A Ala dos Namorados
Capítulo X · Céu de Luto
A rija têmpera de Ruy de Vasconcelos desmentira com espanto de toda a gente o prognóstico pessimista do cirurgião Teve uma ligeira febre durante o dia 15, mas logo sobre a madrugada de 16 se lhe despegou totalmente, e não houve pedidos que o retivessem na cama.
O apetite era admirável e a disposição de ânimo excelente. O ferimento ia tomando um aspeto animador e prometia cura completa dentro de quinze ou vinte dias.
— É da carnadura rija que ele tem e do sangue boníssimo que Deus lhe deu — explicava o cirurgião, sofrivelmente embaraçado com o malogro do seu prognóstico.
Não fosse o braço ao peito e uma leve palidez, e ninguém seria capaz de adivinhar o rude ferimento que lhe tinham feito.
Logo no dia 16, o Mestre o foi visitar, felicitando D. Dulce por aquele destemido filho. Afonso Eanes, o Magriço, Vasco Eanes e os rapazes do estandarte verde, esses então tinham lá ido frequentes vezes.
No dia 16 levantou-se logo de madrugada no alvoroto deste plano: combinar-se com o seu velho Gonçalo e sair de noite, às escondidas da mãe, para ir pagar a Madalena a visita que ela e D. Maria lhe tinham feito na antevéspera.
Pelas 11 horas apareceu-lhe o glorioso tanoeiro.
— Melhor como pareceis, senhor Ruy?
— Ora, até parece que me dá Deus mais força no braço direito para que o outro me não faça falta — respondeu-lhe a rir — Se fosse canhoto é que era o demónio; mas assim bem posso já voltar aos muros, se os Gascões e os Castelhanos tiverem vontade de tornar à escalada ou aparecerem mais traidores para lhes dar as mãos.
— Para os ajudar cá dentro não sei; mas para eles já foram mais dois dos nossos!
— Dois dos nossos! Quem?
— Afonso Anriques, que esta madrugada fugiu para o arraial inimigo, enganando João Rodrigues de Sá com o qual fora a passeio e a quem levou o cavalo.
— Escumalha hedionda, vilíssima ralé da gente fidalga! — disse Ruy numa cara de nojo.
— E não foi só esse. Do hospital desapareceu ontem à noite o maior e talvez o único inimigo vosso!
— Qual?!
— Antão Gonçalves de Mendonça.
— Ele! Mas então não foi longo o tratamento!
— Ainda não estava curado.
— Ainda bem que o ferimento não era mortal como supunham. Tinha-me esquecido desse homem! Mas sabem se fugiu para o arraial castelhano?
— De certeza não, porém desconfia-se, pois que muito o ia visitar, há coisa de quinze dias para cá, um criado de Afonso Anriques, e este mesmo lá esteve ontem de tarde a falar em segredo com ele.
— Apenas suspeitas, afinal! Não percebo bem como ele poderia fugir, estando ainda por curar e decerto muito quebrado de forças!
— Talvez com a ajuda do tal criado, e de noite, pelo lado do rio, as galés castelhanas estão muito próximas de terra e em qualquer batel o poderiam levar.
— Se não está dentro da cidade! — lembrou apreensivo — Tenho-o por homem sem nenhuns escrúpulos, capaz de alguma torpe vingança!
Lembrara-lhe qualquer possível cilada para infamar Madalena.
— Vingança contra vós?
— Contra mim, cobardemente, afrontando a filha de D. Maria de Mondonça!
— Por essa não vos preocupais. Dois homens destemidos, em quem muito confio, estão lá para as defender, e esses não deixarão entrar pessoa que não seja desta casa ou da minha.
— Há disfarces e a casa é grande... De janelas baixas para o lado da cerca. Até estou a estranhar que de lá não viesse ainda nenhum recado! Ontem mandaram cá duas vezes.
— Pois descansai, que por lá irei daqui a pouco.
— Muito vos agradeço.
Bateram à porta.
— Está ali um criado da senhora D. Maria de Mendonça, que vem saber das vossas melhoras, meu senhor e amo.
