A Ala dos Namorados
Terceira Parte
NOIVA IMACULADA
CAPÍTULO I
A ESCOLTA DOS TROFÉUS
Depois daquela missa ao nascer do sol do dia 15 de Agosto, El-rei concedeu que os Namorados fossem extremar os cadáveres dos seus companheiros. Eram muitos. Pobres noivas, pobres namoradas!
E dos sessenta e dois que estavam feridos quantos ainda que nunca mais tornariam a formar na ala, reduzida agora a quarenta e três rapazes válidos para outra batalha?
El-rei percorria o campo. Já na véspera andara pelas imediações do outeiro com um Castelhano dos que ficaram prisioneiros, a tomar conhecimento dos grandes senhores de Castela que ali tinham acabado.
Agora ainda maior tarefa; mas como o seu guia da véspera os não conhecia a todos e, menos ainda, aos de Gaisconha e do Bearne, mandou El-rei pedir a Lopez de Ayala que lhe servisse de esclarecedor naquele fúnebre arrolamento.
Ayala acedeu, acabrunhado, e, ao pé do Rei, os foi indicando com os olhos afogados de lágrimas, à medida que a soldadesca Os ia afastando dos outros mortos sem cotas brasonadas e sem bacinetes emplumados.
— El almirante de Castilla, D. Juan Hernandez de Tovar; El hijo del Marques de Villena, visnieto legítimo d’El-rey D. Jayrne de Aragon; D. Juan, senor de Aguillar e de Castaneda; Diego Gomez Manrique, adelantado mayor de Castilla; Diego Gomez Sarmiento, mariscai de Castilla; Pero Gonzalez Camilo, outro mariscai de Castilla; Juan Ortiz de Las Cuevas; Alvar Gonzalez Sandoval e Ferrand, su hermano; D. Pedro Gonzalez de Mendonza, mayordomo-mayor d’El-rey; Juan Perez do Godoy; D. Juan Ramirez d’Arellano e Diego Garcia de Toledo.
E assim, por ali fora, a longos intervalos, à maneira que os ia reconhecendo, naquela tarefa atormentadora, a que não podia esquivar-se.
Depois o reconhecimento dos fidalgos bearneses e gascões. Uma longuíssima enumeração, que se não pode reproduzir aqui. E Ayala não sabia indicar senão algumas dezenas dos mais ilustres.
* * *
Os Namorados tinham separado os seus mortos.
Choravam como mulheres aqueles rapazes, que na véspera tinham sido como leões.
— Falta Vasco Martins, o jovem!
— Esse terá morrido pelo seu voto entre a onda dos fugitivos que foram de guarda ao rei de Castela — disse Ruy de Vasconcelos.
Entretanto, despedido Ayala, forçado arrolador dos ilustres mortos, El-rei disse para o Condestável:
— Os Portugueses parciais de Castela aí ficaram quase todos estendidos!
— Os meus dois irmãos com eles! — acudiu Nuno Álvares tristemente.
— Mas os Gascões e os Bearneses, esses aí estão também quase todos mortos. Chega a parecer assombro esta brava batalha de meia hora em que tanta gente morreu!
— Senhor — volveu-lhe o Condestável — grande favor do céu foi este que nos deu tamanha vitória! E agora vos peço me deixeis eu ir em romaria de penitência a Ourém, enquanto vós aqui esperais. Foi um voto que fiz.
— Sim, ide. Eu também depois irei cumprir o meu voto em Guimarães.
— E ali, se vos não opuserdes, senhor Rei, ali naquele outeirozito onde vencemos, um dia mandarei erguer uma ermida ao nosso grande patrono, S. Jorge.
— Boa devoção a vossa, Condestável. Também eu hei de mandar edificar nestes sítios um mosteiro em louvor da nossa Senhora da Vitória, desta vitória que mal se podia sonhar. Padrão será que não deixe esquecer esta batalha.
Dali a uma hora, o Condestável partia para Ourém em romaria de penitência.
— Vai ver o seu condado — comentavam alguns da plebe.
— Ou irá dar sepultura escusa aos irmãos que aí morreram — segredavam outros.
* * *
Naquele mesmo dia indicou o Rei quais dos homens ilustres da sua hoste tinham de ter sepultura em sagrado na vila de Alcobaça. Entre esses o velho Gascão João de Montferrat, a quem a acha de armas do possante Álvaro de Sandoval estoirara o bacinete e deitara a terra morto.
O Rei mandou chamar Ruy de Vasconcelos.
— Vou mandar à minha leal cidade de Lisboa as bandeiras e pendões que pudemos colher aqui. De guarda à bandeira real de Castela irá Antão Vasques de Almada e o irmão João Vaz; às outras é de justiça que as levem os vossos da Ala dos Namorados.
