Trindade
Capítulo 9
York descansou as mãos numa balaustrada de madeira, o orgulho evidente enquanto observava o menino assumir sua posição. Eduardo, conde de March, seu filho mais velho, tinha 13 anos, mas era mais alto e muito mais forte que os rapazes da cidade três anos mais velhos que ele ou mais. O menino ergueu a espada para o pai antes de usar o punho para baixar a viseira do elmo.
— Veja isso — disse York entre os dentes.
Salisbury sorriu, encostando um dos ombros num pilar de pedra. Ele e York tinham passado quase o mês inteiro no Castelo de Ludlow, fazendo planos e ajustando-se ao súbito revés da fortuna. Daquela imensa fortaleza de pedra, os dois enviaram cavaleiros a todas as suas propriedades para convocar seus capitães e seus melhores homens até que a aldeia e os campos em volta parecessem um acampamento militar. Havia pouca probabilidade de ataques vindos de Gales naquele ano, depois que a notícia cruzou a fronteira e se espalhou a oeste. Ludlow havia se tornado a maior reunião armada do reino, e ainda chegavam mais homens. Salisbury sentia algum prazer em se afastar do complexo negócio de suprir tanta gente de comida, cerveja e equipamento só para assistir à luta de um menino favorecido.
Dois homens enfrentavam Eduardo no pátio de treinos, cercado por todos os lados por claustros de pedra cinzenta. Em belas armaduras, eles também ergueram as espadas para York, baixando a cabeça. Jameson era uma figura enorme, um ferreiro. Uma cabeça mais alto que o menino, duas vezes mais largo e com o peito mais robusto. Em contraste deliberado, Sir Robert Dalton era esguio e se movia com elegância e equilíbrio perfeito, os pés sempre firmes no chão.
York levantou a mão, e um menino tamborileiro, no canto do pátio, começou a tocar um ritmo marcial, fazendo o coração de todos os que conheciam aquele som do campo de batalha bater mais rápido.
Os três portavam escudos presos ao braço esquerdo, segurando-os por dentro da curva. O menino movia o seu com leveza, embora Salisbury visse que era um pouco grande demais para ele. O conde Eduardo deu passos lentos para a direita, mantendo o escudo erguido e arruinando a possibilidade de os dois adversários o atacarem ao mesmo tempo. A espada estava empunhada à frente do corpo, a língua de uma víbora à espera.
O homem maior se moveu primeiro. Jameson soltou um rugido potente que ecoou por todos os lados, para espantar e assustar o jovem adversário. A espada do ferreiro descreveu um arco depressa pelo lado esquerdo de Eduardo, chocando-se com o escudo que o menino segurava longe do corpo para absorver o golpe. Homem e menino trocaram uma saraivada de investidas, acertando-se mutuamente, atacando as mínimas brechas da defesa. Num piscar de olhos ambos os escudos pintados ficaram surrados e arranhados até que o homenzarrão recuou.
— Mais, Jameson! — veio a provocação, saída do elmo do menino. — Já perdeu o fôlego?
Antes que o homenzarrão pudesse responder, seu companheiro deslizou com passos rápidos. Sir Robert recorria à velocidade e à habilidade muito mais que o ferreiro. Fintava e girava, os pés sempre em movimento para encontrar o melhor ponto para investir, depois se abaixando ou afastando a lâmina do oponente com a sua caso a arma do adversário se aproximasse demais. Seu estilo era mais como uma dança, no entanto os lordes que acompanhavam o combate fizeram uma careta quando o conde Eduardo recebeu um punho de espada na barriga que o fez cambalear. Sir Robert avançou imediatamente, pressionando Eduardo e o forçando a recuar, golpeando cada vez mais rápido até que o braço do escudo ficasse completamente dormente. Com o pai de Eduardo assistindo com frieza, Sir Robert fazia o menino abaixar até o chão, o olho no escudo, a perna direita estendida à frente. Quase agachado, Eduardo visou à perna e deu um golpe logo acima do tornozelo. Sir Robert gritou de dor. Foi rápido o suficiente para se recompor antes de cair, mas ainda mancava ao se afastar.
