Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 38 de 41

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Trindade

Capítulo 32

 

Salisbury acordou se sentindo velho. Os quadris e a região lombar estavam praticamente travados, e ele teve de se sentar e alongar as pernas enquanto o sol nascia, gemendo baixinho quando a dor se aguçou e voltou a ficar leve. A bagagem fora desembarcada na véspera, e os criados de Sandal trabalharam muito tempo depois de o castelo adormecer. Ele não se lembrava de ninguém ter entrado no quarto, mas uma nova bacia com água e meias e roupas íntimas limpas foram dispostas ali para ele. Salisbury usou uma toalha de linho para se limpar, removendo da pele o suor velho e o cheiro de cavalo. As mãos vasculharam embaixo da cama e encontraram um penico grosso de cerâmica, que colocou cuidadosamente sobre a cômoda para esvaziar a bexiga, suspirando de olhos fechados antes de se vestir.

Uma leve batidinha soou na porta e Salisbury gritou “Entre!”, permitindo a entrada de dois criados.

Um deles trazia um estojo de couro com equipamento de barbear, e o outro, uma tigela de água fumegante, esquentada na cozinha do castelo. Ele esfregou o queixo, sentindo os pelos brancos. Alice dizia que ficava com cara de velho quando os deixava crescer. O criado que afiava a navalha numa tira de couro parecia bastante firme, mas Salisbury ainda lamentava Rankin não estar ali. Era preciso certo nível de confiança para deixar outro homem se aproximar de sua garganta com uma faca. Salisbury resmungou com seus botões e ergueu os olhos, divertindo-se com a própria cautela ao se sentar. Enquanto o barbeiro esfregava óleo morno em sua pele, Salisbury escutou o estômago roncar, tão parecido com uma voz que o fez rir. Oito mil homens acordariam com a mesma fome, e não havia nada para comerem.

O sol ainda nascia quando Salisbury chegou ao pátio principal. Ele parou à porta e observou o terreno lotado, ainda sob a sombra das muralhas, de modo que a geada cintilava em todas as superfícies. Muitos homens já estavam de pé, balançando os braços, soprando ar quente nas mãos e batendo os pés, fazendo o possível para levar alguma vida de volta aos membros dormentes. Outros jaziam encolhidos, gemendo e roncando em grupos muito unidos, como cães adormecidos. Um capitão importunava e atraía alguns dos soldados que dormiram do lado de dentro, ignorando seus xingamentos sonolentos e mandando rapazes semicongelados entrarem para se aquecer. Salisbury aprovou. Bons oficiais cuidavam de seus homens.

O conde tremeu com a ideia de passar a noite do lado de fora. É claro que eram todos rapazes, mas com dezembro quase no fim o frio era simplesmente brutal. A ideia fez Salisbury erguer os olhos para a torre, já iluminada em ouro. Três homens estavam de pé no ponto mais alto, observando a terra limpa em torno da fortaleza, sendo fustigados por um vento de congelar os ossos. Não puderam sequer acender um braseiro antes que o sol nascesse, por medo de que a luz atrapalhasse que vissem os inimigos. Os homens se viraram devagar enquanto Salisbury os observava, passando o olhar de um lado para o outro, sem sinal de alarme.

O conde pegou um capitão pelo colarinho e lhe passou a responsabilidade de organizar um grupo de caçadores. Uma das vantagens de sua posição social era que só precisava ficar ali e esperar, expirando longas baforadas de névoa nas mãos, enquanto o homem mandava alguns soldados correrem até o estábulo e convocava voluntários que quisessem escolher o primeiro pedaço das carnes que encontrassem. Cerca de trinta homens ergueram a mão se prontificando, e o número triplicou rapidamente quando a notícia da caçada se espalhou.

Salisbury atravessou o campo aberto quando os homens começaram a se reunir junto aos portões, prendendo a capa no pescoço e se envolvendo no tecido grosso. Quando jovem, ele se considerava mais forte que as pessoas que se queixavam do frio. Naquela época, não o sentia como os outros, embora a passagem dos anos tivesse roubado boa parte de sua imunidade. O vento parecia subir pela muralha, cutucando e atormentando os homens, que cambaleavam com sua força. Ao menos o céu estava claro, uma pequena bênção. Antes que a luz do sol se espalhasse por todo o pátio, Salisbury, acompanhado de três cavaleiros, e duzentos homens a pé estavam à espera da caçada. Ele ficou satisfeito ao ver que uma dúzia levava arco e flechas. Precisariam de tudo o que encontrassem para alimentar tantos no castelo, de pássaros e coelhos a raposas ou lobos azarados que cruzassem seu caminho. Os espetos da cozinha aceitariam qualquer ser vivo para assar, embora Salisbury torcesse para que levassem de volta uma boa corça ou um veado.

