A Ala dos Namorados
Capítulo V · A Filha de um Traidor
Sentiram de repente vergonha até os que eram da ralé, hoste miserável de rotos e de famintos.
Em volta daquela cabeça juvenil de campeador, de altivez leonina e máscula beleza, fulgia uma auréola prestigiosa de heroísmo. Era uma figura de sonho pela sua juventude romanesca e forte e uma figura de epopeia pelo seu esforço impetuoso e nobre.
Pelos velhos contos e pelas suas trovas, o povo conhecia a lenda dos cavaleiros de aventura, a vaguearem pelo Mundo para terçar lanças pela dama dos seus amores, e às vezes até pelas quimeras da sua fantasia; nos elmos dourados plumas brancas como a espuma das ondas e plumas rubras como as papoilas dos trigais, no escudo um moto de amor e um nome de mulher, o arnês numa alvura evocadora do luar, na cruz da espada esmeraldas e rubis como nos diademas das princesas e no colo palpitante das castelãs. Eram assim os cavaleiros dos romances medievos; os da Távola Redonda e do louro rei Artur; o da lenda teutónica, maravilhosamente guiado nas águas pela plumagem branca de um cisne, aventureiro sublime em busca do Santo Graal; os que iam para as justas de amor e os que se iam para a conquista do Santo Sepulcro.
E aquele que afrontava ali a multidão dos famintos e dos supersticiosos parecia recortado dos cantares de algum rimance antigo.
— Senhoras — disse para cima — aquietai-vos, que ninguém ousará ofender-vos, porque sou eu por vós.
— Senhor — volveu Madalena comovidamente, numa tremura de voz — Nossa Senhora vos pague e abençoada seja vossa mãe na terra e no céu!
— Vinde pelo trigo, pobres de Cristo, e depois se queimará o vespeiro — gritou a padeira, assomando ao portão do quintal.
— Um roubo?! É um roubo o que vós quereis?! — interrogou torvamente Ruy de Vasconcelos encaminhando-se para a padeira — Assaltantes, dando saque, vós, gente do povo, como se fôsseis também de Castela!
— O povo tem fome, senhor cavaleiro, e que não é por Castela bem o sabeis vós — replicou a padeira — Podíamos ir bater à porta das casas ricas daqueles que ficaram leais à nossa terra; mas tal não faríamos, ainda que a fome nos comesse a nós e levasse para os covais os nossos filhos pequenos e os nossos velhos. Mas ali dentro há fartura e está lá gente vil que é contra a nossa religião e contra a nossa terra!
— Aviso-vos de que não consentirei afrontas a essas damas indefesas.
— Estou a perceber que não sabeis quem são! Olhai que estão ali alapardadas a mulher e a filha do judeu tredo que é D. Judas, e com elas, a mulher e a filha de um fidalgo que atraiçoou a nossa terra e anda com os de Castela. As do judeu hospedaram as outras.
— E qual culpa têm essas criaturas do mal que fizeram os maridos e os pais? Vejo que os mais enfurecidos contra elas sois vós, mulheres! E quantas que também são mães, quantas que também têm filhas?
A padeira adiantou-se uns passos e, de mão na ilharga, retorquiu-lhe:
— Mas não ofendemos Jesus, Senhor Nosso, e não temos tulhas de trigo; mas somos capazes de morrer por esta nossa terra, como vós, cavaleiro, e temos fome! Lembrai-vos que o Mestre mandou dar ao senhor Nuno Álvares, e bem empregados foram os bens que eram de David-o-Negro, aquele judeu de grandes riquezas que se passou para Castela, e então também o povo faminto pode tomar para si o trigo de D. Judas.
— Bem falado! Bem falado! — aplaudiram dezenas de vozes.
— Pois levai o trigo, mas, pela minha fé, que não tocareis nessas damas. Levai-lhe todo, que da minha casa virá o pão para que não acabem à míngua. E amanhã, sol fora, sem arruído e sem ameaças, aparecei à porta de D. Dulce Rodrigues de Vasconcelos, e lá se repartirá com os mais necessitados uma parte do milho e do trigo que veio das suas terras de Riba-Douro.
— Viva o jovem cavaleiro! — clamaram as mulheres.
— Levai-lhes o trigo, mas daqui nada mais levareis, que vos não consinto eu. Daqui, agora, nem os seixos da rua.
— Acudam! Socorro! Estão a arrombar a porta do jardim! — gritaram em cima as servas.
— Senhor cavaleiro, vêm para nos matar! — soluçou Madalena, debruçando-se da janela — Defendei-nos!
— Defendo, sim, com todo o esforço de que for capaz, senhora minha.
Arrancou da espada e correu para o portão do quintal.
— Senhor cavaleiro, não é preciso! — disse a padeira, tomando-lhe o passo — Bonda que eu lá vá. Vou eu, e o povo não fará mal a estas mulheres. Tende-vos aí, povo! — gritou do portão numa voz máscula, dominadora.
Depois, voltando-se para o Vasconcelos:
— Guardai a vossa espada para os de Castela, vós que sois um fidalgo leal. Guardai-a para defenderdes Lisboa e para ajudardes Portugal. Ninguém por vossa intenção fará mal a essas mulheres: mas também nós as vigiaremos para que não façam dano de feitiçaria e de traição, seja a quem for. Vou eu ter mão naquela gente.
