A Ala dos Namorados
Capítulo VIII · Graves Revelações
Ás nove horas as monjas estavam já recolhidas nas suas celas e poucas talvez ainda acordadas.
A própria vila parecia já adormecida. Apenas numa taberna se jogava à porta fechada. A povoação era pacífica, de gente morigerada, e o uso do tempo era deitar cedo para levantar ao romper da madrugada.
Mas nos aposentos reais do mosteiro umas poucas de pessoas estavam ainda acordadas.
A rainha D. Beatriz conversava na sua câmara, havia cerca de uma hora, com Madalena de Mendonça.
A mãe de Madalena ficara na sua câmara, rezando.
A velha camareira-mor da Rainha-menina, que já às 8 horas andava a pender de sono, fora deitar-se por ordem da sua real ama. Qualquer das cuvilheiras — dissera-lhe D. Beatriz — a iria ajudar a despir, quando quer que o sono lhe chegasse.
Como ali no mosteiro um pouco se quebravam os escrúpulos da pragmática e das etiquetas do paço, etiquetas que chegavam a tocar as raias de uma opressão ridícula, a camareira-mor não estranhou a concessão nem se deteve a lembrar a pragmática.
Morta por dormir andava ela e poucos instantes depois estava profundamente adormecida.
A própria Rainha fechou por dentro a porta que dava comunicação para a outra câmara onde a velha e altiva dama dormia. Precisava desafogar com aquela sua amiga dileta. Falavam baixo, muito chegadas uma à outra.
Conversa de amarguras teria sido, porque ambas tinham uma expressão de mortificadas e ambas choraram.
— El-rei quer! — disse D. Beatriz — E só para os meus pedidos se não dobra a sua vontade, que os outros torcem como se fosse um vime!
— Senhora minha, mas agora que o outro morreu, porque estranha crueldade quer el-rei tirar-me daqui e levar-me para a corte como se eu fosse uma das suas vassalas? — disse Madalena numa voz de angustiada que fazia dó.
— Os infortúnios da guerra têm-no enfurecido contra os que são da nossa terra. Da nossa! Também eu lhe chamo ainda minha, e ninguém de lá me quer a mim! Soube, para além do mais, el-rei, não sei quem lho disse, que o noivo do teu coração era um desses de mais bravio lutar naquela tamanha batalha que se perdeu... Que el-rei perdeu e não há súplicas que o demovam do seu propósito.
— Pois, senhora da minha alma, muito me doem as amarguras do vosso coração, desde menina mortificado; muito podeis como rainha, muito vos devo pela vossa afeição...
— Como se fosses irmã minha, muito querida — interrompeu enternecidamente — daquelas irmãs a quem tudo se confia, até os queixumes que ninguém mais há de ouvir, até as lágrimas que se choram dentro de alma, que nenhum estranho as possa adivinhar!
— Eu sei, Senhora, e bem vistes já com que mágoa vos ouvi o segredo desses vossos pesares, que a mais ninguém deixais perceber.
— Mais do que pesares, minha querida Madalena! Martírio é o nome que têm. Sem esperança e cada vez maiores.
— Senhora, tudo isso entendo, mas perdoai. Daqui me não hão de levar, porque eu daqui não quero ir. Noiva serei como viúva, mas daqui me não hei de afastar.
— Mas olha cá, Madalena — disse-lhe, puxando-a para si e beijando-a — A ordem de el-rei tem de se cumprir. Outros aí vêm para a fazer executar, ainda que eu a isso me quisesse opor. Levar-te-iam, violentamente, e para que assim não sucedesse foi que eu pedi a el-rei me deixasse trazer-te aos meus pedidos e emendar a permissão que eu te dera e o meu marido e senhor tão asperamente me censurou. Não me dês o tamanho desgosto de te ver levar daqui à força. Tem tu dó de mim. Tu, ao menos!