Eduardo de March se ergueu com toda a sua altura, meio cego pelo ardor do suor, mas tão irritado neste momento como só um menino de 13 anos conseguiria ficar. Com um grito, foi sua vez de investir, forçando o esguio cavaleiro a pôr o escudo para trabalhar. Eduardo ergueu a espada para dar um golpe contra ele e, de repente, se lançou de lado, atacando o grande ferreiro que avançava ao seu redor. O movimento pegou os dois homens mais velhos de surpresa, e a espada de Eduardo se chocou na junção do gorjal de Jameson com a armadura, deixando-o espantado. Se Eduardo fosse um adulto, o golpe teria sido fatal.
No momento de choque, Sir Robert Dalton, ainda mancando, deu um passo à frente e descansou a própria espada no pescoço do menino.
— Morto — disse em voz alta e clara.
Os três estenderam a mão para erguer as viseiras, embora a do jovem conde tivesse emperrado no primeiro embate e ele se esforçasse para levantá-la. O ferreiro alongou o pescoço com desconforto ao avançar até Eduardo e segurou a beirada da viseira, erguendo-a até que se abrisse.
— O que foi aquilo? — perguntou Jameson, a voz de um grave profundo. — Tentando atingir meu pescoço com um homem bem à sua frente?
O jovem conde deu de ombros, claramente satisfeito consigo mesmo.
— Peguei você de jeito e você sabe, Jameson. E terei homens comigo para cuidar de minha retaguarda quando for para a batalha. Você, talvez, se não estiver velho demais. Você teria rachado a cabeça de Sir Robert se eu lhe desse uma abertura como aquela e eu derrubaria outro homem ao mesmo tempo.
O ferreiro deu uma risadinha, o sorriso dividindo ao meio o rosto largo e quadrado.
— Teria mesmo. Já passei muito tempo treinando o senhor. Não deixarei ninguém mais me fazer de bobo, não depois de todas as surras que já levei.
Estava bastante claro que não havia se ferido com a demonstração, embora fizesse questão de alongar o pescoço dolorido de um lado para o outro.
— Muito bem! — gritou York na lateral do pátio. — Preste atenção a seus mestres, Eduardo. Você fica mais forte e mais rápido cada vez que o vejo.
Ambos os espadachins se curvaram profundamente ao ouvir York falar, enquanto Eduardo corava de prazer com a aprovação do pai, erguendo a espada com orgulho.
— Ele pensa com frieza — comentou Salisbury, seu próprio espírito animado ao ver o prazer quase infantil do amigo. — Bom equilíbrio, o primeiro sinal de velocidade. Tem sido bem-treinado.
York tentou dar de ombros, mas a alegria de ver o filho mais velho lutando bem emanava dele como calor.
— Eduardo tem coragem, e Jameson e Sir Robert sabem como estimulá-la. Ele não encontrará muitos homens tão fortes quanto o ferreiro, e Sir Robert foi treinado na França e depois na Inglaterra. Vi poucos homens melhores com a espada. Em poucos anos, acho que esse menino vai dar trabalho.
Ambos os homens se viraram quando ouviram passos se aproximar pela outra ponta do claustro. Salisbury viu que era sua irmã, a duquesa Cecily, esposa de York e mãe do rapazinho empolgado que agora cortava um exército de adversários imaginários no pátio de treino. Ver uma vida tão jovem, com as verdadeiras batalhas ainda distantes, fez Salisbury se sentir velho.
— Estávamos assistindo ao treino de Eduardo, Cecily — disse Salisbury à irmã quando ela se aproximou. — Ele é bastante promissor; mas, com seu sangue, como não seria? Será que seu homônimo, o rei Eduardo, era alto assim nessa idade? O menino cresce como trigo, um centímetro a mais sempre que desvio os olhos. Ficará mais alto que seu marido, não duvido.
Salisbury viu a irmã aconchegar ao peito o caçula num pano bordado que ela amarrara ao ombro. O volume do choro da criança era espantoso, um som agudo e enfurecido que já era doloroso a poucos metros de distância. Salisbury sentiu o humor de York se tornar sombrio quando Cecily foi até ele.
