A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 1 de 38

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A Ala dos Namorados

Primeira Parte

INFORTUNADOS AMORES

CAPÍTULO I

DOR QUE ENLOUQUECE

 

Fora calmo aquele dia de Junho de 1384. O sol sumira-se afogueado, globo enorme de ouro fulvo que deixara pelos cumes dos montes e sobre as águas dormentes do Tejo um crepúsculo agoirento, vermelho como a púrpura antiga dos autocratas e como o sangue forte da plebe.

Em todas as torres de Lisboa bateram lugubremente as badaladas das alvorada. Parecia que nunca os sinos da cidade tinham tido uma voz assim dolente! Badaladas como trágicos soluços daquele bronze que parecia ter dentro em si a alma angustiosa da cidade.

E não era deles afinal aquela tristeza imensa; era do coração de quem os ouvia. A voz dos sinos era a mesma dos dias jubilosos; no coração dos atormentados, dos famintos, dos que traziam consigo a dor e o luto, é que a repercussão mudara como se viesse timbrada pelas amarguras da Pátria e pelas tristezas de cada lar.

— Jesus! — soluçara uma velha a quem o marido e o filho tinham morrido, dias antes, numa sortida às portas de Santa Catarina, contra os Castelhanos que cercavam Lisboa (*).

 

[(*) O bloqueio terrestre da cidade pelas tropas de Castela começara em 9 de Fevereiro de 1384. O cerco cerrara-se em 27 de Abril, depois de ter chegado ao Tejo a primeira divisão de uma poderosa esquadra castelhana.]

 

Estão a dar aquelas badaladas como se fosse para lembrar os tantos que a morte levou e os muitos que hão de acabar, se o nosso Senhor não tiver dó desta pobre cidade e desta infortunada Nação!

E para maior agouro e mais doloroso contraste, as sinetas de bordo das cinquenta e três naus e galés que El-rei de Castela tinha no Tejo também tocaram na alvorada, mas essas numas vibrações agudas, ligeiras, como se tivessem um timbre de riso de escárnio pela aflição da cidade.

Ouviam-se bem na trágica melodia daquele crepúsculo. A armada potente de Castela estava atracada desde Santos até para lá de Cacilhas, muito próxima da praia, a cerrar estreitamente o cerco.

Mas do acampamento castelhano, a rodear Lisboa das alturas de Santa Clara ao Monte da Graça e à Penha, das extremidades de Valverde (o valezito da atual Avenida da Liberdade), daqueles hortejos às lombas de Campolide e do monte de Santa Catarina às praias de Santos; dali vinham ainda mais opressoras repercussões naquele anoitecer de Junho. Vinham do estridor arrogante das trombetas no soberbo alarde das Trindades.

— Estão a uivar os lobos de Castela! Má peste os ponha em fuga! — comentara um besteiro(*) de cabelos grisalhos.

 

[(*) soldado que tem a besta como arma, estando na mesma categoria bélica que os arqueiros ou archeiros.]

 

Já pela noite dentro, as procissões de penitência cruzavam-se nas ruas, gemendo o seu “miserere”, e as igrejas atulhavam-se de gente angustiada, que fazia preces pela boa fortuna da cidade. Para que Deus protegesse o jovem Nuno Álvares Pereira, já vencedor dos Castelhanos na batalha dos Atoleiros, e para que a nossa Senhora trouxesse rapidamente e a salvamento a esquadra que esperavam do Porto com o socorro de que tanto carecia a capital.

Depois passaram silenciosas, num passo pesado e lento, de piques e bestas ao ombro, as quadrilhas de peonagem(*) de reforço para as setenta e sete torres e trinta e oito portas que tinham as muralhas de Lisboa e para as trincheiras de estacaria dobrada, que reforçavam as defesas até à praia de Santos, e seguiam ao longo da Ribeira e dos Fornos da Cal até ao mosteiro de Santa Clara.

