A Ala dos Namorados
Capítulo II · Drama Antigo
Em Santo Elói, o cavaleiro e o monge pararam em frente do portão de um velho palácio brasonado.
— Tio Mendo, ides ver que alvoroço fará a minha querida mãe.
— Por mim então, nem que fosse num sonho me poderia esperar!
— Tal como a mim me sucedeu no Porto, quando lá fostes dar, ao fim de tantos anos de trabalhos.
— Tantos! Olha, faz amanhã doze anos que eu me parti daqui com o coração despedaçado e a alma cheia de luto.
— Todos julgavam que por lá tinhas morrido!
— Às vezes nem sequer pode morrer quem não quer fazer a Deus a ofensa de se matar. Histórias tristes e longas. Bate lá e arranja modo para que a tua mãe não fique mais doente com esta surpresa da minha vinda.
— Nem ela conta comigo. Mas descansai, tio Mendo, que eu acautelarei o nosso aio e as criadas para que lhe não deem a notícia de repente.
Bateu serenamente com a grande aldrava de bronze do portão. Os dois escudeiros tinham parado a uma dezena de passos.
— Teria sido melhor vir mais cedo — disse o peregrino.
— Bem o queria eu, mas com as informações que tive de dar ao Mestre e depois naquela demorada conversa com o Arcebispo, acerca das coisas do Norte, foi-se passando uma grande parte da noite.
— Podíamos vir cá de manhã.
— Vós preciseis de repouso. De manhã haverá de ajudar na entrada das naus e galés, sabe Deus com que longos e arriscados trabalhos, e ficar-me-ia o remorso de estar em Lisboa por tão demoradas horas sem vir ver a minha mãe.
— Dizes bem, Ruy. Tardam em abrir!
— Bato outra vez.
Deu três fortes marteladas e então, poucos minutos passados, assomou ao postigo do portão a cara engelhada de um velho.
— Quem bate, e a que vindes? — perguntou.
— Meu querido Gonçalo, sou eu.
— Santa Maria! — exclamou o velho.
— Não te espantes tanto, homem de Deus, e vem depressa. A minha mãe como está?
— Um pouco melhor dos seus achaques, senhor meu.
— Louvores a Deus! Mas não faças ruído para que se sobressalte!
O Gonçalo Vasques abriu com penoso esforço a pesada porta de carvalho com chaparia de ferro.
— Santa noite, meu querido senhor — saudou, muito dobrado.
— Boa noite, meu velho. Porque foste tu a vir abrir o portão?
— O jovem do portão está doente, e aos outros não há ruído que os acorde. Mas eu ainda não estou em mim, meu querido amo e senhor! A grande alegria que vai ter a senhora D. Dulce! Andava já raladinha de receios e de saudades por vós!
— Pois sim, meu velho, mas sem alvoroto haveis de ir acordar a sua aia, para que lhe dê aviso da minha chegada e lhe diga que ao romper da alvorada irei beijar-lhe a mão.
De olhos pasmados no peregrino, o Gonçalo Vasques levantou de cima do banco antigo de cedro o lampião de aros de ferro e vidros corados, que ali pousara para abrir o portão, e indicou aos dois escudeiros os brandões metidos em argolões de bronze, na extrema do vestíbulo, a um outro lado da larga escadaria.
— Vinde acendê-los para acompanhardes o nosso amo.
Cada um dos escudeiros trouxe uma tocha que acendeu um lampião.
Entretanto, o velho Gonçalo não tirava os olhos do peregrino, mirando-o de alto a baixo com uma grande expressão de espanto e de supersticiosa veneração. Como poderiam ter entrado na cidade, cercada por terra e mar, o jovem cavaleiro, seu amo, e aquele peregrino de longos cabelos e grandes barbas de neve?! E porque o trazia consigo seu amo Ruy de Vasconcelos? Era isto o que ele a si próprio perguntava, atónito.
Mendo percebeu-lhe a estranheza e aproximou-se dele lentamente, depois de ter observado que ninguém mais poderia ouvi-los, pois os escudeiros se tinham afastado.
— Nem podeis sonhar sequer, Gonçalo Vasques — disse-lhe baixo, com uma grande expressão de tristeza, pondo-lhe a mão no ombro, afetuosamente — que velho é este de tamanha grandeza para vós!
— Senhor, peregrino dos Santos Lugares me parece que sois, mas não me diz a memória que eu algum dia vos tivesse visto!
— Desde jovem, por largos anos, Gonçalo Vasques. Em todos os dias e em cada hora me víeis. Mas tão mudado me trazem as mágoas e os trabalhos, que nem já me podeis conhecer e mais velho pareço do que sou!
— Pela voz me estais a lembrar alguém, a quem muito queria e venerava e daqui fugiu infortunado, fidalgo e senhor com quem me criei! Mas engano certo será dos meus ouvidos e do meu coração de velho! Passaram muitos anos, senhor, que ele se foi! Depois aqui se contou um dia que tinha morrido e houve luto nesta casa! Eu creio que os mortos não voltam.
— Quer Deus às vezes que alguns voltem. De uns sei eu que voltaram, Gonçalo Vasques.
Numa tremura de comoção, o septuagenário pôs nele um olhar investigador, cheio de enternecido interesse.
— Pelo tanto que os ficaram a chorar e pela tamanha saudade que deixaram, de alguns sei eu que deviam de voltar, porém nunca mais ninguém os viu, meu senhor!
— Pois ide avisar a aia da vossa ama e lá em cima eu vos contarei depois o caso de um que voltou — disse-lhe o peregrino, comovidamente.
