A Ala dos Namorados
Capítulo II · Plano de Aventuras
Tinham passado três dias. Um escudeiro do Condestável chegara de Santarém com uma carta para Ruy de Vasconcelos. Trazia notícia de alvoroço, pois que logo o jovem caudilho dos Namorados mandou sair dois escudeiros com aviso para os companheiros se reunirem no alpendre de S. Domingos, por volta das 3 horas da tarde.
E a seguir foi aos aposentos do tio Mendo. Encontrou-o de palestra com o trovador provençal, a quem muito se afeiçoara desde as jornadas de regresso a Lisboa.
Era pessoa de confiança aquele aventureiro poeta, e o que Ruy queria dizer ao tio não era coisa de segredo que o hóspede não pudesse ouvir.
— Tio Mendo, veio uma carta do Condestável para mim.
— Traz alguma má notícia?
— Traz-me a notícia de que El-rei saiu de Santarém para o Minho em romaria à Senhora de Oliveira de Guimarães, e que ele Condestável vai para o Alentejo e entrará por Castela, se as coisas lhe parecerem asadas para isso. Tio, antes fosse para Riba Douro, em terras de Castela!
— Ah! Sim — volveu-lhe, sorrindo — Para tu ires com os teus Namorados tomar Tordesilhas?
— Nunca Deus me desse maiores trabalhos.
— Pois — todos os caminhos levam a Roma, e das margens do Tejo castelhano não seria coisa de espanto deitar até às montanhas do Douro leonês. Mas nem isto será preciso. Eu já falei com este nosso amigo — disse, indicando Marival — e temos um traço de aventura, que pode ser talvez a loucura final da minha velhice. Enfim, será para te salvar a noiva, e não há sacrifício que não mereças pela honra insigne que dás à nossa família e pelo assinalado esforço com que tens servido a nossa terra. Mas conta-me lá então porque é que o Condestável te manda a ti essa notícia. Só para te dizer que vai para a fronteira do Alentejo e de lá irá por Castela dentro, assim que tenha ocasião, só para isto não me parece que seja.
— Não é, tio Mendo. Esta nova que ele me dá serve só para justificar o convite que me faz.
— Quer que vás com ele, estou a adivinhar?
— Assim é. Com autorização que teve de El-rei me convida a ir para lá com os meus companheiros que estão aqui em Lisboa...
— Restos daquela gloriosa ala que ia ficando toda em Aljubarrota! — interrompeu Mendo Rodrigues.
— Quarenta e cinco são os que aí temos.
— Convida-te então a ires com eles para a sua hoste e depois, se Deus quiser, para as terras de Castela? E tu que lhe respondes?
— Que aceito o convite. Ainda esta tarde hei de ouvir o voto dos meus companheiros e com eles tenho a certeza de contar. E amanhã de madrugada partirá o mensageiro com a resposta, e nós no dia seguinte iremos a caminho de Santarém. Lá lhe lembrarei o honroso feito que seria ir bater a hoste do infante de Navarra, se acaso ainda não saiu da Beira.
— E assim te irias aproximando do velho reino de Leão, e de salto, ao modo dos fossados (*) do tempo do nosso primeiro rei, darias contigo e com os teus a tomar Tordesilhas para de lá tirares a tua noiva. Vede, meu prezado Frederico Marival — disse para o trovador, esboçando um sorriso — vede se o rei Artur teve nos seus da Távola Redonda cavaleiros que mais sonhassem do que estes meus patrícios da Ala dos Namorados!
[(*) Fossados denominavam-se as invasões militares, breves, feitas no território dos Mouros durante os primeiros tempos da monarquia.]
— Eu é que nem os podia sonhar assim nestes nossos tempos! — respondeu Marival.
— Nem eu, que saí daqui há doze anos, julgando isto uma nação moribunda, que ainda há um mês me parecia a dois passos de se perder! Agora, não. O que eu vi em Aljubarrota pareceu-me a ressurreição de uma grande raça e eu próprio, amargurado e descrido, como que subitamente mudei e sinto-me menos acabrunhado de mágoas! Tão outro, que até me apraz meter-me em aventuras por conta deste nosso querido Namorado! Pois, meu Ruy, a mim me quer parecer que se vão dispondo as coisas bem, e aqui, neste nosso engenhoso troveiro e em mim, terás os esculcas que te hão de ir observar a terra inimiga.
— Tio, não entendo bem!
