Trindade

Conn Iggulden · Capítulo 17 de 41

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Trindade

Capítulo 11

 

 

Ricardo de Warwick chegou ao Castelo de Ludlow no fim de abril, levando o irmão João e pouco mais de mil e duzentos homens para se somarem às forças reunidas em torno daquela fortaleza. Seiscentos dos homens de Warwick eram arqueiros de alto nível, que conheciam seu valor e percorriam as ruas com uma autoconfiança arrogante. Em pouco tempo, montaram raias e alvos em torno do terreno do castelo, praticando sua arte durante todas as horas diurnas. Os outros homens portavam machados e alabardas, armados com a renda das propriedades de Warwick ao norte e nas Midlands, convocados a seu serviço como senhor feudal. Para o contentamento de York e seu pai, Warwick vestira todos os homens com túnicas de um vermelho vivo por cima das cotas de malha, tingidas com raiz de garança para ter cor de sangue. Como oficial comandante, ele usava a mesma cor, com uma listra branca no meio.

O humor de York havia melhorado ao ver tantos acrescentados às forças de Ludlow. Ele se preocupara durante semanas de atividade, escrevendo cartas e enviando mensageiros, tentando reunir partidários enquanto o rei recobrava as forças e se preparava para partir de Londres na grande viagem. York insistiu em comemorar a chegada dos filhos de Salisbury com um banquete naquela primeira noite, esvaziando os antigos barris franceses da adega da fortaleza para se assegurar de que todos os homens tivessem uma taça cheia para brindar a seus comandantes.

Na manhã seguinte, York estava roncando no quarto. Warwick e o irmão foram menos afetados, e ambos os rapazes se levantaram ao alvorecer para caçar com o pai. Cavalgaram por entre uma imensa série de barracas e soldados que preparavam o desjejum em pequenas fogueiras. Os homens se levantaram respeitosamente na presença dos nobres antes de se instalar para comer, polir, consertar e afiar. Apesar das cabeças doloridas daquela manhã, a chegada de Warwick aumentara a tensão no acampamento. Não se reuniam exércitos daquele tamanho para tomar sol na primavera.

— Seus homens vermelhos formam uma bela companhia — gritou Salisbury para o filho enquanto cavalgavam pela trilha de uma fazenda. — Acho que nossos inimigos vão recuar em campo apenas com sua glória.

Warwick revirou os olhos para fazer graça com o irmão João. Os dois filhos de Salisbury estavam adorando ficar ao ar livre naquela manhã. O sol estava alto, e eles gozavam de boa saúde, com um exército à disposição.

— Quero que eles sintam que são um único grupo, um batalhão, pai. As túnicas farão com que se vejam em campo, diferenciem amigos de inimigos com um só olhar. O senhor verá, caso chegue a isso.

Salisbury fungou com desdém, embora o orgulho que sentia do filho fosse óbvio para ambos.

— Imagino que um arqueiro também vá gostar de alvos tão exuberantes — comentou Salisbury.

— Meus arqueiros usam o mesmo vermelho — retrucou Warwick. — Eles responderão a qualquer zombaria com suas flechas. Isso me custou uma fortuna em tecido e pigmento, mas lhe juro, pai, eles andam mais altivos com sua cor.

Os três Nevilles cavalgaram para além das sentinelas e dos batedores ao redor do castelo de York, embora não até uma distância que tornasse impossível voltar correndo caso fossem avistados e alvejados por algum inimigo. Naquele ano, não havia ladrões nem salteadores nas estradas em torno de Ludlow, os quais foram em busca de cidades sem uma hoste de homens armados acampados à sua soleira. No entanto, sempre havia ameaças. Londres ficava a mais de cento e cinquenta quilômetros — considerando a distância até Ludlow, era quase outro reino. Mas dois Nevilles estiveram presentes no ataque dos Percys ao casamento de João, e só um idiota sairia a cavalo sem cautela e atenção.

Salisbury parou numa pequena ponte de madeira sobre um riacho, acenando para que Ricardo e João se aproximassem o bastante para lhes falar em voz baixa. Estava esquentando, e libélulas verdes e vermelhas dardejavam acima d’água, atraindo os olhares enquanto caçavam insetos em pleno ar.

