Trindade
Nota histórica
Parte I: 1454-1455
A emboscada de uns setecentos soldados e criados de Percy contra a festa de casamento dos Nevilles aconteceu em agosto de 1453, pouco antes do que descrevi aqui — mais ou menos na mesma época que o rei Henrique VI foi acometido por sua doença. Foi um acontecimento importantíssimo em meio a anos de batalhas menores entre as famílias que lutavam para controlar o norte e aumentar suas posses.
Aquele ataque de Tomás Percy, barão de Egremont, foi uma das ações mais violentas daquela guerra particular, provocada pelo casamento do filho de Salisbury com a sobrinha de Ralph Cromwell, união que punha em mãos dos Nevilles propriedades reivindicadas pela família Percy.
A “Batalha de Heworth Moor” fracassou na meta principal de matar Ricardo Neville, conde de Salisbury. Não incluí várias escaramuças menores, mas aquele combate teve papel fundamental na decisão de que lado ficaram os Nevilles e os Percys na primeira batalha de St. Albans, em 1455, e em seu resultado.
Por medo de apresentar personagens importantes demais, reduzi o papel de Exeter no norte, aliado forte e violento dos Percys, embora casado com a filha mais velha de York. Essa era verdadeiramente uma guerra civil, com famílias dilaceradas dos dois lados. Um dos primeiros atos de York como lorde protetor foi mandar prender o genro Exeter no Castelo de Pontefract e entregar as chaves a Salisbury. Quando o rei Henrique se recuperou, em 1455, Exeter foi libertado de Pontefract. Somerset também foi libertado da Torre e, rapidamente, voltou ao lado do rei como seu principal conselheiro.
Não há registro dos presentes ao nascimento de Eduardo de Lancaster, único filho de Margarida e do rei Henrique. No entanto, até bem recentemente era prática comum haver numerosas testemunhas nos partos reais. Por exemplo, Alberto, filho da rainha Vitória, nasceu em presença do arcebispo de Canterbury, dois duques e sete outros lordes. No caso de Eduardo de Lancaster (às vezes chamado de Eduardo de Westminster, onde nasceu), houve mesmo boatos de que Somerset seria o pai, embora provavelmente fosse uma calúnia espalhada por defensores de York. Não há dúvida de que Somerset e York se odiavam com amarga intensidade.
Quando acordou de seu estupor no Natal de 1454, Henrique VI tinha passado quase dezoito meses num estado semiconsciente. Não se recordava de nada do que acontecera naquele período, embora não estivesse em coma e sim num devaneio passivo e dissociativo. Não se lembrava de terem lhe mostrado o filho Eduardo, príncipe de Gales. Embora, em teoria, ele estivesse acordado e presente na cerimônia do beijo de honra de um novo arcebispo de Canterbury, também não se recordava disso.
Na verdade, passaram-se mais dois meses de 1455 antes que o rei Henrique estivesse em condições de viajar até Londres. Lá, ele dispensou York e Salisbury de seus cargos e se pôs a recuperar sua autoridade sobre o reino atravessando seu território com um tribunal que partiu de Londres rumo ao norte. Foi um período de energia sem igual para o rei, completamente diferente de sua personalidade antes do colapso. York e Salisbury viajaram para o Castelo de Ludlow.
York governara com um estilo próprio e bom senso em seu período como protetor e defensor do reino. Embora não estivesse acima de favorecer os aliados Nevilles, ele reduziu o tamanho da criadagem real e eliminou das despesas um número imenso de criados, cavaleiros e até cavalos. É verdade que ele confirmou Eduardo de Lancaster como herdeiro real, talvez porque o reino ainda fosse simpático ao rei doente. No século XXI, talvez seja um pouco difícil compreender o nível de lealdade impensada ao rei Henrique, inspirada simplesmente pela linhagem e pelo cargo. O rei era ungido por Deus, com direito divino de governar as casas menores. Desafiar isso era, literalmente, uma blasfêmia e um caminho a ser trilhado com imensa cautela.
Nota sobre os títulos: embora “Vossa Majestade” não fosse o tratamento mais comum dado à realeza no reinado de Henrique VI, diferente de “Vossa Alteza” ou “Vossa Graça”, ainda assim era usado, como prova a carta de York de maio de 1455 em que se queixava ao rei dos boatos espalhados sobre sua “ faith, lygeaunce and dewtee” (fé, lealdade e dever) por inimigos “under the whinge of your Magestee Royal” (sob as asas de vossa Majestade Real).