— Por esse desgosto de me verdes levar à força vos não receeis, senhora minha. Outro será o vosso dó por mim e Deus mo perdoará. São largas as portas deste mosteiro para poderem levar daqui a quem não quer sair; mas as janelas destes aposentos são altas e mais depressa a noiva chegará lá abaixo. Depois, nem valia a pena enterrá-la. Era atiraram com ela para o rio. O Douro a levaria à sua terra portuguesa.
— Madalena! Madalena! — exclamou, confrangida, abraçando-a numa tremura de medo — Entendi o teu sentido! Que horror de pecados!
— Senhora, nisto a vontade do meu coração será ainda mais firme do que a vontade de el-rei.
— Mas olha, Madalena, tu desvairas! Que notícias e que certeza podes ter de que o teu escolhido ainda pensa em ti?
— As mais seguras, Senhora!
— E aqui encerrada, a guerra nas fronteiras, que fortuna havia de ser a tua neste mosteiro, diferente da que terias comigo na corte, minha irmã pela mesma terra, amiga queridíssima para chorarmos juntas as nossas mágoas de segredo?
— Para chorar, Senhora, aqui seria melhor.
— E afinal, Madalena, para quê? Para esperares nesta clausura que um dia, por acaso, te fosse possível fugir para o ires buscar a ele?
— Ou para que ele viesse buscar-me aqui.
— Aqui! Só se tivesses alguma santa por ti.
— Ou alguma rainha, que de mim se apiedasse — acudiu num alvoroço febril, beijando-lhe a mão de surpresa.
— Oh! Madalena! — volveu-lhe a Rainha tristemente, puxando-lhe as mãos para si — Se eu já te disse que nada posso, e tu bem o sabes!
— Senhora — murmurou num fio de voz — bastaria que vós quisésseis receber e guardar um segredo meu, como eu para todos hei de guardar os do vosso coração mortificado, que ainda não disse a ninguém.
— Mas olha que te não entendo! — murmurou, levantando-se num movimento de estranheza e de receio, nem ela sabia bem de quê.
Madalena ergueu-se também.
— Prometeis guardar-mo e fingirdes que nada sabeis, ao menos até que rompa o dia de amanhã?
— De madrugada voltaremos a Valhadolid.
— Pois que seja então até à hora da madrugada em que haveis de partir.
— Em que havemos de partir, Madalena, pois que tu sairás também. É a ordem de el-rei.
— Sim, Rainha e senhora minha, até umas horas depois que eu haja saído — disse-lhe, a tremer.
— Ah! Então reconsideraste, minha querida Madalena! Fazes-me o que eu te pedi por causa de el-rei, não é assim?
— Senhora, fazei-me vós a promessa — solicitou, perturbada.
— Pois sim, diz-ma outra vez.
E numa tremura de voz, muito velada, hesitante como se já estivesse arrependida de indicar a confidência, repetiu-lhe:
— Que pela vossa palavra de Rainha prometeis não contar a ninguém, até que nasça o sol de amanhã, o segredo que eu vou confiar-vos por esta muita amizade que vos tenho. Mas pela vossa palavra de Rainha, não! — disse-lhe, emendando num entontecimento de comoção — Antes a promessa pela vossa alma carinhosa de amiga minha, da minha irmã pela terra em que ambas nascemos. Antes, Senhora!
— Por Deus, que me dá estranheza esse pedido! Mas é teu, Madalena, e tanto me basta. Prometo, e pela salvação da minha alma te juro que guardarei o teu segredo.
— Senhora, que Deus vos pague em venturas o consolo que me dais nesta jura!
— Diz.
— A mim me hão de levar daqui esta noite, Senhora! — disse-lhe a tremer.
— Madalena! — exclamou, fazendo-se muito pálida
— Isso é desvario teu!
— Senhora, não é. Doía-me o coração enganar-vos, sair daqui sem vos dizer!