— Ainda bem — disse jubilosamente para o tanoeiro.
Deu à criada o recado de agradecimento com a afirmação das suas grandes e progressivas melhoras.
Ficou ainda por instantes a conversar com Afonso Eanes.
Apareceu então à porta, muito alvoroçado, o velho Gonçalo Vasques.
— Senhor Ruy, o Mestre vem outra vez visitar-vos e agora entrou para a sala grande aonde vossa mãe e a minha senhora o foi receber!
— Eu vou. Vinde também, senhor Afonso Eanes. Sei bem quanto apraz ao Mestre ver-vos ao pé de si.
* * *
Conversavam. O Mestre referia-se com mágoa à situação da cidade.
— Mas há de querer Deus que a todos os males se dê remédio, e outros maiores oprimam os inimigos da nossa terra. Que já começaram para eles como se fosse um castigo do céu!
— Senhor, de nada sabia! — disse Ruy, disfarçando neste dizer a interrogação que se não atrevia a fazer-lhe.
— Nem admira. Eu mesmo só há coisa de uma hora o soube por um trânsfuga do arraial castelhano. Vão para lá grandes esmorecimentos, pois que, apesar de todas as recomendações e ameaças, já a própria peonagem de el-rei de Castela sabe apavorada qual flagelo a está dizimando. Entrou mais com eles a peste negra. Está lá desde Julho.
— Senhor! — exclamou D. Dulce — que desgraça tremenda, se para cá lavrasse, agravando a tamanha miséria que vai pela cidade!
— Não há de querer Deus que tal suceda — volveu-lhe — Pelo arraial de el-rei de Castela é que ela vai lavrando como um fogo de morte, que os traz horrorizados. Conforme os dizeres do trânsfuga, já não anda só com a peonagem. Ateou-se mais desde que entrou Agosto e parece que são muitos os grandes senhores que para Sintra e Alenquer têm levado mortos.
— Senhor, porque os levarão para esses sítios, embora seja por Deus que daqui os afastem?! — perguntou D. Dulce respeitosamente.
— O Castelhano que veio entregar-se em muito breves palavras mo explicou. Aos da peonagem os lançam ao rio ou enterram em fundos covões; mas à gente nobre, aos grandes das duas Castelas, das Astúrias, de Leão e da Galiza, a esses os levam para Sintra e Alenquer, e lá ficam esperando nos seus ataúdes que chegue a hora de os transportarem para os seus opulentos solares e castelos, onde os estão águardando jazidas de mármore e de pedra lavrada. O Castelhano alguns me. Nomeou de que mandei tomar nota e me ficaram de memória. Disse-me que para. Aqueles sítios tinham já levado os cadáveres de D. Pedro Fernandez de Velasco, do almirante Tovar, dos manchais Pedro Ruiz Sarmiento e Fernão Alvarez de Toledo, de D. Pedro Nunez de Lara, do comendador-mor de Castela D. Pedro Ruiz Sandoval, do mestre de Santiago D. Pedro Fernandez Cabeza de Vaca e de Ruy Gonzalez de Mexia. Estes são dos maiores que a peste já matou.
— Senhor, Deus, que tudo podem empestar! — lamentou D. Dulce.
— A uns os cozem e salgam; a outros os abrem, enchem de sal e põem ao sol dentro dos ataúdes, para os levarem mirrados, quando houverem de voltar a Castela. Parece que vão a caminho muito para duzentos os que por todo o arraial morrem em cada dia.
— Jesus!
— Já que a nossa aliada, a Inglaterra, nos tarda com auxílio, vem a peste por aliada nossa de mais perto e com maior presteza!
— Que de uma hora para outra poderá ser também contra nós! — observou D. Dulce.
— Como Deus quiser e mandar, mas então se acabará o cerco a ferro e fogo.
E reparando que o sol esmorecia nos vitrais das janelas e punha no pavimento uns lívidos reflexos, como se estivesse a apagar-se, o Mestre com um pouco de gracejo disse para Afonso Eanes:
— Vede lá, senhor Juiz do Povo, se a peste castelhana também já chegou a esse afogueado sol com que o dia começou.
