A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 17 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo IV · À Promessa D’el-Rei

 

Alenquer estava outra vez pela rainha herdeira, ou como se disséssemos por Castela. Era alcaide da vila, um casmurro parcial de D. Beatriz, fidalgo de Galiza, que no reinado de D. Fernando viera para o serviço de Portugal. Chamava-se Vasco Pires de Camões.

Naqueles tempos singulares, de extremadas lealdades, que iam até à heroicidade, e de torpíssima versatilidade, que chegava até ao descaramento da venda e à infâmia da traição, o ideal da pátria não tinha para todos igual significação e era vulgar que se apelidassem traidores os que defendiam uma nação, se tinham faltado à menagem a um príncipe, ou se considerassem leais os que serviam estranhos interesses dinásticos, sob color de não quebrar o seu juramento de vassalos. E por este modo, e até por um simples estímulo de cavalaria aventurosa, se encontravam batalhadores fidalgos, de diversa procedência, de raças e nacionalidades antagónicas, ao serviço de uma nação inimiga da sua, ou como campeadores de um rei em guerra aberta com aquele a quem tinham jurado vassalagem.

Em Portugal como em Castela, na França como na Itália e na Alemanha. Assim se explica o facto daquele gascão Montferrat estar com os portugueses, ao mesmo passo que a Gasconha dava ao rei de Castela, contra Portugal, o poderoso auxílio dos seus brilhantes homens de armas.

Batalhadores por amor da arte e pelo simples prazer das aventuras, havia muitos assim naqueles tempos.

Vasco Pires nem se intimidou com a chegada da hoste real, nem cedeu à intimação para entregar aos portugueses a vila e o castelo. Fechou se no seu recinto de muralhas e resistiu.

Também El-Rei se não importou muito com a temeridade do alcaide, e estabeleceu o acampamento real distante da vila, ao fundo dos hortejos da veiga.

Ali águardaria que se lhe reunissem as forças de Lisboa e o seu termo, as outras que esperava do Alentejo, e depois se poria em marcha para ir ao encontro dos invasores.

* * *

 

Ainda não era 11 horas quando os nossos três cavaleiros começaram a avistar o acampamento real, com as suas tendas garridas da gente fidalga e dezenas de pendões e bandeiras multicores e esvoaçarem na aragem quente daquela manhã.

A caminhada tinha sido um encanto por entre deliciosos trechos de paisagem, a um e outro lado da velha e mal cuidada estrada.

Os vinhedos davam um lindo esmalte ás lombas dos montes, coroados pelos moinhos à mourisca, de altas velas brancas a lembrarem grandes azas. Árvores pequeninas estavam já engalanadas de frutos, que o sol de junho começara a amadurecer. As cerejeiras, essas pendiam avergadas pelos seus formosos cachos a lembrarem contas grandes, vermelhas como rubis.

Ondeavam os trigães cor de oiro, tocados pela aragem; nos tapetes nas planuras branquejam boninas e pelas árvores altas os melros assobiavam o seu estribilho de boémios, enquanto no recato nos silvedos, mais próximo dos regatos, rouxinóis devaneadores gorjeavam o poema dos seus amores e dos seus sonhos, numa suave música de enlevo, que nenhum maestro inventaria melhor e nenhuma cristalina garganta de mulher seria capaz de imitar.

E mais passara por ali a guerra em arrancadas assoladoras, na campanha do ano anterior, e já, de dias a dias, naquele ano, quando chegavam àquela planura as algaradas dos castelhanos que tinham ficado aninhados nas escarpas de Sintra ou iam à descoberta os outros de Alenquer, entremeados com os portugueses bandeados por Castela.

Os nossos três cavaleiros um pouco tinham sofreado os cavalos para melhor admirar as belezas da paisagem.

— Lindo país o vosso! — ia dizendo o velho Montferrat para Ruy de Vasconcelos. Terra de flores como nas mais formosas planuras da minha Gasconha; sol carinhoso, todo oiro como no céu azul de Itália; país de perfumes e encantos como aquele país bem-dito da Provença onde os meus dezoitos anos sonharam e tiveram amores! Boa terra esta, por vida minha, para idear canções e amores, jovens cavaleiros da hoste dos Namorados!