— Eu te explico. Para poder cumprir a promessa que te fiz, entendi-me com este nosso amigo e tudo está já combinado. Ele conhece bem Castela e já esteve em Valhadolid e em Tordesilhas; eu também, e sei falar o castelhano desembaraçadamente. Ora imagina que um belo dia nos iremos daqui os dois, ele como trovador errante e eu com o meu capuz, com o bordão e o meu burel de peregrino da Terra Santa. E assim, no fingimento de nos havermos encontrado casualmente pelo caminho, iremos dar a Tordesilhas e pedir pousada no mosteiro onde está a tua noiva. É coisa natural e que há de ter sucedido muitas vezes. Quem havia de lá suspeitar de um troveiro aventuroso, errante de terra em terra, e de um velho peregrino, que sabe dizer mil coisas certas da Terra Santa no castelhano que eles falam?
— Oh! Que seria uma abençoada aventura para eu saber notícias seguras de Madalena; porém com grande risco para vós.
— Já estou adivinhando o que estás com vontade de me observar. Se lá desconfiassem que íamos de Portugal, logo os dois nos poderíamos tornar suspeitos. Também disto nos havíamos lembrado e de acordo resolvemos meter-nos em Castela para Tordesilhas e Valhadolid e, fazendo um grande rodeio, iremos tomar caminho como se viéssemos de França. Messire Frederico Marival diria que tinha saído de Avinhão, sede do anti-papa Clemente VII, que os Castelhanos reconheceram, e vinha de visita às povoações de mais nomeada em Castela e comigo se encontrara em Navarra. Eu contaria que era Asturiano e dos Santos lugares voltava com promessa de visitar o famoso mosteiro de Tordesilhas. Assim, neste fingimento, que não afronta nem causa dano a ninguém, é seguro que nos dariam bom e confiado acolhimento.
— Corri já por terras de Espanha — informou Marival — e nunca me negaram pousada e bom acolhimento nos paços e nos castelos dos fidalgos, nos conventos dos frades e até em mosteiros de monjas.
— E com mais facilidade talvez a um peregrino da Terra Santa — acudiu Mendo a sorrir — se não tiverem suspeita de que é chamorro encoberto.
— Tio, e depois? — perguntou Ruy num alvoroço de apaixonado.
— Saberíamos da tua noiva e observaríamos quanto fosse necessário para entender como de lá a poderíamos tirar. Se fosse possível, nós somente. E se o não fosse, um de nós viria dar-te aviso onde quer que estivesses, e lá irias então buscar a noiva encantada. Diz-me agora o teu parecer.
— Tio, o que eu sei e posso dizer é que o estratagema assim me parece excelente e que virei a dever-vos, a ambos, a maior ventura da minha vida!
— Nem tanto, nem tanto, meu querido Ruy. A vila tem muralhas, há de ter gente de armas, o mosteiro estará bem guardado, e não será fácil que nós, os dois, possamos arrancar de lá a tua noiva, sem a expor a perigos de morte connosco. Mas ficaremos sabendo como o feito se poderá levar a cabo, e seremos nós os guias para ti e para os teus, que te quiserem acompanhar.
— E isso é já muito e de tão rara dedicação, que nem eu sei como hei de agradecer-vo-lo.
— O feito há de ser teu e dos teus.
— E será essa a mais galante aventura dos Namorados de Aljubarrota — disse o Provençal.
— Mas por agora nada disto contes ainda aos teus companheiros — recomendou-lhe o tio.
— Nem uma palavra sequer, até que chegue a ocasião de lhes fazer o pedido.
— Está bem. Nós, os dois, iremos também convosco até à fronteira e de lá nos afastaremos então.
— Tio, entendeis que é preciso guardar segredo para a minha mãe?
— Decerto. Para essa primeiro que para ninguém. Não me perdoaria, se soubesse, ou sequer pudesse sonhar, o que eu aqui te disse.
— Falo-lhe então numa ordem de El-rei para nos irmos juntar à hoste do Condestável. Conheço-a bem. Entenderá que vou cumprir os meus deveres de cavaleiro e de português, e resignar-se-á.
— Deus sabe com que mágoa e com que lágrimas, que tu não poderás ver! Fica então assente o que te disse, e tudo teremos preparado para partir amanhã, se os teus companheiros estiverem de acordo.
— Estão. Podia jurá-lo.
* * *
De tarde, os Namorados estavam reunidos no alpendre de S. Domingos.
Ruy leu-lhes a carta do Condestável.
— Iremos como se tivéssemos uma só alma e uma só vontade! — respondeu o Magriço por todos eles.
— Para onde o Condestável mandar e onde vós quiserdes, Ruy de Vasconcelos — disse calorosamente Vasco Eanes.
— Todos!
