A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 9 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo XI · Dolorosa Surpresa

 

Estavam os criados numa consternação, que mais provinha do pavor supersticioso das suas almas crédulas do que de piedade por aquelas senhoras que se tinham sumido como por feitiçaria, naqueles momentos de terror em que o sol se velara ao pino do meio-dia.

A lamuriar, as criadas afiançaram a Ruy de Vasconcelos que já umas poucas de vezes tinham corrido as casas todas e nenhum indício tinham encontrado do paradeiro das senhoras.

Em arrepios de pavor, o velho, que para ali tinha ido de casa de D. Dulce, confirmava as declarações das criadas.

Num estonteamento de amargurado e nuns estremeções que lhe vinham do coração, torturado de dúvidas e de suspeitas, Ruy fazia perguntas sobre perguntas.

— Ontem ou esta manhã notaram aqui alguma pessoa estranha ou suspeitaram que houvesse entrado cá alguém desconhecido? Unanimemente responderam que ninguém tinha entrado e nada suspeito tinham visto. De manhã tinham falado com as senhoras; pareceram-lhes alegres; a menina levantara-se a cantar um modilho mouro que a mãe lhe ensinara, pormenorizou a criada das câmaras de dormir.

— Daí é que vem o mal todo! — disse, confrangido o criado antigo.

— Daí, de quê? — interrogou secamente o jovem cavaleiro.

— Da senhora D. Maria ter sangue mouro e de haver sido esta casa habitação da mourama, que é raça de encantamentos e feitiçarias!

— Tonteiras de velho! — retorquiu-lhe asperamente — Quando o sol se começou a encobrir, onde estavam as senhoras? — perguntou às criadas.

— Estavam na casa da costura — respondeu a mais idosa — e eu com elas. Eu digo tudo como foi. A gente começou de estranhar o clarão do sol, a modo a esmorecer. A luz que entrava cá dentro vinha tão triste como se fosse de um tocheiro grande nalgum enterro que lá houvesse no céu! E no pátio a criação toda num reboliço e a recolher-se assim como se fosse a anoitecer! Os cães puseram-se a uivar lá fora e o sol a morrer, a morrer! Fui à janela com a Menina. Até já fazia frio! O sol era já assim como quem diz uma brasa que se ia apagando e fazendo negra, negra! Deus de misericórdia! Do casarão velho veio uma revoada de corujas e mochos bater contra a janela. Julgavam que era já noite velha! E os sinos a darem as badaladas do meio-dia! Pusemo-nos a rezar numa agonia. Ouvimos gritos na rua, gritos em toda a casa, os cães uivavam mais, como se eles também estivessem a chorar. Foi um pavor! Fugimos à doida, nem nós sabíamos para onde! A Menina nuns soluços que cortavam o coração, e a chamar por vós, amo e senhor meu, como se naquela hora lhe pudésseis acudir!

— Depois? Vamos!

— Senti uns passos vagarosos, assim como de quem não tinha medo, e umas vozes que vinham daquela grande sala onde estão armaduras!

— A sala de armas. E as senhoras?

— Aquela sala faz pavor, fugi então pelo corredor fora, a apalpar as paredes, a gritar, numa loucura de medo, e foi então que de todo me perdi das senhoras! (*).

[(*) Nenhuma estranheza nos devem causar aqueles pavores de gente supersticiosa dos fins do século XIV. Quatrocentos anos depois ainda era preciso encarregar os párocos de precaverem o ânimo dos seus paroquianos para que não os tolhesse de pavor o espetáculo assombroso de um próximo eclipse de sol.]

 

Mas António Mendes — disse, apontando o criado antigo — contou que ouviu aqui um grito abafado, que lhe pareceu ser da Menina, e logo uma restolhada de passos na dita sala.

— É verdade isto? — perguntou o Vasconcelos ao velho criado.

— É, meu senhor!

— E tão poltrão, velho tímido como uma criança, que nem vos atrevestes a ir ver o que era!

— Fui lá, meu senhor, assim que o sol descobriu e não vi senão um tamborete derribado e um saio de malha de ferro caído no chão. Dizem que aparecem ali mouros encantados! — acrescentou, acabrunhado, numa expressão de terror supersticioso.

— Vou lá eu — disse Ruy para Afonso Eanes — Quero ver se compreendo o que este velho tonto não soube compreender!

Deitou pelo corredor fora, como enlouquecido.

— A porta oculta de que Vasco Eanes suspeitava! — ia pensando — Mas por ali quem?! E para quê?!

Abriu a porta da sala numa cara violenta. Correu para o pano marroquino que ocultava a outra porta pequena de chaparia de ferro e ferrolho de bronze, como se fosse de um castelo.

Deu um puxão ao velho reposteiro, que se lhe estiraçou na mão.

— Olhai que se vos pode agravar o ferimento do outro braço — lembrou-lhe Afonso Eanes, que viera atrás dele.

— Foi por aqui! — rouquejou — Mas o ferrolho estava corrido deste lado e alguém houve então cá de dentro que abriu a porta. Quem? — perguntou sumidamente ao seu coração alanceado — Elas próprias, talvez... A mãe? — interrogou ainda numa dor de alma indefinível, com esta suspeita a enroscar-se-lhe no coração e a matar-lho como se fosse uma serpente enorme a instilar-lhe o veneno dos supremos desesperos — Mestre Afonso Eanes, hemos de abrir esta porta.

— Deixai, que vou eu experimentar se a posso abrir.

Experimentou. Estava fechada do outro lado.

— Só arrancando-lhe a chaparia para depois a escavacar a machado ou consumi-la a fogo.

— Seja como for, é preciso abri-la — volveu-lhe lugubremente — E dai conhecimento ao Mestre deste caso, que pode ser de perigo para a cidade.

— Vou mandar que me tragam aqui dois ferreiros.

— Não, não! Isso daria grande alvoroto na cidade.

— Tenho aí esses homens que estavam de guarda a esta casa. Um deles é serralheiro. Esses hão de bastar.

— Sim, esses.

— E com certo recato para não dar alarme, que mais venha atribular o ânimo do povo. Se mo permitis, darei ordem para daqui não sair ninguém.

— Mandai o que entenderdes. Eu fico de guarda a esta porta maldita.

— Vós não podeis.

— Tudo posso, tudo agora devo poder! A culpa é toda minha. A minha penitência há de ser de morte.

— Corre-se este ferrolho de bronze e ninguém aqui poderá entrar enquanto não viermos derrubar a porta.