O tanoeiro aproximou-se de uma das janelas.
— Parece que vamos ter grande volta de tempo! Mas é estranho! Não vejo nuvens no céu e o sol está a sumir-se!
— Assim é — disse o Mestre, já ao pé do tanoeiro — Escurece!
— Mãe de Jesus, a fazer-se noite! E os sinos a darem as badaladas do meio-dia!
Ruy lembrou o que uma vez ouvira acerca dos eclipses do sol ao velho astrólogo, que havia anos predissera o grande futuro de Nuno Álvares, e mais era ele então uma criança.
Jovem bem do seu tempo, o Vasconcelos resumiu o fenómeno como a astrologia o entendera e aproveitara para as suas artimanhas de adivinhação. E na Idade Média era aquela a suprema ciência e a maravilhosa arte que sabia ler no céu como em livro aberto de divinos mistérios, os astros figurando caracteres de uma linguagem, que só os magos e astrólogos sabiam entender.
As estrelas diziam a sorte das criaturas e os destinos das nações. Ou se tratasse de um rei, cercado de esplendores, ou de um mendigo coberto de farrapos; de um império na plenitude do poder e da glória ou de uma aldeia mesquinha, perdida nas bravezas da serra; os astros diziam tudo, o futuro fosse de quem fosse; mas só os astrólogos, malucos de ingénua crença ou farsantes de gananciosa ambição, só eles sabiam entender e explicar os avisos que apareciam no céu.
Crendice de superstição ou embuste de ganhões velhacos, era remotíssima e de grandes créditos a tradição daquela ciência adivinhadora. Nasceu do olhar sonhador dos pastores caldeus e nas mãos dos mágicos egípcios se foi mudando, sem eles próprios darem por isso, numa ciência de investigação, de arrojada investigação dos fenómenos celestes. Desta evolução proveio a astronomia, como de um ninho rústico de penhascos pode erguer-se e voar uma águia noviça para as maiores alturas e para a mais intensa luz.
A Idade Média reacendeu o culto da astrologia com todo aquele fervor religioso e aquela impetuosa energia, ardente e semi-bárbara, que punha em tudo, no amor e no ódio, na fé e nas torpezas, nas abnegações e nas ignomínias, na sua galanteria heroica ou na sua desalmada ferocidade.
Reacendeu-o, mas logo o subtraiu a influição lendária dos deuses pagãos, para lhe dar vassalagem na corte do céu católico apostólico-romano.
E para os tenebrosos destinos nenhum cartaz-aviso de mais trágica significação de que um eclipse de sol ou um cometa de cauda.
Ora aqui está porque, apesar de todas as suas explicações de homem corajoso, Ruy não conseguiu serenar o ânimo espavorido da mãe.
Ficou-se numa lividez assustadora, de mãos postas, a soluçar rezas, cheios de lágrimas aqueles seus olhos magoados.
Mas o terror já por toda a casa se desvairava em clamores de piedade e em choros altos de aflição. Corriam em todas as direções numa alucinação de loucura as criadas e os servos antigos como crianças estonteadas de medo.
O velho Gonçalo Vasques assomou à porta a tremer.
— Senhora! Faz-se noite ao meio-dia! — disse, gaguejando.
Mas já o alvoroto nas ruas era enorme. Sentia-se o tropel das multidões a redemoinharem pelas ruas na vertigem de fugir, nem elas sabiam de quê e para onde! Ouviam-se, numa vibração alanceadora, os gritos pungitivos das mulheres e das crianças.
— Até o céu nos desampara! — percebia-se que iam dizendo na rua amarguradamente.
— Luzes! Tragam luzes! — mandava o jovem Vasconcelos à porta da sala.
Inútil mandado. As criadas vieram de roldão pela porta dentro em clamores, em súplicas de misericórdia, e foram cair de joelhos ao pé de D. Dulce.
Até se ouviam os sinos a dobrar!
