A Ala dos Namorados
Capítulo XVIII · Rei Eleito
Estamos a 2 de Outubro. Era de manhã cedo e já o Mestre e Nuno Álvares ficavam em nova conferência acerca dos negócios do reino e das precauções para uma outra guerra, que se podia considerar inevitável.
O glorioso jovem do Alentejo conseguira que o Mestre perfilhasse, como de exclusiva iniciativa sua, alguns alvitres que lhe havia proposto. Entre outros, o de receber juramento de preito e menagem aos fidalgos de qualquer categoria, cavaleiros e escudeiros, que ainda o não tivessem prestado, como tinham feito os de Entre Douro e Minho. Assim os seguraria melhor e com maior e mais devotada lealdade adstritos à sua autoridade, quase soberana, de Regedor e Defensor do reino, ou regente como hoje se diria.
E tão de alma tomou D. João este conselho, que logo naquela mesma manhã, mal o sol despontava, ouviu o parecer do doutor João das Regras e, com o seu voto de aplauso, mandou aviso aos fidalgos e cavaleiros para o acompanharem do paço ao alpendre de S. Domingos onde era preciso se tratassem assuntos urgentes do Reino.
Marcou-lhes o meio-dia para a reunião no paço.
E ao Juiz do Povo o mandou chamar para vir sem delongas falar-lhe ao Limoeiro.
Mas o emissário do Mestre encontrou o tanoeiro logo ao adro da Sé. Vinha já no propósito de falar a D. João.
— Ora bem-vindo seja o honrado Juiz do Povo de Lisboa.
— Senhor, agradecido, e muita glória queira Deus conceder ao ilustre Regedor e Defensor destes Reinos.
— Assim cedo vos mandei chamar para um caso de subida importância.
— Mestre, dizei e mandai.
— Quero agradecer ao povo de Lisboa o muito ânimo e constância com que defendeu a cidade, os donativos e empréstimos que por amor da Nação têm feito os de mais teres, para acudirmos às despesas da guerra e, enfim, o muito que todos se têm esforçado por salvar Portugal. Sou pela Nação, como seu procurador bastante e principal devedor, e quero fazer o ajuste das contas diante do povo de Lisboa, e tratar da paga que se lhe pode e deve dar e do mais que a Pátria ainda tem de lhe pedir.
O tanoeiro sorriu com um clarão de júbilo no olhar, como se aquele propósito do Mestre viesse ao encontro de algum plano seu.
— Mandai-me avisar já os da Casa dos Vinte e Quatro para que convidem todos os homens dos ofícios e mesteres a irem juntar-se consigo e com os fidalgos e cavaleiros da cidade, meia hora depois do meio-dia, no alpendre de S. Domingos, onde muito me apraz vê-los e falar-lhes.
E, a sorrir para ele, acrescentou:
— Ali se fizeram as nossas cortes de gente humilde em que tão graves coisas se decidiram, e vós, mestre Afonso Eanes, o sabeis melhor do que ninguém, pois lá fostes a alma e a vontade que me fez Regedor destes Reinos.
— E por fortuna de Portugal me deu Deus ânimo para aquela ousadia de vos tomar as rédeas do cavalo para que vos não fosseis de Lisboa — volveu-lhe também sorrindo.
— Iria para buscar auxílio em Inglaterra.
— Que tanto podia tardar, que chegasse fora de tempo à cidade, já vencida e talvez já queimada pela gente de Castela!
— Da minha sorte decidistes vós, Afonso Eanes, e muito vos devo e deve Portugal, pois que bem se podia dizer que a vida da Nação estava em Lisboa. Sem as vossas palavras de homem leal, e a vossa rija vontade de homem de espada, que também sois, nem o povo se decidiria a tomar deliberação pela sua própria causa, nem eu podia ficar sem ter confiança no povo. Lembro-me bem de quanto se passou — disse, pondo-lhe a mão no ombro — A poder de boas e calorosas palavras, movestes os mais indecisos e de mão na espada fizestes calar os que de mim duvidavam.
— Mestre e senhor, o coração estava a dizer-me que éreis vós o chefe de que o povo precisava, para que as espadas dos Castelhanos o não levassem diante de si como rebanho de carneiros sem zagal. O meu coração fez o seu dever e já está visto que não errou.
— Veremos, veremos! Ainda agora a jornada vai nas suas primeiras horas e ninguém pode adivinhar o que hão de ser as outras! Mas ide-me depressa fazer o aviso e mandai deitar bando para que da cidade vá lá quem quiser.
— Mestre, o aviso está feito.
— O aviso feito?! Como assim, se eu vos não posso crer adivinhador do meu propósito, ainda há uns instantes tomado?!
— Mestre, eu já tinha falado ontem à noite aos da Casa dos Vinte e Quatro para nos juntarmos em S. Domingos com o povo e dali nos fomos para este paço.
— Para quê, mestre Eanes?
— Para que o povo da cidade aqui viessem agradecer-vos a vossa honrada tutoria como de pai e o vosso bendito esforço, a fazer lembrar de má sombra a cobardia de certos reis. O povo ainda se não esqueceu de outro, que de Lisboa fugiu para Santarém, levando oculta debaixo do seu manto real a espada que fazia falta na cidade, de todo abandonada aos seus inimigos de Castela (*).
[(*) Era referência a el-rei D. Fernando, que na desastrosa invasão de 1373 fugira de Lisboa para Santarém, deixando a cidade ao desamparo e sem socorro contra as arrogâncias e a selvajaria destruidora dos invasores.]
O Mestre afogueou-se. O tanoeiro percebeu, e acudiu logo pelo resgate da irreverente evocação:
— Perdoai, senhor, porque vosso irmão era o rei que abandonou esta cidade, por vós com tamanha dedicação e grandeza de ânimo há pouco ainda defendida com glória vossa e honra de nós todos.