E deitou a correr para dentro do quintal.
— Senhor cavaleiro — disse de cima, a tremer, a esposa de D. Judas — dai-nos a honra de entrar, que vos queremos beijar as mãos.
— Senhora, entrarei, porém, para vos acompanhar enquanto correrdes perigo.
Entrou. Uma serva da casa abriu a grade do topo da escada, correndo o ferrolho.
— Boa vai ela! — comentava na rua uma velha — Entrementes as mães lhe beijam as mãos, capaz será ele de lhes beijar as filhas.
— Aquele é um belo galo de crista erguida e esporões dourados! — acudiu outra velhacamente.
— Como os cabelos da mais jovem.
— Mas deixai — objetou rancorosamente uma esfarrapada — deixai que o que se não faz em dia de Santa Luzia pode fazer-se ao outro dia.
— Vão enfeitiçá-lo as judias e a outra sereia que lá está! — disse alto, num regougar de voz, a escrava moura — E ainda não disse tudo o que sei, mas ficará para outra vez!
— Vá, criaturas pasmadas — veio dizer a padeira — é aviar, que vamos a repartir 0 trigo.
— Vamos por ele. Vamos lá! — gritaram umas vozes enrouquecidas.
E foram todos de roldão para o quintal. Vinha de lá um sussurro enorme de muitas vozes numa irrequieta sofreguidão.
E a sobrelevar a todas, a voz trovejante da padeira:
— Eh! Lá! Vai aos punhados, assim mesmo cru! Não vale. Espere cada qual o seu quinhão e coma-o depois como quiser.
* * *
Ruy de Vasconcelos fora recebido na sala grande de D. Judas por aquelas atormentadas mulheres, ainda lívidas de pavor.
— Senhor cavaleiro — disse comovidamente a judia de cabelos brancos — teve o céu piedade de nós e trouxe no nosso favor o vosso ânimo generoso!
E procurava tomar-lhe as mãos para lhas beijar.
— A vida nos salvastes, senhor — acudiu D. Maria de Mendonça, esposa de Gil Vasques de Mendonça, um parcial de Leonor Teles e agora um servidor do rei de Castela, na ala de traidores que estavam no seu exército, sitiando Lisboa.
Era uma dama de cerca de quarenta anos. Já começavam a embranquecer os seus opulentos cabelos ondeados negros; mas as rugas de uma vida amargurada ainda lhe não tinham apagado completamente a esplêndida formosura.
— Sou Maria de Mendonça — disse-lhe, apresentando-se — a infortunada mulher de... Gil Vasques de Mendonça.
Baixara a voz, e enrubescera como se tivesse medo e vergonha de dizer aquele nome.
— Sei quem sois, senhora, e está a minha memória a recordar-me certa dama que há dez anos vi muitas vezes no paço. Chamavam-lhe a Flor de Granada.
— Dizeres lisonjeadores. Fui moura; meu pai era de Granada. «
— De mim, senhora, é que vos não podeis talvez lembrar. Era uma criança. Mas da minha mãe certo vos recordareis.
— Dizei-me o seu nome.
— D. Dulce Rodrigues de Vasconcelos.
— Fomos companheiras e amigas no paço — disse Maria de Mendonça, num suspiro, tocado de mágoa e de saudade.
— O vosso palácio, senhora, era ao pé da Porta de S. Pedro, da antiga cerca. Lá fui por vezes com a minha mãe.
— Tivemos de fugir de lá por culpas que não eram nossas, e lá está fechado como casa onde alguém morreu! Aqui nos acolheu por caridade esta família, e aqui temos vivido a ocultas. A minha filha Madalena — disse, apresentando-lha — Era pequenina quando eu vivia na corte com a vossa ilustre mãe.
— Senhora minha! — balbuciou Ruy, curvando-se gentilmente diante de Madalena, muito perturbada, num enleio adorável — Fomos crianças que nalgum tempo se conheceram e depois, por largos anos, uma da outra ficaram esquecidas. Boa hora me deu Deus para vos encontrar, pondo em serviço vosso a minha vida e a minha espada, se mandardes que uma e outra sejam por vós, enobrecendo-se.
Envolveu-a num carinhoso olhar de deslumbramento, como se fosse aquela princesa ideal que a sua juventude sonhara em devaneios de batalhador e de cavaleiro andante.
Maria de Mendonça sentia-se lisonjeada naquela homenagem à sua linda e estremecida filha. A judia jovem afogueara-se e como que os seus olhos negros se incenderam num relâmpago de inveja por aquela hóspede sua, mais formosa. Mas logo, num relance para aquele jovem cavaleiro de lenda, tristemente se lhe turvaram. Nunca para ela, a judia rica e odiada, outra juventude assim brilhante ainda se curvara em tal acariciadora homenagem!
Ruy dobrou o joelho diante de Madalena e tomando-lhe a mão pequenina e branca, escultura ideal nalgum prodigioso jaspe, a que um milagre houvesse dado vida, beijou-lha levemente como um pajem beijaria a mão de uma infanta nas salas magnificentes de algum paço real.
Mas daquele enlevo o despertou bruscamente um ruído alto de vozes na rua, dominado por clamores enfurecidos de ameaça.
