A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 22 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo IX · ALJUBARROTA

 

Ainda era escuro e já os trombeteiros do Condestável estavam dando o sinal de alvorada. E logo um grande borborinho por aquela veiga de Porto de Mós. Levantou-se toda a gente da vila num alvoroço cheio de receios. Por todas as adufas transluziam candeias; as ruazitas estreitas iam atulhadas de gente.

Abriram-se de par em par as portas da igreja matriz, iluminaram-se os altares e para lá foram as mulheres rezar pela boa fortuna daquele punhado de aventurados, que iam talvez morrer pela terra portuguesa.

Quantos deles estavam ali que não poderiam ver a madrugada do dia seguinte, se os castelhanos se desencurralassem de Leiria?

Na sua tenda mandara o Condestável armar um altar. Confessou-se, ouviu missa e comungou, e com eles os seus de mais afervorada devoção.

Vieram de afogadilho da ladeira do Castelo os da ala jovem. As alas iam subordinadas ao Condestável e tinham de partir com ele.

Os rapazes tinham de ir vestir as armaduras. Contavam sonhos, diziam chistes, galreavam infantilidades.

— Eu até sonhei que tinha casado — disse a rir Álvaro Eanes de Sarnache, que era o indigitado para levar a bandeira da ala.

— E eu, que já tinha meninos em Marrocos e uma sogra moira, mais feia do que eu, sultana velha de não sei quantos sultões — galhofou o Magriço por entre as risadas dos companheiros.

Do lado do alpendre de uma casita baixa, o Lobeira tomara entre as mãos uma cabecita de rapariga gentil e dizia-lhe requestador:

— Deixa-me dar te um beijo, boquita de cereja. Um só por esta sede que eu trago deles. Olha, sem maldade, para o levar comigo. Quem sabe se este o último será que eu te dê, minha rolazinha? Assim.

E deu lhe um beijo cantado e longo.

Na rua, estreita como um corredor, os que iam passando ouviram.

— Pelo chilreio, aquele que der o beijo há de ser da ala — gracejou o Magriço. E talvez fosse voto que ele fez! Acrescentou com uns ares cómicos de veneração, Alguns dos mais tunantes, mal vestiram a armadura, foram-se logo para os lados do riozito. Iam ouvir o passaredo madrugador.

Foi com eles Frederico Marival.

— Escutai como os pássaros cantam, senhor trovador de Proença. São também menestréis enamorados.

— É bela esta vossa terra portuguesa! — disse calorosamente o Marival «Agora entendo eu porque em tempos antigos tantos trovadores e menestréis da Provença aqui vieram refugiar-se e por aqui ficaram ideando trovas, ensonando canções e amando as mulheres de lindos olhos que tem Portugal. Assim o ouvi contar aos velhos da minha terra.

— E nós aqui também muitos jograis e trovadores temos tido ao modo dos de Provença, Pajens, cavaleiros, condes, infantes e até reis trovadores! — disse-lhe o Lobeira entusiasticamente.

— El Rei D. Afonso IV, o do Salado, dizem que o foi — acudiu um deles.

— El-Rei D. Diniz era cantares de amor como nenhum! Quase como o rei D. Afonso, o Sabio, de Castela, seu avô materno! — elucidou o Lobeira.

— Cantava os amores e gozava-os — comentou o Magriço a rir. Na ala temos nós uns poucos de troveiros. Ruy de Vasconcelos tem posto em trovas os pesares e as saudades dos seus amores. Outros têm cantado as nossas façanhas antigas.

— Mas os grandes tempos dos trovadores e menestréis de Provença já lá vão há muito! — disse Marival tristemente.

— Por cá ainda muito se ufanam de o ser esses que sabem a arte de trovar. E nos paços reais tiveram os nossos reis menestréis a soldo; jograis lhe chamavam.

Discretearam ainda por minutos a cerca da leda arte, da gaia ciência, e daquela poesia cantada, que foi aconchegando numa comunidade de espíritos e de corações, raças e povos, adversos interesses e fronteiras distantes, pondo sobre as mais trágicas e convulsivas noites da Idade Média um suave luar de idealidades generosas e de amoráveis sonhos.

Na volta para o acampamento, Marival entoou uma das mais belas canções da velha poesia de Provença e o Lobeira cantou uma linda serranilha de el-rei D. Diniz.

 

* * *

 

Vinha rompendo a manhã, quente e abafadiça. Pôs-se a caminho a vanguarda com as alas. Iriam tomar posição sobre a estrada de Leiria a Alcobaça, o caminho direto até Lisboa.

Montado numa possante muar de empréstimo, o provençal ia cantando uma languida trova do seu país.

Para além da veiga do Porto de Mós o caminho direito à charneca era um horror. As águas do último inverno tinham escavado barrocas a um e outro lado.

Mas não era longo aquele caminho assim. Em pouco entraram em chão mais igual, embora de mato bravio, que as soalheiras de julho e agosto tinham ressequido. Urzes altas e moitas de tojo rasteiro se enredavam por ali fora, ocultando depressões e arregoamentos do terreno.

Marchavam lentamente. Na frente de todos ia o Condestável. O seu olhar experiente de batalhador reconheceria de momento a posição melhor em que tinham de esperar os de Castela, sobre o caminho de Lisboa, de rosto contra Leiria.

Teriam andado meia légua, quando uma mulher idosa, de chuça ao ombro, criatura de forte arcaboiço, veio por um atalho, apressadamente, direita aos Namorados.

— Senhor Ruy de Vasconcelos? — chamou num vozeirão másculo. De Lisboa vos trago notícias e recados da vossa Mãe e senhora minha, D. Dulce.

Ruy conheceu-a logo. Voltou o cavalo e foi para ela. Era a tia Lourença, aquela a quem a arraia miúda da capital chamara a capitoa e o condestabre das mulheres, durante o último cerco.

— Vós por aqui!

— É verdade, meu senhor. Mau foi que me acostumasse a ser homem contra os cães gadelhudos de Castela. De vossa Mãe me fui despedir e dela vos trago recados cheios de saudade.

— Não vos pareceu mais enferma, não?

— Reza por vós, e lá está resignada à espera do dia em que lá voltareis vencedores. E foi pra ver como isto se decide que eu deitei até cá, e mais umas companheiras minhas do tempo do cerco. Ontem ficámos sonegadamente numa aldeia ao pé de Porto de Mós, e hoje aqui vimos atrás da Ala dos rotos, que é como já chamam os gracejadores à nossa arraia-miúda. Mas, por favor, não digais nada ao senhor Condestabre. Ele não quer mulheres atrás da hoste, e mandaria que nos corressem de cá para fora. E é isto o que nós não queremos.

— Ficai descansada. Por vós lhe pediria eu, se ele de tal soubesse.

— Muito agradecida, meu senhor. Isto de eu aqui vir é devoção. Não quero que Deus me leve sem eu ver uma batalha real, e se os nossos ficarem bem, hei de ser eu quem primeiro há de levar a boa nova a Lisboa e à senhora vossa Mãe. Perdoai e que a nossa Senhora da Vitoria vai à vossa companhia.

— Até depois — disse-lhe metendo o cavalo a trote para ganhar a distância em que se atrasara da ala.

De onde em onde, aprumavam-se esguios, naquela chapada bravia, uns pinheiritos novos.

— Lenha já nós aqui temos para assar em postas os bois que veem puxando os trons roncadores — gracejou o Magriço.

No coruto de um pinheiro mais alto e mais distante, um donairoso melro assobiou o seu estribilho de boémio madrugador.

— Ora viva lá, namorado amigo, jogral de bico amarelo — galhofou o Lobeira, fazendo-lhe um gesto de saudação.

— Está a assobiar pela sua dama, o tunante! — acudiu o Magriço. Bisneto será de alguma velha melra do tempo do senhor rei D. Diniz. Pois que venha cantar-nos a alvorada de amanhã, se os castelhanos vierem hoje ver-nos e os engenhos trovejantes nos não espedaçarem, como deseja sua senhoria el-rei de Castela e o tredo vilanaz de Antão Gonçalves.

— Meus amigos, — disse um dos rapazes — quem hoje acordou mais cedo fui eu, e de passeio deitei até à beira do riozito Lena. Lá, sim, debaixo daquelas árvores é que era ouvir a cantoria do passaredo.

— Cantavam as vésperas da senhora de Agosto, pois que amanhã é o seu dia — acudiu um mais devoto.

— Alto! Saiam daí! — bradaram da vanguarda.

— Que é?

— Alto porquê?

— Foi o Condestável quem mandou.

 

* * *

 

Nuno Álvares escolhera a posição em que a pequena hoste devia esperar o exército inimigo.

Parecera-lhe aquela a melhor para uma batalha defensiva. Tinha um áspero e forte relevo sobre a baixa do Lena e para os lados de Aljubarrota se estreitava consideravelmente, formando uma garganta, sobranceira à chã agreste da charneca.

Dominava a estrada para Alcobaça e, portanto, a única direta para Lisboa. Por ali teria de desembocar a hoste de Castela para ir tomar a explanada de Aljubarrota e seguir contra a capital.

Cingido de um e outro lado, a pequena distância, por dois ribeiros, afluentes do escasso rio Lena, aquele empolamento do terreno lembrava uma grande cunha com a base para o lado da estrada de Leiria e o gume sobre a chã bravia. Meseta (pequena mesa) lhe chamou Ximenes de Sandoval, cerca de quinhentos anos depois.

Na estação das chuvas os dois ribeiros seriam como fossos aquáticos daquela posição; mas naquele mês apenas representariam valias esbarrocadas e quase enxutas.

Os intensos calores de julho, e agosto os haveriam reduzido a regatos, que uma criança de oito ou nove anos facilmente poderia transpor com uns fios de água dormente por cimo dos artelhos.

Em cima daquele planaltozito deviam ficar bem juntos, como nos terraplenos de uma fortaleza, os seis mil e quinhentos combatentes que iam opor-se aos trinta e três mil do rei de Castela.

Não contamos para um e outro exército os auxiliares de menos valia e os não combatentes que traziam. Uns doze mil do lado dos castelhanos; talvez dois mil do lado dos portugueses.

Detidamente examinado o terreno, o Condestável mandou avançar a sua hoste e logo tomou as disposições necessárias para uma ocupação defensiva, que o tornasse menos acessível ás arremetidas da cavalaria inimiga, numerosa e formidável.

