correndo os degraus largos ao longo da muralha, foram até o paiol e voltaram com passo muito mais lento. Cada um deles trazia um grande vaso de barro, com ambos os braços o envolvendo. Aninhavam-nos como crianças e suavam, morrendo de medo de deixá-los cair nas pedras.
Scales sentia o coração bater forte no peito, tão rápido que ficou tonto, a visão borrada. Encostou-se nas ameias e berrou para a multidão recuar. As pessoas riram e o amaldiçoaram. Os golpes de machados e martelos continuaram, e ele se afastou da beira, incapaz de olhar.
— Canhão. Carregar bala e atirar! — disse, baixo demais.
As guarnições não conseguiram escutá-lo, então ele caminhou pelas ameias, repetindo a ordem, e todos passaram a agir rapidamente. Scales não voltou a olhar para baixo quando os primeiros canhões dispararam, seguidos imediatamente por gritos. Mais e mais canhões nas muralhas despejaram tiros sobre a multidão amontoada, dilacerando-a.
Scales parou junto de uma das pequenas catapultas, descansando a mão na mola feita de crina de cavalo, mais grossa que a coxa de um homem. As bolas de barro estavam posicionadas, com trapos saindo do alto de cada uma. Havia três delas espaçadas ao longo das muralhas, e Scales fez o sinal da cruz, murmurando uma oração enquanto assentia para os homens que o observavam.
Cada um dos trapos foi aceso, e as catapultas liberadas quase ao mesmo tempo. Ninguém nas muralhas queria estar perto daquela substância depois que se inflamasse. Até a guarnição dos canhões se afastou das bocas de fogo, pronta para correr caso algum dos recipientes se quebrasse e derramasse o conteúdo.
A fumaça ainda estava densa no ar, e Scales observou as pesadas bolas de barro saírem voando, caindo rapidamente como riscos de luz na neblina. Ele fechou os olhos.
O som da multidão pareceu despencar para um espanto silencioso por um momento. Então a gritaria recomeçou, e dessa vez aumentou e aumentou, o ruído da insanidade. As chamas inflamaram a fumaça de pólvora e subiram com um calor de uma fornalha, queimando todas as coisas vivas que tocavam. Scales tremeu. Ele supervisionara pessoalmente a produção do fogo grego, uma mistura imunda de nafta e nitro, enxofre e cal extinta. Ela grudava no que tocasse e consumia toda a carne. A água simplesmente alimentava as chamas e não conseguia extingui-las. Ele acreditou ter ouvido o barulho de água quando homens em chamas se jogaram no Tâmisa e depois se afogaram aos berros, vendo que o fogo do inferno ainda comia sua pele.
Scales levantou o queixo. As guarnições dos canhões o fitavam, aguardando novas ordens. Ele não enfrentou seus olhares e voltou ao seu lugar na muralha. Cerrou o punho direito ao ver as pessoas fugindo como ratos. Alguns ainda ardiam, cambaleando e gemendo, pondo outros em chamas com seu toque, até que suas vozes foram sufocadas pelas chamas. O cheiro era enjoativo, e Scales ouviu alguns artilheiros vomitarem ao perceber o que era. Ele respirou fundo e com satisfação. Por mais feio que fosse, a turba já sabia o que a aguardava em sua loucura. A Torre seria defendida a ferro e fogo. Não cairia.
Warwick viu as primeiras chamas vazias serem lançadas por sobre as cabeças da multidão. Olhou de novo o número de canhões diante deles e se virou para o pai, o rosto lívido.
— Faça os homens recuarem! Não precisamos romper o portão, só manter a guarnição em Londres. Se dispararem por conta própria, não teremos escolha.
Salisbury, espantado, viu quantas mulheres e crianças havia naquela multidão agitada. O conde ergueu os olhos com desagrado para as ameias, incapaz de acreditar que o comandante massacraria as pessoas que havia jurado proteger.
Por ignorância ou medo, a vasta turba se aproximava ainda mais das muralhas da Torre. Salisbury viu homens com machados atacarem o portão, e sabia que teriam de ser chamados de volta. Levou a trombeta aos lábios e viu que ofegava demais para usá-la. Então a lançou ao filho e observou Warwick soprar uma nota descendente, repetindo a ordem de retirada.
Acima deles, a fumaça branca subiu de novo e um trovão contínuo soou. Bolas de ferro capazes de atravessar mais de um quilômetro no ar foram lançadas contra a multidão, matando dezenas de cada vez e deixando grandes manchas sangrentas. Então o som do povo mudou para um gemido, um som animalesco de angústia, quando as pessoas começaram a se afastar da Torre, buscando qualquer caminho para sair do espaço aberto. Os estalos ondulantes continuaram a soar, e ninguém estava a salvo.