— Todos! — confirmaram.
— Pois isso mesmo lhe vou já responder.
— E vai a bandeira e seremos na hoste um corpo à parte, como em Aljubarrota.
— Enquanto houver um que represente a ala e possa levantar e defender a bandeira.
— Assim há de ser.
— Então, amanhã, ao romper da madrugada — propôs o Vasconcelos.
— Amanhã a caminho.
— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — disseram num brado de alma.
E afastaram-se com tão expansivo júbilo como se tivessem aprazado um sarau ou umas cavalhadas na Corredoura.
Ruy foi dar conta ao tio dos resultados desta breve conferência com tal entusiástico desfecho.
— Então, com esses rapazes, até podias ir buscar a tua noiva às cidades de Sevilha, de Múrcia, ou de Toledo, nas próprias barbas do rei — disse-lhe Mendo Rodrigues de gracejo — E a propósito do rei de Castela, deixa-me dar-te uma notícia que eu há pouco ouvi. Sabe-se já em toda a cidade, creio que por um prisioneiro português fugido das naus castelhanas, que o rei vencido foi dar a Santarém por alta noite, logo no dia da batalha, e de lá veio num batel rio abaixo para acolher-se à armada que aí tem. Que esteve quase dois dias a bordo da nau de Pedro Afan e no dia dezassete se meteu ao mar para Sevilha numa galé.
— Rei de ânimo fraco, tal como el-rei D. Fernando!
— Este de Castela ainda, ao menos, teve coragem para assistir à batalha, enquanto ela foi regular.
— A escassa meia hora que o foi.
— Mas diz-se também e, provavelmente, é informação da mesma origem, que D. João de Castela chegou à armada de rosto velado, a soluçar como uma mulher e completamente vestido de dó, como se fosse dele todo o luto que foi cobrir Castela!
— Pois então, a Santarém iremos saber como ele lá chegou e em Castela havemos de ouvir por quanto tempo guardou el-rei o seu luto.
— Para o qual a vossa ala concorreu como ninguém. Agora vem comigo para irmos dar aviso à tua mãe. É preciso encobrir-lhe o intento e terei eu de fingir que vou para ser o teu prudente conselheiro e desvelado guia, quando a verdade é que sou eu o cúmplice aventureiro dos teus amores! Mas é muito do coração e para bom fim esta piedosa falsidade.
— Para que eu não venha a morrer de desânimo por estes amores, até agora tão malfadados!
— Sinto consolo no serviço que te vou prestar. De muito mais és digno.
— Vamos lá!
Foi entrevista breve de meia hora. À saída, Mendo Rodrigues disse para o sobrinho:
— Venho com remorsos! Sentia a mágoa que a tua mãe fingia não sentir, e muito mais me custou esta meia hora que a outra de Aljubarrota!
* * *
Ao outro dia, de madrugada, os Namorados partiram para Santarém, acompanhados de Mendo Rodrigues e do troveiro provençal.
Foi uma alegre jornada de rapazes. Por ali fora em gracejos, em devaneios, em cantares, rememorando proezas e fantasiando aventuras.
Dois dias de caminho e entravam em Santarém. Nas suas impaciências de batalhador, o Condestável já se tinha metido a caminho para Évora.
Iriam os rapazes ter com ele e marchariam logo no dia seguinte.
Naquela tarde se lhes juntaram alguns dos da ala, que já estavam quase curados dos ferimentos recebidos em Aljubarrota.
Conversou-se a respeito da guerra, como era natural, e veio a ponto falar da fuga do rei.
— Se quereis saber o estado de lástima em que chegou — disse um dos Namorados que de Aljubarrota viera para Santarém — posso eu contar-vos o que há dias ouvi a um Castelhano, que os nossos aprisionaram aqui e era escudeiro de el-rei de Castela.
— Pois contai lá.