Em maior tremura, num alvoroço de dúvida, o Gonçalo Vasques tomou o lampião e volveu-lhe em voz rouqueiante:
— Vou, cá vou, e será como dissestes.
Foi para a escada com as pernas a vergarem-se-lhe e o coração a bater-lhe. Doidamente como se quisesse fugir-lhe do peito.
— Pela voz parece-se um pouco!— ia dizendo consigo — Talvez o não tivesse levado a morte. Já tem havido casos assim, consoante dizem os contos antigos. Estou em crer que é ele! Meu conhecido desde novo, por muitos anos, que outro poderia ser?
Entretanto, muito inclinado para o tio, Ruy dizia-lhe quase em segredo:
— Já adivinhou quem sois, o pobre do Gonçalo Vasques! Olhai como as pernas se lhe vergam a tremer por aquela escada acima.
* * *
Tio e sobrinho tinham entrado para a sala de armas, sala alterosa e vasta, de altas janelas de ogiva com vitrais flamantes. As paredes adornadas de soberbos troféus e panóplias antigas.
Poucos minutos volvidos, o Gonçalo Vasques entrava.
— E então? — perguntou-lhe Ruy de Vasconcelos.
— A criaturinha ergueu-se toda cheia de pasmo e lá foi a tremelicar para os aposentos de dormir da senhora D. Dulce.
— Muito bem.
— Agora escuta, Gonçalo Vasques — disse-lhe o peregrino, aproximando-se comovidamente — Aquele infortunado que há muitos anos foi-se embora, é dos mortos que voltam, e aqui o tens de braços abertos para ti, meu velho.
— Jesus da minha alma, que mo estava a adivinhar o coração! — exclamou com uma neblina de lágrimas na voz e no olhar — O meu querido senhor Mendo Rodrigues, tão amigo e meu protetor, tão grande exemplo de cavaleiros!
— E ainda maior exemplo de desventurados!
— Bendito Deus, ainda que tudo isto não se passasse de um sonho! Deixai que vos beije as mãos! — soluçou, a dobrar os joelhos.
— Velho, de pé, os teus cabelos brancos estão a par dos meus; peito a peito para que os nossos corações se escutem, e nos meus braços, como há cinquenta e três anos tu me erguias nos teus, amigo lealíssimo dos mais devotados que eu tive.
Abraçaram-se comovidos.
— Senhor Ruy de Vasconcelos, meu honrado senhor e amo — disse da porta Marta Vicente, a aia de D. Dulce.
— Saudações, minha boa Marta.
— Bons olhos vos vejam e boa fortuna venha convosco, meu senhor!
— A minha mãe?
— Dela vos trago recado para a irdes ver sem demora aos seus aposentos de dormir. Senhor, está num alvoroço com a boa noticia que lhe dei!
— Pois ide lá dizer-lhe que não tardo um credo em lhe ir receber a bênção.
— Eu vou, meu senhor — disse, olhando insistente, numa grande expressão de estranheza, para o velho peregrino.
E assim que ela se retirou, Ruy disse para o tio:
— Ficai vós aqui, tio e meu senhor, se tal vos apraz.
— Fico, sim. Aqui me acompanhará o nosso Gonçalo Vasques.
— Eu irei dispondo o coração da vossa irmã para tamanha surpresa.
— Deste mal-aventurado morto que voltou — interrompeu Mendo Rodrigues, sempre naquele profundo tom de tristeza que se tornara o timbre de mágoa imutável da sua voz.
* * *
— Gonçalo Vasques, amigo, senta-te.
— Senhor, diante de vós!
— Neste escabelo (tipo de banco), ao pé de mim.
Puxou-o para si brandamente e sentou-se ao lado dele.
— Não bastariam noites inteiras, grandes como noites de Dezembro, para eu te contar os longos anos que sofri. Há de isto ir a pouco e pouco, se a vida me chegar para tanto. Agora o que mais importa é falar desta pobre terra de Portugal, em tamanho perigo de se perder, Gonçalo Vasques!
— E, a bem dizer, por causa da mesma criatura que a vós vos perdeu, meu senhor!
— A rainha comborça!(concubina) — rouquejou Mendo Rodrigues, erguendo-se de repente, as rugas mais cavadas no rosto, a palidez mais lúgubre, os lábios numa contração violenta, o olhar num súbito relampejar de cóleras — Há seis meses me disseram em Inglaterra que, de dia para dia, se tornara mais vil essa loba real, a ladrar amores com um cachorro galego! Contava-se que, a poder de ciúmes, matara o marido, como a poder de ignomínias infamara o trono, vergonha e afronta de todas as rainhas, vergonha e afronta das piores esposas, ralé degradante das ínfimas bonejas!
— Senhor meu, acalmai-vos por quem sois! — rogou-lhe.
— E pelo que sou — respondeu-lhe, moderando-se — Tens razão, Gonçalo Vasques. Sete anos a arrastar-me na humildade destas vestes, a esmagar o coração contra o meu próprio passado, a pedir a Deus que me levasse ou de tudo me fizesse esquecido, e nem a morte me quis, nem o coração se esqueceu! Não mereci que Deus me ouvisse, e ainda há tempestades de ódio e de cólera neste Mar Morto em que a minha alma naufragou! Em velho, procurarei ser calmo — rouquejou, sentando-se outra vez ao lado dele — Vai-me contando o que sabes desta nossa terra, Gonçalo Vasques. Em Inglaterra só me souberam dizer umas coisas incompletas e mal compreendidas. Anteriormente, em Tunes, onde fui cativo e remador de galés, em Alexandria onde me traficaram como escravo e na Terra Santa onde vivi de esmolas, ninguém sabia e ninguém dizia nada desta nossa terra de Portugal!
