A Ala dos Namorados
Capítulo XIX · Menagens de Cavaleiros e de Amargurados
Tinham passado quatro dias. Em casa de D. Dulce de Vasconcelos não podiam entrar os fervores e os entusiasmos em que estava Lisboa, desde aquela memorável reunião do terreiro de S. Domingos. A tristeza como que a isolava da cidade; as mágoas cerravam-lhe as portas a todos os júbilos e a todas as agitações do grande drama em que a capital vivia.
Da extraordinária manifestação do dia 2, só o velho escudeiro soubera por umas breves informações do monge, que dela casualmente houvera conhecimento naquele mesmo dia e com o povo se misturara como sabemos.
E, todavia, Ruy tinha tido melhoras de bom indício desde o primeiro dia do mês. Lentas, mas sucessivas melhoras. Menos intensa febre, a razão mais clara, mais inteligíveis as palavras que a espaços dizia sumidamente, e nisto as mais acentuadas melhoras, pois que chegara a estar como que emudecido, rouquejando apenas umas coisas inarticuladas, que nem davam sequer monossílabos.
Lia-se no rosto do físico assistente a anunciadora satisfação por aquelas melhoras; mas as suas palavras, cautelosamente vagas e como para conter exageradas esperanças, deixavam perceber que o perigo de morte ainda não tinha passado. Prometera, todavia, que, a continuarem assim as melhoras, em três ou quatro dias consentiria que algum dos seus amigos o fosse ver, mas com a promessa formal de lhe não falar.
Quis, porém, a má fortuna que o tenuíssimo consolo por aquelas melhoras logo tristemente se ensombrasse com a doença de D. Dulce, agravamento dos males antigos nas suas fadigas de enfermeira, em longas noites veladas à cabeceira daquele doente, imensamente amado. E para a sua precoce velhice de valetudinária maior mal ainda na dor moral, inexcedível, do seu coração de mãe, já por outras amarguras antigas tão profundamente ferido, que dele, em qualquer instante, de surpresa, lhe podia vir a morte.
E, mesmo assim, não queria D. Dulce abandonar a cabeceira do filho e só no dia 2 à noite, quando de todo lhe faltaram as forças, acedeu aos pedidos e recomendações do irmão, e do físico. Levaram-na em braços para os seus aposentos e ali ficou de cama, entregue aos cuidados da sua aia e de uma criada, por expressa determinação do próprio assistente. Que não a deixassem nunca sozinha, recomendara.
Ficariam então com o pobre Ruy, para se revezarem, o velhinho Gonçalo Vasques, que já mal podia consigo, coitado, e Mendo Rodrigues, que era naquela casa a única pessoa que totalmente se não despreocupava dos factos exteriores, especialmente dos que tinham carácter político.
No dia 4, a tia Lourença foi saber de Ruy como era de costume e deixou ao fundo da escada, como de outras vezes, aquela mulher delicada e jovem, que noutro tempo se chamava no paco D. Leonor de Gusmão.
Mendo Rodrigues estava naquela manhã à cabeceira do sobrinho e foi Gonçalo Vasques quem falou à famosa regateira.
Contou-lhe as melhoras de Ruy, que encheram de alegria a intrépida mulher, falou-lhe consternado da doença de D. Dulce e, a propósito da falta de boas servas a quem se confiassem doentes, lhe pediu indagasse de alguma mulher que tivesse prática de velar doentes e fosse carinhosa e de bom trato.
Mercê seria, se lhe encontrasse alguma, pois logo naquela casa seria recebida para ficar e ter boa paga.
A Lourença disse-lhe que de nenhuma tinha conhecimento, mas que de muito boa vontade iria fazer a indagação e no dia seguinte voltaria com a resposta.
Desceu a escada e, quando Leonor vinha para ela numa impaciência mortificadora, atirou-lhe a boa notícia como quem atira um beijo.
— Melhor, melhor, filha de Deus! Ouviu-nos Nossa Senhora, e pediu por ele ao seu Filho Jesus!
— Mãe Lourença, o tamanho consolo que eu sinto! — segredou-lhe quase num soluço.
E pelo caminho lhe foi dizendo:
— É amor para se resignar e sofrer sem nenhuma esperança este meu, que nem as maiores desgraças puderam matar! Irá servindo para a remissão de uma grande culpa que não foi minha! Amor de irmã, já que ele, no seu dó por mim, vos disse que seria como irmão meu!
E a encaminhar-se para casa de Afonso Eanes, onde ainda estavam como pessoas de família, lhe falou Lourença nas más notícias a respeito de D. Dulce.
Recebeu a notícia com sobressalto, afogueando-se muito e logo no rosto e no olhar lhe transluziu a mágoa por aquele novo infortúnio.
— Há de fazer falta ao filho! — disse-lhe, comovida — Não creio que possa haver melhores e mais carinhosas enfermeiras do que as mães para os filhos.
— E então aquela, que bebe os ares pelo seu!
— Coitada da pobre mãe! O que ela se não terá ralado separada do filho! Para maior sofrimento seu!
Estavam já em frente da casa de Afonso Eanes. A mulher do tanoeiro falou-lhes do murozito do quintal, à beira do poço, e assim se interrompeu a conversa a respeito de D. Dulce.
* * *
Voltemos nós ao velho paço das imediações de Santo Elói. Subamos e entremos por ali dentro como pela nossa casa.
Mendo Rodrigues sai da câmara de Ruy e o velho Vasques vai ao seu encontro.
— Repousa, adormeceu profundamente. Ficou lá a olhar por ele a tia Tomásia. Faz-lhe lá falta a mãe. Aquilo não é tarefa para servas broncas da laia daquela.
— Já eu pedi que me indagassem de alguma criatura que fosse mais azada e carinhosa para me ajudar a velar por aquele meu desventurado senhor.
— Assim apareça alguma de jeito.
— Ficaram de me trazer a resposta amanhã.
— E da minha irmã e senhora D. Dulce, o que soubestes?
— O físico saiu de lá há pouco. Esperei-o para lhe falar.
— E ele que disse?
— Que as forças daquela santa estavam muito abatidas e aquele seu coração muito ralado de mágoas. Pelos modos, a febre ainda lhe não despegou, bem que seja menor do que foi esta madrugada.
— A minha pobre Dulce!
— O físico disse-me que o seu pior mal lhe vem do coração, mas a aia contou-me que, depois da madrugada, a senhora tinha tido menos sufocações e dormia aos pedaços; porém sempre com o filho na ideia, até quando está adormecida, pois que dele fala sonhando.
— Meu velhinho, tem paciência com estas canseiras.
— São de boa mente e entraram na conta das maiores devoções da minha alma.
— Bem sei; mas já não podes com tantas noites veladas.
— Aos poucos me vou deixando dormir no escabelo grande, e assim as noites me parecem mais pequenas.
— Sim, sim, como tu é que os homens vão sendo raros! Olha, eu quero ver se chego ao paço. Os homens de nobreza vão dar preito e menagem ao Mestre...
