A Ala dos Namorados
Capítulo XVII · EPÍLOGO
O filho de Ruy de Vasconcelos, armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique na mesquita maior de Ceuta, volvida em igreja da nossa Senhora de África, ficara ao serviço daquele glorioso filho do rei de Aljubarrota.
Já tinha amores o jovem cavaleiro; era, porém, de outra ala de namorados diferente daquela que o pai ilustrara. Podia levar no seu balsão o mesmo apaixonado moto bordado pela mãe no estandarte verde da ala juvenil de 1385, mas agora para outra campanha imensa, de gerações sucessivas, pelos mares das lendas, para um mundo de sonho.
Já tinha Portugal navegadores em busca de uma pátria maior, colaboradores de uma tamanha história, que havia de intercalar-se nos fastos do Mundo.
A Renascença convencional ainda estava distante; mas a outra, a nossa por direito de primogenitura, ia já à vela pelos mares, a bordo das caravelas e barinéis do Infante D. Henrique.
Estavam já descobertos os arquipélagos da Madeira e dos Açores, trechos preciosos de um novo Portugal.
Fr. Gonçalo Velho, cavaleiro professo de preclara estirpe, comendador do castelo de Almourol, o maior navegador daquele ciclo inicial, já tinha avistado a Terra Alta da costa africana do Ocidente, para além da qual a velha geografia fizera uma noite misteriosa de três mil anos de lendas.
Álvaro de Vasconcelos navegara com ele. Davam em navegadores os filhos dos Namorados. Não tardaria muitos anos que o sonho entrasse também na alma do povo, para que fossem embarcadiços, pilotos, cartógrafos os netos da peonagem esfarrapada de 1385.
No dia de Todos-os-Santos de 1421, um carmelita velhinho, corpo mirrado de asceta, de amarelecida alvura como um santo antigo de marfim, agonizava numa cela do mosteiro da nossa Senhora do Vencimento do Carmo. Fora poderoso e imensamente rico; repartira os bens, alheara-se dos seus títulos de nobreza, trocara a cota de armas por um escapulário, a lança por um bordão professara. Chamava-se agora Fr. Nuno de Santa Maria aquele que fora Condestável, Conde de Ourém, de Barcelos, e de Arraiolos, o mais prodigioso herói da guerra da independência, a mais extraordinária figura que tinha dado a nossa Raça (*).
[(*)No Convento do Carmo se guardava o cetro do rei de Castela tomado em 1385. O Rei oferecera-o ao Condestável e este doara-o à comunidade do seu convento por escritura, em que se preceituavam as solenidades com que o deviam mostrar ao povo. Provavelmente ficou sepultado entre as ruínas do mosteiro por ocasião do terramoto de 1755.]
Ainda chegaram a horas de ver como ele morria alguns velhos gloriosos do seu tempo. El-rei e dois Namorados de cabelos de neve: Ruy de Vasconcelos e o Magriço, já numa decrepitude que os avizinhava do túmulo.
Aquela morte pôs de luto a Nação unânime.
O povo já o tinha canonizado e chamava-lhe o Santo Condestabre. Pudera. Tinha na religião da Pátria os grandes milagres dos Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde.
Depois a sepultura mudou-se-lhe em altar; fazia-lhe o povo romagens, levava-lhe esmolas de azeite para a lâmpada, sempre acesa por cima do seu túmulo, e no dia de S. João, o dia em que ele nascera, as raparigas entravam na igreja bailando. Iam cantar de joelhos as trovas memoradoras do herói e desfolhar flores sobre a jazida daquele prodigioso taumaturgo de Aljubarrota e de Valverde de Mérida.
* * *
Conta-se que no conselho de Estado em que se propôs a empresa de Ceuta, um dos velhos conselheiros, gracejador ao modo da época, dissera para os colegas, de cabelos brancos como ele:
— Ruços de Aljubarrota, além.
Além era Ceuta.
A imensa repercussão que teve aquela palavra! Além foi depois a África de lés-a-lés, o caminho da América, o caminho da índia, o caminho do Pólo. Um velho colossal, outro ruço, Albuquerque repetiu aquele épico além, e Portugal foi dar consigo aos mares da China e às costas ridentes do Nippon.
Daquelas letras se fez o moto da mais gloriosa Nação pequena que teve a Renascença, e em voos de águia o foi repetindo a alma portuguesa até cansar.
Se nós ainda o soubéssemos dizer na ânsia de outro sonho mais sereno e fecundamente modesto! Além, para as culminações de uma civilização maior do que a nossa; além para darmos a este velho país de oitocentos anos, nós todos, ala moderna de outros ideais, namorados de outros amores, um poder moral e uma honesta prosperidade, que fossem o suave realce daquele espantoso passado!
Do amor e do sonho, poesia suprema da nossa Raça, veio aquele Portugal que parece um mito remotíssimo, tão extraordinário foi! Nem houve ainda grande empreendimento humano que não nascesse de um sonho, não desses que se aviventam de quimeras e subitamente se desfazem como as miragens; mas das outras radiosas crisálidas donde rompem, voando, os mais belos destinos dos povos.
O que fomos é incentivo de sobra para o que podemos e devemos ser. Baixas e perdidas nacionalidades as que não trazem na alma o culto de algum ideal entre os dourados nimbos de um sonho.
A lâmpada que fulgiu sobre o túmulo do Condestável foi apagada muito antes que as convulsões de um terramoto derruíssem as ogivas da nossa Senhora do Carmo.
Mandou-as apagar um dos Filipes de Espanha. Portugal naufragava no Mundo e tinha caído exangue num sertão esbraseado de Marrocos.
Pareceu ao rei estrangeiro que naquela chamazita devota, em honra do Santo de Aljubarrota., se apagaria também a alma da Nação.
Tardio desforço aquele e profunda cegueira de homem!
Sobre um altar de ouro, inacessível aos déspotas, uma chama ressurgidora, tamanha que ainda hoje ilumina oitocentos anos de história, acalentava o coração da Pátria semimorta, e tanto calor lhe deu, que a pôs de pé para novos alentos.
Altar feito de um poema que não tem igual nos fastos modernos; chama erguida na alma genial de um homem que, pelo amor à sua terra, foi o maior Português de todos os tempos.
Era o santo dos Lusíadas, canonizado pela Nação como o outro de Aljubarrota.
Sonhadores e cavaleiros, um e outro; mas da imensa Ala dos Namorados que esta terra tem tido, de mais intensos amores e o que mais milagre fez no Mundo, porque dia a dia ele sozinho nos ressurge glorificado, foi o outro, o poeta, o orago dos Lusíadas.
FIM
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António de Campos Júnior