 

[(*) "peonagem" era todo o soldado raso de posição militar mais baixa, apelidado de "peão"]

 

Para os lados das Portas de Santa Catarina e da Torre de Álvaro Pais (na moderna rua de S. Roque), trotava um grupo de cavaleiros, de bacinetes emplumados, cotas e braçais. Iam para onde o perigo era maior e mais frequentes as escaramuças com os sitiantes.

Depois o soluçar das preces emudeceu, as velas dos altares apagaram-se, as grandes portas das igrejas cerraram-se. Esmoreciam pelas esquinas e sobre as portas de casas abastadas os lampiões e as candeias dos nichos, à míngua de umas gotas de azeite, porque até nisto se manifestava a miséria daquela encantadora Lisboa, à qual os mouros tinham chamado a Sultana do Mar Azul do Ocidente.

Foi correndo a noite e a cidade parecia adormecida num sono de pesadelos. Mas nem toda ela adormecera. Nas muralhas velavam as atalaias, e dos lados da Ribeira vinha, a espaços, um rumor brando de vozes.

Mas nos lares que a morte enlutara de lágrimas de dor, nos castelos miseráveis, quantos esquálidos havia, que não conseguiam dormir por causa da sua horrorosa tortura de famintos?

No recanto de uma travessa, um grupo de esfarrapados esquartejava sofregamente uma mula escanzelada para o seu banquete daquela noite. Havia dois dias que não traziam na sacola nem uma côdea bolorenta de esmola, uma côdea daquele pão miserável que então se fazia na cidade com o bagaço da azeitona, as raízes das ervas e as malvas dos quintalejos abandonados.

No terreiro, onde ainda um mês antes se vendiam uns restos de trigo, bandos de crianças semi-nuas, estonteadas de sono e roídas de fome, andavam a arranhar o chão para ver se a terra tinha escondida em si a fartura de alguns bagos de trigo. Eram mais bem sucedidos que as pobres crianças, os cães sem dono, a focinhar nas montureiras, que trescalavam podridões de cadáveres.

Em frente da Sé, as torres castelãs, envoltas num manto de sombra como figuras gigantescas de alguma lenda, uma mulher nova, de cabelos esparsos, uma farrapagem de brocados a cingir-lhe o corpo, que era talvez belo, parara arquejante, aconchegando muito aos seios um vulto pequenino de criança, num choro convulsivo e débil.

— Como tu choras, amor da minha alma! Cheia de fome! Eu sei! Eu sei! Filha, dava-te o meu sangue, e não posso matar-te a fome!

Murmurara-lhe isto num estrangulamento de soluços como se a pequenina a pudesse compreender, e apertava-a mais contra o peito como se quisesse que do seu seio ressequido aquela boquita lhe pudesse beber o sangue.

— Lavada em lágrimas! Têm mais sorte os que morrem! Que tamanha misericórdia seria se a nossa Senhora nos levasse a ambas para si!

E a pequenita num choro cada vez mais convulso, mais rouco, mais dolorido.

Num relancear dos seus olhos de alucinada, turvos de lágrimas, a desventurada mulher deu com um painel da Senhora Mãe de Deus, que o padre Cabido mandara erguer por cima da porta do templo, desde que as misérias do cerco tinham posto a cidade em maiores desalentos.

Uma grande lâmpada de bronze punha os seus reflexos de luz dourada na figura da Virgem com o seu Jesus pequenino ao colo, Mãe e Filho numa expressão de júbilo e ridente fulgor.

Foi até ela, a tremer, a pobre esfarrapada; ajoelhou-se fervorosamente, a acalentar a filha, e pôs no painel um olhar mortificado, numa súplica em que as lágrimas davam o dobro das palavras.