— Rei, senhor Mendo Rodrigues, conforme vós mesmo me dissestes.
— Dos maiores reis, será, de toda a Nação há de ser, se contra o poder de Castela formos nós os vencedores; mas por agora é rei somente no coração do povo de Lisboa.
— Quantos terá havido que o foram por nascimento e nem essa menagem do coração do povo teriam tido sinceramente.
— Alguns. Mas olha cá: eu quero lá chegar para dar ao Mestre o preito e menagem pelo meu sobrinho. É como se ele próprio fosse.
— E mais também por certo destemido cavaleiro de outro tempo, honrado e leal Português: por vós, senhor Mendo Rodrigues.
— Esse, Gonçalo Vasques, deslustrou-se por malfadados amores — disse-lhe com uma grande tristeza cheia de saudade e de mágoa — e há muito acabou amortalhado num burel de monge.
— Monge que luta como o antigo cavaleiro lutava...
— E para isso voltou em hora tal, que não há esforço que se possa perder, nem sangue que seja de mais. Mas, voltando ao caso, entendes que eu posso ir ao paço do Limoeiro, sem que faça aqui falta?
— Senhor, podeis. E sem preocupação deveis ir, que me vou eu ali para dentro e lá estarei de guarda ao vosso sobrinho, assim como se fosse um pai à cabeceira do filho, com perdão vosso e dele.
— Com agradecimento para durar sempre é que é, meu querido Gonçalo Vasques. Tenho para mim que a demora será pequena e depressa hei de voltar.
— Deus vá convosco. E se a gente da minha condição houvesse de prestar menagem, muito vos pediria que também por este velho a désseis lá ao Mestre, ao Rei. Quem já não tem para dar braços que levantem uma espada ou arremessem uma lança, dá o coração, que para os reis alguma valia há de ter.
— Como o teu, o valor é sempre grande, seja para quem for. Até daqui a pouco, meu querido Gonçalo Vasques.
* * *
Tinha sido aquele o dia aprazado para o juramento solene de preito e menagem ao Mestre.
Quando Mendo Rodrigues, com o seu hábito de monge peregrino, entrou no terreiro do paço de Apar de S. Martinho ou do Limoeiro, estavam já pelo corredores que davam para a antiga sala do trono todos os fidalgos cavaleiros e escudeiros de prole, que lealmente eram pela Nação e tinham residência em Lisboa e o seu termo.
Todas as províncias ali tinham representantes; uns que antes do cerco tinham acorrido à cidade, outros que tinham vindo da armada do Porto, sendo a maioria destes dos senhores solarengos nas terras de Entre Douro e Minho. E da sua hoste aquartelada em Palmeia mandara vir Nuno Álvares alguns dos principais cavaleiros.
No topo da escadaria grande tinham ficado os homens bons da cidade, como ainda se dizia. Os da câmara, os da Casa dos Vinte e Quatro e, com as suas altas prerrogativas, o Juiz do Povo, a lembrar um pouco o lord-mayor de Londres, figura primacial do povo, o alto representante da City, quase como um soberano dentro do vetusto paço municipal de Guildhall (*).
[(*) Alguns foram homens de ofício, outros eram filhos dos mesteirais da mais humilde origem.]
O Paço não estava defeso a ninguém. Mendo Rodrigues subiu e ficou por instantes a falar com Afonso Eanes.
— O Mestre já está recebendo as menagens?
— Ainda não, venerando monge.
Importa observar aqui que muita gente supunha algum grande e tormentoso mistério sob o burel daquele monge que tinha uma fisionomia admiravelmente distinta e se batera como um paladino ilustre no último período do cerco; mas ninguém ainda reconhecera nele o altivo e preclaro cavaleiro da corte, que ele fora onze anos antes. Do fidalgo Mendo Rodrigues, ensanguentado num conflito pessoal, fugido da corte e do País, todos se tinham esquecido porque todos tinham tido por segura a notícia da sua morte.
A velhice precoce e de amargurada transfiguração completamente lhe guardava o mistério.
O monge sem nome lhe chamavam porque a alguém dissera que o havia perdido ou dele se esquecera.
A época, agitada e revolta pelo drama trágico em que a Nação se debatia, não era de molde a favorecer a insistência das curiosidades individuais. Entretanto, os mais tenazes no descobrimento da vida alheia tinham chegado a fantasiar que o monge seria algum cavaleiro de aventura dos que andavam correndo terras, e da Palestina teria vindo, trazendo à família Vasconcelos alguma relíquia e as últimas vontades do outro que morrera.
Era até esta a versão que no paço tinham dado ao Mestre.
— Sabeis se ainda haverei tempo de ir falar com esse que vós fizestes rei, antes que a sua senhoria comece a receber as menagens?
— Isso vos não sei eu dizer. Há pouco ouvi que o Mestre estava encerrado com os do seu conselho da clerezia e da nobreza e mais o doutor João das Regras, assentando no que se havia preciso de fazer para reunir as cortes o mais cedo possível.
— Já se diz onde é intento reuni-las?
— Em Coimbra ouvi eu que seria.
Nisto um pajem abriu a porta da sala grande e anunciou alto:
— Sua senhoria, o Mestre de Avis, Regedor e Defensor destes reinos, por graça de Deus, pelos votos do clero e da nobreza e pela vontade do povo, manda que venhais entrando, segundo vossas procedências, para lhes dardes preito e menagem.
— Ficarei então para o fim — disse consigo Mendo Rodrigues.
E um dos da Casa dos Vinte e Quatro, mais mordido de curiosidade, cochichava para os outros:
— Que demo de negócio terá pressa de tratar com o Mestre este monge sem nome, que ainda ninguém me soube dizer de que lados surdiu e quem venha a ser?! Não fosse a casa em que está, e muito havia eu de pôr suspeitas em tal criatura!
— Ora, deixai lá o pobre velho, que, se não fosse bem arreigado a esta nossa terra, não viria cá para arriscar a pele como já arriscou.
— Afonso Eanes talvez saiba. É muito da casa dos Vasconcelos.
— Pois se o sabe, não larga o segredo do bico. Já o experimentei, e ficou-se que nem um pato mudo.
* * *
Entremos na larga sala de arcaria alta sobre pilares de lavores góticos e esguias janelas de ogiva com vitrais de quadros bíblicos, aquelas ingénuas pinturas de vivo e inalterável colorido cujo segredo se perdeu. Era aquela a sala do trono, tal como a deixara a rainha Leonor Teles, na sua fuga para Alenquer, em meados de Dezembro de 1383.
No topo, em frente das grandes portas de pregaria reluzente, sob um dossel de damasco lavrado e de franjas de ouro, duas cadeiras de carvalho, de espalda alta e lavores de talha dourada, representando baldaquinos, santos e monarcas, anjos e profetas, como se cada espalda fosse miniatura da frontaria de alguma catedral gótica.
