Trindade
Capítulo 29
O inverno caía rigoroso enquanto York cavalgava de volta ao longo do rio até o Palácio de Westminster. A chuva batia em sua pele até ele sentir que usava uma máscara. Não havia lua nem se avistavam estrelas sob o manto baixo de nuvens sobre a cidade, de modo que York foi forçado a levar o cavalo a passo por oito quilômetros, aquecido apenas por sua raiva fervilhante. Mas nem ela suportaria o frio intenso, e ele chegou aos aposentos reais rígido e encharcado, batendo o queixo, até os pensamentos reduzidos a pedaços de gelo à deriva na mente. York se aproximou do fogo crepitante e ficou de pé, mudo, diante dele, poças se formando nos tapetes aos seus pés. A aurora ainda demoraria um pouco, e ele estava morto de cansaço, a ponto de seu corpo oscilar de leve quando fechava os olhos e estendia as mãos para o calor.
Salisbury entrou no cômodo quando a capa de York começava a soltar vapor. O conde claramente fora tirado da cama, pois os cabelos estavam eriçados em tufos grisalhos e ele parecia dez anos mais velho. Ainda assim, seus olhos estavam atentos ao se deparar com a silhueta alta e escura fitando as chamas que bufavam e crepitavam. Salisbury sabia muito bem aonde ele tinha ido naquela noite, e morria de vontade de perguntar. Quando se virou para o conde, os olhos de York estavam furiosos e vermelhos. As perguntas morreram na garganta de Salisbury.
— Notícias? — perguntou York. Suas mãos estavam rubras e levemente inchadas enquanto as mantinha na direção do fogo. Salisbury sentiu o olhar atraído para os dedos estendidos.
— Mais nada sobre quantos se reuniram. Com este tempo, muitos homens estão aconchegados em barracas ou atrás das muralhas da cidade.
York olhou para ele de cara feia.
— Precisamos saber.
— Não posso fazer milagres, Ricardo — retrucou Salisbury, enrubescendo. — Tenho seis bons homens bem estabelecidos em Coventry, três na cidade de York, mas só dois agora em Gales... sem notícia nenhuma deles há um mês.
Ele levara anos para instalar informantes nas principais propriedades dos inimigos. Depois da batalha de St. Albans, Salisbury se dedicara a isso com vontade, decidido a igualar Derry Brewer no alcance e na profundidade das informações. Com o tempo, começara a perceber a dificuldade de criar um grupo desse tipo — e a qualidade do adversário, muito mais experiente. Com frequência, vira seus homens assassinados, quase sempre como se tivessem sofrido um terrível acidente. Mas alguns sobreviveram, calados e esquecidos, até serem capazes de informar que uma força imensa se formava no norte.
Não fazia muito sentido. Ninguém lutava no inverno. Exércitos em marcha não encontrariam alimento pelo caminho. A chuva arruinava os arcos e fazia os homens escorregarem na imundície, reduzindo à metade a distância de marcha por dia. Mãos dormentes deixavam cair as armas, e exércitos inteiros poderiam passar um pelo outro nas noites escuras e ventosas sem jamais saber até que ponto se aproximaram.
Apesar disso tudo, vários lordes poderosos estavam levando soldados para o mesmo local, erguendo estandartes na lama e no frio cortante. Pior ainda, um dos homens de Salisbury viera falar de recrutadores de Gales, com centenas se reunindo sob os estandartes encharcados dos Tudors. Ninguém jamais lutava no inverno. A única coisa que poderia levá-los a marchar sobre Londres seria o fato de Henrique estar preso, desesperados para salvar o rei.
— Soube de seu filho Warwick? — perguntou York.
Salisbury fez que não, irritado.
— Ainda é cedo demais. Uma coisa é convocar os homens de Kent em pleno verão. Outra bem diferente é tirá-los das aldeias com o Natal se aproximando.
— Londres fica muito ao sul — murmurou York, virando-se de novo para o fogo. — Longe demais para eu ficar de olho no que estão fazendo.
Ele viu Salisbury corar como se tivesse sido repreendido, e fez que sim para si.
Fora ideia de Salisbury transformar Londres em sua fortaleza enquanto os Atos de Desonra eram anulados. Havia feito sentido por algum tempo, com tantos moradores da cidade dispostos a acorrer a seus estandartes para serem treinados e equipados. Depois da defesa selvagem da Torre por lorde Scales, milhares de rapazes de Londres se voluntariaram para ajudá-los, desde as famílias das casas grandiosas da Wych Street aos rapazes de casas no fundo de cortiços. Tinham passado o outono inteiro marchando pelos campos ao sul, do outro lado do rio, aprendendo a usar piques e escudos.