— Senhora, acudi-me! Ninguém me ouviu, ninguém me pôde socorrer! Escutai-me vós! Socorrei-me, Senhora! Mãe divina fostes, mas também eu quero à minha filha, como vós, Senhora, ao vosso filho. Sofreu, sofrestes com ele, e mataram-no; mas o vosso era Deus, e a esta, coitadinha, sou eu que a deixo morrer! Senhora, talvez nunca sofresse fome o vosso pequenino Jesus, por se não terem secado para ele os vossos seios como secaram os meus!

A criancinha estrebuchou-lhe nos braços como uma avezita agonizante e soltou um grito dolorido. A esfarrapada ergueu-se de repente, a tremer doidamente, e deu uns passos torcidos para que a luz da lâmpada lhe iluminasse melhor o rosto da pequenina.

— Estás a esfriar! Filha! Filha! Olha para mim! — rouquejou ao beijá-la, a tatear-lhe a cara, em convulsões de epilética.

Mas a filha já não a ouvia. Estava morta. Morta pela fome.

A mulher sacudiu-se em soluços e pôs-se numa correria doida pelo terreiro da Sé com o cadáver da pequenina erguido nos braços, trementes como se fossem de uma octogenária.

E no céu de profundo azul brilhou um fulgor intenso de estrelas, no alheamento e na indiferença daquela dor de mãe a envolver-se em desvario de loucura!

A enlouquecida sentou-se no degrau do portal a regougar uma trova de acalentar crianças e a embalar nos braços o corpo hirto da filha.

Vibraram de repente naquele lúgubre silêncio vozes altas de gente que vinha da Porta de Ferro a correr.

— Gentes, despertai! Boas novas chegaram! Erguei-vos e dai graças a Deus!

E com as vozes altas, alvoroçadas, ressoavam nos ares as marteladas das aldravas, revoava um sussurro de gente surpreendida, um ranger de portas que se abriam e um ruído de adufas que se levantavam.

Entrou um grupo de homens no terreiro da Sé. Vinha diante deles um galeote com uma acha de pinho embreada, acesa em guisa de archote, a esfumar de negro aquela frouxa penumbra das estrelas e a projetar os seus clarões vermelhos na fachada vetusta daquele grande templo.

— Por Deus, que chegaram boas notícias!

— Que notícias são? — inquiriram os estremunhados, assomando às portas com as candeias de luz na mão.

— São notícias de Nuno Álvares, o jovem campeão? — perguntavam.

— Quereis ver que deu nova arremetida contra os castelãos e venceu outra batalha?

— Eu já sonhei com ele três noites a fio, a entrar por Castela adentro, ao lado do senhor S. Jorge, com o seu bacinete de ouro e a sua lança de prata! E que tinha levado à escalada os muros de Badalhouce (*).

 

[(*) O Assim chamavam a Badajoz. Parece que foi fundada pelos mouros com a denominação de Baladelaixe, que os nossos antigos mudaram para Badalhouce.]

 

— Não vos deiteis a adivinhar, gente endrominada, que o caso foi outro.

— Dizei qual.

— Contai o que houve. Falai depressa. Dizei — insistiram muitas vozes.

— Lançou ferro (atracou) em Cascais a armada que veio do Porto a socorrer-nos — esclareceu um dos recém-chegados.

— Pois Santa Maria seja bendita e que viva quem nos vem ajudar.

— Viva! Viva!

— E o senhor dom Bispo que mande abrir as portas da Sé, e os senhores cónegos que mandem pôr luzes nos altares, para que Deus nos ampare!

— E quem trouxe tal notícia?

— Um homem bom do Porto, mercador rico, de rijas febras e destemida gana para o mar, que pelo escuro da noite fugiu de Cascais num batelzito e, por entre a armada inimiga, se atreveu a cá vir trazer-nos a boa notícia!

— Já esteve a falar com o Mestre — informou outro dos avisadores, referindo-se ao Mestre da Ordem Militar de Avis, filho bastardo de el-rei D. Pedro.

— E com ele veio também aquele destemido fidalgo jovem de Riba-Douro, que foi o mais belo pajem da rainha comborça (*) e o mais animoso na guerra do ano passado.