— Sim, sim... Águas passadas, mestre Afonso Eanes. Ide-me vós lá para S. Domingos a receber o povo como seu juiz e dizei-lhe agora que sou eu quem o vai visitar e lhe quer dizer quanto lhe deve o Regedor do Reino e o mais que ainda será preciso fazer para ver se, com a ajuda de Deus, podemos salvar Portugal. Ide, que lá naquele alpendre onde as mores causas se têm decidido, sois vós o maior.
E, voltado para Nuno Álvares, acrescentou, sorrindo:
— Já o povo lhe tem chamado o seu condestabre (*).
[(*) É a forma arcaica de condestável, categoria militar criada e definida em Portugal no reinado de D. Fernando.]
Um dia, que não tardará, haveremos outro novo Condestável para o Reino, jovem glorioso que todos conhecem. Ia jurar que o nosso Juiz do Povo certo adivinhou já quem há de ser.
— Mestre e senhor, nem é preciso adivinhar. Está no vosso e no coração de todos. Para o mando, abaixo de vós — disse calorosamente — a Nação não vê outro que não seja o senhor D. Nuno Álvares Pereira, Conde de Ourém.
O tanoeiro dissera isto solenemente, tratando o jovem campeador por um título que o povo ainda se não costumara a dar-lhe. Era título recente. O Mestre agraciara-o com ele em 1 de Julho, daquele ano, em prémio dos seus assinalados feitos nas longas e porfiadas campanhas do Alentejo e com o título lhe dera os bens que tinham sido do amante e valido de D. Leonor Teles, o famoso Galego João Fernandes Andeiro, assassinado no desvão de uma janela daquele mesmo paço do Limoeiro.
Por ser recente e talvez por ser o título que o Andeiro tivera por favor de el-rei D. Fernando e a pedidos prováveis da rainha adúltera, e mais talvez pelo odioso precedente, repugnaria à plebe substituir pela designação do condado aquele nome radioso de Nuno Álvares, que de lés a lés de Portugal, em toda a Espanha e na própria Inglaterra soava já como se cada uma das suas letras fosse a nota épica de um clarim de batalha.
D. Nuno afogueou-se. Aquele louvor, claro e chão, na boca do mesteiral afeito a dizer as mais duras verdades aos grandes e privilegiados, valia mais, tinha mais envaidecedora significação e era menos suspeito do que se, por iguais palavras, lho dissesse o Mestre, seu amigo de infância e o seu irmão de armas.
Agradeceu-lho comovidamente, pondo nele com afetuoso desafogo os seus olhos azuis de sonhador.
Eanes despediu-se e disse ao Mestre com particular intenção:
— O povo de Lisboa aguardará vossa real senhoria.
O Mestre estremeceu. Dava-lhe o tratamento a que só tinham direito os reis.
— Lá estarei com o povo à hora que vos disse.
* * *
— E mal sonha ele a grande e justiceira hora que vai ter em S. Domingos! — ia o tanoeiro dizendo de si para si a caminho do Rossio grande, o olhar num imenso fulgor de júbilo — Que pesar por aquele desventurado Ruy não poder assistir! O seu coração entenderia o meu.
Assim que chegou ao Rossio, tomou logo apressadamente para o edifício próprio que tinham os seus colegas da Casa dos Vinte e Quatro.
A casa daqueles deputados, artífices eleitos pelos seus pares, era de modestíssimo aspeto e ficava do lado oriental do Rossio, a uma dúzia de passos, a bem dizer, do convento de S. Domingos.
A mediania da casa contrastava profundamente com a alta preponderância social da corporação (*).
[(*) Naquela época, excecionalmente democrática, foi tal a preponderância dessa coletividade de mesteirais, que ficou de tradição e ainda, há vinte ou trinta anos, era corrente entre a nossa gente das províncias mais aferradamente tradicionalista, esta expressão indicadora do prestígio e influência pessoal de alguém de baixa condição: Aquele é da Casa dos Vinte e Quatro!]
Afonso Eanes entrou e subiu para a casa maior, a sala do conselho. Estavam reunidos os mecânicos; esperavam-no evidentemente.
— E daí, mestre Afonso Eanes? — perguntou o mais idoso, calafate da Ribeira — Vamos lá ao Mestre?
— Não; vem ele cá.
— Ele! A esta casa?
— Ao alpendre de S. Domingos com os seus prelados e nobres e cavaleiros para se entender com o povo lá numas coisas do seu coração e do seu ofício de Regedor do Reino.
E resumiu-lhes em brevíssimas palavras as intenções de D. João.
— E então nós?
— Lá iremos para outra vez. Há de querer Deus que não faltem ocasiões.
— E vai daí põe-se agora de lado aquele vosso propósito?
— Quem fala em tal! Para diante com ele é que é. E agora ainda melhor, porque haverá mais povo e ali, a céu aberto e fora do paço, parece que tem a gente a língua mais desemperrada e o coração mais à boca. Mas olhai cá, mestre Leonardo e vós todos, bons e honrados mesteirais da Casa dos Vinte e Quatro, no tocante ao nosso segredo bico fechado e nem pio, que é para depois termos mais alma na voz e mais aprazimento com a surpresa dos fidalgos e com o alvoroço do povo. Há de a gente fazer de conta que são ali as cortes, naquela alpendrada de S. Domingos. Já que há tanto se não convocam por mandado de reis, nós as convocamos, nós os dos ofícios, pela nossa conta e risco, e desta vez, bem o creio, com mais proveito e para maior justiça que algumas das antigas de que há memória.
— Pois assim será — apoiou o mestre Leonardo.
