A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 28 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo V · RECEIOS

 

No real mosteiro de Tordesilhas havia, como em outros de Portugal e Espanha, uns aposentos especiais, muito afastados das celas das monjas, para hospedagem dos soberanos e a sua comitiva, e ainda uns compartimentos destinados às damas que ali se acolhiam para uma reclusão temporária, sem encargo de obediência a todas as regras da comunidade.

Também aquele, como outros mosteiros da Península, algumas vezes fora prisão disfarçada para altas damas comprometidas por desvairados amores, ou sequestradas da vida profana por interesses de família ilegítima e inconfessáveis, e não raras vezes por conveniências políticas e supremo arbítrio dos reis. Era este o caso da pérfida D. Leonor Teles, encerrada ali por ter conspirado contra o genro, mal sucedido herdeiro da coroa de Portugal.

Quando era preciso, os mosteiros tornavam-se bastilhas, sob a invocação vaga, e misteriosa, da razão de Estado, e algumas vezes sem se invocar outra coisa que não fosse a vontade absoluta do soberano.

Naquele mosteiro de Tordesilhas havia uns aposentos para hospedagem da família real e das damas da rainha, recanto opulento a contrastar com as relativas humildades do viver conventual.

Era numa câmara das que estavam destinadas às damas da rainha que D. Maria de Mendonça e a filha tinham sido aposentadas. Estas já nós sabemos que se tinham encerrado ali por escolha de D. Beatriz de Portugal, a quem Madalena solicitara o favor de a deixar recolher a um convento, até que os sucessos da guerra viessem decidir do seu destino de noiva.

Sabemos também que a vontade inabalável do pai era casá-la com o primo Amtão Gonçalves, o cavaleiro mudo, e que este propósito era firmemente patrocinado pelo rei de Castela.

A rainha, muito afeiçoada a Madalena desde os últimos tempos do cerco de Lisboa, um pouco tentou defendê-la daquele casamento, repugnante para a mal-aventurada menina; mas a vontade do rei era neste ponto intransigente e D. Beatriz, esposa ainda criança, tão menina que apenas tinha feito 13 anos naqueles fins de 1385, dobrava-se timidamente ao querer do marido e só se atrevia a fazer-lhe pedidos como se fossem súplicas de uma tutelada infantil.

O mais a que se atreveu, durante a ausência do marido, foi conceder-lhe a reclusão por ela solicitada, e esta mesma só depois de ouvida a opinião do arcebispo de Toledo, que ficara como seu preceptor.

Rainha assim juvenil carecia de tutela.

O que D. Beatriz não adivinhou foi que Madalena lhe fazia aquele pedido, não somente para mais livre e recatado desafogo das suas mágoas, que seriam para desdéns e suspeitosa estranheza da corte, mas também, e talvez com mais sincero fundamento, para se esquivar ao encargo de orar todos os dias e todas as noites, em comunidade com as outras damas, para que Deus protegesse a causa do rei invasor.

A determinação das rezas fora imposta em nome da soberana: mas Madalena bem percebera que a pobre rainhazita obedecera aos conselhos, como preceitos de tutoria, do arcebispo de Toledo.

Mas fosse de quem fosse a ordem, pela boa fortuna dos invasores de Portugal e pela glória daqueles que podiam matar-lhe o noivo que trazia retratado na alma, o outro que era da sua escolha; para tal sacrílega petição é que ela não teria orações que lhe não subissem do coração aos lábios mudadas em prece fervorosa pela vitória dos que defendiam Portugal.

Aqui está porque, na opressão de todos os seus sonhos pelo futuro, a linda namorada de Ruy de Vasconcelos saiu de Ávila, para aonde a rainha e a corte tinham ido de Toledo, sob a vigilância do arcebispo, e foi para o encerro de Tordesilhas num tão grande alívio do coração que chegava a parecer júbilo.

 

* * *

 

Naquela manhã em que os Namorados não estariam talvez a grande distância de Tordesilhas, Mendo Rodrigues conseguira pela segunda vez falar a sós com Madalena nos aposentos reais. D. Maria de Mendonça fora para o coro com as monjas, levando-lhes a falsa desculpa de que a filha não podia ir por se ter sentido incomodada.