Correu o ferrolho.

— Isto não dará mais largura que a de dois homens a par. Daqui quatro ou cinco homens resolutos fazem frente a trezentos, que se tivessem encafuado por aí dentro.

— Basto eu, e que me tomem o lugar quando a vida me faltar.

— Estou a perceber que suspeitais daqui alguma traição!

— Suspeito.

— Mas de quem?

Do miserável Antão Gonçalves, combinado com o pai de Madalena. Já temos visto como do arraial inimigo facilmente se têm combinado com alguns traidores de cá.

— Entrando por esta porta para se apossarem da cidade?!

— Para espalharem o pavor entre o povo, auxiliando algum novo assalto de surpresa, pela calada da noite.

— E para que tinham de levar então essas duas pobres senhoras?

— Essa terá sido a vingança infame de Antão Gonçalves contra mim! — rouquejou, torvo de cólera — Para que Madalena seja dele, compreendeis, mestre Afonso Eanes? — disse numa convulsão de ódio, olhos marejados, fitos no mecânico — Para que seja dele a minha malograda noiva, entendeis? E dando a vitória ao Castelhano, ele o Português de hedionda alma, dando-lha por uma traição que os meus amores tornaram fácil, viria para a cidade vencida alardear a sua ventura de amante e roer de rastos, como um sabujo, o osso de el-rei de Castela! Mas hei de eu ter morrido primeiro, aqui, atravessado nesta porta! Mandai chamar os vossos homens, mandai aviso ao Mestre.

— A esse só eu mesmo lhe hei de ir dar conta disto, e em segredo há de ser. Quanto a vós, aqui não sois necessário. Lê-se bem no vosso rosto o muito que sofreis. Há de estar em grande preocupação a vossa mãe e senhora.

— O dever é ficar. Por favor, mandai recado a minha mãe, dizendo-lhe que me não espere.

— Aqui virá mortificada!

— Embora, aqui hei de ficar. Por ela e pelos meus pobres sonhos mortos, vos juro!

— Pois seja como quereis. Voltarei depressa.

O tanoeiro a sair e as lágrimas a saltarem-lhe dos olhos.

— Homem, podes agora chorar como as crianças e como as mulheres! — disse de si para si, sumidamente — Não! Não! Seria grotesco chorar nesta hora!

E logo num grito rouquejante:

— Ódio! O mais entranhado e profundo ódio a esse infame roubador! Duas vezes já atravessado no meu caminho! Boa fortuna há de ser a dele para que eu o não encontre!

 

* * *

 

Um quarto de hora depois revoava pela sala de armas o ruído, ora cavo, ora vibrante, de umas fortes pancadas que faziam tremer as velhas panóplias, os lorigões (saios grandes de malha de ferro), os capelos e as gorjeiras dos primeiros tempos da monarquia.

Um serralheiro despregava lentamente a chaparia da porta; dois homens com alavancas procuravam deslocar os gonzos; um outro, encostado a um grande machado de mateiro esperava ocasião de golpear a madeira a descoberto.

Atrás deles, a poucos passos, Ruy de Vasconcelos, de olhos cravados na porta, num torvo emudecimento, de instante a instante em estremeções como de epilético.

Ao seu lado, cabisbaixo, silencioso, o Juiz do Povo.

Ninguém mais naquela casa soturna cuja grande porta de entrada o tanoeiro aferrolhara por dentro.

— Como se fosse a porta do inferno que eu tenho comigo! — pensava Ruy, de momento para momento mais desfigurado. ?

— Uma doida aventura! — murmurou o tanoeiro tristemente.

— Mãe de misericórdia, que mo enlouqueceram! — soluçou D. Dulce, caindo sobre um tamborete.

— Tomé João — disse Eanes para o serralheiro — se quereis, vinde comigo.

— Para aonde quiserdes, mestre Afonso Eanes.

— Ide então buscar outra luz. Senhora — disse, aproximando-se de D. Dulce — ficai descansada, que eu seguirei vosso filho. Mas fazei-me agora o favor de vos afastardes daqui.

— Deixai-me ficar. Aqui esperarei que ele volte.

— Senhora, então como for da vossa vontade.

O serralheiro voltou com uma candeia grande de dois bicos.

Afonso Eanes tomou duas lanças de uma panóplia, uma para ele e outra para o serralheiro.

— Vamos nós também — disse o do machado, indicando os outros dois das alavancas.

— Vós, não — acudiu Afonso Eanes — Ficai de guarda aqui. Um que vá chamar os cinco besteiros que estão à porta da rua e guardareis todos esta passagem. A qualquer ruído suspeito, dai sinal de alarme e, dos que primeiro acudirem, alguém que vá logo dar aviso ao Mestre.

— Assim se há de fazer — respondeu o mais velho dos três.

D. Dulce erguera-se com supremo esforço e fora numa tremura convulsiva para a cadeira maior, junto da grande mesa de cedro.

Ouviu como estonteada todas aquelas recomendações de Afonso Eanes. Pareciam-lhe palavras de estranho e lúgubre sentido num sonho de pesadelo.

Encostou a cabeça às mãos para que não vissem como ela chorava. Ardia em febre.

 

* * *

 

Passaram duas horas de suplício para aquela pobre mãe.

Os homens de guarda à porta falavam baixo. De bestas armadas, os cinco chamados por ordem do Juiz do Povo esperavam em fila em frente da porta escancarada. O homem do machado estava encostado a uma ombreira, um outro como esculca fora postar-se a uns vinte passos para além deles, à escuta no corredor mergulhado em sombras.

— Tardam! — disse o do machado.

E, dando uns passos para o corredor, perguntou:

— Nada ouvis?

— Nenhum rumor! — respondeu o que estava de vedeta.

— Já tinham tempo de chegar à Outra Banda, ainda que o caminho, ou que demo é este escaninho negro, fosse dar lá, por baixo do rio!

— Dizem que isto foi casa do tempo dos mouros! — explicou baixo um dos que trabalhara com alavanca — Uma vez ouvi eu contar que tinha havido aqui mouros e mouras encantadas!

— Histórias da vida! Não foram mouros que sumiram por ali as tais duas damas que estavam cá! A gente bem percebe as coisas. Caminhos debaixo do chão já eu tenho ouvido falar de uns poucos em Lisboa, até na alcáçova do Castelo: mas o pai daquela linda rapariga que enfeitiçou o Vasconcelos.

— Schiu! Olhai se a mãe, que para ali está amarfanhada, vos pode ouvir!