Presume-se que dos ingleses auxiliares, uns duzentos se tantos, alguém lembrou a conveniência de fazer uma ligeira estacada, talvez para o cercado (curral) das bagagens e dos não combatentes. Aceito o alvitre, homens de machados teriam ido ás extremas da charneca deitar a baixo os pinheiros pequenos para a estacaria.

A distância de Porto de Mós até ali era de uma légua escassa e por isso, apesar da lentidão da marcha por causa das bagagens, a hoste do Rei chegou quando vinha a nascer o sol.

 

* * *

 

Tinham todos tomado as suas posições de rosto para Leiria.

— O sol! O sol! Como ele vem hoje lindo! Até parece que traz mais ouro! — exclamou o Lobeira num êxtase de poeta.

— É para dourar os nossos arneses de cavaleiros pobres — respondeu outro.

— E para aquecer os ventres àqueles da Ala dos rôtos — disse o Vasco Eanes, indicando para a retaguarda a peonagem dos farroupilhas, que não traziam bacinete, nem solha de chapas de ferro.

— Coitados! Também só se for o sol, que o almoço nenhum calor lhes dará.

— Nem a eles nem a nós — interveio o Magriço.

— E se aqueles birbantes dos castelhanos não jejuam como nós, então até nisso os favorece o demo! — disse Vasco Eanes.

— E talvez não favoreça, — acudiu o Magriço de galhofa. Com a fome que eu já estou, até seria capaz de manducar em cru as alcatras dos bois que vierem puxando os seus truenos, e com maior gana os hei de atacar.

— Jovens, — veio avisar um escudeiro dos Namorados — sabei que El-Rei está armando cavaleiros os escudeiros de armas que lhe propõem esses que, pela sua qualidade e bons serviços, os vão apadrinhar.

— Pois vamos nós la também com alguns escudeiros da nossa ala — disse Ruy de Vasconcelos. A vós, Afonso Rodrigues, vos proponho eu, — disse para o Baticela, aquele escudeiro beirão que levou a Lisboa a notícia da batalha de Trancoso e o Vasconcelos teve em casa como seu hóspede.

— Grande e honrado favor me fazeis e por ela vos beijo as mãos.

— E eu vou apadrinhar o nosso beijocador — disse o Magriço. Além de não ter nada de peco, é da ala o que furta beijos com mais denodo e os da mais bem cantados. Jovem, não vos turbeis como se vos levantassem algum falso testemunho. Eu ouvi aquele beijo que deu honra à ala, e notei depois que a rapariga roubada tinha um palminho de cara de fazer apetite a um franciscano. Beijos assim quebram o jejum; mas tal não direi eu a El-Rei, mormente se com ele estiver o senhor Arcebispo de Braga, o mais glorioso homem que tem dado a Lourinhã. (*)

 

[(*) D. Lourenço Vicente, o famoso prelado batalhador, era natural da Lourinhã.]

 

— E pior seria — respondeu lhe o brejeiro com uns ares de ingenuidade agarotada se o dissésseis era presença do senhor Condestável!

— Esse então, se o soubesse, nem para escudeiro vos queria!

Riram do caso, e lá foram uns poucos apadrinhar os escudeiros de melhores antecedentes que havia na ala.

Naquela conjuntura não os podia El-Rei fazer cavaleiros com o longo e ostentoso cerimonial da boa cavalaria. Ali apenas podia ser e foi uma resumidíssima formalidade.

Tocava-lhes com a lâmina da espada no ombro, tiles de joelho em terra; exortava-os a empenhar todo o seu esforço e a própria vida em defesa da pátria, cuja sorte se iria talvez decidir ali, recordava-lhes o dever de lealdade que tinham de guardar ao rei e à bandeira, dever que eles juravam cumprir, e logo os declarava cavaleiros. Deste modo foram armados trinta e oito em três grupos.

 

* * *

 

Resumia-se em bem pouco a investidura dos cavaleiros nos campos de batalha. Fora destas circunstâncias, estava sujeita a umas regras e pragmáticas de grande solenidade e tinha um largo cerimonial de preparação.

Em condições normais, o donzel, filho de um homem de prole, estava nas circunstâncias de ser investido na categoria de escudeiro de armas logo desde os quatorze anos. Alguns o foram com menos idade, como D. João, Mestre de Avis, e Nuno Álvares Pereira.

O donzel era levado para diante de um altar com as suas vestes de pureza, um círio aceso na mão, acompanhado pelos pais, pelas damas da corte ou do solar, e pelos seus apadrinhadores.

Um padre abençoava a espada que destinavam ao neófito e solenemente lha entregava.

Depois os padrinhos punham-lhe as esporas de prata e as madrinhas cingiam-lhe a espada e lhe vestiam algumas ligeiras peças da armadura.

E assim ficava escudeiro de armas, diretamente subordinado ao rei, ou ao rico-homem, senhor nobre, a quem se votara servir.

Por beneméritos serviços, por algum assinalado feito ou por simples paga de galardão, podiam-lhe dar a investidura de cavaleiro, algumas vezes o próprio soberano ou o mestre de uma ordem de cavalaria e, na maior parte dos casos, qualquer outro fidalgo que já tivesse o grau de cavaleiro.

O neófito preparava se para este ato em jejuns e orações purificadoras. Confessava se, recebia a eucaristia e velava as armas durante uma noite, orando. E neste breve noviciado de iniciação o acompanhavam os apadrinhadores e um ou alguns sacerdotes.

Concluídas estas devoções penitenciais, o levavam perante um altar com a espada suspensa ao pescoço por uma charpa. Ali a desprendia ele e entregava ao padre consagrante, que lha abençoava e restituía. O escudeiro ia então ajoelhar-se diante do rei, ou daquele que pela sua categoria e direito próprio o podia armar cavaleiro.

Respondendo por negativas formais ao breve interrogatório de suspeições que lhe fazia o investidor a respeito dos seus propósitos de abnegação, de honrado esforço e devotados serviços à fé cristã, o neófito jurava solenemente sobre a espada nua do rei ou do cavaleiro interrogante, manter e servir a religião de cristo, à custa da própria vida, proteger os indefesos e as mulheres, defender e sustentar desinteressada e lealmente as mais brilhantes e generosas tradições da enobrecida cavalaria em que ia ser admitido.

Aceito este voto jurado, os cavaleiros seus apadrinhadores, e quase sempre as nobres damas e donzelas da corte ou do palácio solarengo, lhe vestiam então as diferentes peças da armadura. Era ás vezes a senhora da mais alta qualificação quem lhe cingia a espada e eram as damas ou os padrinhos que lhe substituíam as esporas de prata de escudeiro pelas outras douradas, que eram distintivo dos cavaleiros fidalgos.

O novo cavaleiro curvava-se diante do investidor, e este, de pé, por três vezes lhe assentava de prancha a espada sobre o ombro ou sobre a nuca, dizendo-lhe: «Em nome de Deus, de S. Jorge e de S. Miguel, vos faço cavaleiro: sede honrado, intrépido e leal.»

E depois tocava-lhe na face com a palma da mão.

Simbolizava isto a derradeira injúria que ele devia sofrer sem tomar esforço.

Esta solenidade terminava quase sempre num torneio ou em corridas de cavalaria, em que o iniciado floreava a sua perícia de homem de armas e as suas gentilezas de cavaleiro.

Esta era, a largos traços, a regra e o cerimonial a que podemos chamar clássico. As variantes, que não eram pequenas, provinham de circunstâncias diversas, conforme os países, a ocasião e as condições especiais de quem conferia ou recebia a investidura.

 

* * *

 

Eram 10 horas. O sol estava uma brasa; os bacinetes e os arneses escaldavam.

Passavam bandos de pássaros a fugir para a frescura dos pinhais distantes, e ondulava nos ares uma poeira fulva como se o sol a tivesse sacudido da sua resplandecente juba.

El-Rei foi à vanguarda ter com o Condestável. D. Nuno andava a animar a sua gente e a recomendar a todos que recebessem as arremetidas de pés bem fincados no chão e lanças bem firmes debaixo do braço para vararem os peitos dos cavalos, enquanto os besteiros e os frecheiros ingleses, de frente e de revés, crivassem de frechas e virotes os cavaleiros e a peonagem que viesse depôs eles.

E agora já falava nos trons à gente plebeia da sua hoste para a deixar de sobreaviso.

— Roncas de Castela é que eles são. Não tenhais medo. São engenhos de fazer bulha e fumo para assustar mulheres. Maior e mais certeiro dano fazem os virotões dos besteiros de Castela, e ainda ninguém fugiu deles. Nem vos receeis da multidão que eles trazem. Muitos milhares deles são serventuários, azeméis, gente de carriagem. Aqui tenho entre vós alguns que foram comigo nos Atoleiros. Eramos lá um contra cinco e ninguém teve medo. Deus foi por nós e de tal modo vencemos, que era espanto ver como eles fugiam! Aqui há de querer Nosso Senhor que o mesmo suceda. Ponde a alma com ele e os olhos nesta nossa bandeira, e bom ânimo de portugueses será o vosso para os baterdes daqui para fora como a javardos bravios.

Os peões humildes ouviam-no enternecidamente, num pasmo de devoção religiosa, como se fosse um santo a falar lhes, daqueles santos batalhadores que vestiam armadura. E lembravam-se do S. Jorge da bandeira daquele jovem Condestável, que já sabia bem o que era vencer uma batalha.

— Viva o nosso Condestabre! A melhor lança que tem Portugal! — bradaram num enrouquecimento de comoção, olhos rasos de água.

El-Rei chegou.

— Estou admirado por faltarem aqui os da Beira! — disse D. João baixo para Nuno Álvares.

— Depois de receberem o vosso recado! — notou o Condestável. Vem ali Diogo Lopes, pergunta-lhe vós, Senhor, pelo filho e pelos seus vizinhos da Beira, a ver o que ele vos responde.

Diogo Lopes Pacheco, um dos acusados pelo assassínio crudelíssimo de Ignez de Castro, era um octogenário acabrunhado pelos desgostos do tempo em que andou homiziado e com a vida a preço. A energia moral é que era nele indomável. Insistira em vir com a hoste, apesar da escusa que lhe dava El-Rei.

— Diogo Lopes, — disse-lhe D. João I — que me dizeis vós dos homens da Beira?

