A Ala dos Namorados
Capítulo XXI · O Drama de uma Noite
Por volta das 11 horas, já noite velha naqueles tempos, em que a gente morigerada se deitava das 8 para as 9, o pobre do Gonçalo Vasques, a quem pertencera velar até à madrugada, estava à cabeceira de Ruy num confrangimento de dores. Eram da sua gota a adivinhar-lhe o Inverno que estava à porta.
Mendo quisera substituí-lo, mas na sua dedicação pirrónica, o velhinho insistira em ficar e, só depois de muito instado, prometera ir chamar o irmão de D. Dulce, se as dores o torturassem mais.
A monja serventuária estava na câmara de D. Dulce para velar por ela. Mas pelas 9 horas, numa trégua de sufocações, como adormecidas as dores do coração, e num grande alívio moral por saber das melhoras do filho e do apreço fraternal com que D. Nuno o honrara, D. Dulce sentiu que podia repousar e lhe chegaria enfim o sono reparador de tantas noites angustiadamente passadas.
— Olhai, Joana — fora este o nome dado pela monja — parece-me que poderei dormir.
— Nossa Senhora o permita, que bem precisais de descanso — disse-lhe na sua voz docemente acariciadora.
— Pois então ide vós também deitar-vos, que tanta lida tendes tido e já contais umas poucas de noites mal dormidas.
— Senhora, o meu voto de penitência é esse. Cansar o corpo em proveito dos que sofrem, para que Deus me tenha dó da alma.
— Pois sim, mas agora muito convém que aproveiteis esta aberta de tratos para o repouso de que tanto haveis de precisar.
— Na minha idade custam menos as fadigas.
— Bem sei. Mas também se quebram as forças e também a gente se cansa. Olhai que é também por mim que eu desejo o vosso repouso. Far-me-íeis muita falta se ficásseis doente. Convosco nesta casa estou mais tranquila pelo meu filho; ides ver como ele passa e a toda a hora eu saberei o seu estado, como se eu própria o estivesse vendo. Ides vê-lo com os vossos olhos de mulher e ninguém como vós me sabe contar o que viu, ninguém o sabe dizer melhor em palavras com que o meu coração se console! Olhai que é um alívio para mim. Provavelmente não sabeis, não podeis avaliar bem o que as mães padecem quando têm um filho em perigo de vida.
— Faço ideia, senhora! — disse-lhe numa voz que parecia arrastar-se por um calvário de saudades, a escorrer lágrimas.
— Como vós dissestes isso! — notou D. Dulce com estranheza.
— Foi porque me lembrou certa mãe, ainda jovem, que eu vi com uma filhita nos braços, a morrer-lhe de fome.
— Pequenino?
— Muito pequenina.
— Devia de ser dor para matar ou para enlouquecer essa pobre mãe.
— Ouvi que enlouqueceu.
— Mas quando os filhos são já grandes, como aquele meu, a dor há de ser maior. Maior!
— Senhora, que vos estais mortificando com essas lembranças! O vosso filho parece livre de perigo. Em pouco tempo estará bom para tornar a ser o que o senhor D. Nuno lhe disse ao despedir-se.
— O que foi que Nuno Álvares lhe disse à despedida, que ainda mo não tínheis contado?! Só me dissestes que o beijara.
— Por esquecimento meu vos não disse. Chamou-lhe paladim e orgulho do esquadrão dos Namorados, e dele se despediu até o dia de uma batalha real com os de Castela.
— Pois, minha querida, aí está o medo maior do meu coração. Por aqueles de quem venho e por esta infortunada terra, mãe nossa para se não esquecer nunca, o dever de alma será deixá-lo ir, afogar o coração para lhe dizer que vá, para que ele lhe não sinta os receios; mas dessa batalha que Nuno Álvares espera muitos haverá que nunca mais voltem! E desses um pode ser ele! Antes Deus me leve primeiro; antes! E isto lhe peço eu de todo o meu coração em cada dia.
— Senhora... Que vos afligis — disse-lhe piedosamente como se o mesmo receio a mortificasse também.
Ficaram por instantes silenciosas; o olhar melancolicamente posto na lâmpada a bruxulear.
— Ide ver se adormeceis — instou D. Dulce.
— Ali, naquele recosto do costume, dormirei bem.
— Mas vestida?
— Pronta para o que seja preciso.
— Pois já que assim o quereis — disse-lhe com os olhos meio cerrados — ide alguma vez saber do meu filho, quando quer que acordardes... E se houver coisa de preocupação... Chamai-me... Sim?
— Senhora, sim.
E logo de si para si, a ver como ela adormecia:
— Por seres mãe dele como se também fosses minha mãe.
Passaram minutos. D. Dulce dormia profundamente.
A monja foi espreitar a uma porta lateral, que estava aberta. Dava para o compartimento em que a aia dormia.
— Também adormecida — disse de si para si a serventuária penitente — Ouvirá, se D. Dulce acordar.
Foi para a outra sala e saiu pé ante pé.
