Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 37 de 41

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Trindade

Capítulo 31

 

 

O Castelo de Sandal ficava no centro de uma propriedade de quarenta e oito mil hectares, quase quinhentos quilômetros quadrados de terra. Além de fazendas e floresta, cidades inteiras e mais de dez paróquias ficavam dentro dos limites, e cada igreja, fazenda ou mercador pagava tributos ao seu lorde suserano. Era verdade que York preferia o Castelo de Ludlow como lar da família, mas ainda se sentiu relaxar quando ele e Salisbury chegaram aos limites das terras e percorreram os últimos quilômetros de estrada até a fortaleza.

Como em todas as suas propriedades distantes, em sua ausência o Castelo de Sandal era administrado por um mordomo de confiança e a fortaleza, mantida preparada para recebê-lo. Havia muito era hábito de York visitar cada uma de suas grandes casas pelo menos duas vezes por ano, passando nelas tempo suficiente para contar a renda e avaliar todos os custos de pessoal e suprimentos, desde novos estábulos até a dragagem de um rio local para prevenir enchentes. Quase ao mesmo tempo que o exército de York e Salisbury atravessou os limites externos, a notícia correu adiante, e Sir William Peverill foi incomodado em seus aposentos particulares no interior do castelo, para que o mordomo saísse e assumisse o comando. Peverill estava longe de ser jovem, mas a rotina do retorno do duque fora estabelecida havia tanto tempo que não lhe causava preocupações especiais. Em Sandal Magna, a aldeia mais próxima, os criados que tinham ido passar o Natal em casa foram convocados de volta com a máxima velocidade, correndo pela estrada do castelo em grandes grupos ofegantes para estar lá e dar boas-vindas a York.

Antes que o duque chegasse ao sopé da longa colina que levava diretamente a Sandal, Peverill revisara três vezes a estimativa de carne necessária, fazendo perguntas aos gritos aos que entravam correndo com notícias num tom de descrença crescente. Açougueiros e meninos foram mandados com cutelos aos estábulos mais distantes da muralha principal. Porcos em cercados cobertos de palha, galinhas e até gansos sonolentos estavam abrigados lá contra o frio do inverno. Com a notícia de milhares de soldados a caminho, todos teriam de ser mortos para o espeto. Os doze dias do Natal ainda não tinham se passado, e Sir William sabia que York esperaria algum tipo de banquete. O mordomo do castelo mandou atiçar o fogo da cozinha principal, além de duas outras nos depósitos do porão, só usadas em comemorações. Em toda a fortaleza, moças e meninos corriam em todas as direções, limpando e tirando pó, esfregando janelas e lutando para vestir as melhores roupas.

York e Salisbury cavalgavam juntos à frente da coluna, embora mantivessem os batedores à distância de quilômetros em todas as direções, mesmo ali. Salisbury nunca visitara Sandal, e ficou impressionado com a ordem tranquila da propriedade vista de fora. Ele não podia ver o frenesi de preparativos dentro das muralhas. Os caminhos e campos estavam bem-cuidados, e dezenas de carvoeiros saíram de suas cabanas de inverno na floresta para ver a coluna passar e tirar o gorro para seu lorde.

Conforme as fileiras marchavam lentamente morro acima, a velocidade do vento pareceu aumentar a cada passo, castigando mãos e rostos até que todos passaram a tremer e ficaram dormentes. Salisbury podia ver figuras minúsculas no nível mais alto da torre, bem acima do restante da fortaleza. Ele fez uma careta com a ideia de passar a noite lá em cima vigiando inimigos. A terra fora limpa em torno de Sandal, quase um quilômetro em todas as direções. Além daqueles campos abertos, começava a floresta densa que se estendia pelos morros a distância, por todo lado.

Havia uma única entrada na fortaleza propriamente dita, por sobre um fosso profundo projetado para frustrar cavaleiros ou homens em marcha. York deu uma olhada lá dentro com interesse quando se aproximaram do portão, ao ver alguns centímetros de água das chuvas incessantes do inverno. A ponte levadiça fora baixada para sua aproximação sob os estandartes, e ele e Salisbury chegaram à pequena abertura ao mesmo tempo, passando sob o portal para atravessar a muralha com mais de três metros de espessura na base.