— Dos outros vos não sei falar, senhor Rei, porém, se João Fernandes Pacheco é bem meu filho, rei e senhor, ele virá pela sua honra e dever, ou eu cá. Ficarei por ele.

— Pois mais certo será então contar convosco.

E, como para atenuar a mágoa do velho, acrescentou logo:

— Ou lá pela Beira estarão já em luta com a hoste do Infante de Navarra, se é certo que ele vem de reforço a el rei de Castela?

— Tardam! — disse o Condestável, de olhar cravado no caminho de Leiria-

— Talvez ainda não queiram desencurralar-se de lá — lembrou o Rei.

De súbito se ouviram trombetas dos lados do caminho de Porto de Mós.

— Serão eles? Mas daquele lado!

— Só se for algum troço de castelhanos para nos armar cilada!

— Homens! — gritou o Condestável para a sua gente. Firmeza de ânimo, e seja o que for.

Sentiu-se mais perto uma tropeada de cavalos, e na orla da charneca, pelo caminho de Porto de Mós, esvoaçou um balsão fidalgo.

— Pelas cores que tem, aquele será o pendão do vosso filho, senhor Diogo Lopes! — gritou Afonso Rodrigues Baticela.

— S. Jorge e Portugal! — gritaram do esquadrão que vinha de galopada pela charneca dentro.

Eram sessenta cavaleiros de lanças com os cavalos brancos de escuma. Atrás deles arrastavam se esbaforidos, estropeados, uns cem homens de peonagem, muitos deles sem bacinete nem peito de ferro, varapaus ferrados e foices ao ombro.

— Os da Beira somos e aqui nos tendes! — gritava na frente João Fernandes Pacheco.

— Senhor, o coração não me enganava! — disse ao Rei o velho Diogo Lopes com os olhos rasos de lágrimas.

Milhares de vozes repetiram o pregão de guerra que os beirões tinham soltado.

— Bem vindos sejam os da Beira! — clamaram da hoste real.

— E mais os seus fidalgos, que derrotaram os castelhanos em Trancoso — bradaram os da Ala dos Namorados.

Entraram os beirões no campo da hoste. Os peões vinham arrasados e muitos tinham ficado para traz, estiraçados pelo caminho.

— Em boa hora vindes, amigos beirões! — disse o Bernardo Pingueiro aos que foram incorporar se na Ala dos rotos. Mas muito estrompados, louvado Deus!

— Vinte léguas, entre dia e noite, desde ontem de madrugada! — disse um deles a resfolegar penosamente, o rosto a esbagoar suor, o peito da solha negro da poeira. E milagre foi cá deitarmos!

— Pois em boa ocasião chegais, mas se vindes ao cheiro do almoço, oh irmãos, ficais a aguar! Aqui todos nós estamos em jejum natural.

E logo baixo, de troça para outro:

— Menos eu, que pelo caminho vim a comer dois punhados de amoras dos silvados. E foi comer e beber. O sumo era vermelho como o nosso vinho da encosta de Almofala. Enganei as saudades que dele trazia. E daqui a pouco estaremos assados e estorricados, que nem carapaus miúdos, debaixo deste sol de brasas!

Entretanto, o João Fernandes Pacheco dizia abraçando o pai:

— E vós aqui também!

— Então, mesmo assim velho, onde havia eu de estar? Isto é dever de todos.

E indicando o Rei, que estava então falando com os Cunhas (Martim Vasques e Gil Vasques) e com Egas Coelho, os fidalgos da batalha de Trancoso, o octogenário acrescentou com encantadora simplicidade:

— Filho, que havemos nós de fazer, senão ajudar este homem a defender este reino!

Foram para junto do Rei e João Fernandes contou-lhe a marcha de arrancada que tinham feito para chegar a tempo. Do coração da Beira para Coimbra, dali a tomar, a Ourem, a Porto de Mós e de lá, com a peonagem quase esmorecida, os pés em sangue, e metade dos que trouxera, estropeados pelo caminho.

— Senhor, íamos caindo em poder dos castelhanos! — informava o Pacheco. Adiantava-me para uns oiteiros no intento de ver se a batalha se haveria já travado e seria para os lados de Leiria, quando demos fé de ginetes à mourisca, que andavam por ali como em reconhecimento daqueles sítios. Também eles nos divisaram e como que pareciam surpreendidos. Vieram avançando a passo, enquanto uns poucos deles deitaram para traz à desfilada, certamente para levar a notícia do encontro. Muito ao longe se levantou uma tamanha nuvem de poeira, que tudo encobria em guisa de névoa! Para lá se sumiram os que tinham partido à desfilada. Depois, uma aragem desfez aquela nuvem e eu vi a grande multidão que subia aos cabeços, atulhava o caminho e vinha galgando os oiteiros, enxameando pelos pinhais, transbordando pelas baixas fora, assim como se fosse a cheia de um grande rio!

— Era a hoste de Castela! — disse El-Rei.

— Senhor, outra coisa não podia ser! O sol, a surgir, já se lhes espelhava nos bacinetes e nas pontas das lanças.

— Então devem estar chegando.

— Veem muito vagarosamente e, de vez em quando, param esperando uns pelos outros. Os caminhos trilhados não chegam para tal multidão! Mal que isto vi, voltei para a nossa gente à rédea solta, e para aqui viemos.

— Pois bons companheiros nossos heis de ser vós, os da Beira. Já cá tinha os do cerco de Lisboa, alguns dos Atoleiros, alguns que venceram no Minho; boa conta nos faz esse punhado de homens que desbarataram os castelhanos em Trancoso.

— Punhado de homens, bem o dizeis, Rei e senhor. Não podíamos trazer mais, sem deixar ao desamparo de gente de guerra todas aquelas terras da Beira, já ameaçadas pela hoste de D. Carlos de Navarra.

— Eu sei. Coisa semelhante me sucedeu entre Douro e Minho. Foi escasso o número dos que de lá trouxe, para não deixar aquelas terras desguarnecidas. Descontai agora a gente que se não podia tirar das muitas vilas que ainda estão por D. Beatriz, e Santarém entre as de mais povo, e aqui tendes porque eu trago comigo pouco mais de metade da gente que teve o senhor D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, vai em trezentos anos.

Chegou o velho Montferrat.

— Senhor, venho fazer-vos uma profecia. Tende por certo que esta batalha a heis de vencer vós. Em cima deste pequeno outeiro os vossos homens estão resolutos; são muralhas de sangue que mais valem ás vezes que as outras de pedra. Movem-se para aonde convém que se movam. Tenho entrado em sete batalhas campais, esta será a oitava, e nunca vi homens de tão alegre parecer, sendo tão poucos à espera dos muitos com quem hão de lutar. Dizem gracejos os esfarrapados da peonagem e aqueles rapazes da Ala dos Namorados fariam inveja ao rei Artur e aos seus cavaleiros de novela. Senhor, só se de todo vos desamparasse Deus, perderíeis a batalha que esperais.

— Em Deus confio e, se a profecia sair certa, boas alvíssaras vos hei de dar.

— Senhor, se a morte, invejosa de tamanha graça, — volveu-lhe o gascão — se não opuser a que eu as receba.

O Condestável veio da vanguarda num alvoroço de júbilo.

— Já se percebe a tropeada distante dos cavalos, e para a extrema do caminho, até onde os olhos podem alcançar, se levantam nuvens altas de pó Rei e senhor, é enfim a hoste de Castela que chega!

— Pois grande véspera terá este ano em Portugal a Senhora da Vitória. Conde, vamos lá ver como eles aparecem.

Meteu o cavalo a par do mulo em que o Condestável andava montado e foram para a vanguarda. Daquela parte mais alta do outeiro descobria-se melhor um largo trecho da estrada.

Os Namorados fizeram aos dois uma aclamação entusiástica.

As nuvens de poeira avançavam um pouco mais, mas de repente imobilizaram-se na baixa da estrada, cerca de meia légua do ribeiro da Calvaria.

— Parece que pararam! — disse o Condestável numa desafogada impaciência.

O Rei estava de olhos fitos no caminho. Um dos escudeiros de D. Nuno veio dizer-lhe que, do lado oposto à ala esquerda, a coisa de um quarto de légua, nos barrocais de um pinhal se divisavam uns vultos de mulheres.

O Condestável, cheio de estranheza, foi ver. Faziam acenos. K já uns três ou quatro Namorados tinham vindo da direita para as observar. Os arqueiros ingleses faziam-lhes de cá momices agaiatadas.

Contiveram-se assim que o Condestável chegou.

— Mulheres de aventura e má nota hão de ser, — disse Nuno Álvares de rosto avincado — mas, por Deus, que se os castelhanos se demoram, dali as mando escorraçar.

— Senhor Condestável, uma daquelas mulheres sei eu que vale pelo mais destemido homem. É uma velha que a minha mãe recebia na sua casa e eu muito conheço do cerco de Lisboa, onde pelejou contra os de Castela e uma vez foi gravemente ferida.

— Está bem, Ruy de Vasconcelos. Isso me basta saber.

Ruy ainda lhe contou outros pormenores a respeito da tia Lourença.

Entretanto, na frente, o Rei notava com estranheza que o exército inimigo não avançava.

— Os vagares com que eles vêm!

Mas, como se o quisessem desmentir, surgiram fortes esquadrões de ginetes à mourisca, em galopadas pelas ladeiras, a larga distância da estrada, para um e outro lado. Era já meio dia. O sol queimava.

— Ora graças que chegam! Ide dizer ao senhor Condestável que estão avançando — disse El-Rei para um dos escudeiros.

Os ginetes inimigos vieram de carreira para a frente do caminho e para um e outro flanco se espalharam chusmas numerosas de besteiros, uns dois mil talvez.

— Agora essas lanças bem firmes, depressas os virotes e as frechas e alma resoluta, homens de Portugal! — gritou D. João.

Ouviu se um rumor soturno de vozes, cortado pelo ruído de armas que se moviam. Águardava-se a investida.

O Condestável chegou da retaguarda.

— Está cada qual no seu lugar — disse ao Rei.

— Anão serem os da cavalaria à mourisca, os outros estacaram ali na baixa. Enchem-na de lés a lés, a perder de vista! — observou o Arcebispo de Braga.

Era um dos do estado maior do Rei aquele prelado combatente. Sob a sua armadura de campeador a roqueta prelatícia, na cimeira do bacinete, em vez de plumas, uma pequena imagem da Virgem, de prata dourada.