— E tal como é, para a gente lhe querer, assim no-la pretendem para si el-rei de Castela e os seus grandes fidalgos de todas as Espanhas — volveu-lhe Ruy calorosamente. Mas, por Deus, ilustre João de Montferrat, que os sonhadores e namorados também. São batalhadores, e se a contenda não puderem ganhar, hão de morrer por ela, que por esta linda terra e que são os nossos maiores desvelos, e por ela o mote principal da nossa bandeira.

— Os maiores amores! — acudiu o Magriço entusiasticamente Ergueu se de súbito uma nuvem de poeira ao longe, num grande torcicolo do caminho, e ouviu-se a tropeada de muitos cavalos.

Num agitado alvoroço, o Magriço pôs-se em pé nos estribos.

Percebiam-se já muitas plumas brancas, como bandos de pombas num vôo.

— Rui! — gritou Álvaro Coutinho comovidamente: Os Namorados!

— Sim, eles, com a nossa bandeira verde! — rouquejou o Vasconcelos num grande enternecimento de saudade, olhos rasos de lágrimas.

E sem se lembrarem já de Montferrat, meteram os dois a galope desfechado para os outros, mais de cem que vinham a trote largo.

— Pela nossa terra! — gritou o Magriço no seu vozeirão retumbante.

— E pelas nossas damas! — respondeu-lhe caloroso, esporeando o cavalo, aquele Hércules algarvio que era Vasco Eanes da Costa.

— Ruy de Vasconcelos! — aclamaram dezenas de vozes.

— Em boa hora vindes!

— Flôr de cavaleiros!

— Orgulho e lição de nós todos!

Foi uma coisa enternecedora aquele encontro.

Todos os que já conheciam o Vasconcelos se iam acercando dele, a um por um, para lhe dizer palavras afetuosas. Os outros, os recém alistados na hoste, esses o saudavam fraternalmente.

— Já sabíeis então que eu vinha e adivinho já quem vos mandou dizer — gracejou Ruy pondo o olhar no Magriço.

— Pois está bem de ver que fui eu.

— E bom foi que nos mandasse dizer — acudiu Vasco Eanes. A Ala dos Namorados, nós já lhe vamos chamando assim por conta da primeira batalha em que entrarmos; a nossa ala devia-vos este preito, pois de nós todos vós sois o que tendes maiores feitos.

— Os maiores! — confirmaram uns poucos.

— Favores de boa amizade, que tudo engrandecem — respondeu-lhes com singela modéstia. El-Rei e o senhor Condestável é que tinham de estranhar esta vossa...

— Qual! — atalhou Vasco Eanes. El-Rei muito de vontade nos concedeu a licença que nós lhe fomos pedir e logo tomou oportunidade de vos fazer os louvores que mereceis. Quanto ao senhor Condestável, connosco viria também, se ontem não fosse para o Alentejo, para nos trazer mais cavaleiros e mais peonagem.

 

* * *

 

Feita a apresentação de João de Montferrat, todo aquele brilhante esquadrão juvenil se meteu a caminho para o acampamento — Somos já muitos! — disse Ruy para Vasco Eanes.

— E faltam aqui sete que ficaram feridos nas últimas duas escaramuças com os da vila, e trinta que foram com as duzentas lanças de escolta que El-Rei mandou com o senhor Condestável até Mugem e de lá devem estar já de volta.

— E de lá para diante?

— Vai o Conde D. Nuno só com as suas trezentas lanças e respeitava peonagem.

— De el-rei de Castela o que se sabe?

— Chegaram boatos de que ia entrar breve pela Beira com tom o seu poder, o maior que ainda pôs em campo.

— Pois em boa hora seja para nós a sua entrada, que estou ansioso por ver a nossa ala, como lhe chamais, numa batalha real em que a contenda se decida.

— E eu, e nós todos. Linda e valente ala há de ser, e a mim me não quero meter na conta — interveio o Magriço.

— Mas nessa conta vos metemos nós.

— Pois seja como quereis, mas o que decerto não adivinhais é o pesar que eu já estou sentindo por alguma coisa de encanto que nessa almejada batalha nos há de faltar.

— Não adivinho. Dizei vós o que há de faltar, senhor dom profeta.

— Dois grandes palanques, tais como nas justas e torneios, e neles, para nos verem, quantas lindas damas tem Portugal e Castela, o Bearne e a Gasconha.