— O tal escudeiro veio sempre na companhia de el-rei e do jovem da câmara real. Tudo presenciou e só daqui não pôde acompanhar seu amo e senhor para a barra de Lisboa porque na calçada de Artamarma lhe caiu o cavalo e, indo ao chão com ele, se feriu muito na cabeça e se lhe torceu um pé, de tal maneira, que não pôde ir para a Ribeira. O rei, pelos modos, estava com grande pressa de se ver a bordo da sua armada. Apertado para contar como as coisas se tinham passado e receoso de que o matassem, se teimasse em nada dizer, o escudeiro tudo contou do que tinha presenciado e ouvira. Eu vos vou resumir, e heis de ficar pasmados dos desalentos daquele rei vencido, poucos dias antes tão arrogante como se trouxesse atrás de si o maior poder do Mundo! Por todo o caminho viera el-rei aos soluços e a arrepelar as barbas e os cabelos! Mal entrou em casa do alcaide castelhano que tinha aqui ficado, se largou a chorar, clamando que era o pior rei e o mais desventurado homem que tinham as Espanhas. E andava como louco, aos ais e ora encostava os punhos às paredes chorando, ora cobria o rosto com as mãos, dizendo que de si mesmo sentia vergonha. Observou-lhe o alcaide, para lhe dar alento, que não fora tão grande o desastre, que lhe não houvesse ficado ainda poder de sobra para voltar em busca do desforço. E para o mover lhe lembrou o exemplo do pai, vencido pelos Ingleses. Pior foi lembrar-lhe isto o alcaide, porque em grandes clamores lhe retorquiu que não o comparasse ao pai, vencido pelo Príncipe de Gales e pela flor da cavalaria inglesa, a mais insigne da cristandade. O pai fora derrotado por esse admirável capitão, a quem chamaram o Príncipe Negro, e por esses homens de armas que já tinham desbaratado as hostes de França, aprisionando-lhes o próprio rei. E ele? Afinal desbaratado pelo rei de Avis, que nada valia no Mundo, e por um punhado de chamorros de reles condição. Ainda que a todos os tivesse amarrados diante de si e a um por um os pudesse degolar, ainda assim se não julgaria desafrontado.
— Teve-nos tanto à mão de semear — comentou o Magriço, rindo — e em vez de nos procurar, fugiu-nos!
Chora e arrepela-se então que nem velha carpideira montezinha! Pois lá iremos nós oferecer-nos à degola.
— E ainda não sabeis tudo! Jurou que havia de andar vestido de dó e em cortes mandaria que fosse geral o luto de todos em Castela.
— Está bem, e queira Deus — disse o Lobeira — que ainda nos seja dado ir lá carregar-lhe o luto.
— Olhai cá — perguntou Ruy ao informador — o que foi feito daquela tanta gente que se aprisionou em Aljubarrota?
— Cerca de cinco mil. Estão aí quase todos, e tanto embaraço causam, que já El-rei deixou ordem para mandarem pôr os mais humildes a caminho das suas terras. São tantos, que os levam lá abaixo ao rio a beber, presos uns aos outros como récuas de mulas! Mas entre os graúdos está aí o chanceler-mor de Castela...
— D. Pedro Lopes de Ayala — disse Ruy de Vasconcelos — Poeta e campeador. Defendeu com insigne esforço a bandeira real.
— Esse é. Chanceler-mor e alcaide honorário de Toledo.
— Ouvi, que já na batalha de Najera em que o rei D. Henrique II de Castela, pai desse que nós desbaratámos em Aljubarrota, foi vencido pelos Ingleses, esse Ayala defendera também destemidamente a bandeira real, mas ficara também prisioneiro. Parece que o levaram para Londres, onde esteve preso por largo tempo.
— Então é sina dele! — disse Vasco Eanes.
— Mas agora, segundo o que me disseram, parece que El-rei lhe concede licença para se resgatar. E olhai que dá riso ouvir as palavras que esse Ayala de tamanhos merecimentos imaginou para desculpar a derrota da sua gente!
— Faço ideia! — disse o Vasconcelos, a sorrir.
— Que vinham fatigados.
— Depois do largo descanso de Leiria, uma pequena marcha de duas léguas! — comentou o Vasconcelos.
— Em jejum.
— Também nós.
— Que havia grandes valas no campo e dois ribeiros com a fundura de dez a doze braças.
— Essas duas mentiras são de marca maior! Essas só para contar aos Castelhanos que nunca vieram a Portugal! Com doze braças o ribeiro da Calvária! Nem que nós tivéssemos levado para Aljubarrota o Tejo atrás de nós. Mas para nos atacar a peonagem, a cavalaria dos ginetes não teve medo das tais valas nem se incomodou muito com os caudalosos ribeiros!
— Que a hoste castelhana estava mortificada pela sede.
— Com dois ribeiros assim, já era vontade de sofrer securas!
— Que o campo não tinha enxurra onde as alas se desenvolvessem.
— Pois foram eles que o escolheram. Só se esperavam que nós os fôssemos levando pela mão até onde eles muito bem a salvo nos pudessem derrotar!
— Eu ri-me e perdoei-lhe estas patranhas em favor ao seu rei e aos seus companheiros de má fortuna.
— É verdade: e para onde mandou El-rei os despojos da batalha?