— O que vós passastes, senhor Mendo Rodrigues!
— Contos longos de infernal amargura guardo-os para as longas e tormentosas noites de Inverno, se quiser Deus que eu lá chegue. Depois daquela noite de desgraça em que me fui daqui, manchado de sangue e louco de desespero, aquela horrenda noite de Outubro de 1371, que nunca mais me saiu da alma, cheia de negrumes, laivada de sangue...
— Por causa daquela treda mulher de encantamentos, que foi rainha caluniosa dos Portugueses!
— No meu tempo era somente uma adúltera de enfeitiçadora juventude e perversa desvergonha, a quem el-rei doidamente se avassalara.
— Aquele senhor rei D. Fernando, a quem Deus perdoe os tamanhos males que trouxe à nossa terra com tais desonestos amores, que até para ele foram de morte!
— E quem sabe ainda se também para Portugal!
— É verdade, senhor, quem sabe?!
— Mas vai-me tu desafogadamente, como te lembrarem, as coisas de mais importância, que se passaram aqui. De Inglaterra embarquei para o Porto, muito enfermo e em tal desfalecimento de ânimo lá cheguei, tão devorado de febres, que mal falei do tempo ido com o meu sobrinho Ruy. Nem com ele desafogaria como contigo, meu velho e leal confidente. Guerras sei eu que umas poucas tem havido de ruína e de vergonha nesta desgraçada terra, desde aquela em que eu entrei como tu sabes.
— A do ano de 1369 — disse Gonçalo Vasques — E só essa não foi por causa daquela mulher de tão lindo rosto, que parecia uma santa, e de tão negregado coração, que nem as feras queriam ser o que ela foi! Aquela de 69 anos não trouxe grandes males.
— Foi uma guerra por ambição de el-rei, que meteu Portugal na Liga dos reinos de Aragão e de Navarra, contra o rei Henrique II de Castela, das Astúrias, de Galiza e Leão.
— E nessa Liga entrava também o rei mouro de Granada, segundo ouvi! Um rei mouro!
— Entrava. Dessa não nos vieram grandes prejuízos, bem o sabes. Invadimos a Galiza e tomámos a Corunha. É verdade que também os Castelhanos entraram depois por Trás-os-Montes e pelo Minho e nos tomaram Bragança e Braga e cercaram Guimarães. Mas por ali se ficaram, e só no ano seguinte se atreveram a cercar a nossa Cidade Rodrigo, com o mesmo nulo resultado com que os nossos lhe foram bloquear o rio Guadalquivir, para render Sevilha.
— As outras que se lhe seguiram foram cem vezes piores!
— Daquela só veio um grande mal, porque de além Minho trouxe el-rei, como seu parcial, a esse cão Galego que se chamava João Fernandes Andeiro.
— Que foi a sua e a nossa vergonha por aqueles amores de infâmia...
— Com a loba real de cabelos fulvos e olhai enfeitiçador, que era Leonor Teles. Quando eu parti, estava el-rei já com a intenção de quebrar o ajuste do seu casamento com a infanta de Castela, pois já o tinha avassalado a formosa esposa de João Lourenço da Cunha (*).
[(*) Tinha casado com D. Leonor Teles em 1368.]
— Dali veio então a causa de todas as guerras que nos têm afligido! El-rei queria à força casar com ela, sem lhe importar que fosse casada e tivesse o marido vivo. O povo soube do desvario e amotinou-se. Foi então que el-rei fugiu com ela e lá se foi casar para os lados do Porto, em Leça do Bailio; pouco depois do vosso tamanho infortúnio. Mulher de dois maridos! Mas os reis podem muito, e o Santo Padre lá deu por desfeito o casamento com o outro, que fugiu para Castela. Ouvi dizer que por lá andava na corte, com tal descaramento e escárnio da sua própria afronta, que trazia na gorra, em guisa de plumas, duas pontas de ouro.
— Que abjeto homem e que pervertidos tempos estes nossos!
— O povo sentiu pelo rei a vergonha que ele não sentia! Alvorotou-se Lisboa; mas o que podia o pobre povo, se tantas pessoas da nobreza e tantos prelados se conformavam com aquela rainha sem vergonha? Os mais audazes foram esganados pelas justiças de el-rei e, na cabeça de todos eles, um tal Fernão Vasques, alfaiate que valia tanto como se fosse um destemido cavaleiro! A esse o vi eu a espernear na forca, depois de lhe terem decepado as mãos. (*)
[(*) Os tumultos do povo de Lisboa, encorajados pelo alfaiate Fernão Vasques, foram os primeiros protestos de uma revoltas popular pelo pudor contra Leonor Teles.]
— Ouvi em Inglaterra que o rei Henrique de Castela muito se ofendera pela quebra do ajuste de casamento com a infanta sua filha, que o senhor rei D. Fernando trocara por Leonor Teles...
— A Flor de Altura como por cá lhe chamavam na corte, meu senhor.
— Flor de perdição para tantos homens e para esta terra é que ela o foi! Flor que entontecia pelo muito que tinha de bela, e matava nos seus espinhos como se fossem línguas venenosas de serpentes! Em Bristol me contaram que o rei Henrique de Castela declarou guerra ao nosso por aquela ofensa, e então se aliou D. Fernando com o rei de Inglaterra e veio cá o Conde de Cambridge.