— E como está meu sobrinho? — perguntou Salisbury, forçando a alegria na voz.
— Ainda sofre. Encontrei o médico tentando alongá-lo, mas ele gritava de forma tão terrível que não pude deixar que continuasse. Isso foi ordem sua?
Ela lançou um olhar arguto ao marido, fazendo York desviar os olhos para não a encarar.
— Sugeri que ele tentasse, Cecily, foi tudo. O homem parecia pensar que algum tipo de tala de madeira poderia ajudar seu crescimento, só por alguns anos. Tenho artífices que poderiam criar uma coisa dessas, se você concordasse.
Quando o berreiro atingiu novos níveis, York fez uma careta e tapou os ouvidos.
— Bom Deus, ouça-o agora! Essa criança nunca dorme de tanto chorar! Achei que, se suas costas fossem endireitadas, talvez lhe dessem alívio.
— Ou se quebrassem para que ele morresse! — retorquiu Cecily. — Não quero mais ouvir falar de talas. Você deixará os cuidados de Ricardo por minha conta de agora em diante. Não admito que ele seja torturado por idiotas que o torcem como se fosse um pedaço de pano.
Diante do desconforto de assistir à tamanha fúria entre marido e esposa, Salisbury se afastou para observar a instrução no pátio, com alguns passos deliberados em torno de um pilar para dar ao casal alguma ilusão de privacidade. Ele mordeu o interior do lábio quando York voltou a falar, mortificado de ouvir um casal irritado demais para se importar com os outros.
— Cecily — disse York em voz alta, para ser ouvido acima do berreiro da criança —, se quisesse lhe demonstrar misericórdia, você o poria do lado de fora numa noite de inverno e deixaria que o frio o levasse. Ele tem 2 anos e ainda grita dia e noite! E lhe digo que os espartanos faziam a coisa certa. O médico diz que a espinha dele está se curvando e que só vai piorar. Ele não viverá sem dor, e não lhe agradecerá por poupá-lo caso se torne um aleijado. Quer envergonhar minha casa com um filho deformado? Será que ele enlouquecerá assim, largado numa casa solitária para receber os cuidados de criados como um cão raivoso ou um imbecil? Não há pecado em deixá-lo ir, basta colocá-lo no frio. Padre Samuel me garantiu.
Quando Cecily respondeu, sua voz mal passava de um sibilar, fazendo o irmão se encolher pelo amigo.
— Você não tocará num fio de cabelo dele, Ricardo Plantageneta. Está me entendendo? Perdi cinco filhos por sua casa e por seu nome. Tive seis vivos, e estou grávida de novo. Acredito que já dei o bastante a York. Portanto, se eu quiser manter este aqui a salvo, mesmo que ele nunca ande, não é da sua conta. Já fiz o suficiente, pari o suficiente. Esta criança precisa mais de mim que todo o resto, e cuidarei dela sozinha se for preciso. Diga que não vai cochichar nada com os médicos, Ricardo. Diga que não terei de vigiar para ter certeza de que não vão lhe dar algum veneno.
— É claro que não terá — grunhiu ele. — Juro que essa criança tirou sua mente do prumo, Cecily. Crianças morrem, o mundo é assim. Algumas vivem e crescem fortes, e algumas pobres almas sofrem como essa, presas entre a vida e a morte. Desejaria não ter lhe dado meu nome. Se soubesse que seria esse pedacinho chorão de...
— Não — retrucou Cecily, os olhos brilhantes de lágrimas.
O marido respirou fundo.
— Quando está grávida você vira uma mulher diferente, Cecily. Não a entendo de jeito nenhum. Tudo bem. Faça o que quiser com ele. Tenho outros filhos.
Ele se virou, olhando com raiva para o pátio de treino onde o filho mais velho atacava um mastro de madeira envolto em pano e couro, batendo na coisa com golpes poderosos. York sentiu o olhar furioso da esposa sobre ele durante um tempo que pareceu infinito. Recusou-se a se virar de volta e, depois de algum tempo, ela se afastou com passos pesados.