— A Bíblia da capela real, algumas pratas e os caldeirões foram para os frades de Alcobaça; o cetro e um relicário ouvi que os deu ao Condestável; os retábulos mandou que se guardassem para um grande mosteiro que ele fez promessa de erigir naqueles sítios, em louvor da nossa Senhora da Vitória. Para Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães levou então o precioso oratório de prata do rei de Castela.
— E os famosos trons, los truenos roncadores?
— Lá se deixaram em proveito dos ferreiros daqueles lugares.
— Pois não tivesse eu ido para Lisboa — disse Ruy de Vasconcelos — e haveria pedido a El-rei que os mandasse levar para os ter no pátio grande do paço do Limoeiro como troféus.
— Levariam quinze dias a chegar a Lisboa, aqueles estafermos.
— Embora. Eram, depois das bandeiras, os mais preciosos troféus. E com igual interesse se deviam de guardar os magníficos arneses dos grandes senhores de Espanha, da Gasconha e do Bearne.
— Pois ninguém em tal pensou! A peonagem apanhou alguns e de galhofa os trazia por cima dos seus trapos! A um sapateiro beberrão de Lisboa vi eu com um bacinete resplandecente, que seria talvez o do Sire do Bearne.
— Fossem eles os vencedores e havíamos de ver com que sofreguidão teriam guardado os nossos despojos! — comentou o Vasconcelos com revoltado pesar.
* * *
Na madrugada do dia seguinte, os Namorados partiram para Évora. Iam agora cinquenta e dois com os que se lhes tinham juntado em Santarém.
Dos que tinham ficado feridos em Aljubarrota, mais de vinte tinham falecido e ainda uns trinta e tantos estavam em tratamento na enfermaria dos frades de Alcobaça. Entre eles Mem Rodrigues. Alguns ficariam inutilizados e inválidos.
Em Évora já não encontraram o Condestável. Tinha saído com a sua hoste para Estremoz.
Um escudeiro de Nuno Álvares ficara com uma carta para Ruy de Vasconcelos. Dizia-lhe que ia para Estremoz e seguiria para Elvas com mil lanças e dois mil de peonagem. Que até à fronteira, cerca de Badajoz, esperava juntar mais alguma gente de peonagem e ali os águardaria, para entrarem por Castela.
Recomendava-lhes que não divulgassem esse intento de invadir o território castelhano, não por causa do inimigo, a quem lealmente havia de prevenir do cometimento; mas porque El-rei lhe dera apenas o encargo de tomar os castelos e povoações que ainda estavam pelo rei de Castela, para cá da fronteira, e não queria que se fizesse alardo daquele seu propósito, pois podia o monarca tomá-lo como premeditada desobediência.
— É certo então que vamos entrar em Castela! — disse Ruy de si para si, cheio de júbilo — Eu o moverei então a deixar-me ir, sob qualquer pretexto, para os lados da fronteira em que mais me aproxime de Tordesilhas.
Foi resumir a carta ao tio Mendo, sob promessa de confidência.
— Está bem. Então em Estremoz nos afastaremos de ti, eu e Marival, e lá iremos a Tordesilhas saber da tua noiva e combinar o modo de a tirar de lá.
— Se não a tiverem já levado para a corte, que não sei se estará agora em Toledo, se em Sevilha!
— Já por muitas vezes tem estado em Valhadolid e para aí então pouco mais haveria que andar.
— Ah! Tio, era muito mais difícil, senão impossível tirá-la de lá! — objetou-lhe tristemente — Eu iria, fosse como fosse. Cumpriria o meu voto morrendo por ela; mas não teria o direito de pedir aos meus companheiros que se fossem expor a uma morte certa contra os centos de homens de armas que el-rei há de ter consigo. E pedir-lho afinal por causa destes meus amores de má fortuna!
— Pois para sabermos o que será possível fazer é que eu e o Provençal nos vamos meter nesta aventura. Agora é preciso combinar para aonde te havemos de mandar ou trazer notícia do que virmos e soubermos.
— E daqui a quantos dias supondes vós que será possível mandar alguém a Elvas com as vossas notícias?
— Ou um dos dois com elas, que será o mais seguro. Entre ida e volta, não menos de vinte e quatro dias a esfalfar cavalos.
— Que longo tempo!
— E Nuno Álvares estará no propósito de entrar muito por Castela dentro?
— Tal não creio eu. Tem três mil homens certos; vá que se lhe juntem mais uns dois mil de peonagem, e levará então quatro ou cinco mil, mas desses só pouco mais de dois mil experimentados.