York cerrou os punhos e abriu os dedos mais uma vez, sentindo que o calor aliviava a dor conforme o sangue lhes voltava. Enquanto ele e Salisbury montavam um exército, parecia que a rainha também estivera em ação, pingando veneno nos ouvidos de homens como os condes Tudors. York poderia até admirar aquela mulher se ela não estivesse tão inabalável em sua luta contra ele desde o princípio. Enquanto Margarida vivesse, enquanto o filho dela vivesse, o duque sabia que nunca estaria a salvo.
York se perguntou onde ela estaria naquele momento e se soubera de sua ascensão a herdeiro do trono. Era um pequeno consolo no péssimo humor que o inundava. Sua mente não parava de voltar ao rei Henrique no quarto do palácio do bispo, temendo o momento em que Salisbury fizesse perguntas.
— Marcharemos — anunciou York de repente no silêncio. — Não esperarei que venham a mim. Levaremos todos para o norte, com exceção de três mil homens. Se estão reunindo exércitos, quero vê-los. Quero saber quantos são. Pelo que sabemos, aguardam a primavera, e podemos pegá-los desprevenidos. Isso. É melhor que ficar aqui para que outros decidam nosso destino.
— Três mil podem muito bem manter a ordem — respondeu Salisbury. Ele pôs no fogo duas achas, ocupando-se com o atiçador.
— Talvez consigam, mas não podemos abrir mão deles — disse York. — Não deixarei bons soldados em Londres. Precisamos de uma grande força para lidar com os Tudors, para que mudem de ideia sobre deixar Gales. Meu filho pode posicionar três mil em torno de Ludlow para defender a fronteira. Ele conhece aquela terra. Manteremos uma linha de cavaleiros entre nós, para que qualquer mensagem possa ser transmitida rapidamente. E outra linha até Warwick, em Kent, enquanto ele os traz para o norte. Não precisamos de Londres agora. As tavernas estão sem nada, de qualquer modo.
York deu um sorriso irônico, contente ao ver se aliviar a expressão do homem mais velho.
— Eu gostaria de voltar para casa — continuou York em voz baixa. — Passei tempo demais no sul, e estou cansado disso. Farei 50 anos daqui a poucos meses, e estou cansado. Você também sente isso? Eu veria minhas terras outra vez, mesmo que o exército de uma rainha esteja à minha espera lá.
— Entendo. Na verdade, sinto o mesmo. Eles perderam seis mil homens este ano. Safras demais apodreceram nos campos, sem ninguém para fazer a colheita. O pão custa o dobro agora, sabia? A cerveja está a quatro centavos o litro, com a cevada tão escassa. Eles deixaram o norte na miséria. Há gente passando fome em alguns lugares, tudo por batalhas que perderam. Acho que aqueles Galantes aprenderam o preço de belas promessas e uma insígnia de prata. Não podem se dar ao luxo de mais um ano como este.
Durante todo o tempo que conversavam, uma única pergunta tremulava nos pensamentos de Salisbury. Ele desconfiava já saber a resposta pelo mau humor de York, mas preferiu dizer as palavras em voz alta mesmo assim.
— No rei Henrique eles têm um talismã para obter apoio, um nome para atrair homens que, de outro modo, passariam o inverno em seu lar. Você... o encontrou doente?
York respirou fundo, a língua sondando o buraco em um dente que doía.
— Ele estava muito bem quando o deixei.
York não afastou o olhar do fogo, enquanto Salisbury bufava irritado, insatisfeito.
— O homem mais doente da Inglaterra ainda está “muito bem”? Ninguém se surpreenderia se Henrique falecesse dormindo, mas você tem certeza de que ele está bem? Pelo amor de Deus, Ricardo! Você é herdeiro do trono! Esperará que ele morra de velhice?
— Você não entende — retorquiu York, irritado. — Enquanto ele viver, pareceremos agir em seu nome. Ainda existem alguns poucos homens, mais que alguns poucos homens, na verdade, que só lutarão conosco porque defendemos o rei. Você estava lá em Ludlow. Viu Trollope levar seus homens de Calais para o lado do rei assim que avistou os estandartes dos leões! Se Henrique morresse, jogaríamos fora parte de nosso exército. Vivo, Henrique nos deixa do lado certo.