* * *
— Senhor Gonçalo Vasques bem se vê que estais mortificado de dores e a tremer com frio — dizia-lhe a monja, quase em segredo para não sobressaltar Ruy, ainda num dormitar inquieto.
— O frio é o menos. É do sangue velho, que já não tem calor para esta vida que se gastou.
— Das noites perdidas é que é. Ide descansar ali próximo, naquela alcova, em melhor agasalho. Eu não tenho sono e aqui ficarei de vigia. Em sendo preciso, irei chamar-vos.
— Vós, não. Se o soubesse minha ama e senhora, talvez me levasse a mal que vos aceitasse o oferecimento!
— Ela própria foi quem me aqui mandou para ver como o filho estava.
— Pode não parecer bem... — alegou o velho num quebramento do seu propósito.
Coitado, tinha tanto frio como se estivesse curtindo sezões. Não porque estivesse desabrida aquela noite de Outubro, mas porque os seus setenta anos se lhe tinham enregelado mais com as noites veladas.
Com dó dele e para o convencer, a monja disse-lhe esta mentira:
— Ainda não vai longe o tempo em que eu ia tratar dos feridos ao hospital e lá estavam outras por caridade, e ninguém achou que parecesse mal.
— Pois sim, então, pois sim — disse-lhe, transigindo com amorável reconhecimento — Fraquezas de velho! Ficai então vós um bocado, enquanto eu vou ver se este meu sangue toma calor. Mas olhai que é com a condição de chamardes, mal que ele acorde.
— Sim, chamarei; ide descansado.
— Ele agora parece que vai a sossegar. Não vos parece também?
— Agora mais sossegado que há instantes. Bem parece que dorme.
— Pois então Deus vos pague a caridade que me fazeis, e até daqui a pouco.
— Até quando quiserdes — volveu-lhe num alvoroço que o velho não percebeu.
Gonçalo Vasques ainda relanceou para o doente um olhar de paternal carinho, e lá se encaminhou para a alcova arrastando os trambolhos das pernas.
* * *
Esteve a monja desventurada a contemplá-lo por largos minutos, numa evocação de sonho pelo passado e numa crise de lágrimas, silenciosamente choradas, por esse tempo que já não podia voltar.
— Bendita hora esta! — disse consigo — Bendita para este desafogo de te ver. Perdoaste-me chamando-me tua irmã, mas já não és, já não podes ser o noivo de sonho que eu tive, naquele primeiro amor que outros infamaram, por traição da real comborça. Não podes! Fui doutro, mãe de uma pequenina que não era tua filha, e não podes, não deves! E eu nunca te atraiçoei, nunca! E a minha alma ficou pura da mácula sem remédio, que já não pode senão merecer-te dó, a esmola do teu dó! E por esta esmola, Ruy, bem hajas!
Acercou-se-lhe mais do catre e beijou ao de leve a mão que ele tinha fora da roupa.
— Deus te melhore, Deus te dê a ventura que mereces, e tão cedo seja, que me não falte a vida para saber que vives ditoso.
Murmurou isto de rosto avincado, numa expressão dolorida, e foi para o genuflexório no passo incerto de alguém estonteado.
Ajoelhou. Orava com o fervor das grandes amarguradas que por este vale de lágrimas muito amaram e sofreram. E sob as orações que os lábios murmuravam caía a levada convulsa dos seus choros.
Era por ele que rezava. As lágrimas por ela, pelo que fora, pelo que era.
— E se os pequeninos que a morte nos leva são anjos que vão para vós, Senhora, por aquela pequenina que me morreu, fruto desta minha desgraça sem remédio, por ela, Mãe de Jesus, vos rogo também que deis vida e ventura a este jovem, que foi o meu primeiro amor e é honra e esperança desta pobre terra, tão atormentada de inimigos e traidores! Senhora, sede por ele! Atendei-me. Não me desprezeis também vós!
Ouviu um rumor de palavras rouquejantes, veladas.
— Jesus, se acordou! — disse, erguendo-se num sobressalto.
Adiantou-se para o catre, muito de manso, como se fosse mãe no receio de acordar o filho pequenino. Mas sempre buscando as manchas de maior sombra para que ele não pudesse dar por ela.
Encostou-se à cabeceira do catre.
— Tem os olhos cerrados — disse consigo, espreitando-o — Estaria talvez sonhando.
Ouviu outro rumorejar de palavras truncadas, e de tal modo desfeitas nos lábios, que se lhe não podiam entender.
— Ainda na labutação do sonho. E pela outra será que ele sonha!
— Nuno Álvares! — murmurou Ruy, de olhos cerrados, agitando-se — Nesta batalha real... Os Namorados... Aqui os tendes... Pela nossa terra... Metade do moto deste pendão verde... O nosso. A metade porque eu pelejo.
— Não é com outra mulher que ele sonha! — pensou num consolo de egoísmo — A visita de Nuno Álvares ficou-lhe na alma, está ideando batalhas o belo pajem que eu amei... Que eu amo! Orgulho de fidalgos, flor de cavaleiros, que eu algum tempo sonhei é que ele é! E eu perdi porque me perderam!