A seu lado, um clérigo de sobrepeliz com uma alta cruz de prata.

— Melhor! Melhor! — disse D. Nuno, volvendo para o céu os seus olhos azuis de místico sonhar.

— Só aquela cavalaria de ginetes — notou Montferrat — e mais numerosa que toda essa que tendes aqui, senhor Rei. Fiai da gente apeada o melhor da vossa batalha, como os ingleses em Crécy e Poitiers. Em Crécy, senhor Rei, vi eu menos de trinta mil ingleses pondo em desbarato setenta mil da hoste de el-rei de França, Filipe de Valois. Foi também no mês de agosto e quase ao fim do dia. Tinham boa ordem, excelentes arqueiros e quem os mandasse bem esses que ali venceram.

— Era de pouco mais do dobro a hoste de França, — objetou-lhe o Rei a meia voz — e aqui os de Castela hão de ser cinco vezes os nossos!

— Grande desigualdade, por vida minha! Muito maior ainda que em certa batalha que eu ouvi contar aos velhos de Flandres cheios de orgulho por ela. Por traz de um canal, vinte mil flamengos venceram 47000 franceses de Roberto de Artois. Mas, por tudo isto, vos aconselho, Senhor, que pelejeis de pá em terra, bem firmes aqui, tomando a lição daquelas batalhas.

— Temos lição de casa, messire João de Montferrat — acudiu o Condestável. Nos Atoleiros mandei apear todos os meus cavaleiros e aqui o mesmo será, que assim o decidiu El Rei comigo. E se vencermos, o feito valerá mais que esses dois de que vós falastes.

— Como vejo ainda a cavalo todos os fidalgos da hoste...

— A seu tempo hão de pôr pé em terra, — explicou-lhe o Rei afetuosamente — pois que, por quantas informações eu tive, bem sabia já que eles trazem talvez oito vezes tantos homens de armas a cavalo como eu aqui tenho, que não passam de mil e setecentos.

Percebeu-se um movimento de surpresa e uma certa hesitação nas avançadas inimigas, mal descobriram bem a pinha de homens que ocupava o outeiro.

— E ali se ficam! — exclamou o Condestável numa impaciência nervosa.

— Andam então aqueles gafanhotos amouriscados aos saltos a fazerem-nos negaças de longe! — disse o Arcebispo com o seu feitio jovial, apontando os esquadrões dos ginetes.

Evidentemente as primeiras colunas dos castelhanos águardavam qualquer resolução superior. Entretanto, mais de mil ginetes galopavam para além do ribeiro da Calvaria, sobre a esquerda dos portugueses, e foram ladeando ao largo, na direção da chapada de Aljubarrota. Iam reconhecer o terreno, provavelmente.

Pouco depois voltavam para traz à desfilada, e as primeiras massas da hoste começaram a deslocar-se para a sua direita e foram subindo lentamente, a um quarto de légua para além do ribeiro.

Viam-se bem do cimo do outeirozito.

— Escapam-se-nos! — rouquejou o Condestável, gesticulando num assomo de desespero.

— Ou vão tomar-nos o caminho de Lisboa, ao largo e pelo seguro! — lembrou o Arcebispo.

— Não podemos ficar aqui pasmados. Temos de ir sobre eles! — disse impetuosamente D. Nuno.

— Deixai ver, deixai ver se lhe percebemos o intento — volveu-lhe o Rei serenamente. Vamos para a retaguarda observar o caminho que seguem.

E foram rapidamente para o lado da charneca.

 

* * *

 

— O pesar do demo, que se nos vão embora sem lutar! — disse alguém na arraia da peonagem.

— É que irão primeiro jantar a Aljubarrota. Isto há de passar já do meio dia. É boa hora. Voltarão depois de jantar, e ainda nos apanham em jejum! — dissera com o seu feitio jocoso o Bernardo Pingueiro.

— Afastam-se de nós! — exclamou Ruy de Vasconcelos para o Magriço. Ou então levam o intento de nos investir pela retaguarda, mais desafogados na charneca.

— Pois olhai que não é outro o seu intento!

— Ou, como trazem tanta cavalaria, — lembrou Vasco Eanes — talvez queiram seguir sobre Lisboa, pondo sete ou oito mil de cavalo na sua retaguarda, a esperarem que nos mudemos daqui para irmos na sua perseguição. Ali na chapada de Aljubarrota, ou na baixa de Alcobaça, não seria maravilha que os seus tantos milhares de cavaleiros derrotassem os nossos poucos de acavalo e toda a peonagem nos esbandalhassem.

— E a gente de pé ainda mais que a de cavalo! — indicou o Lobeira. Vão encher a charneca de lés a lés!

Era um espetáculo assoberbador para os escassos sete mil combatentes do rei de Avis aquele da multidão armada, descrevendo lentamente com as suas colunas irregulares, e profundas, uma grande curva para os lados da planura de Aljubarrota, semi velados a espaço por nuvens de poeira, densas e altas.

E todavia, ainda gracejavam e riam os pobres chamorros em jejum, encurralado naquele outeirozito, reduto sagrado de uma bandeira em que a alma da pátria esvoaçava palpitante!

Vinha desfilando de longe a massa enorme dos não combatentes, entre alas dobradas de besteiros e esquadrões de ginetes. E com eles setecentas carretas, récuas intermináveis de azémolas carregadas e oito mil cabeças de gado para sustento da hoste.

Eram deliciosos os comentários dos rotos.

— Gentes, olhai que eles trazem mais bois e carneiros do que nós temos aqui de homens armados!

— E aqueles, pelas armas, contam-se pelo dobro.

— Cada boi duas lanças — acudiu o Bernardo Pingueiro. Mas fazem mal esses asnos castelãos neste alardo à nossa reveria. Com a fome com que a gente está, depressa nos vamos esquecer de tanta cavalaria, e somos capazes de vencer a batalha só para nos atirarmos aos bois. Um boi pra cada um e ainda podíamos levar carne pra Lisboa! Eu não matava o meu; escarranchava-me nele e assim entraria na cidade, a levar-lhe a nova da vitória.

— Olhai! Aquelas bisarmas em cima de carros!

— Serão os trons?

— Isso sim! Daqui se está a perceber que são caldeirões — explicou o sapateiro. Ali é que eles fazem a batelada, o bazulaque (*) para aquela canzoada toda.

 

[(*) Guisado do fígado e bife de vaca.]

 

— Mas os tais trons é que a gente ainda não viu!

— Vi-os eu. Já lá vão pra diante. Cada zorra a quatro juntas de bois com os trons em riba! Mas não se viam bem por causa do pó e dos muitos de acavalo que iam em volta deles.

— E aquela capelinha que já lá vai adiante!

— Capelinha?!

— Sim. Em cima de um carro de mulas. Talvez seja do rei deles para as suas devoções. E foi ao pé da capelinha que divisei umas poucas de andas. (*)

 

[(*) Liteiras de varais.]

 

— A essas as vi eu. Talvez levem damas.

— Reparai agora, lá adiante, naquelas tantas plumas da fidalgaria deles! Parecem bandos de pássaros de muitas cores, a voar!

— E os pendões e as bandeiras! Tantos, que chegavam bem para cobrir a Rua Nova de Lisboa! E a luzir neles o oiro e a prata, que até faz encandear a vista!

— Não, com o sol que está, o que mais luz são aquelas ricas armaduras que eles trazem. Quando ali passaram em frente, até os olhos se doíam de tamanho brilho!

— Cá os nossos, à vista daqueles, ainda fazem menos vista que os nossos trapos ao pé da armadura d’el-rei!

— Logo, com o sangue, é que se há de notar quem faz mais vista.

 

* * *

 

Assim que El-Rei viu completo o movimento torneante dos castelhanos e a sua primeira linha a tomar formatura na charneca, de rosto para a gargama do outeiro, a pouco mais de um quarto de légua de distância, percebeu logo que o intento deles seria atacar a posição do lado da planura.

Tinham evitado um ataque de frente pelo terreno de maior relevo e aspereza e buscavam aquele, plano e fácil, onde a sua poderosa cavalaria mais desafogadamente se podia desenvolver. Cortavam assim o caminho de Lisboa aos portugueses e ficavam em condições de impor-lhes uma derrota inevitável, se caíssem na louca temeridade de abandonar o seu cerrado.

El-Rei mandou fazer uma mudança de frente, movimento perigoso naquela conjuntura, se a primeira linha inimiga imediatamente os investisse.

Fez-se cautelosamente. A hoste do Rei abriu ao centro uma clareira por onde as bagagens e a peonagem dos rôtos foi rapidamente ocupar a primitiva frente. Depois a antiga vanguarda e as alas convergiram para a nova frente por aquele caminho interior. Efetuado este movimento, a gente do Rei fechou a clareira aberta ao centro, constituindo outra vez a segunda linha de batalha.

A garganta daquele empolamento do terreno, cingida pelas (.luas linhas sinuosas dos ribeiros, reduzidos a uns fios de água, mas com os leitos um pouco embarracados pelo último inverno, não se podia prestar a uma frente de ataque superior a três mil passos. Todavia a cavalaria ligeira e os besteiros facilmente conseguiram transpor aqueles obstáculos e a investida de frente podia conjugar-se com ataques de flanco e pela retaguarda, intentados pelos ginetes e pela peonagem.

Os de Castela podiam atacar de frente, em cunha, embebendo-se pelo outeiro dentro; seria uma enorme cunha de quinze ou dezoito mil homens com uma base de desenvolvimento de quase meia légua e um gume em que a extremidade fosse representada por trezentos a quatrocentos cavalos.

Sem delongas na investida, o desastre dos portugueses seria inevitável, sobretudo durante a mudança de frente, e então os castelhanos resgatariam o erro temerário da sua marcha de flanco, apenas justificável por saberem, como decerto sabiam, de qual escassa cavalaria dispunha o rei de Portugal.

 

* * *

 

— Tudo pé em terra! — mandou D. João.

E ao Marechal recomendou fosse ordenar a melhor defesa do terreno onde se tinham ido acolher agora os não combatentes e as bagagens, por efeito daquela mudança de frente.

— Ruy, que vos parece a volta dos castelhanos e qual intento lhes supondes? — perguntou-lhe o Magriço.