Com York, Salisbury conduziu o cavalo para o lado, e as fileiras em marcha passaram pelo portão como se nunca fossem acabar. O espaço além tinha o formato de uma ferradura com no máximo um hectare cercando outro declive íngreme até um antemuro de pedra cinza escura, um bloco parecido com um punho, uns dez metros abaixo do pátio principal. Em tempos de guerra, era um segundo obstáculo, cheio de soldados e ligado por uma ponte levadiça própria. O antemuro guardava o único caminho até a torre, que se elevava acima de todo o resto. Essa torre fora construída no alto de seu próprio morro, a última defesa caso algum dia o castelo fosse invadido. Para chegar a ela, qualquer força ofensiva teria de abrir caminho por dois fossos, subir o morro e cruzar uma terceira ponte levadiça. Quando esta era erguida, a torre ficava totalmente isolada do resto.

O Castelo de Sandal não tinha nada da elegância que Salisbury vira em Ludlow ou em seu lar em Middleham. Ele havia sido construído para a guerra, embora nunca com a expectativa de oito mil homens amontoados no interior das muralhas. No lado mais distante da ferradura, havia uma fila de construções de madeira junto à muralha externa, com portas abertas e criados a postos para receber seu lorde suserano. Os soldados passaram por eles, indo rapidamente se abrigar do vento e do frio, de modo que os retardatários encontraram todos os cômodos e corredores lotados e tiveram de voltar para procurar onde descansar no pátio. Mas soldados continuavam a chegar, até não haver espaço na fortaleza que não tivesse um homem sentado, procurando por comida ansiosamente. Muito acima das cabeças, os estandartes da casa de York estavam içados na torre, adejando ao vento forte para mostrar que ele estava mais uma vez em casa. O duque observou suas cores subirem praguejando em voz baixa, e mandou um homem ao antemuro e até o ponto mais alto para baixá-las.

Conforme a noite caía, lâmpadas e velas se acenderam ao longo de todas as muralhas internas, e alguns braseiros foram levados para fora, para que os homens tremendo de frio se amontoassem em torno deles no pátio. Além das carcaças trazidas por açougueiros sujos de sangue, todos os porões e armazéns de inverno foram vasculhados atrás de presunto, cerveja, grandes peças verdes de bacon com a ponta do osso aparecendo e até potes de mel e frutas em conserva, tudo o que pudesse ajudar a satisfazer o apetite de tantos soldados famintos.

Salisbury foi um dos que receberam aposentos. Edmundo, o filho de York, assumiu a tarefa de lhe mostrar o caminho, mantendo uma conversa bem-educada e levemente pouco à vontade pela trilha interminável de salões e corredores. Dois criados foram com eles e pararam rigidamente, um de cada lado da porta.

— Este está vazio, milorde — disse Edmundo. — Estes dois lavarão ou consertarão o que o senhor precisar.

— Só precisava saber onde vou dormir — respondeu Salisbury. — Dê-me um minutinho e volto a me encontrar com seu pai.

Ele sumiu lá dentro, e Edmundo esperou com impaciência, preso pelas exigências da cortesia a um hóspede, mesmo em circunstâncias tão incomuns.

As carroças de bagagem ainda estavam sendo descarregadas fora do castelo, e Salisbury tinha pouca coisa consigo. Fiel à palavra, ele voltou depois de pouco tempo. Tirara a espada e o boldrié, além do casaco pesado. Claramente encontrara tempo para mergulhar as mãos numa bacia d’água, e as passou pelo cabelo enquanto Edmundo e ele voltavam pelo mesmo caminho.

— Você me lembra seu pai quando rapaz — comentou Salisbury de repente.

Edmundo sorriu.

— Embora eu seja mais alto, creio, milorde.

Ambos pensaram em Eduardo naquele momento, e Salisbury ficou curioso ao perceber o rapaz franzir o cenho brevemente.

— Seu irmão Eduardo é o segundo homem mais alto que já vi, depois de Sir John de Leon, quando servi na França. No entanto, Sir John não tinha compleição tão boa, ele não era... hã... bonito.