Por momentos, cabisbaixo, o Mestre sacudiu de si, numa cara de ânimo, toda aquela sugestão de pavores supersticiosos, e disse alto, com serena firmeza, para Afonso Eanes:
— É preciso ir realentar o povo e ter mão nos nossos homens de armas dos muros e das torres. Sinal de castigo celeste, se o é, não será para nós, que estamos pela boa causa, senão para os nossos inimigos, que vieram para nos matar Portugal. Ficai confiante na misericórdia de Deus, senhora minha — disse para D. Dulce — Vinde vós, Afonso Eanes.
— Mestre, deixai que vos acompanhe — solicitou Ruy.
— Não podeis, não deveis — respondeu-lhe, já no limiar da porta.
— Para dar conselho ao povo nem as pernas me fraquejam, nem a voz me falta — alegou, mas o Mestre já tinha saído.
— E da tua mãe e dos nossos te esqueceste, filho!
— Vós não estais no caso dessa gente crédula que anda aí apavorada e pode desamparar os muros e a defensa da cidade.
— Assim enfraquecido! Mas faz o que quiseres. Adivinho as preocupações que te levam daqui.
— Pela Nação, que a bem dizer está dentro de Lisboa... Depois por Madalena. Senhora, perdoai e deixai-me ir.
— Deus vá contigo — disse sumidamente.
* * *
Não chegou a durar oito minutos o ofuscamento da luz solar, mas a penumbra, que para os olhos dos espavoridos parecia ter negrumes de noite caliginosa, essa durou um pouco mais, por causa do fenómeno a que os modernos astrónomos dão o nome de sombras ondulantes.
O Mestre começou a sua tarefa de apaziguador de ânimos, mal que transpôs a porta do palácio de D. Dulce.
— Gentes, escutai! — ia gritando à turbamulta — Castigo de Deus será esta escuridade, não para nós, mas para os cercadores de Castela, católicos cismáticos do antipapa de Avinhão (*).
[(*) Havia então dois papas; um em Roma e outro na cidade de Avinhão — Urbano IV e Clemente VII. Este era o papa dissidente, o pontífice cismático. E Castela tinha-o reconhecido por legítimo chefe da Igreja Católica. Os Portugueses ficaram fiéis ao outro de Roma.]
E assim, como astuto político, ia aproveitando a oportunidade de robustecer a coragem e o sentimento patriótico do povo, deixando-lhe entrever que a proteção divina favorecia a causa de Portugal.
— Senhor, o sol foge-nos como os tredos têm fugido! — volveu-lhe chorosa uma esfarrapada com o filhito ao colo, louco de medo.
— Mulher, também lhes fugiu a eles, também se enegreceu para eles com dobrado castigo, pois que, vai em dois meses, lá têm a peste negra a matar-lhes a melhor gente.
— E nós aqui a fome negra! — replicou um velho.
— Gentes! — exclamou a nossa conhecida tia Lourença, intervindo com ânimo varonil — acreditai nas palavras do Mestre, que mais sabe dessas coisas a dormir que nós outros acordados, e deixai-vos de alanzoar parvoeiras.
— Pois nele cremos e nele confiamos, depois de Deus e da sua Mãe Maria Santíssima.
— Dizeis bem e ficai assossegados — acudiu o Juiz do Povo, aproveitando o realento dos espíritos para abrir caminho por entre o povo.
Foram indo para diante. As mesmas lástimas, terrores iguais e o Mestre na necessidade de repetir idênticas palavras de acalmação e de estímulo patriótico.
As igrejas estavam com os altares iluminados cheios de gente que soluçava preces.
No Rossio um mar revolto de povo em clamores de angústia.
Foi difícil tarefa serená-lo.
Ali o Mestre teve outro argumento para exaltar os ânimos. Deu-lho o próprio sol, já com um largo disco de luz dourada a brilhar por cima da cidade. Era um sinal de que o sinistro aviso de cólera celeste não era para Lisboa.
E naquela altura o auxiliou valiosamente o velho astrólogo Pedro Afonso, que por ali andara a dizer palavras de boa profecia, que ninguém lhe queria ouvir.