— Não vos contentaria que fossem as da nossa terra somente? Disse-lhe outro a sorrir.

— Não. As outras também, para verem como nós pelejávamos com os seus namorados.

— Ainda que pudesse ter realidade isso que imaginais, uma dama certo havia de faltar — disse o Vasconcelos melancolicamente.

— A vossa, a que vos levaram, a rainha das belas, que os Namorados aclamaram.

— Há de ver a minha alma no fragor maior da batalha.

— E dela alguma coisa tendes sabido?

— Tenho.

— El-Rei está a esperar-nos — veio avisar um dos que iam na frente.

* * *

 

Entraram na veiga enfileirando-se. Belo esquadrão aquele, de plumas brancas como um luar de sonho e de estandarte verde como símbolo de amor primaveril.

Efetivamente, D. João I esperava os a poucos passos da sua modestíssima tenda real, a pé, à frente dos seus fidalgos, tendo à direita aquele príncipe da igreja que nós já conhecemos, o arcebispo batalhador, D. Lourenço.

Em magotes pelo arraial, toda a peonagem disponível daquele pequeno exército, cujo efetivo total não daria hoje para uma brigada mobilizada dos exércitos de agora.

D. João recebeu com afeto quase paternal as homenagens que lhe foi prestar Ruy de Vasconcelos.

Depois Montferrat esteve a falar com uns cavaleiros ingleses que já estavam no arraial, e Ruy teve uma conferência particular com um dos seus nobres parentes, homem ainda novo, mas de grandes créditos e de boa fama de experimentado no mando da gente de guerra. Era conhecido pela sua admirável intrepidez, nunca abatida em arremetidas de temerário arrojo.

A meio da tarde chegaram as duzentas lanças que tinham acompanhado a Mugem a hoste do Condestável.

 

* * *

 

Com autorização de Álvaro Pereira, marechal da hoste, (o “marichal” como então se dizia) os Namorados reuniram-se naquela tarde em certo casarão velho, celeiro abandonado, que ficava à retaguarda, a poucos passos do arraial.

Tinham de discutir um caso importante para eles, embora aos experimentados de menos verduras juvenis se afigurasse coisa prematura e quase pueril.

Eis o caso: Tratava-se de quem tinham de escolher para ir pedir a El-Rei a promessa de com eles formar uma ala de batalha, ou costaneira, como ainda diziam os velhos na sua tecnologia militar já antiquada, e quem para o mando deveriam propor, que para tal encargo merecesse a inteira confiança de El-Rei.

Por alvitre do Magriço e de Vasco Eanes, todos eles votaram entusiasticamente que a missão e o mando fossem para Ruy de Vasconcelos.

— Generosa favor e honra insigne é a vossa, — disse-lhes comovidamente — mas eu não; eu de modo nenhum!

— Não deveis escusar-vos!

— Não podeis!

— E direito nosso escolher-vos.

— Isso é, e por muito honrado me dou com a escolha. Mas olhai que, se eu tiver o mando, não quererá El-Rei que o nosso esquadrão forme por si só uma das alas na primeira batalha em que entrarmos.

— Não quererá porquê, se em tão grande apreço vos tem pelos vossos feitos e destemido ânimo?

— Assim é! Assim é! — confirmaram muitas vozes.

— Assim será, — replicou o Vasconcelos — mas olhai que para chefe má fama criei naquele duro lance da estacada da Ribeira, que alguns de vós conheceis, e ainda pior no outro daquele dia em que os castelhanos retiraram do cerco de Lisboa.

— Isso terá já esquecido a El-Rei. São coisas do tempo do Mestre de Avis — objetou o Magriço num certo tom de gracejo.