Nota sobre o conde de Warwick, depois chamado de o “Influente”: nada se sabe de sua infância nem de como era fisicamente. O Ricardo Neville mais jovem teve um afortunadíssimo matrimônio com Anne Beauchamp, filha do conde de Warwick. Quando o conde morreu, seu filho Henrique se tornou conde e morreu com apenas 23 anos, deixando uma filha de 3 anos que também morreu.
O direito ao título passou então para Anne — e para o marido Ricardo Neville. Com apenas 21 anos, ele se tornou conde de Warwick, Newburgh e Aumarle, barão de Elmley e Hanslape, lorde de Glamorgan e Morgannoc. Suas novas propriedades eram as seguintes: terras no sul de Gales e em Herefordshire, com os castelos de Cardiff, Neath, Caerphilly, Llantrussant, Seyntweonard, Ewyas Lacy, Castle-Dinas, Snodhill, Whitchurch e Maud. Caerphilly sozinho era uma fortaleza capaz de resistir a dez mil homens. Em Gloucestershire, mais sete propriedades valiosas. Em Worcestershire, três grandes propriedades, o Castelo de Elmley e vinte e quatro propriedades menores. Em Warwickshire, além do incrível castelo e da própria cidade, mais nove propriedades, entre elas Tamworth. Em Oxfordshire, cinco propriedades, além de terras em Kent, Hampshire, Sussex, Essex, Hertfordshire, Suffolk, Norfolk, Berkshire, Wiltshire, Somerset, Devon, Cornualha, Northampton, Stafford, Cambridge, Rutland e Nottingham — no total, mais quarenta e oito propriedades. No norte distante, uma única posse: o Castelo de Barnard, às margens do rio Tees. Portanto, doze grandes castelos, cento e quarenta e três propriedades, da fronteira da Escócia a Devon, tornando sua união com Anne Beauchamp uma das mais compensadoras em termos materiais da história inglesa. Talvez não surpreenda que o testamento do pai só tenha lhe deixado duas travessas grandes, doze pratos menores, uma jarra, uma bacia de prata e quatro cavalos não treinados.
A Batalha de St. Albans, em 1455, foi precedida por algumas cartas enviadas ao rei por Ricardo de York, pelo menos duas das quais recebidas em trânsito. Embora não ousasse citar o nome da rainha Margarida, York pedia ao rei que resistisse à influência maligna de “traidores próximos do rei” — homens como o duque de Somerset. Ele estava convencido de que o rei Henrique se cercara de gente mal-intencionada. Várias vezes declarou sua total lealdade, mas não adiantou.
Com as forças de Salisbury e Warwick, cerca de três mil soldados acamparam em Key Field, a leste de St. Albans, para aguardar o rei. As forças do rei Henrique chegaram por volta das nove ou dez da manhã e atravessaram o riacho de Halywell para subir a colina até a praça. Trocaram-se arautos, e Henrique recusou todas as exigências de York. Não se sabe exatamente quando o combate começou, embora o lado do rei claramente tivesse tempo de fechar as três ruas a leste.
Há muitos exemplos na história em que duas forças que se enfrentam interagem e começam um conflito sangrento, qualquer que seja o desejo dos líderes. Ou então Salisbury pode ter dado a ordem. Ele pelo menos tinha um desejo claríssimo de conflito, tanto com Henrique Percy, conde de Northumberland, quanto com Tomás, barão de Egremont, por fim ao seu alcance. Para Salisbury, o momento de retribuir o ataque ao casamento do filho e acertar contas antigas estava à mão.
Foi o conde de Warwick, com 26 anos, que rompeu a barreira pelos quintais com uma pequena tropa e correu colina acima até a praça da feira. Os arqueiros de Warwick dispararam da St. Peter’s Street, e tanto o rei Henrique quanto o duque de Buckingham foram atingidos e feridos nos primeiros momentos. É verdade que Buckingham foi atingido no rosto, embora tenha sobrevivido.
Com Warwick rompendo a barreira, o impasse nas barricadas chegou ao fim. York e Salisbury fizeram uma entrada rápida na cidade assim que os defensores das barricadas as abandonaram para proteger o rei. Em pouquíssimo tempo, a praça da feira e as ruas que a circundavam se encheram com cinco mil combatentes, amontoados e em pânico. A descrição da cena pelo abade Whethamstede, escrita depois da batalha, é vívida: “... um homem com o cérebro para fora, outro com o braço arrancado, lá um terceiro com a garganta cortada, ali um quarto com o peito perfurado, e toda a praça mais além cheia de cadáveres da matança.”