— Dessa aliança de reis nada vos sei dizer, meu senhor; mas o que eu sei é que aí chegaram muitos ingleses, gente dura e feroz para combater e dizem que ainda pior para destruir e rapinar, se eram certas as queixas que deles fazia o povo. Anos terríveis de desgraça para a nossa terra! Nem a pior peste, nem o mais horroroso terramoto, nos podiam trazer mais ruínas, mais lágrimas, tamanha perda de vidas, tal medonha levada de sangue!
E Gonçalo Vasques levantou-se numa atitude de desespero.
— Vieram os Castelhanos pela Beira dentro, tomaram e destruíram cidades, vilas, aldeias! Queimadas, em cinzas, tudo raso até chegarem a Coimbra! E foi nesse triste ano de 1372 que a loba real, como vós lhe chamais, teve uma filha, a infanta D. Beatriz, causa desta guerra de agora e, ao cabo de contas, ainda uma causa que vem da maldita mãe que tinha, Deus me perdoe!
— Eu sei. É a esposa do rei D. João I de Castela.
— Esposa de doze anos, meu senhor; uma criança com quem os Castelhanos andam a jogar contra nós! A pobrezinha pode lá entender esses enredos em que a meteram? Ainda ela andava no berço e já lhe andavam a tratar do casamento! Uns poucos de casamentos, que se iam ajustando e desmanchando enquanto a infantazinha ia crescendo! Nunca se tinha visto coisa assim! Depois de lhe terem arranjado dois noivos diferentes de Castela, chegaram a celebrar-lhe as bodas com o filho de um duque inglês, que aí veio. E ela com nove anos! Depois, ainda outro noivo de Castela, porque o noivado com o Inglês desfez-se, e por fim, o ano passado, a foram levar à fronteira, pobre menina de onze anos, para que fosse esposa do rei viúvo de Castela.
— E para que lhe servisse de joguete político, está-se a perceber, para o rei castelhano reclamar a coroa, a bandeira, as tradições, o brasão, o próprio nome desta nossa terra, com tanto amor e tamanho esforço erguida no Mundo! Mas dá-me ideia de que foi a invasão de 1372 (*). Os Castelhanos tinham chegado a Coimbra, disseste.
— E de lá vieram sobre Lisboa, que não tinha então os muros e torres que se fizeram, três anos depois.
— Isso já eu notei. As muralhas que eu conhecia faziam a cidade mais pequena e muito a confrangiam em volta do monte do Castelo.
— Pois a nova cerca quem a ergueu foram os braços do povo. Fazei ideia, senhor, que, há onze anos, os Castelhanos do rei Henrique puderam ter o seu arraial no alto de S. Francisco e a cerca nova vai entestar agora com o monte de Santa Catarina! O terror que foi aquele cerco de 73! Deitaram fogo às casas e assolaram tudo à volta da cidade, aqueles excomungados de Castela! Mas, ao menos, não os deixaram entrar cá dentro. No ano de 1381 houve outra invasão e a perda da nossa armada nos mares de Castela! Pudera! Ia a comanda-la um irmão da loba, para que todas as nossas desgraças proviessem dela! Logo no ano seguinte se fizeram as pazes com Castela e ainda foi pior que as fizessem! O rei castelhano tinha ficado viúvo, e logo a comborça real se lembrou de lhe dar a filha em casamento, para ficar mais segura no trono. E lá foi levar-lha a Elvas. Aquela seria a herdeira da coroa dos nossos reis, e como tal se disse que lhe juraram lealdade os fidalgos de Portugal e Castela, para o caso de el-rei não ter filho varão legítimo que lha herdasse.
— Não tinha?
— Teve um... Tinha nascido no paço, no ano anterior. Era filho varão da rainha D. Leonor Teles.
— Percebo.
— Contou-se que el-rei o tinha esganado à nascença! Deus me perdoe se assim não foi!
— Havia de ter sido, Gonçalo Vasques. O mísero rei devia andar ralado de ciúmes, cheio de infernais desesperos aquele seu coração cobarde.
— Meio morto e de dela escravo é que ele andava, meu senhor! Quem reinava era ela, e a quem tinha amor era o Galego João Fernandes Andeiro, feito Conde de Ourém, por graça de el-rei.
— Miséria de rei! Podia fazer da coroa a insígnia de escárnio que João Lourenço fizera da gorra! Nas suas horas de perfídia, a comborça arrancar-lhe-ia dos ombros o manto do pai, o rei justiceiro, do avô, o bravo do Salado, para lho transmudar em almadraque do conde Galego! Cobarde para ser rei, cobarde de mais até para ser homem! Viu alguém que fosse rebater os invasores de Castela à frente da sua hoste, como os reis de quem provinha?
— Ninguém, senhor! Na guerra de 73 meteu-se em Santarém, todo perdido de amores, pela sua enfeitiçadora, e não houve súplicas que o tirassem de lá! Lisboa e o Reino que chorassem os seus males e se defendessem como pudessem. Até se conta que a Rainha se regozijava com as tamanhas desventuras que Lisboa estava a sofrer!
— E porque essa inaudita perversidade?!
— Porque Lisboa tivera vergonha pelo rei e fiz uma revolta contra aquele casamento.
— E o poltrão a tudo se dobrava! Tinha dentro em si um inferno de zelos, sentia-se enterrar numa sepultura de lama, e só a coragem lhe chegou para estrangular uma criança! Fosse como qualquer homem honroso, e tinha apunhalado a comborça mesmo nos degraus do trono.
