A Ala dos Namorados
Capítulo XVI · O Préstito de Castela
Por alta madrugada, de 3 para 4 daquele trágico mês de Setembro, os vigias das torres deram sinal de alarme e os sinos tocaram a rebate.
Ouvia-se um cavo tropel dos lados de Santo Antão como de muitos cavalos e um ruído de carros que fossem rodando lentamente pelos caminhos.
E logo, de súbito, se afogueou todo o horizonte e uns grandes rolos de fumo, que a brisa do mar rasgava nos ares, vieram esfrangalhar-se contra os altos adarves das torres.
Uma enorme faixa de labaredas ondeou sinistramente por aqueles outeiros e quebradas, a subir de Santos até Santo Antão e de lá até em frente do monte da Graça.
Sentia-se o estalido das madeiras a desfazerem-se em, carvão, divisavam-se pedaços de pano a voejar chamejantes, milhares de faúlhas, como enxames de abelhas rubras, morrendo nos ares.
— Os castelões deitaram fogo aos seus arraiais! — bradavam os da torre de Álvaro Pais.
— Ou se lhes pegou por descuido — lembrou alguém.
— Qual! Aquilo foi deitado por todo o arraial a um tempo!
— Temos as fogueiras do S. João em Setembro!
— Já que em Junho ninguém as pôde acender cá na cidade.
— Assim o Mestre nos deixasse ir saltar aquelas fogueiras!
— Mas o caso é que esses cães gadelhudos nos deixam!
— Para voltarem mais danados será que eles nos deixam agora!
Vinha clareando a manhã e as labaredas cada vez mais altas.
O Mestre chegou às portas de Santa Catarina e ordenou que Fernão Rodrigues saísse com a sua gente de armas em observação para os lados de Santos.
Foi, e com ele saiu uma multidão de curiosos. Os palanques e barracões reais da encosta de Santos estavam já reduzidos a brasido. No mosteiro encontraram muitos doentes, uns agonizantes, outros a arrastarem-se pelos corredores e pelas escadas abaixo num pavor louco, numa ânsia enorme de fugir.
Apesar do ódio intenso que tinham a Castela e do seu natural impulso de vindicta, os homens de armas e o populacho obedeceram às intimações de Fernão Rodrigues para não cevarem nos pobres doentes as fúrias vingadoras que, sem a prestigiosa autoridade daquele chefe, seriam de horrenda atrocidade, conforme as tradições e os hábitos barbarescos da guerra daqueles tempos.
A multidão voltou à cidade sem nenhuns despojos. Apenas um ou outro trazia como insignificantes relíquias alguma lança abandonada ou alguma espada perdida.
Na véspera, o Mestre dera ordem para que duas galés subissem o rio e lançassem ferro para cima de Enxobregas. %
Protegeriam assim quaisquer batéis que viessem da Outra Banda com bandeira portuguesa e vigiariam os movimentos dos sitiantes por aquele lado, dando aviso de qualquer suspeita de concentração de forças. Dez galés ficariam de atalaia em frente da Ribeira.
O Mestre dispunha os navios da sua pequena armada para cobrirem e defenderem a travessia da hoste de Nuno Alvares, se a sua passagem fosse possível na madrugada do dia seguinte.
A bordo das duas galés que tinha subido para cima de Enxobregas estavam nove dos Namorados e, entre eles, Ruy de Vasconcelos, o Magriço e Vasco Eanes.
Alta madrugada, tinham sido despertados pelos vigias dos navios. Estavam a arder alguns grupos de barracas do acampamento castelhano, dos lados de S. Vicente e da Penha.
Não sabiam se era incêndio casual ou propositado e, neste caso, com que fim; mas logo os patrões das duas galés resolveram que imediatamente largasse para a Ribeira um batel em que um dos fidalgos fosse levar a notícia ao Mestre. Ofereceu-se para ir um dos Namorados, que não é ainda nosso conhecido.
O mensageiro embarcou e partiu. A madrugada rompia com uma intensa lucidez. Percebia-se já no rio o movimento de algumas forças inimigas, afastando-se do acampamento em chamas. Daquele lado da cidade, o arraial era formado de pequenos núcleos de barracas onde se abrigavam forças diminutas. A maior parte do exército sitiante estivera do lado de Santos até Santo Antão, com o seu flanco direito apoiado na esquadra.
— Seria de conveniência que três ou quatro homens de ânimo fossem a terra para ir observar cautelosamente o que se passa deste lado da cidade — propôs o Magriço ao patrão da galé em que estava.
— E para que seria isso bom? — perguntou o patrão, homem idoso e de bons serviços, que era ali o chefe superior das duas galés.
— Para se poderem mandar ao Mestre informações completas. Quem nos pode dizer aqui o que houve no arraial inimigo? Se aquele fogo foi casual ou tem algum fim que desconhecemos?
— E quem se aventura a esse risco? — perguntou o patrão.
— Eu — respondeu o proponente.
— E eu — acudiu Ruy de Vasconcelos.
— E eu também — disse Vasco Eanes.
E outros Namorados se iam oferecer, mas o patrão atalhou logo:
— E mais nenhum, que não quero a responsabilidade de enfraquecer a guarnição desta galé. Vão os três e não se desacautelem, se não querem ficar por lá.
— Nós chegamos — respondeu o Magriço.
Estava radiante. O seu sangue de aventureiro puxava-o dali para fora. Nem a proposta tivera outro intento que não fosse procurar alguma aventura em que, por uma hora ao menos, se livrasse daquela vida inativa e monótona de bordo, que o estava aborrecendo mortalmente.
Meteram-se os três num batel a dois remos e em dois minutos chegaram à praia.
— Apre! — exclamou o Magriço, resfolgando ruidosamente — Foi como se saísse de um poço onde me faltava o ar! Agora, meus queridos cavaleiros andantes — disse de gracejo, indicando as pernas — é contar apenas com estes magros corcéis, visto que não temos outros. Mas importa ser cauteloso como esculcas, ter olhar astuto de raposa e orelhas finas de lebre. Vamos lá. O que eu queria era apanhar-me em terra, que o demo da galé até me cheirava a ratos.
— Vou eu adiante, que sou prático destes sítios — propôs Ruy de Vasconcelos.
— Está dito. Por todas as razões, adiante — volveu-lhe o Magriço — E se for preciso arrancar algum pinheiro que estorve ou mover algum penedo para o pôr onde nos apraza, aqui levamos os pulsos de Vasco Eanes.
E a rir, regaladamente, como se fosse para o mais suave divertimento do Mundo, acrescentou:
— Ruy, sabei que já lhe vi deitar a terra um bezerro de três anos com uma punhada, que valia por trinta das nossas.
Atravessaram o areal, meteram por carreiros e azinhagas a pequena distância dos abarracamentos, já quase em cinzas.
— E os sinos de S. Vicente a tocarem a rebate! Mas porquê, se já se não topa aqui nem a sombra de um Castelhano!
— Só se a dança é lá para o outro lado da cidade — lembrou Vasco Eanes.
— Pois se for — volveu-lhe o Magriço — lá iremos para bailar, e o Mestre que nos perdoe e o patrão da galé que passe por lá muito bem.
— Olhai que já ides esquecido do vosso propósito da prudência — observou-lhe Vasco Eanes de brincadeira.
— Prudência enquanto bastar que espreitemos e ouçamos; mas no caso de haver bailado grande, a minha espada não é dama que se fique embiocada a ver como as outras dançam.
Ruy não dizia palavra. A alma voara-lhe para longe dali.
Meteram pelo aceirozito de um pinhal alto e denso, empoleirado numa áspera encosta.
— Mais cuidado agora — recomendou baixo o Vasconcelos — Ao cabo deste pinhal há uns barrocais sobranceiros ao caminho que vai para Torres Vedras.
— Escutai! — avisou o Magriço, moderando o vozeirão e os passos — Os sinos agora estão repicando como se fosse em manhã de aleluia!
— Então qualquer coisa boa aconteceu aos nossos! — disse Vasco Eanes.
— Talvez dessem alguma trepa nos Castelhanos. E se assim é, pela minha vida, que nunca perdoarei ao Mestre a lembrança de nos meter naquela capoeira das galés, em guisa de galos velhos que podiam estragar a semeadura do quintal.
— Schiu! — preveniu da frente o Vasconcelos — Ouvi passos ali para diante. Vamos indo. Agora um tropel de cavalos!
— Que relincham, talvez tão satisfeitos como eu quando me vi em terra — gracejou o Magriço sumidamente.
— Vou morto por saber o que houve! — disse Vasco Eanes.
Foram caminhando. Já percebiam bem as vozes da gente que ia no caminho e a chiadeira monótona dos carros de bois.
— São de Castelhanos aquelas vozes — observou Ruy.
— Quereis vós ver que vão mudar de ares? — comentou o Magriço naquele feitio jocoso que retomou desde que lograra safar-se da galé.
Tinham-se ocultado por detrás de uma penedia que limitava o pinhal e ficava a cavaleiro de uma ribanceira sobre a estrada antiga, irregular, de escassa largura, ladeada de silvedos e muros baixos de pedra solta, extremando vinhedos, que os sitiantes já tinham vindimado.
Era a estrada para Torres Vedras. Tinha passado para a frente de galopada um grande esquadrão dos ginetes mouriscos de Andaluzia. Agora estavam passando lentamente carros de bois e liteiras de varais com os doentes e feridos. As bagagens iam já para diante em longas récuas de muares.
— Retiram! — segredou o Magriço — Ah! Que se aqui estivessem todos os nossos! Seria dos Namorados a vitória final.
— São os doentes e os feridos — disse Vasco Eanes — Lá deitaram dois para trás do silvado; provavelmente morreram naquele carro parado.
— Safam-se os malditos, e hão de deixar Portugal empestado! — observou o Magriço quase em segredo.
— Olhai agora aquela liteira que parou. Tiram de dentro um homem todo ensanguentado. Um ferido que morreu. Lá o baldearam para além daquele muro.
— Se ali irá Antão Gonçalves! — pensou Ruy de Vasconcelos numa cara de ódio — Ainda que fosse — emendou mentalmente — Para o matar, só quando ele se puder defender.
Repugnava-lhe que o seu imenso ódio até numa ideia se pudesse confundir com a cobarde cilada de um homicida.