O próprio York deu a ordem de levarem o rei ferido para a abadia. A batalha poderia ter acabado com isso se os únicos atores principais fossem Lancaster e York. A sequência exata dos acontecimentos nesse momento é desconhecida. Segui o roteiro que considero mais provável: que, depois de levarem o rei para a abadia, a verdadeira razão da batalha foi levada à conclusão: a morte de Somerset e do conde Percy.
É verdade que Somerset morreu sob a placa da taverna Castelo, cumprindo a antiga profecia de que “morreria sob o castelo”. Durante anos, ele evitou o Castelo de Windsor para que a profecia não se cumprisse. Um relato da batalha diz que Somerset saiu da taverna e matou quatro homens com um machado antes de ser derrubado.
Como informação secundária, o conde de Wiltshire, tesoureiro de Henrique, decidiu fugir da briga despindo a armadura, indo até a abadia e se disfarçando de monge. Não resisti a dar esse papel a Derry Brewer.
A procissão em Londres em que York andou de mãos dadas com a rainha Margarida atrás do rei e entregou a coroa a Henrique na Catedral de São Paulo é uma combinação de dois fatos reais. Historicamente, a primeira procissão ocorreu poucos dias depois da Batalha de St. Albans, em 1455, e nela Henrique cavalgou por Londres com York à direita, Salisbury à esquerda e Warwick à frente, levando a espada do próprio rei. Essa ocasião “alegre” terminou na Catedral de São Paulo, onde aparentemente o rei insistiu em receber a coroa das mãos de York. Supondo que ele entendesse o que estava acontecendo, a humilhação deve ter sido dolorosíssima para Henrique. A segunda procissão foi depois, quando York caminhou por Londres de mãos dadas com Margarida como exibição pública de rixas sanadas. A triste verdade é que, nessa época, o rei era um mero títere nas mãos de York. Os lordes mais poderosos da Coroa foram mortos em St. Albans, e quatro anos se passariam até que a casa de Lancaster estivesse novamente em condições de revidar.
Parte II: 1459-1461
Os anos que faltam no romance não se passaram totalmente sem incidentes. O rei Henrique sofreu outro colapso, aliado ao medo de ver sangue que desenvolveu e nunca mais perdeu. York foi nomeado protetor uma segunda vez — e, pela segunda vez, o rei voltou a Londres e o removeu do cargo. A repetição não gera boas histórias, embora seja verdade que a diferença aqui foi que Henrique não recuperara totalmente a força de vontade e a sanidade mental. Embora fosse dispensado, York pôde continuar com vários cargos de autoridade no governo. Em certo momento, York, em nome do legítimo rei, foi enviado para combater os escoceses rebeldes ao norte! Bastou sua presença para acabar com a revolta, como se pode imaginar.
O rei Henrique passou grande parte daqueles anos dormindo ou rezando, com a saúde sempre frágil. Coube a Margarida enfrentar a ameaça à família, e é desse período que vem sua fama de arquimanipuladora — acusação e ponto de vista histórico que sempre considerei exagerado. É verdade que ela levou o marido para Kenilworth e mandou fortificar o castelo com vinte e seis serpes e uma colubrina. Essas armas tinham um alcance máximo (extremamente impreciso) de cerca de um quilômetro e meio, mas eram devastadoras a quatrocentos metros. O que mais Margarida poderia fazer além de lutar para proteger o marido e o filho?
As estimativas do efetivo recrutado pela rainha Margarida como “Galantes da Rainha” variam. Em Blore Heath, o exército estava na faixa de seis a doze mil homens. Cerca do mesmo número assumiu o compromisso de lutar pelo rei Henrique em caso de ameaça. A única dificuldade, então, era criar a ameaça. O Ato de Desonra usado para forçar York e Salisbury a agir foi empregado com esse propósito, um aspecto poderosíssimo da legislação inglesa raramente posto em prática e capaz de dar fim a uma casa nobre e remover todas as suas proteções e títulos. O conselho de homens de confiança de Margarida incluía Sir John Fortescue, o juiz mais importante da Inglaterra. Ele teria sido fundamental na criação do projeto de lei. A mera possibilidade de usar uma coisa dessas foi suficiente para levar York, Salisbury e Warwick de volta ao campo de batalha, como Margarida desejava.