Salisbury voltou para o lado de York e deixou o amigo recobrar a paz, ambos fitando o pátio enquanto o jovem Eduardo cortava o mastro ao meio, gritando de triunfo quando ele caiu. O contraste entre os filhos não poderia ser maior naquele momento.
— Ele será um terror no campo de batalha — comentou Salisbury, esperando ver só um pouquinho do orgulho e do prazer voltar.
Em vez disso, York franziu a testa para o pátio, o olhar fixo muito mais longe.
— Talvez não tenha de ser — retorquiu, a voz rascante —, se eu ainda conseguir fazer as pazes com Henrique. Você o viu, Ricardo, enfim de pé como o homem que deveria ser. Ele me fez lembrar seu pai pela primeira vez. Talvez tenha sido o momento mais estranho de minha vida. O rei me expulsou de sua presença como um cachorro velho, mas em resposta meu coração se regozijou ao ver tanta força nele! — York balançou a cabeça, assombrado com a lembrança. — Se eu conseguisse fazer Henrique entender que não o ameaço, talvez meu filho não tivesse de lutar durante sua vida. Minha casa e meu nome são o que me preocupam, nada mais; meu dever é manter meus títulos e minhas terras a salvo para Eduardo herdá-los.
— Vê-los reconciliados me daria alegria — respondeu Salisbury, ocultando a consternação. — Mas você mesmo disse que o rei tem homens demais sem amor pela casa de York sussurrando em seus ouvidos... além da rainha francesa, que não é amiga sua. Mas creio que você ainda não tenha sido chamado para seu grandioso conselho, essa tal viagem.
— E você foi? — perguntou York. — Eu não soube de nada. Duques, condes e barões vis cavalgarão com o rei, mas não você e eu. Homens que conheço há anos não respondem mais às minhas cartas. E quanto ao seu filho, Warwick?
Salisbury balançou a cabeça.
— Parece que ele também perdeu os favores. Meu irmão Guilherme foi chamado a Londres. O conde Percy tem uma esposa Neville mas também está ao lado do rei. O que acha que isso significa?
Um pouco da conversa irritada com Cecily ainda tingia a voz de York quando respondeu:
— Significa que os ouvidos do rei Henrique estão cheios de veneno, é isso que significa. Toda essa conversa de “proteger o reino daqueles que ameaçariam a paz”... Quem mais seria senão York e Salisbury? Ah, e Warwick também, se ficar conosco. Parece mesquinho sujar meu nome depois de tudo o que fiz pelo trono de Lancaster. Você e eu tornamos o filho dele príncipe de Gales, por Deus! Enquanto o rei dormia, protegemos a Inglaterra de todos aqueles que lhe punham os olhos. Talvez eu devesse ter permitido que os franceses controlassem o canal da Mancha e atacassem nossas costas, ou ignorado as propinas e a corrupção de lordes venais quando fui chamado para decidir sobre sua conduta. Pelas chagas de Cristo, tenho inimigos demais para contar. Um a um, todos os que eu chamava de amigos se afastaram sob as asas da rainha Margarida. Escrevi a Exeter, Ricardo. Apesar de nossas diferenças, o homem se casou com minha filha mais velha. Achei que na hora de escolher, ele e eu... Bem, não importa. Não recebi resposta dele. A casa de minha própria filha se fechou para mim.
— Você não poderia esperar outra coisa. Ele foi obrigado a morar em Pontefract por ordem sua, Ricardo. Exeter não perdoará isso, não facilmente. Não, Exeter fica do lado dos Percys... e eles ficam na sarjeta. Mas você tem aliados — continuou Salisbury. — Já lhe prometi meu apoio. Meu nome está ligado ao seu em vários aspectos, e ascendemos ou caímos juntos. Meu filho Warwick ainda vem a Ludlow, com mais de mil homens de armas de suas propriedades.
Mesmo no coração de pedra da fortaleza, neste momento Salisbury baixou a voz até pouco mais que um sussurro.
— Teremos o suficiente para pegar em armas contra eles, se nos acusarem de traição.