Depois começou a passar um préstito estranho e lúgubre como não havia memória de outro semelhante na retirada de um exército. Pajens, escudeiros e homens de armas com os brasões das cotas de armas velados de preto em sinal de pesado luto, ladeavam, muito cingidos a ela, uma extensa fila de muares, que levavam a dorso caixões mortuários, cobertos de pendões com panos fúnebres.
Eram pendões de damasco e cetim, brasonados a ouro e matiz, signas de guerra dos grandes de Castela e dos fidalgos da Navarra, da Gasconha e do Bearne, que tinham falecido de peste ou de ferimentos em combate. Dos mais soberbos brasões e dos mais altivos nomes da velha nobreza das Espanhas.
Os pajens levavam brandões acesos. Alguns choravam.
— Os grandes que morreram! — disse o Magriço.
— Hão de ser esses que salgaram e secaram em Sintra — observou Vasco Eanes.
— Retiram também! — disse o Vasconcelos, tocado por um sentimento de generosa piedade — Vão para os soberbos jazigos das catedrais e dos seus velhos palácios de Castela. Os outros talvez cá voltem. Esses nunca mais. É o préstito de Castela!
— E lá mais para diante se lhe juntará o outro dos que foram salgados em Alenquer.
— O dos nossos não seria muito menor, se os tirassem das sepulturas de Lisboa — disse gravemente o Magriço.
— E as lágrimas das mães, das viúvas, dos órfãos — acudiu o Vasconcelos, tristemente — chegariam para lhes encherem os covais.
A trote moderado passaram, a dois e dois, umas poucas de dezenas de cavaleiros castelhanos.
— E tão esmorecidos vão — notou Vasco Eanes — que se o Mestre tivesse trezentos cavalos como tem só vinte...
— Teve — emendou o Magriço — Agora nem isso.
— Pois se tivesse os trezentos, mudava-se-lhe a esta gente a retirada em desbarato, e nem os seus fidalgos mortos voltariam a Castela.
— Reparai agora. Aqueles hão de ser cavaleiros da Gasconha e do Bearne — disse o Magriço, indicando umas longas filas, a dois e dois, que vinham a passo — Conhecem-se bem pelos altos pendões e pelas armaduras — explicou.
Levaram uns largos minutos a passar. De vez em quando, reprimiam a impaciência dos cavalos e voltavam-se para trás como para observar uma fila extensa de liteiras, a uns mil passos distanciada deles.
Seguiram largando a trote. Em breve, do fundo da ribanceira, começaram a surdir com estranha lentidão as liteiras, trazidas por muares possantes com magníficos jaezes.
A primeira, de obra leve de talha dourada, com cortinas de cetim franjadas de prata, tinha no topo do tejadilho dois anjos de ingénua escultura, segurando ao alto uma coroa real.
— A Rainha e as suas damas, talvez! — rouquejou sumidamente Ruy de Vasconcelos, empalidecendo.
Não se enganava. Na liteira dourada ia enferma D. Beatriz de Portugal, a mal-aventurada rainha de Castela. Esposa de doze anos trazia-a no colo, carinhosamente, uma das aias de Toledo.
Ladeavam aquela liteira real pajens de dalmáticas bordadas a ouro e prata com os castelos e leões heráldicos da mais altiva nação das Espanhas. Muito achegados a ela, um à direita e outro à esquerda, montados em nédias muares, o físico-mor da corte e o capelão do rei.
Uma voz de mulher disse de dentro da liteira umas sumidas palavras ao físico-mor, que as ouviu muito debruçado para a portinhola e logo mandou aos jovens e aos pajens:
— Parai. A Rainha carece de socorros.
Apeou-se rapidamente, entregou a mula a um cavalariço, tirou dos alforges uma caixa de prata, abriu-a, escolheu um frasco entre vários que lá trazia, levantou o fecho dourado da portinhola e pelo estribo pendente, formando dois degraus, subiu e entrou na liteira.
As outras liteiras tinham ficado em fila. Ao longe, numa curva da estrada, um grande esquadrão de cavaleiros juvenis da Espanha e de aventureiros franceses do Bearne e da Gasconha parara esperando.
— Provavelmente a Rainha piorou — disse baixo o Magriço.
— Que bom lance para irmos buscar essa infanta que é nossa — disse Vasco Eanes — pondo em fuga esses pajens e abatendo as prosápias daqueles cavaleiros de além.
— Somos três, sem lanças e sem cavalos — observou-lhe o Magriço com um estranho brilho no olhar.
No emudecimento de quem sonha nalgum passado de saudades e de amarguras, Ruy parecia absolutamente alheio ao que os seus companheiros estavam dizendo.
— Ali, em qual? — perguntara mentalmente.
Entretanto, de todas as liteiras se tinham apeado as damas para irem ver o estado da Rainha. Algumas envelhecidas senhoras da alta nobreza de Castela, outras peregrinas belezas juvenis de Toledo e de Sevilha. Da quarta liteira apeara-se uma dama de cabelos embranquecidos e fundos vestígios de sofrimento no rosto ainda belo, a lembrar o tipo das formosuras mouras da Península. Deu a mão e amparou a si, carinhosamente, a uma dama gentil, esplêndida juventude com uma alvura de açucena e uma suave tristeza de santa.
De súbito, Ruy de Vasconcelos levantou-se do esconderijo numa cara de alucinado e numa ternura de pajem noviço.
— Madalena! — murmurou, espantosamente pálido.
E antes que os dois companheiros houvessem reparado naquela excitação de surpresa, deitou desvairadamente pela ribanceira abaixo.
— Rui! — chamou o Magriço, estupefacto, erguendo a espada.
— Como se enlouquecesse! — exclamou tristemente Vasco Eanes, arrancando também da espada e descendo de carreira.
Foram uns segundos apenas, mas de tão violentas e opressoras impressões, que encheriam horas enormes em qualquer drama agitador da alma humana.
A descida abrupta daquele jovem produzira uma enorme alucinação de pavor nas damas e uma irresolução de pasmo na criadagem e nos pajens.
Com ares espavoridos, nuns gritos aflitivos, as damas tinham fugido para ao pé da liteira real, numa palidez de terror, numa tremura de crianças, os seios a arquejarem violentamente.
— Madalena! Linda noiva da minha alma! — exclamou o filho de D. Dulce, tomando-a nos braços e beijando-a nas faces como se já não houvesse loucura de que não fosse capaz.
— Ruy, que te perdes! — soluçou ela numa doçura de submissão e num confrangimento de medo.
Lívida, convulsiva, quebrando as hesitações que um momento a tinham imobilizado e emudecido, D. Maria de Mendonça inclinou-se para o temerário enamorado e disse-lhe a tremer:
— Tendes de fugir, ou levai-nos!
Era já alto o alarido dos criados pedindo socorro e frementes os brados de uma dezena de pajens e escudeiros, que vinham para o Vasconcelos de lanças em riste ou de espadas ameaçadoras.
Ao lado deles fazia uma chiada medonha de alarme o bobo real, o grotesco Annequim, com a sua gorra de lhama de prata, emplumada de penas de faisão, uma gorjeira de guizos dourados e um saio de cores berrantes.
Na cidade o conheciam bem todos os cavaleiros do Mestre de Avis, pois que o bufão, antes de começar o cerco e estando el-rei de Castela em Santarém, propusera de gracejo vir a Lisboa desafiar o Mexias para o deprimir nas chocarrices do seu repto.
Achou-lhe graça o conde de Mayorga e aplaudiu-lhe a lembrança. O bobo veio como parlamentário e falou ao Mestre, defendido pelas imunidades que tinham os parlamentários.
Fora uma cruel afronta.
Correu o Magriço, para os pajens e escudeiros a tomar-lhes o passo com a sua enorme espada.
— Eh! Lá jovens fedelhos de Castela! Se vos atreveis, faço de vós uma enfiada de cabozes!
Os escudeiros e os pajens recuaram, enfiados, diante daquela bisarma de homem.
— Tu, truão bilhostre — disse, agarrando o Annequim pela gorja e levantando-o no ar — toma a paga daquela tua mensagem de escárnio.
E atirou-o fora com dois tremendos pontapés, que o fizeram ir de ventas ao chão, a ganir como um cachorro medroso.
Mas da retaguarda, avisados pelos gritos de alarme, dezenas de cavaleiros castelhanos e franceses tinham deitado a galope.
— Amor da minha alma, que vão matar-te! — soluçou Madalena, abraçando-se nele.
— Por ti será, se for! — volveu-lhe.
— Senhor, salvai-vos, ou levai-nos daqui! — solicitou outra vez D. Maria de Mendonça num espasmo de terror.
— Sim, levai-as. Ajudai-me! — gritou aos seus dois companheiros — Pela nossa terra e pela minha dama! — gritou, repetindo com leve modificação o moto da bandeira verde dos Namorados.
— Aqui para vos defender, Ruy de Vasconcelos! — gritou o Magriço.
— Pelo nosso moto! — disse-lhe Vasco Eanes, a poucos passos dele, de face para o lado do caminho donde vinha a galopada.
Ruy tomara as duas damas pela mão no intuito de as ajudar a subir para um socalco da ribanceira. Dali subiria ao pinhal por uma estreita vereda, batida na terra argilosa pelos pés descalços dos pastores e pelo calçado grosseiro dos jovens do monte de uma quinta de fidalgos, circunvizinha do pinhal.
O terreno favorecia aqueles arrojados aventureiros. Os corcéis dos inimigos não eram galgos que trepassem a ribanceira, nem pelas baixas do pinhal, denso e bravio, poderiam investir facilmente com aqueles temerários.
Abatida pelas mortificações, numa grande debilidade, a arder em febre, oprimida de susto, Madalena mal podia arrastar-se, e Ruy teve de a levar nos braços, a poder de esforço, até meio do socalco, firmando o passo em pegadas que lhe serviam de degraus. D. Maria seguia-os, atribulada.
O marido estava na hoste de el-rei, e o requestador que traíra a Pátria ia muito para a frente, com os feridos e os doentes, ainda em perigo de vida.
Mas foi preciso parar porque Madalena desmaiara.
Pelo caminho, atravancado de liteiras, os cavaleiros só podiam avançar a um de fundo.
Os dois da frente, Gascões de soberbo aspeto, gritaram uma bravata atroadora, e logo o primeiro enrista a lança contra Vasco Eanes. O outro procurava ladear por entre duas liteiras para investir de flanco ou pelas costas o possante guerreiro que lhes fazia rosto.