Com o seu aspeto venerando, as suas longas barbas, o seu rosto mortificado e aquele burel e sandálias de monge peregrino com que ele realmente viera dos Lugares Santos, Mendo Rodrigues conseguira das monjas uma piedosa hospedagem, que ao segundo dia era já intimidade, sem a mínima sombra de suspeita.

Contando a sua fingida história de monge, dissera que tinha ido de promessa à Terra Santa e de lá voltava trazendo relíquias para alguns mosteiros de Castela, entre os quais aquele, pelo qual tinha particular devoção. E contara isto no castelhano que sabia falar correntemente, logrando conquistar as boas graças das monjas de mais idade e mais acendrada devoção.

Que precisava de uns largos dias de repouso — alegara-lhes — e que no dia da partida entregaria então a melhor relíquia, uma que trazia de promessa para aquele mosteiro.

Disseram-lhe logo que se demorasse os dias que lhe aprouvesse, e não havia solicitudes de piedosa devoção com que lhe não realçassem as comodidades da hospedagem.

Quem menos se importava com ele eram as monjas novas e, principalmente, as noviças, sonhando galãs que não podiam ver, e recordando com saudades as lindas canções daquele trovador de Provença, que viera com o monge e uma tarde estivera cantando no pátio grande uns belos rimances de cavalaria andante e de castelãs namoradas, para elas ouvirem.

 

* * *

 

— Receais então que a rainha aqui volte de visita? — perguntou Mendo Rodrigues num murmúrio de voz, muito inclinado para Madalena.

— Agora muito receio tenho de que ela volte!

— Dizei-me porquê?

— Porque pode vir para me levar consigo.

— Se ela própria, há um mês como me dissestes, aqui veio para vos trazer o boato de que Antão Gonçalves havia ficado prisioneiro em Aljubarrota, com outros, com que fim havia de querer levar-vos agora consigo?

— Para me ter ao pé de si naquela corte que a entristece e onde (tantos a olham como estrangeira, que só vale pelo dote de herança...

— Que afinal está mal parado e já custou ao marido uma formidável derrota.

— Por isso lhe não querem bem as soberbas damas, do paço e lhe chamam pelas costas a nina chamorra.

— E ela sabe?

— Percebe, desconfia, sente que lhe não querem bem. É talvez na corte quem menos manda! É a rainha menina de quem todas as damas de maior prosápia querem ser tutoras. Até pelos corredores do paço ousam dizer que não é filha de El-rei, que Deus haja!

— E nisso talvez não a caluniem — disse consigo Mendo Rodrigues.

E logo para ela:

— Deve então sentir-se mal na corte e sofrer com essa realeza que tem coroas de espinhos?

— Desabafava comigo, sempre cheia de medo que o sonhasse o rei ou o arcebispo de Toledo. Nem vos sei dizer as muitas lágrimas que ela chorou, abraçada a mim, a contar-me a dor de alma que teve quando a mãe a veio trazer ao rei e se viu longe da sua terra! Teria dó dela quem lhe ouvisse contar as mágoas que padeceu, enquanto os seus vassalos de Castela estavam cercando e oprimindo aquela cidade de Lisboa onde nascera e se criara.

— Poderia ter-se esquivado a acompanhar o rei. Não ficava mal a uma dama juvenil como ela ter medo dos trabalhos e pavores da guerra.

— Quis, mas o marido mandou e teve que lhe obedecer. Para Portugal a levaram na suposição de que a cidade mais facilmente se entregaria sabendo-a ali. Foi ela própria quem mo disse.

— E como Lisboa se não entregava, estou a adivinhar que maiores foram para ela as antipatias da corte.

— Maiores! Percebi-as eu e sentia-as ela.

— E então agora, com a herança talvez perdida para sempre em Aljubarrota, maior frieza e má vontade para ela?

— Não podeis imaginar a consternação em que aqui me apareceu! Chorava como as outras da sua idade podem chorar não sendo rainhas como ela!

— De pesar!

— De medo. Vinha toda de luto, mas o que ela trazia no coração era receio.

— De luto, sim, isso ouvi eu já.