Estupefato, Salisbury encarou o duque, ouvindo a mentira sem a entender. Achou que nem o próprio York a entendia.
— Se de algum modo Henrique morresse hoje, como discutimos e temíamos que acontecesse, você seria rei. Seria coroado em Londres amanhã e assumiria o mesmo estandarte dos leões. Todos os lordes e plebeus que sentem tanto respeito pelo rei Henrique se ajoelhariam e lutariam por você! Jesus Cristo, eu soube disso quando vi sua carranca.
Apesar da raiva, Salisbury olhou em volta, para verificar se não entrara algum criado que poderia ouvi-los. Sua voz baixou para um sussurro ríspido.
— Foi você quem insistiu que não havia outro caminho. Você disse que não permitiria que algum ladrão invadisse o quarto dele. Disse que não poderia ser feito com sangue. Ainda tem a garrafa ou a deixou ao lado dele para que os médicos farejem e reconheçam?
Ferido pela raiva do amigo, York enfiou bruscamente a mão no bolso sob a capa e jogou a garrafinha no fogo, onde ficou sem se quebrar, enegrecendo lentamente. Puderam ambos ouvir o chiado começar por dentro e uma língua de fogo verde tremular em torno da tampa.
— Ele é como uma criança — comentou York —, um inocente. Acho que entendeu o que fui fazer e me perdoou por isso. Seria monstruoso condenar minha alma por um menino daqueles.
— Você seria rei hoje à noite — retrucou Salisbury, furioso e amargo. — Você e eu teríamos assegurado nossos destinos, nossas famílias e nossas casas por um século. Por isso, eu condenaria mil almas, a minha entre elas, e depois dormiria como uma criança.
— Ah, guarde seu desdém — retorquiu York. — Isso aqui não é nenhuma brincadeira, mas uma guerra com desfechos reais e sangue de verdade. Eu me pergunto como você me tornaria rei e mesmo assim tenta me controlar. É tão terrível eu não conseguir assassinar uma criança? Será que não o conheço direito?
Sob o olhar penetrante de York, Salisbury fitou o chão, inspirando e expirando, até se sentir vazio.
— Você me conhece — disse ele, por fim. — E não é tão terrível. Eu teria sentido a perda se você me trouxesse a notícia de sua morte, principalmente por amor ao pai dele. — Salisbury ergueu ambas as mãos, as palmas para fora, vazias. — Tudo bem, Ricardo. Não perguntarei mais nada. Mande Eduardo para Gales e irei para o norte com você, embora meus ossos já se queixem da ideia. Encontraremos outro caminho que não venha da morte de Henrique.
Margarida olhou por sobre o ombro, os olhos se animando ao ver o filho. O menininho cavalgava todo orgulhoso, com escoceses andando ao redor. Os lairds o puseram num cavalo para que os acompanhasse, embora eles caminhassem. Nos primeiros quilômetros, Margarida temera por sua segurança. Mas na única vez que Eduardo escorregou um rapaz o pegou com facilidade, devolvendo-o à sela, com uma risada do menino.
Aqueles guerreiros dos clãs que Maria escolhera para ir à Inglaterra poderiam tê-la assustado. Não eram homens grandes, com algumas exceções notáveis. Usavam barbas espessas, ruivas, pretas ou castanho-escuras, às vezes compridas e trançadas com amuletos entretecidos nos pelos. Conversavam em sua língua estranha, embora um bom punhado deles soubesse francês. Pouquíssimos falavam inglês, ou pelo menos admitiam falar, embora sorrissem e olhassem de soslaio entre si com a mais simples pergunta, e caíam na gargalhada de repente sem nenhuma razão que ela conseguisse entender.
Eram bastante ferozes, isso podia ver. Maria de Gueldres não havia mentido quando dissera que os escolheria pela força e pela habilidade. Todos os homens usavam um léine, uma longa túnica amarela que deixava os braços nus e chegava aos joelhos. Ela logo percebera, pelo cheiro, quais tiveram condições de comprar tintura de açafrão e quais usaram urina de cavalo. Sobre essa túnica de guerra, eles prendiam um pano sem forma — um brat, como diziam — preso com um broche no pescoço servindo como capa ou mesmo como um cobertor para dormir. Alguns desses eram azul-escuros ou vermelhos, enquanto outros eram tecidos num estranho padrão verde e castanho.