— Eh! Bragantão (*) de Gasconha, que tens homem para ti! — clamou-lhe Vasco Eanes, opondo ao golpe da lança o arnês que lhe defendia o arcaboiço de atleta.
[(*) No sentido de ser um aventureiro libertino.]
Contava com a sua força excecional e com aqueles músculos de ferro, que eram o assombro de todos os seus companheiros.
A haste da lança do Gascão quebrou-se com a violência do choque. Vasco Eanes aguentara-se, com a perna direita retesada para trás como a servir-lhe de espeque.
E logo, enquanto o Gascão oscilava na sela, deu um salto para a frente e cravou nos peitos do cavalo a adaga que empunhava na mão esquerda.
O animal foi a terra arquejante, tocando com a testeira de ferro (*) no peito de Vasco Eanes.
[(*) Peça de armadura que defendia a cabeça dos cavalos de batalha.]
— Gascão, a pé como eu!
Ladeou pela esquerda e foi para o cavaleiro derrubado. Na precipitação de se destribar, por tal modo o Gascão se desequilibrou, que foi abaixo para o mesmo lado em que o cavalo caiu, ficando debaixo dele, numa agonia lancinante.
— Agora outro! — gritou o jovem algarvio.
Não era preciso o repto, porque a lança do segundo Gascão, errando o golpe que lhe dirigira ao rosto, sem viseira que lho defendesse, deu-lhe em cheio no bacinete, fazendo-o recuar, estonteado.
A este tempo estava o Magriço rebatendo diante da sua formidável espada um grupo mais audaz de escudeiros e pajens, mas já para a frente chegara aviso daquele conflito e os Gascões e Bearneses que iam como batedores voltavam para trás a galope desfechado.
Vasco Eanes lograra segurar-se de pé, graças à sua longa espada, que fincara no chão para se apoiar durante instantes de estonteamento.
O Gascão apertava com ele e alguns dos outros, que se lhe seguiam, tinham metido por entre as liteiras, vista a impossibilidade de passar para a frente de outro modo.
Numa tremura de pavor, dando gritos e chorando, confrangidas, as damas castelhanas tinham fugido ainda mais para a frente, já para além da liteira real, que o físico mandara encostar à esquerda do caminho para seguir como fosse possível. Muito acabrunhados de medo, porque a primeira impressão foi de que estavam sendo atacados pelas avançadas da hoste de Lisboa, os jovens das outras liteiras, os menos timoratos, iam seguindo o movimento daquela em que ia a rainha; algumas, porém, estavam imobilizadas no meio da estrada porque os condutores tinham fugido.
Era agora gravíssimo o lance em que se viam comprometidos os nossos três aventureiros.
Vasco Eanes ia já recuando para a ribanceira porque eram três os cavaleiros franceses que o acometiam de frente e de flanco; a poucos passos do Algarvio, o Magriço, não já a conter os escudeiros e os pajens, mas a defender-se de um grupo de bearneses que viera da frente à desfilada; grupos de cavaleiros castelhanos, metidos pelos vinhedos e carreiros marginais da estrada, corriam a rebater a investida e a defender as damas da corte.
Ruy viu tudo isto de relance numa cara de remorso.
De joelho em terra com a sua pobre noiva nos braços, ali estava numa inatividade humilhadora de pajem adolescente, enquanto os seus dois valentes companheiros expunham a vida e iam talvez perdê-la por causa de um louco arrebatamento seu.
Vibrando por entre o estridor das armas, a tropeada dos cavalos e a vozearia de Castelhanos e Franceses, ouvia-se distintamente a voz formidável do Magriço:
— Pela nossa terra!
E, já ferido, ia recuando também para o lado da ribanceira a resfolgar como um leão embravecido, o espadagão a escorrer sangue e já meio embotado nos peitos de ferro do inimigo.
— Pela nossa terra! — repetiu num grito Vasco Eanes, também já ferido no rosto e no braço.
— Senhora, ânimo; velai por ela! — disse Ruy convulsivamente, pousando nos braços de D. Maria de Mendonça o corpo inerte da filha.
Arrancou da espada e correu para baixo, bradando:
— Namorados! Pela nossa terra e pela minha dama!
Foi um ímpeto leonino, que logo um pouco desafrontou os seus dois companheiros e deu oportunidade a que se agrupassem, opondo mais enérgica resistência.
Um jovem de liteira, empoleirado no tronco de uma oliveira morta, à qual trepara, apavorado, anunciou que vinham já de carreira muitos peões. Eram os besteiros das avançadas do exército real, que marchavam a cerca de um quarto de légua atrás dos esquadrões, na cauda do préstito.
Em cima, no socalco da ribanceira, de joelhos, olhos afogados de lágrimas, D. Maria chamava a si a filha e agitava-a nos braços, numa tremura aflitiva.
— Filha! Filha da minha alma!... Ânimo!... Para fugirmos!
Ruy fazia prodígios de bravura, a rivalizar e já a exceder os seus intrépidos companheiros, a quem o cansaço e a perda de sangue um pouco iam já quebrando aquela admirável intrepidez, que nos primeiros arranques parecera indomável.
Três cavaleiros inimigos estavam em terra e dois deles feridos de morte.
De repente, a espada do Vasconcelos quebrou-se contra as grevas de um Bearnês. O aço estilhaçou numa vibração aguda e seca a lembrar o grito de morte de uma ave selvagem.
Ruy enfiou. Ouvira a voz suplicante de Madalena, chamando por ele.
De relance, baixou-se para apanhar a lança quebrada de um inimigo agonizante e com ela se defendeu ainda uns instantes, intrepidamente.
— Ruy, temos de subir! — disse o Magriço, mima, voz já um pouco enfraquecida — Enquanto podemos.
— Eu ainda vos posso ajudar — acudiu Vasco Eanes, cujos ferimentos não tinham gravidade.
Mas em cima, do socalco, vibraram trementes dois gritos aflitivos como de duas almas que se espedaçassem.
— Por piedade! A minha filha!
— Rui!
Num movimento arrebatado, o Vasconcelos voltou-se. Já pelo carreiro da ribanceira iam besteiros de Castela e dois deles tinham deitado as mãos às pobres senhoras, tolhidas de pavor.
— Companheiros, para cima! — gritou, aturdido, galgando de salto as primeiras pegadas que iam dar ao socalco a cinquenta passos acima.
— Por minha...
Não pôde concluir o moto. O virote de uma besta dos Castelhanos fora cravar-se-lhe no pescoço, e caiu de bruços, a golfar sangue.
Quatro besteiros levavam quase de rastos D. Maria de Mendonça e a filha, em tal pavor, que nem já podiam gritar.
E logo, como se fosse alcateia de lobos a farejar a presa, o bando dos besteiros desceu para se apoderar daquele que parecia mortalmente ferido.
Num supremo esforço Vasco Eanes conseguira dar a mão esquerda ao Magriço para o ajudar a subir e com a direita ensarilhava aquela formidável espada, a que a sua força hercúlea dava uma agilidade prodigiosa. O seu propósito era alcançar a ribanceira por onde os cavaleiros não poderiam segui-lo.
— Vasco Eanes, o nosso Ruy caiu! — avisou amarguradamente o Magriço.
A este tempo já os besteiros tinham levantado o corpo do Vasconcelos, que não dava sinal de vida.
— Não está morto — disse um deles.
— Leva-se.
Mas quatro homens de armas, de bacinetes emplumados e cotas de armas de cavaleiros fidalgos, tinham aparecido na extrema alta do pinhal.
— Ali... Os nossos! — disse um deles.
— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — bradaram os de cima, correndo para os companheiros, de espadas erguidas.
— Eh! Ralé de castelhanos! — clamou um deles, investindo com os besteiros.
— A nós, Namorados! — gritou Vasco Eanes com todo o alento da sua alma.
Tinha-os adivinhado naquele brado de guerra, que não podia ser de outros.
E enquanto, a meio da ribanceira, um deles dispersava às estocadas os besteiros que se tinham apossado de Ruy de Vasconcelos, os outros, em baixo, protegiam a retirada do Magriço e de Vasco Eanes.
— É preciso sair daqui — avisou rapidamente um dos recém-chegados — Foi uma loucura!
Supondo que tudo aquilo fosse ardil para um ataque em forma das forças de Lisboa contra o exército em marcha, os cavaleiros franceses e castelhanos desistiram da perseguição, e uma parte deles se concentrou à retaguarda das liteiras, já todas em movimento para a frente, e outra parte retirou a galope a levar aviso ao grosso da hoste.
Os besteiros, esses tinham fugido como corças, mas os primeiros que tinham descido levaram consigo a desventurada Madalena e a sua mãe.
* * *
Subiram os do esquadrão dos Namorados e meteram-se ao pinhal, levando nos braços o Vasconcelos, que ainda não tinha voltado a si.
Ninguém do inimigo os perseguiu, talvez pela suspeita de que no pinhal outros houvessem preparado alguma emboscada.
Iam profundamente entristecidos. Todos eles percebiam que era gravíssimo e podia ser de morte aquele ferimento do seu brilhante companheiro. Já por duas vezes tinham procurado estancar-lhe o sangue e afinal lhe tinham improvisado uma ligadura.
— Ali acabaríamos, se não viésseis! — ia dizendo Vasco Eanes, depois de lhes ter resumido o que sucedera.
— Saímos com ordem de vos procurar e levar para bordo sem delongas. A vossa demora causava preocupação e o patrão da galé está com receio de que o Mestre o venha a saber.
— Isso se há de evitar com auxílio vosso — disse sumidamente o Magriço, muito amparado a um daqueles companheiros que lhe tinham acudido.
Ia ferido no braço esquerdo e numa perna.
— Dizei vós a todos — pediu-lhe — que fomos apanhados de surpresa na extrema do pinhal... E não tivemos remédio senão combater. O que vos pareça melhor... Contanto que o Mestre não saiba, nem ele nem outrem... O motivo porque foi esta briga. O nosso pobre Ruy!
— Já falta pouco para chegarmos à praia.
— Para o hospital — disse Vasco Eanes — ou para casa da mãe é que nós o devemos levar!
E logo muito baixo:
— Cuidado quando ele voltar a si. Não lhe digais de chofre que levaram Madalena. Avisai em segredo esses que o trazem. Pudesse eu ter visto que as levavam, e de bom grado as defenderia, ainda que a vida me ficasse lá.