— Parece-me que à frente que tínhamos a não podiam facilmente investir de rosto os cavaleiros de Castela por aquele terreno alto e de ribanceira. Agora, deste lado, a entrada que defendemos está mais exposta ás arremetidas dos seus cavaleiros, que têm ali para diante chão plano por onde se desafoguem, se o souberem aproveitar. Se os trons alguma coisa valem, mesmo da planura nos podem enfiar os pedregulhos por esse portelo dentro contra a pinha de homens que somos aqui. Se eu fosse de Castela e alguma coisa mandasse, punha os trons ali na chã, de boca para nós, e quando eles tivessem assustado mais a peonagem de cá, atirava aqui para cima o enxame de besteiros que eles trazem. Serão quase dez vezes os que nós aqui temos.

— E aquela tanta e soberba cavalaria que têm ficava de pé nos estribos a ver como nós nos defendíamos?

— Não. Cercava-nos por essa terra chã que temos em volta e, quando nos fosse indispensável retirar, caíam eles sobre nós, a quatro ou cinco para cada um de cá, e era derrota certa. Mas sou português, estou por Portugal, e como é nosso voto r propósito vencer ou acabar aqui, melhor é esta disposição que temos agora. Pela retaguarda não será fácil nem seguro retirar, e quando nos virmos perdidos, o melhor caminho será arremeter por este portelo fora, numa arrancada para morrer mais depressa.

— E será intento deles cercar-nos?

— Não sei, mas desconfio que veem mal mandados e, pelo quo vejo, me parece que trazem pouca ordem. Fizeram o melhor que podiam fazer no seu proveito, não nos atacando de rosto do lado de Leiria e tomando para aquela largura de campo onde podem mover-se mais à sua vontade. Ali Nilo eles que nos cortam o caminho de Lisboa e não nós a eles. Por ali irão avançando direitos ao seu fim, ainda que daqui os rebatêssemos, e, nesta charneca ou na baixa de Alcobaça, a sua cavalaria nos conteria, embora daqui saíssemos para os perseguir. Por maiores que fossem as nossas façanhas, chegariam a Lisboa primeiro do que nós, e lá tinham a armada para lhes dar apoio.

— Diacho! Estamos em mau passo! — comentou o Magriço.

— Mas estamos em boa disposição para nos aguentarmos aqui. Devemos contar primeiro coma nossa alma para suprir a pequenez do número; depois com a soberbia desdenhosa daqueles homens, que alguma loucura poderão fazer no nosso proveito, à força de nos desprezarem.

— E lá continuam parados, de costas para Aljubarrota, como se estivessem agora a tomar conselho e não trouxessem resolução segura!

— Talvez esperando que toda aquela carrearem e gente de acompanhar se lhes vá passando para a retaguarda.

— Se nós em vez de mil e setecentos de cavalo tivéssemos três ou quatro mil...

— E, mesmo assim, menos da terça parte da cavalaria que eles têm...

— Poderíamos ir daqui numa arremetida pôr tudo aquilo num novelo.

— Que somos poucos o sabem eles perfeitamente e pelo saberem se atreveram a dar a volta, buscando o melhor campo.

— Estou a ver que ainda não é para hoje a batalha! E aqui ficaremos à espera do que eles resolvem!

— Reparai. Estão a meter para a frente as filas dos ginetes.

— E outros lá vão de galopada ali para o caminho de Porto de Mós.

— E mais esquadrões para este lado de cá! Então nos vão pôr cerco! Têm cavalaria que chegue para tudo o que eles quiserem.

— Então ainda bem, que se vai decidir isto com o sol alto, para eles verem bem como aqui se morre.

— De fome, se nos cercarem — objetou um deles.

Decorreu ainda meia hora de incertezas e impaciências.

Afinal daquela massa enorme de guerreiros, que enchia a planura de lés a lés, destacaram-se cinco cavaleiros. Um deles trazia uma bandeirola branca de parlamentário.

— Adeus! — exclamou o Magriço retomando a sua feição jocosa. Aí nos veem pedir desculpa da demora e oferecer-nos tréguas para eles jantarem.

 

* * *

 

Os cavaleiros que vinham parlamentar aproximaram-se da vanguarda portuguesa, até ficarem ao alcance de voz, e um deles gritou em português:

— Eu, Diogo Álvares Pereira, irmão do vosso Condestável D. Nuno, aqui venho requerer-vos lhe deis notícia de que muito lhe peço me venha ver e falar Foi reconhecei o um dos cavaleiros portugueses das primeiras filas da vanguarda.

E a esse declarou Diogo Álvares Pereira que os seus companheiros eram D. Pedro Lopes de Ayala, cavaleiro fidalgo e chanceler-mor d’el-rei de Castela, D. Diogo Hernandez, marechal da hoste, e dois nobres senhores de Gasconha, que vinham somente para conhecer o homem de soberba fama que era o Condestável D. Nuno.

Mais acima, El-Rei viu e reconheceu o irmão do Condestável, e ele próprio lhe deu aviso do pedido.

— Ide precatado — recomendou-lhe.

— Um companheiro me basta — respondeu D. Nuno.

E foi falar-lhes, levando apenas um dos seus cavaleiros. Demorada e de pueril discussão aquela entrevista.

Nuno Álvares a todas as alegações e a todas as farroncarias e astuciosas propostas opunha a sua inabalável esperança em Deus. E ás insistentes exortações do irmão respondeu com severa frieza e por fim com dura repulsão.

Tinha percebido bem o estratagema que vinha escondido naquelas desvairadas propostas, espantosamente insensatas em semelhante conjuntura.

O que eles queriam era tatear lhe o ânimo e observar de perto a posição, as forças e o aspeto da hoste portuguesa. Para isto ia com eles aquele experimentado estadista e homem de guerra que era Ayala, um dos mais cultos e rútilos espíritos que tinha então Castela. Era este quem mais desviava o olhar para a rampazita do outeiro, em busca de aspetos que lhe dessem impressão segura a respeito daquela posição e dos seus defensores. E sabe Deus com que pesar de não poder ir por ali dentro para ver tudo muito ao seu salvo.

Quando já não tinham mais que sondar, nem mais lhes era dado ver, retiraram-se.

O Condestável voltou a sorrir. O Rei esperava-o.

— Estão com receio. A fingir que tinham dó de nós e me queriam mudar para si, ali vieram ver como os Chamorros estavam de alma e de forças. Foi para isto que eles cá vieram.

— E mais para escolher a poria por onde terão de entrar — volveu-lhe o Rei sorrindo.

— Ficai certo que nos temem, bem que um deles me dissesse que os seus eram dez vezes mais que os nossos.

— Tanto não direi. Isso foi farronca para nos amedrontar. Mas está aqui ao pé de nós alguma coisa que para eles vale o tresdobro da gente que temos — O quê, senhor?

— O vosso nome, D. Nuno e, como ele, esses dois nomes que eles não podem esquecer: Atoleiros e Trancoso.

— E o vosso, Rei e chefe maior da hoste!

 

* * *

 

Ainda umas largas horas de espera naquela afogueada tarde de agosto!

Um doente e um irresoluto, D. João de Castela hesitava entre os prudentes conselhos dos poucos homens experimentados que tinha ao seu lado e os ímpetos insofridos dos jovens cavaleiros de Castela e de França, a instarem por uma arremetida imediata contra os chamorros, soberbamente desdenhados por eles.

Lopez de Aila, um experimentado da batalha de Najera, lembrava lhe confidencialmente os perigos da investida, vista a má ordem em que estava o seu exército e a disposição resoluta dos portugueses no seu cerrado defensivo.

E para melhor persuadir o rei a seguir-lhe o conselho, punha em ação todos os seus estratagemas de diplomata e toda a sua imaginação de novelista, chegando a inventar que em volta do campo português havia barrancos da altura de um homem, que os peões não podiam galgar, e arroios de dez a doze braças de altura que nenhuma cavalaria ousaria transpor! E como ainda isto lhe parecesse pouco, lhe observara que ainda vinha pelo caminho uma parte da peonagem mais cansada.

Podia ao seu salvo inventar a mais fantástica topografia do campo de batalha, sem que o rei o pudesse contradizer.

D. João viera numas andas, a arder em febre. Nada vira e agora nem tinha alento sequer para ir observar o terreno e a sua hoste, como faria qualquer chefe medianamente cauteloso.

Débil, taciturno, de poucas falas, o jovem monarca, um ano mais novo que o de Portugal, punha olhares vagos de hesitante em volta de si, e não tomava resolução!

* * *

 

— O sol está aqui está a sumir-se, — dizia o Magriço para os rapazes — e aqueles desalmados não atam nem desatam! Ainda se esta espera não fosse em jejum!

— São capazes de nos enganar com aquele aparato dos ginetes, e escapulirem-se nos! — lembrou o Lobeira.

E o que eles não podiam adivinhar era o que se estava então passando no conselho de guerra, convocado por el-rei de Castela para resolver afinal as suas mortificadoras hesitações.

Ayala expusera lucidamente quanto vira e observara, afirmando que a hoste portuguesa não esperava nem queria outra coisa senão entrar em batalha. E era ele quem mais insistia pelo adiamento da luta, propondo que esperassem no terreno plano de Aljubarrota, ou que os portugueses arrancassem daquela posição, mal vissem que os de Castela os ficavam esperando, ou que, por temor e por falta de mantimentos para mais de um dia, pela calada da noite se pusessem em fuga, deixando livre aos castelhanos o caminho direto para Lisboa.

E, em defesa deste parecer, continuou a exagerar eloquentemente os obstáculos do terreno, alegando a impossibilidade de desenvolver as longas alas do exército, para que dessem apoio à vanguarda no seu ataque de frente.

Todos os conselheiros de maior experiencia e mais refletido ânimo foram deste parecer, e alguns até exageravam o cansaço da peonagem, aliás injustificável, pois que fora de pouco mais de duas léguas a marcha para ali, e em Leiria tinham tido um descanso de dois dias.

Não faltou também quem notasse a inconveniência de travar batalha quase ao fim do dia.

Entrou também na discussão um velho cavaleiro do rei de França, João de Ria, muito da intimidade de el rei de Castela.

Era homem de autoridade pelos anos, pela categoria e pela experiencia. Entrara em muitas batalhas contra os mouros de além-mar e contra os ingleses. Com estes se batera em Crécy e Poitiers, e destas duas batalhas tirou lição para demonstrar aos impacientes que a vitória mais dependia da boa ordenança das tropas do que do grande número delas. Os ingleses do rei Eduardo de Inglaterra e do Príncipe Negro, alegou, tinham vencido pela sua excelente ordem de batalha e não porque fossem em maior número que os de França.