Valeu-lhe o prestígio do Mestre naquela conjuntura, e lá o deixou recomendando ao povo que o escutasse. D. João seguiu rapidamente para as Portas de Santa Catarina.
Lembrara-lhe que dos Castelhanos alguns de mais ousadia e menos crendice poderiam aproveitar a consternação da cidade para uma investida de surpresa. As suas arremetidas eram mais frequentes por aquele lado da linha de fortificações.
Entretanto, o astrólogo, de guedelhas sobre os ombros, contra o uso em Portugal, e garnacha preta cingida ao seu corpo alquebrado de velho, explicava com largos gestos qual sentido devia dar-se àquele anúncio do céu.
— Este sol que está no signo de Léo e foi criz (*) ao pino do meio-dia, perdendo a sua clara luz vem a significar grande mortandade no povo de Castela.
[(*) Vocábulo antigo indicando ofuscamento que amedronta; eclipse.]
Desta vez ouviu bem o povo. O sol reaparecia numa aleluia de ouro.
— Pois que Deus mande o castigo para esses que aí estão a cercar-nos com o fito de nos roubar a terra que é nossa — gritou a tia Lourença — Portugal dos Portugueses, e nunca do rei castelão!
— Por Deus, nunca! — bradaram milhares de vozes na vibração de uma só alma.
* * *
Eram infundados os receios do Mestre. No acampamento dos sitiantes o pavor ainda fora maior, para que pudessem pensar num assalto, que o terror supersticioso do povo tornaria talvez fácil e de bom êxito.
Para alguns de Castela o acabrunhamento de ânimo chegara a umas alucinações de medo louco. Estava já o sol em pleno resplendor e ainda a gritaria e o reboliço dos espavoridos eram estonteadores, enormes.
Vimos este de 1905 numa pequena povoação da beira-mar, para além do grande pinhal de Leiria. Foi muito sensível o escurecimento e, embora não fosse total, produziu uma estranha impressão de frio e de tristeza. Houve uns momentos em que todos os aspetos da paisagem tomaram um tom lívido que fazia esmorecer. As aves agitavam-se num mal-estar evidente.
A Lisboa do século XVI tinha visto em 1379 um eclipse total do sol, e portanto, de maior pavor que o de 1384, mas o seu estado de alma nos angustiados dias de Agosto deste ano havia de engrandecer-lhe pelo dobro as impressões de terror supersticioso. Para os olhos daqueles amargurados teria negrumes de agouro trágico.
Devemos à gentileza do Sr. Frederico Oom, ilustre subdiretor do Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda, os esclarecimentos acerca do dia, hora e fases do eclipse de 1384.
Tão supersticiosos como os Portugueses, e afinal como todos os outros povos da Europa medieval, ainda os mais cultos, os Castelhanos tinham motivos especiais para maior terror e mais facilmente acreditar num aviso de cólera celeste.
Com os melhores guerreiros de quase toda a Espanha e um corpo auxiliar de aventureiros de França, dos mais ilustres e dos mais bravos da Gasconha e do Bearne, com o triplo da gente de armas que tinha Lisboa e a mais soberba esquadra que ainda entrara no Tejo depois das Cruzadas, e só em reveses se tinha assinalado para eles aquele mal agourado cerco.
E para mais aflitiva depressão moral e mais aterradora suspeita de que até o céu lhes era adverso, aquele flagelo hediondo e lúgubre da peste, que já lhes tinha morto os mais brilhantes e os mais famosos dos seus caudilhos e tanta gente como se houvessem perdido uma porfiada batalha.
Agora sobre esse acampamento por onde a peste negra vagueava, aquele céu de súbito enegrecera como se as mãos omnipotentes, as mãos de Deus, o houvessem velado de crepes!
Estava o Mestre em frente do postigo interior das Portas de Santa Catarina, quando lhe apareceu Ruy de Vasconcelos no seu andar vagaroso de convalescente.
— Sois imprudente! — disse-lhe.