— Senhor, por todos eles e até pelos tantos que já não podem ir, vos beijo a mão reconhecidamente. É honra insigne.
— É honra devida. Não se venceria a batalha, se não fosse a ala, e muito ajudaram a vencê-la os tantos que morreram.
— Agora, Senhor, consenti que vos peça um piedoso favor.
— Dizei qual.
— Que nos deixeis ir sepultar em Alcobaça esses malogrados jovens que perdemos.
— Sim, deixo. Mas onde é vosso intento sepultá-los?
— Senhor, alguns dos nossos irão pedir ao Dom Abade do mosteiro de Alcobaça que no-los deixe sepultar nos claustros.
— Todos?
— Senhor, todos. É uma devota homenagem dos que lhe sobreviveram. Naquele tamanho convento os claustros são grandes e a terra sagrada chegará para os cobrir a todos. Assim as noivas e as namoradas ficarão sabendo em que recanto de Portugal jazem essas juventudes mortas.
— Dizeis bem. Assinalada sepultura merecem esses jovens de tão extremada valentia. Eu mesmo vou mandar fazer o pedido ao Dom Abade.
— Senhor, ainda maior favor!
E mandou.
* * *
Naquela noite os Namorados velaram as filas dos seus mortos. Alguns deles sem sombra de barba; os restantes tinham vinte e quatro anos!
Guardavam-nos para que os corvos não viessem dos pinhais e os lobos não descessem dos montes para lhos devorar.
Ao outro dia de manhã seria o enterro. Ofereceram-se os da Ala dos esfarrapados para os levar a braços, deitados sobre fortes ramos de pinheiro.
Os outros Namorados válidos não chegavam para os levar.
Organizou-se o préstito. Na frente oito a cavalo, atrás da longa fila dos féretros os restantes, também a cavalo.
Fazia dó. E lá iam no recosto dos ramos, a braços da peonagem de ventres ao sol, desfigurados, sangrentos, com os seus bacinetes de plumas, o seu arnês com a cruz de S. Jorge, e talvez represado nos lábios, como se as palavras se pudessem congelar, o nome de uma mulher, juvenil como eles, pelo seu derradeiro moto de amor.
Mendo Rodrigues foi também com o seu estranho capelo de ferro e o antiquado saio de malha que trouxera da sala de armas de D. Dulce. A tia Lourença, com as suas quatro mulheres que a tinham acompanhado de Lisboa, lá ia atrás do préstito, carpideira sincera daquelas tantas juventudes perdidas.
Quando chegaram ao mosteiro já lá encontraram um Namorado, que os tinha precedido. Mas esse também morto. Um quarto de hora antes o tinham levado para lá uns criados do convento. Tinham-no encontrado na estrada, ao pé de dois mortos. Viram que era um Português e trouxeram-no para a igreja do mosteiro. Os frades logo pela cruz de S. Jorge que trazia no arnês reconheceram que devia ser da hoste real; mas não sabiam explicar como fora dar a mais de duas léguas do campo de batalha.
Estava crivado de lançadas e tinham-lhe decepado a mão direita.
Foi Ruy quem enternecidamente contou aos frades o propósito denodado de Vasco Martins, o jovem.
Fizera voto de aprisionar o rei de Castela, ou, pelo menos, pôr-lhe a mão, e fora sozinho atrás dele, embebendo-se na multidão de cavaleiros do séquito real. Tê-lo-iam reconhecido logo, caíram sobre ele para o matar, ter-se-ia defendido como um leão, porque era homem para isso; mas a mão decepada como que estava a indicar que ele a ousara pôr na pessoa do rei. Derribado, moribundo, bem podia presumir-se que lhe cortassem então aquela mão audaz.
Quando os frades acabaram a encomendação dos mortos e os desceram aos covais do claustro, Ruy disse para o Magriço com os olhos rasos de água:
— Só lhes faltaram as lágrimas das mães e das damas que eles amaram e que os amavam! E para quantos deles apenas amores de sonho?
* * *
Um grupo de mulheres de Aljubarrota percorria o campo de batalha. Servia-lhes de guia o Bernardo Pingueiro, da confraria de S. Crispim. Pagão impenitente, muito mais adorava ao deus gentílico dos borrachos que ao santo patrono dos sapateiros. Na noite da véspera apanhara uma bebedeira monstruosa com o vinho que os Castelhanos traziam em odres, e naquela manhã, apesar de muito mais aliviado, ainda mantinha brilhantemente a sua alcunha de Pingueiro.
Uma robusta mulher, alta e musculosa, de má catadura, protótipo de virago, vinha a par do sapateiro falando por todas, com ares fanfarrões.
— Bom arranjozinho heis de ter feito com os despojos dessa canzoada! Muita coisa toa e rica hão de ter apanhado os da vossa laia.