Nota sobre Blore Heath: às vezes descrita como verdadeiro início da Guerra das Rosas; os Galantes da Rainha foram derrotados pelo melhor uso da tática e do terreno por Salisbury. Seus batedores perceberam a emboscada de lorde Audley; então ele parou e reforçou o flanco direito com uma proteção de carroças. O riacho de Hempmill ficava entre eles; Salisbury encenou uma falsa retirada para fazer os cavaleiros Galantes avançarem e depois atacou, matando centenas. O barão de Audley comandou o contra-ataque e foi morto em combate. Dizem que três mil homens de Lancaster perderam a vida e cerca de mil de Salisbury, embora sobreviver contra tamanha hoste não fosse pouca coisa. Salisbury continuou sua marcha para o sul até Ludlow, embora tivesse pago um frade local para disparar um canhão na charneca a noite inteira confundindo possíveis reforços de Lancaster. Diz a lenda que a rainha Margarida assistiu à batalha, e não há razão para duvidar, ainda mais por conter o detalhe interessante de que ela mandou um ferreiro pôr as ferraduras de seu cavalo de trás para a frente, de modo a confundir quaisquer perseguidores. Afinal de contas, os Galantes foram seu primeiro exército, jurados a ela. Faz sentido que ela quisesse vê-los em ação contra seus inimigos.
Nota sobre Eduardo, conde de March: em tempos modernos, um metro e noventa de altura não é tão raro assim, e encontram-se exemplos na maioria das reuniões de cem pessoas ou mais. A altura masculina média moderna (inexplicavelmente baixa a meu ver) fica por volta de um metro e setenta. No século XV, quando a altura média estimada dos homens ficava entre um metro e sessenta e um metro e setenta, o conde de March, aos 18 anos, seria um Golias no campo de batalha. O equivalente hoje seria um guerreiro de armadura com dois metros ou dois metros e dez (altura do escritor Michael Crichton, aliás), capaz de lutar e se mover com velocidade e força enormes. O efeito de um guerreiro desses em combate corpo a corpo dificilmente seria superestimado.
É socialmente interessante notar que a alimentação é um fator fundamental para a altura. Os nobres medievais comiam peixe e carne com frequência bem maior que os plebeus. Como grupo, seriam mais altos que a maioria das outras classes do reino, vantagem de força e potência que seria aumentada pelo treinamento constante desde tenra idade.
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Eduardo de March voltou com Warwick de Calais para a Inglaterra no fim do verão de 1459, como reação à ameaça do Ato de Desonra, e marchou rapidamente para se encontrar com as forças de York e Salisbury. Eles sofreriam um desastre total em Ludlow, com todas as esperanças frustradas e todos os principais atores forçados a fugir. É verdade que o capitão Andrew Trollope se recusou a lutar contra um exército aparentemente comandado pelo rei. Sua deserção com seiscentos homens da guarnição de Calais foi o ponto de virada da batalha e a causa da queda de York. Mais tarde, Trollope foi feito cavaleiro por seus serviços.
Depois dessa deserção, a “batalha” da ponte de Ludford praticamente não teve derramamento de sangue. O exército do rei havia cercado uma tropa muito menor, e mal houve escaramuças com os defensores. York, Salisbury, Warwick e March tomaram a decisão extraordinária de partir. Talvez valha a pena ressaltar que não passaria por ninguém a ideia de matar a esposa e os filhos de York. York foi para a Irlanda, e Salisbury, Warwick e March escaparam de volta a Calais, e lá chegaram em novembro de 1459. Qualquer que seja o padrão, foi um desastre completo, e deveria ter sido o fim da causa de York. Portanto, o fato de não ter sido serve de prova de sua energia e talento.
Quando se pesquisa para escrever uma ficção histórica, uma das alegrias é encontrar cenas simplesmente maravilhosas — e melhor ainda quando são pouco conhecidas. Numa ação que encaixaria bem em qualquer história do fictício oficial da Marinha Horatio Hornblower, do escritor C. S. Forester, em janeiro de 1460, Warwick furtou a frota real em Kent, amarrando os navios uns aos outros para levá-los de volta à França.
Em 2 de julho, ele usou essa frota para desembarcar um exército em Sandwich, no litoral inglês. Com o pai e Eduardo de March, eles marcharam mais de cem quilômetros em Kent e recolheram pelo caminho cerca de dez mil moradores locais. Sem dúvida alguns deles já tinham trilhado esse caminho com Jack Cade.
Está no registro histórico que lorde Scales comandou a guarnição real da Torre e que foram usados canhões e fogo grego contra a multidão londrina revoltada. Um arsenal real do outro lado do rio foi invadido, e os canhões usados contra a muralha externa da Torre, derrubando-a. É verdade que Scales conseguiu fazer uma barricada na muralha rompida e sobreviveu o suficiente para se render. Depois, foi assassinado na prisão.