— Homens, olhai que o povo tem subido! Já não vai atrás de prelados e ricos-homens como rebanhos de borregos, nem é já pertença de gente privilegiada, dentro do seu pedaço de chão cativo, como foi no tempo dos nossos primeiros reis. Em tudo alguém. Outro poder com o qual há duzentos anos certo se não contava. Ganhou-se à custa de resignação, de sacrifícios, de amarguras, de contendas, de sangue; mas foram os nossos maiores que ajudaram também a formar a Nação e obtiveram dos reis os forais dos concelhos e, pela sua valia, a entrada dos seus procuradores em cortes.
Estavam os mesteirais a ouvi-lo numa tremura de comoção. Sentiam na alma as palavras calorosas de sugestivo orgulho e de justiceira verdade, daquele mesteiral glorioso de Lisboa.
— Já a gente sabe de quem vem — continuou Afonso Eanes — Também somos filhos de algo. O meu terceiro avô, tanoeiro como eu, foi da peonagem de Portugal que pelejou contra a mourama das Espanhas e de Marrocos em certa grande batalha, que se chamou das Navas de Tolosa (*).
[(*) A batalha das Navas de Tolosa (1212), das maiores e mais sanguinolentas da Idade Média, pode considerar-se por si uma cruzada da Península, como, no século seguinte, a outra do Salado. Todas as principais forças dos mouros da Espanha se tinham reunido a um potentíssimo exército expedicionário, vindo de Marrocos. Contra este poder formidável se congregaram as hostes de Castela e de outros Estados cristãos da Península, com exclusão do reino leonês, que preferiu continuar as suas hostilidades na fronteira de Portugal! Até de França chegaram auxiliares para opor àquela invasão temerosa. Apesar da guerra que tinha da gente leonesa, Portugal mandou também uma pequena hoste para aquela cruzada, e essa quase toda de infantaria, peonagem. O poder mouro foi desbaratado, e a infantaria de cá, a plebe da hoste, tais prodígios fez, que em muito contribuiu para aquele desbarato, que salvou a Península e talvez uma parte da França.]
— Em socorro de Castela, ouvi eu contar a um frade antigo — acudiu mestre Leonardo.
— De toda a cristandade das Espanhas e de França é que foi, consoante certa velha crónica existente no convento de S. Francisco. Leu-ma um tio meu, que é frade daquela casa. E sabei que, se os fidalgos com razão se ufanam da batalha do Salado, em que os cavaleiros de Portugal se assinalaram, nós, os do povo, muito nos podemos orgulhar da outra de Navas, em que a peonagem portuguesa fez coisas de assombro! Assim o diz a tal crónica velha que eu ouvi ler.
— Bem falado, mestre Eanes! — aplaudiu o velho calafate entusiasticamente.
— Boas e honradas palavras! — disseram os outros, envaidecidos nas suas prosápias de plebeus e mesteirais preponderantes.
— Contam os velhos — prosseguiu o tanoeiro — contam de o ouvir dizer, que a certas cortes que se reuniram em Leiria, nos tempos do senhor rei D. Afonso, terceiro do nome, pela primeira vez foram chamados os procuradores dos concelhos, que é como se disséssemos os procuradores do povo, e lá se juntaram com os prelados e fidalgos. Pois daqui a duas horas se hão de reunir outras cortes, que não têm antecedentes e sem nenhum cerimonial as heis de ver. Nem bancos marcados (*), nem procuradores a falarem pelo povo, porém o próprio povo pela sua conta e todos de pé, alto e baixo, filhos de reis e filhos de britadores de pedra, e cada um para dizer o que no seu coração sentir. Assim, certo nunca houve nenhumas cortes nesta nossa cerra!
[(*) Nas antigas cortes os procuradores dos concelhos, deputados do povo, tinham bancos numerados segundo a importância, antiguidade e regalias do concelho que representavam.]
— Honrada coisa há de ser, por vida minha! — comentou o mestre Leonardo — Mas olhai que se corre o perigo de algum desmando do mulherio e da arraia-miúda.
— Tal não receeis. Ali não haverá que diferençar mulheres e arraia-miúda; haverá povo, o povo de Lisboa, e esse não se desmandou nunca diante do Mestre. E que algum houvesse para tal, que eu saberia ter mão nele. Já sabem que, para conter onzeneiros e assomadiços, nem preciso da minha vara de juiz. Já não estranham o punho de uma espada estas mãos calejadas no cabo da enxó. Mas nem vale agora perder tempo com tais receios; pelo povo de Lisboa fico eu e ficais vós.
— Sim, sim! De tal modo há de ser! — apoiaram todos.
— Está bem. Tínheis falado ao povo para se nos juntar em S. Domingos, por volta do meio-dia, não é assim?
— A quantos eram do nosso conhecimento e encontrámos lhes fizemos o pedido — respondeu o mestre Leonardo — E todos ficaram de vir.
— Antes do meio-dia, como se combinou?
— Antes, e alguns prometeram trazer outros consigo. A esta hora iria jurar que já não haverá na cidade pessoa que desse juntamento não saiba. Um frade de S. Domingos me disse a mim que havia de mandar tanger os sinos para chamar ainda mais povo.
— Hão de tanger todos os sinos, que disso vou eu tratar, antes que chegue a hora de lá estarmos. Muitos curiosos certamente vos tinham de ter perguntado o fim do juntamento?
— Todos a quem nisso falávamos, e a todos respondíamos que era para irmos ao paço do Limoeiro dar os agradecimentos ao Mestre. Do resto nem palavra.
— Pois agora ainda coisa maior há de ser e com mais luzimento.