— Mas eu não posso acreditar! Olha bem para mim. Algum sonho, desses que a nossa alma sonha acordada, te veio turbar a razão! Quem ousaria levar-te daqui?
— Senhora, o meu noivo.
— Mais enlouquecido do que tu, porque o prendiam, porque o matavam. Mas é desvario teu! Se podia ser?! Se um homem só...
— Com outros como ele! — volveu-lhe convulsivamente, cada vez mais arrependida e cheia de pavor por aquela ingénua revelação.
— E voam por cima dos muros de Tordesilhas, para virem buscar-te aqui e levam-te de cá por entre as nuvens para que os não vejam os homens de armas que aí estão?! Minha pobre enlouquecida!
— Senhora, enlouquecida só se vós não quiserdes cumprir a vossa jura! — disse-lhe, oprimida, pondo nela os olhos rasos de lágrimas.
— Mas se assim fosse, então o teu pedido haveria sido uma traição para mim e a jura teria eu de a quebrar!
— Rainha e senhora, que vos não perdoaria Deus — acudiu, de mãos postas, numa lividez de espavorida.
— Eu não posso, não devo faltar aos meus deveres para el-rei, e sou Rainha de Castela.
— Desabafando comigo as vossas mágoas, vós me chamastes vossa irmã, a vossa única amiga. Que pode valer para el-rei a fuga de uma pobre mulher, e que traição seria para Castela que um namorado aqui viesse buscar a sua noiva?!
— Afronta seria para o meu reino que inimigos seus aí viessem! A Rainha de Castela atraiçoaria seu marido e o seu reino sabendo-o no fingimento de tudo ignorar!
— Quem o soube, Senhora, não foi a Rainha; foi a Infanta D. Beatriz de Portugal, amiga como irmã de Madalena de Mendonça, confidente dos seus pesares. A primeira e a maior traição seria para mim! — disse-lhe a reprimir a onda de soluços que a afogava — Senhora Infanta de Portugal — suplicou, ajoelhando e tomando-lhe as mãos — guardai da Rainha de Castela o segredo que eu disse à minha maior amiga e ela pela sua alma jurou guardar!
— Nossa Senhora me valha, que não devo nem posso cumprir a jura!
— E foi por essa amizade vossa, que dizíeis tamanha, por este remorso do coração que eu tinha de vos deixar, decerto para sempre, sem vos beijar na despedida, foi por isto, a confiar cegamente na vossa alma, que eu vos pedi a jura!
— A tua amiga, Madalena, a ninguém dirá o que soube; mas a Rainha pode ter resolvido sair já para Valhadolid e mandar que os seus homens de armas se aprestem a partir, sem nenhuma delonga. Madalena ergueu-se num repelão convulsivo. A pobre Rainha-menina tremia tanto como ela.
— E eu, atravessando-me diante de vós, posso dizer-vos: Senhora Infanta de Portugal, minha amiga, minha irmã, não deixeis que a Rainha de Castela mande chamar os seus homens de armas! Estão aí os que hão de levar-me, e esses não sabem fugir. Será uma aventura de morte! Mais sangue, senhora Infanta, maior luto para os vossos de Portugal e para os vassalos da Rainha, por causa de uma pobre noiva que nenhum mal lhes fez.
D. Beatriz chorava. O seu coração mortificado transigia num impulso de dó e numa fraqueza de medo.
Deu uns passos vacilantes e deixou-se cair numa cadeira de espalda, a soluçar baixo, reprimindo-se.
Madalena correu para ela e outra vez se ajoelhou, beijando-lhe as mãos.
— Pelo muito que tendes sofrido, perdão! Morreria eu, se o matassem, e vós, eu sei, teríeis dó de mim.
— El-rei entenderá que eu fui sabedora. Há de supor Castela que eu vim proteger aqui, deslealmente, essa ousada aventura! — murmurou, chorando.
