A Ala dos Namorados
Capítulo XIV · O Sonho de uma Odisseia
Escutai agora uma nova que me fez voltar mais cedo a Portugal. Ides talvez cair das nuvens.
— Pois aqui nos tendes à espera da surpresa, meu querido Álvaro Goutinho — disse-lhe Ruy.
— Estive com o nosso Vasco Eanes na cidade de Veneza, maior, mais poderosa, mais rica do que Génova. Uma bela e opulenta cidade de marinheiros e de mercantes! Muito me admirou o seu poder e as suas riquezas, bem que por várias vezes ouvisse falar aos tantos Genoveses que vivem em Lisboa. (*)
[(*)O Das colónias estrangeiras, então residentes em Lisboa, a dos mercadores e artistas genoveses era a mais numerosa. Já antes da guerra com Castela as relações comerciais da capital com a Flandres e a Itália eram de tal valia que, por algumas vezes, estiveram no Tejo quinhentos navios mercantes daquelas nacionalidades.]
Fizeram-me inveja pela nossa terra, as potentes armadas de galés que o povo de Veneza trazem nos mares! Por elas se tem feito opulenta e temida, pois na terra italiana pouco mais é do que uma cidade! Se esta nossa Lisboa pudesse imitá-la... Se um dia Portugal tivesse também poder semelhante no mar! Mas isto não passa de sonho, bem que algum feito grande esteja na mente de El-rei e do seus conselheiros.
— Não adivinho qual! — acudiu Ruy com estranheza.
— Pois em Veneza se desconfia que El-rei está no propósito de algum assinalado cometimento por mar!
— Por tal se não deu ainda! — objetou-lhe o Vasconcelos.
— Não será então verdade que El-rei, de há três anos para cá, tenha mandado fazer muitas naus e galés, aqui, em Lisboa e Porto?
— Sim, isso é verdade! — respondeu Ruy lentamente.
— E não haja aumentado muito a chusma dos galeotes e do troço do mar?
— Também disso ouvi falar!
— E não ouvistes que muitas lanças e arneses mandara El-rei comprar a Inglaterra e a Flandres?
— De tal é que nós não sabíamos! — disse o antigo carairo-mor de Lisboa.
— Pois tudo isto se sabe em Veneza, que por todas as nações tem agentes secretos e espiões!
— E então para quê todos esses aprestos?! — perguntou o Vasconcelos.
— Isso é que eles ainda lá não sabem e pelo não saberem se deitam a adivinhar. Uns dizem que intentará El-rei a conquista do reino mouro de Granada, outros, que será propósito seu ir tomar a Sicília, e ainda outros que talvez seja para ir contra o Condado de Holanda.
Pois se até alguns, de mais desvairada imaginação, chegaram a desconfiar que tais aprestos navais seriam para ir contra Veneza, em razão das muitas riquezas que lhe chegam dos lados do Oriente e de lá do cabo do Mundo!
— Talvez todas essas coisas não passem de castelos no ar, mas o certo é que nos julgam seguros contra Castela e capazes de tornar agora Portugal maior para o lado dos mares! — disse-lhe Ruy calorosamente — Aí tendes o milagre que fez Aljubarrota!
— E olhai que não é tudo. Por muitas vezes conversei com certo judeu mercador que viveu alguns anos em Lisboa e é agora o mais rico de Veneza. É homem de muito saber; fez longas viagens por terras de Mauritânia e do Oriente; e não sonhais sequer as maravilhas que ele viu e me contou! Um dia me esteve mostrando um grande pergaminho em que tinha o Mundo pintado, segundo um tal Marco Polo, viajante de Veneza que há longos anos faleceu.(*)
[(*) Tinha falecido em 1323. Fez a viagem por terra ao Extremo Oriente onde viveu largos anos. Foi o maior viajante da Idade Média e um dos maiores de todos os tempos.]
Eu pouco logrei entendê-lo, e só me ficou de memória que a tal pintura do Mundo dava ideia de metade de uma lua cheia e que pouco abaixo de Marrocos estava o mar pintado de preto e lhe chamava o judeu o Mar da Noite. Pois foi ele quem me disse que já em tempo antigo certos mouros de Lisboa tinham navegado em busca daquele mar, e que cerca dele ficavam as ilhas Afortunadas que os nossos encontraram nos tempos do senhor rei D. Afonso IV. — Em vez de ir sobre Granada ou sobre Veneza — me observou o judeu — melhor faria o vosso rei se fosse contra Marrocos, que lá tem ao pé da porta com as riquezas de Ceuta e o tal Mar da Noite, que eu não acredito impossível de navegar». E com os olhos esgazeados para mim e os dedos recurvados sobre a pintura do tal mar, que parecia uma nuvem negra a cobrir metade de uma grande lua, terminou assim: — Cavaleiro, quem sabe a que outro cabo do Mundo irá ter este mar?». Meteu-me outro sonho no coração o velho judeu e senti-me namorado de outro moto!
— Cavaleiro não já andante, mas navegador para a cruzada do Mar da Noite? — disse o Vasconcelos com um sorriso, a fingir que a sua própria alma não estava também já tocada pela irradiação daquele sonho.
— Seja para o que for, porém de mais grandeza que andar a escaramuçar com quem já não quer dar-nos batalha. Aqui tendes porque vim, trazendo na alma a metade do moto do tempo em que éramos jovens. Hei de ir envelhecendo a sonhar!
— Como eu, como tantos dos nossos — acudiu o Vasconcelos entusiasticamente — E quando temos alma e força para não adormecer com o sonho, por Deus que é neste sonhar que se acalentam as grandes glórias e as grandes nações. Assim, levando o sonho diante de nós, muito se pode intentar, como faz hoje vinte e seis anos!