* * *
A igreja de S. Domingos era então, como é hoje na sua feição moderna, um dos mais sumptuosos templos de Lisboa. O convento dos frades é que naquele tempo se reduzia a uma singela e humilde edificação, a contrastar com a igreja de esguios colunelos góticos, altas janelas de vitrais e extravagantes ornamentações esculturadas, numa profanada reconfusão de arcanjos e sátiros, de centauros escandalosamente nus e demónios grotesca-, mente hediondos. Era assim o estilo arquitetónico dos templos medievos, apesar da altivez monumental das suas linhas e da grandeza melancólica das suas naves, mergulhadas numa penumbra de misticismo sonhador, que apenas as luzes dos altares ou algum raio de sol, através dos vitrais de figuras bíblicas, um pouco logravam rasgar.
O mosteiro, de janelas estreitas como seteiras, tinha um só pavimento, a que servia de fronteira uma larga alpendrada sobre o terreiro, contíguo à grande praça irregular que era então o Rossio.
Do lado do oriente se lhe avizinhavam as hortas mirradas e os pomares mortos da baixa Mouraria, e do norte quase se extremava com os primeiros hortejos de Valverde, revolvidos durante os primeiros tempos do cerco por mãos de famintos que buscavam os talos e as raízes secas de hortaliça.
Diante daquela alpendrada de altiva história esperara inutilmente o alfaiate Fernão Vasques à frente de uma multidão revolta, que el-rei D. Fernando viesse dar conta ao povo, como prometera, do propósito infamador que lhe atribuíam, qual era o de casar escandalosamente com D. Leonor Teles, esposa legítima de João Lourenço da Cunha.
O rei faltou, fugiu de Lisboa para Santarém e o ignominioso casamento fez-se no Porto, na igreja de Leça do Bailio. A estátua de carne tentadora e entranhas de tigre logrou depois vingar-se do atrevido plebeu, que ousara ter vergonha e pudor por conta do rei enfeitiçado.
Aquela revolta de 1371 pagou-a com a vida o intrépido Fernão Vasques. Ele e outros homens principais do motim. Leonor Teles não esquecia; aquele alfaiate fora o malogrado zelador da honra e da fama de uma coroa que ela conspurcava.
Mas os Castelhanos largaram o cerco de Lisboa, o de 1373, todo crueldades e assolações, o rei voltou com ela de Santarém, onde cobardemente se tinham aninhado, e pouco depois o ódio vingativo da real adúltera saciava-se, conseguindo que o segundo marido infamado entregasse ao carrasco os maiorais da revolta.
Foram enforcados; mas para Fernão Vasques, porque tinha sido o mais audaz, o caudilho da multidão protestante, para esse houve uma fúnebre distinção. Antes de o enforcarem, deceparam-lhe as mãos. Foi para o cepo ainda mal restabelecido de um ferimento grave, que lhe tinham feito os Castelhanos numa das suas arremetidas maiores pela rua Nova acima.
Provara o alfaiate decepado que, se tinha boca para dizer alto duras verdades de plebeu honesto, também lhe não faltava rijo pulso de lutador para rebater os inimigos da Pátria.
Depois, como já sabemos, foi naquele Fórum da alpendrada de S. Domingos que se fez a revolução redentora contra o herdeiro castelhano, e se abriram os maiores destinos da terra portuguesa. E foi Afonso Eanes uma das principais figuras daquele movimento, que mais tarde havemos de ver a qual épico desenlace pôde chegar.
* * *
Mal passava das onze horas e já o terreiro de S. Domingos estava apinhado de povo, a transbordar até ao Rossio. Na alpendrada, Eanes e os da Casa dos Vinte e Quatro conversavam com dois velhos frades dominicanos. Parecia que estavam combinando alguma coisa de alvoroço. Um dos frades encerrou a palestra com esta promessa:
— Ficai na certeza, mestre Eanes, de que essa hora de justiça há de ter o luzimento e a solenidade que merece. Heis de ver como no vosso intento vos ajudamos.
— Nisso creio e de todo o coração vos agradeço, senhor Frei João do Nome de Deus.
Os frades retiraram-se. Estava-se numa impaciência em que os minutos parecem longos como horas.
Tinham um triste aspeto os trajos daquela populaça, homens e mulheres vestidos de grã e burel pardo ou de almáfega de luto pelos que lhes tinham morrido no cerco. Alguns tons de cores vivas apenas nas saias de valenciana e nos saiotezinhos de jovens garridas. Os carapuços escuros e os chapeirões ingleses (à inglesa) punham manchas ainda mais soturnas naquele imenso quadro, a que servia de fundo o velho paço gótico do almirante.
Mas a mobilidade da multidão, sacudida e irrequieta, o alvoroço das fisionomias, numa expressão de insofrida curiosidade, e a loquacidade vibrante e pitoresca das mulheres, vivamente contrastavam com o aspeto sombrio dos trajos.
Era enfim meio-dia. Anunciavam-no as badaladas das torres; de súbito, a multidão emudeceu. Os homens descobriram-se reverentemente e toda aquela gente, de mãos postas, rezou três ave-marias num rumorejar intenso como de carvalheiras que uma aragem forte de repente houvesse agitado.
Benzeram-se, saudaram-se.
— Santo dia, e para bom fim no-lo dê Deus — diziam as mulheres.
E todos os sinos da cidade desataram em repiques festivos como se fosse um dia santificado aquele calmo e doce dia de Outubro, cheio de sol.
Um velho de samarra de burel, corda de esparto a cingir-lha na cintura, cabeção e capuz recamado de conchas, veio atravessando por entre a multidão, a pedir mansamente que lhe abrissem caminho.
— Só cá faltaria este pelegrino com o seu bordão e as concheias! — observou uma rapariga.
— E as suas barbas mais brancas do que uma estriga de linho bem curado! — disse outra.
— As conchas são do santo rio Jordão onde Nosso Senhor recebeu o seu divino bautizo — explicou uma velha.