Abeirou-se mais da almadraquexa (1), numa solicitação de alma irresistível para o ver melhor.
O Cabeçal, travesseira.
— Portugal e S. Jorge! — rouquejou Ruy, agitando-se outra vez — Senhor rei, vencemos nós... Esta batalha real! Os Namorados na ala da vanguarda! Os Namorados, senhor... Na Ala dos mais valentes!
— Meu Deus, que faz mal esta labutação! Era um bem acordá-lo. Mas eu não, eu tenho medo!
— Agora... Nuno Álvares... Sobre Castela... E pela minha dama.
— A outra! — disse de si para si num confrangimento do coração — Era de esperar. Doida que eu sou! A mulher que outros perderam já não pode ser senão a irmã, caridosamente perdoada; fingida monja serventuária para lhe sacrificar a vida, se ele não tivesse vergonha de lhe aceitar o sacrifício. Mais nada! Mais nada!
E pareceu-lhe que estas palavras, apenas pensadas, lhe tinham saído dos lábios, numa repercussão alta pela câmara como um grito louco de amargura, e iam ecoando por aquele velho palácio como se fossem o pregão enorme da sua desgraça.
— Madalena! — exclamou o sonhador — Esposa do outro... A tudo cedeste!
A monja inclinou-se mais para ele, numa alucinação do seu espírito atormentado. Para ouvir melhor, para não perder uma palavra daquele sonho pela outra.
— Volto para ti, Leonor... O meu primeiro amor... A minha pobre irmã!
Como desvairada, a sentir o deslumbramento de uma acariciadora esperança, que em outro, momento de serena reflexão enjeitaria revoltada contra si própria, ela a sonhar também um sonho louco, tanto se inclinou para ele que sentia no rosto aquela respiração angustiada.
— Volto para ti... Para morrer. Reza-me a oração do nosso amor perdido... Somos dois náufragos... A mesma onda nos mata.
— Não! Não! — murmurou ela num desvairamento.
E os seus lábios tocaram os do sonhador, num beijo tão leve como se fosse o roçar de uma asa branca de borboleta.
Mas logo, num estremeção de pudor, se afastou bruscamente e caiu de joelhos ao pé do catre.
— Mãe de Jesus, não me deixeis outra vez enlouquecer!
Naquele instante de desvario nem pôde ouvir os passos que se arrastavam pelo corredor, brandos, incertos, nem podia ver a mão branca e afilada que apanhara o reposteiro depois de ter levantado cautelosamente o fecho da porta.
Estava toda ela no aturdimento e na cegueira daquele instante.
Soluçava encostada ao catre, a cabeça entre as mãos, num ardor de febre.
E ele no seu pesadelo:
— Leonor! Leonor! Também tu me desamparas!
— Ruy, não! — disse como a responder-lhe.
E tomando-lhe a mão, que ele deixara tombar para a borda do catre, beijou-lha fervorosamente.
— Para morrer por ti, se a minha vida quisesses! Se ma quiseres!
Então uma figura mortificada de mulher, com um pasmo de olhar que parecia demência, roupagens em desalinho, cabelos brancos soltos sobre os ombros, acercou-se dela em passos vacilantes como de octogenária, e disse-lhe baixo, a tremer, pousando-lhe a mão no ombro:
— Que mulher sois então?!
Voltando-se ainda ajoelhada, numa convulsão de terror, a fingida serventuária pôs em D. Dulce um olhar espavorido.
E a primeira ideia que lhe lampejou no cérebro entontecido foi que ela haveria suspeitado do seu disfarce e tudo dispusera para aquela surpresa. O que Leonor não podia adivinhar era que a mãe de Ruy, despertada de um pesadelo em que vira o filho agonizante, sozinho; abandonado de todos, a clamar por ela, se erguera num supremo esforço, com a energia fenomenal que dão as grandes dores morais, e sem chamar ninguém, sem pensar em mais ninguém, envolvida nas primeiras roupas que encontrara à mão, viera num desvairamento, arrastando-se ofegante, para ver o filho.
— Senhora, perdão! Tende dó. Perdoai! — suplicou-lhe de mãos postas, as palavras a torcerem-se-lhe na tremura dos lábios.
D. Dulce relanceava olhares para o filho, como a certificar-se de que o seu pesadelo fora apenas uma opressora mentira.
— Que mulher sois? Quem vieram meter-me em casa? Respondei para sairdes!
— Senhora, por piedade, mais baixo, que 0 podeis despertar! Vosso filho falava sonhando e eu sou... Mas tremeis de frio, faz-vos mal estardes aqui! — disse, erguendo-se a custo.
— Tantos contra este meu coração!
— Senhora! — disse-lhe carinhosamente, a reprimir soluços — Vamos daqui. Eu vos irei amparando e tudo vos hei de confessar... Antes que me expulseis da vossa casa.