— Ora ainda bem que estais comigo! E se for preciso, forma-se uma ala de navegadores, e os velhotes da outra que há tantos anos se desfez, irão acabar no fundo dos mares como acabaram em Aljubarrota esses que jazem no claustro maior do mosteiro de Alcobaça.
E assim terminou, com esta visão de uma odisseia, aquele serão de épicos devaneios, numa grande e amorável saudade evocadora.
* * *
Passaram quatro anos. Os aprestos militares feitos em Portugal tinham sobressaltado uns poucos de Estados da Europa. Castela receava e mandou a Lisboa um embaixador para sondar os desígnios de El-rei e pedir-lhe que novamente jurasse a paz. D. João disse-lhe palavras tranquilizadoras e fez-lhe a vontade. Depois uma embaixada do Aragão com suspeitas idênticas por causa do seu domínio na Sicília, e uma outra do rei mouro de Granada, por temer que fossem contra ele aqueles ruidosos preparativos militares, tão desconformes com a pequenez do reino.
Mas não ficava por aqui a fantasia dos noveleiros. Uns inventaram que a expedição seria para se ir apoderar da Sicília; outros que para uma nova cruzada à Terra Santa ou para se apossar da Holanda, e até correu insistentemente que para a conquista da Normandia, uma das mais belas províncias da França, é que eram todos aqueles espantosos aprestos.
Era a alma da Nação a sonhar desvairados destinos depois do milagre épico de Aljubarrota.
E a diplomacia astuta do Rei deixava criar e crescer estes boatos desorientadores com que a fantasia do povo se ia embalando. Convinham-lhe.
O verdadeiro objetivo da expedição só o sabiam, combinados no mesmo segredo, El-Rei, a Rainha, os Infantes, um deles, D. Henrique, mais afervorado no cometimento que os dois irmãos já homens; o Condestável, consagrador indispensável da empresa, e alguns do conselho de Estado e da intimidade do Rei.
E para melhor sustentar o disfarce se engendrou uma alta comédia diplomática, em que a soberana da Holanda se depressau a representar o papel fundamental, recebendo com aspereza um duro protesto de fingimento do Rei de Portugal contra as rapinas dos corsários holandeses.
Foi então um judeu negro, israelita queimado pelo sol africano, troveiro e criado da rainha D. Filipa, foi ele quem atirou para o redemoinho dos boatos contraditórios, a intenção verídica do empreendimento, indicando-a numas trovas de feitio profético.
Seria um balão de ensaio, como se diria hoje, para avaliar o efeito daquele propósito, de que ainda ninguém se lembrara? Seria; mas foi neste boato precisamente que a Nação quis acreditar. É que ninguém podia adivinhar o prodigioso destino que estava por detrás desse cometimento inferior à conquista da Normandia, da Holanda ou da Sicília.
* * *
Entrou a Primavera e veio com ela a peste.
Ninguém se deixou esmorecer por ela. O sonho, êxtase enervador dos decaídos, é, nas raças crentes e impulsivas, uma soberba e miraculosa força.
Fosse para onde fosse, Portugal tinha de embarcar. Era o seu destino. O crepúsculo de Aljubarrota ia mudar-se em manhã de uma nova era.
A 10 de Julho chegava ao Porto, com a gente de guerra de Trás-os-Montes, da Beira e de Entre Douro e Minho, a armada do Infante D. Henrique e do Conde de Barcelos, seu irmão bastardo, já viúvo da filha única do Condestável.
O Infante D. Pedro foi noutra armada até fora da barra esperar o irmão. Tinha sido ele quem superintendera nos alistamentos da gente de guerra da Estremadura, Alentejo e Algarve.
De velas empavesadas, bandeiras e balsões heráldicos esvoaçando ao vento, as trombetas a vibrarem orgulhosamente o seu alardo de guerra, a soldadesca de librés garridas, com as cores distintivas dos seus chefes, e o sol alto e rútilo de Julho a lampejar no ferro brunido das armaduras, as duas esquadras entraram soberbamente até em frente do Rasteio e ali atracaram, ninguém sabe porque sugestão de algum misterioso destino!
Com aquela visão nos olhos, quem podia lá pensar no luto com que a peste ia vestindo a gente de Lisboa? Se nem os próprios enlutados sabiam chorar! Pelo Mundo fora é que era a sina.
* * *
Mas a própria Rainha fora tocada pelo flagelo.
Estava em Odivelas com os primeiros rebates da peste. Seria um grande pesar para todos que a morte levasse aquela senhora de austeras virtudes, mãe e educadora de primorosa lição.
Embora. A alma da Pátria ensaiava o seu voo de águia e as águias não choram, nem há crepes de nenhuma dor em que se lhes enleie a envergadura.
Desfalecida no seu leito, a Rainha inglesa pensava na planeada expedição. Ouviu gemer o vento. De que lado?
— Aquilão, vento certeiro do Norte — responderam-lhe.
Bom vento para sair no rumo daquela empresa. E já com o coração a adivinhar-lhe a morte, a Rainha mandou que lhe trouxessem as três espadas que mandara fazer para os filhos, os três infantes já homens — D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique — e das suas mãos trementes lhas receberam eles, de joelhos à beira daquele catre real, que ia mudar-se em leito funerário.
A Idade Média estava também moribunda, e dessa cavalaria romântica e sonhadora que exalçara até ao fanatismo o culto da mulher endeusando-a, era Portugal, naquele derradeiro ciclo, a terra maternal e alma consagradora. Para a cruzada marroquina, a Rainha moribunda, filha dessa raça que ideou a lenda do rei Artur de Gales, armava do seu leito de morte aqueles filhos seus, vergônteas dessa árvore soberba que o Messias batalhador de Lisboa plantara na charneca ensanguentada de Aljubarrota.