— Senhora, não. Eu despeço-me de vós, como quem se afasta para sempre, mas a Rainha vai repousar como se nada soubesse. Perdoai-me. Bem vedes, Senhora, que só poderia causar estranheza que eu viesse contar à Rainha um segredo de tamanho perigo.
— E se houver arruído, briga que encha de alarme a povoação, queres tu, Madalena, que eu finja também que nada ouço e percebo?!
— Senhora, então sede bem a Rainha de Castela e mandai prender-me, se eu ainda aqui estiver, e eu vos prometo que esta confidência morrerá comigo antes que cheguemos a Valhadolid.
— Deus tenha piedade de mim! Madalena, juras-me que não é para mover traição a el-rei ou para afronta ao seu poder que aí vêm ou aí estão esses ajudadores do teu noivo?
— Pela sua própria vida, que eu tenho em maior apreço que a minha, vos juro diante de Deus.
— E como podes tu jurar assim por essa gente, que nem sabes talvez quem seja? — perguntou-lhe numa estranheza tocada de suspeitas.
— Senhora, são cavaleiros fidalgos de Portugal os que aí estão.
— Muitos, para te levarem?
— A mim me disse quem o podia saber que eram os que restavam daquela Ala dos Namorados, de que vós própria me falastes aqui, no mês passado.
— Desses me tinha falado el-rei, nesses, com entranhado ódio, falavam em Valhadolid alguns cavaleiros que puderam voltar da batalha real. Parece que já neste mês estiveram também noutra batalha, que foi em Valverde de Mérida. Desta mandaram notícia a el-rei a semana passada! Maior ofensa no cometimento por serem eles! E agora é que não posso crer na tua jura, nem cumprir a minha! — disse, levantando-se, cada vez mais velada e mais trémula.
— Não podeis por serem eles!
— De tal audácia como dizem... Mais hão de querer que levar-te! Outro intento será o seu, simulando que vêm somente para ajudar o teu noivo!
— São cumpridores dos seus votos, e o que fizeram agora sei eu que foi unicamente para daqui me levarem.
— Meu Deus, não bastava ainda o que eu tenho padecido! Isso, Madalena, isso, por mais que tu digas, é uma grande ofensa a el-rei e ao seu reino. E eu sou a Rainha! Tenho muito dó de ti, mas é preciso chamar alguém. Os homens de armas que venham!
Madalena abraçou-se a ela de joelhos.
— Senhora, por piedade, não! O meu noivo aqui virá jurar-vos que mais nada intentam do que levar-me daqui! Não faleis alto, Senhora, que a vossa camareira pode ouvir!
— Deixa-me! — disse, repelindo-a.
— Então me atraiçoais e sois contra mim! — soluçou, erguendo-se com nervosa energia — Vou abrir eu aquela porta e, se chamardes, Deus será então por quem lho merecer.
Correu para a porta que dava para uma antessala e abriu-a.
Apareceu por detrás dela a veneranda figura de Mendo Rodrigues.
— Estais tardando, senhora! — disse para Madalena.
A juvenil rainha tremia num pavor de enlouquecimento, quebrada de todo o alento, a voz afogada na garganta, na impossibilidade absoluta de tomar qualquer resolução.
— Fiz uma loucura! — disse Madalena com rapidez febril, numa sufocação — A Rainha sabe... Quer chamar!
— Senhora Infanta de Portugal — invocou o velho numa voz abafada, adiantando-se respeitosamente — Nada receeis por vós. Infanta portuguesa, heis de ser acatada, como se fosse aqui o paço do senhor rei D. Fernando, a quem Deus perdoe. Os homens da nossa terra que aí estão nada mais pretendem do que levar esta dama. Por eles vos juro, senhora!
— Sois então um fingido peregrino de Castela! — disse D. Beatriz num pasmo de surpresa.