— Pois, meus amigos, no meu ânimo confiará talvez a sua real senhoria, — volveu-lhes sorrindo — mas na minha cabeça é que eu sei que ele não confia. Ainda esta manhã mo deu a entender, bem que muitas palavras de favor me tivesse concedido. Parece-me que ainda o estou a ouvir, e olhai que o conceito é para nós todos: Pela possa lança iria eu pôr as mãos no fogo, a vossa e a dos vossos companheiros; mas pelas vossas cabeças de namorados, Deus me livrará de tal! E logo acrescentou de gracejo: Para arremetidas vos tenho por leões novos da minha hoste; porém para em vós confiar a sorte de uma batalha, andais muito na lua dos namorados e tendes o coração a mandar mais do que a cabeça para a levar consigo. Mais palavra, menos palavra, isto foi o que El-rei me disse, e já vedes que nos não dariam a honra de um lugar distinto, em que ficássemos entregues a nós mesmos, e muito menos se fosse eu o chefe. Só para formarmos ala nalguma batalha nos reinos da lua, — acrescentou sorrindo — pois é lá que nós temos o juízo, conforme o conceito de El-Rei. E olhai que o mesmo sei eu que ele já tinha dito ao meu primo Mem Rodrigues.

As razoes do Vasconcelos tinham calado no ânimo de todos.

— Quem há de ser pois, não de tal madureza danos que pareça o avô da ala, mas de tais créditos de sisudez, que não duvide El-Rei entregar-lhe a tutoria das nossas cabeças de vento? — perguntou o Magriço, entre solene e gracejador.

— Se Mem Rodrigues quisesse, visto a sua fama de homem sisudo e sem dama que lhe dê volta ao juízo... — lembrou Vasco Eanes.

— Assim ele quisesse, e estava achado o chefe para refrear os ginetes rinchões dos Namorados — acudiu o Magriço com regalada jovialidade.

— E tão d’el-rei como é, ele próprio lhe poderia fazer o pedido por todos nós — lembrou Vasco Eanes.

— Certamente e bom padrinho seria — aprovou o Magriço. E vós o que dizeis, Ruy de Vasconcelos?

— Que daqui o vou já consultar e depressa voltarei com a resposta.

— Assim será bem.

Todos aprovaram e Ruy saiu.

— Depois lá na batalha — disse um dos mais jovens, ainda sem ponta de barba — lia de ser o que Deus quiser e o nosso coração mandar, e tanto hemos de fazer, que até o próprio Mem Rodrigues não terá remédio senão parecer também um namorado jovem.

Riram da farroncaria do noviço e muito lha aplaudiram os mais estouvados daquele esquadrão singular, que faria honra aos tempos longínquos da cavalaria devaneadora.

 

* * *

 

Ruy voltou com a sua missão excelentemente cumprida e, o que mais era ainda, com o próprio Mem Rodrigues ao seu lado.

Os rapazes fizeram uma receção entusiástica ao fidalgo ilustre, a quem El Rei prezava pela admirável lucidez do conselho e pela serena intrepidez do ânimo. Tinha a calma reflexão de um velho e pouco ia além da primeira juventude.

Mem Rodrigues agradeceu-lhes modestamente a honra da escolha e a homenagem do recebimento e afirmou-lhes que do melhor grado iria fazer o pedido a El-Rei, pondo porém uma condição.

— Mandai como chefe — disse o Magriço com assentimento de todos.

— Proponho simplesmente, propor é que é, propor como vosso irmão de armas, que outra coisa não sou ainda. Para que eu tenha o direito de apresentar o vosso pedido a El-Rei, fazer-lho tomando-o pelo meu e compartilhando por vós responsabilidades, que podem ser de extremada gravidade em qualquer batalha real em que haja de decidir-se a sorte de Portugal, será preciso que pela vossa juventude aventurosa responda à palavra jurada de nobres cavaleiros que sois. Heis de jurar-me pela vossa bandeira e pelo vosso nome, como se em presença de Deus o jurásseis, que na batalha em que formardes ala, escrupulosamente obedecereis ás ordens que eu tiver d’El-Rei, evitando rompantes de cavalaria que possam prejudicar a santa causa de nós todos. Decidi, e dizei o que decidirdes.

Entre olharam-se num relancear de consulta.

Como se os tivesse entendido claramente, o Magriço falou em nome de todos.

— Jurar pela nossa bandeira e pelo nosso nome o mesmo será que jurar por tudo o que for dever de lealdade para a nossa consciência. A Ala dos Namorados estará convosco para obedecer-vos e com a sua bandeira para acabar onde quer que a batalha fique perdida para a nossa terra. Mandai tudo o que for esforço e valer sacrifício, ainda que previsto e certo sacrifício da próprio vida. Pelo primeiro mote da sua bandeira a ala tem um só coração e uma só vontade, e dentro dela a alma responde pela juventude de todos, os mais noviços e os de mais sonhos. A ala morrerá onde a Portugal for preciso que ela acabe. Creio que é isto o que todos nós sentimos e queremos!