Os soldados ao portão assoviaram para os que estavam na torre. Os homens que tremiam de frio olharam para longe uma última vez antes de gritar “Podem ir!”. A imensa porta de madeira foi empurrada para fora e a grade, erguida. Seis soldados empurraram a ponte levadiça, deixando-a cair em seus sulcos sobre o fosso.

Salisbury olhou para o campo encharcado além do fosso externo, com poças de água brilhando ao sol da manhã. Avançou com seu cavalo quando as primeiras fileiras de arqueiros saíram marchando, conversando e rindo entre si enquanto avançavam. A floresta estava diante deles, no fim de meio quilômetro de campo aberto, uma linha artificial marcada pelos jardineiros e guarda-caças de séculos antes para que nunca crescesse até perto demais do castelo.

Com o portão aberto, todos os homens lá dentro pareceram se retesar, de repente vulneráveis; mãos se esgueiraram para o punho das espadas e centenas que estavam deitados se levantaram. Salisbury saiu, sentindo o coração bater mais rápido de pura alegria quando o esforço levou vida aos membros e fez o sangue correr pelo corpo. Os quadris voltaram a doer, mas ele os ignorou, procurando à frente, com expectativa, o melhor ponto para entrar na linha das árvores. Ao seu lado e atrás, duzentos homens começaram a marchar, respirando mais forte enquanto encordoavam os arcos e chamavam os amigos. Atrás deles, a ponte levadiça foi erguida, deixando um grande abismo até o fosso. A grade foi novamente baixada em seus sulcos na pedra e o portão do castelo voltou a ser fechado e trancado. Salisbury olhou para trás, para o castelo, e viu um dos guardas da torre erguer a mão para eles. Ele respondeu com o mesmo gesto quando sua tropa de caçadores atravessou a terra limpa e se aproximou da linha das árvores, ainda sob sombras profundas.

 

York acordou de repente, com um solavanco na cama, perguntando-se vagamente o que o tirara do sono. Havia ficado acordado até muito tarde, marcando seus mapas e tentando se planejar para qualquer combinação possível de forças contra ele. Por um momento, virou-se e começou a adormecer de novo, mas outra trombeta soou bem alto.

A torre.

York pulou da cama, tirou a camisola, enfiou a túnica e as meias sem pensar e praguejou ao descobrir que uma das botas sumira debaixo da cama durante a noite. A capa pendia sobre uma cadeira, e ele a agarrou junto da espada e do boldrié, tropeçando pelo corredor e prendendo a arma nos ombros e na cintura pelo caminho. A trombeta soou de novo, várias vezes, o chamado às armas, para despertar a fortaleza contra uma força inimiga. York começou a correr, jogando para trás o cabelo comprido que lhe caía sobre o rosto.

Ele escorregou nas pedras geladas ao sair no pátio. No telhado da torre, os guardas apontavam por sobre as muralhas. Os soldados já se reuniam junto ao portão, preparando armas e enfiando a cota de malha por sobre a túnica. York atravessou a segunda ponte levadiça sobre o fosso interno e correu pelo antemuro, ouvindo vozes que transmitiam a ameaça aos gritos. O conde Salisbury estava fora de Sandal, isso ele entendera. Sua mente estava nublada, ainda se esforçando para compreender o que acontecia.

Ele subiu correndo os degraus de pedra e entrou na torre propriamente dita, subindo pela escada interna até o telhado, aonde chegou ofegante. York fitou o campo gramado até a linha mais escura da floresta a distância. Era uma cena tranquila, e ele se voltou confuso para os guardas que o observavam.

— O que vocês viram?

O capitão da guarda retesou a mandíbula, o olhar passando rápido para um rapaz que não tirava os olhos das próprias botas.