Disse que as fogosas impaciências dos cavaleiros franceses tinham levado o rei de França a travar batalha quase ao fim do dia, e das suas desdenhosas temeridades resultara o enorme desastre da hoste francesa em Crécy, duas vezes maior que a do rei Eduardo.

Tempo perdido e palavras ao vento. Quando os valentões de Gasconha e os cavaleiros noviços de Castela viram que o rei ia tomar o parecer dos prudentes, de tal modo se julgaram afrontados que, em voz alta, deram ao adiamento da batalha o significado de cobardia e vergonha sem remédio para tão poderoso exército.

Um inexperiente e um irresoluto, agora ainda de mais quebradiça vontade, queimado pelas febres que o traziam abatido, o rei deixou-se levar pelas bravatas dos inscientes e dos farronqueiros e afinal se decidiu por eles.

A fanfarronada vingou. Tinha de ser. Não dizem as crónicas o olhar de mágoa que Lopez de Ayala teria posto no rosto do velho João de Ria.

* * *

 

Tão longas demoras tinha havido, que chegaram para aquele arrastado conselho de guerra e para armar a grande tenda do rei e as outras para o seu estado maior, donzéis, pajens e escudeiros, e para as enormes bagagens reais.

Ainda que muita peonagem viesse atrasada pelo caminho, como alegava Lopez de Ayala, o tempo das irresoluções teria dado para andar três léguas em passo de mulher, e de Leiria ali apenas havia umas duas léguas e meia (13 quilómetros e meio pela estrada moderna).

Não haveria muito mais de meia hora de sol quando os ginetes do Mestre de Alcântara, até ali em espaventosas correrias à mourisca pelos flancos e retaguarda dos portugueses, começaram a apertar mais o seu semicírculo em volta do outeirozito.

Vibraram intensamente as trombetas de Castela, centenas delas, dando o sinal da batalha, — Senhor, enfim! — disse o Condestável para o Rei. Agora é que é, e boas vésperas vai ter Santa Maria de Agosto. Deus seja por nós todos e pela nossa bandeira.

Apeou-se e despediu se do Rei, correndo para a vanguarda.

— Trombeteiros, vamos! Tangei-as bem alto; não vão dalém supor que estamos aqui encolhidos de medo. Homens, alma para derrotar ou para morrer depressa, que este pôr do sol tem de ser hoje de vida ou de morte para Portugal.

Os rapazes da Ala dos Namorados tinham-se enfileirado numa impaciência febril, a sua bandeira verde a esvoaçar brandamente na aragem daquele cair da tarde.

Na retaguarda o Mestre, apeado também, de lança na mão, falava calorosamente à sua gente, levando ao seu lado o Dr. João das Regras, de bacinete e arnês, braçais, coxotes e manoplas como um lidador de batalhas.

— Mantenha-vos Deus, senhor Rei, e à nossa terra convosco! — dizia-lhe comovidamente a soldadesca rota.

O Arcebispo de Braga andava de um para outro lado exortando os guerreiros em nome de Deus, a roqueta por cima do arnês, como já sabemos, na cimeira do bacinete a pequenina imagem dourada da Mãe de Jesus. Levava diante de si um clérigo de cruz alçada. Era aquele o ajudante de campo do famoso prelado.

Indicava D. Lourenço Vicente as indulgências concedidas pelo Papa Urbano VI àqueles que combatessem os cismáticos, e os castelhanos, dizia-lhes, eram dobrados inimigos por serem cismáticos do anti-papa Clemente e por quererem tirar a Portugal a independência que ele ganhara à custa de muito sangue e esforço.

— Irmãos meus, quando fordes com eles, dizei repetidas vezes: Et Verbum caro fatum est.

A gente miúda não sabia latim e um besteiro do Condestável traduziu de brincadeira para os outros:

— Caro feito vai ser este na verdade. Um tio clérigo que eu tive, disse-me uma vez que o latim se punha na nossa linguagem de traz para diante.

Mas quando o Arcebispo chegou à Ala dos rôtos e lhes repetiu o latim, quem fez aos camaradas a tradução de mais chiste, mal que D. Lourenço voltou costas, foi o Bernardo Pingueiro.

— Quereis saber o que o tal latim quer dizer?

— Vá, vá lá, depressa que o sarrabulho não tarda.

— Então lá vai: Et Verbum, está de ver; caro fatum est, que temos de fazer boa cara, mesmo em jejum, pois que é este o facto. Achais palavras de mais? Pois ficai lá sabendo que o latim é língua de sola e vira, que precisa de encóspias para lhe caber dentro o nosso português.

 

* * *

 

— A vanguarda parou outra vez! — disse o Condestável a Mem Rodrigues, que viera da sua ala para lhe falar no voto dos Namorados. Como se estivesse a esperar alguma coisa! Heis de ver que naqueles vagares nos chega a noite primeiro do que eles!

— E acerca do que vos falei, o que resolveis, senhor Condestável?

— Deixai ver se os trons aparecem e então será o que eles Sedem. Ali tendes a resposta — acrescentou apontando para a direita do exército castelhano.

A sua vanguarda enorme de 1600 lanceiros da soberba cavalaria fidalga, apoiada por seis mil peões, de bestas e lanças, movera-se lentamente, abrindo no flanco esquerdo uma clareira por onde vinham assomando em linha os dezasseis trons sobre zorras, a três juntas de bois cada uma.

As linhas avançadas tornaram a fazer alto e as zorras dos trons, seguidas de um esquadrão, avançaram vagarosamente até à distância de dois tiros de besta do outeiro. Ali pararam e a peonagem tirou os bois e levou-os para traz, a larga distância para que não se assotassem com os tiros.

— Já não temos mais de meia hora de sol e eles com aqueles tropeços! — disse freneticamente o Condestável. Pois esses Namorados, que tiraram sorte para o feito, que montem e partam, se virem que o dano é de assustar.

Mem Rodrigues retirou-se.

— Vá, um pouco mais para diante, devagar, lanças firmes debaixo do braço mandou o Condestável. Os detrás, que não puderem alcançar o inimigo com as ascumas, que aguentem bem os da frente, se o combate os fizer recuar.

Vibrou então nos ares um brando fremente.

Era o mote dos Namorados que reboava no timbre de cento e oitenta vozes jovens, naquele entardecer de agosto, que podia iluminar o enterro de uma nacionalidade ou a epopeia maior de um povo.

De súbito chamejaram dois trons na vanguarda dos castelhanos, um pouco sobre a sua esquerda. Uma fumaceira espessa e escura toldou os ares, a seguir a uns estampidos que deram a impressão de um abalo de terra.

E imediatamente dois escudeiros da vanguarda de Nuno Álvares caíram espedaçados, um ao pé do outro, e um arqueiro inglês foi partido pelo meio.

Eram as primeiras vítimas dos truenos castelhanos, daqueles formidáveis trovões com que eles contavam apavorar a gente portuguesa.

Efetivamente, a primeira impressão foi de pavor, principalmente na peonagem da vanguarda, que se desordenou profundamente.

— Os trons! Os trons!

— Espedaçam-nos aqui! — disse um pajem, a recuar amedrontado.

E dos barrocais que ficavam para os lados do ribeiro da Cavalaria revoaram gritos aflitivos de mulheres.

Da frente veio na aragem uma algazarra festiva dos castelhanos!

— Mas truenos! Mas truenos!

Mas os corcéis e os ginetes da sua primeira linha, de narinas dilatadas, olhos espavoridos, em corcovos febris, numa tremura nervosa, enovelaram-se contra a extrema direita, produzindo uma enorme confusão, que lhes tornou impossível o arranque da carga, — Gentes, firmes! S. Jorge e Portugal! — gritava o Condestável na frente de todos, a pé, alçando a devota bandeira, havia instantes arrancada das mãos do seu escudeiro.

O que ele queria era reanimar a peonagem, que punha nele uns olhares de pasmo e de supersticioso terror.

E logo um dos seus cavaleiros mais experimentados gritou para os rústicos:

— Não vos amedronteis. Livrou-nos Deus desses dois escudeiros, que não eram dignos de aqui vir, pois tinham crime de morte de homem numa igreja. Foi castigo de Deus, era só para eles.

— Nós hemos de morrer pela Nação e por El-Rei, pouco importa como — acudiu o Condestável. Vencedores dos Atoleiros, sede como então fostes!

Da Ala dos Namorados já se tinham destacado de arrancada sobre o flanco esquerdo da vanguarda inimiga os quarenta à sorte para o cumprimento do voto. Eram os únicos portugueses que estavam a cavalo.

De lança em riste, deitaram à desfilada. Na frente ia Ruy de Vasconcelos, bradando:

— Pela nossa terra!

E os que ficaram clamavam comovidamente:

— Namorados! Deus seja por vós!

— Aqueles é que não têm medo dos trons e lá vão para eles!

Outro relâmpago, outra densa fumarada, um estrondo de abalar, mas da hoste portuguesa não caiu ninguém. A vanguarda portuguesa avançara uns passos lentamente, Nuno Álvares na frente, agitando a sua bandeira das campanhas do Alentejo e do Minho.

Ao ribombo do terceiro tiro dos trons sucedera uma gritaria enorme de lado dos castelhanos — Foi voto de morte o voto daqueles Namorado! — dizia um dos fidalgos da vanguarda portuguesa. Sumiram-se! Não voltam cá!

O Condestável mandara fazer alto, à espera que a avançada inimiga, ainda numa grande confusão, arrancasse para ele.

 

* * *

 

Entretanto, Ruy chegara com os seus quarento até junto da peonagem que guarnecia os trons.

— S. Jorge e Portugal! — bradou, investindo com eles.

Caíram uns poucos trespassados de lançadas e os outros recuaram surpreendidos, abandonando os truenos.

Convergiram então contra aqueles temerários mais de duzentos cavaleiros, e na frente deles um de plumas vermelhas no bacinete e no escudo esta divisa em português:

Por Magdalena de Mendonça.

Trazia bacinete de cara, (viseira caída) mas Ruy não precisava de lhe ver o rosto. O mote do escudo dizia-lhe bem quem era.