— Tal como o irmão bastardo, o senhor infante D. João, matou a irmã da loba.
— Maria Teles! Mas essa, menos linda que a irmã, era honesta como ela nunca foi!
— Senhor, pois por causa da irmã foi que o marido lhe deu morte cruel e traiçoeira. A loba receava que D. Maria, casada com o bastardo de um rei, viesse ainda a fazer-lhe sombra, e levantou-lhe a calúnia de esposa infiel.
— Para desse modo a irmanar consigo.
— Armou-lhe a intriga, teve quem fosse meter a calúnia nos ouvidos do marido de D. Maria Teles, e D. João lá foi a Coimbra matá-la como um animal!
Ouvi que lhe retalhara a golpes de adaga aquele seu corpo de neve! — Tempos torpes estes nossos! Da morte do Conde Andeiro soube eu na cidade de Londres.
— Tinha de ser, meu senhor. Aquilo era vergonha de fazer corar um judeu! E a cadela coroada cada vez com menos vergonha! Não seria injúria nenhuma se lhe prendessem na coroa o véu açafroado daquelas que não podem viver entre gente honesta (*).
[(*) Era o véu que naquele tempo tinham obrigação de usar as mulheres perdidas, para que não as confundissem com as outras.]
— O Mestre de Avis matou o Galego com um golpe de adaga. Foi o que eu ouvi em Inglaterra e depois no Porto.
— Deu-lhe o golpe depois de o ter levado para o vão de uma janela do paço. Mas quem acabou de matar o Andeiro foi um fidalgo de nome Ruy Pereira, homem de ânimo destemido.
— Conheço-o. Vem na armada do Porto.
— Foi a 6 de Dezembro do ano passado que o mataram. El-rei D. Fernando tinha falecido a 22 de Outubro, e a 22 de Novembro, tinham sido as suas exéquias.
— Boa memória têm os teus setenta e quatro anos, Gonçalo Vasques!
— Senhor, o coração ajudou-a a não esquecer estas datas, que lembram desgraças da nossa pobre terra de Portugal! A morte do mísero rei pôs o povo em grande mortificação. Logo se percebia que o rei castelhano havia de vir pela herança da coroa. Nem ele casou para outro fim com aquela infanta de onze anos. E com a coroa o Reino. O povo bem sabia que dos fidalgos havia alguns do lado da rainha comborça e muitos do lado da infantazinha, rainha de Castela.
— A herança maior era a de Portugal para os Portugueses. A maior e a única legítima herança.
— Essa, meu senhor, só teria poucos fidalgos que a defendessem, embora alguns valessem por muitos. Ai de Portugal, se não tivesse por si a alma e o braço do povo! O Mestre matou o Andeiro, mas quem fez a revolução foi o povo. Aqui em Lisboa e no Porto. As duas melhores lanças que tem Portugal são a do Mestre e a de um jovem cavaleiro que lá anda a lutar pelas terras do Alentejo e já venceu uma batalha aos Castelhanos.
— Um bastardo do Prior da Ordem dos Hospitaleiros, um rapaz de assombroso valor, Nuno Álvares Pereira.
— Senhor, esse mesmo é.
— Fala-se dele em Inglaterra, e muito hoje a ele se referiu o teu amo Ruy.
— Vale esse mais, todos o dizem, que três dobros dos outros que são pela rainha criança, esposa do rei castelhano. Senhor Mendo Rodrigues, perdoai-me o desafogo, mas até esses dois, o Mestre e Nuno Álvares, são como se fossem do povo, e o Mestre do povo descende também.
— O Mestre por ser filho de Teresa Lourenço; bem sei.
— E Nuno Álvares, bastardo como ele, porque a sua mãe Iria Gonçalves, ao que me contaram, se não é bem da gente humilde, muito mais está chegada ao povo que à ilustre nobreza destes reinos. Iria Gonçalves foi cuvilheira(*) da senhora infanta, rainha de Castela, ainda esta era pequenina.
[(*) Cuvilheira tinha ali o significado de camareira-menor do paço. Na aceção geral, o termo indicava uma criada grave de casa nobre. O termo mais tarde passou a designar a mulher intermediária de amores ilícitos ou dada a alcovitices.]
— Senhor, perdoai! Dais-me confiança de amigo e eu falo-vos com o coração nas mãos. Regala-me ver que os da minha semelhança também servem para opor os embargos do seu sangue a essa herança, que seria a morte de Portugal.
— Dizes bem, Gonçalo Vasques. Honrado esse teu orgulho, meu velho! — volveu-lhe o fidalgo, abraçando aquele septuagenário, que o apertava a si numa tremura de comoção.
* * *
— Mendo! Meu desventurado irmão! — dissera da porta da sala uma dama de singular palidez.
E foi para o peregrino de braços abertos, o peito num arquejar violento, como se o agitassem ondas de soluços.
— Dulce! — rouquejou Mendo, recebendo-a nos braços — Minha irmã! — disse, beijando-a, a tremer, os olhos afogueados em lágrimas — Aqui tens o espantoso desgraçado que supunhas morto.
— Ouviu-me Nossa Senhora, meu querido Mendo! O meu coração pedia-lhe por ti, mesmo quando todos te davam por morto. Eu não podia desmentir o boato, mas olha que trazia comigo uma voz a dizer-me bem que podia Nossa Senhora fazer-me o milagre de trazer-te. E ouviu-me e trouxe-te, bendita seja a sua infinita misericórdia!
— Merecias tu que te ouvisse; eu não, que tantas vezes, sem remédio, lhe pedi a morte.