— Comigo vos enganais, senhora Brites de Almeida — disse o Bernardo, de olhos mortiços, a voz muito rosnada.
— Padeira de Aljubarrota com muita honra — disse-lhe ela, batendo com os punhos cerrados no peito.
— Com muita honra e pãozinho fresco — gracejou o sapateiro — Mas ficai sabendo que não apanhei senão ontem uma bebedeirazinha mansa para quebrar o jejum, e à reveria da batalha vencida foi eu que a tomei. Já me disseram que outros têm achado coisas de prata e ouro e pendões e não sei que mais. Pois por S. Crispim vos juro que eu não achei senão dois odres de uma azêmola castelhana que se foi abaixo e este bacinete rico de três plumas que me estais vendo na cabeça. Disseram-me que era de um grande senhor do Bearne. Seria, mas daqui o hei de eu levar para Lisboa. De lá vim eu com os esfarrapados, e como não havia bacinetes para todos, trouxe na cabeça o meu gorro velhinho e esfiampado. Tinha sido uma deixa de certo inglês, muito mais pingueiro do que eu.
As mulheres riram, menos a padeira, que pôs nele um duro olhar de desprezo.
— Mas ontem — continuou o Bernardo — quando a batalha começou de aquecer veio um raio de um virote castelão e levou-me o coruto do gorro. E muitos louvores a S. Crispim por se me não ter espetado no toitiço. Teria morrido em jejum e sem já me lembrar da última escudela de vinho que tinha emborcado! Porém, agora, vede o espalhafato que eu faço com este bacinete francês, apesar do meu saio esfrangalhado e das minhas calças de bifa com mais buracos do que um pombal.
Grande galhofa das mulheres, exceto de Brites de Almeida.
— Ao menos, dos queixos para riba, dou ares de grande senhor do Bearne. Cavaleiro de Maio hei de eu ser para o ano que vem, se mo permitir S. Crispim, e como cavaleiro de Lisboa me haveis de considerar infanção de Portugal. Mas se continuar no meu ofício, farei antes deste bacinete inimigo um caçoilo para demolhar sola e dependuro as plumas para chamarem o mosquedo, que por este tempo do ano me não larga o nariz.
— Grande dizedor de bobices é que vós sois, pelo visto! — disse-lhe a padeira no seu vozeirão áspero — Mas não foi para vos ouvir chocarrices que nós aqui viemos, senão para ver os tais estafermos de ferro que dão trovões.
— Ah! Os trons. Vamos lá vê-los.
E de si para si:
— Este demo desta padeira, com umas barbichas como as do Herodes de azulejo da igreja de S. Domingos, não dá a ninguém um arzinho da sua graça e parece que é alguma irmã do imperador Carlos Magno, que neste Mundo ficasse com dez pares de França atrás de si.
Chegara à linha dos trons. Tinham ficado como os Castelhanos os abandonaram sobre as grandes zorras chapeadas.
— Aqui os tendes. Trovejaram, mas não deitaram raios que prestassem. Aquele, além, estoirou para trás, e lá tem ao pé quatro castelões que pôs em fanicos.
— Parecem sapos de boca aberta! — disse a Brites de Almeida, esgazeando os olhos para os trons.
— Cheios de vinho, os quinze que estão inteiros, levavam um ror de almudes! Era só entupir-lhe este buraco — disse, apontando o ouvido da peça.
— E não mataram ninguém estas aventesmas de ferro? — perguntou a Brites de Almeida.
— Deram só três tiros, que eu ouvisse, e logo foram abandonados. Mataram dois escudeiros e um inglês.
— Reles bisarmas! Muitas mil vezes menos ferro tem a pá com que meto o pão no forno e com ela matei eu sete castelãos ontem, antes das Trindades como quem mata uma ninhada de ratos.
— Logo sete?! — perguntou o Bernardo a sorrir.
— Já vos disse. Sete que se me tinham ido esconder na casa do forno.
— Feridos, esbarrigados de medo... Já quase a darem a alma ao Criador — volveu-lhe de troça.
— Vivos! — rouquejou a Brites de Almeida, afogueando-se — Mais vivos do que vós, que estais a cerrar os olhos de pingueiro, mestre remendão de Lisboa! Muito se engana quem preocupa! — disse, indo para ele Sabei que já tinha duas mortes de homem, cara a cara.
— Acredito, acredito! — acudiu o Bernardo, recuando
— Há mulheres desenganadas e com mais força que um macho, salvo seja! Mas olhai que não tinha reparado bem em vós, e a conta de sete, lá em Lisboa, é conta de mentira certa. Sete namoradas, sete batalhas, sete que fugiram e até eu tenho mentido aos meus fregueses, dizendo-lhes que levei sete dias a fazer uns borzeguins. Más tudo neste Mundo tem suas exceções, valentíssima padeira!