— Não ouve.

— Dizei mais baixo, mas dizei o resto.

— O pai da rapariga está com os castelões, passou-se, vendeu-se, e o que o Vasconcelos e o Juiz do Povo receiam é que ele viesse buscar a mulher e a filha e por aqui volte com os de Castela para nos tomar a cidade, se isso é caminho que vá dar ao rio ou a sítio por onde os cercadores possam andar à sua vontade. Por isso eles foram-se por esse cacifo dentro. Ora aqui tendes o que é.

— Mas por aqui só se cá viessem a dois, e bastariam quatro ou cinco homens resolutos com bestas e lanças para os ir chacinando, mal que eles assomassem.

— Reparai. Lá está a mãe do rapaz a engrilar para aqui a ver se percebe alguma novidade.

— Há de estar cansada de esperar.

— E de chorar, que a gente bem percebe que tem chorado às escondidas. E não tardará que nos pergunte, pela quinta ou sexta vez, se não temos ouvido passos.

D. Dulce levantara-se. Tinha os olhos encovados, pareciam mais fundas as rugas das faces.

— Meu dito, meu feito — bichanou o que tinha acabado de falar.

— Dava cinquenta dobras — disse numa tremura de voz, indo para eles — dava-as a quem me quisesse acompanhar para ir ter com o meu filho. E ficar-lhe-ia em tamanha obrigação como se lhe não houvesse dado nada.

— Senhora, nem é preciso tanto dinheiro. Vou eu, se vós quereis.

Alguém entrara na sala.

— Mestre Afonso Eanes! — exclamou com alvoroço um dos besteiros.

D. Dulce voltou-se num movimento febril e foi para ele entontecida.

— Rui?!

Era uma pergunta como um grito, uma palavra em que vibravam todas as fibras do seu coração de mãe.

— Senhora, sede tranquila. Cheguei, pouco depois do vosso filho, ao cabo desse caminho oculto.

— E ele, onde ficou?

— Foi à presença do Mestre.

— E não veio ter comigo!

— O Mestre tão turbado o viu, tão gasto de forças, que lhe deu ordem formal de voltar ao vosso palácio, e pelo seu físico o mandou acompanhar lá.

— Senhor Afonso Eanes, por piedade não me enganeis!

— Senhora minha, pela boa fortuna da nossa terra vos juro, e não tenho agora jura maior para a minha alma. O cirurgião achou que o ferimento um pouco se lhe agravara, e da febre que lhe encontrou sabeis vós, senhora, e sei eu a causa.

— Febre de perigo, dizei?

— Febre grande, que em alguns dias há de passar, por Deus o creio.

— Vou ter com ele. Dos criados desta casa algum que vá comigo.

— Senhora, serei eu, se tal honra me quereis dar.

— Mas depressa.

— Dai-me uns instantes para dizer um recado àqueles homens.

— Sim... A demora que for precisa.

— Podeis retirar-vos, meus amigos e muito vos agradeço o auxílio que me destes. Ao sol-fosco aparecei na minha casa. Há trabalhos que se agradecem, ainda que seja dever pagá-los.

— Mestre Afonso, não é preciso. Mas vede lá se não haverá perigo em deixar esta porta sem alguém de guarda a ela!

Eanes compreendeu o receio expresso nestas palavras. Era dever seu dissipá-lo para que, ao cabo de algumas horas, se não volvesse em suspeita e alarme da cidade.

— Nenhum perigo — disse-lhes — A coisa de cem passos desse corredor há uma estreita escada que dá para um caminho debaixo do chão. Vai ter à borda do rio, muito para cá de Enxobregas e lá se lhe disfarça a embocadura entre as ruínas de um casinhoto, meio oculto por silvedos. Ninguém encontramos. Quem por ali entrou não voltará. Lá ficaram a entulhar-lhe a entrada, e lá o guarda a gente de armas de duas galés. Podeis retirar-vos descansados.

— Senhor Afonso Eanes — interveio D. Dulce — dizei-lhes que, pelo meu filho e por mim, muito lhes agradeço o que fizeram e de outro modo lhes darei agradecimento maior pela vossa mão, senhor Juiz do Povo.

Os mesteirais e besteiros entenderam bem a espécie de agradecimento a que D. Dulce fizera referência e disseram-lhe umas jubilosas palavras de reconhecimento.

— Madrinha e senhora minha, mandai-me.

— Vamos — disse-lhe, apoiando-se ao braço robusto do tanoeiro.

 

* * *

 

— Aquele meu pobre filho! — ia-lhe dizendo, oprimida — Mas quem supõe ele que lhe levou a noiva?

— Antão Gonçalves de Mendonça...

— O rival que ele feriu no duelo e todos julgavam à morte?

— Era de má alma, escapou e, ainda mal curado, fugiu do hospital.

— Antão de Mendonça? — repetiu D. Dulce com imensa amargura.

— Conluiado com o tio, que está, como sabeis, com os sitiadores. Tem encontrado artes, malas-artes, de se entender de lá com alguns vilões, fidalgos de cá. Perdoai, senhora minha.

— E Antão levaria Madalena para se vingar de Ruy e fazer dela a sua esposa... Ou a...

Não concluiu a frase.

— E o traidor-mor viria no intento de sondar o caminho para traição maior e para levar a esposa. É isto o que o vosso filho supõe e o que eu acho provável; que ao certo nada se pode afiançar.

— E dentro daquela casa não haveria quem os ajudasse? A própria mulher do traidor?

— Talvez, senhora minha.

— Madalena atraiçoaria esses amores de enfeitiçamento como o pai atraiçoou a nossa terra?

— Estou a crer que a levaram à força.

— E isso credes porquê?!

— Porque à boca do caminho oculto se encontrou quebrado no chão um colarzito de pérolas com uma cruzita toda cravejada de rubis. O vosso filho logo o reconheceu.

— Era de Madalena. Trazia-o sempre. Muitas vezes lho vi. Mas podia ter caído e quebrar-se casualmente.

— Dizeis bem, senhora, e assim teria sido, se outros indícios se não houvessem encontrado.

— Quais?!

— Bordaduras esfrangalhadas de um vestido de dama, bordaduras (*) com umas nódoas de sangue, bem vivas ainda, e no chão fundas pegadas de uns chapins pequeninos de senhora, sem dúvida nenhuma, mas a indicarem que procurara resistir para que dali não a levassem. E em frente das pegadas dos chapins outras grandes de homens, que se houvessem firmado bem no chão para arrastar alguém consigo.