— Meu Deus! — disse baixo para o outro, Gil Eanes da Costa, indicando o Vasconcelos — Se o virote que o feriu estaria ervado?! (*)
[(*) Era costume ervar as garrochas, os virotes ou virotões das bestas com ervas venenosas e, principalmente, com helleborus foetidus, a que chamavam ervabesteira ou dos besteiros. A besta foi a arma de mais mortíferos efeitos nos últimos séculos da Idade Média pois feria e matava de longe.]
Ruy deu sinal de si, descerrou os olhos lentamente, e murmurou um nome, que por duas vezes foi truncado por golfadas de sangue.
— Madalena! — disse a dizer mais claramente.
— Ide tranquilo disse-lhe, carinhosamente, um deles — Aqui vos levam os vossos companheiros, como irmãos vossos.
Tornou a cerrar os olhos e não falou mais. Tremeluziam lágrimas, a desprenderem-se-lhe das coisas humanas, vibravam então mais intensamente os sinos da cidade em repiques triunfais.
* * *
O rei de Castela fora prevenido do sucedido e mandara numerosa peonagem para flanquear o exército e observar o terreno de um e outro lado da estrada. Tardia precaução; ninguém tinham encontrado.
Era lenta a marcha. Na frente, o préstito de Castela maiores vagares impunha naquela retirada.
O sol, já por cima das montanhas, tinha fulgores de apoteose que se espelhavam nas armadura magníficas dos grandes de Castela e dos fidalgos de aventura da Gasconha e do Bearne.
Iam acabrunhados os soberbos invasores e, mais talvez do que nenhum, porque era um doente, aquele poderoso rei das Espanhas (*).
[(*) O Aragão e a Navarra constituíam ainda Estados independentes. Granada era um reino muçulmano de tradições brilhantes, com o qual as armas espanholas ainda isoladamente se não atreviam; era aquele o derradeiro domínio político dos mouros na Península.]
E quando, num alteamento da estrada a colear o dorso de uma colina, mal se viam já as torres da cidade a esfumar-se no horizonte, el-rei sofreou o seu soberbo alazão de jaezes rutilantes e, voltando-se para o lado da insubmissa capital do país que julgava seu, disse num gesto teatral, erguida no ar a destra ameaçadora, os olhos rasos de lágrimas:
— Lisboa, tanta graça me faça Deus, que ainda te eu veja lavrada do ferro dos arados!
CAPÍTULO XVII
A VINDA DE NUNO ÁLVARES
O mês de Setembro quase se passou em procissões de penitência e em festas de igreja, num fervor piedoso de ação de graças pela constância heroica do povo de Lisboa, em tantos trabalhos e misérias durante aquele cerco, do qual providencialmente se vira livre.
A mais comovedora das procissões penitenciais foi logo no dia 6, quer dizer, no dia seguinte àquele em que o exército de Castela se afastou de Lisboa.
A procissão saiu da Sé para o mosteiro da Trindade, que ficava então muito chegado ao lanço da muralha, entre as portas de Santa Catarina e a torre de Álvaro Pais.
Iam todos descalços, desde o bispo com o seu pontifical magnificente e do Mestre com o seu manto branco de freire de Avis, até à ralé esfrangalhada que padecera mais fome durante o cerco. E naquela penitência igualitária, as damas que tinham uma preclara estirpe de condes, príncipes godos até às mulheres sem avoengos, rústicas sem apelidos e sem sapatos, as que tinham combatido nas muralhas, ombro a ombro com os homens de armas, essas cujos pés, sempre nus, já se não podiam magoar na terraça das ruas nem ferir nos calhaus soltos das calçadas.
Os sinos dobravam pelos que tinham morrido nas misérias e nas lutas do cerco.
Entre as penitentes de mais insigne hierarquia e de mais angustiada devoção, dava nas vistas de todos e punha dó em todos os corações certa dama de cabelos embranquecidos, a soluçar rezas com os olhos afogados de lágrimas, numa trágica palidez o seu rosto ainda formoso. Iam ao seu lado, comovidamente, como para lhe serem amparo, um monge de longas barbas e um aio antigo, de trémulo andar e arcaboiço dobrado.
A penitente chamava-se D. Dulce de Vasconcelos. Na véspera lhe tinham levado para casa o filho gravemente ferido. Estava em perigo de vida. Era por ele que ia rezando aflita, com os olhos a escorrerem em choro e os seus pés nus de fidalga a escorrerem sangue.
Para que a Mãe de Jesus se lhe apiedasse dele e lho salvasse. Entrou a procissão na igreja daqueles padres que mais tinham ajudado a defesa da cidade, e D. Dulce, quase a arrastar-se, já não pôde ir além do último degrau do templo. O terreiro em frente estava apinhado de gente que não pudera entrar.
Tinha subido ao púlpito um padre da ordem de S. Francisco. Mestre Rodrigo de Sintra lhe chama Fernão Lopes.
— Misericordiam fecit nobiscum — gritou o frade numa voz cava e pungidora.
E logo traduziu em vulgar aquele tema do sermão:
— Grande misericórdia fez Deus connosco.
Foi longamente erudita a pregação do franciscano, mas D. Dulce mal pôde ouvir metade do exórdio. As forças de todo lhe faltaram, e Mendo Rodrigues teve de chamar os jovens da liteira brasonada com o escudo heráldico dos Vasconcelos.
E quase desmaiada a levaram para o seu velho palácio, onde entrara um das maiores dores humanas que uma mulher pode sentir. A sua dor de mãe pelo filho em perigo de morrer.
Que a outra maior, de suprema angústia, que a mais nenhuma se compara, seria a de o ver levar morto para essa ausência que se não acaba nunca.
* * *
Dias depois chegou ao paço de Apar S. Martinho um escudeiro português, que estivera prisioneiro dos Castelhanos, logo desde o começo do cerco e em Torres Vedras lograra fugir-lhes.
Contava que o exército inimigo ocupava a vila e todos os seus arredores e já tinha uma parte avançada das suas forças a caminho de Santarém. Mas a notícia mais importante que ele trazia era a de estar el-rei de Castela enfermo em Torres e a Rainha ainda em perigo de vida, por causa da peste que a salteara em Santos com carácter benigno, mas depois se lhe agravara durante a jornada.
Além destas informações, que podiam tornar-se públicas, trazia o escudeiro outras de carácter reservado e de observação pessoal, que só em particular queria comunicar ao Mestre.
Seria preciso que esperasse, pois que o infante bastardo estava então nos seus aposentos com o doutor João das Regras e o Juiz do Povo.
Não foi longa a demora.
Afonso Eanes saía atrás de João das Regras, mas a poucos passos o chamou o Mestre como se alguma coisa lhe houvesse lembrado.
Foi com ele para o vão de uma janela.
— Dai-me cá uma informação, que de todo me ia esquecendo pedir-vos por causa destas tantas coisas de gravidade em que é preciso pensar. Ruy de Vasconcelos como está?
— Ainda bastante mal, Mestre e senhor! Pequenas melhoras; o físico ainda a torcer o nariz quando por ele lhe pergunto.
— Mas não dá esperanças de o salvar?
— Isso dá, porém muito fugidias e em palavras tão sumidas, que eu por mim até mais me oprimo quando sucede ouvir-lhas dizer, pois que o seu rosto como que lhas está desmentindo.
— E a pobre mãe?
— Só dele se afastou no dia da procissão de penitência, em que a vossa senhoria também ia. Com uma dor de alma que a todos faz dó, mas, coitada da pobre senhora, ainda com uma grande esperança a segurá-la ao pé do filho! O ferimento foi muito mais grave do que os outros companheiros julgavam!
— Tenho de tomar maiores, cautelas com o ânimo louco desses amores! Três dos mais destemidos e dos mais leais dos meus cavaleiros feridos na tal cilada em que eu não creio!
— Gil Eanes se curou e o outro depressa estará curado.
Referia-se ao Magriço.
— Bem sei, mas podiam ficar prisioneiros ou mortos naquele seu louco feito de desobedientes.
— Saber, Mestre, só sei o que eles contaram. Ruy de Vasconcelos ainda não pode falar e mal consegue rouquejar uma vez por outra, quando a febre mais aperta com ele, o nome da mãe... E outro nome...
— Que eu sei, mestre Afonso Eanes. O nome de certa peregrina dama que ia acompanhando a Rainha de Castela. Por ela seria o feito; razões de sobra tenho eu para o afirmar. Na hoste de Castela também há traidores que fogem para cá e esses tais muito informam para ganhar as boas graças de quem lhes possa fazer favor. Mas eu sou de segredo — acrescentou, sorrindo — e ninguém por mim saberá o modo como os meus cavaleiros amorosos se iam perdendo temerariamente. Que talvez lho diga a ele um dia sozinho, e que Deus faça o favor de lhe dar vida para me ouvir. Ficará no recato deles e no meu esse caso de desobediência por amores, na conjuntura em que a Nação carece de todo o esforço dos seus homens para se não perder! Nenhum escrevedor de contos poderá revelá-lo a quem vier depois de nós. Feito assim temerário me tinha pedido licença para intentar com a sua hoste o meu grande amigo e dileto irmão Nuno Álvares, e daqui lhe neguei a permissão que me solicitava com os maiores pedidos. E era para honra de Portugal e proveito desta nossa causa que ele me fazia o pedido!
Estava a referir-se aos pedidos que Nuno Álvares lhe mandara fazer no dia 5 para o autorizar a transpor o Tejo com a sua hoste sob a proteção das galés, e ir da margem de cá a investir de flanco o exército inimigo em retirada.
— Era tresloucado arrojo — continuou o Mestre — ir com dois ou três mil homens de guerra e uma centena de cavalos sobre um exército, que não levaria ainda menos de dezoito mil com poderosa cavalaria! Pois a outra dos nossos loucos Namorados ainda foi pior! Enfim, o desvairo já lá vai e tudo se há de esquecer, pois em Deus espero que Ruy de Vasconcelos seja connosco em outras conjunturas graves, que talvez não tardem muito. Até depois, mestre Afonso Eanes. Dizei a D. Dulce que em dia próximo lá irei levar-lhe os meus votos pelas melhoras do filho.
— Assim lho direi, Mestre e senhor.
— E também amigo vosso. Que vos não esqueça este título com que me ufano, senhor Juiz do leal povo de Lisboa.
— Não se atreve a dizê-lo a boca, Senhor, mas quem mais o diz e lembra é o coração. Um tanoeiro como eu não deve nem sequer esquecer que o seu maior amigo é o filho de um rei.