— Voltam! — exclamou num confrangimento de terror a judia de cabelos brancos, abraçando-se na filha.
— Não tenhais medo, senhora. Aqui me tendes para vos defender.
E na rua gritavam:
— Que o da galeaça nos apareça!
— Que o jovem desafiador do Condestabre de Castela nos escute.
— Nobre cavaleiro, Ruy de Vasconcelos!
— É por mim que chamam! — disse o jovem Vasconcelos, indo arrebatadamente para a grande janela de balaustrada.
— Senhor, olhai que vos não façam alguma traição! — recomendou Madalena, timidamente, numa tremura de voz.
— Senhora minha, nada receio dessa gente.
Assomou à janela alta de ogiva, os vitrais incendidos na chamazita das quatro tochas que ardiam na sala.
— Escutai, senhor cavaleiro! — gritaram de baixo — Por vossa intenção, o povo perdoará às mulheres do traidor, porém às judias enfeitiçadoras, não.
— Não! Não!
— Quem perdoa ou deixa de perdoar não sois vós; são as justiças do Mestre e defensor nosso. E quem as defende agora sou eu. Vede se entendeis bem, gente tumultuosa. Eu!
— Não as podereis defender sempre — retorquiu-lhe a padeira, que era a parlamentária da multidão — Elas pagarão seus malefícios. Assim o há de querer Deus, Senhor Nosso. Esta escrava moura, que fugiu dessa casa sabe bem o que elas fazem, e conta que há aí um caminho debaixo do chão. Vai dar a Vila Nova de Gibraltar e à praia. Por ele poderão entrar os de Castela, guiados pelo tredo rabilongo de D. Judas! (*). Vede o que fazeis, senhor cavaleiro, que nós tudo isto iremos contar ao Mestre!
[(*) Rabilongo por ter cauda pendente. Ainda, três séculos depois, havia quem acreditasse que os judeus se diferençavam dos outros homens por um apendículo curto como os de certas raças de macacos! Acreditava-se e escrevia-se! E assim, por ódio religioso, inconscientemente punham na gente israelita a prova material da teoria de Darwin, o fisiologista inglês, falecido em 1882.]
— Ide, mas aqui não entrareis. Ide, que também eu direi ao Mestre o vosso intento, e a ele e a vós hei de mostrar que, se não falto aos meus encargos de cavaleiro para defender damas, também sou incapaz de quebrar os meus deveres de Português leal, protegendo traidores. Ide, ou irei eu ensinar-vos o caminho!
— Não vos assomeis assim, gavião branco, dentro desse pombal! — gritou uma regatona.
— Senhor, tende cautela! — pediu-lhe D. Maria de Mendonça.
— Vale-vos serdes quem sois! — disse de baixo a padeira — E a elas agora lhes dais vós salvamento por saber a gente o que tendes feito pela nossa terra. Vá, gente, embora daqui. O vespeiro há de arder em louvor de Jesus, Senhor Nosso. Para outra vez será. Há mais marés que marinheiros. Vamos lá.
— Mas é preciso ir dizer ao Mestre que há ali um caminho debaixo do chão! — lembrou um dos maltrapilhos — E ninguém sabe onde vai ter!
— Numa hora má, a cidade a cair de fome, nós nos muros e nas torres a lutar, e D. Judas entrará cá dentro pelo seu caminho de toupeira com algum troço de Castelhanos!
— A dizê-lo já ao Mestre, e ele que nos mande a nós entulhar o tal caminho com as pedras e as cinzas daquela casa de Judas.
— Vá! Vá feito!
— De madrugada será — alvitrou a padeira.
— Não; agora!
— Já de caminho!
— E cá voltaremos depois para queimar o vespeiro!
— Pois seja como quereis — aquiesceu a padeira.
E a multidão lá foi enovelada por ali abaixo, a regougar ameaças.
Ruy afastara-se da varanda com o rosto avincado, numa preocupação que o tornava sombrio.
— Maior perigo ainda para estas pobres mulheres de uma raça tão cruelmente odiada! — soluçou a esposa de D. Judas, numa lividez de terror, a filha muito chegada a si.
— Fugiu da vossa casa alguma escrava moura? — perguntou-lhe o filho de D. Dulce.
— Antes de ontem daqui fugiu uma ladra, que roubou a esta minha filha um grande fio de pérolas de toucar. Velha e miserável a tinha eu tomado por dó, e nesta casa lhe dei guarida, vai em nove anos. Assim me pagou!
— Percebi que essa escrava era incitadora dos ódios daquela gente. Foi ela quem denunciou que havia nesta casa um caminho oculto.
— Há, senhor; nisso não mentiu ela.
— Onde vai ter? — interrogou, sombriamente apreensivo.
— Por mim vos não sei dizer, mas ouvi uma vez ao meu marido que ia dar à sinagoga maior de Vila Nova de Gibraltar (*).
[(*)Era o bairro em que os Israelitas viviam extremados da outra população da cidade. Também se lhe chamava a Judiaria Grande. Vila Nova era a designação vulgar para os agrupamentos de edificações recentes, nas imediações das cidades, ou modernas em relação ao núcleo principal das outras edificações.]
— Só aí? Dizei-o francamente, senhora.