— Não é gente com que se vá de algarada até ao coração de Castela, ainda que as forças maiores dos nossos inimigos se tenham reunido para os lados de Leão e Galiza, por saberem que El-rei de Portugal foi com a sua hoste para o Minho e constar que o duque de Lencastre virá com uma armada inglesa e uma poderosa hoste sobre a Galiza.
— Para validar a sua pretendida herança à coroa de Castela, não é assim?
— Em seu proveito, claramente.
— Mas onde te parece então que devemos trazer-te as notícias que houver?
— A Elvas me parece que será o melhor. Deixarei ali o meu escudeiro de mais confiança, para me levar qualquer aviso onde quer que eu esteja.
— Se ele souber onde estão.
— Há de saber, pois que, de dias a dias, lhe mandarei notícias minhas por qualquer outro escudeiro.
— Está bem. Fica assim combinado, e que Deus nos dê boa fortuna.
* * *
Em Estremoz, Mendo Rodrigues e o troveiro de Provença separaram-se do esquadrão dos Namorados.
Ruy e os seus seguiram direitos a Eivas.
Encontraram a hoste do Condestável acampada nas margens do Caia.
Estava-se em 1 de Outubro. No dia seguinte, Nuno Álvares atravessou o Guadiana e foi acampar nas cercanias de Badajoz, fechada a sete chaves e com a população acabrunhada de pavor.
Parara ali perto o vencedor dos Atoleiros, o prodigioso Condestável de Aljubarrota. Sabiam-no lá dentro.
— Ora graças que já temos Badalhouce à vista! — disse o Magriço no seu tom faceto.
— E lá bem sabem que homem é o Condestável — observou Vasco Eanes.
— E que é ele quem aqui vem.
— Demónio! — disse o Lobeira — Era bom mandar dizer às meninas de Badalhouce que também estão aqui os Namorados. Talvez elas gostassem de o saber, embora os pais, os manos e os seus requestadores nos crivassem de insultos, de chamorros para riba, e nos fizessem carrancas feias.
— Ora — observou um que era natural de Elvas — que importavam as carrancas deles, se as carinhas delas, quase todas lindas, dão fome de beijos, e por muito que a gente as beije, ainda se fica a chorar por mais.
Acharam graça ao dito; exprimia perfeitamente o ideal de quase todos eles.
— E não vos vades sem resposta — acudiu logo o Lobeira — que a fome de beijos que eu tenho agora é muito maior que a outra que eu senti no dia de Aljubarrota. E por essa informação que me dais, palavra que estou daqui a olhar para os muros de Badalhouce como no dia 14 de Agosto, ainda em jejum, me pus a olhar para os bois de Don Juan, por la gracia de Diós, Rey de Castilla, de Leon, de Portugal, de Toledo, de Gallizia, de Sevtlla, de Cordoba, de Murcia, de Jaen, del Algarbe, de Algeziras, senor de Lara, de Viscaya y de Molina. Apre, que já não tenho fôlego para mais!
Os rapazes acharam graça a este remate e àquele castelhano, dito pelo Lobeira com uma certa fanfarronada deliciosamente cómica. Sabiam bem que eram aqueles os títulos oficiais de que usava o malogrado herdeiro da coroa de Portugal.
— Mas olhai cá, e agora sem gracejo, se nós pedíssemos ao Condestável que tomasse Badalhouce de escalada? — lembrou um dos imberbes.
— Deixai-vos disso! — advertiu outro mais ponderado — Nuno Álvares mandaria prender por louco esse que lhe fosse com tal pedido. Para uma escalada faltam as escadas e para lhe pôr cerco não trazemos nem gente que chegue, nem engenhos para lhe bater os muros.
— Olhai — indicou o Lobeira — ali vai o escudeiro que o Condestável mandou de Estremoz a Badalhouce com aviso de que ia entrar em Castela.
— Tal como se fosse repto para uma justa de cavalaria fidalga!
— Foi para eles não imaginarem que era seu intento entrar-lhes em casa encolhidamente.
* * *
No dia seguinte, uns homens da peonagem, que andavam ao faro de despojos e tinham ido dar a mais de três léguas do acampamento, deitaram a mão a dois frades que vinham de jornada, e trouxeram-nos presos para o arraial.
Tomou conta deles um anadel dos besteiros e sujeitou a um interrogatório os valdevinos que tinham apanhado os frades. Causou-lhe estranheza um dos apresadores, por trazer um bacinete magnífico emplumado, como nem o Condestável nem o Rei tinham outro assim! Contrastava a opulência do bacinete com a trapagem do vestuário.