Eram aquelas as duas cadeiras do trono; a que ficara vaga pela morte do mais funesto rei e infortunado homem que Portugal ainda tivera e a outra, abandonada à revolução pela mulher torpe e cruel, conspiradora e barregã real, que D. João I de Castela tinha presa entre as monjas de um convento de Castela. Assentavam sobre um estrado coberto de alcatifas mouriscas de Granada.
Em volta daquela sala nua e de sombria austeridade, argolas de bronze, cravadas ma parede de espaço a espaço, amparando grandes tochas semigastas.
Por ordem do Mestre tinham posto a alguns passos do estrado e em frente dele uma ampla mesa de cedro com chaparia de prata e um escabelo alto, o único da sala. Nele se sentou o Messias de Lisboa, de costas para o trono.
Em cima da mesa estava um livro de pergaminho velho com lindas iluminuras, todo escrito em caracteres góticos. Era o dos Santos Evangelhos, aberto na página em que uma iluminura de cores vivas e emaranhados ornatos a ouro e prata representava o lance trágico do Calvário.
Pediremos agora ao cronista insigne, ressurgidor daqueles homens e daqueles tempos no drama histórico da sua obra admirável, que nos dê na sua linguagem vivamente singela, de grato sabor arcaico, o resumo deste acto oficial.
Depois de se referir às pessoas ali reunidas, Fernão Lopes diz assim: «Os quais juntamente, e cada um por si, juraram aos Santos Evangelhos, corporalmente tangidos e fizeram preito e menagem ao Mestre, como ao seu senhor, de o servir e o ajudar com todas as suas forças, assim contra el-rei de Castela, como contra qualquer outro que lhe algum nojo fazer quisesse, e lhe beijaram a mão por senhor deles, do coração e obra, outros fingidos e não de vontade, como depois se mostrou, e ele prometeu e jurou de guardar todos os seus privilégios e liberdades e que havia de manter o reino em direito e justiça».
Os vereadores da câmara, o Juiz do Povo e os da Casa dos Vinte e Quatro prestaram por forma diversa o seu juramento de fidelidade.
Depois o Mestre levantou-se e disse para os do povo:
— Homens bons deste concelho de Lisboa, vós, leal e devotado Juiz do Povo e honrados mesteirais da Casa dos Vinte e Quatro; agora me apraz dar-vos cargo de irdes dizer ao povo que, pela minha livre e boa vontade como Regedor do Reino e com o voto dos prelados, ricos-homens, fidalgos cavaleiros e letrados do meu conselho, lhe vou conceder por carta régia e mandar pôr em registo de escritura pública, os favores e os muitos privilégios e isenções que ele merece, acrescentando assim as outras que há pouco tempo lhe fiz.
Era esta a surpresa com que D. João pagava a outra dos mesteirais da Casa dos Vinte e Quatro e do Juiz do Povo, quatro dias antes, em S. Domingos.
Estavam os mecânicos num alvoroço de júbilo e numa impaciência de curiosidade por saber que privilégios e isenções o Mestre concedia ao povo. E mais que todos eles, com maior surpresa e mais intenso consolo, o honrado Afonso Eanes. Orgulhava-se por aquele chefe e quase rei consagrado, que era, a bem dizer, um filho da sua rija vontade de revolucionário e da sua grande alma de patriota.
O Mestre chamou um dos letrados que estavam ao lado de João das Regras e mandou-lhe ler a carta régia que em conselho fora rascunhada pelo chanceler.
O letrado leu com lentidão solene: D. João, filho do muito nobre rei D. Pedro, mestre da cavalaria da Ordem de Avis, Defensor e Regedor dos reinos de Portugal e do Algarve. Considerando como a muito nobre cidade de Lisboa é a maior e a mais principal de todos os ditos reinos, e como os moradores dela a defenderam contra el-rei D. Henrique e el-rei D. João de Castela, ao tempo em que as suas frotas e homens de armas vieram sobre ela, e quando D. Leonor, mulher que se dizia de el-rei D. Fernando, a quis sujeitar ao jugo de Castela, assim como a estes reinos; e considerando mais que tudo isto fizeram à custa do seu sangue e haveres e muitos serviços nos têm prestado e prestaram aos reis de quem provimos...».
Não fatigaremos o leitor com a longa lista dos privilégios e isenções enumerados neste diploma oficial, naquela forma pesada e cheia de fastidiosas repetições, que foram sempre as características desta espécie de documentos.
Bastará uma breve indicação para se fazer ideia da rede de arrastar que era já o sistema tributário daqueles tempos.
Ficaram os habitantes de Lisboa, dentro do seu município e em todo o País, com privilégio de isenção dos tributos denominados portagem, usagem, costumagem, alcavala, mealharia, açougagem, relego, jugadas do pão e o vinho, salaio (imposto sobre o pão cozido), lombo (tributo de um lombo por cada porco exposto à venda), Anadava e outros cuja origem e espécie se não podem hoje determinar (*).
[(*) A portagem, usagem e costumagem eram direitos e impostos locais de vária espécie e elasticidade; alcavala denominava-se o imposto pago em dinheiro pela carne levada ao mercado ou aos açougues e também, segundo Viterbo, se chamava assim o direito pago pelos vassalos ao património real, segundo os gados ou fazendas que possuíam. A mealharia era o imposto municipal pago pelo lugar público em que se expunha alguma coisa à venda. O relego seria o tributo especial que o vassalo pagava ao senhorio direto das terras ou à coroa pelo vinho da sua colheita.]
Uma variedade estonteadora com que o pobre povo andava acabrunhado!
E com estes privilégios de isenção tributária, ainda outros concedia o Mestre à cidade de Lisboa como ampliação dos seus foros e regalias.
Quando o letrado acabou de ler a carta régia, estavam os mesteirais da Casa dos Vinte e Quatro do povo e o seu Juiz com os olhos rasos de água.
Aquilo era um bendito alívio para a gente faminta da cidade, um prémio aos que tinham perdido com a guerra uma boa parte dos seus recursos ou tinham ficado sem trabalho e sem granjeio de vida; era para todos os da capital um galardão enobrecedor.
Não fossem as regras da pragmática, e de boa vontade teriam fugido da sala numa carreira doida, para irem gritar ao povo o pregão daquela gente.
— Senhor! — disse-lhe Afonso Eanes, indo para o Mestre comovidamente — Pelo povo da vossa leal cidade vos beijo a mão como a legítimo soberano da sua escolha. Graça de rei justiceiro e benfazejo foi a vossa. No seu coração a registará o povo e em melhor guarda e mais firme escritura ficará do que em qualquer tombo da chancelaria real. Rei de boa memória sereis, e como a filho seu, muito querido e muito ilustre, Lisboa será convosco para a vida e para a morte. Senhor rei, pelo povo que eu aqui represento, vos beijo esta generosa mão.
E beijou-a.