 

[(*) As bordaduras a fio de seda ou a fio de ouro estavam muito em uso na Europa medieva, desde o tempo das Cruzadas. Os bordados à agulha vinham da alta antiguidade egípcia, e nos fins do século XI estavam em muito apreço os que eram feitos a ponto de Veneza.]

 

— E chegaram à boca desse caminho escondido, sem ninguém ter dado por eles?!

— Três ou quatro homens facilmente se disfarçavam e metiam num batel, talvez já ontem à noite. O sítio é ermo e não estava guardado. Só muito para cá é que estão as nossas galés, e essas varadas na praia.

— Suposições, somente suposições! Só o que não é suposição, Deus da minha alma, é que me desvairaram o filho e agora mo perderam!

— Senhora, não digais tanto!

— Perderam, sim. Eu bem o conheço, mestre Afonso Eanes. Tinha-lhe amor enlouquecido, talvez de enfeitiçado, e irá em busca da morte para matar o outro, ou para morrer por ela. Há mães que leem claro no coração dos filhos, outras que lhes adivinham as desgraças, e o meu coração logo no começo desses mal-aventurados amores lhes adivinhou o infortúnio!

— Senhora, eu creio bem que o vosso filho por nenhum desalento de amor será capaz de faltar às suas promessas de cavaleiro e à sua alma de Português.

— Não faltará, isso creio eu; mas faltar-me-á a mim, indo além do que deve à sua honra e à sua terra, para que a morte se não esqueça dele.

— Quis-me parecer que o deixei convencido de que a sua prometida noiva o não atraiçoou, e era esta suspeita o que mais o mortificava. Das suas palavras percebi que se lhe mudou em ódio maior a dor de ciúme que ameaçava enlouquecê-lo.

— O ódio também faz loucuras. Tem um exemplo na família. Talvez nunca mais encontre essa que era o seu maior amor!... E que encontrasse? Esposa ou suspeita amante do outro, será para ele a noiva que morreu. Ai de mim por ele! — disse num soluço.

Tinham chegado em frente do palácio. D. Dulce estremeceu.

— Parece que vou entrar numa casa onde alguém morreu! — disse sumidamente — A sua felicidade e a minha!

 

* * *

 

Depois de ter obrigado Ruy a meter-se na cama, invocando as recomendações do Mestre para autorizar o seu mandado, o cirurgião fizera-lhe o curativo ao ferimento, que um pouco se lhe agravara com os esforços violentos daquele dia, e para lhe acalmar a excitação febril dera-lhe uma beberagem, em que entrava uma forte dose de dormideiras.

Esperou que adormecesse e saiu, deixando-o muito recomendado ao velho Gonçalo Vasques, que o ficou velando sentado à cabeceira do leito.

Tinha saído minutos antes de D. Dulce chegar.

A oprimida senhora correu logo para a câmara do filho, seguida por Afonso Eanes.

— Está pior? — perguntou da porta, convulsivamente, e como se tivesse medo de entrar.

— Senhora minha, adormeceu — disse-lhe o velho, de pé — Deu-lhe o físico um remédio para dormir.

D. Dulce acercou-se da cabeceira do leito. Ruy tinha uma respiração torturada. Notou-lhe extraordinária palidez.

— Senhor Afonso Eanes — disse, voltando-se para o Juiz do Povo — não prendais agora o vosso tempo connosco. E por tudo quanto vos devemos, ele e eu, sereis sempre a pessoa mais gratamente lembrada na minha alma.

O tanoeiro respondeu-lhe em modestas palavras de devoção pessoal, e retirou-se.

— Meu irmão? — perguntou D. Dulce ao velho aio.

— Saiu também quando o sol se encobria e ainda não voltou.

— Podeis retirar-vos. Eu ficarei aqui. O físico prometeu voltar?

— Antes do sol-posto me disse que voltaria.

— Está bem. Eu chamarei, se de vós precisar.

Gonçalo Vasques dobrou-se, reverente, e saiu.

D. Dulce inclinou-se então carinhosamente para o filho e beijou-o num desafogo amorável.

— Meu pobre enfeitiçado! Que má sina de amores a tua! — pensou — Perderam-te, e de mim hás de fugir para morreres na loucura da tua dor!

Chorava. Compôs-lhe as roupas brandamente. Sobressaltou-se. Ruy tinha na mão direita, contra o peito, o colarzito quebrado de Madalena.

— O que tu mais sofregamente guardas! E talvez tenham sido maiores do que essas pérolas e mil vezes mais as lágrimas que eu tenho chorado por ti, filho! Sem contar as outras que eu não sei ainda como hão de ser!

E ficou-se de olhos cravados na cruzita cravejada de rubis, a lembrar-lhe gotas de sangue que se houvessem cristalizado.

Cobriu-lhe o peito e foi ajoelhar-se diante de um oratoriozito da Senhora das Dores, que havia na câmara sobre um contador precioso de talha dourada.

Esperaria que ele despertasse, enquanto os seus olhos punham aos pés da Mãe de Jesus a conta das suas rezas nas contas grandes das suas lágrimas.

Não chegou a durar duas horas aquele sono de pesadelo. Acordou num sobressalto de sonho.

Levou à boca, enternecidamente, a cruzita de rubis, murmurando:

— Cruz pequenina do meu tamanho calvário! Foi no seu colo... Alvo como os arminhos das rainhas e como a plumagem do cisne branco do cavaleiro de Santo Graal... Que te dei o primeiro beijo!

Não reparou na mãe, que orava, chorando tão sumidamente, que mais se lhe podia ouvir o coração do que o murmúrio das rezas. 

CAPÍTULO XII

A LOUCA

 

Ao cabo de cinco dias, o ferimento de Vasconcelos estava completamente curado. O da alma, esse é que de dia para dia mais se agravava e talvez nunca tivesse cura.

Os rapazes do esquadrão dos Namorados tinham ido visitá-lo várias vezes. As adesões tinham sido importantes; o número dos filiados aumentava consideravelmente, e das províncias já tinham recebido mensagens de alguns jovens de famílias fidalgas, pedindo a admissão na hoste do estandarte verde como por lá lhe chamavam já.

Em uma das suas recentes visitas, o Magriço dissera-lhe:

— Se Lisboa puder aguentar-se até que Nuno Álvares chegue, e nos não desamparar Deus, virão a ter os Namorados o tresdobro de lanças e, na primeira batalha campal que houver, vereis que já podemos formar uma ala, uma arrojada ala em que haveis de ser dos primeiros. 