— Sou um velho cavaleiro de Portugal, que lealmente serviu o seu rei, e não jurou nem juraria prestar-vos menagem como Rainha de Portugal depois que vos fizeram Rainha de Castela. Os homens que aí vieram são fidalgos jovens, provados nos perigos, cavaleiros que em nenhum caso atentariam contra uma dama. As monjas dormem tranquilamente e as vossas cuvilheiras estão fechadas nas suas câmaras. Houve quem surpreendesse e amordaçasse os guardas daquela porta da vila por onde se pode voltar a Portugal. A ponte levadiça desceu-se e os cavaleiros de aventura entraram. Pouco importa que vos diga de que modo puderam entrar. A vila adormecida não deu por eles. Está vigiado o quartel dos ginetes. Por qualquer alarme será certa a luta. E ou todos ficamos cá, ou a noiva enclausurada sairá connosco.
Mendo acercou-se mais dela e, dobrando-se, reverente, disse-lhe baixo, com afeto paternal, comovidamente:
— Defender-vos-ia, Senhora, a custo da própria vida, se alguém aqui fosse capaz de vos desacatar. Tenho razões de alma para o fazer!
Num aturdimento dos sentidos, a rainha olhou para ele sem o compreender e, como se as forças lhe faltassem, caiu num escabelo.
— Senhora Infanta, permiti que venha prestar-vos homenagem meu sobrinho Ruy de Vasconcelos, da mais gloriosa ala de Aljubarrota, e como a filha de Portugal vos digo este nome.
D. Beatriz estremeceu. Cobria o rosto com as mãos ocultando lágrimas. Era este o desafogo daquela pobre soberana de treze anos, mulher à sobreposse, na sua maioridade de amarguras.
Alguns dos Namorados tinham entrado na cerca do mosteiro por uma porta escusa, que Mendo Rodrigues lhes abrira. Foram oito os que entraram e foi-lhes fácil surpreender e amordaçar os nove besteiros que tinham a sua casa de guarda ao fundo da cerca.
Quatro tinham já subido pela escada dos aposentos reais. O fingido monge apossara-se por astúcia das chaves de todas as portas exteriores daqueles aposentos.
Mendo Rodrigues saiu da antecâmara real e foi chamar o sobrinho.
D. Beatriz soluçava baixo. Madalena acarinhava-a de joelhos.
— Virá a saber el-rei como isto foi — murmurava num desalento infantil.
— Senhora, perdoai! Perdoai, mas a culpa foi toda minha, que não soube guardar do vosso coração de amiga o segredo que foi loucura dizer à Rainha de Castela.
Ruy entrou com Mendo Rodrigues. Já não trazia o cobrejão de disfarce com que ocultara a sua armadura de cavaleiro.
Madalena pôs as mãos contra o peito num movimento de supremo júbilo como se quisesse abafar algum grito do coração enlouquecido, e envolveu-o no seu olhar repassado de lágrimas, daquele choro que só se chora nas horas de inexcedida ventura.
— Senhora Infanta de Portugal — disse o Vasconcelos, curvando-se como um cortesão — por mim e pelos fidalgos cavaleiros da Ala dos Namorados, a vós saúdo e depressa homenagem como dama que sois da mais alta hierarquia da nossa terra portuguesa.
— Senhora Rainha — segredou-lhe Madalena numa tremura de santo e amorável orgulho por aquele herói — é o meu noivo. Senhora Infanta de Portugal, minha amiga e a minha irmã como dizeis, deixai que ele vos beije a mão.
— Madalena!... — soluçou baixo — Não posso, não devo.
— Senhora! — disse Ruy, acercando-se mais e dobrando o joelho — Pede a honra de vos beijar a mão quem se presa de ser inimigo formal de el-rei de Castela e nunca se dobraria diante da Rainha de altivo trono que sois nesta terra estrangeira.
Madalena tomou brandamente a mão de Beatriz. O Vasconcelos esperava de joelho no chão.