— Para o deixar sozinho? — disse-lhe amargamente, envolvendo-a num olhar de estranheza.
Suspeitas vagas, encontradas e até insensatas, se lhe atropelavam no cérebro, aturdindo-a.
— O vosso filho está melhor e eu chamo ali Gonçalo Vasques. O pobre velhinho já não podia mais. Mas afastemo-nos daqui para que o vosso filho não ouça.
Amparou-a nos braços, piedosamente, e foi-se afastando do catre com ela.
— Não me repulseis, sem saberdes quem sou... A triste desventurada que eu sou! Assentai-vos aqui — disse-lhe ao pé de um escabelo, a poucos passos do genuflexório — Eu chamo Gonçalo Vasques. Depois vos irei amparando para a vossa câmara — segredou-lhe, acarinhando-a docemente — Até lá, como se fosse uma filha a amparar a mãe doente, a santa mãe doente que vós sois. Em poucos momentos vos contarei tudo, e então sereis a ama que põe fora da sua casa... Uma serventuária que lhe deu escândalo.
— Aquele pesado sono do meu filho inquieta-me!
— Senhora, assim está há muito tempo adormecido, e daquela turbação dos sonhos agora me parece acalmado. Eu vou chamar Gonçalo Vasques. Mas, senhora, fazei-me o piedoso favor de nada lhe contardes. Pelas minhas recomendações é que ele foi repousar.
— Sim, depressa, ide — respondeu-lhe — Não posso atinar quem seja! — pensava.
O velho tinha-se deitado vestido e levantou-se assim que Leonor o chamou. A fingida serventuária preveniu-o da vinda de D. Dulce e pediu-lhe que de nada lhe falasse, pois que já de tudo lhe tinha dado conta.
Cheio de estranheza e de receio por aquela inexplicável imprudência da sua ama e senhora, como ele lhe chamava, o velho foi saudá-la um pouco acobardado de ânimo pela sua ausência daquele posto de devoção.
Notou-lhe o rosto mais desfigurado e os olhos mais sumidos e mortificou-se por vê-la com uns rebates de sufocação.
D. Dulce respondeu-lhe em duas ou três palavras, sem nenhum azedume, e encostou-se à misteriosa serventuária.
— Vamos. Mais junto da sua cama... Para o ver.
Amparando-a, mais trémula do que ela, Leonor passou rente do catre de Ruy, agora num sono tranquilo e profundo.
— Nossa Senhora tenha dó de ti, filho! — suplicou mentalmente.
— Adeus, e agora talvez para nunca mais te ver! — disse consigo Leonor, pondo nele os seus olhos rasos de lágrimas.
No corredor D. Dulce teve uma sufocação maior.
— Por minha causa, senhora! — disse-lhe Leonor, encostando-a muito a si para que ela lhe não caísse nos braços.
— Isso... Não... — volveu-lhe a custo — Não foi... Por vossa causa.
* * *
Estavam as duas sozinhas naquela câmara, que uma lâmpada de prata esclarecia tenuemente com a sua luz doirada e branca.
D. Dulce sentada em cima da cama, recostada a um grande cabeçal de frouxel, feito de propósito para ela; Leonor, de mãos cruzadas sobre o peito, quase encostada ao catre.
A falsa monja contara o que fora e o que era.
D. Dulce, num incidente da conversa, revelara-lhe o angustioso pesadelo que a levara a ir à câmara do filho, com louca imprudência.
Via-se bem que ambas tinham chorado.
— Aqui tendes, senhora minha, quem foi e quem é a pobre de tamanha desventura, que vos trouxeram para casa no fingimento de monja serventuária e fostes surpreender a beijar a mão do vosso filho. Em desconto de tanta desgraça, dai-me o vosso perdão, se podeis. Pela saúde e pela boa fortuna do vosso filho vos peço. Perderam-me e, ainda para maior infortúnio, me caluniaram dando por volúvel namorada a miseranda vítima de uma traição no paço! Se até vosso filho acreditou e eu... Tinha-lhe um amor puro, tamanho... Que foi o maior da minha vida! Mas bem sabeis já que ele me perdoou, chamando-me sua irmã. Mandai embora a serventuária, e se alguma soldada mereceu, dai-lha, por tanto maior valor que nenhum dinheiro a pudesse igualar, dai-lha, senhora, no vosso perdão.
— Dou, sim — respondeu-lhe comovidamente, inclinando-se mais para ela — Leonor de Gusmão, quem podia adivinhar-vos aqui?!
— Senhora, o consolo que me dais! Deus vos pague nas tantas venturas e glória que o vosso filho merece! Há de ser já madrugada e pouco poderá demorar a manhã. A serventuária sairá para nunca mais voltar, para nunca mais o tornar a ver.
— Leonor!
— Ainda enlouquecida, depois que a minha pequenina me morreu de fome nos braços, teve Nossa Senhora dó de mim e melhorou-me. Enlouquecimento foi também este de aqui vir, mas será o último, por Deus o espero, senhora.