— Já que me estais com dichotes de bobice sabei que ponho pouco em vos mostrar quanto posso, torcendo o pescoço a um verdizela como vós enquanto o demo esfrega um olho.
Avermelhara-se de cólera e tinha ferocidades o seu duro olhar. O Bernardo, já um pouco receoso, ensaiou para ela um sorriso de boa paz e concordância de opiniões.
— Ora! Ora! Não vale assanhar. Nem todos são para tudo. Um cardume de ratos tenho eu na loja, e nunca fui capaz de matar sete de uma assentada.
E riu num riso esganiçado, aos pulinhos.
— Não me estejais a arreganhar os dentes de mofa! — rouquejou a Brites de Almeida.
— Olhai que vos estrafego, se quereis fazer pouco dela! — avisou outra, também já um pouco abespinhada.
— Oh! Mulheres de Deus! Mas eu não arreganhei nada! Ria de mim mesmo. Porém se quereis que tenha medo pelos sete que morreram, tenho, está dito que tenho e aqui vos deixo em paz!
— Isso ainda é bobice para escarnecer de mim? — rouquejou a virago, deitando-lhe a mão à plumeira do bacinete.
— Eu tenho lá vontade de fazer bobices! Deixo-vos em paz, mas não me desplumeis o bacinete do Bearne!
Nisto passava uma quadrilha de ronda e o Bernardo, ganhando ânimo, desprendeu-se das mãos da Brites de Almeida num supremo esforço.
— Apre!
E a esgueirar-se para ao pé da ronda lhe ia fazendo figas a ela.
— Que tal está a gigantona de Aljubarrota! Então não me queria ela segurar pela crista?! — disse para os da ronda, apontando-lhe a cimeira do bacinete — E lá me ficou com uma das minhas plumas, aquela padeirona que matou sete castelãos com a pá do forno.
— Deixa estar, remendão, que se torno a apanhar-te a jeito, levas uma coça que te há de ficar de emenda! — ameaçou, de punho fechado, a Brites de Almeida — Tiro-te as ganas de beber!
— Dessa te hei de eu livrar — volveu-lhe o sapateiro rir, mas sempre muito chegado aos homens da ronda. — Aquilo é mulher façanhuda! Onde deita os gadanhos, filou! Reparai naquelas sobrancelhas cabeludas! As ventas são dois rons ao par! Pelas barbichas parece da Gasconha!
Riu e riram com ele os da ronda. A Brites de Almeida já o não podia ouvir.
Ia à frente das companheiras de regresso a Aljubarrota.
* * *
Eram mais de 10 horas. Os Namorados tinham voltado de Alcobaça.
Mendo chamou o sobrinho de parte.
— Olha que eu vou amanhã contigo para Lisboa.
— Pois ainda bem, tio e senhor meu.
— Antes, porém, quero ir ter com El-rei para lhe dizer quem sou.
— Ontem me falou de vós, e pareceu-me que já tinha quase a certeza de quem sois
— Embora. Chegou a ocasião de lho dizer.
— Só por esquecimento de El-rei terá deixado de vos mandar chamar.
— Vou agora lá, antes que me chame.
E foi para a tenda real.
Vendo Ruy de Vasconcelos sozinho, a tia Lourença acenou-se-lhe, prazenteira:
— Meu fidalgo e senhor, venho saber se quereis algum recado para vossa mãe, pois que na madrugada de amanhã nos poremos a caminho, eu e as minhas companheiras.
— Os meus recados eu próprio lhos levarei, pois que amanhã vou também.
— Ora ainda bem! A grande alegria que ela vai ter! Pois perdoai a confiança e lá terei o gosto de vos ver, se Deus for servido que eu lá chegue.
— Podeis ir numa das carretas que aí deixaram os Castelhanos. Não faltam agora muares para as puxar.
— Ah! Isso grande favor seria, pois que as minhas pernas já não prestam para caminhada tamanha. E se a carreta chegasse para as quatro que vieram comigo...
— Chega. Eu mandarei quem vo-la irá guiando.
— Deus vos pague, meu senhor. E agora perdoai, se eu mal pergunto: dos Namorados só ides vós?
— Vão todos os que puderem ir. Vamos de guarda às bandeiras e aos pendões que os inimigos perderam. Manda-os El-rei de oferta à cidade de Lisboa.
— Meu senhor, isso então é que vai ser uma alegria doida na cidade. E ninguém lhe mandará para lá a notícia, antes que lá chegueis vós, os Namorados?