— Mas já o vi eu a lutar numa galé contra os castelões como qualquer dos melhores cavaleiros! — acudiu um galeote.
— Fidalgo será e cavaleiro de outros temos que ande na remissão dos seus pecados — alvitrou a velha — Já eu conheci um, Deus lhe perdoe, que, por amores de pecado e morte de homem, fugiu para a Terra Santa e de lá voltou, sem nunca deixar o burel e o bordão. E nunca a ninguém quis dizer quem era! Morreu ermitão entre os fraguedos da serra de Sintra! Só eu sabia quem ele era. Deus o tenha consigo!
— Pois deste um dia se virá a saber quem é ou quem foi.
— Teve boa pousada no paço de D. Dulce de Vasconcelos e por lá se deixou ficar.
— A tia Lourença talvez saiba quem ele é. Vai muito a casa dessa tal dona. Ide perguntar-lho.
— Não estou agora para isso. Há de vir a saber-se, sem que a gente ande por aí a indagar quem vem a ser esse monge barbudo, que, pelos modos, não é peco para arremeter nas lutas.
E com estas e outras conversas se iam entretendo para que lhes não parecesse tão longa a demora.
— Mas porque espera Afonso Eanes? — perguntavam os mais impacientes.
— Ele e os Vinte e Quatro!? Pois se este juntamento foi para irmos ao Mestre a dar-lhe os nossos agradecimentos, porque ficamos aqui pasmados?
— Agora ouvi dizer — interveio um alfageme — que já não é a gente que vai dar os agradecimentos ao Mestre; porém é ele quem aqui vem para nos falar e agradecer, e por tal modo o estão esperando os dos Vinte e Quatro e mais o nosso juiz.
Aquele alfageme era mais rapador de barbas que armeiro e, na sua tendência histórica de alvissareiro e rebuscador de novidades, mantinha galhardamente as tradições da sua classe, as únicas talvez com maior tenacidade mantidas ainda neste nosso tempo. Sabia as coisas primeiro que o resto do Mundo, parecia farejá-las quando não as podia colher de fonte segura, e até tinha a arte insigne de contar como notícias recentes as que todo o Mundo já supunha velhas.
Mas aquela nova, que ainda não era sabida de muitos, encheu de consolo e de ingénuo desvanecimento as almas dos seus ouvintes, gente rústica na esperança de um novo destino, de que o Mestre seria o penhor e o símbolo.
— Vem cá então!
— Há de saber-lhe bem vir a este sítio falar ao povo.
— Aqui foi que, em boa hora, o alçámos para nosso Defensor e Regedor do Reino.
— O nosso Mexias que Deus nos mandou! — disse a velha carinhosamente.
— Messias, mulher de Deus, Messias para redimir a Nação — emendou o alfageme, uma das ilustrações da sua classe, por erudição vária que apanhava de ouvido aos cónegos da Sé, os seus fregueses de mais alto coturno.
* * *
Veio dos lados da Sé uma vibração intensa de trombetas. A multidão remoinhou comovidamente e um ruído alto de vozes esvoaçou por todo o terreiro até ao Rossio.
— Olhai que é o Mestre!
— Certo será ele!
— Lá está já à frente dos mesteirais o nosso Afonso Eanes.
— E eles com a sua bandeira e as suas varas vermelhas.
— Vão sair ao encontro do Mestre.
Vinha de mais perto a vibração das trombetas, respondiam-lhe as torres de S. Martinho e da Sé em loucos repiques; mas os gritos dos vivas estrugiam frementes, esfuziando nos ares por entre o arruído festivo daquela hora.
Repicaram também os sinos de S. Domingos e as grandes portas antigas da igreja foram abertas de par em par. A comunidade começou a sair processionalmente, de cruz alçada.
O Juiz do Povo e os da Casa dos Vinte e Quatro tinham ido ao encontro do Mestre.
É pequena a distância entre o paço do Limoeiro e S, Domingos e por isso o Mestre vinha a pé, e como ele todos os da sua comitiva. Avultavam no séquito de D. João, por categoria e renome, o arcebispo de Braga; D. Lourenço; D. João, bispo de Lisboa; D. Paio de Meira, bispo de Silves; o conde D. Gonçalo; o prior da Ordem do Hospital; D. Frei Álvaro Gonçalves; Nuno Álvares Pereira, o do Alentejo; Diogo Lopes Pacheco, senhor de Ferreira, e o doutor João das Regras. Não importa aqui levar mais longe a designação dos outros fidalgos cavaleiros, escudeiros de prole e pajens de armas que vinham com o Defensor do Reino.
Os feixes de plumas dos bacinetes, as cotas de armas, e os laudéis bordados, divisas e brasões de vivas cores com refulgências de fio de ouro e prata, davam aspeto triunfal à comitiva do infante bastardo, sangue de rei caldeado com o da mulher plebeia que fora sua mãe.
Foi um deslumbramento para as almas sinceras da plebe aquele cortejo quase real. Envaideciam-se por esse homem eminente, que era, por assim dizer, o filho dileto do seu coração de patriotas.
Mal o cortejo assomou ao terreiro, logo a multidão se remexeu febrilmente para ver bem, para ver melhor os dois homens que trazia figurados na alma como dois paladinos de lenda, numa visão miraculosa de sonho.
E em pouco estrondearam vivas comovidos, febris e soberbos como se valessem ali por um alardo de guerra e por uma aclamação de triunfo.
— Viva o Mestre!
— O Messias de Lisboa!
— E mais de Portugal, que por ele será livre!
— Em boa hora ficou!
— E em boa hora venha!
— Viva! Viva!
— E com ele o senhor D. Nuno Álvares!
— A mais forte lança e a maior alma que têm consigo o Mestre e o povo! — gritou a tia Lourença, bracejando à frente das mulheres.