— Bonito, milorde? — questionou Edmundo com um meio sorriso.

Salisbury deu de ombros, velho demais para se envergonhar.

— É como eu diria. Sir John foi ao mesmo tempo o homem mais alto e o mais feio que já encontrei. Um pobre coitado, na verdade. Conseguia lançar um barril que pesava o mesmo que ele pelo dobro de sua altura no ar. Um belo teste, e que jamais vi superado. Infelizmente, apesar da grande força, ele não conseguia correr. Andava com dificuldade, Edmundo, devagar demais, como se percebeu no fim das contas, ao menos quando se tratava do fogo dos canhões franceses.

— Ah, sinto muito ouvir isso, milorde. Gostaria de ver meu irmão encontrar um homem que o fizesse olhar para cima.

Edmundo falava com humor irônico, e Salisbury percebeu que gostava do rapaz.

— Tenho certeza de que já ouviu dizerem, mas, sabe, o que importa não é o tamanho do cão na luta...

— ... mas a vontade de lutar do cão — completou Edmundo, deliciado. — Sim, milorde. Já ouvi.

— Há verdade nessas palavras, Edmundo. Seu pai, por exemplo, não é nenhum gigante, mas não desiste, não importa o que aconteça. É bom ele ter velhos como eu para aconselhá-lo, não é?

— Ele o admira muito, milorde. Disso eu sei.

Eles tinham chegado à porta do salão principal, e Edmundo a abriu. Estava mais iluminado que o corredor, e ele conseguiu ouvir a voz do pai repentinamente mais alta.

— Deixo-o aqui, milorde. Tenho de ver o pessoal da cozinha, para que a comida seja servida.

Salisbury parou na soleira da porta.

— Se por acaso... você encontrar um frango frio, digamos, ou um pedaço de pão ou bolo de arroz, se lembrará de onde estou?

Edmundo deu uma risadinha e fez que sim.

— Verei o que consigo encontrar, milorde.

Salisbury entrou, sentindo o calor da enorme lareira e da multidão ali dentro. A chaminé não funcionava muito bem, e a fumaça era espessa na sala, de modo que os mais próximos tossiam. Três cãezinhos corriam de um lado para o outro com uma empolgação louca, e um deles parou para urinar na perna de um homem, e uma grande gritaria se elevou entre seus companheiros quando ele gritou e tentou lhe dar um chute. Salisbury ficou grato pelo calor e se aproximou do fogo enquanto abria caminho até York.

— Seu filho é um bom rapaz — comentou Salisbury.

York ergueu os olhos da mesa coberta de mapas.

— Quem, Edmundo? É, embora eu preferisse que a mãe dele não o tivesse mandado comigo. Fico tentado a lhe ordenar que volte para Ludlow até isso acabar.

— Ele, hã... Ele não gostaria disso, creio. Ele quer impressioná-lo.

— Todos os filhos querem — concluiu York, um pouco mais brusco do que pretendia. — Sinto muito. Minha cabeça está em várias outras coisas. Permita que lhe sirva o vinho.

Assim que a taça de Salisbury se encheu, York traçou uma linha no pergaminho com o dedo.

— Aqui. Mandei um cavaleiro para Warwick, ao sul, num cavalo veloz.

— E a oeste? Seja lá o que os Tudors pretendem, os três mil de Eduardo seriam úteis.

York remexeu nas taças e na jarra outra vez antes de menear a cabeça.

— Não, ainda não. Nosso segundo exército nos alcançará em... três dias, quatro, no máximo. Se Warwick trouxer seis mil, sim, talvez precisemos esvaziar Gales. Mas ele poderá trazer até doze ou quinze! Seu garoto é popular em Kent, Ricardo... e Scales lhes deu novas contas a acertar. Acho que virão contra o exército do rei. Mesmo no inverno.

Os olhos de York estavam temerosos, e Salisbury se perguntou se o duque pretendia manter o herdeiro fora de perigo. Com tantos ouvidos atentos em volta, Salisbury não podia perguntar. Enquanto tentava formular a questão com delicadeza, as portas se abriram e bandejas imensas de comida foram trazidas por criados suados. Vivas subiram dos homens reunidos, ecoados por todo o castelo e pelo terreno conforme o pessoal da cozinha encontrava bocas para alimentar.