— Estou a entender que também vós de alguma coisa suspeitais e pareceis arrependido da piedade que tivestes de nós!
— Nunca me arrependi de um dever cumprido, e este me não esquecerá nunca — volveu-lhe, relanceando um olhar acariciador para Madalena — Mas que este meu auxílio não fique afrontado com a mácula de alguma suspeita, que valeria a maior amargura que eu pudesse ter na minha vida, muito vos rogo me informeis com desassombrada franqueza.
— Toda a verdade vos disse, toda!
— Pois então, senhora, ide juntar o que tiverdes de maior valor e que mais facilmente se possa levar daqui para fora.
— Daqui para fora! Senhor, porquê?!
— Porque eu não posso aqui ficar a defender-vos, e a esta casa a condenou aquela gente por suspeita e perigosa para a defesa da cidade. Vão contar ao Mestre a denúncia da moura e ele mandará que venham a examinar esse caminho oculto.
— Deus de Abraão! — soluçou a judia, abraçando-se à filha numa convulsão de choro.
— Senhora, não podem as lágrimas dar-vos remédio. Mau foi que a essa gente se metesse em cabeça que por aqui poderiam entrar os sitiantes, guiados pelo vosso marido. Pode muito o Mestre, e nada poderia contra semelhante suspeita! Amanhã o saberá a cidade toda, e essa multidão de angustiados, que tanto têm sofrido na defensa da sua bandeira e dos seus lares, correrá aqui para vos queimar e destruir a casa, queimando-vos com ela.
— Deus misericordioso!
— Mãe, minha pobre mãe, fujamos daqui! — rouquejou, espavorida, a filha de D. Judas.
— Talvez ainda esta noite — continuou Ruy — Disse-o nas suas ameaças aquela gente. Havíeis de tê-lo percebido.
— Jesus! — soluçou D. Maria de Mendonça.
— Nossa Senhora nos dê amparo! — disse Madalena, pondo as mãos numa tremura de súplica.
— Mas em outras casas antigas de Lisboa há de haver também, tenho ouvido contar que há, caminhos debaixo do chão — alegou a mulher de D. Judas — até no paço da Alcáçova, e só este basta para condenar duas tristes mulheres!
— Por muito que me custe dizê-lo, é dever de lealdade avisar-vos que esta hora não é para enganos e disfarces de palavras. Bem sabeis que os antecedentes do vosso marido põem uma tremenda suspeita sobre esse caminho.
— Mas olhai — interveio D. Maria de Mendonça — que também na minha casa ouvi falar de um caminho oculto, que nunca vi nem sei onde vai dar.
— Senhoras minhas, o tempo voa e estamos nós aqui a malbaratá-lo com desnecessárias alegações!
— Pois mandai então o que devemos fazer.
— Apenas aconselho, senhora. Esta casa está irremediavelmente perdida para vós. Ide buscar as vossas joias e o vosso dinheiro. Tudo o mais o podeis considerar perdido.
— E depois, para que refúgio?
— Para vos acolherdes à proteção do Mestre. Tendes aí algum servo em quem depositeis confiança?
— Um criado velho da minha raça.
— Esse para me ir guiar já à entrada desse caminho.
— Sim, irá.
— É caminho que se possa fechar?
— Tem uma porta de grossos varões de ferro com ferrolhos e tranquetas.
— Pelo lado de dentro?
— Sim.
— Está bem; ide sem perda de tempo. Eu irei entregar ao Mestre a chave dessa porta e contar-lhe quanto sei.
— Deus meu! Entretanto a populaça voltará!
— Ireis comigo à presença do Mestre. É o maior testemunho de lealdade que podeis dar-lhe.
— Senhor, aonde mandardes.
Saíram numa tremura convulsiva de terror.
— E nós, filha?
— Senhor cavaleiro, quereis deixar-nos aqui sozinhas, tolhidas de medo? — perguntou-lhe Madalena com os olhos rasos de lágrimas.
— Senhora, a minha casa não fica longe, e a minha mãe vos dará abrigo.
Apareceu o criado velho para guiar Ruy de Vasconcelos à porta do subterrâneo.
— Tende dó de nós! Não vos demoreis — pediu Madalena num adorável tom de súplica.
— Voltarei depressa, senhora.
* * *
Desceram uma escada de pedra, estreita e lôbrega.
Na frente o criado com um brandão aceso.
Ao fundo da escada, sob uma arcaria de abóbada abatida, uma porta esguia e baixa de grossos varões de ferro com os topos chumbados nas ombreiras de pedra, esverdinhadas da humidade.
Tinha três ferrolhos e uma fechadura grande, saliente, em que o ferrolho maior se fixava. Dependurado de um grampo, na ombreira, uma enorme chave de bronze, manchada de verdete.
Ruy examinou a porta atentamente e experimentou os ferrolhos e a fechadura.
— Por este caminho só a um homem de frente — disse consigo — e um homem nem no meio dia poderia limar e partir a malho estes varões, mais grossos que duas hastes de lança — Está bem — disse para o criado — voltemos. Ide adiante.
E seguiu atrás dele, levando a enorme chave.
Ao topo da escada ouviu soluçar alto. Esperavam-no as duas judias, lívidas, trementes, cada uma com um cofrezito de joias. Atrás delas duas servas com umas trouxas pequenas.