— Certo é que o sou, Afonso Eanes — disse-lhe a sorrir, pondo-lhe a mão no ombro — Mas também eu me não esqueço que pela minha mãe sou muito da vossa condição. E ainda que assim não fosse, homens como sois só por afronta se podiam comparar a esses de gloriosos avoengos, que para o rei estrangeiro se passaram ou venderam como ciganos ou pelo seu maior interesse mudaram de bandeira como renegados vilões que são.
— Agradecido, amigo e senhor meu! — disse comovido, beijando-lhe a mão arrebatadamente.
— Juiz do Povo, que vos enganais! — volveu-lhe de gracejo e num estremecimento de surpresa.
— Senhor, não. Em nome do povo foi que vos beijei a mão e um dia, breve ele vos dirá que o seu juiz se não enganou.
— Boa intenção de amigo é que foi — replicou-lhe, abraçando-o num alvoroço que o afogueara.
— Eu o contarei ao povo e ele doutro modo vos dirá a vós, senhor Infante.
Curvou-se e saiu. Instantes depois, o Mestre estava em conferência à porta fechada com o escudeiro fugido de Torres.
Quando o trânsfuga saiu, D. João dizia consigo:
— Outro a confirmar o que eu já sabia! Ruy e os dois loucos que iam com ele chegaram a ter a dama por sua! E de um lado, para a frente, duzentos cavaleiros de França e de Castela, do outro lado não menos seriam, afiança o escudeiro, e toda a hoste em marcha! Loucos! Loucos! Muito debaixo da sua mão misericordiosa os teve Deus! Mas, enfim, boa notícia me trouxe o escudeiro para eu dar ao jovem Vasconcelos quando ele melhorar.
E ficou por momentos a refletir encostado ao peitoril da esguia janela gótica. O sol iluminava alegremente as montanhas da Outra Banda e fazia cintilar as vagas miudinhas do rio, arrepiado por uma brisa áspera da barra.
— O pior é a outra nova do escudeiro. El-rei de Castela não desiste da herança e está no propósito de ir buscar às Espanhas maior poder de homens para voltar! Pois se me não faltarem os homens leais de Portugal, cá o hei de receber, e de vez ficará arrumado o negócio da herança e o pleito de vida ou de morte em que está Portugal.
Pouco depois chegava o Arcebispo de Braga.
O Mestre confiou-lhe uma parte das informações que o escudeiro João Aires lhe trouxera.
Entre as que já conhecemos, esta outra, que tinha importância.
Às récuas de muares que para Torres tinham levado os caixões, os ataúdes como diz Fernão Lopes, com os mortos ilustres, salgados em Sintra, juntaram-se outras, não menores com os despojos fúnebres dos que estavam depositados em Alenquer.
Não eram somente grandes nas Espanhas aqueles mortos, senão também os mais experimentados capitães que tinha Castela.
O próprio rei confessara com os olhos rasos de água, diante de muitos e até de João Aires, que lhe faziam falta para quando chegasse a hora de acabar a contenda no desbarato dos rebeldes chamorros.
— Pois tanto melhor, e por tal fortuna para nós, maiores louvores a Deus — volveu-lhe o Arcebispo — Quando voltar com os seus capitães noviços, Mestre, aqui estaremos nós para lhe ensinar como as batalhas se ganham de cá e se perdem de lá, e bom mestre já eles sabem que o hão de ter em Nuno Álvares, se de todo não houvessem esquecido a valente sabatina dos Atoleiros.
E dizia esta farroncaria a sorrir aquele príncipe da igreja metropolita de Braga, caudilho e condestável de quantos frades e clérigos brigões tinha Lisboa.
* * *
Estava a entrar Outubro e chegara a notícia de que o rei de Castela deixara poderosamente reforçadas as guarnições de Alenquer, Torres, Santarém e outras povoações muralhadas que tinha por si. Dizia-se mais que ia ir para Santarém com os restos do seu exército.
Parecia finda aquela campanha de 1384.
Em cinco anos era a quarta na guerra com os Castelhanos e tudo estava indicado que não seria a última!
Apesar das guarnições castelhanas de Almada, de Sintra, e das outras de Alenquer e Torres, a pequena distância de Lisboa, aquela invasão abortara; mas as condições materiais da capital em pouco tinham melhorado.
A ralé ainda passava fome. Os arredores tinham sido devastados pelos sitiantes, e por mar nem um bago de trigo nem uma pitada de farinha poderiam trazer à pobre cidade, porque as naus e galés de Castela bloqueavam a barra e oprimiam Lisboa desde o Rasteio até Santos e dali, numa linha ameaçadora, até Almada, com a bandeira castelhana a flutuar alta no seu castelo secular.
Nas suas impaciências de caudilho inativo, Nuno Álvares mandava da Outra Branda (praia do Montijo), por alta madrugada ou pela calada da noite, emissários seus com pedidos ao Mestre para lhe consentir que passasse o rio com a sua hoste; mas nos pequenos batéis os emissários voltavam com recados dilatórios ou vagas promessas de D. João.
O Mestre hesitava em deixar Almada livre dos receios que lhe causava a gente de armas do jovem vencedor dos Atoleiros, forte na sua posição formidável de Palmeia, e tinha em muita dúvida o bom êxito de uma travessia de dois ou três mil homens a tão pequena distância da poderosa armada inimiga, cujos navios ligeiros podiam subir rapidamente até Sacavém, sem que lho conseguissem impedir com seguro êxito as nossas poucas e mal guarnecidas galés.
Mas o leão juvenil sentia-se opresso no cerro acastelado de Palmeia, e resolveu ir para Lisboa a falar ao Mestre no tocante a essa futura campanha, que todos entendiam inevitável e previam próxima.
E apesar de quantos rogos lhe fez o seu devotado escudeiro Vasco Martins do Outeiro, desceu de Palmeia para ir meter-se num batel, era já noite adiantada (30 de Setembro).
Saiu o escudeiro com aquele jovem paladino que sabia vencer batalhas, mas não raras vezes também cometia loucuras de temeridade na febre do seu irrequieto sangue e nos sonhos deslumbradores da sua fé religiosa, mística e assoberbadora.
E pelo caminho lhe foi reiterando as súplicas e fundamentando-as em certo sonho horroroso que tivera.
E já na praia instava ainda como apavorado:
— Senhor Nuno Álvares, eu por favor vos peço que não entreis nesse batel para irdes a Lisboa!
— E porquê, amigo meu? — perguntou-lhe, sorrindo, enquanto os remadores iam empurrando o batel para a água no silêncio daquela noite calma de Setembro.
— Senhor e amigo meu, por causa daquele pesadelo de que já vos falei.
— Ora, sonhos! Também eu já sonhei que estava numa grande batalha real e que, em menos de meia hora, a nossa gente comigo desbaratava a maior hoste que ainda algum dia aqui viera de Castela! Vede lá se em tão pouco tempo havia de estar acabado tão grande feito! Só se a nossa Senhora estivesse por nós e S. Jorge a batalhar connosco. Ou os Castelhanos fugissem intimidados como borregos.
— Mas olhai que os sonhos maus são a mor parte das vezes os que nos saem certos. Os meus sempre assim foram! E este de agora tinha coisas certas! Que saíamos de Palmeia e eu convosco, que entrávamos num batel como este, o céu todo cravejado de estrelas pequenas, mas de sumida claridade como está agora. Que da armada de Castela nos tinham percebido e de lá viera uma chusma de galés contra nós e nos tomara o batel. E vós, ferido e prisioneiro, e eu em tamanha angústia por vós, que todo o meu intento era matar-me!
— Pois vou eu desfazer-vos o sonho. Irei só com os meus pajens de armas e esses dois trombeteiros que aí vêm. Vós ficareis para desmentir o mau agouro.
— Senhor, tal não querereis, porque eu convosco desejo ir, seja para qual perigo for!
— Mas agora o não consinto eu. Dentro do batel sereis ave de mau agouro, meu querido Vasco Martins. Heis de ficar.
— Dais-me por isso uma grande mágoa, senhor e amigo!
— Embora. Acabará quando vos cá chegar a notícia de que cheguei a Lisboa são e salvo.
— Podemos largar já, senhor — avisou o mestre do batel.
— Vamos então. Vasco Martins, olhai de madrugada para o castelo de Lisboa. E se lá vires ao cimo da torre albarrã três fachos acesos, ficai seguro de que lá estou eu, e à igreja dos freires de Palmeia ide a dar graças pela minha boa viagem.
E saltou lesto para o batel aquele herói de vinte e quatro anos, que já tinha em volta de si uma lenda popular como os velhos heróis de eras remotíssimas.
Imobilizado na praia, o coração numa amargura de receios por aquele jovem temerário, Vasco Martins ia acompanhando com o olhar entristecido aquele vultozito negro do barco a sumir-se na alvura confusa das espumas.
— Mestre, de voga arrancada para baixo! — mandou Nuno Álvares.
— Senhor, mas em vez de atravessar para Lisboa, iremos cair na boca do lobo! — observou-lhe o mestre do batel a duvidar do que ouvira — Daqui se divisam já as luzes das naus e galés de Castela, que mais têm subido para dentro do rio!
— Bem sei, mestre. Mas para lá mesmo é que é meu intento ir.
— Mas, senhor, bem que eles lá estejam mal acautelados e pegados no sono, pois que já vai além de meia-noite, as vigias que lá hão de ter bondarão para pôr tudo em alarme. Metem-nos o barco no fundo ou nos apresam a todos!
— Tendes grande apego à vida mestre! Vá, remadores, mais pulso, e para baixo é que é.
Obedeceram, estarrecidos, mas não se atreviam a julgar enlouquecido aquele jovem de tamanho prestígio, cuja espada fazia milagres como se lha iluminasse uma estrela bem-fadada e todo o favor do céu lhe houvesse marcado o destino.
— Homem criado no mar, hás de saber nadar, não é assim, mestre? — perguntou-lhe baixo Nuno Álvares.
— Senhor, sei, e tanto como eu esses quatro que aí vão aos remos.
— Pois quando vires que o barco vai em perigo, atirai-vos à água, e Deus se amerceará de nós todos.
Estavam já muito próximos dos vultos negros das naus.
— Por entre elas, mestre — ordenou baixo Nuno Álvares — Quero ver como estão apercebidos, já que falta aqui el-rei de Castela para as passar em revista.
Iam confrangidos, numa tremura de apavorados, os tripulantes do barquito.