Eles tinham marchado trezentos quilômetros com rações magras, e caíram sobre os pratos como os homens famintos que eram, limpando-os e depois passando os dedos pela borda das travessas em busca dos últimos vestígios de gordura. Salisbury olhou ao redor com desalento até sentir um toque no ombro e ver que Edmundo tinha voltado com uma travessa de madeira com carnes frias e meio pão.

— Sem bolo de arroz? — perguntou Salisbury. — Estou brincando. Abençoado seja, rapaz, por se lembrar.

Sua barriga roncava. Edmundo sorriu, fez uma reverência e voltou à sua refeição na cozinha.

York mal notara a conversa enquanto examinava os mapas. Salisbury se uniu a ele, dividindo a travessa enquanto ele e York comiam e bebiam de pé. Ambos ouviam a chuva batucando no telhado, aumentando de intensidade até virar um rugido sibilado.

— Não invejo os homens lá fora — disse York, de cara feia —, mas Sandal é pequeno demais para tantos. Warwick terá de acampar em campo aberto quando vier. Acho que não conseguiríamos espremer nem mais um soldado dentro dessas muralhas.

— Fará bem aos homens de Kent ver como é o clima de verdade — falou Salisbury com alegria. — Só espero que estejam trazendo comida. — Com um gesto, ele indicou os pratos, e notou que já estavam todos vazios. — Céus, Ricardo. Espero que tenha mais armazenado para o inverno. Esses cães comerão até expulsar você de casa.

Ele se virou, esperando que o amigo sorrisse. Para sua surpresa, York parecia pouco à vontade.

— Mandei os cozinheiros alimentarem o máximo possível, mas oito mil! Bastou uma única refeição para esvaziar todos os depósitos e todas as despensas. Mandarei grupos à caça amanhã, se a chuva ceder um pouco.

Salisbury se viu bocejando e sorrindo ao mesmo tempo, e seu maxilar estalou.

— Você precisa dormir um pouco, Ricardo. Com ou sem fome, tem de descansar. Não somos mais tão jovens quanto antes.

— Você está alguns anos à minha frente, meu velho — argumentou York. — Seja como for, duvido que consiga dormir com tanta preocupação.

— Pois eu não consigo ficar acordado — disse Salisbury, soltando um grande bocejo mais uma vez.

A mão que levou à boca foi copiada pela sala inteira, e muitos homens começaram a se instalar onde estavam, acotovelando-se e praguejando pelos melhores lugares perto do fogo. Os cães já tinham se enrolado e o castelo se aquietara em torno deles, de modo que o silêncio da noite de inverno caiu sobre todos.

— Vou para a cama, então — avisou Salisbury. — Se meus ossos não estiverem doídos demais amanhã, lhe trarei um belo cervo. Faremos um assado no pátio para todos os que não comeram bem hoje à noite.

York ergueu os olhos dos mapas um só instante, sorrindo enquanto o amigo mais velho piscava e seguia pelo chão lotado.

 

Na escuridão, Derry Brewer praguejou consigo mesmo, murmurando entre os dentes enquanto andava com dificuldade pelas folhas secas e sentia a capa se enganchar em gravetos pela milésima vez. Ele ergueu a lâmpada, mas, sem abrir a cobertura, ela mal iluminava o suficiente para que visse os próprios pés. A capa lhe puxou outra vez a garganta, estrangulando-o. Num ataque de mau humor, Derry continuou como um cavalo arreado até o tecido se rasgar e o fazer cambalear. Uma das botas afundou numa poça d’água até o tornozelo.

A floresta era um lugar assustador à noite, ainda mais para quem nascera e crescera na cidade. Derry nunca havia caçado ilegalmente, a menos que roubar açougue contasse. As árvores, mais que pretas, ficavam totalmente invisíveis, com samambaias e espinheiros tão amontoados entre elas que ele sentia sua pele completamente arranhada. Havia parado diversas vezes para lamber feridas nas mãos. Encontrara mais de uma vez pequenos espinhos, arrancando-os com os dentes. O pior era quando assustava algum animal adormecido, que explodia contra suas pernas, puro terror, pelo molhado e olhos enlouquecidos, mal vislumbrados à luz da lâmpada antes de se enfiar pelo mato baixo, uivando como aviso. Tão longe dos caminhos dos homens, Derry também não conseguia entender por que os pássaros fariam ninhos no chão, só para assustá-lo batendo as asas de repente quando ele passava. Se pudesse escolher, preferiria os cortiços de Londres.