— Outras maiores regalias merece e há de ter Lisboa. E vós, Afonso Eanes, como Juiz do Povo que sois e pelo vosso cargo seu procurador perante quem tiver o governo do Reino, lembrai e proponde o mais que souberdes e eu possa fazer-vos com aprazimento dos da vossa classe.
— Senhor, eu sei que o povo muito desejava derribado esse velho castelo, que parece o padrasto ameaçador da cidade, o ninho alto e forte donde os falcões reais podem algum dia vir roubar às pessoas humildes os seus direitos e privilégios.
Ouviu-se um surdo rumor de vozes como de desaprovação. Eram dos cavaleiros fidalgos. Pouco importava que as palavras murmuradas se não percebessem; o torvo aspeto dos fidalgos dizia mais que as palavras. Achavam insuportável audácia aquela proposta do Juiz do Povo.
Hábil político e avaliador perspicaz dos homens e do seu tempo, D. João acalmou com um relancear de olhos o ânimo turbado dos nobres e respondeu serenamente ao tanoeiro:
— Agora, senhor Juiz do Povo, como filho da mesma Pátria, nossa gloriosa mãe, e como irmãos na mesma crença e no mesmo propósito, bem que em diversas condições, não nos é dado recear outros falcões daninhos que não sejam os de Castela, e esses muito mais querem roubar-nos do que direitos e privilégios de uma classe; mas os nossos direitos e privilégios de nação.
— Senhor, assim é — acudiu Eanes, percebendo o intuito conciliador do Mestre — e ninguém do povo desconhece e tem em menos apreço os outros braços de honrado sangue com que a Nação se há de defender... Vós sois fiador e juiz dos direitos e serviços de uns e outros; porém, olhai, Senhor, que há morrer e viver; levará a morte os que hoje irmãmente são por esta nossa terra, e uns certos perigos hão de ficar! Não foi o Castelo que salvou Lisboa, melhor do que eu o sabeis vós; mas nalguma hora poderá servir para apavorar a gente de menos avaliamento que tem a cidade, e os castelos duram séculos, enquanto nós, os irmãos de agora, só algumas dezenas de anos poderemos durar. Perdoai, Senhor, mas quisestes vós que eu vos dissesse os desejos do povo, e assim lealmente vos disse.
As palavras do tanoeiro tinham acalmado um pouco os ânimos dos fidalgos, de relance o percebera o Mestre de Avis.
— Está bem. Visto que o Castelo pertence ao património real, que é meu cargo reger, e a ele se não prendem quaisquer direitos ou privilégios de preclara nobreza destes reinos, razão de ofensa não haverá em que eu o mande derrubar na parte em que mais possa ameaçar um dia o povo de Lisboa e menos valha para a defesa da cidade.
Dava deste modo uma solução conciliadora e guardava para si o direito e a latitude da execução, conforme a oportunidade das circunstâncias. O homem político superintenderia nas concessões do rei popular, durante os mais belos e gloriosos tempos da democracia que ainda teve Portugal.
Os mesteirais beijaram-lhe a mão e saíram nuns arrebatamentos de alegria e de legítima vaidade, que mal podiam disfarçar.
O povo de Portugal levara mais de dois séculos para conquistar, dia a dia, numa lentidão resignada e numa tenacidade inquebrantável, os seus foros municipais e a sua representação em cortes. Embora algumas vezes violenta e de carácter local, esta conquista fora principalmente pacífica, a poder de firmeza e de sagacidade, com uma estratégia admirável dentro de cada concelho, de cada comarca ou no Reino todo, espiando as horas de desfalecimento de qualquer dos três poderes que o avassalavam — o da coroa, o do clero e o da nobreza — pondo a sua força como a espada de Brenno na balança das cobiças, das rivalidades e dos ódios que por tantas vezes trouxeram desavindos e em luta esses poderes; comprando a troco de abnegações e de sacrifícios de sangue a concessão de mais algumas linhas nos seus forais e de mais alguns dizeres nos seus privilégios. Assim foi criando o seu direito escrito, as suas imunidades locais e a categoria de terceiro poder do Estado, abaixo do poder real.
Ninguém hoje pode avaliar bem o drama de desespero e de sofrimentos, de heroicidades e de constância, que simbolizam os brasões das nossas vilas concelhias e os pedaços de pergaminho dos seus remotos forais (*).
[(*) O foral era a carta régia em que se consignavam os direitos, isenções, privilégios e usos locais das grandes e pequenas povoações, concedidos ou aceitos e reconhecidos pelo rei. A carta de foral considerava-se uma espécie de carta constitucional dos municípios, especial, para cada um, sem nenhuma sujeição a normas igualitárias. Por algumas analogias entre eles, agrupou Alexandre Herculano os forais portugueses em três categorias; mas poucos haveria absolutamente iguais.]
Pois aquele povo de Lisboa, ao mesmo tempo que defendia a cidade com glória sua e da Pátria, conquistava em meses uma preponderância política e social como nunca tivera e talvez se possa afirmar que nunca mais voltou a ter!
* * *
Mendo Rodrigues entrou na sala mal que os mesteirais saíram. Fez impressão a sua extraordinária figura, que naquele meio parecia antiga.
— Mestre e senhor! — disse gravemente diante de D. João.
— Monge, dizei — volveu-lhe o Mestre, pondo nele um olhar de estranheza.
— O fidalgo cavaleiro Ruy de Vasconcelos não pôde vir dar-vos seu preito e menagem. Ainda está em perigo.
— Sei, mas a mim me vieram dizer que tinha melhoras.
— Senhor, algumas. E por ele, como se o seu coração estivesse no meu e a minha boca falasse pela sua, aqui venho eu para jurar.
— Monge! Vós? Porquê? Quem sois, que já uma vez me negastes o vosso nome!
— Senhor, isso um dia se há de saber. Já mostrei que sou dos vossos porque vós sois pela Nação, e tanto bastará para que não tenhais suspeitas de mim. O mais pouco vale, e vós perdoareis que esse mais vos não diga ainda. Não se pode quebrar em homenagem aos homens, ainda que sejam como vós, que tanto valeis, as promessas que se fizeram a Deus.
— A mim me vieram dizer que ereis parente chegado de Dulce.
— Amigo leal daquela casa e tão sabedor do pensar e sentir daquela família, que, por assim ser, aqui venho jurar-vos o preito e menagem de Ruy de Vasconcelos, entre os mais devotados e os mais leais, senhor Mestre de Avis.
— Não era preciso; mas vosso juramento vos aceito por ele. Sei que lhe sois querido e de vós me falou ele por modo a desvanecer suspeitas, respondendo com a sua palavra de cavaleiro pela lealdade do monge peregrino que não diz o nome.
— Como se o houvesse esquecido, ou como se fosse o nome de um morto que viesse a Lisboa, nestes angustiados tempos representar um Portugal antigo, que a vossa juventude já não chegou a conhecer.
— Pois que assim é, jurai.