— Para morrer — volveu-lhe Ruy tristemente.

— Não digais tal. Para glória vossa e da nossa terra é que há de ser.

— Pois por ela será. Para mim já não pode haver senão metade do moto da nossa bandeira, o primeiro — Pela nossa terra. Outro hei de ter, mas esse, todo ódio, vai só comigo e só o meu coração o há de sentir.

— Quem sabe lá, Ruy de Vasconcelos? Quem vos pode afirmar que é certo o que supondes? Talvez as coisas vão tão depressa, que às terras de Castela tenhamos de ir buscar vossa dama; para tal podeis contar comigo e com outros mais dos nossos.

— Boa intenção de amigo para se agradecer como eu vos agradeço. Iria eu encontrá-la então já esposa ou amante do vilão bandalho! — disse numa violenta cara de cólera — Antes há de querer Deus que eu o encontre a ele. Assim os Castelhanos arremetam outra vez contra a cidade! Irei sobre ele, ainda que na sua tenda real lhe dê abrigo D. João de Castela. E assim se fechará a nossa conta, a minha e a dele!

— De outro modo há de ser, bem o creio. Deixai que o tempo vos cure, que para os males do coração é às vezes o melhor remédio — disse-lhe afetuosamente, no empenho de o acalmar — De outros amores sois digno e outros vos hão de merecer.

— Foram os segundos de má fortuna; não quero outros. Na fila dos Namorados irá um só campeador desterrado do país dos sonhos, viúvo de alma, um desengano ainda preso ao Mundo por uma santa devoção a sua mãe e à sua terra; eu, Álvaro Coutinho. Eu só, assim entre vós todos!

— Pois nós veremos que tal não há de suceder — objetou-lhe o Magriço — Se não fosse o respeito que tenho pelas vossas mágoas, respeito piedoso como se as sentisse um irmão meu, muito dileto, dir-vos-ia que da nossa hoste a única exceção, o único namorado falso, hei de ser eu, sempre eu, cavaleiro de grã fealdade, por quem nenhuma formosa dama se prende e só uma cegonha inglesa, da comitiva do Duque de Lencastre, teve o capricho de namorar-se. Porém a essa não a quis, porque, em consciência vos afianço, ainda era mais feia do que eu!

Sorriram os outros que tinham ido com ele. Ruy não sorriu, bem que lhe perdoasse o gracejo pela boa intenção evidente de lhe revigorar alentos, pondo-o assim a ele, jovem esbelto, de radioso prestígio, em contraste consigo, o paladino de uma hoste de namorados, a quem as mulheres bonitas rejeitavam desdenhosas.

— Mas perdoai o gracejo, que em bom propósito foi dito, e aparecei lá por aquela vossa casa.

Despediu-se. Sem que do olhar se lhe dissipasse a lúgubre tristeza e o rosto um momento perdesse as duras linhas que o ódio vincara, Ruy abraçou-o com sincero afeto.

 

* * *

 

Havia saído frequentes vezes o filho de D. Dulce e tinha longas demoras por fora. Ninguém em casa sabia por onde nem porquê.

Uma vez, casualmente, o viu Afonso Eanes num armeiro notável, o mais estimado em Lisboa.

Entrou, falou-lhe e notou que o armeiro logo de afogadilho levou para dentro um bacinete e um escudo, em que estava trabalhando. Nenhuma significação especial deu a este pormenor, realmente insignificante. Ficou-lhe, todavia, a impressão de que o bacinete e o escudo eram pretos, como só por exceção os usavam aqueles que se presumiam desenganados do Mundo, ou tinham feito voto de buscar a morte em torneio ou em batalha campal.

Ouvira contar alguns destes raros casos, sucedidos nas Cruzadas.

— Talvez para ele! — pensou o tanoeiro — E daí, para outro qualquer poderá ser.

Se o armeiro assim pressurosamente ocultava aquelas peças de armadura era porque para isso tinha recomendação, e absteve-se de qualquer pergunta ao amargurado filho de D. Dulce.

Falaram da situação da cidade e afinal Ruy perguntou-lhe:

— E de Nuno Álvares que sabe o Mestre?

— Que o jovem vencedor dos Atoleiros deve ter saído da fronteira do Alentejo para vir em socorro de Lisboa.

— Se for a tempo, se Lisboa puder resistir, se a fome deixar que resista e a peste dos Castelhanos não entrar cá primeiro do que eles!

— Não há de querer Deus que tal suceda — volveu-lhe Afonso Eanes.

— E do arraial de el-rei de Castela o que sabeis?

— Que vão por lá grandes desalentos e desesperos. A mortandade cada vez maior; a peste negra dizima-os! Não descansam na faina de fazer ataúdes os carpinteiros que o rei Castelhano mandou para Sintra e Alenquer!

— Bem sei; é lá que fazem a salga da gente nobre da Espanha, apodrecida pela peste.

— Contou ontem um fugido das naus de el-rei que vão já em mais de quatro mil os que têm morrido e que uma boa parte da peonagem anda na faina de abrir covais para os seus.

— Deram em coveiros esses soberbos invasores! Pois oxalá que a peste enjeite um que eu sei e mo não salguem lá, para que eu tenha o gosto de me encontrar com ele.

Pela voz torva, rouquejante, em que disse isto, logo o Juiz do Povo percebeu para quem era a referência.

— A esse, ainda que a peste o matasse, o não salgariam para o levar, porque não é de Castela — volveu-lhe Afonso Eanes.

— Dobradamente mais vil e torpe que os vilões de lá! — acudiu Ruy numa contração de ódio.

— Com razão o dizeis, senhor Ruy de Vasconcelos. Agora dai-me licença que vos deixe para ir a certa incumbência de caridade, em que ponho a minha maior devoção.

— Convosco sairei também.

Saíram juntos.

 

* * *

 

— Vou a casa daquela velha regatona, que vale o mais destemido dos nossos homens de guerra — ia-lhe dizendo Afonso Eanes.

— Já sei então quem é.

— Aquela tia Lourença...

— Que foi ferida. Dela me recordo perfeitamente.

— Levo-lhe aqui escondidos uns pedaços de pão duro de bagaço que ainda lá tenho em casa. Coitada! Há quatro dias que não come senão as ervas ressequidas dos muros e o musgo das oliveiras mortas. Ela e uma pobrezinha enlouquecida, que por caridade acolheu no seu casebre. Esta manhã, mo vieram contar. Uma tamanha miséria de cortar o coração!