Entretanto, o Mestre recebia as homenagens dos representantes da Câmara, do Juiz do Povo, dos homens da Casa dos Vinte e Quatro e dos frades dominicanos.
Depois encaminhou-se para o alpendre com os prelados, os fidalgos do seu conselho e os letrados. E logo após eles Afonso Eanes com aqueles homens dos ofícios, que constituíam um como conselho de Estado plebeu, prestigioso e preponderante.
Era como se a população, a arraia-miúda, consubstanciada naqueles seus representantes, entrasse também com as classes privilegiadas nesse modestíssimo recinto, já tão assinaladamente famoso nos anais de Lisboa. A revolução nascera e alentara-se ali, entre aqueles pilares de enegrecidas cantarias e sob aquele teto de velho castanho, Fórum pobríssimo sem colunatas monumentais e sem estátuas magnificentes, como o outro de Roma, truncado agora entre as ruínas da metrópole de uma grande e pujante civilização antiga.
Quem podia saber então se daquela alpendrada, que nenhum vestígio deixou na moderna Lisboa, não sairia também, com a revolução de uma nacionalidade, a alvorada épica de um soberbo dia na História de outra grande civilização?
* * *
Subia o Mestre os degraus do alpendre e Afonso Eanes a dizer de si para si:
— É como se fosse a subir os degraus do trono!
Calaram-se os sinos de S. Domingos, mal que a comunidade voltou à igreja. O Mestre fez um sinal ao Juiz do Povo. Eanes compreendeu-o e foi logo para a entrada do alpendre. Do mais alto degrau fez um gesto de prevenção às cinco ou seis mil pessoas que o podiam ver.
— Povo, escutai, que vai falar-nos o senhor Mestre de A vis, nosso Regedor e Defensor.
— Escutai, escutai, que vai falar-nos o Mestre! — clamaram os das últimas filas do terreiro, avisando a multidão que ficava para trás, até o paço do almirante.
O mar de gente ondeou opresso; houve ainda um rumor como de floresta que uma nortada açoitasse; mas, poucos momentos volvidas, aquelas ondas de povo imobilizavam-se numa emudecida mansidão e apenas se percebia o tenuíssimo rumorejar de milhares de pessoas respirando num alvoroço de surpresa.
Levemente pálido, o Mestre tomou o lugar em que estivera o Juiz do Povo e começou comovidamente numa vibração alta, sonorosa, que ia acarinhar os ouvidos e os corações da plebe.
E os mais distantes, os que não podiam ouvi-lo, de olhos cravados nele, tentavam adivinhar-lhe o sentido das palavras, lendo-lho na expressão do rosto.
— Gentes! Sois o povo honrado e leal da mor cidade que tem Portugal e com esforçada coragem e resignação heroica vos encontrei sempre comigo para a defenderdes do poder de Castela. Bem sabíeis vós que defender Lisboa o mesmo era defender a Nação; Portugal aqui tinha a alma e a vida. Boa conta destes de leais Portugueses, lutando e sofrendo e assim com generoso ânimo me pagastes o cargo, que por vós e a pedidos vossas tomei, quando já comigo tinha entrado o desalento de ver tanta gente ilustre bandeada por Castela e tantas vilas e castelos com bandeira e menagem pelo rei estrangeiro. Então me vi decidido a partir do reino, que tantos julgavam perdido e eu supunha numa agonia de morte, sem remédio. Era engano meu. Quem tinha a verdade no coração éreis vós, bem que dos vossos alguns tivessem também muito desfalecido na esperança de que Portugal se salvasse. Salvo não está ainda, mas agora creio que a maior agonia terá passado. Outra virá, porém, com perigo de morte, e essa nos poderá levar a Pátria, se nós faltarmos ao que ainda lhe devemos e Deus nos desamparar por tal criminosa falta. Aqui vim para vos agradecer e louvar e o tanto que fizestes ajudando-me, e para que livremente me faleis de coração aberto, no tocante ao vosso ânimo para os outros maiores sacrifícios de haveres e de sangue.
— Mestre! — gritou a tia Lourença, já nas primeiras filas dos ouvintes — Quantos sacrifícios vós mandardes que se façam e de quantos Portugal precisar para não ser de el-rei de Castela!
— Tal qual assim!
— Boa palavra de mulher a dizer o que todos nós trazemos no coração!
E todos apoiavam estes dizeres calorosamente, numa singeleza de forma enternecedora. Mas da comitiva do Mestre alguns houve que se turvariam, como se aquele voto os houvesse contrariado.
D. João esperou que o sussurro se acalmasse. Para além do terreiro alguns iam resumindo as palavras do Mestre e a resposta da tia Lourença, elucidando assim aqueles que nada tinham podido ouvir.
— Isso esperava de vós — continuou o bastardo serenamente, mas numa voz ainda mais vibrante e com uns grandes fulgores de júbilo no olhar — Muito se tem sofrido e muito ainda se há de sofrer, para que a Nação se veja salva dos tamanhos perigos que a estão cercando. Toda a verdade que entendo e sinto vos hei de dizer aqui, para que ninguém se iluda e cada um vá para diante, sabendo e pensando bem os encargos que toma. El-rei de Castela está ainda em Portugal com os seus cavaleiros e peões das Espanhas, da Gasconha e de outras terras de França. São dois os poderes que contra nós vieram e hão de voltar e somos nós tão poucos e empobrecidos que, embora el-rei de Inglaterra nos dê algum socorro, sempre há de ser pequeno, para acudir ao muito que nos falta e para opor aos muitos que sobre nós hão de vir. Para mais nos apoucar as forças e estreitar a terra, estão Portugueses de grandes haveres com os de Castela e são por eles, estrangeiros e traidores, setenta e uma vilas e castelos, reduzindo Portugal a menos de metade do que era quando todos o julgavam pequeno! Para fazer frente às armadas e às hostes com que a contenda se há de resolver, será preciso que deis mais sangue e maior tributo das vossas migalhas. Depois, para vencer e despejar daqui a multidão armada dos estrangeiros e dos traidores, cada um de nós pela sua terra contra cinco ou seis que lha querem roubar e envilecer, será preciso um milagre de Deus feito pelo esforço do vosso braço e das vossas almas. Pensai e dizei-me como a irmão vosso, se para tanto vos sentis resolutos.