Warwick virou a cabeça para cima quando algo esbarrou nele, deixando uma linha de sangue em sua bochecha, como se tivesse sido atingida por uma lâmina. Uma bola de ferro rasgara a multidão perto dele, rápida demais para ser vista. Ele agradecia a Deus pela sorte quando o cavalo tossiu, expelindo sangue pelo focinho. Warwick jogou a perna por cima da sela e pulou quando o animal caiu de joelhos. Onde quer que as bolas de ferro batessem na pedra, lascas enchiam o ar, dilacerando a multidão amontoada. Em desespero, Warwick tocou a retirada de novo e quase foi derrubado quando um homem e uma mulher passaram correndo às cegas por ele, seguindo para longe.
Acima dos sons de dor e fúria, ninguém ouviu as catapultas. Warwick viu três bolas pretas pularem das ameias, movendo-se muito mais devagar do que as balas de canhão, de modo que seus olhos confusos se fixaram nelas. Ele as viu desaparecer na multidão e um sopro quente desabrochar, atravessando o espaço aberto. Três poças de fogo explodiram, labaredas líquidas que saltavam e respingavam na multidão que se debatia.
Todos fugiram do calor, em pânico absoluto, e os gritos dos que foram pegos era bruto e patético de se ouvir. Warwick ficou junto ao cavalo do pai, mas ambos foram empurrados para trás. Ele avistou Eduardo de March, desmontado no rio de homens correndo. Embora Jameson e Sir Robert ainda o protegessem, nem aqueles três conseguiriam resistir à maré de pessoas forçando o caminho para fugir. March atacou os que o cercavam, abrindo espaço. Naquela corrida ensandecida, quem caísse nunca mais se levantaria, os corpos pisoteados e esmagados conforme a turba se afastava das muralhas.
Vozes duras e ofendidas gritaram à beira da praça, berrando para que outros os seguissem. Até onde Warwick e o pai podiam ver, eram os próprios moradores de Londres, acenando de volta para a ponte. Milhares dispararam na corrida e deixaram a Torre para trás, e tudo o que Warwick conseguiu fazer foi se grudar num muro com o cavalo do pai e deixá-los passar. O campo da morte se esvaziou tão rapidamente quanto se enchera, deixando manchas de carne rasgada, anéis de corpos queimados e fumaça preta. Lá em cima, homens se inclinavam sobre as muralhas, apontando e gritando.
Warwick viu Eduardo de March passar por ele cambaleando. O ferreiro Jameson vinha atrás, e Sir Robert Dalton havia sumido em algum ponto do empurra-empurra. Warwick estendeu a mão para segurar o peitoral de Eduardo e o arrancou das garras da multidão. Jameson veio com ele e descansou o braço no muro, ofegando pesadamente.
Com a cabeça e os olhos arregalados, March agradeceu a Warwick. Sua grande força de nada lhe valera naquela multidão, e ele havia sentido medo pela primeira vez na vida. A multidão ainda corria, passando por eles, e os três condes só puderam ofegar e ficar olhando a cena. Mais homens seus lutaram para chegar àquele local, até que quarenta se reuniram contra o muro. Dezenas estavam na base da Torre quando o fogo grego caiu no meio deles. Aquelas chamas ainda ardiam, tremulando sobre corpos e pedras como coisas vivas.
— Devíamos recuar mais — sugeriu Salisbury.
Ele estava pálido e parecia exausto, esgotado pelo medo e pelos golpes da multidão.
Havia uma rua lateral a uns dez metros apenas do espaço aberto em torno da Torre, e os três condes abriram caminho até lá, vendo o Tâmisa cinzento na outra ponta. Seus homens foram com eles, lançando olhares nervosos para trás enquanto avançavam.
— Continuem — disse Salisbury, conduzindo o cavalo.
Estavam a salvo dos canhões da Torre pelo menos. Com seis ou sete casas de comprimento, a ruela terminava no rio, e todos puderam ver corpos enegrecidos flutuando na superfície quando pararam. Alguns soldados começaram a apontar, e Warwick ergueu os olhos e viu uma massa de homens em movimento do outro lado do rio. Os moradores de Londres já haviam atravessado a ponte e voltado pela margem oposta. A princípio, pensou que ainda corriam de terror. Não fazia sentido, e Warwick acompanhou o que acontecia.
Havia muitas construções do outro lado do rio, estabelecimentos comerciais e casas que tinham transbordado da cidade, ocupando terra valiosa em torno da única ponte. Armazéns e açougues prosperavam por lá. Warwick vislumbrou a torrente de homens que passava entre casas de madeira e tijolo.
— O que eles estão fazendo lá? — ouviu March perguntar.
Warwick pôde apenas dar de ombros. Os moradores conheciam sua cidade melhor que ele, que via os homens correndo e se reunindo num único lugar, onde usaram as armas para invadir um prédio baixo de tijolos que ficava às margens do Tâmisa.
— Devem querer armas — arriscou Salisbury. — Há um arsenal ali?
De repente, um dos soldados próximos praguejou. Warwick se lembrou de que ele era de Londres e o chamou à frente.
— Eu sei o que é, milorde — disse o homem, o rosto assombrado. — É um paiol real, onde se fazem canhões.
Todos os homens se viraram cada vez mais espantados a tempo de ver o reparo preto com um canhão ser levado pelo caminho da margem, empurrado por uma grande aglomeração de londrinos. A boca de fogo que carregava era como uma das armas que dilaceraram a multidão. Apesar do peso respeitável, a turba que rugia não parou de empurrar o canhão até ele ficar diante da muralha sul da Torre, onde não havia artilharia.