— Mandai, senhor — disse a mulher de D. Judas — Aqui trazemos o que de mais valor podemos levar.
— Iremos agora ao paço de Apar S. Martinho ter com o Mestre.
— Um tropel de gente em carreira para aqui! — veio avisar Madalena, confrangida de pavor.
Após ela a mãe, num pasmo e numa palidez de esmorecida.
— Não vos apavoreis. As portas interiores resistirão por algum tempo e a minha espada fará o resto. Eu vou ver.
Correu para as grandes janelas da frente. O tropel era de uma quadrilha de homens de guerra, talvez uns quarenta, que vinham de carreira; seguia-os uma multidão de rotos e de mulheres. Na frente três homens com archotes.
— Homens da hoste! Tanto melhor — disse alto Ruy de Vasconcelos.
— Deus meu, homens armados! — rouquejou na sala a filha de D. Judas, em convulsões de medo, de grande pavor.
— Gentes! — gritou o anadel-mor dos besteiros, voltado para a multidão — a ordem do Mestre é que não entreis. Tende-vos aí.
— Pois serão cumpridas as ordens do Mestre e executai vós os seus mandados, que nós aqui esperaremos.
Era a padeira quem assim falava. Um rumor alto de muitas vozes apoiou os seus dizeres.
Entrou pelas janelas dentro a fumarada negra dos archotes e um clarão vermelho incendiou os vitrais, dando vida às suas figuras bíblicas e projetando no soalho de cedro antigo, amarelecido, uns laivos sanguíneos, reflexos da púrpura dos reis de Judá, pintados nos grandes vidros.
— Ester, filha minha, que estamos perdidas! — soluçou Judite Navarro, num olhar pávido, fito naquelas manchas vermelhas.
D. Maria de Mendonça e Madalena acercaram-se-lhes, compassivas.
— Senhor anadel-mor — disse de cima Ruy de Vasconcelos — vou abrir-vos a grade da escada e eu próprio vos entregarei a chave da porta de um caminho oculto que vai dar à sinagoga de Vila Nova, segundo aqui me declararam. Estava para a levar ao Mestre; dar-vo-la-ei a vós.
No intento de dissipar quaisquer suspeitas da multidão a respeito da sua lealdade, Ruy disse alto da janela abaixo isso que podia dizer apenas ao anadel-mor. É que só tinha medo de que alguém pudesse duvidar da sua boa fé de patriota.
— Já vos tinha reconhecido, senhor Ruy de Vasconcelos — volveu-lhe o anadel.
O jovem cavaleiro veio para dentro.
— Tende confiança na justiça e no ânimo generoso do Mestre, senhoras minhas. E na devoção e lealdade da minha alma como na sua justiça.
Eram para todas elas as suas primeiras palavras, mas só para uma as outras mais cariciosas e de mais calorosa dedicação. O seu olhar disse muito mais do que as palavras, e Madalena compreendeu-o num afogueamento de alvoroço, que a tornou ainda mais linda.
Ruy correu a abrir a grade da escada. Entretanto, o anadel mandara a doze besteiros que fossem vigiar a casa do lado do quintal; quatro besteiros e quatro homens armados de chuças ficariam na rua e vinte subiriam com ele para revistarem o interior do prédio.
— Senhor anadel — foi dizer-lhe à rua o juvenil paladino daquelas desamparadas mulheres — podeis entrar e aqui tendes a chave de que vos falei.
— Conheceis esse caminho de que as mulheres e os maltrapilhos foram falar ao Mestre?
— Apenas lhe vi a entrada. Não cabe por ele mais que um homem de frente. Fecha-o do lado de cá uma porta fortíssima de grossos varões de ferro, que o mais possante Hércules de Castela não conseguiria limar e partir no meio dia. Está seguramente fechada. Aqui está a chave que eu ia levar ao Mestre.
— Ele virá também. Mandou chamar o Juiz do Povo; ficou a esperá-lo; virá com ele.
— Foram despertá-lo os saqueadores?
— Ainda se não tinha deitado. Inquiria das coisas do Norte com o almirante da armada que chegou. Entremos então.
— Eu convosco. À minha honra de cavaleiro está confiada a defesa de umas desventuradas damas.
— Já o sabia — respondeu-lhe secamente o anadel.
Subiram. Ruy foi mostrar a porta do subterrâneo e lá ficaram de guarda dois besteiros de besta de garrucha e quatro homens de chuças.
Depois, enquanto o anadel passava revista a toda a casa e colocava sentinelas às janelas e portas de comunicação, Ruy foi para junto das damas.
Empenhava os mais dedicados esforços para as reanimar. Agora as menos atemorizadas eram D. Maria de Mendonça e Madalena; mas as duas judias, essas estavam cada vez mais esmorecidas. Tinham medo da justiça do Mestre, que, pelo próprio interesse da sua causa, poderia transigir com os clamores sanguinários da populaça que o adorava.