Cedamos agora a palavra ao velho cronista Fernão Lopes: Os das naus, quando isto viram, começaram de se alvoroçar, bradando todos: Armas, armas! E uns saltavam aos batéis, e outros vinham à borda, não sabendo que era aquilo».
Continuemos agora nós, sem abandonar as indicações históricas do cronista.
O barquito meteu por entre os grandes navios, a bordo dos quais ia uma barafunda espantosa. Alguns, supondo talvez que seria batel dos navios mais afastados da armada, perguntavam da amurada, numa grande estranheza, quem vinha e insistiam pela senha de reconhecimento.
— Nuno Álvares, o dos Atoleiros! — respondeu a voz alta e serena do batalhador, de pé à popa do barco — S. Jorge e Portugal! É a senha para a vida e para a morte! Homens, tangei as vossas trombetas! — mandou aos dois trombeteiros — Tangei-as para acordardes bem esses dorminhões de Castela. É preciso dizer-lhes que vamos nós aqui.
Veio um vendaval de ameaças palavrosas de cima das naus, mas já as duas trombetas vibravam alto, estridentes, como se fossem para uma alvorada triunfal.
E numas arrancadas de susto, pondo a alma nos pulsos, os remadores meteram o batel por entre as linhas das naus, sob cachões de espuma, com rapidez vertiginosa, como se fosse um peixe sobrenatural dos contos fabulosos.
Enorme barafunda a bordo, uma vozearia de insultos e de pragas naquela viva e pitoresca linguagem que tem a gente espanhola!
Ainda uns batéis tentaram perseguir o outro dos Portugueses, mas logo desistiram ou porque o nosso arrancava já no rumo da cidade, ou talvez pela sugestão de temor com que o nome de Nuno Álvares dominava o ânimo do povo rústico de Castela.
E, todavia, só a História sabe e pode dizer a perda enorme e talvez irreparável que seria para os insubmissos chamorros o aprisionamento ou a morte daquele rapaz de vinte e quatro anos, que expunha a vida como se ela fosse um brinquedo pueril ou como se uma promessa do céu lha houvesse algum dia assegurado!
Com as voltas no rio, Nuno Álvares chegou já de madrugada à Ribeira e logo ali foi acolhido com assombro pelos vigias da praia, que a princípio o não tinham reconhecido e estiveram quase a repulsá-lo, suspeitosos de que fosse algum traidor no projeto de os surpreender.
Mas, por fortuna, um dos vigias o conhecia bem do tempo do segundo cerco de Lisboa e logo completamente dissipou as suspeitas dos outros.
— Deixai, que é bem D. Nuno Álvares, o maior ânimo e a mais rija espada que tem Portugal! Em boa hora o traz Deus à cidade.
O campeador saltou em terra e logo os vigias e a ronda que chegara da Porta do Açougue começaram a vitoriá-lo freneticamente.
— Viva D. Nuno Álvares!
— O jovem capitão dos Atoleiros.
— O destemido do outro cerco da cidade!
E velozmente, de boca em boca, até às sentinelas dos muros, esta nova de alvoroço a voejar jubilosamente como se fosse o pregão de uma alvorada gloriosa.
— É Nuno Álvares que está aí!
— Foi Nuno Álvares que chegou, atravessando ao som de trombetas por entre a armada dos castelões! — pormenorizavam os que na praia tinham já ouvido contar o arrojo aos pajens e aos trombeteiros.
E todos estes dizeres iam penetrando na cidade, correndo de rua em rua na voz dos madrugadores, acordando de sobressalto os adormecidos, fazendo escancarar as adufas, pondo um rumor alto nos terreiros, trazendo para as portas da Ribeira uma multidão de povoléu na ânsia de rever aquele jovem batalhador, que lhe dava a imagem e o símbolo de uma Pátria remoçada e forte com que as almas da plebe andavam sonhando.
Todos queriam saudá-lo de perto, vitoriá-lo e revê-lo bem, no receio de que ali, subitamente, se lhe sumisse ou a estrela de alva lho levasse como a certo cavaleiro de um remoto conto de prodígios, que todos os velhos sabiam de cor.
E naquela receção, simples e glorificadora, ao vencedor dos Atoleiros, que havia largos meses não tinham visto, lhe foram tomando o tempo até que a madrugada clareou mais e as estrelas, como lâmpadas, se foram apagando no céu.
As mulheres rodeavam-no carinhosamente, e na sua alma devaneadora o supunham ver com as semelhanças de um arcanjo triunfador, que Deus houvesse mandado para acudir ao pobre Portugal amargurado e quase reduzido às duas altivas cidades de Lisboa e Porto.
Esta ilusão supersticiosa, que todas elas sentiam e nenhuma ousava dizer, como que se lhes volvia em realidade material nos fulgores daquele bacinete emplumado que ele trazia, naqueles seus olhos azuis de luz vaga e suave, que pareciam mergulhados numa atmosfera de sonho e de místicos ideais, naquele aprumo viril de paladino triunfador que nunca duvidara de si.
Parecia-lhes o recém-chegado de um país de lenda cujas fronteiras se extremassem nas estrelas.
Menos idealistas, os homens viam nele o mais destemido dos seus caudilhos e alguns se iam ficando a contemplar a bandeira que um dos pajens tinha erguido.
— É a sua bandeira das batalhas! — explicava um velho aos galeotes noviços — Olhai esta grande cruz vermelha ao meio, de alto a baixo, de lés a lés, e deste lado, entre os braços da cruz, do lado de cima o Senhor crucificado e à beira dele Nossa Senhora e o discípulo S. João. E aqui, do lado de baixo, nas outras duas quadrelas, os santos batalhadores de joelhos — S. Jorge e S. Tiago.
E em outro grupo o pajem que tinha ao ombro um montante, quase da altura de um homem, esclarecia que ao seu senhor D. Nuno mandara o Castelhano Pedro Sarmiento aquele espadão em gages de desafio para a batalha de Évora e agora o trazia sempre consigo o jovem cavaleiro, para com aquela boa e rija folha de Toledo honrar e responder ao repto, combatendo os castelões em defesa de Portugal.
Tinha passado mais de meia hora quando trouxeram da cidade para Nuno Álvares uma possante muar, lindamente ajaezada.
O paladino montou e entrou em Lisboa tomando para a rua Nova (aproximadamente na mesma direção da moderna rua dos Capelistas), dali seguiria direito ao Rossio para ir em devoção à capela da nossa Senhora da Escada, que era então, como já tivemos ocasião de dizer, a Senhora dileta dos Lisboetas.
Tinha de ir lentamente. O povo tomava-lhe o passo num frenesi louco de entusiasmo.
Na rua Nova, a mais faustuosa de todas as ruas de Lisboa, damas juvenis se debruçavam das janelas para o vitoriar.
Entretanto, na multidão, iam-se memorando as façanhas e gentilezas do recém-chegado.
Acolheu-se ao alpendre de uma casa grande, numa reentrância da rua, um grupo de conversadores, avessos aos encontrões da multidão e mais dispostos a desenferrujar a língua, contando casos, do que irem na onda dos curiosos, pondo em risco as carnes e os ossos.
Ali poderiam conversar tranquilamente. Ouçamo-los nós. É das proezas de Nuno Álvares que estão falando.
— E há três anos, quando foi do cerco de Elvas, tinha entrado por Castela, se o irmão mais velho e el-rei D. Fernando não têm mão nele!
— E nesse mesmo ano foi que ele mandou desafiar para combate de morte o filho do Mestre dos cavaleiros de Santiago.
— Foi, sim, mas também dessa vez o rei e o irmão Pedro Álvares lhe não consentiram que fosse lutar com o castelão.
— Bom sangue de Português antigo lhe anda a referver naquelas veias!
— E no segundo cerco de há dois anos?
— Esse foi também de grande padecimento para esta nossa terra!
— É verdade que sim. A arrancada que ele fez então pelas Portas de Santa Catarina!
— E foi dar consigo à ribeira de Alcântara para fazer uma espera à gente da armada de Castela, que desembarcavam para nos roubar. Deu-lhes uma boa esfrega, louvado Deus!
— Ah! Mas na volta, ali em Santos, é que esteve perdido! Vieram duzentos da armada contra os vinte e quatro de cavalo e os vinte e tantos de pé que ele levara consigo.
— Trinta é que foram.
— Pois foram; mas alguns tinham ficado feridos e já não podiam combater.
— Aquilo é que foi um aperto! Os nossos acobardaram-se e Nuno Álvares investiu sozinho contra os duzentos, numa tamanha fúria, que parecia um toiro enlouquecido! Quebra-se-lhe a lança e arranca da espada. Os castelões a fazerem-lhe cerco, a apertarem com ele, e aquele valente, que parecia ter em si todas as destemidas almas de Portugal, a ensarilhar a espada e a derrubá-los, que era um louvar a Deus.
— Foi antão que lhe mataram o cavalo.
— E foi esse o maior perigo! Tinha-lhe ficado um acicate preso à cilha do animal; porém, mesmo assim, se defendia para acabar ali como quem era.
— E os outros que fugiram a verem-no de longe, os bandalhos!
— Já o não podiam ver. Estava sumido na multidão dos castelões, a ladrarem-lhe pragas e a cerrarem mais sobre ele o cerco das suas lanças e espadões.
— Os que fugiram — interveio, afogueado, um dos Ouvintes esses fugiram porque um deles gritou que de todas os lados nos vinham cercando os da armada, depois tiveram remorso da sua fraqueza e, com o clérigo Vasqueanes do Couto, de besta em punho, foram socorrer Nuno Álvares e ao seu lado lutaram. Eu era desses. Mas sabei também que afinal, com Nuno Álvares adiante de nós a pé, de lança em riste, rompemos o cerco e de arrancada levamos os castelões até à praia. Parecia que os demos levavam asas nos pés, e foi de cambulhada que eles se escapuliram para os batéis! E lá se foram como galinhas chocas para as suas capoeiras embreadas, que é como quem diz, para as suas naus e galés. Setenta eram elas, que as contei eu quando entraram no rio e bem me lembro que foi pelos começos de Abril que elas entraram.
— E por meados de Agosto é que foi o feito de Santos.
— Coisas são essas que nunca a gente esquece, ainda que hajam passado muitos anos, quanto mais ao cabo de dois, feitos há um mês.