Eles encontraram sacos de pólvora, e outros homens vinham cambaleando com balas redondas nos braços. Warwick espichou o pescoço o máximo que pôde e avistou figuras correndo sobre as muralhas altas da Torre. O rio tinha quase quinhentos metros de largura, mas a água corrente não ofereceria proteção.
A primeira bala saiu com um estrondo, acertando as muralhas da Torre e caindo com pedaços de pedra e alvenaria nos caminhos abaixo. As águas do Tâmisa se encheram de ondinhas quando mil pedaços menores bateram na superfície e afundaram. Gritos selvagens subiram daquele lado do rio, mas não era um som alegre, e sim um uivo de lobos, com a intenção de aterrorizar. Entre um disparo e outro o tempo era enorme, mas um segundo canhão fora trazido das oficinas reais e apontado para o outro lado do rio. As bolas de ferro arremeteram várias vezes contra as velhas pedras, até que se pôde ver uma imensa rachadura e parte da muralha externa desmoronou.
Warwick assistiu, espantado, aos homens de Londres ajustarem a mira e darem um único disparo com outra peça de artilharia do tamanho de um cavalo. Fumaça e pó esconderam a extensão dos danos por algum tempo, mas, quando o ar ficou limpo, a vista agradou aos que tanto trabalharam por ela.
Eles abandonaram os canhões onde estavam e começaram a voltar pela margem até a Ponte de Londres. Warwick não tinha dúvida de que voltariam àquele ponto e balançou a cabeça, imaginando o massacre que, sem dúvida, se seguiria.
— Por enquanto é isso — disse ao pai. — Eles abriram sua brecha. O senhor ficará para manter a ordem? Já perdi bastante tempo aqui, e meu objetivo vai além de uma Torre, ou da própria Londres.
— Vá, por Deus — disse Salisbury, olhando do filho para Eduardo de March. No mínimo, Salisbury se sentiu aliviado com a oportunidade de ficar em vez de tentar forçar os velhos ossos durante mais cento e trinta ou cento e quarenta quilômetros até Coventry. — Deixe-me algumas centenas de soldados e ficarei de olho na turba, embora ache que sua fúria queimará tão depressa quanto o fogo grego. Pelos ossos de Cristo, nunca pensei em ver aquele lixo imundo ser usado contra meu próprio povo. Alguém pagará por isso.
O velho conde se recostou enquanto o filho e March saíam correndo com vinte e quatro homens, já erguendo a trombeta para chamar o restante. Salisbury sabia que seria preciso um tempo enorme para reunir os rapazes de Kent em ordem e levá-los pela estrada do norte. Nisso, orgulhou-se do filho. Apesar de todo o caos, Warwick não havia perdido o foco do caminho. Quaisquer que fossem os horrores a que assistiram, Londres era apenas um passo, e só o começo.
A escuridão se aproximava quando Warwick e March conseguiram reunir o exército outra vez no lado norte das muralhas da cidade. Durante as horas do crepúsculo, certa calma fora restaurada entre eles, embora vários homens de Kent tivessem saqueado cerveja e outros fedessem a fumaça e parecessem estupefatos com o que tinham visto.
Os capitães tinham se ocupado reunindo os homens, e tiveram de bater em alguns para que concordassem em sair da cidade. Eles viram o tipo de violência contra inocentes que os fazia clamar por vingança. Mulheres e crianças foram queimadas naquela multidão junto à torre, e em troca eles queriam sangue. Warwick discursara para vários grupos mal-humorados, lembrando-lhes que tinham ido a Londres para golpear o rei em pessoa. Isso bastou para a maioria, e Warwick viu que seguravam os machados com força e se imaginavam usando-os, retribuindo parte do que viram. Ele não duvidou do fervor dos homens de Kent, assustador em sua intensidade.
Os sinos tocavam em todas as igrejas de Londres, encabeçados pela nota abafada do Velho Edward, no Palácio de Westminster, a um quilômetro e meio dali. O ar estava quente e espesso com a escuridão que cercava dez mil homens. A estrada jazia a seus pés, boas pedras romanas. Warwick gostaria de ter tempo para levar consigo alguns daqueles canhões de Londres, mas aquelas coisas pesadas ficariam muito para trás. A velocidade era o segredo, ele sabia. Seus homens encontraram duas carroças puxadas a cavalo num estábulo junto à muralha da cidade. Os animais bufaram e relincharam, nada satisfeitos com o peso de homens de armadura nas costas.
— Cento e trinta quilômetros! — gritou Warwick de repente aos homens em volta. — Apenas cento e trinta quilômetros em uma estrada boa e vocês verão o exército do próprio rei tremer de medo. Homens que me tiraram tudo... e homens que tirarão tudo de vocês. Gritem Warwick, gritem March! Gritem York e Jack Cade! Vocês marcharão comigo?
Eles vociferaram e bateram os pés em resposta, e Warwick os comandou rumo ao norte.