— Milorde, eu olhava para o sul. O jovem Tennen aqui disse que viu uma perturbação nas árvores quando os caçadores entraram na floresta. Talvez não passasse da caça correndo do esconderijo, mas minhas ordens...

— Não, ele estava certo — interrompeu York. — Prefiro ser tirado do sono por nada do que ser surpreendido na cama. Olhe para mim, rapaz. Conte o que viu.

O rapaz gaguejou na resposta, os olhos vidrados enquanto olhava para qualquer coisa, menos para o duque de York.

— As fileiras da frente entraram sem um sussurro, milorde. Tudo em silêncio. Então eles deram um grito, e achei ter ouvido luta. O restante deles correu à frente, todos de uma vez, então sumiram e toquei a trombeta. É tudo o que sei, milorde. Foi mais o barulho do que algo que vi. Caçadores não gritam, milorde, não que eu saiba.

York se virou, observando a floresta densa que, de repente, parecia possuir uma ameaça sombria enquanto ele espiava.

— Quantos saíram?

O capitão da guarda respondeu:

— Vi quando se formaram junto ao portão, milorde. Duzentos, pelo menos. Alguns com arcos.

— Então não são bandoleiros. Duzentos soldados seriam demais para alguns ladrões esfarrapados.

York estalou os dedos, as mãos se entrelaçando.

— Não ouviu mais nada? — perguntou ao guarda mais novo.

O homem fez que não, mudo.

— Fique aqui, então, de olho. Avise se vir qualquer coisa. Há um exército a um dia de marcha desta fortaleza. Se estiverem em meu bosque, quero...

York se calou quando um grupinho de homens saiu correndo das árvores, disparando pelo campo aberto. Não podia haver mais de quarenta deles, correndo como lebres. O duque ficou boquiaberto, vendo que tinham os olhos na torre e faziam gestos. Alguns apontavam para as árvores sombrias atrás.

— Meu Deus! — soltou York, correndo escada abaixo o mais depressa que podia.

Ele conseguiu se manter de pé, embora a escada fosse um borrão debaixo dele e os passos trovejassem quando atravessou a ponte levadiça interna até o pátio principal.

— Formem-se junto ao portão! — vociferou em campo aberto. — Preparem-se para o ataque! Meu cavalo! A mim!

Parecia que um piscar de olhos se passara desde que estivera quente e adormecido debaixo dos cobertores. York balançou a cabeça, forçando-se a se acalmar, pois o pânico o destruiria. Salisbury estava lá fora e havia sido atacado. A única resposta seria sobrepujar quem lutava nas árvores, lançar sobre eles todos os homens do Castelo de Sandal.

York viu o filho Edmundo entre os que estavam prestes a atravessar o portão principal. Seu coração bateu forte o suficiente para que sentisse vertigem; ele estendeu o braço e puxou o rapaz para perto, baixando a cabeça dele para falar.

— Edmundo, saia pela porta dos amantes no lado oeste. Você sabe onde fica. Afaste-se daqui e espere o fim do dia.

A portinha minúscula ficava escondida no alto da muralha externa, invisível para qualquer atacante. Mas York a mostrara aos filhos, abrindo a hera espessa para lhes mostrar por onde um homem de cada vez conseguiria escapar. Chamá-la de porta dos amantes escondia seu verdadeiro propósito: uma saída secreta quando a fortaleza estivesse prestes a cair.

O filho pareceu chocado com a sugestão.

— É um ataque, então? As forças da rainha?

— Não sei — retorquiu York. — Seja como for, você não faz parte disso, Edmundo. Leve dois homens com você e use a porta. Não posso me preocupar com você hoje.

York se esticou e beijou o rosto do filho, dando-lhe um breve abraço.

— Vá!

Edmundo queria argumentar, mas o pai lhe deu as costas quando lhe trouxeram o cavalo e a armadura. York se sentou num tamborete alto, colocado debaixo dele, para os criados prenderem e afivelarem as placas das coxas e enfiarem as botas com esporas em seus pés. Ele viu que o filho ainda estava ali de pé, parecendo ansiar o portão principal, que se abria, revelando os homens desesperados tentando retornar ao castelo.

— Vá! — gritou York, assustando Edmundo para que se movesse.

York desceu do tamborete num movimento súbito quando os caçadores passaram correndo. Pegou um deles pelo gibão, quase o derrubando com a interrupção violenta da velocidade.