 

[(*) Mulher que tem amores ou vive com um homem casado. Assim chamavam à rainha D. Leonor Teles.]

 

— Não sei quem seja!

— Ora! Nem Lisboa conhece outro mais afoito de alma. É aquele jovem de vinte anos que mandou desafiar o Condestabre de Castela.

— Ah! Esse então todos nós sabemos quem é.

— É claro que se sabe. É Ruy de Vasconcelos, da melhor nobreza de Riba-Douro.

— Morrem por ele as mulheres novas. E dizem que no paço real por ele se perdeu certa dama linda como as estrelas. E olhai que nunca mais se lhe soube o paradeiro!

E enquanto iam falando assim, em grupos ou de porta para porta, a multidão dos alvoroçados aumentava de instante para instante; as luzes das candeias brilhavam pelas adufas como pirilampos e voejava pelos ares um rumor mais intenso de passos e de vozes.

Entretanto, no portal da Sé, alheada de tudo, a enlouquecida mãe, a quem a filha morrera, soluçava as orações com ela deitada no regaço.

A multidão podia lá ouvi-la! Ninguém reparara naquela mulher nova, enrodilhada em farrapos de brocado, endoidecida no drama da maior dor humana, toda mirrada na sombra enorme da igreja.

E ela também absolutamente alheia a todo aquele alvoroço, como se ali a tivessem cegado as suas próprias lágrimas e de tudo tivesse ensurdecido no estonteamento daquela mágoa inexcedível e sem remédio!

 

* * *

 

— Gentes, aí vem o Mestre, o Defensor, o que um dia será rei! — gritou à frente da multidão, numa voz dominadora, que se sobrepunha a todas as outras, um homem alto, espadaúdo, exemplar admirável dessa raça de plebeus que havia então, de consciência lavada e ânimo intemerato, para falarem alto fosse a quem fosse, e para morrerem a peito descoberto pelo seu crer e pela sua coragem.

Era o tanoeiro(*) Afonso Eanes, o chamado "Juiz do Povo", um revolucionário dos dias turbulentos que seguiram à morte do rei D. Fernando.

 

[(*) Tanoeiro ou toneleiro é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos.]

Tinha sido o tribuno e o comandante da populaça, para que a Nação se defendesse das pretensões de el-rei de Castela e não lhe deixasse levar a coroa do monarca falecido, na herança da infanta portuguesa D. Beatriz, esposa do rei invasor, mais a bandeira e a história da terra portuguesa. E o caso foi que, sem a intervenção daquele mestre tanoeiro, talvez a Nação não tivesse por chefe o jovem Mestre de Avis, e tivesse esmorecido na defesa da sua independência.

Entre os homens de ação preponderante que apoiaram o bastardo de el-rei D. Pedro e da plebeia Teresa Lourenço à subida do trono, três havia de incontestável grandeza — Nuno Álvares Pereira, fidalgo e guerreiro juvenil; Álvaro Pais, o velho chanceler dos tempos de el-rei D. Fernando, e aquele valente mesteiral (mestre artesão), que se chamava Afonso Eanes Penedo.

— Ei-lo, aí vem! — anunciou outra voz.

— E com ele aquela alma boa do povo. O nosso querido velhinho, Álvaro Pais.

— Certo se irá recolher o Mestre aos paços de Apar S. Martinho. — Viva o Mestre! — gritou uma multidão próxima das Portas de Ferro.

E pouco depois, adiante de todos — mulheres e carpinteiros da Ribeira com archotes aceso —, Sem nenhuma ostentação de poder, singelamente, quase ombro a ombro com o povo que o adorava, o Mestre de Avis subia lentamente com Álvaro Pais, muito abordoado ao seu bastão, arrastando por ali acima, penosamente, com as suas pernas trôpegas. Ao lado dele, na esquerda, um legista que, há dois anos, viera da Universidade de Bolonha onde se formara em leis — o doutor João das Regras.