— Ruy — disse-lhe Madalena — esta foi a mão carinhosa e amiga que eu tive em terras de Castela.
— Senhora Infanta de Portugal, Deus seja por vós e vos dê a grande fortuna que mereceis, fora da herança que a nossa gente não quer nem pode reconhecer-vos.
Beijou-lhe a mão. D. Beatriz estremeceu. Ruy ergueu-se e recuou uns passos.
— A Ala dos Namorados vai sair de Tordesilhas. A Rainha de Castela pode mandar que os seus homens de armas corram na sua perseguição. A ala não voltará as costas, porque não sabe fugir. Mas Ruy de Vasconcelos ousa pedir à senhora Infanta que não deixe falar a Rainha antes que Madalena de Mendonça tenha tido tempo de transpor as portas que dão pára o caminho de Portugal. Meia hora chegará. Pelos Namorados, e pela minha honra vos juro que a ala ficará atrás da noiva roubada, esperando os homens de armas que a juvenil esposa de el-rei de Castela houver de mandar-lhe por desforço.
— Senhora, falai — solicitou-lhe Madalena, muito debruçada para ela.
— A Rainha não mandará os seus homens de armas contra vós — respondeu-lhe sumidamente, numa voz que vinha afogada de lágrimas — A Rainha nada sabe... Irá repousar...
— Senhora, Deus fique então convosco — disse-lhe o Vasconcelos comovidamente, retirando-se com o tio para a salazita contígua.
D. Beatriz percebeu que se tinham afastado e logo em soluços, que a sufocavam, disse a Madalena:
— A Rainha ficará chorando. E amanhã voltará para o ermo da sua corte estrangeira... Mais sozinha que nunca... Porque até tu lhe faltas, Madalena!
— Senhora, dai o vosso perdão à noiva que de vós se afasta — suplicou, abraçando-se nela.
— Sim... A nossa Senhora te dê bom futuro, noiva querida e linda, e de mim haja dó pelo tanto que tenho padecido! Vai... E adeus para sempre!
— Levo comigo a vossa imagem — soluçou — para não a esquecer nunca!
— Tem dó da Rainha, quando de mim te lembrares, Madalena!
— Senhora, sim — disse-lhe, beijando-lhe as mãos fervorosamente.
— Adeus!
Madalena correu para fora como entontecida.
— Deus sabe se eu não iria também com a maior alegria da minha alma! — dizia consigo D. Beatriz, num confrangimento de pavor pelo futuro — E nem lá me tinham de querer! Hão de ter-me ódio por essa coroa... De martírio, feita de ouro!
E ficou-se a chorar.
* * *
— Filha, que demora e que imprudência a tua! — disse-lhe a mãe numa tremura de receios.
D. Maria de Mendonça nem tivera ânimo de ir à câmara real despedir-se.
— Olhai que não tarda a hora em que a ronda irá correr os muros e as portas — veio avisar o Provençal — Era tempo de irmos, para não confiar demasiadamente no desleixo de vigilância em que está a vila.
— Vamos, sim — concordou Ruy — Mas lá fora devagar, para que se não vá pensar que fugimos.
— Não seria prudente vigiar a Rainha? — perguntou baixo Mendo Rodrigues — Ficarei eu até dar tempo que leves para fora das portas a tua noiva e a mãe.
— A Infanta não faltará à sua promessa. Nem os seus desprecavidos homens de armas teriam tempo de chegar antes que elas tenham saído as portas. Tio, seria risco inútil ficar.
Foi tomar o braço de Madalena. Mendo acompanhou D. Maria de Mendonça. Desceram silenciosamente a escada que dava para o jardim da cerca.
— Como tu tremes, meu amor! — segredou-lhe Ruy.
— Tem ânimo. Chegamos bem para te defender.
— Mas com a tua vida em perigo, e disso é que eu tenho medo! — balbuciou, muito chegada a ele como criança oprimida de susto.