Ela se surpreendera ao ver quantos andavam de pernas nuas debaixo do léine e do brat. Um pequeno número usava trews como seus conterrâneos na França: calças justas de tecido enviesado, moldadas nas pernas pelos anos de uso e por toda a gordura que conseguiam esfregar para afastar o frio. O restante caminhava com as pernas peludas de fora quase até a coxa, com os brats formando pregas de tecido ao serem presos na cintura para marchar.
Os dias eram curtos e escuros quando atravessaram a fronteira. Eles andavam durante todas as horas do dia, depois descansavam e comiam, com quatro mil homens embrulhados nos brats como casulos no chão úmido. Havia pouquíssima comida, embora eles esvaziassem os estoques de todas as aldeias ou cidades por onde passavam e pusessem alguns bons arqueiros à frente de olho em coelhos ou cervos. Margarida se sentiu mais magra após uma semana com eles, embora sua energia parecesse aumentar, contra toda compreensão, com aquela alimentação pobre de aveia com algumas tiras de carne seca.
Dezembro estava bem avançado quando chegaram à cidade de York e ao imenso exército que se reunia em seus arredores. Os escoceses pareceram se empertigar ao ver as tendas e os cavaleiros de armadura à espera, e deixaram Margarida preocupada. Ela levara à Inglaterra um inimigo antigo, apesar de todas as promessas de serviço leal que lhe fizeram. Era muito fácil imaginar uma ação imprudente ou uma piada dita em voz alta, e então os rapazes da Escócia lutariam contra o próprio exército que vieram ajudar.
Batedores corriam à frente de seus quatro mil para transmitir a notícia. Margarida disse a si mesma que não devia se preocupar, mas ela viu o laird que eles seguiam reduzir a velocidade do cavalo pela linha de homens em marcha, vindo em sua direção.
Andrew Douglas sabia falar francês e inglês, embora murmurasse em gaélico ao mesmo tempo, quase como se conversasse consigo mesmo. Margarida não sabia qual era sua posição formal na corte do rei escocês, embora Maria tenha lhe dito que confiava no homem. O laird era grande e robusto, um dos poucos que haviam preferido cavalgar, embora controlasse o cavalo principalmente com força, sem nenhuma graça nem delicadeza. Ele parecia sempre encará-la com raiva, embora Margarida soubesse que, em parte, era o fato de ser tão peludo, com uma barba capaz de esconder um ninho de passarinhos somada às sobrancelhas eriçadas ao cabelo preto e espesso que chegava aos ombros. Além do nariz e de um pedaço de pele exposta no alto da face, Douglas fitava o mundo através de um matagal, os olhos azuis sempre cobertos por sombras. Ele demonstrava bastante respeito em sua presença, embora o murmurar em gaélico talvez não fosse respeitoso, até onde ela sabia.
— Milady, é melhor eu parar os homens antes que eles assustem os cães, se é que a senhora me entende — disse ele, acrescentando um murmúrio de palavras que ela não entendeu. — Preciso encontrar um bom lugar para descansarem, perto de um rio, a montante daqueles rapazes lá embaixo, para que não bebam seu miji.
Margarida piscou para ele, sentindo que talvez não tivesse entendido exatamente o que Andrew queria dizer, mas sem vontade de lhe pedir que repetisse. Para quem tinha o francês como língua natal, às vezes ela achava quase impossível compreender o sotaque escocês. Margarida inclinou a cabeça, como se concordasse com a ideia geral, e ele gritou aos homens em volta em seu próprio idioma, de modo que eles pararam e desafivelaram espadas e machados. Margarida voltou a se preocupar.
— Por que estão se armando, Andrew? Não há inimigos aqui.
— É só o jeito deles, milady. Eles gostam de ter ferro na mão quando há ingleses por perto. É só um hábito, não dê importância.
Margarida chamou o filho, observando com carinho Eduardo apressar a montaria batendo os calcanhares nos flancos dela, seu rosto corado com o olhar de tantos homens sobre ele até chegar ao lado da mãe, ofegante e sorridente. À distância, talvez quase quarenta homens se reuniram fora das fileiras do exército que os aguardava, erguendo os estandartes ao se aproximar num trote leve.
— Aquele lá é o duque de Somerset — avisou Margarida, virando-se para o laird.
— É, e o conde Percy — acrescentou ele. — Conhecemos muito bem seu estandarte.