— Todos! — Todos! — exclamaram unanimes.

— Deixai que vos lembre uma coisa, que é preciso aclarar, para que o juramento que houvermos de fazer agora não vá quebrar o outro com que uns aos outros nos juntámos — disse Ruy. Como um só corpo a ala obedecerá ao seu chefe, mas ressalva o direito dos votos pessoais e cada qual dará conta dos seus a quem tiver o mando de todos. O chefe decidirá quais votos se podem cumprir livremente, sem limite de ocasião e quais nos será dado realizar, somente quando a vitória for por nós ou a derrota for para os nossos.

— Assim tem de ser.

— Assim queremos que seja.

— Em batalha campal — continuou Ruy de Vasconcelos — o voto de todos, que no primeiro juramento se compreende, é que a ala fique, ainda que a hoste real haja de retirar ou de se render cercada. Ficará para morrer e morrerá para se não entregar.

— E eu com a ala — acudiu calorosamente Mem Rodrigues de Vasconcelos numa vibração comovida.

Os rapazes vitoriaram-nos a ambos com um fervor arrebatado, o sangue a afoguear-lhes o rosto, o coração a esvoaçar-lhes no peito, um fulgor de febre nos olhos cheios de lágrimas.

— E será esta, senhor Mem Rodrigues, meu nobre e honrado primo — continuou Ruy — a única desobediência da Ala dos Namora dos, prevista, certa, lealmente confessada. Vede vós agora e dizei se, em tais condições, nos aceitais o juramento de obediência.

— Aceito.

— Pois glorioso chefe teremos — exclamou o Magriço entusiasticamente.

Todos o apoiaram em palavras calorosa homenagem a Mem Rodrigues.

— Então podemos jurar disse Ruy.

— Todos à uma!

— E agora sobre a cruz da espada de quem nos há de mandar — propôs o Magriço.

— Já o não entendo preciso. Falou a vossa alma e eu senti que falou a verdade. Esta noite me entenderei com El-Rei e amanhã cedo sabereis a sua resposta.

Fizeram-lhe o que hoje se diria uma ovação. À saída cruzaram-se os dichotes alegres daquelas aventurosas juventudes, que juravam morrer com a mesma despreocupação de ânimo com que poderiam combinar uma batida aos javardos nas brenhas da serra mais próxima.

— Não vos dizia eu que Mem Rodrigues ainda havia de parecer um namorado, tal como nós? Aí o tendes já mudado e com o seu voto em favor do nosso.

Isto dizia para Vasco Eanes aquele noviço que já tivemos ocasião de ouvir. De dezassete anos incompletos, olhar ingénuo de adolescente, figurinha gentil de galã fidalgo, mais parecia o pajem, donzel de alguma castelã de lenda do que um campeador votado ao sacrifício da vida.

E no seu feitio gracejador, o Magriço a dizer ao Ruy de Vasconcelos:

— E há de El-Rei ver, e à custa dos castelhanos será, como as nossas cabeças de vento lhe ajudam a segurar a coroa.

 

* * *

 

Ao outro dia de manhã, mal que o sol rompeu, todos os cavaleiros e escudeiros fidalgos se foram reunir, como era costume, em frente da tenda real, para saudar D. João I e receber-lhe as ordens.

Os Namorados foram dos primeiros.

Iam com a ideia de saber o que se teria passado entre o Rei e Mem Rodrigues.

A um lado da tenda real, encimada por uma bandeira branca em que sobressaía a cruz verde, floreteada, da ordem de Avis, uma fila de trombeteiros águardava o aparecimento d’el-rei. Vestiam cotas de damasco com bordaduras de prata, como as tinham usado no tempo do rei D. Fernando, e empunhavam alto longas trompas de prata, as famosas trompas do reinado de D. Pedro I.

Para uma extrema do arraial se juntara muito peonagem a ver como os nossos besteiros e alguns arqueiros ingleses faziam barreira, ou, como hoje diríamos, exercício ao alvo, que ali se reduzia a uns barrotões velhos, cravados em fileira no solo. Contra eles disparavam frechas, virotões e virotes com os arcos, as bestas de roldana ou de polé e as de garrucha.