E com as mãos sobre o livro aberto dos Evangelhos, o monge disse a fórmula completa do preito e menagem como quem por mais de uma vez a houvesse jurado.
— Pelo fidalgo cavaleiro Ruy de Vasconcelos o juro e por este juramento respondo perante Deus e os homens. Ele o ratificará perante vós, senhor Mestre, ou neste paço, mal tenha saúde para aqui vir, ou na primeira batalha em que se possa combater, a par dos primeiros entre os vossos.
— Monge, pagais-lhe com igual moeda. Ele empenhou a sua palavra de cavaleiro por vós.
— E eu agora jurei de alma por ele. Mestre e rei, Deus convosco e com a Nação a glória do vosso nome — disse, curvando-se, e saiu.
No terreiro era atroadora a gritaria da plebe.
O Juiz e os mesteirais tinham acabado de contar tudo o que o Mestre mandara pôr na carta régia e o mais que lhes prometera.
Coitada da pobre gente! Era como se fosse de um sonho aquela notícia de tantas promessas juntas: de um raro e mentido sonho se não fosse a palavra honrada do seu Juiz e as caras de páscoas dos Vinte e Quatro.
* * *
Assim que chegou ,a casa, Mendo Rodrigues foi logo à câmara do sobrinho. Lá estava com ele o bom do Gonçalo Vasques. Fez-lhe um sinal e o velho veio para o lado da porta, muito de manso, cautelosamente.
— E daí? — perguntou-lhe Mendo sumidamente.
— Vão as coisas indo a bom caminho — segredou-lhe.
Mendo puxou-o afetuosamente para o lado de fora da porta.
— Tem descansado, está menos inquieto, não é assim?
— Dormiu um grande sono. Esteve a querer falar comigo, mas eu não deixei porque lhe podia fazer mal. Pôs os olhos muito fitos em mim, aqueles seus entristecidos olhos em que luziam lágrimas, disse-me umas poucas de palavras e, com as minhas mãos nas suas, ainda a escaldarem de febre, se ficou outra vez adormecido. E eu, de olhos nele, a sonhar, tão acordado como estou agora, a sonhar com o tempo, que já parece antigo, em que ele era pequenino e eu o ajudava a adormecer, dizendo-lhe os contos que aprendi de pequeno!
Tinham um timbre de magoada saudade estas palavras evocadoras do velho.
— Mas olhai, senhor Mendo, que duas coisas se lhe não tiram do sentido! E era delas que ele me queria falar e ainda umas palavras me disse naquela sua voz sumida de fraqueza e tão dolorida, que parece feita de mágoas!
— Perguntou pela mãe?
— Ah! Isso foi logo, mal que abriu os olhos e eu disse-lhe que estava com os seus ataques do costume, porém sem coisa de maior preocupação.
— E ele?
— Ficou-se a olhar para mim assim como se quisesse ler-me no rosto a verdade das minhas palavras, porém logo perguntou se os Castelhanos já tinham saído para fora do Reino e se havia chegado alguma nova daquela linda que lhe levaram. O amor que ele lhe tem! Dei-lhe a resposta que me pareceu melhor, e os olhos arrasaram-se-lhe de água. Foi então que eu lhe pedi que não falasse mais e foi dali a instantes que ele se ficou outra vez adormecido. Meu senhor, aquilo é amor para não acabar senão com ele!
— Nisso também eu creio, meu velho amigo. É aquele dos amores que ficam para sempre, ainda que o coração se tenha espedaçado por eles, assim como se fossem um clarão de luar sobre um altar derribado, entre as ruínas de um templo ermo. Eu sei! Eu sei!
— Mas quando um homem tem saúde e forças para se aguentar com essas mágoas... E aquele, Deus sabe quando voltará a ser o homem que foi!
— Deus o permitirá, Gonçalo Vasques. Seria uma grande perda para nós, se o não permitisse, e faltaria à nossa terra uma das suas almas de maior dedicação e uma das melhores lanças para a sua defesa.
— Ah! Isso o podemos nós jurar! — acudiu o velho com fervoroso desvanecimento como se falasse de um filho seu.
— Eu vou ver minha irmã e voltarei depressa. Ficai vós, que não tardarei a vir render-vos.
— Quando vos aprouver. Nisto, sobre a obrigação que eu tenho, a devoção é muito maior. Muito!
E foi para dentro a enxugar os olhos e a dizer consigo:
— Só eu sei quantas vezes maior!
* * *
Já noite cerrada apareceu a tia Lourença para falar ao Gonçalo Yasques. Trazia consigo uma pobre monja daquelas que em certos conventos não tinham votos nem sequer noviciado, porque eram como serventuárias das outras e às vezes saíam da clausura para esmolar por casas honestas, como sucedia, especialmente, nas ordens que tinham voto de pobreza e se denominavam mendicantes.
Consentiam-lhes o hábito da Ordem, mas não traziam toalha em volta do rosto como as freiras, nem escapulário nas confrarias que o tinham. Algumas, por voto seu de penitência ou por maior recato, usavam uma espécie de bloco da mesma fazenda do hábito, de modo que lhes cingia a cabeça e de tal maneira lhes emoldurava o rosto, que dele apenas se via uma parte entre as sobrancelhas e a boca.
Para algumas era esta condição de serventuária uma espécie de penitência votiva das muitas que havia naqueles tempos, entre as quais a mais horrorosamente desumana e trágica, sendo ao mesmo tempo a mais imunda, era a das emparedadas (*).
[(*) Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo dá no seu Elucidário uma larga notícia a respeito daquela monstruosidade fanática da baixa Idade Média. Basta-nos aqui este curioso trecho: «Foram mulheres varonis, que, desenganadas inteiramente do Mundo, se sepultavam em vida numa estreita cela, cuja porta no mesmo ponto da entrada, se fechava com pedra e cal, e só por morte da inclusa se abria, para ser levada à sepultura. «No lugar da porta, e ao mesmo tempo de a tapar, ficava só uma pequena fresta por onde se lhe ministrava o indispensável alimento necessário para a vida, que poucas vezes passava de pão e água, etc.». Houve-as em todo o País desde o século XII ao século XV.]
O velho Vasques veio à casa de entrada falar com a Lourença. A monja ficou-se afastada deles, timidamente, no recanto de uma janela.
— Arranjei o que vós me pedistes.
— Sim? Ainda bem!
— É aquela monja serventuária do mosteiro das franciscanas. Conheço-a de vista e dela me deram muito boas informações. Eu era quem ia levar o pescado ao convento e algum lá deixava sem paga àquelas pobrezinhas de Cristo.
— Será criatura de boa caridade?
— Isso me afiançaram que é.
— Pois se der boa conta de si, a soldada será das maiores.
— Não quer soldada. Vem só pelo voto que fez, e por isso é serventuária das freiras, que lhe deram licença para esta obra de caridade.
— É mulher nova ou já idosa?
— Ainda nova... Parece que teve um erro de amores na sua vida e assim o anda a querer remir neste Mundo, na esperança de que Deus lho perdoe. Tem muita prática de tratar pessoas doentes.