— E fico grata porque a honra de sua rainha e do filho dela farão com que não haja luta entre vocês — declarou Margarida com firmeza.
Para sua surpresa, ele riu.
— Ah, entendemos a trégua e quem são nossos aliados. Se a senhora conhecesse um pouco mais sobre os clãs, saberia que pode confiar nesses rapazes.
Apesar das palavras tranquilizadoras, Margarida viu que ficava cada vez mais nervosa conforme os cavaleiros se aproximavam. Ela sentiu uma onda de alívio ao ver Derry Brewer cavalgando junto deles, seu prazer evidente.
Como lorde em posição mais elevada, Somerset foi o primeiro a apear e se ajoelhar diante de Margarida, seguido rapidamente pelo conde Percy e pelo barão de Clifford. O restante dos homens ficou parado em silêncio enquanto seus senhores saudavam a rainha e o filho, observando as fileiras de guerreiros escoceses com uma expressão fria e a mão no punho da espada.
— Vossa Alteza, é uma alegria vê-la — anunciou Somerset enquanto se levantava. — Príncipe Eduardo, receba minhas boas-vindas.
— Mal posso imaginar o preço que a senhora pagou por tamanho contingente, milady — acrescentou Henrique Percy, franzindo a testa. — Rezo para que não seja um fardo grande demais.
O jovem conde tinha o nariz dos Percys, observou Margarida, aquela grande cunha que dominava o rosto e o fazia se parecer com uma versão mais nova do pai.
— Acredito que esse é um assunto da Coroa, milorde Percy — respondeu ela com azedume, fazendo-o enrubescer. — Agora quero lhes apresentar lorde Douglas, comandante desses bons guerreiros.
O conde Percy sentiu a hostilidade quando Andrew Douglas se aproximou. O escocês fez questão de estender a palma vazia e depois trocar um aperto de mão com Percy como se lhe fizesse uma grande concessão. Depois do cumprimento, o conde se virou para o outro lado, olhando para a ralé de escoceses com desaprovação, sua boca se contorcendo enquanto mordiscava uma úlcera na parte interna do lábio. Margarida podia ver que Derry Brewer se divertia observando a conversa.
— Montei acampamento um pouco afastado da força principal — avisou Somerset, franzindo a testa com a tensão no ar. — Lorde Douglas, o senhor e seus homens ocuparão o flanco esquerdo se formos atacados, ao lado de Clifford e dos meus homens.
— E onde ficará o senhor, lorde Percy? — perguntou Andrew Douglas inocentemente.
— No flanco direito — respondeu Percy de imediato, o rubor se aprofundando nas faces. — Meus homens e os seus têm uma longa história e contas que não serão acertadas aqui. — A voz e a expressão se endureceram sutilmente. — Não espero nenhum problema, e foi o que eu disse aos meus capitães. É claro que tenho de proibir a entrada de seus homens na cidade. Já dei essa garantia ao conselho da cidade.
— Aceitamos os termos, milorde — respondeu Douglas. — Que Deus não permita que assustemos o povo de York.
O escocês murmurou algo entre os dentes que fez Percy corar até ficar quase roxo.
Margarida se perguntou se o conde compreendia aquela língua estranha depois de proteger as fronteiras durante tanto tempo de homens iguais aos quatro mil que ela levara. Ela reservou um momento para fazer uma oração silenciosa para que não tivesse trazido lobos para a Inglaterra.
— Vossa Alteza — disse Somerset, rompendo a concentração dela. — Com sua permissão, reservei acomodações para a senhora descansar na cidade, numa rua boa. O barão de Clifford concordou em mostrar a esses homens seu lugar.
Andrew Douglas deu uma risadinha, apreciando algum significado que podia ou não estar implícito. Antes de ser levada embora, Margarida apeou e abraçou o escocês, surpreendendo a todos e os deixando paralisados, fitando à média distância.
— Obrigada por me trazer de volta, Andrew. Sejam quais forem as razões, sou grata a você e aos seus homens. São bons rapazes.
Ela deixou o escocês quase tão corado quanto o conde Percy, que a fitava. Derry Brewer ajudou a rainha a montar outra vez. Ele sorria ao subir na cela de Represália, e foram embora a trote, levando consigo metade dos nobres e dos porta-estandartes reunidos. Acima de todos, a chuva voltou a cair, com força suficiente para pinicar o rosto dos que olharam para cima e suspiraram.