Causava pasmo aos nossos a pontaria certeira e a mão firme dos frecheiros ingleses. E tanto como esta justeza de pontaria, os admirava a rapidez dos tiros, pois que um arqueiro destro podia disparar dez frechas durante o tempo que um besteiro levava a arre*! Messar três ou quatro virotes.

Volvidos instantes, apareceu El-Rei com o Arcebispo de Braga, e atrás deles o Marechal da hoste e Mem Rodrigues de Vasconcelos.

Todos os cavaleiros fidalgos e escudeiros o vieram saudar a um por um. As trompas vibravam com agudo estridor.

Acabada aquela homenagem, El Rei deu ordem a Mem Rodrigues para se juntar aos Namorados e trazer-lhos à sua presença em formatura.

Assim se cumpriu, e poucos minutos depois avançavam todos eles em quatro filas, à frente o chefe e à sua direita o Magriço com o estandarte verde, que a Rainha das belas bordara. Vinham radiantes os rapazes, certamente porque Mem Rodrigues alguma boa nova lhes dera.

Fizeram alto a dez passos do rei.

— A mim me veio pedir Mem Rodrigues — disse-lhes D. João com afetuosa singeleza, quase paternal — lhe fizesse válido o cargo do vosso chefe, pois que para tal o havíeis escolhido, e por favor vos desse a promessa de formardes ala na primeira batalha que tivesse de se lutar em campo aberto contra o poder de Castela. Jovens de grande verdura danos, sonhadores de aventurosas cavalarias, sois vós todos, mas também de leal coração e arrojo de ânimo já provados. Ao chefe que escolhestes o tenho eu no mais alto apreço e vos dou por válido; responderá ele pela vossa juventude, em alguns inexperiente e em todos vós de temerária condição. Pela galhardia do vosso esforço respondo eu e com ela pode contar Portugal. Sereis uma das alas da minha hoste na primeira batalha. Está feita a promessa.

E toda aquela pequena coluna de valentes devaneadores estremeceu e todas aquelas almas vibraram em brados frementes de aclamação ao rei.

E com tal entusiasmo febril foi aquele preito de reconhecimento, de tamanho ruído, que de todos os lados do arraial acudiu gente num alvoroço de curiosidade. Até os frecheiros ingleses largaram o seu exército para saber o que era aquilo.

— Real! Real! Por D. João I, nosso glorioso rei! — bradava o Magriço no seu vozeirão triunfal, agitando na atmosfera doirada aquela manhã de junho o estandarte verde da nova ala.

E todos, num aprumo encantador, o sol a beijar os de frente como numa apoteose de lenda, foram desfilando por diante do monarca, repetindo alto, como se fosse um grito de guerra, o primeiro mote da sua bandeira.

— Pela nossa terra! Pela nossa terra!

E os outros cavaleiros fidalgos e escudeiros que tinham estado ali como espetadores, alguns já encanecidos nos combates, lhes aluíam caminho aclamando-os:

— Ala dos Namorados! Ala do estandarte verde! Boa glória vos dê Deus e carinhoso sol vos ilumine na primeira batalha em que entrardes.

— E caridosa terra nos cubra neste chão de Portugal, se a ala tiver de morrer vencida! — disse-lhes alto, comovidamente Ruy de Vasconcelos.

 

* * *

 

Entre a peonagem comentava-se o caso um pouco de chistes em dizeres pitorescos, muito no uso do povo; mas sem uma sombra sequer de má fé, antes com um certo enternecimento fraternal!

— Vamos ter uma ala de franganotes de crista emproada — dizia um besteiro já durázio. Pois bom poleiro lhes dará El-Rei e nós todos, se diante dos grande poder dos castelões eles cantarem como cantaram agora.

— Que alguns deles nem sequer ainda são franganotes, pois não passam de franganitos.

— Não; olhai que vão ali alguns que são já “frangos de souto”. (*)

 

[(*) Era uma expressão antiga que designava que já não eram pintos nem precisavam de acolher se debaixo das azas da galinha e iam procurar sustento pelos soutos (prados) e campos, afastados da mãe.]