— Está bem, e muito vos agradeço. Tende paciência de esperar aqui uns instantes, que eu vou ver se posso falar à senhora. Bem que me tenha dado autorização para decidir estas coisas da casa, não desejo tomar qualquer resolução sem a ouvir. É consulta de pouca demora.
— Ah! Escutai cá uma coisa que me ia esquecendo. Ajudará em tudo o que for preciso, mas era da senhora D. Dulce que ela mais desejava ser enfermeira.
— Pois sim, sim, tudo isso se combinará.
Foi para dentro a arrastar os passos e a Lourença aproximou-se da monja com quem esteve a falar em voz baixa.
Poucos minutos volvidos e voltava o Gonçalo Vasques. A Lourença foi logo para ele.
— A senhora quer, e até estima que seja uma pessoa assim de boa caridade cristã pelo voto do seu coração.
— Ora pois, e ainda bem. Assim Deus queira que vos não seja precisa cá por muito tempo, que é sinal de se terem ido embora as doenças, e grande alegria será para as freiras, que lá hão de estar a suspirar pela sua irmã serventuária.
Foi buscar a monja e apresentou-a ao velho. O Vasques encarou muito com ela e falou-lhe por alguns minutos. Parecia muito nova, humilde e recatada, pois que não despregara os olhos do chão. Nas poucas falas que ela lhe deu notou o velho que tinha uma voz docemente carinhosa, um pouco velada e tremente, e isto o atribuiu ele a natural acanhamento de pessoa desconhecida, naquela casa grande, fidalga, absolutamente estranha para ela.
Ficou decidido que a monja seria, principalmente, a enfermeira de D. Dulce, e a tia Lourença despediu-se muito ufana com os calorosos agradecimentos do Gonçalo Vasques.
* * *
Passaram dois dias. Todos naquela casa estavam satisfeitos com a caridosa serventuária, e D. Dulce, apesar das torturas da sua doença, sentia certo consolo ouvindo a voz acariciadora da monja. Que também só ela de relance lhe vira bem os olhos, uns lindos olhos mortificados com uma suave expressão de resignada.
Uma vez somente entrara na câmara de Ruy, muito constrangida, com um recado de D. Dulce para o irmão.
Ao entardecer daquele dia, quase ao sol-posto, chegou um pajem com um recado que Gonçalo Vasques teve de ir receber. Para os estranhos e até para os próprios criados, Mendo era apenas um amigo misterioso daquela família, na hospedagem íntima do seu velho palácio.
O velho afogueou-se com o recado e assim que despediu o pajem foi ter com o tio de Ruy.
— Recado de quem? — perguntou-lhe Mendo Rodrigues.
— Do senhor D. Nuno.
— Para quê?
— Mandando perguntar se podia vir aqui saber da senhora D. Dulce e ver o nosso querido doente, se isto for possível.
— Mas ainda hoje?
— Dentro em pouco, pois que esta noite haverá de atravessar para a Outra Banda, a juntar-se com a sua hoste em Palmeia.
— E que respondestes?
— Que a senhora D. Dulce continuava de cama e que o meu amo, bem que algumas melhoras tenha tido, ainda estava em perigo; porém que nesta casa havia um velho servidor para lhe agradecer em nome dos nossos queridos doentes a tamanha honra da sua visita.
— Certamente assim devias de responder. Hei de eu aparecer-lhe também, mas eu sou aqui o hóspede, e as honras da casa serás tu, meu velho amigo, quem lhas há de prestar. Quanto a Nuno Álvares ir ver meu sobrinho, isso me dá algum receio. Pode causar-lhe alvoroço que venha a fazer-lhe mal.
— Só se o avisarmos da visita com certos rodeios, a experimentá-lo, e pedirmos a D. Nuno que lhe não fale em assuntos da guerra e na aclamação do Mestre.
— Sim, dizes bem, isso se há de fazer, e ainda tenho receio dessa visita!
— Ontem de manhã vieram cá uns poucos de Namorados com o sentido de o ver e a um deles, um arganaz... Um cedro alto...
— O Magriço, como lhe chamam os outros.
— Esse foi a quem eu fiz o pedido de entrar só, mas depois de prevenir meu amo e do tal cavaleiro me prometer que pouco lhe diria. E assim foi.
— Ruy conheceu-o logo, não é assim?
— Logo, com uma grande alegria e umas grandes lágrimas a bailarem-lhe nos olhos.
— É dos Namorados aquele com quem mais e melhor se liga. Foi até esse quem o acompanhou naquela arrancada doida em que o meu sobrinho ia perdendo a vida... E Deus sabe ainda... Ruy ficou muito turbado?
— Estava eu a temer que muito se abalasse com a visita, porém tal não sucedeu, por felicidade. Eles tinham cá vindo muitas vezes...
— Bem sei.
— Mas nenhum o fora ver, porque eu, a escudar-me com as recomendações do físico, nunca lho quis consentir. E ontem, esse tal Magriço honradamente cumpriu a sua promessa. A demora não foi além de uns instantes e só lhe disse meia dúzia de palavras.
— Pois então mais tranquilo fico. Irás tu receber D. Nuno; irei eu depois falar-lhe, e alguém ficará a tomar conta em Ruy no pouco tempo em que ambos estivermos afastados dele.
— Senhor, assim será bem.
CAPÍTULO XX
UMA VISITA DE NUNO ÁLVARES
Entrava pelas janelas aquele sol de Outubro com o seu resplendor suave de ouro antigo. Ia já a desmaiar para os lados do mar.
Vibrou alta a sineta do portão. Já prevenidos, os jovens do monte logo o foram abrir de par em par. O Gonçalo Vasques desceu a tremer os últimos degraus da escadaria nobre. Um pouco a tremura da sua velhice, mas muito mais a outra daquela comoção imensa que todos os crentes e patriotas de alma sonhadora sentiam sempre diante do jovem lidador, suprema esperança da Nação.
Nuno Álvares entrou, seguido de um escudeiro e de dois pajens. Vinha como havia de partir, mal que a noite cerrasse e desta vez sem a farroncaria temerária de se ir meter por entre a esquadra castelhana.
— Senhor conde e glorioso cavaleiro! — disse o velho, curvando o joelho como se estivesse diante de um príncipe de conto ou de um santo lá muito do calendário da sua alma — Perdoai que seja este humilde amigo quem aqui venha a receber-vos.
— Velho, bem vos conheço, eu e bem sei quem sois — disse-lhe Nuno Álvares afetuosamente — Aqui vos têm os vossos ilustres amos como se mais um fosse da sua família. O monge que tem sido hóspede da vossa ama e senhora, está cá?
— Senhor conde, está. Dignai-vos subir e antes deixai que vos beije a mão.
— Vós, um velho!
— Senhor, aos príncipes, ainda que sejam meninos, até os velhos, dobrados para a cova, lhes vão beijar a mão.