— Mestre — acudiu outra vez a velha batalhadora — está pensado e dito. Mais sangue e mais fome, só por não sermos de Castela, e seja pelo amor de Deus e por este tamanho amor que a gente tem à nossa terra.
Milhares de frases tocadas de santa devoção revoaram de lés a lés no terreiro, aclamando aquela menagem do povo, sem o cerimonial da outra dos cavaleiros e alcaides dos castelos e sem o juramento dos Santos Evangelhos.
— Amém — disse o Mestre — Povo temos nós e é ele um braço com que Portugal pode contar. Agora dizei se para maiores encargos me desejais convosco ou se outro quereis escolher que melhor vos mande a deferida.
— Nenhum outro! Nenhum que tanto valha! — gritaram muitas vozes.
— Nenhum!
— Pois pela minha fé que, ou Deus me falta, ou eu hei de ser o Regedor que vos mereça e o Defensor que vos mereceis.
— Senhor, perdoai, mas para o que valeis é pouco! — gritou Afonso Eanes, aprumando, no último degrau, em frente do Mestre, a sua bela e pujante figura de plebeu.
D. João afogueou-se.
— Gentes! — clamou o Juiz do Povo para a multidão surpreendida — Em nome de todos deixai que eu fale pelos vossos corações, irmãos do meu.
— Falai! Falai!
— Já não há porque hesitar. Os letrados que averiguem da herança da senhora infanta que é rainha de Castela. Mas para que a herança tenha validade é preciso que Portugal se faça castelhano, e isso é que nós não queremos, por mais homens de armas que de lá venham o por mais traidores que de cá se afastem. Gentes, dizei se assim não é, e se o meu coração errou por não sentir o vosso.
— Não queremos!
— Bem o dissestes: não queremos!
— Não e não!
Como se uma áspera ventania subitamente houvesse sacudido toda a gente e a multidão tivesse uma só alma a vibrar pelo mesmo santo amor, toda aquela floresta humana ramalhou violentamente e todas as bocas se abriram para a mesma comovida afirmação.
Mais se tinham perturbado agora os fidalgos, três ou quatro, que a princípio apenas se tinham turvado, contrariados. Pela sua fortuna ninguém reparara neles.
— Pois que assim o queremos — acudiu o Juiz do Povo entusiasticamente — a herança real a damos nós por nula, e da coroa de Portugal, que ainda não tem dono, pode a Nação dispor!
— Pode.
— É de ver que pode.
— Gentes, e nós, o povo, alguma boa parte somos da Nação para termos voto nas doações e partilhas do Reino, com tanto direito e tão grande dever como para lhe dar os braços, o sangue e até um quinhão mais das nossas migalhas. Onde tivemos direito e força para fazer do senhor Mestre de Avis o Regedor destes reinos, com mais razão pela nossa parte, podemos mudar o regedor em rei.
Retumbou nos ares uma explosão de aclamações frementes. Entrava aquela audácia tanto no coração de todos, que nem lhes deu surpresa.
— Real! Real! Pelo senhor Mestre de Avis, rei e defensor nosso!
Um pouco enfiado, o Mestre procurava Nuno Álvares num olhar turbado como a buscar o voto daquela grande alma e daquela soberba espada.
O jovem batalhador respondeu-lhe no seu mais afetuoso olhar, a valer uma altiva e fervorosa aclamação.
Mas os fidalgos de maior prosápia fizeram rosto carrancudo àquele atrevimento da populaça, que lhes parecia escandalosa violação dos direitos e privilégios da sua classe. Dantes eram os prelados e eles quem nas cortes representava os primeiros votos e o maior poder.
Afonso Eanes notou e percebeu a transfiguração.
Enquanto esperava que a vozearia das aclamações o deixasse rematar a sua fala ao Mestre, foi ideando a forma de aplanar os remordimentos daquelas prosápias, sem humilhação do povo e com proveito da causa patriótica.
— Senhor — exclamou o famoso tanoeiro, aproveitando moa aberta daquele vendaval de brados entusiásticos, a vibrarem o júbilo das almas a arderem na febre daquele sangue rubro e forte da populaça.
— Juiz do Povo! — atalhou o Mestre na sua voz cheia, dominadora, levemente comovida — Muito agradeço o galardão que o bom e leal povo de Lisboa me dá nas suas aclamações; porém é dever meu recordar-vos que só em cortes se pode alçar novo rei, quando outro falte, que para tal tenha direito de herança. Regedor e Defensor do Reino continuo a ser.
— Quem para esse cargo vos elegeu foi o povo e aqui mesmo fez a escolha. Agora, ainda com maior direito, vos pode alçar ao trono, pois que vós e ele defenderam Portugal a dentro dos muros de Lisboa.
— Falta o voto do reino — objetou-lhe D. João.
— Senhor, a Nação, por ora, a bem dizer, se reduz a Lisboa e Porto.
— Falta ouvir os poderes do Estado que têm representação em cortes.
— Com o meu maior respeito vos lembro que a um desses poderes muito o diminuiu a traição, e não será fácil que à maioria dos seus representantes os mandeis ouvir nos arraiais de Castela. Agora o poder maior, Senhor, filho de rei e irmão do povo, é esse que traz pela sua cota de armas um pedaço de burel com remendos em guisa de insígnias, esse que padeceu mais fome e derramou mais sangue e vos quer para rei.