— Senhor, o dever era sair. Não me faltam as forças; embora um pouco mais quebradas. Para dar alento a gente espavorida a voz bastava, e ela poderia combater, se tal fosse preciso. De cercos antigos tenho ouvido que até os enfermos fugiam dos hospitais para se arrastarem aos muros de defesa, quando era mais bravio o assalto dos sitiadores. Senhor, nada pode valer o que fiz.
— Pois bem; dais honroso exemplo. Quando vos aprouver, voltareis a casa.
— Mestre! — veio dizer o anadel-mor dos besteiros. — um arauto com o pendão real de Castela, seguido de um cavaleiro com bandeira branca, pede para vos entregar uma mensagem de el-rei.
— Ide recebê-lo com escolta e aqui mo trazei de olhos vendados.
— Senhor, sem nenhuma delonga — volveu-lhe o anadel, retirando-se.
— Não consigo atinar com o que possa querer de mim el-rei de Castela — disse para Afonso Eanes.
— Talvez proposta de trégua por causa da peste — lembrou o Juiz do Povo.
— Não lha dou — acudiu secamente — Que volte el-rei para Castela, se tem medo da peste. Também nós temos cá dentro a fome e a sede, e ainda não fomos pedir tréguas.
Veio o cirurgião do hospital de sangue, ali estabelecido a duzentos passos das portas, num casarão que fora albergaria de forasteiros e ficava contíguo a uma ermida em ruínas.
Apresentou-se ao Mestre e deu-lhe conta dos doentes que tinha. Depois lhe pediu uns momentos de confidência e com ele se afastou para junto das ruínas da ermida.
— Senhor, ontem se deu um caso que tenho conservado em segredo. Às portas veio apresentar-se fugido um Castelhano que pedia guarida, entregando as suas armas. Deram-lhe acolhimento, e mau foi que lho dessem!
— Porquê?
— Porque vinha atacado de peste, não com um daqueles achaques lentos, que levam uma ou duas semanas a decidir, mas dos que matam num dia!
— E depois? Dizei — mandou o Mestre numa grande inquietação de ânimo.
— Mal que o receberam, se começou a sentir nauseado, a tremer de frio, a cambalear, e assim mo foram levar ao hospital. Logo me sobressaltei com aquele doente, que já vinha com os olhos toldados de sangue e o rosto a desfigurar-se-lhe e a fazer-se negro. Levei-o comigo para uma barraca de madeira que tinha ali ao lado do hospital com barricas de alcatrão, e ali mandei que lhe fizessem a cama. Observei-o sozinho, atentamente. Tinha tumores nos sovacos, ardia em febre, estavam a inchar-se-lhe os beiços e a língua.
— Estava com a peste?!
— Senhor, estava! Horas depois, entrava com ele um delírio louco, um desespero como se o estivessem queimando as chamas do inferno!
— Dizei o resto.
— Direi o resto em vida! A ninguém contei as aflições que me estavam mortificando! Se a peste viesse dar as mãos à fome, Lisboa teria de entregar-se, e ficaria perdida a causa de Portugal! Não quis ali ninguém comigo. Disse ao enfermeiro que se tratava de um homem envenenado com uma peçonha mortal, cujos efeitos queria observar. Não era preciso que me acompanhasse, faltando aos outros doentes.
— E depois?
— Lancei fogo às barricas de alcatrão. O Castelhano agonizava, apodrecido. Eram altas horas da madrugada. Estavam adormecidos no hospital; só as sentinelas velavam. Iam para dar alarme: evitei-o, alegando que o fogo pegara por descuido meu e não valia a pena alvorotar ninguém, pois era útil que a barraca ardesse, visto que a peçonha que tinham dado ao Castelhano de todo o apodrecera e seria funesto levá-lo dali.
— De nada sabia! — observou o Mestre com áspera estranheza.
— Senhor, foi propósito meu não dar importância ao caso, para que se não levantassem desconfianças de alvoroto. Na cidade já se sabe que a peste está nos arraiais dos Castelhanos e não faltaria quem suspeitasse da minha bem intencionada falsidade...
— Sim... Fizestes bem. E parece-vos que haverá perigo de cá entrar por causa dessa imprudência?