— Disse-me que foi como el-rei lhe apareceu. Pesado luto, e ele num choro de desespero como se fosse mulher e a arrepelar-se como se fosse um louco! Que não era a perda de uma batalha o que mais lhe doía, lhe dissera el-rei; mas ser vencido por um bando de chamorros. E disto lhe vinha grande vergonha e lástima.

— Todavia, em Ávila, como já dissestes, a rainha mandou que todas suas damas, dia e noite, orassem para que Deus desse a-vitória aos de Castela contra os que defendiam a sua terra!

— Não foi ela, coitadinha. Mandou pela sua boca de rainha menina, como lhe chamam, mandou por ela a vontade temerosa do arcebispo de Toledo. Se me não deixassem retirar para este mosteiro, as orações que dissesse alto, havia de o meu coração votá-las a Deus em favor dos nossos contra os outros por quem elas pediam.

— É melhor vos ouviu Deus, minha filha, pois que a batalha, como já vos contei, apesar do assombroso esforço dos nossos, chega a parecer um milagre!

— E também já me contastes que o vosso sobrinho Ruy foi lá dos que mais batalharam e com maior valor ajudaram a vencê-la.

— Foi; vi eu. Ele e os seus companheiros da Ala dos Namorados como leões!

— Meu Deus! Com risco de vida!

— Morreram muitos da ala, e olhai que, de tanto se afoitar, nem eu sei como ele também não ficou lá.

— O noivo da minha alma! — disse num confrangimento — E eu aqui a rezar tanto por ele, com tamanho medo! A pedir a Nossa Senhora que mo salvasse, mandando-lhe um anjo seu que lhe fosse guia.

— Ouviu-vos. Lá teve consigo a própria Mãe de Jesus naquela pequenina imagem da bandeira, que as vossas! Mãos bordaram e deram aos Namorados.

— E agora, senhor Mendo Rodrigues?! Ainda vos não mandou notícias aquele vosso amigo troveiro de Provença?

— Não tinha que as mandar. Virá ele mesmo trazê-las em companhia do vosso noivo.

— Outra vez para tamanho perigo! O medo que eu tenho por ele! Tamanha ânsia de o ver! Tamanho receio de que mo matem! Quem sabe se o troveiro lá pôde chegar? Quem sabe se terá havido outra batalha... De morte para ele?!

Levou as mãos ao rosto, numa tremura de pavor e numa convulsão de choro.

— Minha filha! — disse-lhe Mendo Rodrigues carinhosamente — Não vos mortifiqueis com esses infundados receios. Ainda não é tarde para eles chegarem.

— Há tantos dias!

— A jornada é longa.

— Há duas noites os ruins sonhos que eu tenho tido!

— Ninguém pode fiar-se neles. Por cada um que acerta quantos de louca falsidade?!

— Meu pai a aparecer-me aqui com o outro, o emudecido que me causa horror!

— Vi-o eu em Aljubarrota. Dava uns gritos roucos a lembrarem latidos de lobo!

— Jesus meu! Antes morrer! E no sonho, meu pai e o rei a quererem por força que nos casassem aqui, na igreja do mosteiro!

— Desse perigo vos livrou Deus.

— Mas se ele ficou prisioneiro, pode fugir, podem resgatá-lo!

— Mas os mortos não fogem.

— Morreu?!

— O vosso noivo o matou.

Estremeceu; duvidava.

— Não ficou então cativo como vos parece que está meu pai?

— -Antão Gonçalves caiu naquele cativeiro que não tem resgate e do qual nunca mais se volta.

— Deus então lhe perdoe. E o meu pai, se ele poderá remir-se? Apesar de todas as mágoas que me causou, não lhe quero mal, não lho posso querer.

— Desse, nada sei ao certo — acudiu, contrafeito.

E logo, de si para si:

— Deus me perdoe esta falsidade de boa intenção.

— Ruy talvez saiba dar-me notícias dele. E hei de eu pedir-lhe de joelhos que se esqueça dos agravos que dele recebeu e lhe dê proteção. Há de ter envelhecido mais. Terá decerto padecido muito! Nossa Senhora seja por ele!

Apareceu D. Maria de Mendonça; vinha desfigurada.

— Mãe, minha querida mãe, que tendes?!

— Não nos quer deixar a desventura, filha!