— Isso é aos príncipes e aos santos.
— Velho Português — acudiu Gonçalo Vasques, numa tremura de maior comoção — velho que muito quer à sua terra, para mim sois príncipe de cavaleiros e batalhadores e às vezes me lembrais certo rei Artur de Inglaterra de quem falam os contos antigos. Deixai que vo-la beije, e perdoai.
Tomou-lhe a mão de surpresa e beijou-lha com os olhos rasos de lágrimas.
— E também sabem os Castelhanos o que ela vale! Tem ganhado muitos combates e a primeira batalha venceu, aquela dos Atoleiros.
Enternecidamente, Nuno Álvares apertou aquela mão engelhada que tremia na sua.
— Vamos a ver vosso amo.
Subiram. Ao cimo da escada, Mendo Rodrigues esperava-o.
— Senhor D. Nuno, ilustre Conde de Ourém — disse-lhe o monge — à nobre senhora desta casa muito lhe está pesando faltar aqui a receber-vos.
— E a mim, venerando monge, sinceramente me penaliza que, por doença da excelente senhora, me não seja dado prestar-lhe homenagem que merece pela sua alta nobreza e admiráveis virtudes. Isto vos rogo lhe digais, e ainda mal que me não seja possível maior demora em Lisboa, para que me fosse dado vir dizer-lho em outra melhor ocasião.
Gonçalo Vasques fora adiante correr o reposteiro da sala de armas onde um criado já tinha posto as tochas acesas nos argolões das paredes.
Em nome de D. Dulce, o monge convidou o conde a entrar naquela sala. Era um testemunho de honrado apreço a que nenhum fidalgo daquele tempo devia escusar-se.
— Será breve a minha demora — disse Nuno Álvares entrando — pois que o meu fim agora é ver Ruy de Vasconcelos, esforçado jovem que eu conheci no Paço e tenho em boa conta de amigo.
— Depressa o vereis, senhor conde. Tinham ficado a dar-lhe os remédios quando eu saí da sua câmara, para vir também prestar-vos homenagem como ao maior Português destes atribulados tempos.
— Mercê das vossas palavras. O primeiro é o Mestre.
— Pelo cargo, eu sei. Pela alma, vós.
E ofereceu-lhe a cadeira da espalda alta, que era ali a cadeira de honra. D. Nuno sentou-se por instantes. O monge insistiu em ficar de pé diante dele.
— Se dais licença, senhor conde, peço a este honrado aio nos vá saber se o senhor Ruy de Vasconcelos já está prevenido para vos receber.
— Sim, mas que não tenham preocupação pela minha causa. Mendo afastou-se um pouco para fazer um pedido a Gonçalo Vasques, fez-lho em voz alta, mas logo acrescentou baixo:
— Não venhas sem o ver em boa disposição de ânimo.
E voltou para em frente de Nuno Álvares.
— Ouvi, senhor conde, que esta noite partireis para a vossa hoste.
— Assim é. Não me apraz esta vida quieta da cidade, sabendo que no Alentejo e por todo o reino ainda enxameiam Castelhanos com os traidores seus parciais.
— Segundo ouvi, quase todo o reino está em poder deles! Portugal por agora se resume em meia dúzia de castelos.
— Pois por isso o meu voto e o meu desejo maior era ir de Palmeia com a minha hoste e ir de arrancada a Chão do coice bater a alcateia dos lobos reais, que devem estar a sair de Santarém para irem repousar nas suas serranias de Castela.
— E voltarem depois com mais fúria e em maior bando.
— Já não poderiam voltar, se lhes saíssemos ao caminho para dar acabamento à contenda. Era de uma vez.
— Senhor conde, seria cometimento de grande proveito e glória, porém de muito arriscada temeridade, permiti que vos diga. E vós, senhor conde, quantos tereis na vossa hoste?
— Mil e duzentos homens.
— Bem pouca gente, ainda que todos se pudessem parecer convosco e tivessem bravezas de leões.
— Pois sim, mas o Mestre iria também com a sua hoste. O pior será que daqui a dias já seja tarde para uma arrancada bem sucedida.
— A mim me disseram que el-rei de Castela teria ainda consigo não menos de três mil lanças, soberbos ginetes e uns doze mil homens de peonagem (*).
[(*) A lança, como unidade de agrupamento, representava nos exércitos medievos quatro ou cinco homens de peonagem. Algumas vezes apenas três nos países de menos poder militar ou em circunstâncias especiais. Dizer uma lança o mesmo valia que indicar um combatente fidalgo, cavaleiro ou escudeiro a cavalo, e só por exceção o homem de armas da cavalaria plebeia, a dos cavaleiros vilãos dos municípios, auxiliar da outra.]
— Bem; seja — disse Nuno Álvares, erguendo-se — Quinze mil homens. Aí está.
— E o Mestre e vós juntamente, quantos podereis levar?
— Trezentas lanças do Mestre com mil e quinhentos de peonagem; eu duzentas e tantas lanças e novecentos peões que tenho em Palmeia.
— Senhor conde, perdoai, que isto apenas é falar de quem muito toma a peito as coisas da sua terra; mas aí teríamos uns três mil dos nossos com uns quinhentos cavalos, se tantos, para os catorze ou quinze mil Castelhanos e Franceses que ainda terá reunido consigo el-el de Castela. Um contra cinco, e cinco dos melhores homens de armas que têm as Espanhas e a Gasconha, segundo dizem os entendidos.
Nuno Álvares fitou-o com estranheza.
— Um contra cinco fomos nos Atoleiros e foi nossa a vitória!
— Em Chão do coice defenderiam eles o seu rei. Tinham de lutar com desvairada bravura.
— Vão muito esbandalhados e esmorecidos, contam os que de lá têm vindo. Aos melhores e mais experimentados capitães que tinham os levam eles nos ataúdes em cima de azêmolas. É uma verdadeira romaria de mortos.
— Nada mais me atrevo a dizer-vos, senhor conde, senão que talvez Deus fosse por vós para vos dar razão.
— Esbandalhar aquela hoste numa algarada, sumi-la na terra que eles queriam tornar sua, e trazer para Lisboa as suas bandeiras reais, as signas e pendões dos nobres senhores das Espanhas, da Gasconha e do Bearne! E como despojo, não as baixelas de ouro e prata daquele rei e daqueles. Senhores, senão os ataúdes em que vão salgados os mais soberbos mortos de Castela!
Falara num arrebatamento de alma, afogueando-se, fazendo uns gestos largos; tinha deslumbramentos de visionário o seu olhar de sonhador.