Um pouco atrás, acotovelados pela multidão dos maltrapilhos descalços, dois pajens com tochas acesas, e depois o comandante dos besteiros. Oito homens de armas por escolta e mais ninguém naquele cortejo do Defensor do Reino — título dado pelos cidadãos de Lisboa — o Mestre da Ordem de Avis; um infante bastardo pelo pai, um homem do povo pela mãe.

Havia explicação para o cortejo ser pequeno. Ainda nessa tarde o Mestre recebera avisos de certos movimentos suspeitos da esquadra castelhana e fora logo para as Portas do Mar, sem nenhuma comitiva, para observar ele próprio qual seria o intento do almirante de Castela. E por lá se demorara pela noite dentro, de atalaia, sem ter podido perceber o intento daquela evolução dos navios sitiantes.

Tomou precauções, mandou um aviso confidencial às torres e às quadrilhas que guardavam as portas para se manterem em dobrada vigilância, mas não quis dar alarme à pobre cidade, já tão atribulada de provações. Nas trincheiras da praia dirigiu ele próprio, sem alarmes, as precauções de sobreaviso e, como em outras ocasiões, teve a auxiliá-lo dedicadamente o arcebispo de Braga, D. Lourenço, com o seu estado-maior de cónegos e a sua hoste de frades e clérigos seculares. Os trabalhos e os sacrifícios eram para todos.

O arcebispo, um homem intrépido, não admitia isenções de privilégio para ninguém naquela conjuntura angustiosa. Para ele era também serviço de Deus defender a Nação à mão armada, e a sua hoste de tonsurados não era das menos fervorosas nem das menos destemidas na defesa das trincheiras e no arranque das sortidas. Fora ele até o principal organizador na defesa do lado do rio, passando indiferentemente da sua tarefa de dirigente aos mais rudes trabalhos de construção, para estímulo da peonagem e dos seus clérigos.

Pela noite adiante chegara o batel em que vinha o comerciante do Porto, João Ramalho, com a notícia de ter atracado em Cascais a esquadra de socorro. O Mestre combinou então com o Ramalho o plano a seguir, não só quanto à entrada dos navios, mas também a respeito do apoio que poderiam dar-lhe os defensores da cidade.

Assente o que devia fazer-se para que a empresa, realmente grave, tivesse bom êxito, Ramalho voltou para Cascais com o mesmo risco e destemor, e o Mestre regressava agora ao paço para ali discutir com os seus cavalheiros e caudilhos(1*) do povo, entre os quais tinham lugar proeminente os homens de ofícios da "Casa dos Vinte e Quatro"(2*) do povo, com todas as minúcias e disposições da parte do plano que pertencia à cidade.

 

[(*) 1 - caudilho: alguém com uma posição de chefia; era assim nomeado alguém de uma comunidade que tivesse numa posição capaz de exercer liderança e de a representar quando fosse preciso. Eram os caudilhos que representavam o povo nas assembleias sociais convocadas pelos reis, chamadas Cortes. 2 - A Casa dos Vinte e Quatro era um órgão deliberativo da administração municipal de Lisboa -e, mais tarde, de outras cidades do Reino de Portugal e do Império Português -era composto por representantes das guildas, ou seja, das associações de ofícios, como a guilda dos artesãos ou a dos mercadores.]

E era neste assunto gravíssimo que o Mestre vinha a conversar com aquele velho alquebrado, que fora o cérebro dirigente da revolução e trazia em si, no seu arcaboiço de septuagenário, uma das maiores almas de Portugal.

 

A multidão olhava para aqueles os dois esperançada como se aquele homem de gorra negra e cabelos de neve fosse o símbolo imaculado da Pátria, que os de Castela pretendiam matar, e o outro, um bastardo real, monge-cavaleiro de vinte e seis anos, representasse a maior promessa e a mais rútila esperança de um Portugal remoçado, mais forte, mais brilhante, de mais pura e altiva alma, emergido dos Iodos daquela decadência pelos milagres de esforço de uma revolução.