— Mandam, sim, ou antes mandaram. El-rei ordenou que esta madrugada um escudeiro seu se metesse a caminho com uma carta sua para os vereadores do concelho, dando-lhes a boá nova desta batalha e o aviso de que oferecia à cidade as bandeiras e os pendões dos vencidos, em lembrança do muito que Lisboa sofreu e corajosamente pelejou no último cerco. Sem a devoção heroica da cidade, os Castelhanos tê-la-iam tomado, e esta batalha seria impossível. Entende por isto El-rei que Lisboa tem direito a um grande quinhão destes troféus. Bem pode dizer-se que, em parte, os ganhou há um ano.
— Quem me dera chegar ao dia de lá entrarmos! Mas depois — continuou, baixando a voz — lá terei de voltar à labutação de buscar alguém que se nos sumiu!
— Alguém que se nos sumiu!
— Alguém de grande desventura, que muito amor vos teve e tinha ainda, coitadinha!
— Ah! Sim! D. Leonor de Gusmão. Não me recordava agora!
— Que vossa mãe e senhora também tinha tomado a peito descobrir onde era o-paradeiro daquela formosa dama de tão desgraçada sorte. Bem pode ser que já lhe dissessem onde ela se foi sumir.
— Não sabia que a minha mãe também estava nesse empenho, e nem sequer me disseram nada do desaparecimento de D. Leonor! A minha doença, a rápida partida para a hoste de El-rei...
A Lourença deu-lhe então em breves palavras o resumo do que sucedera com Leonor.
— Pois, pela minha parte, muito vos agradeço e louvo esse piedoso encargo que tomastes. É uma grande desventurada, a quem eu sinceramente amei nos seus dias de boa fortuna, que outro, traiçoeiramente, turbou e perdeu. Está vingada. Matei aquele Antão Gonçalves, a quem vós feristes com uma pedra na batalha da Ribeira, segundo me contaram.
— Bem me recordo. Mandei-lhe um calhau que chegava para dois. E bem vi que se foi logo abaixo, o traidor!
— Esse e outro ferimento o puseram à morte e por eles tiveram de lhe cortar a língua. Só podia dar uns gritos enrouquecidos. Chamavam-lhe o cavaleiro mudo. Ontem, ao anoitecer, foi que eu o matei em combate leal, que ele não merecia.
— Pois que o demo lhe dê lá nas profundas do inferno outra língua com que ele lhe conte a sorte que tiveram na batalha os traidores da sua laia, danados Judas desta terra, a venderem-na pelas benesses do rei castelão.
Ruy viu sair o tio Mendo da tenda real e logo se despediu de Lourença.
— Até amanhã. E contai com tudo o que eu puder no vosso benefício. Estais idosa, cansada; muito do meu grado vos darei abrigo na minha casa.
— Senhor cavaleiro, Deus vos dê tanta boa fortuna que mereceis e eu vos desejo. Por agora ainda me sinto com forças para andar na labutação da vida em que me criei; mas as boas promessas tanto se agradecem como as boas obras... E bem pode ser que um dia a velha Lourença tenha de ir pedir abrigo ao mais destemido cavaleiro da Ala dos Namorados. De onde eu estive ontem via-se bem como vós e os vossos lutavam. O meu senhor, Deus seja convosco e que o dia de entrarmos em Lisboa chegue cedo.
* * *
Ruy foi ter com o tio.
— El-rei tinha apenas uma desconfiança de quem eu era, creio que por uns dizeres de certo escudeiro velho do paço. De mim, da minha vida na corte, mal se lembrava. Nem admira porque era então muito jovem. Ficou agora sabendo alguma coisa, que há quatro anos seria um segredo para me perder. Falou-se de Leonor Teles, e então me deu sua real senhoria uma notícia de que ninguém ainda me tinha falado!
— A respeito dessa que foi rainha?
— Sim, a respeito dela. O genro há mais de um ano a mandou presa para Tordesilhas e lá a tem reclusa num mosteiro.
— Em Tordesilhas! Isso não sabia eu! Contaram-me que tinha sido levada presa para Castela, por ordem do rei...
— Por suspeita de conspirar contra ele e contra a própria filha!
— Mas não sabia mais! Pois má nova me trazeis, tio e senhor meu!
— Má nova porquê?! Que pode importar-te a reclusão de Leonor Teles?
— Tio, soube ontem à noite que era num mosteiro de Tordesilhas que Madalena se tinha recolhido com a mãe.
E referiu-lhe o lance com o pai de Madalena na noite antecedente.