Warwick e March deixaram uma pequena força em Londres sob o comando de Salisbury e correram para o norte. Sua velocidade deu certo, e eles interceptaram o rei Henrique com apenas cinco mil homens, antes que as principais forças reais conseguissem reforçar a posição do rei. O ataque foi auxiliado pela traição súbita do barão Grey de Ruthin. Ele trocou de lado num momento fundamental: abandonou o rei Henrique e apoiou Warwick e March em troca da promessa de se tornar tesoureiro real.
Apenas oito dias e duzentos e quarenta quilômetros depois do desembarque em Kent, Henrique foi capturado e Margarida, forçada a fugir para Gales com o filho Eduardo de Lancaster. Foi uma façanha extraordinária de tática, armamento e resistência. É verdade que Warwick e March encontraram Henrique sozinho em sua tenda.
Foi interessante incluir Owen Tudor nessa história, principalmente devido aos descendentes mais famosos. Ele se casara com Catarina de Valois, viúva de Henrique V. Seus dois filhos Jasper e Edmundo teriam seu papel na Guerra das Rosas e no período Tudor que se seguiu.
É verdade que o rei Jaime II da Escócia morreu em agosto de 1460 quando um canhão explodiu durante um cerco. Seu filho tinha 10 anos, e a rainha Maria de Gueldres teria de receber Margarida e negociar com ela sem o marido, o pesar ainda recente. Margarida obteve seu apoio talvez por tratar com outra rainha estrangeira que havia sofrido uma grande perda.
O número exato de escoceses que foram para o sul é desconhecido, embora devessem ser milhares para que valesse a pena. O acordo era que o príncipe Eduardo se casasse com uma princesa da Escócia — e que Berwick-upon-Tweed fosse entregue como pagamento. Margarida obteve seu exército e uma força imensa se reuniu naquele inverno perto da cidade de York. É verdade que os meses frios costumavam tornar impossíveis os combates. Só as circunstâncias extremas da captura de Henrique teriam levados tantos ao campo de batalha enquanto o ano terminava.
No fim de dezembro de 1460, York e Salisbury descobriram que estavam com imensa desvantagem numérica quando chegaram ao alcance das forças de Lancaster. Segundo as melhores estimativas, eles tinham cerca de oito mil homens contra dezesseis a dezoito mil sob o comando de Somerset, Northumberland e Clifford. Esses três homens tinham perdido os pais em St. Albans.
York e Salisbury se enfiaram no Castelo de Sandal para aguardar reforços, amontoando os homens na pequena fortaleza. Não se conhecem as razões de sua saída. Dado o tamanho reduzido do castelo, pode ter sido por causa do esgotamento da comida ou por terem sido atraídos ao ver uma pequena força hostil, e depois foram emboscados. Como quer que tenha acontecido, eles saíram do castelo e foram derrotados em 30 de dezembro de 1460. York foi morto em combate. Salisbury foi capturado e decapitado, e Edmundo, o filho de York, morto por lorde Clifford quando tentava fugir do campo de batalha.
Ninguém sabe se Margarida estava mesmo presente na Batalha de Wakefield, mas há algo muito pessoal no fato de a cabeça de York ter sido decorada com uma coroa de papel. Shakespeare escolheu colocá-la na batalha em Henrique VI, Parte III.
Margarida de Anjou conseguira sua vingança. Sobrevivera, contra todas as probabilidades, para ver seus dois inimigos mais poderosos vencidos e decapitados. Mas fiquei impressionado com a tragédia de York. Apesar de toda a sua ambição, o rei Henrique passou meses indefeso em seu poder, preso no Palácio de Fulham, residência do bispo de Londres. Nunca conheceremos as razões mais íntimas de York, mas é fato que ele não fez Henrique desaparecer quando isso lhe daria a coroa. O duque era um homem complexo, não um simples vilão. Não consegui fugir da forte sensação de que nem York nem a casa de Lancaster queriam tanto assim a luta. As duas casas foram forçadas à guerra por medo uma da outra.
Com a morte de York e Salisbury no Castelo de Sandal, Margarida parecia ter vencido. Mas no fim o que ela realmente fez foi fazer com que os filhos deles assumissem a causa.
O fenômeno avistado em fevereiro de 1461 por Eduardo de March, então duque de York e herdeiro do trono, chama-se “parélio” ou “para-hélio”. Envolve reflexos do Sol, e três sóis parecem nascer. Na época, Eduardo convenceu seus homens de que era o sinal da Santíssima Trindade e um bom augúrio para a Batalha de Mortimer’s Cross, na qual Owen Tudor foi morto. Mais tarde, Eduardo adotaria o símbolo, cercando a rosa branca de York com as chamas do Sol.
Conn Iggulden
Londres, 2014
Você terminou Trindade
Conn Iggulden