 

— E daí — acudiu um homem de armas ainda novo — lá diz o ditado: «Mais vale um cavalo de três anos que um burro de vinte».

— Pois sim, sim — replicou o besteiro velho — mas largassem lhes de Castela as damas do paço, as mais bonitas e as mais novas, e lá se nos iria de aza de rojo a linda Ala dos Namorados.

De súbito vibraram trombetas ao longe.

— Ou lá! Serão das pessoas ali de Alenquer?

Chegava ao mesmo tempo um cavaleiro à desfilada, coberto de pó. Era um escudeiro de Fernão Rodrigues de Sequeira, carairo-mor de Lisboa, que vinha trazer aviso a El-Rei de que estavam chegando as lanças e a peonagem do concelho da cidade.

Não era caso para alvoroço, a não ser entre a peonagem. D. João I sabia que os de Lisboa deviam chegar naquele dia e o Marechal da hoste já tinha tomado as suas disposições para o acomodamento daquele reforço.

Juntou-se muita gente para ver chegar a hoste dos alfacinhas como alguns diziam de brincadeira.

As trombetas vibravam já muito perto e a poeirada que se erguia do caminho estava indicando a aproximação de avultado número de pessoas.

Ouviu-se uma vozearia enorme de aclamações e de dizeres alegres, trocados entre os que vinham cegando e aqueles que os tinham ido esperar.

O carairo-mor adiantara-se e viera falar com El-Rei ao terreiro da sua tenda onde lhe faziam companhia os homens fidalgos.

— Que gente vem convosco ao todo? — perguntou-lhe D. João I. — Senhor, bem pouca, se contarmos só os que veem suficientemente armados. Cem lanças de cavaleiros e trezentos besteiros e homens de boa peonagem.

— Bem pouca, sem dúvida!

— Ameaçada pela gente castelhana de Sintra e de Santarém e com uma armada inimiga na barra e dentro do rio, (*) Lisboa e todo ao seu termo precisavam de ficar com muito mais gente de armas, e lá lhe deixei o tresdobro de peonagem bem provida e experimentada — respondeu o Sequeira.

 

[(*) Segundo o historiador espanhol Ayala, era uma esquadra de 46 naus e 12 galés.]

Mas, senhor, atrás desses com quem muito podeis contar para empreendimentos de guerra, veem mais umas centenas da arraia-miúda, sem bacinetes, sem laudéis, porém gente de chuças e de rijos punhos, que de alguma coisa valerá ajudando os outros.

— Está bem, carairo-mor de Lisboa. Amanhã nos hemos de pôr em marcha para irmos saber por qual passo nos virá surdir a hoste real de Castela.

— A um galeote de Galiza, que há dois dias fugiu da sua galé para a cidade, ouvi eu, ainda ontem, que até da armada vão desembarcar homens de armas para virem aumentar o poder com que está para entrar ou já entrou el-rei de Castela. Conta o galeote que é voz constante a bordo que o soberano de Castela trará para cima de quarenta mil da melhor gente das Espanhas, da Gasconha e do Bearnês, e mais não sei que engenhos novos de guerra de que o galego ouviu falar aos capitães das naus.

— Pois Deus será por nós, — respondeu D. João serenamente — e nós contra todo esse poder.

— O galego ouviu dizer que os tais engenhos vomitam fogo de repente, assim como relâmpagos de uma trovoada!

— Pois a Senhora Santa Bárbara será por nós.

— E que lançam grandes pedras.

— Isso também as catapultas e as mantas, e ainda ninguém morreu de susto.

— Truenos lhes chamou o galeote de Galiza. Parece que ouviu este nome a um dos capitães e logo a explicação de que assim chamavam aos tais engenhos por troarem alto como trovões. Porém na sua linguagem galega também o galeote lhes dava o nome de trons.

— Nada falta então ao tal engenho para amedrontar os pobres chamorros! —disse o Rei de gracejo. Relâmpago, trovão e raio. E para fingimento de ventania as palavras farronqueiras dos grandes senhores das Espanhas e da Gasconha! Pois não fugiremos nós a esse temporal desfeito e daqui ire-mos observar de que lado ele vem. A gente do povo soube dessa informação?