— Que envelhecido vens, meu pobre irmão! Mas eu já sei o muito que padeceste. O Ruy contou-me tudo.
— O pouquíssimo que eu tive ocasião de resumir-lhe, minha Dulce.
— Mas voltaste, mas tenho-te aqui. Bendita noite!
E sentou-se no escabelo de espalda, extenuada, a respirar a custo.
— Senta-te aqui ao pé de mim. Eu por qualquer coisa me afadigo. Aqui, sim?
— Contaram-me que tens estado enferma, que tens padecido muito — disse-lhe o irmão afetuosamente, sentando-se ao pé dela.
— O mal maior é do coração, assim como se muitos punhais o tivessem ferido e ficassem cravados nele, para que nunca mais as feridas fechassem.
Cansou, respirava oprimida.
— Eu sei, Dulce. Por mim também, pela minha desgraça, e pelo meu crime, a dor, que veio agravar a tua viuvez. A que eu te causei, pior ainda, porque foi também de vergonha.
— Não, não! Não se fala agora dessas coisas mortificadoras.
— Sim, tranquiliza-te.
— Voltaste, temos-te aqui; eis o milagre consolador.
— Mãe e senhora — disse-lhe Ruy, que estivera a falar baixo com Gonçalo Vasques.
— Diz.
— Vai levando-se a madrugada e o meu tio e senhor há de precisar de repouso.
— Ah! Certamente — confirmou Dulce.
— Não te preocupes por mim.
— Tivemo-lo no Porto sempre a arder em febre, e em toda a viagem quase não pôde levantar cabeça! — disse Ruy para a mãe.
— Senti alma nova quando avistei a serra de Sintra; enrijei com os ares de Lisboa.
— Mãe, chorou como uma criança quando a terra se avistou!
— Saudades de doze anos. Aqui nasci, aqui me criei, e só daqui me levou um vento louco de desgraça. Já que a morte me não queria para si em terras estranhas, aqui a viria esperar, nesta linda terra, à qual tanto queria e quero, mal afortunada terra, minha segunda mãe, de tanta desventura como eu!
— Mendo, e quem sabe ainda para que maiores infortúnios?! — disse, relanceando um olhar de amargura para o filho — Se Deus a desamparar e os bons homens não bastarem para lhe acudir!
Ouviram-se os sinos próximos.
— Já se ouve o toque das matinas! — notou Ruy — Uma cidade alvoroçada madruga mais cedo!
Foi a uma das janelas, destrancou-lhe as portas e entreabriu um pouco a vidraça, de cores vivas e pinturas de batalhas, por maneira a evitar que a aragem fresca da madrugada pudesse fazer mal à mãe.
— Serão três horas, se forem. Ainda é luar como de dia! Anda o povo impaciente: Está a tocar o sino grande da Sé.
Fechou a janela. D. Dulce erguera-se, e todos de pé, de mãos postas, rezaram baixo o avé maria matinal.
Ruy foi beijar a mão à mãe.
— Filho, Nossa Senhora esteja contigo — disse, dando-lhe a bênção e beijando-lhe a face carinhosamente.
— E convosco, mãe e senhora minha.
— Tio, a vossa bênção — pediu-lhe, beijando-lhe a mão.
— Que o Deus dos oprimidos e da suprema justiça te ampare e seja pela sua glória, cavaleiro fidalgo, que tanto esforço deve ao teu nome e tanto tens de pagar à tua terra pelo teu foro de homem leal e para resgate das tamanhas desgraças que outros causaram. Abençoou-o com uma grande solenidade religiosa e depois abraçou-o.
— Ruy, eu sei que tens sido dos mais esforçados como és dos mais jovens entre quantos são a derradeira esperança de Portugal, homens de prole (*) ou homens da plebe, que de uns e outros, da alma e do sangue de todos, carece agora Portugal. Bem hajas, cavaleiro. Bendita seja a tua espada; bendito seja o teu sangue!
[(*) Prole, ou simplesmente prol, como os antigos escreviam, designando ascendência nobre.]
Numa comoção profunda, Ruy tomou-lhe as mãos febrilmente e beijou-lhas.
— Ama e senhora minha — disse Gonçalo Vasques para D. Dulce, dobrando-se a tremer — glorioso dia seja este que vai começar, para todos os vossos, para todos os nossos.
— Deus vos escute, Gonçalo Vasques.
Apareceu à porta um escudeiro.
— Senhor cavaleiro — disse curvando-se.
— Que me quereis?
— Chegou recado do Mestre para lhe irdes falar ao paço de Apar S. Martinho, antes que rompa a manhã.
— Em breve estarei com sua senhoria. Quem trouxe o recado?
— O próprio Juiz do Povo.
— Então é o meu afilhado Afonso Eanes — disse D. Dulce — E não o mandaram entrar?! — disse para o escudeiro.
— Senhora, ficou à espera de resposta na sala baixa do recebimento.
— Pois que suba. Ruy, vai tu lá buscá-lo.
— Da melhor vontade, mãe e senhora minha.
E saiu com o escudeiro.
— Quem vem a ser esse Afonso Eanes? — perguntou Mendo.
— Um honrado tanoeiro, de quem certamente já te esqueceste. Aqui veio muitas vezes, e dois anos depois de saíres do reino casou-se e fui eu madrinha da noiva, uma honesta rapariga que se criara em casa da nossa tia D. Úrsula, que Deus tenha consigo.
— Não me recordo. É ele então o Juiz do Povo?
— É. E o mais que ele tem sido dizei-o vós, Gonçalo Vasques.