— Viva o nosso Messias! — gritaram algumas mulheres comovidamente.

E envolveram, num olhar de sonho, aquele homem jovem, de amplas costas, trigueiro e rubro como os galeotes da Ribeira e os picos das montanhas; de rosto largo numa forte expressão de energia; naquela cabeça de pensador o bacinete (*) emplumado dos campeadores fidalgos, nos ombros largos o manto branco dos Cavaleiros de Avis e sobre a cota de armas o estreito escapulário com a esguia cruz verde do mestrado da Ordem, estampada naquela brancura do hábito, a lembrar as toalhas dos altares e a bandeira da Nação.

 

[(*) A parte da armadura que protege a cabeça]

 

Messias da Pátria para a redimir, filho de um rei para ascender ao trono, se a Nação vencesse, filho de uma mulher do povo, como o aclamavam febrilmente.

— Que Deus vos guarde, Senhor! — clamava a ralé num voto fervoroso, de braços erguidos como para o abraçar, e a trapagem de burel(*) agitava-se-lhe sobre o peito arquejante.

 

[(*) Tecido típico português do qual se faziam as capas e os capotes. É confeccionado a partir da lã.]

 

— Deus vos ouça, gente leal, e a todos nos mantenha na santa defesa de Portugal — volveu-lhes o Mestre, pondo neles, afetuosamente, os seus olhos negros, penetrantes, e esboçando nos lábios rubros um sorriso de familiaridade, que lhe modificava as linhas duras do longo rosto, quase quadrangular, de queijo proeminente e barba escanhoada, conforme o preceito imposto aos monges cavaleiros.

— Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão — disse o Mestre.

— Grande armada, Senhor? — perguntou um mesteiral,(*) de barrete na mão.

 

[(*) "Mesteres", este termo designava, na sociedade portuguesa medieval, um grupo de artesãos ligados entre si por uma guilda de determinado ofício. O equivalente ao que hoje seria um sindicalista, embora esta comparação seja muito afastada. O termo "mesteiral" passou também, com o tempo, a ser usado para designar todos aqueles quem tinham actividades de artesão, como os tanoeiros, ferreiros, oleiros, etc., estivessem ou não ligados a uma guilda; depois passou ainda a designar todo aquele que era aprendiz de um "mesteiral".]

 

— Dezassete naus e outras tantas galés.

— Mestre e Defensor nosso, bom socorro será, mas a outra de Castela tem mais do dobro! Respondeu-lhe.

— Deus estará connosco, e pela nossa causa a alma e o sangue de nós todos. Ficai prevenidos. Ao romper da manhã, estaremos todos onde for preciso. Conto convosco; contai comigo. El-rei de Castela não levará a herança que vem aqui buscar. Só Lisboa lha poderia entregar, e nem vós nem eu deixaremos que a tome.

— Mestre e Defensor, honradas palavras dissestes! — acudiu Afonso Eanes na sua voz dominadora — A cidade não se rende e a herança não se entrega!

— Assim o queremos todos e assim será com a ajuda de Deus! — confirmou o Mestre com uma grande energia sugestiva.

— Todos! — gritaram — Por esta nossa terra contra as hostes de Castela: Portugal e S. Jorge!

— Ide agora repousar, meus filhos — disse-lhes paternalmente Álvaro Pais, na sua voz tremente de velho — Ao romper da manhã seremos uns com os outros e o dia há de ser de bravia luta. Mas até eu, com as minhas pernas trôpegas, me hei de arrastar para onde for preciso para que a soldadesca de Castela veja como os velhos de Lisboa são capazes de morrer pela sua terra.