— Mas pedia-vos eu que por uns dias esperásseis, até ver se eu melhorava mais. Sois alívio consolador para mim, Leonor de Gusmão. Muito da alma aqui vos teria comigo para sempre, mas, bem o compreendeis, desde que sei quem sois, não pareceria honesto que vos tivesse aqui.
— Senhora, nem eu queria!
— E tenho pena e dó de me afastar de vós! Entendem-se bem dois corações que muito padeceram.
— O meu padecendo ainda nesta amargura que não tem remédio!
— E o meu nos receios pelo dia de amanhã. Olhai que não hei de esquecer-me de vós, onde quer que estejais, e irei ver-vos sempre que mo consintam estes meus ataques.
— Senhora, como sois piedosa! — disse, tomando-lhe a mão e beijando-lha — Mas não sei se poderá ser! A serventuária podia aqui estar enquanto não a houvessem reconhecido; mas a mulher que foi Leonor de Gusmão, essa tem de sumir-se. Não pode ficar onde quer que saibam quem ela é.
— A mim me dissestes, há pouco ainda, que tínheis pousada de favor em casa de Afonso Eanes.
— E a verdade vos disse. Lá me receberam caridosamente, a pedido do vosso filho, porém então ainda a minha pobre cabeça tresvairava. Mas daquela casa só Afonso Eanes sabe quem sou, quem fui; a família não.
— Voltareis para lá certamente.
— Não devo, senhora. No meu empenho de vir para vos ajudar ou ao vosso filho, enquanto o disfarce não fosse percebido, a ele também o enganámos, aquela minha misericordiosa protetora que tem sido a velha Lourença e eu. Ela, dizendo a Afonso Eanes que nos mosteiros das monjas franciscanas tinha eu uma parenta que me queria para si; eu, declarando-lhe que para lá queria ir naquele mesmo dia em que o engano se combinou.
— E para aqui viestes então! A Lourença estava por tudo quanto vós quisésseis, não é assim?
— Por tudo como se fosse mãe indulgente.
— Mas para onde ireis então?! Haveis de voltar para o casinhoto miserando de que me falastes?
— Nem eu sei ainda, senhora minha! Talvez faça o engano certo e vá pedir abrigo a qualquer comunidade de monjas em que me queiram como serva.
— Isso não, Leonor! Tal vos peço eu que não façais. Eu posso pedir que vos recebam nalgum convento onde vos tratem como pessoa que tem direito a viver estimada, embora se guarde o segredo desse vosso nome.
— Senhora, hei de ver, mas para o agradecimento de tanta generosidade é que eu não tenho de esperar e aqui vos afianço — disse, beijando-lhe outra vez as mãos a chorar — Que o melhor será sumir-me enquanto a morte não chega.
— Desvario vosso, Leonor!
— Desvario, senhora! É que ainda não reparastes bem na desgraçada que eu sou. Perderam-me e até na minha perdição me caluniaram! Até esse que foi o maior amor da minha vida! Fui quase noiva, e já não posso ser senão isto que sou! Fui mãe, e a minha filhinha morreu-me! Sumida de todos é que eu devo de esperar que a vida se me acabe!
E ajoelhou-se contra o catre a soluçar.
— Não, não há de ser assim! — acudiu D. Dulce num impulso de dó — Heis de estar aqui ainda uns dias e quando eu puder mais... Combinaremos o que se há de fazer. Ruy chamou-vos irmã, deixai que eu vos chame filha, e ainda mal que, por causa do Mundo, haveis de ser uma filha que precisa de viver oculta e de quem eu tenho de afastar-me.
Procurou-lhe as mãos para a levantar e cingir a si.
Leonor ergueu-se, abriu-lhe os braços e beijou-lhe os cabelos fervorosamente, numa crise de lágrimas.
— Por aquela mãe que Deus há tanto me levou — soluçava — santa que de mim vos compadeceis, benditos sejam os vossos cabelos brancos!
E só lhe não disse que naqueles beijos ia também uma enternecida homenagem, a maior talvez, à mortificada mãe de Ruy de Vasconcelos.
— Mas ficais aqui mais uns dias, até que eu possa combinar convosco o que se há de fazer, prometeis?
— Senhora, sim.
— Leonor! — exclamou numa aflição — As sufocações... Voltam!
Amparou-a nos braços em requintes de carinhos, ajudando-a por modo que lhe tornasse a respiração menos difícil.
— Hão de passar-vos breve — dizia-lhe — Nossa Senhora há de ter dó.
E, por felicidade, foram muito menos violentas do que as outras, quando voltara do quarto do filho; mas ficou em grande abatimento e numa transpiração copiosa.
— Faz-vos mal falar mais — dizia Leonor, aconchegando-lhe as roupas e ajeitando ó cabeçal — Vou dar-vos o remédio e agora é preciso repousar, dormir por essa manhã adiante, a manhã que eu já vejo luzir — disse, volvendo um olhar para a janela, um quase nada entreaberta, para que o ar não faltasse à doente.