— Estou em crer, senhor D. Nuno, que o Mestre e rei, que já assim se lhe pode chamar, na sua prudência de chefe e com as responsabilidades do seu cargo, hesitará em deixar Lisboa sem gente de armas, tendo alguns milhares de Castelhanos em Almada, em Sintra, em Alenquer, em Torres, a bem dizer às portas da cidade, e aí no Tejo ainda outros milhares deles, na mais poderosa armada que ainda cá mandou Castela.-
Nuno Álvares compreendeu e sentiu a lucidez e a boa razão destas palavras do monge a dizerem-lhe sem rodeios o que o Mestre se abstivera de lhe expor, talvez para lhe não ir a crença numa vitória próxima ou, mais ainda, para lhe não irritar o ânimo, incitando-o a qualquer insubmissa temeridade.
Alma aventurosa e cândida de paladino romanesco, cavaleiro andante de sonho a visionar prodígios, com as austeridades de um asceta e a cega devoção de um santo, Nuno Álvares era um irascível como todos os impulsivos, um insubmisso quando sentia contrariada a sua crença de protegido do céu, um alucinado de espantosa bravura quando tinha nos olhos a visão de um milagre no seu favor ou quando a atmosfera dos combates lhe embriagava os sentidos e lhe queimava o sangue, numa febre devoradora de glória e de sacrifícios.
Com as suas bravezas de leão e as suas ingénuas mansidões de pomba, com todos os desequilíbrios e contrastes psicológicos dos homens extraordinários, era, todavia, nos campos de batalha mais reflexivo que nos remansos da corte, e foi, sem nenhuma dúvida, no seu tempo o chefe de mais lúcida intuição das coisas da guerra que Portugal teve. Trazia em si a inspiração adivinhadora de quanto os seus vinte e quatro anos não tinham podido aprender, nem ainda tinham visto.
A batalha dos Atoleiros provou-o. Encontraremos depois outras provas ainda maiores e de concludente confirmação.
O que Nuno Álvares não quis dizer ao monge foi que o astuto do Mestre, com a sua cautelosa habilidade de homem político, se lhe fingira sabedor de que el-rei de Castela ainda por algum tempo continuaria em Santarém. O que lhe não disse foi que D. João lhe opusera à temerária insistência a promessa dilatória de se lhe ir juntar com a sua hoste em Palmeia, mal que tivesse tudo disposto para deixar a cidade em segurança e pelo seus esculcas houvesse informação de que os invasores tinham enfim abandonado a formidável posição de Santarém.
Indicando muito ao de leve o plano pelo qual Nuno Álvares insistia, Fernão Lopes resume assim o hábil estratagema de D. João: O Mestre entonce respondeu que lhe prazia muito, e que para tal obra ele queria ser seu companheiro, e que porém se tornasse ele para Palmela e que o águardasse ali: e que se passaria além com os mais que pudesse e dali partiriam a ir buscar el-rei e lutar com ele...».
Compreende-se o ardil. Fingindo aceitar-lhe o plano, segurava-o melhor, e mandando-o para Palmeia com a promessa de ir ter com ele para irem juntos ao feito arrojado, evitava que Nuno Álvares fosse insubmisso com os seus mil e tantos homens para um desbarato quase certo.
* * *
Gonçalo Vasques, demorado por um pequeno incidente na câmara de Ruy, voltara à sala e dissera que o seu amo podia já receber o senhor conde.
Nuno Álvares tinha reparado em certa armadura que estava coberta com panos de dó.
— Por que tem luto aquele arnês?
— Contaram-me, contou-mo este honrado velho — disse Mendo Rodrigues, indicando o Gonçalo Vasques — que foi por ter morrido o cavaleiro que usava levá-lo para a guerra. Era o irmão querido da senhora desta casa.
— Mendo Rodrigues, eu sei. Grande cavaleiro era, rijo batalhador, ao que ouvi, e bem desgraçado foi!
— Conheceste-lo, senhor conde?
— No paço o conheci, era eu ainda muito jovem, e já pouco me lembro dele. Há quem suponha que fostes vós, monge, quem nas longes terras por aonde ele peregrinava lhe recebestes as últimas vontades.
— E não se engana quem tal supõe. Só eu sei como o cavaleiro que foi Mendo Rodrigues morreu de dor! Conde e senhor meu! — disse à porta, dando-lhe passagem — Eu já me ia esquecendo um aviso, um pedido.
— Dizei.
— O físico tem recomendado muito que por agora se fale o menos possível com o senhor Ruy de Vasconcelos.
— Já sei. Descansai. Pela minha parte se não há de faltar a tal recomendação.
Seguiram pelo corredor. O escudeiro e os dois pajens que tinham acompanhado Nuno Álvares estavam no vestíbulo esperando. Chegaram à porta da câmara e Gonçalo Vasques correu a cortina brandamente. Entraram de manso.
Ruy tinha fitos na porta os olhos mortificados, aos quais a febre e o alvoroço davam agora um brilho intenso.
Ao fundo da câmara, muito na penumbra, junto de um genuflexório, a monja serventuária) que trouxera os remédios pedidos pelo físico um quarto de hora antes, ficara na ânsia de saber como se passaria a entrevista entre D. Nuno e o pobre namorado. D. Dulce dera-lhe o encargo de ficar ali.
Nuno Álvares adiantou-se comovidamente para o catre de Ruy, olhos marejados de lágrimas postos naquele rosto esmaecido, emoldurado agora numa barba crescida e inculta, que até por estar fora do uso português daquela época lhe dava um aspeto ainda mais triste e comovedor.
— Ruy de Vasconcelos — disse-lhe o conde enternecidamente — aqui venho para certificar-me pelos meus próprios olhos das melhoras que me diziam terdes.
Procurou-lhe a mão e apertou-lha afetuosamente.
— D. Nuno... Benvindo sejais! — disse-lhe Ruy sumidamente, com os olhos rasos de lágrimas.
— Vejo que tendes melhoras, louvores a Deus!
Cavaleiro jovem, que tendes sido dos mais leais e destemidos da nossa terra, a Mãe de Jesus fique na vossa guarda e vos dê saúde para nós vos tornarmos a ver onde haveis ser dos primeiros...
— Na maior... Batalha... Em que tudo se decida — disse-lhe Ruy numa tremura de comoção.
— Paladim do esquadrão dos Namorados, como já sei que sois...
— Pela nossa terra — acudiu o Vasconcelos num murmúrio, dizendo esta primeira parte do moto do estandarte verde que Madalena bordara.
— Não faleis, não deveis falar. Adeus!
— Batalhador... Glorioso... Adeus!
Nuno Álvares debruçou-se para ele e beijou-o na testa com fervorosa piedade fraternal.
— E os... Homens de Castela?
— Retiram, e, quando voltarem, sereis vós connosco para os vencermos, que nas minhas orações o hei de rogar à Virgem, minha padroeira. Ruy de Vasconcelos, adeus, adeus! Até à batalha real que hemos de ter um dia.
E atravessou direito à porta. Foram com ele, para o acompanhar até à rua, Mendo Rodrigues e Gonçalo Vasques.
E lá da penumbra da câmara, a espreitá-lo, arquejante, a monja serventuária murmurou doloridamente:
— Está chorando! Pela outra há de ser que ele chora!