— Graça de Deus, que te encontro, vilanaz! — gritou, arremetendo para ele de lança enristado.

Então Gonçalves soltou uns rugidos rouquejantes, uns gritos inarticulados, e lançaram-se um contra o outro desesperadamente, enquanto os quarenta se batiam com admirável intrepidez contra o numeroso esquadrão inimigo.

— Mudo, arranca uma palavra dessa alma danada! — bradava o Vasconcelos, apertando com ele.

E o outro, de pé nos estribos, respondeu-lhe num regougar de fera, estendendo a lança, com ímpeto enfurecido, para lha cravar na garganta.

O Vasconcelos percebeu-lhe o intento e evitou o golpe torcendo-se no selim e levantando-lhe a lança com a haste da sua.

— Por Magdalena de Mendonça, a minha dama, a minha noiva., que hás de morrer aqui!

— A ala que siga! — gritou alguém em castelhano, num tom áspero de comando.

— A vanguarda já está investindo com os chamorros do rei de Avis! — gritou outro também em castelhano.

Sentia-se o ruído cavo, enorme, de muitos cavalos a galope, a vibração convulsiva dos brados de alarde.

O combate singular entre Ruy e Vasconcelos e Antão Gonçalves recrudescia com mais desvairada fúria.

— Mais pra mim, ladrão de mulheres! — rebramia o Vasconcelos.

O outro deu uns gritos informes, que pareciam uivos de um ódio imenso de morte.

Mas os Namorados é que não podiam aguentar o choque do esquadrão. Tinham já cinco mortos e oito feridos.

— Rui! — gritou Vasco Eanes. Estão investindo com os nossos e fazemos lá falta!

— Deixa-me! — rouquejou o Vasconcelos, arremetendo com mais fúria para o seu odiado rival.

— Por Dios, que sigan esos de nuestra ala! — gritaram muito da retaguarda.

Uma parte do esquadrão castelhano foi-se embora logo para a direita.

— Antão Gonçalves! — gritou em português um cavaleiro que chegava a trote do lado do inimigo. Os nossos lá vão à frente de todos. É preciso ir ter com eles.

Mas naquele mesmo momento o cavalo de Antão Gonçalves caía varado por uma lançada que o Vasconcelos tinha enristado ao peito do adversário e o corcel recebeu no pescoço, quando se empinava esporeado.

O emudecido foi a terra. Ruy atirou o seu cavalo para diante, no intento de continuar o duelo, mas uns poucos de castelhanos se lhe opuseram, defendendo o fidalgo caído.

— Ruy, pela nossa gente, que lhe fazemos falta! — disse-lhe, já ao lado dele, Vasco Eanes, deitando-lhe a mão de atleta à testeira de ferro do cavalo, para lho deter.

Ainda num turbamento de ódio, o Vasconcelos procurou num olhar o outro cavaleiro português que chegara.

Era um homem idoso. Trazia levantada a cara do bacinete. Viam-se-lhe bem as barbas grisalhas. Reconheceu o. Era o pai de. Magdalena.

— Por vossa linda filha, Gil Vasques de Mendonça, eu vos prometo que hei de tornar a ver esse vilanaz de Antão Gonçalves! Vamos, Namorados!

E deitaram à desfilada para a hoste portuguesa. Dos quarenta iam só vinte e nove, e desses alguns com ferimentos de gravidade.

 

* * *

 

A vanguarda dos castelhanos, com as suas linhas de mil e seiscentas lanças de cavaleiros (quase tantos como os de toda a hoste portuguesa) e os seus seis mil lanceiros e besteiros apeados, avançara numa soberba arrancada. As alas é que tinham ficado um pouco atrasadas; a direita (uns três mil homens) por causa do pouco desafogo do terreno; a esquerda (com outra tanta força) em consequência do embaraço que lhe causara a linha dos trons sobre as suas enormes zorras, que afinal abandonaram porque o sol ia a sumir-se e era preciso decidir a batalha, numa investida, antes que a noite chegasse.

E, além do mais, o terceiro trom tinha rebentado, espedaçando uns poucos de homens, e por isso ainda de melhor vontade os deixaram emudecidos.

Vinham na avançada, por farfantice de arrojo, os portugueses parciais de D. Beatriz, e com eles, de cotas de armas rutilantes, muitos dos mais altivos fidalgos das Espanhas, da Gasconha e do Bearne, que para ali se tinham reunido, abandonando a peonagem das suas alas.

Entre os mais ilustres de Portugal, o Conde de Maiorca (título dado pelo rei de Castela) D. João Afonso Telo, irmão de D. Leonor Teles e os dois irmãos de Nuno Álvares, Diogo Álvares e D. Pedro Álvares, que fora elevado à dignidade de Mestre da ordem de Calatrava.

Vendo que a hoste do rei de Avis os esperava com os seus cavaleiros apeados, mandou D. João Telo suspender a arremetida e encurtar as lanças para combater o inimigo apeado. Deu uma certa demora aquele trabalho de cortar ou quebrar uma parte da haste ás compridas lanças que traziam para lutar contra homens a cavalo.

Mas assim que um grande número as teve encurtadas, novamente as trombetas deram o sinal de arremeter, e foram todos eles sobre a gente do Condestável com soberbo arranque, seguidos de uma parte da peonagem, numa apupada estonteadora aos chamorros. Centos de besteiros iam nos flancos e atrás das linhas dos fidalgos atacantes.

— A elos! A elos, los chamorros d’el-rei de Avis!

A vanguarda portuguesa sustentou o embate com admirável intrepidez. Na frente dela, o Condestável fazia prodígios de esforço.

De uma parte e doutra, ferindo e matando com louca ferocidade, soltavam o seu pregão de guerra em gritos convulsivos, que ás vezes pareciam latidos de lobos enraivecidos.

— Santiago y Castila!

— S. Jorge e Portugal!

— D. João Telo! — gritou por desafio o Condestável para o irmão de D. Leonor Teles, um dos primeiros e mais audazes à frente da nobreza de Castela e de França.

— Condestável! — respondeu-lhe D. João Afonso Telo. Agora se decidirá a contenda!

E as fileiras da gente fidalga, cada vez mais profundas, contra as seiscentas lanças e os dois mil peões de Nuno Álvares! Com os seus tiros de revés eram os arqueiros ingleses e os nossos besteiros os que mais seguro destroço faziam nas filas dos fidalgos inimigos e, principalmente, na massa tumultuária da sua peonagem. Vendo que as suas alas se iam fazendo ficadiças, como diz Fernão Lopes, toda a nobreza jovem das Espanhas, da Gasconha e do Bearne veio da retaguarda para a investida, deixando as alas e o corpo principal ainda em mais estonteadora confusão.

E deste modo, a primeira coluna de ataque, a enorme cunha contra o outeiro, compreenderia então qua.se toda a gente fidalga da hoste, formando talvez uma massa não inferior a doze mil homens, sem contar os dois mil dos ginetes à mourisca.

Foi nesta conjuntura que Ruy chegou com os seus até junto do Condestável, por entre as enternecidas aclamações de toda a Ala dos Namorados, numa ânsia de lutar que só a vontade inabalável de Mem Rodrigues podia conter.

Mas a coluna do Condestável já não podia com o tamanho esforço daquele turbilhão de homens, e rompeu-se.

Franceses e castelhanos golfaram então por aquela brecha dentro numa algazarra estonteante, em desafios de escárnio e em clamores soberbos de vitória.

A batalha parecia perdida para os pobres chamorros.

Em arremessos leoninos, com a sua bandeira dos Atoleiros cingida ao peito e a lança a relampejar nos ares, espelhando os rubros fulgores daqueles sol que se sumia moribundo, o Condestável procurara morrer.

— Ala dos Namorados, a eles! — trovejou a voz de Mem Rodrigues.

— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — gritaram.

E toda a ala fez uma conversão para se opor a que o inimigo chegasse até à segunda linha da hoste.

A ala de Antão Vasques fez um movimento idêntico.

Para a retaguarda, de lança erguida, num soberbo desespero, o Rei gritava à frente dos seus homens de armas:

— Avante! Avante! S. Jorge e Portugal! Gentes! O vosso rei aqui está convosco, para vencer ou para ficar!

E logo da estrema retaguarda, onde estavam encurralados os não combatentes, guardados pela arraia de ventres ao sol, reboaram gritos de pavor.

— Estamos cortados!

Estavam sendo investidos pelos ginetes de D. Gonzalo Nunez de Guzman, Mestre dos cavaleiros de Alcântara. Era a segunda investida pela retaguarda. Vê-se que os ginetes galgavam bem os temorosos arroios.

Minutos de torva angústia! Se a Pátria ia morrer ali à semelhança daquele sol de ouro fulvo que se estava sumindo, como um clarão mortiço de brandões no final de um enterro?

 

* * *

 

Combate formidável de um quarto de hora, numa alucinação de vaidade dos que se consideravam já triunfantes e numa loucura de desespero desses que previam a agonia de Portugal, sem nenhum remédio, naquele lance desastroso.

Na luta quase corpo a corpo, os castelhanos e os franceses deitaram fora as lanças, porque os embaraçavam, e continuaram a batalha com as suas espadas estreitas (estroques) e as hachas de armas de ferro e de bronze, clavas formidáveis com que os elmos se amolgavam e os crânios se faziam em pedaços.

A muralha de peitos dos chamorros tinha por ali dentro uma profunda brecha aberta.

— Homens, para morrer! — gritava o Condestável com a jaqueta de lã, que trazia sobre o arnês, toda manchada de sangue, em relâmpagos de fúria leonina o seu olhar de místico sonhador.

— Portugueses, toda a nossa alma nisto! — bradava o Rei, quase ao pé dele, a brandir a lança numa heroica arremetida. Nuno Álvares, enquanto houver sangue! Por Deus, que se há de aqui sepultar Portugal, se não pudermos vencer!

— Senhor Rei, assim há de ser, ou aqui ficaremos todos! — respondeu-lhe convulsivamente. E os coveiros connosco.

Cruzavam-se os desafios e vinham dos jovens fidalgos de Castela e dos gascões retos de escárnio, bazófias de brutal ofensa.

— Farfantões de Gasconha, pra aqui! Para verdes como os Namorados morrem! — bramiu Ruy de Vasconcelos, num frémito de cólera.

Pela garganta do outeiro já se não podia passar senão por cima de um estrado de cadáveres.