— Quem nos ataca? — perguntou York.

— Não vi as cores, milorde. Acho ter ouvido gritarem “Percy”, mas vinham de todas as direções e eu estava...

— Quantos? Onde está Salisbury? — berrou York, fazendo o homem se encolher de medo.

— Não o vi, milorde! Havia muitos homens, mas as árvores! Eu não...

Com um rosnado, York o jogou para o lado. Seus homens se despejavam pela ponte levadiça e formavam fileiras fora da fortaleza como trigo se derramando pela terra, deslocando-se para os lados para deixar mais e mais saírem à luz.

York foi até eles assim que terminaram de lhe vestir a armadura, levando a montaria a passo e segurando o elmo e a espada numa das mãos. Fora das muralhas, conseguia sentir o vento que soprava pelo campo aberto, trazendo consigo o cheiro de gelo. Ele enfiou o elmo e prendeu a correia na garganta. Fez um sinal de cabeça ao soldado que lhe ofereceu as mãos com os dedos entrelaçados, apoiou nelas a bota de metal e montou num único movimento rápido. Ouviu o homem praguejar quando a espora fez um corte em seu polegar, mas York não olhou para baixo. Em vez disso, ergueu e depois baixou rapidamente a mão.

Os capitães vociferaram a ordem de marchar enquanto metade do efetivo ainda estava dentro da fortaleza. O Castelo de Sandal não fora projetado para milhares tentarem sair, mas York imaginava Salisbury sendo vencido como cães atacando um urso. Sentia uma pontada de medo e fúria a cada segundo que passava, e não esperaria mais. Fez o cavalo acompanhar a linha, observando as árvores escuras com algo parecido com pavor. Olhou para cima quando uma trombeta soou em algum ponto daquela massa de verde e sombras, um som agudo e fraco, bem distante.

— Comigo! — gritou York para a linha.

Ele fincou as esporas na montaria e o cavalo se lançou num trote, as rédeas seguras como barras de metal ao lado do pescoço do animal.

Os homens dobraram o passo, correndo pelo campo com ele, deixando o castelo e a segurança para trás.

 

Salisbury gritou de dor quando algo passou zunindo por seus olhos, atingiu o ombro e sumiu no mato. O cavalo empinou, pisoteando algo abaixo que tentava segurar suas rédeas. A floresta havia ganhado vida com homens que, em silêncio, vinham correndo de todas as direções. Salisbury se virara mais de uma vez, agradecendo a Deus por ter trazido a espada e desferindo golpes amplos que os mantinham a distância. Os homens que o acompanhavam lutavam com selvageria para protegê-lo e se manterem vivos. Com isso, Salisbury não tinha mais certeza de que lado ficava o Castelo de Sandal, mas sabia que teria de se libertar se quisesse sobreviver.

Eles mal tinham entrado na mata fechada quando o ataque começou. Salisbury ainda não sabia se o inimigo estivera aguardando por ele ou se surpreendera numa emboscada antes que estivessem prontos. Nada disso importaria se não conseguisse voltar, mas a probabilidade minguava diante de seus olhos enquanto seus soldados eram derrubados. A maior parte do grupo de caça usava cota de malha, vestimentas tão valiosas que nunca seriam deixadas para trás. Mas não tinham escudos, e eram pouquíssimas as lâminas pesadas; havia apenas adagas e machados pequenos que um homem pudesse levar ao cinto. Os que pularam sobre eles na escuridão entre as árvores empunhavam machados de guerra e espadas longas e usavam elmos e cotas de malha.

Na outra ponta, alguns homens de Salisbury se separaram e fugiram, amaldiçoados pelos que ficaram para trás. Salisbury entendia, só Deus sabia como entendia. Para onde quer que olhasse, homens se esgueiravam para cima dele, e o braço da espada estava se cansando. Os inimigos pareciam brotar do mato denso, com rostos arranhados, cortados, manchados de verde, os dentes à mostra enquanto agarravam seus homens e golpeavam sem parar até que respirassem sangue e caíssem.

Um de seus caçadores havia tentado tocar a trombeta, o som mal começando quando uma flecha se enfiou em seu peito e ele caiu. Outro homem a pegou e tentou correr e soprar. Foi detido por um braço coberto de cota de malha, erguido como uma barra, e ele caiu de costas, jogando a trombeta para um terceiro. Esse homem soprou uma nota longa e, de certo modo, perdeu a coragem ao fazê-lo, e saiu correndo pelo mato rasteiro com três soldados inimigos atrás.