— Ouvi lá — disse o anadel, reparando muito no nariz rubro e no olhar mortiço do homem — quem demo sois, que vos desconheço?!
— Sou o sapateiro Bernardo, a quem as desavergonhadas das regateiras de Lisboa, algumas delas mais bêbadas do que eu, puseram a alcunha de Pingueiro.
— Mas não éreis da hoste do senhor Condestável no dia de Aljubarrota?
— Estive-lhe nas costaneiras, atrás da Ala dos Namorados. Eu era da Ala dos esfarrapados. Brigámos como dizem que brigam os leões e, se não estamos em jejum natural, não escapava um castelão para levar a conta dos outros ao rei que se escapou.
A conter o riso, num artifício inábil de severidade, o anadel perguntou:
— Mas porque artes do demo vindes aqui, sendo da peonagem de Lisboa, pertencente à hoste real?!
— Eu vos digo, senhor anadel. Foi visão que me ficou. O demónio foi provar! Logo da primeira batalha, a primeira em que tinha entrado em dias da minha vida, me saí bem! Tomei-lhe o gosto e resolvi comigo experimentar outra.
— E daí? Como foi que passastes para esta hoste?
— Foi em Santarém que me passei para gente miúda do senhor Condestável. Lá pró Minho é que eu não queria ir. Não gosto do vinho de lá; é muito azedo. O do Alentejo já eu conhecia bem; é de rachar calhaus! E ao de Castela o provei na noite da batalha e, pela minha fé, senhor anadel, que era pinga real! Ora aqui tendes porque me passei. Mas primeiro, e em jejum fui pedir licença ao senhor Condestabre para vir com ele, e logo me concedeu que viesse.
Os outros riam; o anadel mordia os beiços para não rir também.
— Está bem; ide lá para o vosso arraial.
E fazendo adejar a plumeira do bacinete, que a padeira Brites de Almeida lhe ia depenando, o Bernardo Pingueiro foi-se dali com os companheiros da súcia.
— Palavrinha que disse a verdade — afirmava aos outros — Saí-me bem e estou com vontade de experimentar outra batalha e beber mais vinho castelão, bebido na mãe, que é como quem diz nas cubas de Castela. Anda a gente com a pele em risco, mas isto é um regabofe. Em Aljubarrota tomei este bacinete que vedes e parece de um rei; tomei um arnês, que é uma peça de tal luzimento, que se pode a gente ver a ele como se fosse um cristalino de Veneza; tomei dois odres e bebi-os, que foi um regalo, louvorzinhos a Deus, e agora convosco prendi dois frades.
— Mas lá o tal arnês é que vós não trazeis! — disse-lhe um.
— Só se pode aguentar em dias de geada e com um espeque nas traseiras.
— Mas olhai, mestre Bernardo: porque dissestes vós ao anadel que em Santarém tínheis ido fazer um pedido ao Condestabre ainda em jejum?! Em jejum, para quê?
— Para ir fresco do miolo. E ficai sabendo que, antes de ir ter com ele, levei meia hora a mastigar folhas de loureiro!
— Essa agora!
— Pois pudera não! Se lhe aparecesse lá a cheirar ao sarro da vasilha, era capaz de me mandar embora, corrido a pontapés por qualquer dos seus cavalariços. Assim cheirei-lhe a louro, e de louro é que se fez a coroa dos grandes capitães, segundo rezam as histórias. Cheirei-lhe à coroa que ele merece e logo me atendeu.
Foi uma risota doida, e iá seguiram para o arraial da peonagem.
* * *
Espalhou-se logo pelo acampamento a notícia acerca dos dois frades aprisionados.
Estavam os fidalgos da hoste em frente da tenda do Condestável, em volta dele, ouvindo-o, quando o anadel veio apresentar os reverendos e contou onde e como tinham sido presos.
— Donde vínheis? — perguntou Nuno Álvares ao mais idoso dos dois, falando-lhe em castelhano.
— Do reino de Leão — respondeu na sua língua.
— De qual convento?
— Daquele que a nossa ordem tem em Tordesilhas.
Ruy era dos que estavam presentes e teve um alvoroço de surpresa. Aquele nome tinha agora para ele uma grande e preocupadora significação.
— E a que vínheis para estes sítios?
— Em missão do geral da ordem para os nossos irmãos de Mérida.
— Sabeis onde está ao presente el-rei de Castela?
— Ouvimos que para Valhadolid convocara as cortes da Nação. Mais nada sabemos a respeito de el-rei.
Era inverosímil, mas o Condestável tinha requintadas benevolências para todos os religiosos e com aquela resposta se satisfez.