Ele olhou para a esquerda e para a direita, verificando mais uma vez se acompanhava a linha de lâmpadas. Elas se estendiam, até onde conseguia enxergar, em ambas as direções, conforme o exército abria caminho cada vez mais fundo na floresta. Do lado de fora, Somerset ordenara silêncio, mas os homens ainda praguejavam e amaldiçoavam quando galhos batiam no rosto, curvados pelos que iam à frente. Os que estavam de armadura eram os únicos que conseguiam andar pelo mato mais denso, embora até eles prendessem o pé e, quando caíam, fizessem ruído suficiente para acordar os céus. Derry revirou os olhos com desagrado quando um deles fez exatamente isso a menos de quarenta passos, algum cavaleiro que xingava a plenos pulmões ao torcer o tornozelo. Se a missão não fosse tão grave, Derry acharia graça naquilo. Mas naquela situação ele avançava cambaleando e irritado com os outros, sentindo que cada espinho, cada galho que o espetava, cada buraco ou monte de folhas úmidas sugavam um pouco de sua força. O meio do inverno acabara de passar, e as noites eram muito longas, mas aquela parecia não ter fim.

A linha de lâmpadas avançou. Muita água ainda pingava das árvores, encharcando-os. A chuva parara havia algum tempo, mas sob as copas o pinga-pinga continuava por muito mais tempo, aumentando o sofrimento. Para Derry Brewer, o único vislumbre de prazer era que homens como Clifford, aquele imbecil pomposo, tinham sido forçados a apear e se arrastar como os outros. Ele torcia para o homem cair numa toca de texugo ou, melhor ainda, que fosse picado por algo cruel.

Não fora a sorte que havia posicionado batedores em torno do Castelo de Sandal para vigiar as forças de York. Derry Brewer tinha mandado aqueles homens para lá dias antes e, mesmo assim, quando dera a sugestão, Clifford meramente bufara e o olhara por cima do nariz. Quando os batedores voltaram com a notícia da chegada do exército de York, o barão não estava em lugar nenhum, e Derry não havia podido se divertir com o embaraço do outro.

Nuvens espessas tornavam impossível qualquer vislumbre da lua ou das estrelas, mesmo que pudessem ser vistas através de copas que deviam ser as mesmas desde a vinda dos romanos. Conforme se cansava, Derry temia que os homens se perdessem totalmente da fortaleza no escuro ou, pior, saíssem em campo aberto assim que o sol nascesse. Na verdade, ele nunca vira o Castelo de Sandal, e era difícil planejar sem o conhecimento detalhado.

Ele aproveitou um momento para espiar dentro da lamparina para verificar se a vela não estava prestes a acabar. Viu que o pavio descansava numa poça de sebo e vasculhou os bolsos em busca de uma vela substituta. Era muito mais fácil acender a nova vela na velha em vez de tentar usar a pederneira no escuro ou avançar até o próximo homem. Sem parar, Derry abriu a lateral da caixa de estanho com cuidado e enfiou a mão lá dentro. Conseguiu ver os homens ao redor com mais clareza quando o fez, avistando uma linha de escoceses em marcha, todos se virando para ver quem os iluminava. Então o vento soprou e sua vela se apagou, fazendo-o praguejar.

— Parem com esse barulho! — exclamou alguém com rispidez, uns vinte passos atrás.

Derry reconheceu a voz de Clifford e, na escuridão total, ficou tentado a recuar e bater no homem com o cinto enquanto não podia ser visto. Em vez disso, trincou os dentes, deslocando-se pela linha até a próxima lamparina que balançava. Centenas de homens caminhavam atrás dele e precisavam de seu ponto de luz para se manter no rumo. Sem ele, se perderiam e sumiriam na floresta densa para nunca mais serem vistos.