— Pois se mo consentis, irei também convosco visitar essa valente mulher, e da minha casa mandarei que lhe levem algum socorro.

— Então bem-vindo sejais e grande consolo dareis àquela animosa defensora de Lisboa E será prémio do que ela tem feito o auxílio que lhe derdes. Vontade tinha eu de Vo-lo pedir, e com tal propósito entrei na loja do armeiro, mas tive receio de que vos parecesse impertinência. Avultadas esmolas tendes vós dado já à pobreza da cidade.

— Minha mãe bem mais.

— Pois sim, ela e vós. Que afinal, se fossem a querer acudir a toda essa gente ao desamparo, nem as tulhas e as bolsas de todos os fidalgos de Lisboa chegariam para um dia de fartura a tantos mil famintos que tem a cidade.

— Na tulha da minha casa sei eu que já não há trigo para uma semana.

— E nas outras dos mais ricos o mesmo há de ser.

— Mas desse pouco alguns punhados hemos de ter para a tia Lourença.

— Deus vos pagará e em boa hora vindes.

 

* * *

 

Tinham chegado ao casebre daquela regatona, a quem a populaça chamava o Condestabre das mulheres.

Veio abrir a própria tia Lourença. Pálida, emagrecida, olheiras fundas de quem velara as noites chorando, parecia que nalgumas semanas se lhe aumentara a velhice como se houvessem decorrido longos anos!

E, todavia, o mesmo ar resoluto, a mesma excecional energia no olhar, nas palavras, no másculo aprumo do seu arcaboiço de lutadora!

Depois de umas saudações de surpresa, a regatona retomou o seu feitio de desassombrada franqueza.

— Isto é o casinhoto de uma velha que já não tem em que possa ganhar a vida. Desculpai a trapagem e os cacaréus. Mas sabei, mestre Afonso Eanes, e vós também, meu guapo fidalgo, sabei que mesmo assim, tal como é, o defenderei dos castelões, se o demo houver de meter cá dentro cães gadelhudos, que má peste mate por tanta miséria que têm feito passar à nossa pobre gente! Agora, perdoai o aranzel, e mandai no que entenderdes que vos posso servir.

— Viemos por vos fazer uma visita de homenagem, tia Lourença.

— A mim, Santo António do Menino Deus!

— A vós, que tão devotadamente haveis servido a nossa causa, ajudando a defender Lisboa.

— Ah! Por tal intento muito vo-la agradeço, porém olhai que nem valia a pena chegardes até aqui. A obrigação é de todos os que têm ânimo para arremeter com esses malvados que aí estão para roubar a terra que Deus nos deu. Não faço nenhum milagre. O coração puxa por mim, as febras são rijas e o sangue é bravio. Nem todas as mulheres assim podem ser, mas cada qual faz o que pode e quem é das minhas ganas, temos aí umas boas dúzias delas; mal parecia que se ficasse a fiar na roca enquanto os homens arriscam a vida.

— Mas vós como nenhuma outra! — disse-lhe Ruy, numa voz arrastada de entristecido — Eu sei com que admirável coragem derramastes o vosso sangue, tia Lourença.

— Sangue da ralé, mal pecado que chegasse para afogar essa maldita gentiaga que aí veio para nos oprimir! Não chega, mas ainda cá tenho mais para quando for preciso, bem que seja agora sangue pior, pois que feito de ervas, que os burros enjeitariam torcendo o focinho, se ainda houvesse burros para o lado de cá dos castelões!

A té Ruy abriu um sorriso naquela sua boca ensombrada de pesares.

— Pois é também por causa da miséria em que viveis que nós cá vimos.

— Boa vai ela! Sabeis então!... Alguém vos foi contar, mestre Afonso Eanes?

— E aqui vos trago um pedaço de pão.

— Pois pelo amor de Deus seja e pela boa fortuna da vossa mulher e mais da vossa filha. Ele vos tome em conta essa esmola.

— Não lhe chameis assim, mulher de Deus, pois que tal não é. Quinhão que eu trago é que deveis dizer; quinhão que nem merece falar-se nele. Ao paço real e à mesa do Mestre o iria pedir para vós, que a muito mais tendes direito. Mas tal não é preciso, pois que de vós se condoeu o senhor Ruy de Vasconcelos, e da sua casa vos mandará algum trigo com que façais o pão.

— Ah! Meu glorioso fidalgo, isso é que é para se agradecer de mãos postas, não por mim, que já estou acostumada ao mau trato; mas pela desgraçadinha que aí tenho a mirrar-se-me! Uma linda arveolazita, que foi criada em palácios, mimosa e farta, e já de todo enjoou o musgo das oliveiras e as ervas secas dos muros.

— E como sabeis vós que foi criada em palácios?! — perguntou-lhe Ruy, no vislumbre de uma suspeita, que logo enjeitou por absurda.

— Meu senhor, assim linda e formosa logo se percebe que não é flor rasteira, medrada ao Deus dará, para todo o vento, como as outras dos montes e das charnecas! Isso sim! Até pelos farrapos com que eu a encontrei se via logo que era de gente fidalga. Eram farrapos de brocado e de veludo! Mas ela própria o dá a entender nas suas palavras desvairadas, quando a loucura lhe dá maior rebate.

— E porque enlouqueceu? Por amores talvez?

— Pelo seu grande amor de mãe. Morreu-lhe nos braços uma filha pequenina que tinha. Foi mesmo em frente do adro da Sé que eu topei com ela na sua dor de mãe enlouquecida! Vai para três meses que isto foi. Era noite velha, mas o luar era tanto, que até as lágrimas se lhe viam em fio a caírem daqueles lindos olhos que o nosso Senhor lhe deu!

— Grande mistério haverá então na vida dessa desventurada dama! — disse o Vasconcelos.

E sem saber porquê, o oprimia agora a lembrança de uns mal-afortunados amores, os primeiros que teve e aos quais por várias vezes aludira, como sabemos.

De súbito, alguém abriu de repente a porta estreita e carunchenta, que dava para a cozinha do casebre, e uma singular figura de mulher, aconchegada em trapos, mulher nova de extrema palidez, cabelos desprendidos, revoltos, assomou como se fosse a imagem da amargura numa visão de lenda.

— Mãe Lourença! Vamos por essas ruas pedir esmola! — solicitou em voz sumida e dolente, encostando a sua bela cabeça mortificada à decrépita ombreira, enegrecida de fumo — Tenho fome! — soluçou. E afoguearam-se de lágrimas os seus lindos olhos espavoridos, numa cegueira de enlouquecimento.