Bem sabiam que o Mestre se limitara a mandar confiscar os bens de David-o-Negro e a doá-los a Nuno Álvares, consentindo, todavia, que a mulher, D. Cimfa e os filhos ficassem na cidade. E o antigo almoxarife de el-rei D. Fernando era tão judeu e tão traidor como D. Judas; mas contra elas havia a mais, num terrível agravamento dos ódios supersticiosos da população: as denúncias da escrava moura, aquele suspeito caminho oculto, e até a clandestina hospedagem misericordiosamente concedida à mulher e à filha de um fidalgo que fora muito da rainha Leonor Teles e era agora pelo rei castelhano, sob pretexto de defender a herança da infanta portuguesa, aquela criança a quem tinham feito rainha de Castela.
Demais a mais, sabia-se que Gil Vasques de Mendonça estava com o exército sitiante. Muitos defensores da cidade o tinham reconhecido entre os mais audazes nas investidas, desde as primeiras escaramuças do Lumiar, preliminares do cerco.
Na sua perspicácia de mulher e no seu instinto de mãe, D. Maria de Mendonça percebera logo claramente o súbito deslumbramento que a filha tinha produzido naquele providencial defensor de nome ilustre e sangue nobilíssimo.
E até nisto lhe parecia ver um favor do céu com que momentos antes, nem se atreveria a sonhar. O amor daquele jovem por Madalena bem podia ser o amparo e a suprema ventura da sua linda filha, se os escrúpulos do fidalgo leal à sua terra se não levantassem como estorvo irredutível entre o coração de Ruy e a filha do traidor.
Esposa daquele prestigioso jovem, Madalena veria dissipadas as nuvens ameaçadoras da sua primavera de mulher, em pleno céu azul a estrela dos seus destinos, num rútilo abril de flores aquele inverno desabrido e tenebroso, que uma desgraça de família desencadeara sobre os seus dezassete anos encantadores.
No seu bendito egoísmo de mãe, em tudo isto pensara de relance aquela mulher que tanto sofrera e tão nova experimentara o travo das lágrimas e as mágoas supremas da vida!
Roubada aos pais por um bandido fidalgo; sem lar e sem família, moura forçada a abjurar a sua religião para não ficar perpetuamente a desprezível concubina do aventureiro brasonado que a roubara e para que sobre o berço da sua filhita, que foi afinal por ela que tudo sofrera, não caísse a mácula irremediável de uma bastardia odiosa, toda a sua juventude se lhe escureceu nas agruras daquele drama íntimo, que ninguém pôde avaliar porque só ela o viveu e sentiu.
* * *
Num lance em que Judite Navarro fraquejou mais na tortura dos seus pavores, quase desmaiada nos braços da filha, e quando D. Maria de Mendonça, muito dobrada para ela, lhe dizia palavras misericordiosas de dedicação e de consoladora esperança, Ruy tomou a mão de Madalena, num arrebatamento febril, e beijou-lha brandamente, segredando-lhe:
— Por vós a minha vida e todos os sonhos da minha alma! Vem do vosso olhar a luz porque o meu coração ansiava. Viverá dela; morrerá por ela.
— Senhor! — titubeou Madalena com uma perturbação que a tornava ainda mais linda.
— O Mestre! O Mestre! — gritou a multidão da rua.
— Viva o Messias de Portugal!
— Deus de Israel! — exclamou Judite Navarro, erguendo-se de súbito numa tremura convulsiva.
— Senhora, confiai no ânimo do Mestre, justiceiro e generoso.
— Falai-lhe no nosso favor, senhor cavaleiro! — suplicou-lhe Ester, pondo nele os seus grandes olhos negros, noite voluptuosa e ardente, sob uma neblina de lágrimas.
— Eu vou, senhoras, e pedirei o favor da sua generosidade como se para mim a pedisse.
* * *
Numa antessala, Ruy expôs lealmente ao Mestre tudo o que se passara naquela casa.
D. João ouvia-o com fria serenidade. Ao seu lado, o Juiz do Povo seguia com afetuoso interesse a larga exposição do filho de D. Dulce.
— Como bom cavaleiro e homem generoso procedestes; mas tendes tão grande fama de lealdade entre a gente do povo, que mal-aventurado lance foi esse para vós! Logo quis o acaso que a um tempo defendêsseis a mulher e a filha de um judeu traidor e, talvez ainda pior, a mulher e a filha de um fidalgo de Portugal que se bandeou por Castela e com os homens de armas do rei estrangeiro cerca a maior cidade e o mais forte abrigo da sua Pátria!
— Senhor, pobres mulheres, que mácula de culpa lhes pode caber a elas pela traição infame do marido e do pai?! — disse-lhe, empalidecendo.
— Herdam-se vergonhas como se herdam as glórias; caem sobre uma família as torpezas daquele que se aviltou e era seu chefe.
— Mestre e senhor, é uma injustiça dos homens!
— Então injustiça há de ser também que, pela herança dos gloriosos feitos, se enobreçam os descendentes daqueles que os praticaram. Vós, por exemplo, que de cabeça erguida podeis falar dos vossos preclaros avoengos.
— Senhor, para os tomar de exemplo e, pelo que eles fizeram, tornar maior o encargo que a mim me pertence. Bem o sabeis, Mestre e senhor.