— Estamos sozinhos aqui — avisou Salisbury, olhando em volta —, e talvez não haja outro momento para conversarmos em família.

Os dois filhos se entreolharam, satisfeitos de serem incluídos nos planos do pai.

— Nosso amigo York não está mais ansioso para agir. Acredito que possa ser levado a se aproximar do rei Henrique com seus homens, mas ele ainda espera alguma solução sem derramamento de sangue.

— E o senhor, pai? — perguntou João.

Aos 24 anos, era o mais baixo dos três, moreno e com a cintura fina, embora os ombros fossem largos. Em casa, a esposa Maud esperava o primeiro filho. João fora a Ludlow por uma única razão, e seu tom frio deixava claro que não gostava de saber de nenhuma suavização de propósitos.

— Fique em paz, João. Você sabe muito bem que não deve duvidar de mim. Eu não estava lá? Sei o que devemos à família Percy. O velho estará ao lado do rei, e pelo menos um de seus filhos também. Espero que ele tenha deixado o primogênito em Alnwick. Sem dúvida Egremont irá com o pai... O homem que mais queremos, embora não duvide de que o conde Percy tenha dado a ordem.

— Mas e se York pretender a paz? — perguntou João. — Viajei muito até aqui, pai. Deixei minha família e minhas propriedades por essa empreitada, e jurei ver os cães Percys destruídos. Não vou ficar parado enquanto York e Lancaster se reconciliam com novos juramentos e brindes bêbados à sua saúde.

— Tome cuidado, João — acautelou Warwick em voz baixa.

O irmão era um mero cavaleiro, e trouxera consigo apenas seis soldados. O exército do pai e do irmão mais velho lhe garantiam mais autoridade do que teria por conta própria, embora seu ressentimento fosse maior. Talvez por causa disso, João Neville tinha olhado furioso para o irmão antes que o pai voltasse a falar.

— Temos dois mil homens para lutar pela casa Neville para mil de York. Minha intenção é usar os inimigos de nossa casa como exemplo, e não serei desviado desse caminho por ninguém. Ficou bastante claro para você, João? Que York se preocupe com os cochichos do duque de Somerset no ouvido do rei. Nosso interesse são os lordes Percys. Se forem para o norte com o rei, não sobreviverão a nosso encontro. Isso eu juro.

Salisbury ergueu a mão e ambos os filhos a seguraram, selando o acordo.

— Nós três somos Nevilles — declarou Salisbury com orgulho. — Alguns ainda não aprenderam o que é ofender esse nome, mas aprenderão, prometo a vocês dois. Aprenderão, mesmo que o próprio rei Henrique fique no caminho.

Ele deu um tapinha no ombro de Ricardo e depois no de João, inclinando-se para eles enquanto os cavalos batiam as patas no chão e mordiscavam uns aos outros.

— Agora corram pelo mato e encontrem alguma caça para seu velho pai atravessar com a lança. Temos de levar alguma coisa de volta a Ludlow. Será um bom treino para vocês dois. Se queremos enxotar os Percys, precisaremos marchar logo para aguardar o rei em seu caminho para o norte.

 

Margarida estava em pé diante do marido, passando um pano com óleo nas ombreiras da armadura para que brilhassem ao sol da primavera. Estavam sozinhos, embora houvesse cavalos e homens armados em torno do Palácio de Westminster, reunindo-se em centenas de pequenos grupos. Jasper Tudor, meio-irmão do rei Henrique, chegara na semana anterior, trazendo a notícia de que havia um exército acampado a noroeste, em torno do Castelo de Ludlow. Essa nova informação dera às providências uma urgência que antes não havia. Ainda eram muitos os homens importantes que se recusavam a acreditar que York ou Salisbury ergueriam seus estandartes contra o rei, mas o cortejo havia começado a se parecer com um exército se preparando para avançar, com mais e mais lordes escolhendo os melhores homens para ficar a seu lado.

— Mantenha nosso filho a salvo em Windsor, Margarida — disse Henrique, olhando para ela —, não importa o que aconteça.

— Eu preferiria que você esperasse mais um mês ou dois. Você fica mais forte a cada dia que passa, e ainda há a guarnição de Calais. Se chamasse seus homens de volta, com certeza eles arrancariam os dentes do Plantageneta, quaisquer fossem seus planos.

Henrique deu uma risadinha, fazendo que não.