Salisbury olhou em volta, com terror e uma sensação de desamparo. Eles não tinham fim, e seus homens estavam sendo assassinados por todos os lados. Ele fincou os calcanhares na montaria e o cavalo pulou um arbusto, bufando e gritando, a respiração densa e ofegante. O conde viu um homem correr entre duas árvores e se jogar sobre ele com um grande salto. Ele girou a espada e sentiu a lâmina desferir um corte antes de ser jogado de costas no chão. Então o cavalo disparou, e Salisbury só pôde observá-lo partir, os estribos esvoaçando loucamente.

Um homem barbado caiu sobre ele, surgido do nada. Salisbury lutou, mas era muito mais fraco que o adversário. O homem rosnava em gaélico escocês ao elevar o machado acima de sua cabeça.

— Pax! Resgate! — berrou Salisbury, vendo cada poro e cada arranhão no rosto selvagem do homem.

Para seu alívio, o agressor saiu de cima dele e recuou, com a respiração pesada e apoiando-se no cabo comprido do machado, observando-o. Quando Salisbury se sentou e tentou falar, o jovem escocês desferiu um golpe súbito e o fez cair na escuridão.

 

York ouviu o cavalo antes de vê-lo. Sua própria montaria lutava para atravessar a floresta sem trilhas, forçada a seguir longe das linhas sinuosas dos caminhos de animais pela necessidade de acompanhar seus homens. Ele puxou as rédeas com o troar de cascos, e seu coração se apertou quando reconheceu o cavalo de Salisbury, correndo enlouquecido e já ferido por todos os espinhos e galhos que tivera de atravessar. O animal em pânico não viu passagem pela linha de homens, que ergueram os escudos contra ele, forçando-o a parar de repente e girar, escoiceando.

— Deixem-no passar! — gritou-lhes York, querendo avançar. — Agora eles não podem estar longe.

Ele podia ver parte do caminho que o animal abrira e tentou segui-lo, embora fizesse tantas curvas que era quase impossível. Acreditou ter ouvido um ruído à frente e abriu os braços até que seus capitães viram e repetiram o gesto, detendo as linhas de homens em silêncio.

A floresta ficou imóvel, todos os animais e pássaros já tendo fugido há muito. York espichou o pescoço para descobrir a direção que deveria seguir e então notou o som de homens em movimento, os chamados e as vozes de inimigos em sua floresta. Em sua terra.

Ele apontou para a fonte do som, e, quando voltaram a avançar, seus homens viram a floresta se mover diante deles, uma linha de soldados que parecia se estender até onde conseguiam enxergar. As fileiras que estavam com York foram avistadas ao mesmo tempo, e um grande urro subiu dos dois lados. York ergueu o escudo e baixou a viseira, levantando a espada para o primeiro golpe.

Os exércitos se chocaram, não havia espaço para manobras nem formações. Uma linha se atracou com a outra, e cada morte envolvia muito suor e gemidos, tão próximos que respiravam o mesmo ar e se respingavam com o sangue do homem que caía. York golpeava sem parar quem chegasse ao seu alcance, usando a altura da montaria e a espada longa com efeito terrível. Mas, nos momentos entre cada golpe, podia ver uma hoste de soldados chegando à direita e à esquerda. Estava sendo flanqueado por uma força maior. Deu um grito de pesar por Salisbury, mas não tinha opção.

— Recuar em boa ordem! De frente para eles, mas recuem para o castelo.

Ele vociferou a ordem outra vez e ouviu seus capitães a repetirem a plenos pulmões, já dando passos para trás. Era uma situação difícil, e alguns deles eram apenas rapazes de Londres, maltreinados e vencidos por uma selvageria que não tinham aprendido a esperar.