Apunhalavam-se no chão, em rugidos como arrancos, os que tinham ido a terra com as espadas partidas, aferrados num arranque de ódio, lívidos, sangrentos, mãos enclavinhadas no punho das adagas.

Dera o combate numa alucinação horrorosa de duelos. Eram já enormes as perda do Namorados. Alguns tinham morrido abraçados, a rouquejar o mote da bandeira, a murmurar um suave nome de mulher naquele sonho de morte.

Em tal medonha confusão e no aturdimento dos golpes, das imprecações e dos gemidos, ninguém reparara em certo cavaleiro de capelo de ferro e saio de malha, como usavam meio século antes os guerreiros cristãos. Chegara a galope desfechado.

Vinha coberto de poeira; o cavalo caiu-lhe arquejante.

Entrou na batalha procurando os Namorados.

— Pela nossa terra! Pelo velho Portugal! — clamou.

E a longa barba de neve, a ondear-lhe sobre o peito, dava-lhe o aspeto de uma aparição de sonho.

— Ruy de Vasconcelos! Aqui me tens para morrer ao pé de ti.

— Tio Mendo!

E ás lançadas aos castelhanos, o velho respondeu-lhe:

— Represento aqui o Portugal antigo de Cerneja e de Navas de Tolosa.

— Chamorros, entregai-vos! — gritou o Conde D. Pedro, filho do Marquês de Vilhena, bisneto do rei D. Jaime de Aragão, um dos chefes da vanguarda.

— Castelhano! Aqui ninguém se entrega! — bramiu Ruy de Vasconcelos, arremetendo para ele.

E com um golpe a fundo o prostrou morto.

— Olhai a bandeira! — recomendou o Vasconcelos aos seus mais próximos. Antão Gonçalves virá cumprir o voto.

Na falta de Mem Rodrigues, que tinham levado em braços com ferimentos gravíssimos, Ruy era agora de facto o comandante dos Namorados.

Vieram sobre eles, num ímpeto, os gascões, e na sua frente o velho João de Ria, enviado do rei de França, o almirante D. Juan Fernandez Tovar, o mariscai (marechal) Diego Gomez Sarmiento e o senhor de Aljofrin.

O Almirante intimou-os a renderem-se.

— Daqui só se rende quem morre! — gritou o jovem Vasconcelos, indo para eles.

E todos os rapazes da ala, metade apenas dos que tinham vindo para ali, alguns deles ainda de pé a sobre posse, desfigurados e a escorrer sangue, todos eles como se tivessem uma só alma, bradaram o mote da sua bandeira:

— Pela nossa terra e pelas nossas damas!

Recrudescia a luta. E por entre os castelhanos e gascões um guerreiro passou empurrando-os e regougando uns sons inarticulados. Era Antão Gonçalves.

— Vive Deus! — gritou Ruy de Vasconcelos. Namorados, mais perto essa bandeira para acabarmos a defende-la. Vem latindo para ela um traidor!

Mas El Rei, fazendo prodígios de bravura, que Froissart memora na sua crónica, repelira esmorecidos os inimigos que mais se tinham internado, dera tempo ao Condestável para reformar a sua peonagem enovelada, e vinha agora em socorro dos Namorados, cujas perdas, como já dissemos, eram enormes.

O Condestável investiu também com maior denodo à frente dos seus homens de armas e os inimigos começaram a recuar num movimento revolto de desalento.

Um fidalgo castelhano de agigantada estatura, D. Álvaro Gonzalez de Sandoval, veio de arrancada para El-Rei.

D. João levantou, contra ele a sua hacha para o deitar ao chão, mas o Sandoval conseguiu aparar-lhe a pancada e, deitando lhe as mãos possantes à hacha, com tal força lha arrancou, que o fez cair ao chão de joelhos.

— Mataram El-Rei! — gritou um pajem.

— Ainda não! — rouquejou o Rei, levantando-se, ajudado por Martim Gonçalves de Macedo.

Então o Sandoval, que acabava de derrubar ura fidalgo português, voltou com a hacha erguida para D. João.

El-Rei aparou-lhe o golpe e arrancou-lha das mãos.

Sandoval caiu então golpeado por um dos Namorados, Vasco Eanes, casualmente aproximado dele no revoltear da luta.

— Los cabalos! Los cabalos! — gritaram alguns dos castelhanos, correndo para fora do outeiro.

E quase todos eles foram então de corrida para os pajens e escudeiros, que tinham ficado com os cavalos à rédea.

Já não era para carregar; era para ir dali.

— Vão de fugida! — gritaram alguns dos nossos.

— Bem-dito Deus, que os fizemos fugir!

— Deixaram ali no chão uma bandeira de Castela! — avisaram da frente.

As alas inúteis e sem comando, dobradas contra o corpo principal, vendo aquela abalada confusa, imaginaram que fosse desbarato o que era somente um sangrento revés e, numa alucinação de terror pânico, deram gritos de alarme e de fuga, e elas ambas se enrodilharam, apavorando os quinze mil homens de guerra do corpo principal, que não faziam ideia precisa do que se passava.

Como em todas as batalhas perdidas e em todos os exércitos do mundo, aquele refluxo de espavoridos, produziu um pavor invencível e a debandada fez de tudo aquilo, cavalaria ilustre das Espanhas e da França, plebe armada, criadagem, palafreneiros, azeméis, carrejões, um mar revolto de gente estonteada.

O próprio rei, que tinha assistido à primeira fase da batalha montado numa mula, amparado pelos seus pajens, afogueado de febre, abatido de forças, esse mesmo já tinha fugido também!

Dera-lhe o seu cavalo e ajudara o a montar o dedicado mordomo mor, D. Pedro Gonzales Mendoza, senhor de Buitrago.

Insistira o rei com ele para que não voltasse a batalha e se pusesse também em fuga, mas o Mendoza respondera-lhe heroicamente:

— Senhor, ide vós. Eu fico. Não quero que as mulheres de Guadalajara me acusem lá de lhes ter abandonado os filhos e os maridos que trouxe comigo. Rei, morrerei com eles, e Deus vá convosco e tenha dó de Castela!

 

* * *

— Esta está ganha — disse Mendo Rodrigues para a reduzidíssima Ala dos Namorados. Jovens, bem-ditas mães as vossas porque tão grande esforço pusestes nesta vitória!

Ouviu-se um alarido e rumor de luta para a retaguarda. Eram os ginetes andaluzes de Nunez de Guzman, que outra vez atacavam a peonagem das bagagens e a Ala dos rotos.

O Condestável correu para lá, a dirigir a luta.

— Namorados, — disse o Rei acercando-se — grande feito o vosso, por vida minha! Agora a cavalo, para atirar dali para fora ás lançadas essa multidão revolia de Castela.

— Senhor, isso íamos pedir — disse lhe Ruy de Vasconcelos.

— Tudo a cavalo! — mandou El Rei.

Todos os homens fidalgos montaram. Os Namorados primeiro que ninguém.

— Ide! — disse lhes D. João. Antão Vasques de Almada, os vossos também, e os ingleses para varejarem com as suas frechas a peonagem ficadiça.

— Ala dos Namorados! — gritou o noivo de Magdalena. Pela nossa terra e pelas nossas damas!

— E pela rainha das belas — disse o Magriço para o jovem Vasconcelos, sorrindo e alteando mais a bandeira, que o Álvaro Eanes de Sarnache tivera de largar-lhe por estar gravemente ferido.

E todos eles, noventa apenas dos cento e oitenta que tinham sido, noventa que ainda podiam combater, deitaram à desfilada, repetindo alto, entusiasticamente, o mote da bandeira.

— Gloriosa juventude! — exclamou o Rei, seguindo os num olhar humedecido de lágrimas.

Atrás deles foram-se a galope cerca de novecentos cavaleiros, e atrás destes, correndo, cem arqueiros ingleses, trezentos besteiros portugueses e pouco depois a peonagem de ínfima condição, a Ala dos rôtos.

— Senhor, — veio dizer o Condestável a El-Rei — outra vez foram repelidos os ginetes mouriscos e os freires do Mestre de Alcântara. (*)

[(*) Segundo os documentos do alistamento feito para aquela campanha, el rei de Castela trazia mouros corredores de Murcia, das fronteiras de Granada e de várias terras de Andaluzia. E indicação que se encontra no livro «A batalha de Aljubarrota», do general Ximenes de Sandoval.]

 

Cruzaram se os olhares daqueles dois irmãos de armas, ligados desde crianças por uma amizade que de muito valera nos destinos de Portugal.

O Rei abraçou-o ferverosamente.

— Nuno! — disse-lhe baixo — que tamanha tarde e que soberba hora esta!

— Tamanha como os dois séculos que Portugal tem de vida entre as nações!

E por baixo das cotas, escorrendo sangue, aqueles dois corações, dos maiores que ainda teve a nossa raça, sentiram-se mais chegados do que nunca e compreenderam se como em nenhum outro instante da sua vida, como nunca mais depois daquele crepúsculo épico de Aljubarrota, que havia de entrar na história como aurora prodigiosa de dois séculos, que eles dali não podiam ver, que ninguém ali podiam sonhar.

A batalha real, como depois lhe chamavam, porque nela entraram os reis dos dois povos em luta, essa estava decidida. A matança é que ainda não tinha terminado e iria talvez pela noite dentro até o outro dia, numa série trágica de pequenos combates e de enfurecidas perseguições.

Nenhuma batalha tão breve e de tão largos destinos históricos registam os fastos militares da Península.

Durou meia hora. A mais soberba meia hora que Portugal tem tido até hoje nos seus oitenta anos de história. A meia hora que nos levou para os destinos do mundo como vanguarda homérica de uma civilização que fez a terra maior.

Se aquela batalha se perdesse para nós, Portugal teria por estreito coval aquele outeiro em que a batalha se travou e decidiu, e na história das raças aventurosas faltaria um capítulo enorme de dois séculos, feito de nomes portugueses sobre os mapas de um mundo, que os contemporâneos de Aljubarrota nem sequer poderiam sonhar.

Naquele céu onde o sol se sumira, se as estrelas falassem ouse nelas os batalhadores vitoriosos soubessem ler aquelas verdades de vaticínio que os mágicos e os astrólogos fingiam entender, nalguma delas poderiam encontrar tais profecias de assombro, que a si próprios, envaidecidamente, se julgassem os semideuses geradores de uma lenda.