— Homem de espada, aquele mestre tanoeiro, homem para saber falar ao Povo e ir adiante dele! — informou o velho com o seu adorável desvanecimento de plebeu — Quando foi a reunião do povo e de alguns fidalgos no alpendre de S. Domingos, para se decidir se o senhor Mestre de Avis havia de ser ou não nomeado Regedor e Defensor do Reino, isto em Dezembro do ano passado, alguns houve que lhes puseram dúvidas; mas Afonso Eanes falou-lhes claro e forte, de mão na sua espada de mesteiral, e venceu o que ele disse e quis, e o Mestre foi nomeado. Desgostoso pelos poucos fidalgos que estavam com ele e pelos fracos meios que tinham para defender Lisboa, o Mestre chegou a querer ir para Inglaterra, ou fingiu que tal era o seu intento; mas Afonso Eanes tomou-lhe as rédeas do cavalo e disse-lhe resoluto que tal não fazia, porque o povo não queria ser de Castela e só ele devia ser o guia e o chefe do povo. Aquele é bem o Condestável do povo.
[(*)Condestável – era um título nobre. O Condestável de um reino funcionava como o seu guardião pois era dado o comando das forças armadas e atuava como o braço direito do rei.]
— Entrai, mestre Afonso Eanes — disse da porta Ruy de Vasconcelos.
— Santa madrugada — disse o Juiz do Povo, entrando enleado, ele que nas praças, à frente das turbas, ou nos alpendres de S. Domingos, falando à sua gente e aos nobres, era homem de resolução desenvolta e sem papas na língua.
Foi direito a D. Dulce e saudou-a, dobrando-se, a ponteira da sua larga espada a arranhar o ladrilho da sala.
— Madrinha e senhora da minha maior veneração! — disse-lhe.
— Muito me apraz ver-vos aqui, honrado Afonso Eanes. Vossa mulher e filha, estão bem?
— Louvores a Deus, bem, senhora minha.
— Trazeis-me então recado de urgência para o meu filho?
— O Mestre quer ouvir o vosso filho a respeito de mais umas coisas da armada que veio do Porto.
— Haverá luta?
— Senhora, talvez daqui a poucas horas.
— Deus seja por nós! — murmurou D. Dulce, num confrangimento do coração.
— Senhor Afonso Eanes, vou pôr a cota e os braçais. Será demora de instantes, e aqui voltarei depressa para ir falar ao Mestre.
Saiu. Mendo Rodrigues falava baixo com Gonçalo Vasques ao pé de um grande troféu de armas, que tinham sido glorificadas na batalha do Salado (*).
[(*) Batalha travada nas margens do Rio Salado, entre a Penha del Ciervo e Tarifa nos fins de Outubro de 1340. O rei de Castela pedira a el-rei D. Afonso IV de Portugal, seu sogro, que o fosse auxiliar contra o poder formidável do rmarroquino, Abul-Hassan, que viera à Espanha, com um exército enorme, e tinha por aliado o poderoso rei mouro de Granada, Aben-Hamed-Jusuf. O rei de Portugal entrou em Castela com o seu punhado de portugueses e naquela colossal batalha, contra quatrocentos e quarenta mil mouros da África e da Espanha, foi D. Afonso IV que desbaratou o rei de Granada, antes mesmo que o monarca de Castela houvesse vencido o de Marrocos. Foi uma das maiores batalhas da Idade Média.]
— Afilhado — dizia D. Dulce a meia voz para o famoso caudilho da plebe — o meu dever de mulher Portuguesa, devoção e dever, não me consente mágoas e receios diante daquele filho, que é toda a minha vida; pertence à Nação o seu braço e o seu sangue; mas o meu pobre coração de mãe todo mortifica-se em temores de morte, cada vez que esse jovem temerário se afasta de mim!
— Senhora, que remédio! Matar-nos-iam Portugal, se já não houvesse quem por ele desse a vida!
— Eu sei, afilhado. Esse é o dever, maior em mim do que em outras mães, a quem não couberam os encargos de família que eu tenho. O avô de Ruy morreu no Salado; o pai, bem o sabeis, há três anos o mataram os Castelhanos na desastrosa batalha naval de Saltes. Mas os meus receios de mãe nunca diante dele os disse. Andam comigo emudecidos. Quando daqui saiu á armada para socorrer o Porto e voltar de lá mais forte de gente e de navios, Ruy ofereceu-se para ir nela, como também sabeis, no intuito de trazer de lá a gente armada da nossa casa e terras de Riba-Douro. Muito louvei o fidalgo-cavaleiro por tal resolução, mas Deus me livre que ele saiba as muitas lágrimas que pela sua causa chorei.
— Madrinha e senhora, como não havíeis vós de proceder assim pelo vosso ilustre nome e pelo vosso sangue nobre e leal, se até as mães sem apelidos, esfarrapadas da arraia-miúda,(*) têm feito o sacrifício dos seus filhos nesta contenda contra quem nos quer levar a coroa que era dos nossos reis e a bandeira que é de nós todos? Senhora, algumas há que têm perdido todos os seus filhos e vão com os filhos das outras para os muros e torres em guisa de peonagem, para se baterem com os de Castela!
[(*) Arraia-miúda é uma expressão ou um calão para designar a plebe, isto é, a povo comum sem representatividade.]
— Podem fazê-lo.