— Senhor, talvez não. O que importa agora é evitar que se dê guarida a qualquer outro.
— Mandei receber um parlamentário de el-rei de Castela e aqui o espero.
— Logo se perceberá que vem já tocado do horroroso flagelo. Irei eu vê-lo primeiro, se mo consentirdes.
— Não serão precisas tantas cautelas, doutor Domingos Afonso.
— Senhor, até por traição vos podem meter a peste cá dentro, mandando em disfarces de parlamentário quem já a traga consigo, bem que ainda muito incubada.
— Isso me parece demasiada desconfiança, senhor físico da Universidade de Salamanca! — volveu-lhe o Mestre, sorrindo.
Domingos Afonso fora estudar medicina e cirurgia na Universidade de Salamanca no ano anterior àquele em que João das Regras fora cursar direito, para a Universidade de Bolonha. Salamanca tinha então a mais famosa das universidades de Espanha e muitos jovens portugueses ali se tinham doutorado.
— Senhor — veio dizer o anadel-mor — ali está a dentro das portas, entre a minha escolta, a pé e vendado, o mensageiro de el-rei de Castela.
— Trazei-mo. Ali no adrozito daquela ermida o ouvirei. Não quero entrar em negociações de mistério com D. João de Castela.
O anadel retirou-se.
— Ruy de Vasconcelos — chamou alto o Mestre — e vós, Afonso Eanes, honrado Juiz do Povo, acercai-vos para saberdes também da mensagem de el-rei de Castela.
Os dois vieram e foram com o Mestre para o adrozito da ermida em ruínas.
Na preocupação dos seus receios de profissional, o doutor Domingos Afonso escapara-se à socapa e lá fora ver o parlamentário, a quem observou e fez diversas perguntas no puro castelhano que aprendera em Salamanca.
— Por este não virá perigo — concluiu de si para si, após aquele brevíssimo exame — Só se a traz muito embuchada consigo.
Trouxeram o mensageiro à presença de D. João. Antes de lhe entregar a carta, o escudeiro disse alto os títulos de quem o enviava:
— Del sefior D. Joan el primero, Rey de Castitta, de Leon, de Toledo, de Gallizia, de Sevilla, de Cordoba, de Murcia, de Jaen, de Algeciras, Senor de Soria, de Viscaya y de Molina, Rey herdero de Portugal y del Algarbe.
D. João acudiu logo de má sombra:
— De todos esses reinos e grandes terras será rei D. João I de Castela, menos de Portugal e Algarve, porque não o há de querer Deus e não o queremos nós. Disto vos não esqueçais, escudeiro. A carta de el-rei.
O mensageiro entregou-lha, curvando-se.
O Mestre quebrou o selo de cera e desatou as fitas que envolviam o rolo de pergaminho da mensagem real.
Leu. Atrás dele Estêvão Afonso Eanes e Ruy de Vasconcelos. Em frente do Mestre, a dez passos, ao lado do anadel-mor de besteiros, o parlamentário de Castela, de elmo emplumado e, por cima da sua armadura resplandecente de Toledo, um curto loudel de damasco vermelho com os brasões reais de Leão e Castela, bordados a ouro e prata.
O Mestre acabava de ler.
— Dizei a el-rei de Castela que nem Lisboa se entrega, nem Portugal aceita a regência de qualquer estrangeiro em nome da senhora D. Beatriz, rainha de Castela. Eu por mim serei o Regedor e o Defensor do Reino, enquanto o povo, o clero e os fidalgos leais de Portugal quiserem que o seja. E mais lhe dizei que tal resposta lhe não mando por escrito para vos não dar demora aqui, visto que vindes de um arraial infestado de peste. Afirmai-lhe que foi paga de exceção receber-vos, sabendo, como sei, que o flagelo negro está assolando o seu acampamento real e cobrindo de luto as mais ilustres famílias do seu reino. Tendes a vossa missão cumprida. Mais não tenho a dizer-vos. Anadel-mor, conduzi para fora dos muros o mensageiro de el-rei de Castela.