Em mais ninguém reparou como se mais ninguém tivesse percebido ali.

— Coitadinha! Disse a tia Lourença, indo para ela compungida — Não é preciso pedir esmola — segredou-lhe, tomando-lhe as mãos-e acarinhando-a — Já temos pão. Lembraram-se de nós, minha querida Menina.

E pôs-lhe nas mãos um pedaço de pão que Afonso Eanes lhe trouxera. A desditosa levou-o à boca numa avidez que parecia insaciável.

— Que tendes, senhor? — perguntou sumidamente o tanoeiro, reparando inquieto na palidez e na dolorosa perturbação do jovem cavaleiro.

— Vêm as mágoas umas após outras! — respondeu-lhe baixo numa tremura de voz — Aquela desventurada foi dama da Rainha — segredou-lhe — quando eu era pajem apenas. Se eu podia sonhar esta amargura. Ou eu estou mais louco do que ela!

— Não quiseram que eu morresse de fome! — disse adentanhando o pão com sofreguidões de irracional.

E logo, numa crise de lágrimas, entregando a Lourença o pedaço que lhe ficara:

— E foi de fome que a minha pequenina morreu!

— Nossa Senhora a tem lá consigo entre os seus lindos anjos — disse-lhe a tia Lourença — Agora todas das preocupações têm de ser para vós. Olhai, aqui estão as pessoas que tiveram dó de nós.

Leonor não tinha ainda reparado neles.

Volveu para Afonso Eanes um doce olhar de resignação, a contrastar com o desvario que, momentos antes, lhe transparecia no rosto.

E foi para o tanoeiro o seu primeiro olhar calmo e lúcido, porque o filho de D. Dulce um pouco se encobriu, acabrunhado, por detrás dele.

— Foi esse quem nos trouxe o pão — indicou Lourença — É um bom e honrado homem do povo. Mas ali está também um jovem cavaleiro, que veio aqui para nos socorrer.

Leonor foi de mãos postas para o tanoeiro, num andar hesitante e nuns passos que se torciam.

— Nossa Senhora seja por vós! — disse-lhes, tremendo.

Curvando-se profundamente comovido, como se numa sala do paço cumprimentasse alguma ilustre dama da corte e não naquele casebre miserando uma pobre enlouquecida, embrulhada em trapos, Afonso Eanes deixou a descoberto o perturbado filho de D. Dulce.

A infortunada pôs nele um olhar de pavor e todo o seu corpo se agitou numa tremura convulsiva.

— Ruy de Vasconcelos! — disse num grito de alma, agudo e trágico, expressão suprema de uma enorme surpresa e de uma imensa dor, assim como se fosse o grito selvático de alguma ave ferida de morte ou a vibração de um cristal espedaçado.

— Leonor de Gusmão! — rouquejou Ruy com um gesto, que era talvez o comentário incoerente de uma confrangida piedade e de uma atormentada repulsão.

De mãos no peito, a tremerem como se fossem de criança e enclavinhadas como garras, Leonor buscou o amparo da tia Lourença.

E de joelhos, abraçada nela, em golfadas de soluços, disse num timbre de angústia, arrepiador e lúgubre:

— O meu primeiro amor! O primeiro, mãe Lourença! Uma traição, uma violência do outro! Eu não o atraiçoava. Não! Não! Tamanho amor, tamanho!... E não era dele... — disse alanceada, a sumir a voz — não era dele a pequenina... Que morreu de fome!

Num estonteamento de surpresa por aquele extraordinário lance, que nem sonhado poderia inventar, a velha regateira puxava-a para si piedosamente, a dizer-lhe palavras de resignação, que vinham a escorrer lágrimas.

Afonso Eanes sabia vagamente de uns amores de má fortuna que Ruy tivera com uma dama do paço. Depois, havia mais de dois anos, nos tempos revoltos que vieram com a morte do rei Fernando, ouvira falar por alto no súbito desaparecimento de certa fidalga nova e formosa, de quem nunca mais houvera notícia.

Homem do povo, alma iniciadora da revolução, pouco importavam então ao glorioso tanoeiro os dramas e os escândalos do paço, pois que, no escândalo afrontoso da rainha comborça e no enorme drama de uma Nacionalidade em perigo, todos os outros se sumiam como apagadas miniaturas.

Agora entendia e ligava a essa desventurada o caso esquecido daquela dama desaparecida, e aos primeiros amores de Ruy de Vasconcelos este lance de um drama pungidor, que parecia um pesadelo de sonho.

— Eu saio, Mestre Afonso Eanes! — disse-lhe baixo o Vasconcelos numa voz que se lhe estrangulava.

— Uns instantes mais de piedade — solicitou-lhe o Juiz do Povo, quase em segredo.

— Não posso com esta amargura rediviva sobre o coração que outra espedaçou! — alegou-lhe sumidamente.

Entretanto, nos braços da regateira como uma criança encolhida de medo, Leonor soluçava-lhe confidências, a espaços truncadas pelos desvairamentos da sua loucura intermitente de resignada.

— Minha querida Menina — dizia-lhe a tia Lourença num intuito benfazejo — nem que fosse vossa a culpa, Deus Nosso Senhor vos negaria perdão pelos tamanhos infortúnios que tendes padecido!

— Só ele me não perdoará! Não sabe que foi a Rainha quem ajudou a perder-me! Não sabe! Não perdoa!

Sufocou-se e logo lhe voltou o desvario. Afastou-se da velha bruscamente e num olhar de terror por alguma coisa que só ela via, o gesto largo, numa atitude trágica, foi dizendo com vertiginosa rapidez em golfadas palavras:

— A Rainha no trono... El-rei doente. Pobre enganado, pobre rei! Sorri para o Conde galego a real adúltera. Depois, para o outro. Para o outro, enviesando um olhar... Para Leonor de Gusmão... Aquela que eu fui! O Rei morreu a deitar golfadas de sangue... Ralado de ciúmes, ralado de vergonha! Pobre rei! Pobre marido! Bocas suspeitas dizem pelos recantos do paço que el-rei foi empeçonhado... Para acabar mais depressa! Estão a amortalhá-lo. Numa alcova do paço a Rainha viúva beija o Andeiro... Na sala grande, dentro do caixão, que vão levar para a igreja de S. Francisco, el-rei apodrece! Leonor de Gusmão passou... Viu, deitou um grito de horror... E de vergonha! A rainha turvou-se... Desprendeu-se dos braços do galego valido. Vingou-se a loba real! Quando foi das exéquias do rei, Leonor de Gusmão foi dada por traição ao outro.