— Por Deus, não, não é isso o que quero! — exclamou York. — No dia de meu casamento com Cecily, você me disse que os Nevilles estavam comigo, lembra? Você manteve a palavra quando era importante, e lhe sou grato. — Suas mãos apertaram a balaustrada, os nós dos dedos brancos. — Meu pai foi executado por traição, Ricardo. Consegue entender que não percorrerei esse caminho com o coração leve? Se o trono me couber, não o recusarei, é claro que não! Mas passei a infância como enjeitado, com aquela mancha na honra de minha casa. Você gostaria que o nome York queimasse até virar carvão?
Ele se aproximou, a voz um sussurro ríspido.
— Estou lhe dizendo, não pegarei em armas contra ele. Não posso, não no estado dele. Quando Henrique estava doente e diziam que morreria, era diferente. Agora ele despertou, e não é o homem que foi. Você estava lá, você o viu! Talvez seu espírito tenha se inebriado totalmente enquanto ele dormia, não sei. Talvez Deus tenha lhe restaurado o juízo em Sua infinita misericórdia. Tudo mudou agora que o cordeirinho acordou totalmente, agora que retornou como homem. Tudo é novo.
No pátio, Eduardo de March juntava o equipamento para ir embora. Retirara o elmo, e o cabelo estava preto e molhado de suor. Salisbury viu o menino olhar para o claustro, em busca da aprovação do pai, mas York não o viu.
— Se eu pudesse ter apenas uma hora com o rei — continuou York, falando depressa, as mãos torcendo a balaustrada como se quisesse parti-la ao meio. — Se pudesse ter certeza de que lê minhas cartas, ou se conseguisse afastar todos os que sussurram, eu ainda conseguiria lancetar esse furúnculo. Somerset! Soube que ele agora é duque? E capitão de Calais? Meu título roubado! O homem que prendi declarado “súdito fiel e verdadeiro” em todas as esquinas de Londres, zombando de mim por sua vez. Somerset, Percy, Exeter, Buckingham e Derry Brewer. Enquanto esses homens viverem e prosperarem como erva daninha, a oportunidade de meu rei viver lhe é tirada. Estou lhe dizendo, ele se afogará de novo com aqueles homens ao redor.
Salisbury sentiu apenas irritação ao ouvir York falar. O homem já fora uma rocha onde ancorar as ambições dos Nevilles. Um encontro com o rei despertado e a pedra York parecia completamente rachada. Salisbury não permitiu que nenhum sinal de desapontamento aparecesse ao responder:
— Não importa o que digam sobre nós, nenhum rei consegue governar sem seus três lordes mais poderosos. Com o tempo Henrique perceberá isso, tenho certeza. Mas, meu amigo, você sabe que não podemos ir até ele sem homens armados, senão seremos presos, capturados como peixes numa armadilha de varas. Com os seus soldados e os meus para garantir nossa segurança, o rei Henrique terá de escutar nossas justas queixas. Não vou ficar sentado esperando que homens como o conde Percy consigam me declarar inimigo da Coroa! Nem você. Temos de agir com resolução e forçar a defesa de nossa causa. No verão, isso terá ficado para trás e a paz será restaurada. Por que não? Nada se fez que não possa ser desfeito. Ainda não.
Salisbury sentiu que era como lançar palavras contra uma parede. York não o escutava, duro e frio ali de pé, ainda furioso com a esposa.
— Sinto muito saber que seu filho é... malformado — disse Salisbury.
York deu de ombros, balançando a cabeça.
— Já enterrei filhos. Enterrarei de novo. Não importa o que acontece a um menino adoentado, embora eu tema a tensão sobre a mãe. — Ele encarou o amigo diretamente, a dor inscrita nos olhos. — Cecily está obcecada por ele. Há vezes em que só desejo que aquela coisinha... Não importa. Venha, você deve estar com fome. Vou pedir à cozinheira que prepare alguma coisa para agradá-lo. Ela consegue fazer maravilhas com um pouco de peixe cozido.
York deu um tapinha no ombro do amigo, e eles se afastaram rumo ao salão de banquetes, parte da tensão se aliviando em ambos com a ideia de uma boa refeição.