* * *
O Mestre seguira para baixo com o pequeno grupo de fidalgos que o tinham acompanhado e despedira-se de Ruy de Vasconcelos, recomendando-lhe que se recolhesse a casa.
Prometeu-lho, mas em consciência lhe fez a promessa com a restrição de ir primeiro a casa de Madalena.
Afonso Eanes ficara com ele para o acompanhar ao palácio dos Mendonças.
Tinham dado uns passos apenas, quando avistaram o velho Gonçalves Vasques, acompanhado por um homem corpulento do povo.
— O meu aio naquela azáfama para aqui! — exclamou Ruy num sobressalto resultante de vagos pressentimentos.
— E com ele um dos homens que eu tinha de guarda ao...
Não concluiu. O plebeu de atlética estatura adiantara-se para ele nuns grandes passos, que o septuagenário não podia seguir.
— Mestre Afonso Eanes, as senhoras desapareceram! — disse numa voz oprimida, a poucos passos dele.
— Desapareceram? — repetiu Ruy, lugubremente pálido, num grito enrouquecido, tocado de angústia, lento como se cada sílaba daquela palavra trouxesse o peso de um supremo infortúnio e o pedaço de uma coisa imensa na derrocada do seu maior sonho.
— Isso há de ser desvario vosso! — acudiu o tanoeiro numa hesitação perturbadora de incredulidade e de dó.
— Mas dizei tudo, tudo a claro! — rouquejou o Vasconcelos, tomando febrilmente o braço do plebeu, que era o mais possante dos mecânicos de Lisboa.
— Uma grande infelicidade, meu amo e senhor! — disse, ofegante, num compungimento de alma, o pobre do Gonçalo Vasques.
— Mas como soubestes que desapareceram? — perguntou Afonso Eanes.
— Foram os criados que deram pela falta das senhoras, mal que o sol tornou a descobrir.
— Mas teriam ido espavoridas para algum aposento oculto do palácio — lembrou sacudidamente o Vasconcelos.
— Corremos tudo e ninguém as viu!
— Sairiam?
— Ninguém saiu de casa.
— Deixaram lá entrar alguém suspeito? — perguntou Afonso Eanes.
— Ninguém lá entrou!
— Aqui tendes a infâmia que eu previa! — disse Ruy em repelões de cólera, voltando-se para o Juiz do Povo — Vingou-se o vilão ignóbil de Antão de Mendonça. Entrou lá de noite, ocultou-se por lá... Levou-as durante os momentos de pavor do eclipse... E essa gente bronca não viu nem percebeu nada! Tolhidos de terror como os outros! Vamos lá, senhor Afonso Eanes. Quero compreender como isso foi. A vida inteira para o encontrar, e matá-lo-ei, seja onde for, como alguém que tudo perdeu mata o ladrão que tudo lhe roubou. Ainda que fosse nos degraus de um altar!
Estava desfigurado, fazia gestos violentos de enlouquecido desespero.
— Acalmai-vos, senhor Ruy de Vasconcelos.
— É aconselhar impossíveis, mestre Afonso Eanes. Vamos, ou vou eu sozinho, já que não estando lá Madalena, o meu voto por si próprio se quebrou.
— Eu vou também — volveu Eanes, pondo-se ao lado dele.
— Levo o inferno dentro em mim! — regougava, dando uns largos passos, que o tanoeiro dificilmente podia acompanhar — Vai a minha vida mudar-se noutra, horrorosamente diferente!
— Perdoai, mas eu não creio nisso que vós já tomais como desventura certa e segura.
— Boa piedade vossa por mim.
— Não posso crer.
— Já em tudo creio. Nos piores fingimentos, nas mais hediondas torpezas! Trazia na alma um sonho de mais dourada luz que a desse ardente sol que há pouco se encobriu — ia dizendo baixo, doloridamente, para aquele plebeu que era dos seus maiores amigos — agora leva mais sombras do que teve o céu por instantes! Sombras talvez para sempre, escuridão para não acabar nunca!
Tinham chegado em frente do torvo palácio medievo.