— Agora percebo. Tens razão. É para inquietar. Se ainda é como foi, essa que tudo isto ia perdendo e tudo afugentou do seu trono de comborça, então tens razão para recear que a tua prometida noiva esteja muito chegada a essa mulher vilmente perversa. O seu olhar queima as flores de mais suave perfume, as suas palavras corrompem; valem perdição igual as suas afeições e os seus ódios. Compraz-se em arrastar para o seu lameiro as cândidas mulheres que não podem ser como ela, e odeia com o ódio maior da sua alma quantas se atrevem a corar daquela ignomínia e não querem ser o que ela foi. À irmã, a Maria Teles, a perdeu, não tanto pelo ciúme de a ver esposa de um infante, como pelo ódio de a ver honesta como ela nunca foi. Podia contestar-se a legitimidade do infante, filho de Inês de Castro e marido de Maria Teles; contra a honra da irmã é que nenhumas suspeitas havia. Inventou-as ela e fez do infante ciumento, ou talvez apenas seu cúmplice, um matador com as cruezas brutais de um cavalariço! Tens razão, Ruy; Madalena estará em perigo, se a comborça vive com ela sob os mesmos tetos.
— Tio, e como hei de eu livrá-la desse perigo, arrancá-la de Castela, trazê-la para mim?! Muda-se-me em tortura a notícia consoladora que ontem ouvi. Antão Gonçalves está ali morto, mas o outro perigo lá está longe, talvez ao pé dela, sem ninguém que se lhe oponha! É sina minha!
— Não será talvez o que eu suponho. É possível que Leonor Teles esteja em reclusão especial. Em rapaz jornadeei muito por Castela; conheço Tordesilhas; passei lá duas semanas, e lembro-me de ter visto nessa vila dois mosteiros de monjas. Bem pode ser que Madalena e a mãe não fossem para aquele em que encerraram Leonor Teles. Havemos de ter modo de o saber. Não te mortifiques. Eu pensarei nisso por ti e em Lisboa te darei o meu parecer. Se for preciso, iremos buscá-la, e podes contar comigo.
— Tio, seria a minha suprema ventura!
— Vem para aqui Álvaro Coutinho com outros — avisou — Eu retiro-me. Em Lisboa se combinará tudo, e a tua mãe que me perdoe, se eu for o teu cúmplice nalguma aventura de cavalaria aventureira.
Apartou-se dele.
* * *
— Ruy de Vasconcelos — disse-lhe o Magriço — que linda canção inventou este meu amigo provençal a respeito da nossa ala na batalha! Havemos de logo ouvi-la. É um regalo!
— Menos ainda do que vós mereceis — volveu-lhe Marival, modestamente.
— Eis de ouvi-la, Ruy de Vasconcelos, e então sabereis que não a louvei por favor de amigo — acudiu o Magriço — Até nos compara aos da Távola Redonda, aos paladinos do rei Artur, e a vós, Ruy, ao cavaleiro do cisne branco.
— Foi uma bela batalha — disse o Provençal — e não sei de rimance que outra conte, assim tão enleada de amores e com tão heroica juventude de namorados, formando ala, a vossa ala, que foi a bem dizer quem decidiu a batalha. Hei de pôr à minha trova este título na linguagem de Provença: Rimance da Ala dos Namorados de Aljubarrota.
— E hemos de nós aprendê-la a cantar para a dizermos às nossas damas — alvitrou um deles entusiasticamente.
— E para também a cantarmos nas outras batalhas em que houvermos de lutar — lembrou o Magriço.
— Tivesse eu tempo, e iria a Porto de Mós ensinar o rimance àquela rapariga linda, a quem furtei um beijo — disse o gaiato do Lobeira.
— Que ia levando mais tempo do que o nosso amigo Marival a cantar a sua trova! — gracejou o Magriço.
— Mas vai a gente ensiná-las às damazinhas lindas de Lisboa. Às que têm olhos negros, que são as de que eu mais gosto.
— Ides também connosco para Lisboa? — perguntou Ruy ao trovador de Provença.
— Graças ao meu amigo Álvaro Coutinho, irei também. Já agora, andarei com os Namorados, enquanto vós deixardes.
— Pois que namorado sois também — disse-lhe o Magriço.
— Envelhecido namorado e de mal-aventurada fortuna, a gastar a vida sonhando! — volveu-lhe tristemente.
E naquela noite os corvos e os lobos, por algumas horas emudecidos, contendo a sua avidez de famintos, esperaram que os Namorados cantassem a trova do Provençal e adormecessem sonhando. E só por altas horas, sumido o luar, mais afoitos por aquele silêncio trágico do acampamento, ousaram descer para o seu lúgubre festim.
* * *
Ainda vinha longe o sol e já o esquadrão que restava da ala semimorta estava a cavalo com os seus pajens e escudeiros. Comandava-os Ruy de Vasconcelos; levava a bandeira o Magriço.
Atrás deles, Mendo Rodrigues e o trovador de Provença.
Iam numa carreta a bandeira e os pendões do rei de Castela; e em duas carretas maiores os pendões e balsões menos esfarrapados dos grandes senhores.