— Sei, mas olhai que sobre a família de Gil Vasques de Mendonça caiu maior afronta que sobre as mulheres de D. Judas. Não era esta a pátria do judeu, nem era a sua fé igual à nossa, nem dele a nossa bandeira, para lhe querer e morrer por ela. Era um troquilhas, um cigano ganancioso; nem a bem dizer é um traidor. Foi para onde lhe conveio, ao vezo de maiores favores. É apenas um desprezível sabujo para se mandar à forca, se cá voltasse. O outro, não! O outro, não!
— Senhor — volveu-lhe Ruí de Vasconcelos, cada vez mais pálido — e era por umas e outras que eu vinha pedir-vos!
— Pedir o quê?! Que as defenda das iras do povo? Está concedido.
— Mais alguma coisa, senhor.
— Esta casa tem de ser deitada abaixo e entulhado esse caminho secreto por onde o povo receia que entrem de surpresa alguns dos sitiadores de Lisboa. Será um receio infundado e creio que é, mas embora. Não quero que o povo corra aos muros e às torres na suspeita de que mão traiçoeira lhe pode meter cá dentro quem vá investi-lo pelas costas.
— Senhor, não era o meu pedido para deixardes de pé a casa do judeu, bem que se me afigure desvairado o receio da arraia-miúda.
— Então para qual fim?
— Para me concederdes que na minha casa dê abrigo à mulher e à filha de Gil Vasques de Mendonça, o t mi dor.
De rosto carregado, olhar fito no juvenil cavaleiro, o Mestre respondeu lentamente:
— Perdereis nessa generosidade irrefletida todo o prestígio que tendes no povo pelo nome glorioso de quem vindes e pela fama da vossa lealdade e esforço! Leva-las para vossa casa, porquê?
— Porque vão ficar ao desamparo, se eu não as puder confiar ao coração misericordioso da minha mãe!
— Estou a perceber nesse propósito algum sonho do vosso coração mouco. À mulher do traidor, pouca conversa, Deus sabe com que fé, a essa a conheci eu; foi a maior formosura nos pacos de el-rei, que Deus haja. Havia quem a julgasse de beleza igual à... Flor de Altura, n flor do mal que matou a irmã, o rei, e queria matar o Reino! À filha não a conheço eu; mas estou a adivinhar que muito a conheceis vós, Ruy de Vasconcelos!
— Senhor, em criança a conheci e dela me tinha esquecido. Ao cabo de dez anos a tornei a encontrar.
— A sua idade?
— Não terá mais de dezassete anos.
— Vede se esse amparo que lhe quereis dar a infamará a ela, pondo mácula no vosso honesto lar! Vede bem o que ides fazer contra ela e contra vós. O povo suspeitará da vossa lealdade.
— O povo bem sabe como eu tenho posto a vida em risco na defesa da nossa terra.
— Por loucos amores, e eu já vos suspeito enamorado, não raro os maiores deveres se esquecem e as mais austeras virtudes se perdem.
— Senhor, a vós e ao povo hei de eu mostrar de que lealdade e esforço maior ainda sou capaz. Por Deus e pela minha mãe, Mestre e senhor, aqui vos juro!
— Creio, mas olhai que não é seguro jurar contra os caprichos de amores, que nalgumas horas enfeitiçam um jovem como vós... Já cruelmente experimentados por outros de má fortuna. O traidor está nessa hoste que tem assolado Portugal e oprime Lisboa para nos avassalar, roubando-nos o que mais prezamos. Se lhe puserdes má fama na filha, eu consentirei que resgateis essa culpa, tornando-a vossa esposa. Nem eu, enquanto for o Defensor do Reino, nem o povo comigo, enquanto as forças de Castela o não esmagarem.
— Senhor, honestamente viverá em companhia da minha mãe. Na hora em que lhe surpreendesse o intento de me levar para o caminho ignóbil do pai, ninguém com mais profundo desprezo do que eu a expulsaria da minha casa. Eu sozinho procurarei resgatar a torpeza que o pai lhe deixa de herança. Na dianteira dos vossos cavaleiros, em quantas batalhas lutardes, de peito afoito para os maiores perigos, com o dobrado fervor pela santa causa que defendemos, eu pagarei com o meu sangue ou com a minha vida os direitos do favor que hoje vos suplico e espero do vosso grande coração, Mestre e senhor.
— Numa hora assim vos enfeitiçou!
— Senhor, é ainda a bem dizer uma criança e ficará ao desamparo, aos baldões do Mundo como as esfarrapadas das ruas, talvez na miséria, certamente exposta às iras sanguinárias da populaça, se vós não consentirdes, senhor, que vá confiá-la à piedosa generosidade da minha mãe.
E com tal comovedora sinceridade disse isto, que foi-se embora profundamente o propósito do Mestre.
— Juiz do Povo, qual parecer é o vosso? — disse, voltando-se para Afonso Eanes.
— Mestre, a mim me quer parecer que o nobre senhor Ruy de Vasconcelos merece, pelo seu nome e leal intrepidez, que tal favor lhe concedais. Se fosse preciso que por tal enobrecido cavaleiro alguém respondesse perante vós, senhor, responderia eu, como para o povo hei de responder firmemente por ele.
— Está bem. Deixo à vossa consciência, Ruy de Vasconcelos, todo o encargo desta concessão. Podeis abrigar na vossa casa a mulher e a filha do traidor Gil Vasques de Mendonça.