* * *
Adormeceu, mas foi sono de curta duração. Às 7 horas já estava acordada. Leonor dormitara sentada ao pé dela.
Instou D. Dulce com a sua desvelada enfermeira para que se fosse deitar: respondeu-lhe que não era preciso porque já tinha dormido bastante.
A aia levantara-se e viera receber as ordens de D. Dulce. Disse-lhe que fosse saber de Ruy e depois então iria olhar pelas coisas da casa.
Pouco depois, Marta voltava com a boa nova de que Ruy tinha passado tranquilamente e levara a madrugada de um sono.
— Bendita Mãe de Jesus! — exclamou D. Dulce de mãos postas, volvendo para Leonor um olhar de intenso júbilo.
— Bendita seja! — disse-lhe ela, baixando os olhos rasos de água.
— Está bem, minha querida Marta, agora ide-me olhar por essa gente e por essa casa. Ah! O nosso monge? Estava no quarto do meu filho?
— Não estava, senhora minha. Mas ouvi dizer que, logo de madrugada, se erguera e havia mais de meia hora fora falar a um homem que vinha procurar o senhor Ruy.
— Está bem; está bem-
Marta saiu.
— As melhoras daquele filho são as minhas maiores melhoras — disse para Leonor.
— Compreendo, senhora. Já soube o que era esse amor assim! — volveu-lhe sumidamente.
Instantes depois, Gonçalo Vasques perguntava à porta se a senhora estava acordada. Era Leonor quem lhe falava.
— Está melhor, louvores a Deus.
— Pois então dizei-lhe vós que o monge, nosso hóspede, muito deseja saber se lhe pode falar.
— Eu vou saber.
Foi e voltou com resposta afirmativa.
— Componde-me estas roupas, minha filha. Aquele monge — disse-lhe, baixando a voz — também não é o que parece. Preciso recebê-lo aqui... Como se fosse um irmão meu.
— Um venerando velho que infunde tanto respeito como simpatia! Parece que também muito haverá padecido.
— Muito.
— Eu retiro-me, senhora.
— Não; deixai ver. Pode não ser coisa de segredo.
— Senhora minha, dais licença? — perguntou Mendo à porta.
— Podeis entrar — disse-lhe D. Dulce na sua voz enrouquecida.
Leonor afastou-se para o vão da janela. O monge entrou e falou a D. Dulce, mantendo o seu disfarce.
— Vosso filho melhor e vós também, por favor de Deus.
— Um pouco melhor. Assentai-vos.
— Senhora, não posso. Tenho de sair já a levar informações ao Mestre; mas um encargo tomei para vós e não quis retardá-lo.
— Coisa particular que seja de segredo?
Mendo relanceou um olhar para a monja e respondeu:
— Coisa que todas as pessoas desta casa podem saber. Coisa que me causou estranheza — acrescentou, baixo para ela.
— Dizei então.
— Acabo de estar com um campino de Santarém que aqui veio de propósito e, ao que ele próprio me disse, bem pago para trazer esta carta para vós e esta outra para vosso filho. Ambas vo-las entrego — disse, dando-lhas para as mãos — O homem deu-me interessantes informações a respeito de el-rei de Castela e da sua corte e gente de armas, já nas disposições de irem para as suas terras.
— Ainda bem.
— Vão, mas para tornar com maior poder.
— E estas cartas quem as manda? — perguntou D. Dulce, remirando os pedaços de pergaminho, enrolados e atados com fitas, que uns pedaços grossos de cera e resina uniam e seguravam como lacre do melhor deste nosso tempo.
— Não me disse o portador de quem eram, ou por não querer ou porque realmente o não sabia, e só me contou que um pajem da própria senhora infanta D. Beatriz, rainha de Castela, o fora convidar recatadamente para as trazer, e boa paga lhe dera.
— Da senhora infanta de Portugal, rainha de Castela! — exclamou D. Dulce num alvoroço de surpresa — Muito bem me conheceu e muito a conhecia eu do paço. Mas um pajem dela com uma carta para mim e outra para o meu filho! Para quê ou porquê?! Eu com a senhora rainha de Castela nada tenho, nada quero ter. Agora vos peço o faavor de abrirdes esta que é para mim e de a lerdes para sabermos se alguma coisa diz que possa pôr suspeita de deslealdade em alguém desta casa.
Deu-lha para a mão.
— E até desejo que a leveis ao Mestre, se alguma coisa trouxer que ele deva de saber. O portador poderá contar o que viu e eu nem a sombra sequer de uma desconfiança quero em volta de mim e dos meus! Monja, vinde ouvir — chamou, voltando-se para a janela.
Leonor aproximou-se com um pressentimento, que ela própria considerava louco e teria vergonha de revelar, mas que afinal lhe sobressaltava o cotação tristemente.
Mendo estava plenamente de acordo com os escrúpulos da irmã pois que naquele tempo de tantos traidores, de tão descarados enredos políticos e tal mercancia de consciências, não bastava ser leal, mas importava também parecê-lo, para que as suspeitas não manchassem os que tinham de ser lição e estímulo para os mais desalentados e não levassem às turbas mais um incentivo a desesperos e esmorecimentos.