Dos desacreditados trons, ninguém fizera caso. Era sucata que ficava a benefício dos ferreiros daquelas cercanias. Foi uma deplorável incompreensão do que valiam como troféus.
Toda a gente do acampamento estava a pé.
Por diante do Rei, à porta da grande e magnífica tenda de campanha do monarca fugido, o esquadrão dos Namorados desfilou em continência, como hoje se diria.
Depois dele, escudeiros e pajens a cavalo passaram também, ladeando as carretas.
Meteram pelo caminho de Alcobaça.
— Namorados, boa fortuna! — diziam os outros cavaleiros, saudando-os.
— E viva quem mais ajudou a vencer a batalha! — gritou em guisa de aclamação triunfal a peonagem dos esfarrapados.
Em grupos pelas orlas daquele declivoso caminho, as mulheres de Aljubarrota diziam-lhes enternecidamente:
— Benditas mães as vossas, Namorados! Venturosas noivas as que vós tiverdes!
— Olhai, rolas trigueirinhas! — disse um dos mais jovens — Daqui vos mando num voo a vintena de beijos que desejaria dar-vos em ação de graças.
E atirou-lhos nas pontas dos dedos.
— Credo! A fome de beijos que eles levam! — comentou uma velhota — Ai das mães, lá em Lisboa, se não trazem as filhas bem guardadas!
— Até à volta! Até um dia! — gritavam os rapazes. Era uma fórmula banal de despedida. Eles bem sabiam que não era para ali que tinham de voltar de Lisboa.
— Olhai que tem Aljubarrota bem bonitas carinhas! — notava para outro o gaiato do Lobeira.
Dali a instantes já se não viam a meio da ladeira senão uns novelões espessos de poeira, levantados pelo trote dos cavalos e pelo rodar das carretas.
* * *
Cinco dias depois, cobertos de pó, os cavalos brancos de espuma, estavam já a curta distância da grande cidade os cavaleiros da escolta dos troféus.
Subitamente, de uma volta alta do caminho, descobriram com jubilosa surpresa umas longas filas de gente, que vinha descendo pelo declive da encosta fronteira.
Distinguia-se bem na frente a bandeira da cidade, ladeada por homens de armas, depois um pálio e brandões acesos; percebiam-se as rutilações de uma mitra debaixo do pálio, a brancura das sobrepelizes, os hábitos dos frades e, a fechar aquele quadro de cenografia, opulento de colorido, inundado de sol, uma enorme multidão de gente de todas as categorias.
— Parece uma procissão! — disse o Magriço para Ruy de Vasconcelos.
— Procissão de triunfo que vem ao nosso encontro! — gritou o Lobeira num arrebatamento.
Os rapazes aceleraram o trote.
— Vivam os Namorados! — gritou a multidão.
E um homem de voz dominadora gritou na frente de todos, agitando no ar a bandeira da cidade:
— Ala de Aljubarrota, bem-vinda sejais!
Era Afonso Eanes, o Juiz do Povo, o glorioso tanoeiro, quem assim saudava os rapazes.
Foi um encontro comovedor. Os homens de ofício da Casa dos Vinte e Quatro, deputados e procuradores do povo, agitavam nos ares as suas varas vermelhas, encimadas pelo brasão de prata da cidade, como se aquelas insígnias da sua representação oficial fossem lanças de batalhadores num alardo triunfal.
Depois adiantou-se o Bispo, debaixo do pálio. Os Namorados apearam-se e receberam de joelhos a bênção do prelado. Em seguida os vereadores e os vinte e quatro beijaram, a um por um, com religiosa devoção, a bandeira verde da ala insigne, e após eles as mulheres, chorando.
Volvidos instantes, Afonso Eanes foi abraçar Ruy de Vasconcelos.
— Meu glorioso cavaleiro, vossa mãe está ali, ao cimo da encosta, numa liteira. Quis também vir esperar-vos.
— A minha santa mãe! Vou já beijar-lhe as mãos.
— Mas antes deixai autorização para nos darem as bandeiras e os pendões. Queremos dar a volta à cidade com eles, pelo caminho por onde há um ano os Castelhanos retiraram do cerco, e descer depois a Santos, onde o rei vencido teve o seu arraial. Dos navios da armada castelhana, que ainda aí estão no rio, hão de ver-se bem essas bandeiras e esses pendões.
— Pois sim. Eu digo já ao senhor Álvaro Coutinho para vo-las mandar entregar. A bandeira real de Castela, essa a traz consigo Antão Vasques de Almada.
Foi dizê-lo ao Magriço e meteu pela ladeira acima.
Namoradas juvenis, de famílias fidalgas, tinham vindo também àquela receção. Algumas encontraram lábios frementes de requestadores que lhes beijassem as mãos; muitas se ficaram chorando numa viuvez de alma, de trágica amargura. Os seus diletos não estavam ali; não voltariam nunca.