— Pois sabei lá — interveio um velho, que fora jovem cavalariço do paço no tempo de el-rei D. Fernando — que também de Nuno Álvares eu tenho algo que contar.
— Dizei, dizei — instaram.
— Ouvi lá! No meio do ano que passou fomos daqui para Elvas a levar ao rei de Castela a noivazinha que lhe tinham contratado.
— Maldito contrato foi!
— Maldito, que por ele vieram ainda mores desgraças para esta nossa terra!
— Dizeis bem, mas o que não tem remédio remediado está, e agora é resgatar a poder de sangue o mal que outros fizeram. A noiva de onze anos lá ia, coitadinha, com a loba da mãe e a melhor fidalguia de Portugal.
— E el-rei?
— Esse não foi. Tinha ficado doente ali em Almada; a deitar golfadas de sangue, a vida por um fio. Desgraçado rei e ainda mais desgraçado marido! A Nação não lhe podia querer bem e a mulher nunca lho quis! Mas, como eu ia dizendo, aquela senhora infanta D. Beatriz lá foi por essas terras fora. Triste como a noite, a rapariga real! E em cada sol-posto, de pousada, e em cada manhã de partida, cada vez mais longe de Lisboa, percebia a gente que os seus olhos mais tinham chorado as mágoas que a ninguém dizia. Eu a acompanhava, eu via-a. E sempre ao pé da Rainha aleivosa, o amante Galego, o Andeiro, que o Mestre depois matou!
— Só por isso ele merece que o façam rei.
— Enfim, chegamos à margem de cá do rio Caia e ali pusemos arraial, não longe dos muros de Eivas. Armou-se uma grande tenda de campo. Nela seria o banquete real para festejar aquela noivazinha, que levava em dote para o rei castelão, com a corça do pai, se de el-rei era filha, esta nossa terra de Portugal e a nós todos para vassalos do marido.
— Assim não há de querer Deus que seja!
— Nem ele, nem nós! — disse calorosamente o narrador — mas assim foi que esteve para ser por culpa de muitos fidalgos e por contrato e combinação em que o povo não foi ouvido! Mas agora é que chega o caso de Nuno Álvares. Veio o rei dos castelões dos lados de Badalhouce com a sua corte, de tal luzimento que fazia inveja ao sol!. E mal avistou a rainha de cá, Flor de altura e vergonha de mulheres honestas, logo se apeou e foi para ela, tomando à mão as rédeas da mula em que ela vinha e levando-a assim para em frente da tenda grande, em que se ia dar o banquete. Cavalariço como eu, real cavalariço aquele soberano de Castela e Leão, gente da ralé, porquê?!
— Por galante cavaleiro seria — acudiu uma mulher que estivera escutando — ou porque já Leonor Teles o houvesse enfeitiçado.
— Não, certo não, mulher de Deus! Com a noiva tamanina, filha da comborça, ia o dote cobiçado pelos reis de Castela, e a mão que segurava a rédea daquela mula um dia viria a segurar as rédeas do governo desta Nação, que à força de armas ainda não fora tomada. Aí está o que era. Bem sabia el-rei que prenda de criatura era a mãe da senhora Infanta, mas o dote era de estontear e por tal lhe depressou a sua homenagem como se em cima da mula fosse ali a santa rainha D. Isabel, que foi exemplo de mulheres casadas! Velhacarias do rei castelão, mas adiante. Entraram na tenda de campo el-rei com a linda boneja pela mão. A infantazinha ia triste e sumida ao pé da mãe. Foi de novelo por ali dentro aquela fidalgaria toda com as suas damas, donzéis, pajens e escudeiros, e mal a rainha e el-rei se assentaram à mesa logo cada qual buscou lugar que mais lhe aprouvesse, em guisa de pegureiros que dos cercos houvessem chegado famintos. Atrás de todos entrou Nuno Álvares com outro jovem da sua idade e da sua condição. Ia assim como quem fosse amotinado e vergonhoso. Nenhum lugar lhe tinham deixado os outros, e vai ele antão todo se curvou e disse para o companheiro, por modo que todos o ouvissem:
— «Não somos de prole para ter lugar ali! Pois maior honra para nos; porém ides ver que outros vão ficar sem lugar e hão de comer em terra». Com o rumor de tanta gente e a algaraviada das conversas poucos teriam dado tento destes dizeres. Eu ouvi, pois que me tinham mandado ali para dar ajuda aos outros, que iam servir aquela gente. E não éramos de mais. Mas também Iria Gonçalves, mãe de Nuno Álvares, que tinha ido como cuvilheira da senhora Infanta, também essa ouviu e pôs os olhos no filho, muito velada e receosa. Vai antão Nuno Álvares acercou-se da mesa dos fidalgos jovens de Castela e a eles lhes disse num trovão de voz: «A minha prole não troco pela vossa e muito honrado fico saindo; mas o vosso banquete o heis de comer no chão!» Deitou aquela sua mão, que maneja uma lança grande como se fosse um caniço, deitou-a com ganas de homem façanhudo a um pé da mesa e ela, e quanto em cima tinha, tudo foi bater em terra!
— Anda-me assim! — aplaudiu uma das ouvintes.
— Aquele é que é um jovem desenganado! — comentou um mesteiral.
— Boas febras do lado da mãe! — disse uma velhita.
— E mais do lado do pai, que não podia ser casado.
— Deixai lá, que temos aí um par de bastardos, que valem a olhos fechados metade de Portugal. O senhor Mestre e o senhor Nuno Álvares! E as mães de um e de outro muito pendem cá para a nossa condição — disse uma padeira, batendo com as mãos espalmadas no peito, orgulhosamente.
— Mas deixai lá contar o resto — interrompeu um mesteiral.
— Dizei o resto — pediu um alfageme velho.(*)
[(*) Alfageme era o barbeiro e também o que fabricava, consertava e polia espadas, lanças e adagas. Alguns exerciam cumulativamente os dois ofícios.]
— O mais foi que, nem eu sei porquê, toda aquela fidalgaria se encolheu, a fingir que não entendia o desafio! — continuou o narrador — Ficaram todos de pé, assim a modos pasmados daquele ousio. A pobre Iria Gonçalves deu um grito de pavor no receio de que logo ali lhe matassem o filho; e o Mestre, que lá estava também, ainda chegou a dizer numa tremura de voz: Nuno Álvares! Mas ele ia já a sair e então se voltou de arremesso para os fidalgos jovens de Castela: «Quem do meu feito se haja por ofendido, a mim me encontrará daqui fora, e quem eu sou o sabeis todos vós». E saiu. El-rei estava enfiado; a real comborça parecia de cera, mas os seus olhos deitavam lume. Só a infanta menina que ia ser rainha parecia estar num sonho, alheia a tudo aquilo, com o choro a luzir-lhe nos olhos, tristes como a noite. Foi o rei castelão quem primeiro deu desculpa a Nuno Álvares, considerando aquele feito como sinal de desvairo ou ciúme do jovem cavaleiro por alguns dos de Castela.
— Boas engolideiras tem o rei castelão — comentou um dos ouvintes — que de tal guisa desculpou o caso!
— E o banquete lá foi por diante, ledo e farto, bem falazado, e bem comido.
— Ora, pudera não! E Nuno Álvares?
— Todo aquele dia se ficou por ali próximo, a ver se alguém o buscava, e, como nenhum tal fizesse, com os seus pajens, escudeiros e jovens fugiu para as terras do Minho.
— E depois voltou para cá — acrescentou o alfageme — e em toda a parte aparece, tal como o nosso Santo António de Lisboa! Zurziu os castelões do Alentejo, que é o enxame de mais povo que tem Portugal, veio investir com eles em Almada e aqui o temos agora para algum outro feito maior.
— Reparai como repicam os sinos de S. Domingos! — disse a velhita — É que também os sinos estão com a tanta alegria que a gente sentiu de ver cá o nosso batalhador bem-querido e bem-fadado, benza-o Deus!
— E vamos indo para cima a ver quando ele sai da missa, ou aqui nos ficaremos pegados a falazar pelo dia adiante — propôs o antigo cavalariço do paço.
Concordaram, e todo o grupo que se aninhara no recanto do alpendre, a contar casos do herói, seguiu para o Rossio grande.
* * *
O frade celebrante acabara a missa e descia os degraus do altar da Senhora da Escada.
Nuno Álvares erguera-se.
— Mulheres — disse alto uma velha de voz dominadora — três ave-marias a Nossa Senhora para que Ela seja em todos os dias a divina guarda do senhor Conde D. Nuno Álvares, em bem da nossa terra e da sua glória.
Sentiu-se um rumorejar de jubilosa aquiescência.
A proponente era a nossa conhecida tia Lourença.
Ao pé dela, de rosto embiocado, estava ajoelhada uma mulher nova. Era Leonor de Gusmão.
Nuno Álvares ajoelhou, comovido. A regateira rezava alto, na sua voz máscula, a parte evocadora da oração; a parte rogativa, a Santa Maria como o povo lhe chamava, era entoada por todas as mulheres numa triste melopeia.
— E pelas melhoras de Ruy rezaremos sós, nós ambas — segredou-lhe Leonor, mal acabaram de dizer a terceira ave-maria.
— Todas é que há de ser, que lho vou eu pedir — volveu-lhe baixo.
E logo no seu vozeirão solicitou:
— Mais uma ave-maria por caridade, para que a nossa bendita Senhora e Mãe dê melhoras a certo jovem cavaleiro, destemido defensor desta cidade, que pelos castelões foi ferido e às portas da morte tem estado e estará, se lhe não acudir a divina misericórdia. Eu muito vos peço, mulheres de Deus.
Algumas sabiam, ou presumiram quem era, e logo murmuraram o nome de Ruy de Vasconcelos.
Feita aquela piedosa reza, todas elas se ergueram e foram em fila à pia da água-benta para se benzerem ali, aspergindo-se umas às outras.
Nuno Álvares saiu. O terreiro estava apinhado de gente. Montava a mula que um pajem lhe trouxe pela rédea, quando uma voz lhe clamou febrilmente.
— Viva quem é a maior alma e a melhor lança que tem Portugal ao lado do Mestre!
— Viva! — clamaram centenas de pessoas, que se enovelaram para verem melhor o herói.
E a repercutir-se de onda para onda, naquele mar irrequieto de gente, o brado glorificador foi altear-se com mais intensa vibração no Rossio grande, já apinhado de madrugadores.