Os soldados inimigos ouviram a ordem e avançaram. York trincou os dentes ao ver que alguns usavam azul e amarelo. Homens de Percy, dispostos a se vingar da queda de todos os senhores que perderam. Ele recuou em círculos, fazendo a montaria girar e trotar alguns passos antes de se virar de novo e enfrentar os homens que avançavam. Não conseguia recordar a que distância chegara do castelo, não com certeza. Cada passo era difícil, com homens que corriam para cima deles rosnando e empunhando machados, passando as lâminas como se ceifassem cevada. Os soldados de York caíam e se punham de pé enquanto recuavam, tentando formar uma parede de escudos, mas ainda vigiando os pés para evitar raízes e espinhos. Não podiam evitar que se amontoassem no centro, em busca do apoio dos números, embora isso permitisse que os homens nos flancos se distanciassem e fossem abatidos.

York se virou mais uma vez e viu algo brilhando à frente. Rezou a Deus para que não fosse uma simples clareira na floresta. Fez o sinal da cruz e deu a ordem que os homens queriam ouvir.

— Agora, corram! Entrem em formação de novo em campo aberto!

Seus homens já corriam em disparada enquanto ele ainda gritava, e York teve de trotar para se manter ao lado deles, o cavalo pulando arbustos e saindo ao sol e ao vento de inverno. Ele não se enganara. O Castelo de Sandal estava à frente, e havia milhares de homens correndo para formar fileiras em campo aberto, ofegantes, as mãos no joelho e a fúria no rosto.

A sensação de espaço e ar fresco restaurou a confiança dos homens, fazendo com que quisessem enfrentar os soldados que os aterrorizaram na floresta sombria. Eles ergueram as armas e rugiram em desafio, enquanto soldados se lançavam do meio das árvores por toda a extensão do campo.

Os primeiros foram recebidos por uma linha de escudos e espadas em riste, porém mais e mais saíram da floresta, flanqueando mesmo as fileiras próximas que se reuniram diante de Sandal e se despejando em torno deles. York virou o cavalo, vendo guerreiros escoceses correrem pelo terreno, mantendo as espadas baixas até saltar e fazê-las cair sobre os escudos e a cota de malha de seus homens. Seu coração se apertou ao avistar arqueiros correndo pelos flancos, protegidos por outras centenas que ficavam parados com espada e escudo diante deles, para que não pudessem ser atingidos.

As flechas começaram a voar pouco depois, e a batalha avançou e recuou diante do castelo. Todas as forças de York estavam engajadas, sem reservas, sem ter como romper a enchente de soldados que ainda vinha das árvores em número cada vez maior. Centenas de atacantes foram mortos, no entanto havia sempre mais para avançar sobre suas linhas, gritando e empurrando-as. As flechas voavam como bandos de pássaros, derrubando os homens ou forçando-os a erguer o escudo, ficando assim vulneráveis a um golpe vindo de baixo.

York foi forçado a recuar cada vez mais com seus homens até parar o cavalo na terceira fileira, a menos de cinquenta metros do portão do Castelo de Sandal. Não conseguiria recuar sobre aquela pequena ponte levadiça. Assim como retardara sua saída, a entrada estreita ficaria abarrotada de corpos se eles tentassem retornar à segurança das muralhas. O duque respirou fundo, fechou os olhos e encheu o peito com o ar que conhecera a vida inteira. Quando abriu os olhos, viu Margarida.

A rainha cavalgava em uma égua castanha, com doze escoceses barbados como guarda pessoal. Eles formaram uma aglomeração na retaguarda do campo de batalha, mal se afastando das árvores, enquanto ela assistia. York estava a menos de trezentos passos dela, e via seu sorriso. Achou ter reconhecido Derry Brewer ao lado dela, e balançou a cabeça.

Por um longo tempo, York analisou o campo de batalha, em busca da mais leve esperança. O combate prosseguia em torno dele, e a cada momento seus homens se aproximavam ainda mais da derrota completa. Estava acabado, e ele se preparou para falar. Com cuidado, embainhou a espada e ergueu a mão direita.

— Paz! Eu me rendo. Em nome de York, baixem as espadas.

Ele teve de repetir as palavras a plenos pulmões para ser ouvido.

Seus homens o observaram em choque, talvez mais de alívio. Também podiam prever o destino batalha. Os soldados da retaguarda largaram as lâminas no chão e levantaram as mãos para mostrar que o tinham feito. York conseguiu ouvir a mesma ordem repetida do outro lado. Os sons do combate desapareceram lentamente, substituídos pelos gritos dos feridos e dos moribundos, repentinamente desagradáveis e chocantes naquele silêncio maior.