— Eu sei, senhora minha. Nas suas condições, os trabalhos endureceram-lhe o ânimo. Ferro que a má sorte malhou a fogo, tomou a rijeza do aço. Parece que se lhes mudam em sangue as lágrimas que tinham o direito de chorar! Há três semanas, senhora minha, morreu ao pé de mim, às Portas de Santa Catarina, com o coração trespassado por uma lança castelhana, uma pobre mãe coberta de luto. No começo do cerco mataram-lhe o marido; dois filhos morreram-lhe um mês depois a defender a torre de Álvaro Pais! Andava ralada de mágoas, roída de fome, e ainda teve ânimo para ir combater! Vós, senhora, fazeis sacrifício diferente; mas a verdade é que o fazeis em proveito da nossa causa, ocultando do vosso filho choros e receios que podiam quebrar-lhe o ânimo, e ele é dos mais valorosos e dos que mais valem entre quantos ficaram leais a Portugal.
— Muito dado a proezas e sonhos de cavalarias novelescas. Olhai o seu louco desafio ao Condestável de Castela, muito empenho em imitar o jovem Nuno Álvares, e aqui tendes porque eu sinto receios maiores do que outras mães.
— Mestre Afonso Eanes, podemos sair — disse o jovem cavaleiro, entrando de bacinete (*) emplumado, cota e braçais.
[(*) O bacinete era a parte da armadura que defendia a cabeça. Viterbo no seu Elucidário chama-lhe morrião ou chapéu de ferro. Podia ser singelo, sem viseira ou cara, ou de camal, que era a peça destinada a defender a boca, os queixos e a garganta.]
Não trazia armadura completa porque só era possível o combate a pé.
Na cidade tinham morrido de fome, tinham sido abandonados à voracidade dos mendigos, ou posto fora por falta de rações, quase todos os cavalos de luta existentes no princípio do cerco. Lançados para fora dos muros quase todos, logo depois de terem expulsado como bocas inúteis os judeus e as aventureiras de véu açafroado.
— Tendes-me à vossa disposição, senhor Ruy de Vasconcelos.
— Mãe e senhora minha — disse, aproximando-se dela para se despedir.
D. Dulce levantou-se numa tremura, que inutilmente tentava disfarçar. Afogueara-se-lhe levemente o rosto, imensamente pálido.
— Filho, que Deus te abençoe como eu, e que seja pela glória do teu nome e da nossa terra a minha bênção — disse, dando-lhe a mão a beijar.
De súbito se ouviu o som distante dos sinos tocando a rebate; D. Dulce fez-se lívida e sentou-se com um grande desfalecimento de ânimo.
Gonçalo Vasques abriu as portas da janela e levantou a cortina. Uma lufada de ar frio da madrugada apagou umas tochas, que ardiam cingidas em argolas de ferro, e encheu a sala com a repercussão confusa das vozes do povo, do tropel da peonagem, de centenas de timbres dos sinos das igrejas e dos sinos de alarme das setenta e sete torres que havia nas muralhas da cidade.
— Torva madrugada! — exclamou, agoirento, o velho aio, num relance de olhos para o céu escuramente nublado, a contrastar agora com a noite luarenta e limpa daquele domingo que acabara há apenas três horas.
— Senhora, não vos sobressalteis — dizia o tanoeiro — Isto é apenas o alarme para pôr toda a gente em armas e chamar aos muros e torres da cidade uma parte da peonagem. Convém entreter assim os sitiadores de modo a persuadi-los que vamos fazer-lhe uma sortida. Entretanto irão-se dispondo na Ribeira as forças que têm de ajudar a entrada dos nossos navios.
— Vai passando o tempo, mestre Afonso Eanes! — veio lembrar-lhe Ruy com impaciência.
— A armada não começará a entrar senão na maré da hora de terça. Senhora, Deus fique convosco — disse, despedindo-se.
— E seja por nós todos.
— Mãe e senhora, adeus!
— Filho, até quando puderes voltar.
— Uma palavra — pediu o peregrino, tomando o sobrinho de parte — Mantém o meu segredo — disse-lhe baixo — Para o Mestre e para todos serei o que já se disse que era. Um velho cavaleiro de Riba-Douro, que andou pelo Mundo em cavalarias andantes e no fim fez voto de peregrinar pelos Lugares Santos, ocultando de todos o seu nome. Aqui recomendei que não o divulguem.
— Tio e senhor, ficai descansado.
Saíram. D. Dulce dobrou-se no escabelo, a soluçar.
Magotes de homens armados passavam na rua vociferando cóleras contra os sitiadores. Atrás uma multidão de mulheres cantando esta rude trova de desafio aos traidores e aos Castelhanos:
Esta es Lisboa presada,
Miradla e deijadla,
Se quizíeredes carnero
Se quizíeredes cabrito
Qual dieron a el Obispo.
Assim de escárnio e de ameaça para os de Castela e para os de cá, era esta a canção dileta da plebe, desde os dias da revolta em que o Conde Andeiro, o vadio galego, caíra assassinado no paço do Limoeiro, e o bispo de Lisboa, um Castelhano, fora atirado de uma torre da Sé para o lajedo do adro.
O Andeiro fora golpeado a poucos passos da rainha amante, e o bispo, enrodilhado na sua batina roxa, viera cair aos pés da multidão enfurecida, que lhe descarnou às chuçadas os ossos esmigalhados e, em uivos de ódio, o levou de rastos, dilacerado, pelas ruas lamacentas da cidade, como se fosse um cão morto!
Têm destas alucinações medonhas e destas ferocidades odientas as revoltas dos povos que mais se humilharam e mais sofreram!
São as iniquidades monstruosas da sua dor e das suas vergonhas.