Quebrou os fechos de cera, desatou e desdobrou o pergaminho e com avidez de curiosidade foi procurar a assinatura.
— Não é da senhora Infanta! — disse — Tem aqui apenas um nome assinado: Madalena.
— Madalena! — disse D. Dulce, relanceando um olhar para Leonor.
Estava de olhos baixos, muito pálida. E mais já não pôde ver-lhe o estremeção violento que a desventurada teve quando o monge leu aquele nome. Era o mesmo de quem Ruy falara no seu sonho.
— Já entendo de quem é — disse D. Dulce para o monge — e então não vos demoreis para a ler. Depois será.
O seu intento era poupar à pobre Leonor o sacrifício de a ouvir ler. Sem perceber o intento piedoso com que a irmã queria retardar a leitura dá carta, Mendo objetou-lhe:
— Bem que seja longa, em menos de um quarto de hora se lê, e não é tanta a minha urgência de sair, que me cause transtorno ler-vo-la agora.
D. Dulce ainda procurou dar-lhe aviso num olhar, mas o monge não reparou e leu: Senhora minha e muito presada benfeitora. Perdoai-me e tende piedade de mim pelo tanto que tenho padecido e padeço por este amor de má fortuna que tem sido o meu. Nem podeis sonhar, senhora minha, a tortura horrorosa da minha alma nesta corte onde todos me estimam e parece que tudo me falta, menos a dor que veio comigo e já se não acaba, por mais lágrimas que eu chore para que elas me afoguem ou para que a nossa Senhora tenha dó de mim! Mas não quis a minha desgraça que esta dor bastasse, e logo veio outra maior que a de todas as mágoas e saudades com que daí violentamente me trouxeram! A mim me vieram dizer que o vosso filho tinha ficado gravemente ferido na arremetida em que me quis salvar deste cativeiro. Senhora, que horror de tormento em tantos dias e em tantas noites, desde que isto me disseram! Noites em que a minha alma teve sonhos de morte, na maior amargura desta viuvez, na qual o meu sonho de noiva para sempre se perdeu! E ninguém que me trouxesse uma nova de consolo ou uma notícia de verdade ainda que fosse pior que o sonho! Alfim, senhora, a Rainha entendeu a minha amargura e teve dó de mim. Com a sua proteção é que esse mensageiro aí veio com esta carta para vós e a outra para o vosso filho, porque em Deus espero que ele a possa ler».
Mendo voltou a lauda do pergaminho. D. Dulce, que não tinha desfitado Leonor, avaliava bem a tortura moral daquela maior infortunada e aproveitou a interrupção para lhe dizer:
— Monja, se quereis retirar-vos...
— Senhora, deixai... Sairei depois — respondeu-lhe a fingir uma tranquilidade de ânimo, que a voz dolorida estava desmentindo.
O monge levantou para ela um longo olhar de estranheza.
Fizera-lhe impressão aquele tom de mágoa da serventuária, como se fosse a música dolente de uma alma que estivesse sentindo as palavras da carta.
— Salvo se mandais que saia — acudiu Leonor.
— Isso não. Como isto é coisa de nenhum interesse para vós...
— O meu coração tem sempre um interesse de dó por todos os que por este Mundo vivem infortunados.
— Então, meu venerando monge — disse D. Dulce, confrangida — fazei-me o favor de lerdes o mais que aí vem.
Mendo relanceou um olhar de maior surpresa para a monja e continuou a ler: Santa mãe de um noivo de sonho que eu tive, fazei de conta que estou aí de joelhos diante de vós e de mãos postas a pedir-vos, pelo tamanho amor que tendes a esse vosso filho, a esmola de algumas palavras em que me digais como ele está. Sejam como forem, senhora. A alegria ou a dor que me trouxerem, a receberei eu no meu coração pelo dobro do que elas disserem. E não julgueis que nesta súplica ainda pode ir alguma ousada esperança. Nenhuma. Anoiteceu já sobre esta minha juventude. É noite para não ter fim! O sonho da noiva finou-se e vai boiando como se fosse uma flor morta sobre a levada de lágrimas que os meus olhos choravam. O que eu não desejava, o que eu não queria, era que se volvesse em remorso meu a saudade de uns dias, que já parecem distantes e já nunca mais voltam! E tal remorso viria para mim com o infortúnio ou com a perda do vosso glorioso filho por causa de uns amores, que hão de viver comigo para sempre, mas que ele tem o direito de julgar acabados. Onde quer que viva, serei sempre como certas monjas emparedadas, de que eu ouvia falar com horror. O Mundo será estreito e frio em volta de mim, por mais largueza que tenha a felicidade dos outros e por mais carinhoso sol que os meus olhos vejam no céu. Como a cela funerária daquelas desenganadas que nada esperam! Senhora, perdoai e mandai-me a esmola de algumas palavras vossas. Eu sei bem como sois misericordiosa e fico esperando por elas ansiosamente. Pela minha mãe e por mim vos beijo as mãos, e ambas daqui pedimos a Deus que em boa fortuna vos pague os tantos benefícios que vos devemos — Madalena».