Ascendendo desafrontado pela crista dos montes, o sol punha fulgores radiantes no bacinete e no peito polido do jovem campeador quase envolto em nimbos de sonho e de lenda.
Já montado, Nuno Álvares tomou das mãos do pajem de armas o seu pendão branco recamado de imagens, e ergueu-o.
Iria com ele por entre o povo até ao paço do Limoeiro, deixando-o voejar alto na aragem daquela manhã glorificadora.
Mil pessoas como se tivessem uma só na alma romperam em gritos trementes de saudação, olhos rasos de água naquele pedaço de damasco, a simbolizar o paladino de miraculoso esforço.
— Senhor D. Nuno! — disse a tia Lourença, acercando-se dele à frente de um magote das suas mulheres batalhadoras.
— Dizei — volveu-lhe afetuosamente.
— Deixai que em louvor da vossa mãe, bendita mãe que tal filho deu ao Mundo, nós, as mulheres, beijemos a vossa bandeira. São estas da minha hoste que iam aos muros da cidade, como os homens, para combater os negregados de Castela.
A sorrir, o leão dos Atoleiros inclinou para elas o seu pendão de batalha.
Beijaram-no fervorosamente, a duas e duas, na orla franjada a ouro.
— Olhai cá — disse Nuno Álvares para a velha Lourença enquanto as outras iam beijando o pendão — Por qual jovem cavaleiro pedistes vós aquela ave-maria?
— Pelo valoroso Ruy de Vasconcelos, filho de D. Dulce Rodrigues de Vasconcelos.
— Ah! Que a esse bem o conheço eu!
— Pois por esse foi a intenção.
— Ferido dissestes que estava?
— Em perigo de vida, e daqui me vou a saber dele.
— Pois dizei lá a D. Dulce que muito lhe desejo as melhoras do filho e em pouco lá irei saber dele, e levar-lhe a ela as minhas homenagens.
— Senhor, sim, o vosso recado lá será entregue.
Nuno levantou o pendão e deu um sinal aos trombeteiros, que logo abriram caminho, tocando as longas trompas reluzentas.
— Ai, mulheres — dizia a tia Lourença — aquele é o anjo da guarda desta terra, tal qual esse arcanjo que ali têm os frades, todo de armadura doirada e espada de fogo!
— A bendita imagem do senhor S. Graviel — acudiu uma linheira nova, estropeando o nome do arcanjo Gabriel, que os escultores antigos representavam de capacete emplumado, couraça dourada, no ar, fulminadora, a espada flamejante.
— E a esganar debaixo dos seus benditos borzeguins de ouro a excomungada pescoceira de Belzebu — acrescentou outra, benzendo-se.
— Que é isso mesmo o que Nuno Álvares ainda há de fazer um dia ao leão gadelhudo de Castelha. E adeus, que eu tenho de ir agora saber de um ferido que está muito mal.
— Sim, mãe Lourença, vamos — disse-lhe Leonor na sua voz dolorida, como se vibrasse nela um timbre de mágoas que não tinham fim.
Afastaram-se as duas e lá foram a caminho do velho palácio de D. Dulce.
— Aquela embiocada é a tal que enlouqueceu? — perguntou uma rapariga a uma velha que era muito da tia Lourença.
— É, sim. A vida dela dava um conto de fazer chorar as pedras!
— Mas agora já não faz desatinos!
— Coitadinha! Quis Nossa Senhora que ela melhorasse, e foi talvez nas tantas lágrimas que tem chorado que a loucura se lhe afogou! Que a sua loucura nunca foi de toda a hora e daquelas que não têm cura.
— Não foi ela que ficou ferida na estacaria da Ribeira?
— Foi, sim, mas dessa ferida em poucos dias se curou. A pior é a outra, já antiga, que ela tem no coração, que essa talvez nunca tenha cura!
E foram seguindo com outras para o terreiro de Apar S. Martinho.
* * *
O Mestre de Avis já estava prevenido da chegada de Nuno Álvares. Logo ao romper da manhã o fora avisar o anadel dos besteiros que estavam na guarda das Portas do Açougue.
Esperava-o com fraternal alvoroço. Bem sabia que tinha naquele seu irmão de armas a melhor lança e a maior alma de Portugal, como o povo dizia.
As suas excecionais virtudes e os seus altos méritos em muito lhe resgatavam as temeridades de cavaleiro andante, já um pouco deslocado do seu tempo, e os arrebatamentos de sonhador místico nas incongruências da sua condição de batalhador. A fé religiosa era realmente a suprema força na alma crente de Nuno Álvares e o sonho a suprema poesia do seu coração de patriota.
Como os grandes homens de guerra de todos os tempos, Nuno Álvares acreditava no seu destino; mas para ele o destino vinha do céu na vontade de Deus. Como Napoleão, quatro séculos depois, o vencedor dos Atoleiros tinha também a sua estrela; mas esta era a estella mater dos místicos e dos ascetas, a estrela feita do olhar doce e piedoso da Mãe de Jesus.
O Mestre sabia compreender aquele jovem, quase da sua idade, e estimava-o como um poder prestigioso de que se não pode prescindir e como um irmão dileto cuja ausência nos enche de saudade.
Irmão de armas dissemos já que era. Irmanava-os o esforço, ainda que não os germanassem os corações. Pela causa da mesma Pátria lidavam, tinham idêntico ideal político, era a terra portuguesa o lar sagrado de ambos, e tão irmãos os fizera o acaso do nascimento e uma coincidência de circunstâncias, que até ambos eram bastardos e a mesma armadura infantil com que o Mestre recebera a sua iniciação de cavaleiro aos doze anos, servira também ao pequeno Nuno Álvares, pajem da rainha D. Leonor Teles, que pelas suas próprias mãos lhe cingiu a espada de cavaleiro.
Ao lado do homem político e do astuto e refletido diplomata que devia de ser e era o filho natural de Teresa Lourenço nas suas condições de chefe de um estado, convinha e era um poder de estímulo e de prestígio a alma imaculada e crente e o ânimo intemerato e rútilo daquele bastardo de Iria Gonçalves.
O próprio Mestre assim o entenderia, e eis aqui porque ele o estava esperando no paço do Limoeiro com aquele fraternal alvoroço, perdoando-lhe a insubmissa e temerária impaciência que o trazia a Lisboa. Que já não era a primeira insubmissão nem seria, provavelmente, a última.
E assim que o jovem natural do Alentejo entrou no terreiro do Paço, logo o Mestre desceu a grande escadaria exterior para ir ao seu encontro. Foi uma receção enternecedora.
— Amigo e irmão meu! — disse-lhe o Mestre, abraçando-o fervorosamente e beijando-o na face.
— Mestre e amigo meu! — exclamou D. Nuno, apertando-o contra si, comovidamente.
E logo dobrou o joelho e tentou beijar-lhe a mão como se ele já fosse rei.
O Mestre escusou-se insistentemente a semelhante homenagem e procurava erguê-lo, chamando-lhe irmão e o seu igual.
— E até vós, Nuno Álvares, muito mais fizestes do que eu, aqui encerrado. A mão vos devem de beijar a vós, que vencestes uma batalha, e por tal vos devo eu quantas graças me for dado conceder-vos em nome da Nação.
A insistência de Nuno Álvares venceu afinal, e como a um soberano lhe beijou a mão.
A ambos os vitoriaram então os fidalgos, com os olhos rasos de água, e como eles o povoléu, que enchia o terreiro.
Depois, o Mestre subiu com ele e lá foram os dois conferenciar acerca do que importava fazer naquela conjuntura de enormes dificuldades e gravíssimos perigos, pois que os recursos do País eram pobríssimos em homens de guerra, em navios, em dinheiro e até em armas.
Nem com algum socorro que viesse de Inglaterra se poderia reunir armada que valesse metade da que tinha Castela, nem exército que pudesse lutar com os Castelhanos, se não em perigosa desigualdade de número, tal como já sucedera nos Atoleiros.
* * *
Minutos antes, no paço de D. Dulce, uma velha heroica da ralé, a tia Lourença, subia a grande escada antiga para ir saber notícias de Ruy de Vasconcelos. Ao fundo da escadaria, num recanto escuro, ficara uma mulher que não quisera subir. Ninguém lhe poderia ver o rosto, que fora encantador e era ainda formoso, e ninguém lograria adivinhar em que tremura do coração e em que silencioso choro ela estava ali esperando.
Assim, como pedinte envergonhada à espera de uma esmola, aquela que fora dama da rainha e enlevo dos galãs da corte, quatro anos antes!
Veio falar à regateira o velhinho Gonçalves Vasques.
— Ah! Sois vós — disse, reconhecendo-a, porque ela ia lá todos os dias.
— Venho à minha devoção. O senhor Ruy, vosso amo?
— Poucas melhoras, se algumas tem! — respondeu-lhe tristemente — Parece que não quer Deus ouvir-nos, nem àquela amargurada mãe e senhora minha, que tanto tem padecido pelo filho!
— Já hoje eu rezei por ele, eu e outras, depois da missa das almas no altar da nossa Senhora da Escada, e a ela assistiu o senhor Nuno Álvares.
— Nuno Álvares! Então ele está agora em Lisboa?!
— Chegou cá esta madrugada.
— Não sabia! E não admira. A tristeza encheu esta casa e não há cabeça nem coração para pensar noutra coisa e senti-la, que não seja na doença daquele nosso querido e mal-aventurado fidalgo!
— Pois Nossa Senhora nos ouça a todos e vos melhore. Eu trazia um recadinho do senhor Nuno Álvares para a nobre senhora desta casa.
— Ninguém a arranca de ao pé do filho. Só no dia da grande procissão de penitência quis sair, pois tamanha devoção e esperança era a sua, que lhe pareceu traria de lá a saúde daquele filho!
— Pois então dai-lhe vós o recado, que tanto monta como dar-lho eu.
— Sim, dou; dizei.
— O senhor Nuno Álvares manda-lhe o seu voto pelas melhoras do filho e prometeu vir cá brevemente para prestar sua homenagem à nobre senhora.
— Está bem, e muito obrigado por ela. Ide descansada, que o recado lhe será entregue.
A tia Lourença desceu. Leonor veio logo ao seu encontro, numa aflitiva impaciência.
— Mãe Lourença, dizei — pediu-lhe sumidamente — Piorou?
— Não; louvores a Deus. Vão as melhoras indo devagar, muito devagar para o que a mãe e nós desejávamos — respondeu-lhe com intenso dó.
E logo saíram.