— Pois ide com Deus a cumprir livremente o encargo que vos deram.
E logo, voltando-se para o anadel:
— Acompanhai-os até longe do arraial, para que lhes não falte ao respeito algum desabusado da peonagem.
Com caras de páscoas, os dois frades fizeram umas grandes mesuras ao Condestável e retiraram-se atrás do anadel.
Já se julgavam escapos dos mais horrorosos quartos de hora de susto que ainda tinham tido na sua vida.
Ruy de Vasconcelos afastou-se logo da roda, disfarçadamente, e foi sair-lhes ao caminho, já fora do arraial.
Os reverendos acabrunharam-se com receio de alguma reconsideração do Condestável; mas o jovem Vasconcelos facilmente os tranquilizou, dizendo-lhes em castelhano algumas palavras de boa paz.
— Desejava fazer-vos um pedido.
— Dizei — volveu-lhe o mais idoso, afogueando-se e pondo nele um olhar de estranheza.
— Certo sabeis de um convento de monjas de Tordesilhas, onde ouvi que estava reclusa essa que foi rainha e se chama Leonor Teles.
— Muito bem a conhecemos e até eu mesmo algumas vezes tenho ido ao mosteiro substituir o capelão no encargo das confissões.
— Podeis então dizer-me, e é este o pedido que vos desejo fazer, se nesse mosteiro então outras damas de Portugal, sem ser essa que foi rainha?
— Há coisa de três semanas, duas vi lá que da vossa terra eram e lá se tinham recolhido por ordem da Rainha.
— Mãe e filha, não é assim? — perguntou calorosamente.
— Isso mesmo são — respondeu-lhe o frade um pouco surpreendido — A filha muito jovem, e muito linda, senhor cavaleiro. É talvez algum parente delas — pensou — ou antes algum requestador infeliz da filha de D. Maria.
— Não sabeis então se há três semanas para cá teriam saído do mosteiro?
— Não sei.
Mas logo acrescentou com a sua ronha fradesca:
— A senhora rainha D. Beatriz foi há pouco de visita ao mosteiro e ouvi que de lá saíra levando consigo duas damas de Portugal, que tem em muito apreço. Não sei se seriam essas por quem vos interessais.
O rosto do jovem cavaleiro empalideceu e tomou uma expressão de amargo desalento.
Fitando-o em cheio e percebendo-lhe a perturbação, o frade disse de si para si:
— Então é o requestador de quem ouvi falar. Mas porque lhe desagradaria que a Rainha a levasse consigo?
— Deus vos pague o favor das vossas palavras — agradeceu o Vasconcelos.
— E comigo vai o pesar de vos não poder dar informação melhor. Mas sempre vos direi que, segundo ouvi, a formosa menina fora em Toledo o pasmo e o encanto de todos. Afirmaram-me que tinha noivo prometido.
— E não vos disseram quem?
— Disseram-me que era um certo fidalgo português que estava em Castela e a quem tinham posto a alcunha de cavaleiro mudo, porque, em consequência de certos ferimentos, havia perdido a fala.
— Frade, já não pode ser esse!
— Por ter morrido, senhor cavaleiro, pelo ter chamado Deus à sua divina presença?!
— Porque o mataram em Aljubarrota. Matei-o eu. Matei-o em combate leal e legítimo desforço pela minha terra e pela minha dama. Assim, a poder de sangue, se encerrou a conta das ofensas e das traições que ele vilmente fizera à minha noiva e à sua Pátria. Matá-lo-ia, ainda que o houvesse de ir buscar aos degraus de um altar ou ao estrado de um trono.
O frade teve uma arrepio de terror e, dobrando-se muito, de braços cruzados sobre o peito, disse humildemente:
— Altos juízos de Deus! Mandais alguma coisa mais destes vossos servos?
— Ide em paz — respondeu o Vasconcelos.
Os dois frades afastaram-se logo com admirável ligeireza como se levassem asas nas sandálias. Só por vergonha é que não deitaram a correr como raposas espavoridas, e só Deus sabe com que regalo de alma eles viram palmilhada a primeira fadigosa légua que os separava dos chamorros.
De olhos no chão, caminhando lento, Ruy ia dizendo de si para si, amarguradamente:
— Se a Rainha a levou consigo, então será este meu sonho de agora o último que se desfaz. O último! E acabará com ele esta pobre alma, tão rudemente mortificada. O tributo que devia à minha Pátria e ao meu nome, está pago. Já não haverá glórias nem vaidades de cavaleiro que cheguem para me encher o coração. Nenhumas!