Fazia dó o rosto mortificado de Leonor. Estavam cheios de choro os olhos de D. Dulce. Era de piedade por aquelas duas mulheres novas de tão diverso destino: a que escrevera a carta e essa que a ouvira ler.
— O portador dessa carta ficou de voltar? — perguntou ao monge.
— Disse-me que ao fim da tarde voltaria e mesmo de noite se meteria a caminho.
— Pois então se lhe dará a resposta.
— A demora que hei de ter não será longa — disse-lhe Mendo — e muito a tempo voltarei para vo-la escrever, senhora minha.
— Sim, eu mal podia.
* * *
— Leonor de Gusmão, que má fortuna a vossa, até nisto que uma casualidade enredou assim!
Como se despertasse de um pesadelo, a serventuária foi para ela numa convulsão de soluços.
— Perdoai, senhora da minha alma, mas tenho de faltar à minha promessa!
— À vossa promessa!
— Não posso ficar. Não posso!
— Leonor, mas vede que nenhuma culpa tenho disto! Eu bem quis ver se evitava... Não podia adivinhar...
— Senhora, por amor de Deus vos não desculpeis, pois que não há culpa senão da minha má fortuna. Senhora, como essa amargurada que vos escreveu, também eu vos peço uma esmola de dó. Deixai-me sair e perdoai que vos deixe.
— Mas sair para onde?
— Seja para onde for. Para me sumir.
— Mas olhai cá, minha filha — disse-lhe carinhosamente, puxando-a mais para si.
— Não me trateis assim, que me faz remorso ouvir-vos, porque eu tenho de sair, porque eu não posso já ser a enjeitada do Mundo que o vosso coração misericordioso quer perfilhar.
— Oh! Meu Deus, mas como tudo parece apostado a amargurar-me!
— Senhora, bem vedes que não posso ficar! O vosso coração há de compreender o meu. Não vos amargureis por mim, de joelhos vos peço. Até será um bem para vós que eu saia. Maior tormento seria o vosso, se eu ficasse. Eu é que sou no Mundo a emparedada de que fala a noiva do vosso filho. Sepultada em vida para morrer de pé, sem ninguém ver como esta desgraçada acaba, sem ninguém que não sejam as pedras de um muro para chorarem por mim.
— Leonor, que desvairamento o vosso!
— Senhora, se aqui ficasse, amanhã, depois, seria pior! Não mo leveis a mal; é dever sair. Endoidecia outra vez, endoidecia, que bem o sinto! Chega a ser esmola deixar-me sair.
— Minha filha, na vossa vontade não posso eu mandar; mas deixais-me grande mágoa, até pela culpa que não tive...
— A culpa foi toda minha, que vim aqui mortificar-vos na louca ideia de vos ajudar ao peso da vossa cruz de mãe. Não posso; perdoai! O meu coração mentiu-me. Fraquejou, senhora minha; está cansado de sofrer. Mas o vosso filho melhorou, vós também; que nenhuma falta vos faça. Deixai, deixai! Prometei que não ficais ressentida contra mim.
— Eu, porquê! Pesarosa é que eu fico, Leonor!
— Isso passa. Hão de vir os dias de boa fortuna, os dias de glória para o vosso filho, até da noiva distante Nossa Senhora há de ter dó, e a emparedada no Mundo serei eu.
— E não quereis que se mande aviso à velha Lourença para ir convosco, ou a Afonso Eanes? Ao menos que alguém daqui vos acompanhe — disse-lhe num constrangimento de mágoa.
— Senhora, nenhum aviso; irei só e não tenhais preocupação por mim. Andei sozinha por essas ruas, naquela noite em que a minha pequenina morreu. E só da sua morte eu tive medo! Senhora da minha alma — disse convulsivamente, ajoelhando-se-lhe em frente do catre — tantas horas vos dê Deus de boa fortuna para vós e para o vosso filho como de lágrimas eu tenho chorado, ainda que seja maior a conta de outras que eu levo comigo.
Ergueu-se, debruçou-se para ela. E beijou-lhe as mãos fervorosamente. D. Dulce abraçou-a e beijou-lhe a face numa tremura de comoção.
— Adeus! — rouquejou.
— Leonor, que a nossa Senhora vos abençoe e vá convosco. E não quereis que eu saiba de vós? Nunca mais vos tornarei a ver?
— Senhora, só Deus o sabe!
Correu para a porta num estonteamento de mortificada.
Atravessou o corredor e passou em frente da câmara de Ruy.
— Deus te salve, e Deus te leve para a noiva que mereces! — disse num estrangulamento de voz — Cavaleiro enamorado, boa glória seja contigo!
Desceu a grande escada a tremer. E lá foi a trambolhar pela rua fora naquela rútila manhã de Outubro.