* * *
Escarranchado numa forte muar de sela, o Gonçalo Vasques fazia guarda de honra à liteira em que estava D. Dulce, num desvio do caminho, que duas velhas amoreiras, enormes, carinhosamente sombreavam. A poucos passos, a pé, dois jovens de acompanhar.
— Senhora minha, que ele aí vem! — exclamou o velhinho numa tremura.
E logo fez sinal a um dos criados para o ajudar a apear-se.
— Aquele! — indicou o velho, abrindo a portinhola da liteira.
— Filho! Filho! — disse D. Dulce num grito de alma, de braços abertos para ele.
Ruy apeou-se de salto e foi para ela enternecidamente.
— A minha estremecida mãe! — exclamou, abraçando-a, beijando-lhe as mãos e os cabelos.
— Que horror de sonhos e que pavor de receios os meus! Ainda a batalha se não tinha dado e já uns boatos de maldade a mortificarem a cidade, espalhados talvez pelos próprios de Castela que ainda estão aí no rio! Que tinham sido desbaratados, que lá tinham morrido todos!
— Pois foi aos deles que isso mesmo sucedeu.
— E diz-me: será verdade, como por aí se disse mal chegou o mensageiro de El-rei com a carta para a cidade, será certo que dos Namorados morreram muitos?
— Muitos!
— Filho, as pobres mães desses que lá ficaram!
— Meu senhor! — veio dizer-lhe Gonçalo Vasques, morro por lhe falar, e sabe Deus com que pena de lhe ii.io poder chamar o seu menino, como noutros tempos.
— Viva o meu grande amigo, o meu querido velhinho! — volveu-lhe Ruy, carinhosamente, abraçando-o.
— Já se cá sabe tudo, meu senhor! Grandes feitos! Bendito sangue!
Foi logo a tia Lourença, de corrida pela ladeira acima a chamar:
— Minha nobre senhora! Tendes aí, nesse vosso filho, a maior alma dos Namorados.
E foi dizendo de enfiada, no seu vozeirão ofegante, naquele feitio pitoresco e sincero que já lhe conhecemos, as maiores proezas que vira em Aljubarrota.
Mas um escudeiro veio pedir a Ruy de Vasconcelos que descesse, pois que já estava organizada a procissão pelo triunfo.
— Vou já. Mãe, até logo.
— E teu tio, Ruy?! — perguntou-lhe, baixo.
— Vem aí também, de perfeita saúde. Atrasou-se a conversar com um troveiro provençal, que eu vos hei de levar lá a casa para lhe ouvirdes cantar o rimance da nossa ala.
Montou a cavalo e desceu.
* * *
A procissão começou a desfilar. O povo ia numa alegria doida. Entre a arraia-miúda, a tia Lourença contando à sua gente o moto intrépido como se tinham batidos os esfarrapados de Lisboa.
E um escudeiro de Pinhel, que estava ao serviço de um dos Namorados, ia mostrando ao povo um belo falcão real, de corrente de prata no pé, que tinha apanhado num dos pinhais circunvizinhos do campo de batalha.
— O rei que fugiu é um grande amador de caçadas — explicou o escudeiro — tem muitos falcoeiros, e este, pelos modos, era o seu falcão mais estimado e na sua tenda o tinha muito donairoso. De lá havia de ser que ele lhe fugiu.
— Para imitar o dono — chasqueou um maltrapilho.
Deu uma longa volta aquela extraordinária procissão e, quando começou a descer a encosta de Santos, em frente da armada castelhana, Afonso Eanes levantou a toda a altura dos seus braços possantes a bandeira real de Castela.
Os pendões dos grandes senhores das Espanhas, de Gasconha e do Bearne foram erguidos por entre apupos da multidão e logo abatidos de rojo aos gritos de S. Jorge e Portugal. Os Castelhanos da armada viam bem aquilo.
Algumas naus e galés estavam tão próximas da praia, que se lá tivessem trons a bordo, como alguns escritores imaginaram, facilmente os poderiam disparar, de modo que os pelouros pusessem em debandada aquela multidão que humilhava Castela.
Mas os Castelhanos limitaram-se a responder à alga, irra dos apupos com gestos e gritos de insulto.
Felizmente para os castos ouvidos, os sinos da cidade e as sinetas das muralhas, cortando os ares com a vibração dos seus repiques, num frenesi louco, abafaram completamente a vozearia das afrontas.
O sol, decorador supremo, punha os seus esplendores de apoteose sobre aquela procissão de triunfo.
E só uma hora depois chegaram à Sé, onde um franciscano, grande teólogo e famoso orador, ia subir ao púlpito para pregar o sermão congratulatório da vitória.