— Por amor de Deus, dizei o que há? Querem ver que se soube de alguma desgraça para ele!

— Para nós, talvez! Chegou um pajem da rainha com aviso de que esta tarde aqui viria pousar e nos levaria a ambas consigo.

— Mãe, a mim não! — soluçou a abraçar-se nela — A mim, não! Morre quem quer morrer, e há de Deus perdoar a quem tinha razão para morrer.

— Filha, que loucuras dizes! — exclamou D. Maria, relanceando um olhar para a porta, no receio de que alguém pudesse ter ouvido. — Senhoras minhas — disse-lhes baixo Mendo Rodrigues — não temais que a rainha chegue. Ficarei eu, se for preciso, para vos proteger a saída.

Nisto, do lado do caminho que cingia os muros altos da cerca, uma voz possante, de timbre suave, fez vibrar nos ares um rimance de amor na carinhosa linguagem de Provença.

— O Provençal! — exclamou num alvoroço de alegria o velho peregrino.

— A voz do troveiro vosso amigo — acudiu Madalena numa comoção jubilosa.

— Certo ele é. Dai-me licença que vos deixe, senhoras minhas; vou já saber notícias e aqui vo-las hei de trazer antes que a tarde chegue.

 

* * *

 

— Tudo bem e tudo já combinado — informava o Provençal, num recanto do caminho, já a larga distância do mosteiro.

— Quantos Namorados?

— Trinta e um com o vosso sobrinho e quase outros tantos pajens e escudeiros.

— É gente para muito; porém melhor será que tudo se faça sem grande ruído e derramamento de sangue. Não vou ter com eles agora. Podiam ver-me os espreitadores da terra e seguir-me-iam com estranheza e teimosia de curiosos. Ide vós dizer-lhes que de cá está tudo prevenido; porém, as dificuldades podem aumentar. Recebeu-se aviso de que a rainha viria de Valhadolid em visita ao mosteiro, no intento de levar consigo a mãe e a filha.

— Demónio, grande embaraço é esse! E chegará hoje?

— Colhi informações; com interesse de bom castelhano as pedi à madre superiora, e soube que antes da noite contavam com ela cá.

— E trará numerosa escolta de homens de armas?

— No mosteiro estão preparando aposentos para doze homens, cavaleiros, escudeiros e pajens.

— Então por tão pouco não há que temer.

— Presume-se que traga alguma gente de ginetes, como é costume. Uns cinquenta me contaram que tinham vindo com ela, quando foi da sua última visita ao mosteiro.

— Com os que já aí têm, rija e desigual batalha podem ter os Namorados! Cada um deles contra quatro ou cinco dos ginetes, afora a peonagem, que dá o dobro de todos eles!

— A essas desigualdades, e com adversários de maior valia já eles estão afeitos e ainda há instantes mo dissestes vós dando-me notícia da batalha de Valverde. Mas era bem para todos que o feito mais se levasse a cabo por surpresa e astúcia do que por cometimento farronqueiro de escusadas cavalarias. Lá dentro eu disporei tudo para a fuga. Combinai o que importa fazer para colher a gente de armas de surpresa, ou, melhor ainda, guardá-la desprecavida, sem alvoroto que lhe dê alarme e nos possa dificultar a saída. Vós pelas vossas condições de trovador provençal em toda a parte sois bem recebido e escutado, e muito poderíeis saber a respeito da gente de armas que chegar e dos lugares certos onde por noite velha os poderemos ter guardados e seguros.

— Alguma coisa sei já quanto a esse ponto; mas deixai que tudo hei de indagar até que chegue a hora da partida.

— Bem vedes que se não trata somente de uma atrevida algarada de aventura, mas de tirar daqui duas damas e levá-las a bom recato e sem perigos para elas. Batalha só por extrema necessidade e em tal conjuntura que já as duas damas estejam a salvo.

— Pois assim se fará como entendeis.

— Ide lá dizer-lho por favor de amigo. E mal que cerre a noite, eu vos esperarei ali, àquela esquina do muro da cerca, para um e outro ficarmos sabendo como tudo está disposto.

— Pois então até ao fechar da noite.

— Até lá, e grande amigo temos em vós, meu querido poeta da Provença.