— Senhor infante e defensor nosso! — disse Ruy calorosamente, num jubiloso arrebatamento, de joelho dobrado, a procurar a mão do Mestre para lha beijar — Para todos os sacrifícios que de mim quiserdes, fora da conta dos que devo à Nação e para os mais destemidos feitos de que for capaz nos maiores perigos e nas maiores batalhas, Mestre, contai com o cavaleiro que deu guarida à família de um traidor. Aqui vos juro!
— Sim, ide dizer-lho, e levai-as convosco.
— Senhor, e as judias?
— Vou mandá-las para Vila Nova, e lá hão de ficar encerradas e com guardas à vista, para que de todo se dissipem as suspeitas do povo.
— Quanto vos devo, senhor, e que generosa e grande alma a vossa!
— Afonso Eanes — disse o Mestre para o glorioso tanoeiro — o anadel-mor que entre.
O Juiz do Povo foi chamá-lo à casa contígua, onde ficara águardando ordens.
O anadel entrou sozinho. Ruy despediu-se do Mestre e saiu.
— O cavaleiro Ruy de Vasconcelos tem licença minha para sair com essas duas damas, a quem defendeu das iras do povo. Oito dos vossos homens para o acompanharem a casa de D. Dulce de Vasconcelos. Quinze besteiros da vossa confiança para escoltarem já a Vila Nova de Gibraltar essas duas judias e os seus servos. O Juiz do Povo irá com elas para lhes determinar lá a casa em que devem ficar encerradas e verificar se na sinagoga maior desemboca o caminho oculto que há nesta casa.
— Senhor, as vossas ordens serão cumpridas.
— Tomai providências para que esta casa seja demolida desde já e amontoadas sobre o caminho oculto todas as pedras derribadas. Ide dizê-lo a essa gente do povo que aí está fora, e que assistam à demolição todos os que quiserem assistir. Quando a manhã vier, deve de estar por terra a casa grande de D. Judas.
— Mestre, vou cumprir os vossos mandados.
O anadel retirou-se e a seguir entrou Afonso Eanes.
— Senhor, entendo agora o súbito encantamento de Ruy de Vasconcelos!
— Vistes a filha de Gil Vasques?
— Mestre, vi. Não teriam sido mais lindos os dezoito anos de D. Leonor Teles! Mas o seu olhar tem uma luz de bondade e de casta meiguice que...
— Que a rainha adúltera nunca teve — concluiu o Mestre, acudindo à hesitação do tanoeiro — Agora, oxalá que Ruy de Vasconcelos não falte ao que deve o seu nome, e Deus lhe dê melhor fortuna do que teve com os seus malogrados amores por aquela juvenil dama do paço, desaparecida há dois anos, sem que ninguém saiba o que foi feito dela.
— D. Leonor de Gusmão. Ouvi falar dela e dizia-se que era das mais formosas que tinha o paço. Até se chegou a dizer que se teria juntado com a rainha, viúva do vosso irmão, que Deus tenha consigo!
— E as judias? Como ficaram?
— Numa aflição, lavadas em lágrimas.
— Tendes de as acompanhar a Vila Nova.
E deu-lhe as indicações que já conhecemos.
* * *
Foi enternecedora a despedida das judias. Afastaram-se de D. Maria de Mendonça e de Madalena num arquejar de soluços e em tal amargura de lágrimas, que parecia despedida para nunca mais se tornarem a ver.
— Tendes quem vos proteja, Madalena — segredou-lhe Ester Navarro, indicando o jovem cavaleiro num olhar — Nós, ninguém!
— Eu lhe pedirei por vós — volveu-lhe Madalena com adorável ingenuidade, ruborizada, num fio trémulo de voz.
— Diz-me o coração que nunca mais nos tornaremos a ver! — soluçou a esposa de D. Judas, abraçando D. Maria de Mendonça, numa angústia de pressentimentos lúgubres.
— Há de querer Deus que nos tornemos a encontrar. Assim o espero da misericórdia divina. Terá dó de nós o Deus de nós todos. Hei de eu pedir-lho nas minhas orações, pelo tanto bem que vos devo e pela generosa guarida que me destes.
O Juiz do Povo chamou-as. Era preciso partir. E lá saíram entre a escolta para a comuna dos Judeus, aquela ridente Vila Nova de Gibraltar, asilo e clausura de uma raça odiada.
Revoavam alto os apupos e as pragas da populaça.
Ruy saiu instantes depois com as suas desventuradas protegidas; atrás delas uma escolta de homens armados.
As mulheres e os farroupilhas, contidos pelo prestígio do jovem cavaleiro, limitaram-se a resmungar comentários maliciosos e vaticínios de humilhadora obscenidade.
Mas o Mestre saiu então e a multidão agitou-se e partiu enovelada atrás do seu ídolo.
— Viva o nosso Defensor, o nosso Messias! — gritavam.
Dali a minutos, a populaça voltava. Cantavam lugubremente no silêncio da noite, batidas pelas picaretas, arregoadas pelos alviões, desprumadas pelas alavancas, as velhas cantarias da casa grande de D. Judas Navarro.
E os madeiramentos seculares, de cedro e Carvalho, estoiravam num ruído estridente, a lembrarem gritos bruscos, singulares, de alguma estranha dor, cortados por uma dezena de machados.