— Espalhou se logo, meu senhor, mas parece que a gente miúda se não intimidou muito com esta nova, pois que muitos esfarrapados se ofereceram e pediram para acompanhar a hoste com as suas chuças e até mulheres fizeram igual pedido.

— Senhor Rei, se dais licença... — solicitou em castelhano o velho cavaleiro gascão, já nosso conhecido.

— Dizei, João de Montferrat.

— Eu estive, senhor, na batalha de Crécy, em que o rei Eduardo III de Inglaterra desbaratou Filipe de Valois, rei de França. Bem que já tenham passado trinta e nove anos, a memória dos trinta que eu tinha então não deixou esquecer ainda o que foi aquela terrível batalha, em que se viu por terra a mais bela e galharda cavalaria de França. Senhor, a essa batalha levaram os ingleses umas tantas das tais máquinas de guerra que vomitam fogo e fazem ruído como trovões. Aos primeiros tiros a peonagem francesa um pouco se amedrontou; mas os cavaleiros, na fúria da arremetida, mal deram pela novidade, e quem alcançou aquela tamanha vitória do rei inglês não foram os tais novos engenhos, porém os cavaleiros apeados e três mil e quinhentos frecheiros que Eduardo UI lá tinha.

Estes, sim; onde punham os olhos, punham as frechas, e derrubaram a flor da cavalaria de França. Esses tons, que dizem trazer el-rei de Castela, muito se hão de parecer com os de Crécy, que faziam muita bulha e pouco dano.

— Mas venceu quem os levava observou-lhe o Rei, baixando a voz.

— Como sem eles podiam vencer os de França, se não se apressam tanto a dar batalha quase ao cair do dia, e têm menos prosápias e leviandades de cavalaria inútil. Senhor, a mim me quer parecer que de algum proveito seria ir dizendo estas coisas aos da vossa hoste, mormente à peonagem, para que não os venha colher de surpresa o espalhafato bulhento dos tais trons.

— Também a mim me parece bem o alvitre e por tal vos agradeço.

— Posso afiançar a vossa real senhoria que os tais engenhos nada importaram para o resultado da batalha. Eu vi deitar fogo a um; deu um ronco medonho, fez uma fumaceira que cegava, e afinal lá atirou com um pedregulho redondo, a uma distância de sete centos ou oitocentos passos, ao acaso, contra umas sebes. Depois daquele tiro, que tinha levado um quarto de hora a preparar, ninguém mais quis saber do tal monstro roncador.

— E proveitoso saber-se isso, e boa lembrança tivestes, João de Montferrat. Mem de Vasconcelos, — disse alto, sorrindo — os vossos Namorados que se incumbam de contar pelo arraial isto que ouviram ao ilustre e assinalado cavaleiro João de Montferrat. Que o contem e como rapazes que são, ao mesmo tempo se não esqueçam de mofar dos trons de Castela. E vós lá que dizeis, Ruy de Vasconcelos?

— Eu digo, senhor, que a ala os irá tomar onde quer que eles apareçam, se vós lho consentirdes.

— Consinto e fica a promessa feita. Quanto mais depressa fizerem calar os tais roncadores, tanto maior proveito para nós, por causa da peonagem miúda, que é quem mais se pode assustar com a ronca.

Ouviu-se uma enorme algazarra. Era dos besteiros trocistas a vitoriarem de brincadeira a multidão auxiliar da arraia-miúda, que não trazia bacinetes nem laudéis,(*) porque não os havia em Lisboa que chegassem para esses legionários pelintras com o seu uniforme de trapos.

 

[(*) Em Portugal, como em Castela, os homens válidos e de alguns haveres eram obrigados a ter à sua custa o seu próprio armamento, que variava segundo as posses de cada um. Mas as calamidades da guerra tinham sido tão frequentes e de tal modo empobrecedoras, que nem mesmo os remediados dispunham do armamento completo com que deviam entrar em campanha.]

 

Se até entre os mais favorecidos a variedade e a velharia dos armamentos eram curiosas! Capelinas ou capelos de ferro comidos da ferrugem de oitenta ou cem anos, solhas esfrangalhadas que tinham ido ao Salado, ascumas remotíssimas que tinham estado em Navas de Tolosa.

— Viva a Ala dos rôtos! — clamavam os trocistas.

— Os guerreiros de ventres ao sol!