— E deixar os portões de Calais abertos? Já perdi o suficiente da França sem desguarnecer minha última fortaleza lá. Tenho dois mil homens, Margarida, e sou o rei da Inglaterra, protegido por Deus e pela lei. Por favor, já conversamos e conversamos. Seguirei pela Grande Estrada do Norte até Leicester. Cavalgarei e serei visto; e meus lordes que ainda hesitam se sentirão envergonhados. O duque de Norfolk não me respondeu. Exeter ainda alega doença. Pelas chagas de Cristo, preciso ser visto, Margarida, como você já disse tantas vezes. Quando tiver revelado as fileiras cintilantes de todos os que estão ao meu lado, declararei York e Salisbury traidores. Porei a marca de Caim sobre suas cabeças, e eles verão o apoio que ainda têm sumir como gelo no verão.

Margarida passou o lenço na testa do marido, limpando uma manchinha.

— Não gosto de ouvi-lo praguejar, Henrique. Se bem me lembro, você não fazia isso antes.

— Eu era um homem diferente — retorquiu Henrique, a voz repentinamente rouca.

Ela ergueu os olhos para os dele e viu o medo ali, quase oculto.

— Eu estava afogado, Margarida, tomado de água e incapaz de gritar. Não desejaria esse destino a homem nenhum, quaisquer que fossem seus pecados.

— Você está mais forte agora — comentou Margarida. — Não deve falar disso.

— Tenho medo de falar disso — murmurou ele. — Sinto-a em mim, essa fraqueza, como se ela me permitisse ficar ao sol apenas por algum tempo, sabendo que tenho de voltar. É como combater o oceano, Margarida, vasto, verde e frio demais. Construo... muralhas, e ele ainda invade para me agarrar.

A testa de Henrique se encheu de suor, e Margarida a enxugou. O marido tremeu, abriu os olhos mais uma vez e forçou um sorriso.

— Mas não o deixarei passar, juro. Construirei uma fortaleza para contê-lo. Agora, se já terminou de me polir como uma trombeta, preciso partir e montar. Tenho uma longa estrada à frente antes de descansar essa noite. — Ele se abaixou de repente e a beijou, sentindo os lábios dela frios nos seus. — Pronto! Isso me manterá aquecido — disse, sorrindo. — Mantenha o pequeno Eduardo a salvo, Margarida. A Inglaterra será dele quando eu me for. Mas hoje ela é minha.

 

York comandou a coluna que partiu de Ludlow, cavalgando com o filho Eduardo à frente de uma comitiva de homens que caminhavam com esforço, conversando e rindo por caminhos menores até chegar à Ermine Street, a grande estrada romana ainda coberta de pedras planas que corria de norte a sul por quase toda a extensão do território. Numa superfície daquelas, conseguiam igualar o ritmo das antigas legiões, fazendo trinta quilômetros por dia com facilidade. Três mil homens comiam bem mais do que era possível encontrar nas estalagens de beira de estrada, embora as esvaziassem quando as encontravam. York gastara fortunas de seu tesouro em carroças de suprimentos que seguiam os homens e os cavalos em marcha para que, sempre que parassem, um exército de serventes acendesse fogueiras e fervesse guisados e carne salgada para o apetite de homens cansados.

Chegaram a Royston primeiro, depois a Ware no dia seguinte, onde York fez a coluna parar e descansar. Salisbury e os filhos foram à aldeia procurar quartos, enquanto York ficava algum tempo para supervisionar o acampamento, elogiar os comandantes e observar o moral.

Os três Nevilles formavam um grupo coeso ao entregar os cavalos ao rapaz da estrebaria e entrar na única taverna da aldeia.

— Quanto tempo até alcançarmos a comitiva do rei? — perguntou João Neville ao pai. — Sabemos pelo menos a rota que seguirão?

— Não estamos caçando faisões — respondeu Salisbury. — Quando partir de Londres, o rei subirá a Grande Estrada do Norte com todos os seus lordes e juízes. Não será difícil de encontrar. A única questão é o que York fará quando não tiver opção além de pegar em armas contra o rei.

— Acha que isso é tão certo assim? — perguntou Warwick. O salão da taverna estava vazio, mas ele ainda mantinha a voz baixa.