— Leonor, ao outro, qual? — perguntou Ruy numa estranha vibração, indo lentamente para ela como alguém no aturdimento de um sonho desesperador.

— Então Gonçalves — disse-lhe sem olhar para ele, como se estivesse a responder a alguém distante.

— E tem uma vida só esse ladrão de mulheres!... — rouquejou o Vasconcelos numa alucinação de cólera — Por traição de Leonor Teles, não é assim? — perguntou-lhe.

— Adormeceram-na, levaram-na, perderam-na! — disse numa onda convulsiva de soluços — Foi mãe, fugiu, embrulhada em trapos, a pedir esmola... Uma pequenina nos braços! Mãe Lourença, a que morreu de fome naquela tamanha noite em que me acudistes!

E foi para ela, numa crise de choro, de braços abertos, o andar arrastado e trôpego de uma octogenária. Como se toda aquela visão evocadora se houvesse sumido na levada de lágrimas dos seus olhos.

— Só ele me não perdoa! O meu primeiro amor! O segundo... E o último foi o da pequenina. O último!

— Senhor cavaleiro, tende dó — suplicou a chorar aquela velha extraordinária, que se tornara caudilho das mulheres batalhadoras de Lisboa.

— Leonor! — exclamou o Vasconcelos numa tremura de pajem noviço, como cinco anos antes nas salas do paço de Apar S. Martinho — Alguém que de vós duvidou — disse-lhe, dobrando o joelho — pede agora lhe perdoeis a suspeita em que vos teve!

— Rui! Ruy! — soluçou.

— E pela santa alma da sua mãe vos jura nesta hora que sereis vingada.

Beijou-lhe a mão. Leonor agitou-se numa convulsão nervosa.

— Apartados para sempre desse caminho onde para ambos se fez noite cerrada, irmã de lúgubre destino, chorai pelo que algum dia fomos, que eu já não tenho coração que não seja para este imenso dó por vós e para um ódio imenso por ele.

— Noivo da minha alma noutro tempo que se acabou! — gemeu num arranque de saudade.

E tombou, desfalecida, nos braços da regateira.

Tinha perdido os sentidos. A tia Lourença levantou-a nos braços musculosos como se ela tivesse a leveza de uma pomba morta e levou-a para a sua camazita de farrapos no cubículo sem luz que lhe servia de quarto.

Os dois ficaram esperando.

— Vede que hora de infernal angústia esta minha hora! — disse Ruy para o tanoeiro — Como se as outras não bastassem!

— E, todavia, bendita hora para serdes misericordioso e justo — volveu-lhe Afonso Eanes, comovidamente.

— Para dar-lhe amparo de irmão, certo será. Por favor ide saber se voltou a si ou se haverá necessidade de ir chamar um físico para a ver.

O tanoeiro bateu brandamente à porta do tabique e logo lhe veio falar a tia Lourença.

— Não vos preocupeis — disse-lhe tranquilizando-o — Tem daqueles desmaios, mas de pouca dura, louvores a Deus. Volta a si e fica-se depois num sono de pesadelo, que às vezes dura horas. Foi o que lhe aconteceu agora.

— Mas voltou a si?

— Voltou, mal que a deitei. Coitadinha! Abraçou-me a chorar e logo se ficou tão adormecida, que nem parece a mesma! Dormir de doente, dormir de cansada por tanto sofrer é que é.

— Mestre Afonso Eanes — chamou Ruy.

— Dizei.

— Dai a essa benfazeja criatura — segredou-lhe — estas moedas para quanto ela carecer e for possível comprar nesta pobre cidade faminta.

E pôs-lhe na mão três dobras pé-terra (1*) e alguns reais brancos. (2*)

 

[(*) 1- Moedas cunhadas no reinado de D. Fernando. Chamavam-lhes pé-terra porque no cunho a figura do rei vinha a corpo inteiro, apeado, contrastando assim com outras, anteriores, em que o rei era figurado a cavalo. 2- Baixa moeda de estanho e cobre.]

 

— De minha casa lhe mandarei tudo o que for possível e, entretanto, procuraremos nós, para ela e para a sua protetora, outro melhor abrigo.

— Está encontrado — volveu-lhe o tanoeiro consoladoramente — Na minha casa será, se quiserdes.

— Grande coração o vosso, meu honrado amigo! — disse-lhe, abraçando-o.

O tanoeiro foi ter com Lourença e deu-lhe o dinheiro com a modéstia quase humilde de quem solicita um favor.

— Daquele nobre senhor, não é assim? — perguntou-lhe a velha com enternecido alvoroço.

— Para Leonor de Gusmão — interveio Ruy — como se fosse do honrado e glorioso Juiz do Povo. Para que não se oprima e envergonhe por esse dinheiro.

— Bendito seja, bendito! — exclamou a regateira, beijando o cunho de uma das moedas — Bendito seja por ela, que eu por mim cá irei vivendo enquanto pelos muros se não mirram de todo as ervas.

— Para ambas — retificou o jovem cavaleiro.

— E amanhã cá virei eu buscar as duas para lhes dar pousada na minha casa.

— Também muito vos agradeço por ela. Andava a ter medo de a deixar aqui ao desamparo, coitadinha! Sim, porque nossinos dando alarme para corrermos para os muros, já me não posso ficar aqui; fujo para onde os homens vão lutar e morrer, e os virotes de Castela sei eu já que entram bem nas minhas carnes de velha. Numa hora pode ser de vez.

— Tendes uma alma heroica de mulher e um coração de santa!

— Mercê das vossas palavras, meu senhor.

— Homenagem que mereceis.

— Pois se alguma coisa entendeis que mereço, rogai vós no meu nome ao Mestre que atire com a nossa gente contra os castelões para se acabar com isto de vez. E a velha Lourença lá irá com a sua ala de saias, chuça na mão, para golpear esses lobos de Castela, que estão a uivar em redor da cidade. Perdoai o ousio, e Deus vá convosco e vos pague a caridosa benfeitoria, senhor fidalgo e honrado Juiz do Povo.

E assim, neste feitio desassombrado e chão, em que transpareciam nitidamente a sua forte alma de lutadora e o seu generoso coração de mulher, se despediu daqueles dois homens de tão diversa condição, irmanados pela mesma devoção de patriotas e por igual esforço de ânimo.