— De muito vale o seu voto e no meu coração o guardo com amorável gratidão, mas para breve há de a nobreza leal deste reinos prestar-me sua menagem como a Regedor do Estado, e em cortes, que não tardarão a reunir-se, os votos do clero, dos homens de prole e do povo pelos seus procuradores de cada concelho, dirão quem há de ser erguido rei.
— Senhor, ouvi então o clero e a nobreza. O voto do povo vai daqui adiantadamente para as cortes e nem precisa de ir amparado a procuradores; pois tão alto saiu de todos os corações que, onde quer que as cortes se reúnam, lá se há de ouvir mais sincero, com mais desafrontada verdade que nunca. Senhor, mais do que nunca! Dos vossos nobres cavaleiros heis de receber menagem. Pois a do povo a tendes vós já, bem que não seja uso receber-lha, nem sobre os Santos Evangelhos precise de jurá-la. Pelo povo de Lisboa, por ele aqui vo-la dou, Senhor, e com ela contai para que Portugal seja dos Portugueses e nunca outra bandeira diferente da nossa ponha sombra nos seus lares. Preito e menagem sem prazo. Para a vida e para a morte!
E a multidão, até ali atenta, silenciosa, num supremo esforço de vontade para não quebrar o encanto de ouvir como o tanoeiro, seu juiz, sabia dizer o que eles tinham no coração e não poderiam exprimir daquele modo, outra vez se alvorotou em frémitos de entusiasmo.
— Sim! Sim!
— Assim é. Para a vida e para a morte!
— É a menagem dos nossos corações!
— Mais segura que a outra dos castelos!
— Senhor, aqui tendes menagem — disse o tanoeiro — como os reis de coroa herdada raras vezes teriam recebido outra igual (*). Para o povo, de hoje em diante, o rei sois vós. Se as cortes outra coisa pudessem votar, o povo seria por vós contra elas.
[(*) A menagem, forma ampliadora do preito, era o acto solene de vassalagem em que os nobres senhores da nação e os altos representantes do Estado tomavam perante o soberano o compromisso e o encargo jurado de o servir, lealmente e com inteira obediência, conforme os seus direitos, imunidades e privilégios, na paz ou na guerra, por si ou pelo seus dependentes, em qualquer lugar ou dentro dos seus castelos, terras e senhorios.]
— Quem vos chamou Messias de Lisboa — gritou alguém — agora vos chamará rei de Portugal.
Foi a tia Lourença quem isto clamou e todo o mulherio lhe foi repetindo o dizer freneticamente.
— Real, real, pelo Mestre de Avis nosso rei! — clamaram por ali fora em vibrações atroadoras.
— Senhor, perdoai — dizia o tanoeiro a meia voz para o Mestre.
— Era então esta a surpresa de que me tínheis falado, mestre Eanes!
— Esta era a justiça que se vos devia — volveu-lhe, dobrando o joelho — Senhor! — disse, beijando-lhe a mão — Eu agora pelos tantos milhares de homens que aí estão a aclamar-vos.
* * *
Ainda houve umas breves discussões em que tomaram parte os fidalgos; mas pouco depois o Mestre, rei eleito da plebe, seguia para o paço do Limoeiro com a sua luzente comitiva.
Nuno Álvares ia radiante. Nem todos assim. Dois fidalgos da comitiva se tinham deixado ficar para trás.
Eram daqueles a quem a manifestação popular mais perturbara. Iam falando em voz baixa e com as cautelas de quem faz confidências.
— Mal irá ao Mestre por estar dando tão grandes voadeiras à ralé insolente!
— É o sangue da mãe a levá-lo para baixo!
— Nas cortes se há de ver quem vence e se a Nação quer pelo seu rei quem tanto desce para se irmanar com a gentalha das ruas.
— Que talvez nem seja preciso esperar pelas cortes — disse o outro, quase por entre dentes, torvamente — Há coisa mais segura e mais breve que o voto das cortes. Ao rei da arraia-miúda não durará muito o reinado, apesar da boa vontade dos seus vassalos esfarrapados.
— Esse tanoeiro falador, que tanto se emproa e a tanto se atreve, está a pedir o fim que teve aquele outro vilão atrevido...
— O alfaiate Fernão Vasques. Anda a escumalha a querer subir e este, que faz tonéis, já tem chegado muito mais alto do que o outro, que talhava saias e ponteava calças.
Entretanto, muito para trás da comitiva, com o seu magote de mulheres, numa grande e expansiva alegria, a velha Lourença ia dizendo em tom galhofeiro:
— Ora graças às cabaças, que o povinho cá da nossa condição já elegeu um rei, e se os castelões o não vararem, bom e glorioso rei será, e talvez tudo isto haja de ter uma grande mudança, mulheres de Deus! É cá um sonho do meu coração, e vós lá, que ainda sois novas, heis de ver se o meu coração se enganou.
— E vós, tia Lourença, isso heis de ver também, louvado Deus.
— Hum! Oh raparigas, em se entrando na ladeira dos sessenta, já se não caminha senão a descer, e ainda que a gente queira parar, não pode e lá vai de escantilhão para baixo.
— Ora, umas poucas conheço eu que vão já para cima dos noventa, e não parece que a morte queira entrar com elas.
— Pois sim, sim. Mas reparai como os sinos cantam, e em vez de irmos a falazar de coisas tristes, vamos lá acompanhando os vivas dessa gente que alçou a rei o Mestre de Avis.
E na vozearia atroadora das aclamações se embeberam, como num coro enorme, os gritos patrióticos da tia Lourença e do seu mulherio batalhador.