— Acredito que os que cercam o rei jamais permitirão que eu e York voltemos ao aprisco. Eles o temem... e nos temem. Os Percys não permitirão que haja paz, filho. O velho fareja o vento neste exato momento, ansioso pela última chance de acabar com os Nevilles. E dou-lhe as boas-vindas. A paz não é nada diante disso.

— Acho que milorde York não está pronto para a batalha — comentou Warwick. — Para mim, ele parece sincero com toda aquela conversa sobre curar feridas.

Salisbury balançou a cabeça, tomou um gole de cerveja e estalou os lábios com aprovação.

— Mesmo assim — disse, em voz baixa.

 

As fazendas e os campos verdejantes de Kilburn se estendiam em volta do acampamento real. Além da cidade de Londres, o rei Henrique ordenara uma parada e a formação de tribunais durante três horas até o meio-dia. Os vinte e quatro juízes já haviam resolvido diversos casos naquele período, libertando seis homens abandonados na prisão durante meses, multando outros trinta e ordenando a execução de onze. A justiça levara uma eternidade para chegar à cidade de Kilburn, mas, assim que chegou, foi rápida e certeira. O rei Henrique deixou a construção de forcas para trás, passando por multidões que saíam de suas casas dando vivas para ter um vislumbre do séquito real que distribuía justiça.

O humor dos dois mil homens era de comemoração, com os talentos com armas e montaria apresentados para o contentamento do rei por aqueles que esperavam algum reconhecimento. Tomás, lorde Egremont, foi o vitorioso em duas justas de demonstração, e deu tantos golpes nos oponentes que mais tarde eles tiveram de ser amarrados aos cavalos para não cair. Enquanto os julgamentos eram feitos, os estabelecimentos locais forneciam cerveja, pão e carne, pagos com prata.

O primeiro dia da viagem fora bom, e o rei Henrique estava de bom humor quando ordenou aos arautos que saíssem da estrada e buscassem alojamento perto de Watford para passar a noite. Quando a escuridão caiu, ele se instalara numa casa senhorial da cidade, gozando da companhia do meio-irmão Jasper Tudor, do conde Percy e de Egremont. Henrique constatou que bebera um pouco demais do excelente hidromel local e, embora os médicos estivessem por perto, sentia-se forte, bastante satisfeito com a possibilidade de mais uma dezena de dias como aquele até chegar a Leicester.

Foi se deitar tarde, sabendo que sentiria a ressaca na manhã seguinte, quando a comitiva real seguiria para St. Albans. Ele pararia para rezar na abadia de lá, o mais antigo santuário cristão do reino. Disseram-lhe que o abade Whethamstede fora um dos que visitaram Windsor para examiná-lo enquanto estava sem sentidos. Dava certo prazer a Henrique pensar em cumprimentar de pé o abade que só o conhecera deitado. Antes de dormir, ele imaginou dar um forte aperto de mão ao abade e vê-lo se ajoelhar diante do rei da Inglaterra e de seus lordes mais leais.

 

Após o rei e a maioria dos convidados se retirarem para dormir, o conde Percy ficou com o filho Tomás e o Tudor mais jovem ainda à mesa. Era estranhamente difícil encontrar um lugar para ter uma conversa tranquila, e o conde esperava que o meio-irmão galês do rei fosse dormir. Jasper Tudor, conde de Pembroke, estava embotado pela bebida, mas naquele estado em que é possível que uma hora se passe quase sem ser notada. O conde Percy tinha de sufocar bocejos de pouco em pouco tempo, sabendo muito bem que, aos 63 anos, não conseguiria se levantar restaurado depois de poucas horas de sono. Ele brincava com o copo de vinho à mesa comprida, observando o conde lançar uvas no ar e pegá-las com a boca. O jovem galês inclinava a cabeça a ponto de correr o risco de cair para trás com a cadeira.

— Conheci bem sua mãe, Pembroke — comentou de repente o conde Percy. — Era uma grande dama e foi uma bela esposa para o antigo rei Henrique. Fui seu acompanhante na coroação, você sabia?

Jasper Tudor se endireitou na cadeira com esforço antes de responder:

— Sabia, milorde. Embora fosse apenas uma criança quando de seu falecimento. Não posso dizer que a conheci, por mais que desejasse.

O conde Percy grunhiu.

— Mas eu não conheci seu pai. Um soldado galês, foi tudo o que já me disseram de Owen Tudor, embora ele tenha desposado uma rainha e tenha tido dois condes como filhos! Cresceu como bolo, numa geração apenas.

Jasper Tudor era baixo, com cachos negros espessos que deixara crescer. O galês se empertigou quando o conde Percy lhe dirigiu a palavra, sentindo algo hostil na conversa do velho, e brincava com a faca, marcando a madeira.

— Ele ainda está vivo, é um bom homem — disse, fechando um dos olhos para enxergar melhor o outro lado da mesa.

— E de muita sorte, para um galês — continuou o conde Percy, esvaziando o copo. — Agora aí está você, filho dele, na presença do rei da Inglaterra e de sua corte.

— Meu irmão me chamou e vim para representar meu ramo da família — explicou Jasper, com cautela. — E trouxe cem daqueles arqueiros galeses que têm deixado sua marca na Inglaterra nos últimos anos. — Ele ergueu a mão como se quisesse evitar interrupções. — Por favor, milorde, não é preciso agradecer. Mas vejo pouquíssimos arqueiros nesta grande viagem. Sei que meus rapazes deixarão sua marca, caso sejam convocados a isso.

— Só espero que os mantenha sob rédea curta — disse o conde Percy despreocupadamente, olhando para as vigas do teto. — Soube que alguns homens de Gales mal passam de selvagens. É um reino sombrio, e alguns sem-vergonha os chamam de ladrões, embora eu jamais me incluísse entre eles.

— Fico aliviado por ouvir isso, milorde — declarou Jasper. Para os que o conheciam, sua voz ficara perigosamente baixa, um murmúrio antes da tempestade. — Dizemos o mesmo dos ingleses no norte.

— Sim, é claro que diriam, não é? Ainda assim, fico contente de ter homens como você perto do rei. Quem sabe as quinquilharias que ele ainda pode despejar em suas mãos? Não há maldade nesse rei Henrique. Há muito tempo essa tem sido uma linhagem generosa.

Jasper Tudor se levantou de repente, cambaleando ao encarar o outro lado da mesa com os olhos turvos de raiva.

— Acho que já basta por hoje. Vou procurar minha cama. Boa noite, milorde Northumberland, barão de Egremont.

Ele saiu da sala aos tropeços até chegar à escada, e seus esbarrões foram ouvidos por algum tempo.

O conde Percy sorriu sozinho, olhando para o filho, quase tão entorpecido pela bebida quanto o jovem galês.

— Espero que os criados contem as colheres amanhã. Os galeses são como gralhas, sabe, todos eles.

Tomás sorriu ao ouvir isso, os olhos semicerrados e a cabeça pendendo para a frente.

— Você também deveria se deitar, Tomás. Toda essa comitiva se parece demais com uma feira de primavera. Vocês, rapazes, deveriam estar atentos, com os Nevilles armados para a guerra, entendeu? Meu Deus, rapaz, quanto você bebeu hoje?

— Entendi — queixou-se Tomás sem abrir os olhos.

— Imagino... Não confio nos Nevilles quando os vejo, e menos quando estão por aí, fazendo sabe-se lá o quê. Vamos, durma e acorde esperto para proteger seu rei... e seu pai. Boa noite. Trunning estará de pé ao amanhecer, isso lhe garanto. Mandarei que lhe jogue um balde d’água se você dormir até tarde. Vá com Deus.

Com um gemido, Tomás se levantou, apoiando-se na mesa para se firmar.

— Banoite — disse, cambaleando ao deixar para trás o apoio da mesa.

Sozinho, o conde Percy usou sua faca para cortar fatias de queijo num prato quadrado de madeira. Sem ninguém para vê-lo, os traços voltaram à carranca habitual. A grande viagem do rei começara muito bem, mas ele não conseguiria apreciar o retorno da boa saúde de Henrique enquanto Salisbury e os filhos estivessem à solta com York. A recuperação do rei havia sido a resposta às preces da família Percy. Os Nevilles perderam os alicerces de sua força, mas o conde Percy sabia que isso os deixava ainda mais perigosos. Com uma expressão de desagrado, forçou-se a tomar outra taça de vinho, sentindo a cabeça flutuar. Sem ele, o sono nunca viria.