— Pai do povo sois vós — disse uma regatona velha da Ribeira conhecida entre o povo por "Tia Lourença da Ribeira", que reunia à sua volta um grupo de mulheres mais novas. — e aqui tendes quem vos ajude a ir ver como esse bailado de amanhã há de ser. Falta o pão na cidade, mas ainda, louvores a Deus, não faltam as pedras para britar os focinhos a esses cães danados de Castela!

— Ide repousar, meus filhos — repetiu o alquebrado chanceler dos tempos de D. Fernando — Muito há que dispor para o dia de amanhã, e a todas as coisas precisa de prover a sua graça — disse indicando o Mestre — Ide com Deus.

— Até ao amanhecer — acudiu D. João num gesto amigável de despedida.

E foi andando para cima, ao lado de Álvaro Pais e do douto João das Regras.

— Viva o Mestre! Viva o nosso Messias! — aclamou a multidão num arrebatamento de entusiasmo, como se estivesse esquecida de todas as privações, de todas as misérias e de quantos perigos enormes podia trazer-lhe o dia seguinte.

 

* * *

 

— Vamos ter pão, mulheres de Deus! — disse a regatona da Ribeira — Virá trigo na armada do Porto. Vai acabar a fome!

Destacando-se do adro da Sé, numa aparição como a de um fantasma, nos braços a criancita morta, a pobre mãe enlouquecida, disse em gritos agudos como uivos:

— Acabar a fome!... Também a minha filha... Acabou! Tantas mulheres! E não houve nenhuma... Nenhuma... Que lhe matasse a fome... A ela!... Olhai... Morreu!

Uma profunda impressão de estranheza e de supersticioso pavor oprimiu a multidão, e com mais profunda violência o coração das mulheres. Recuaram, cheias de terror como se aquela desventurada fosse um espectro fugido de alguma campa da Sé.

Num extenuamento de forças, a infortunada dobrou os joelhos subitamente e caiu sobre o cadáver da filha.

— Eh! Mulheres, que por bem pouco temeis! — exclamou a tia Lourença — Já supondes que é alguma alma penada! De fome é que ela falava; e com fome seria que baldeou a terra; era capaz de o jurar. Pois eu não tenho medo e vou dar ajuda a essa criatura de Deus.

— Cuidado, tia Lourença, que pode ser moura encantada ou judia feiticeira, que ande a penar!

— Credo! Figas, demónio! — disseram algumas.

— Contos da Carochinha. Eu vos digo já o que é.

E a regatona aproximou-se da desditosa; para grande assombro da assistência, ajoelhou-se no chão e levantou-lhe a cabeça.

— Mãe bendita, que ela parece estar morta! Chegai, cá por caridade, esse pedaço de luz.

Um mesteiral aproximou-se dela com os restos de um archote que ficara a arder no chão.

— Arcanjo bento, que linda ela é! Rapariga de boa criação, parece feita de marfim! Vinde ver; não tenhais medo. Uma pequenita com a cabecita dourada! Morta, está morta! Ela, a mãe, é que ainda tem vida. Está-lhe a boca a tremer e as lágrimas a saltarem-lhe em fio dos olhos cerrados! Um fiozito e uma cruz de oiro ao pescoço! Aproximai-vos, pasmadas dos meus pecados, que esta nem é moura nem judia.

As mulheres aproximaram-se, mal refeitas ainda do seu terror supersticioso. Aguilhoados pela curiosidade, alguns mesteirais e maltrapilhos se tinham já aproximado, formando uma roda.

— Jesus! Que magreza tamanha! — comentou uma rapariga saloia.

— E olhai que este saiozinho esfiampado é do tecido rico das donas! — notou outra.

— Brocado — esclareceu a tia Lourença.

— Talvez lho tivessem dado de esmola! — lembrou uma tecedeira da Corredoura.

— Hum — objetou a tia Lourença — A pele branca e assim fina, que nem as toalhas dos altares, condiz bem com esta esfarrapada rica. Esta nunca andou como nós à torreira do sol nem ao vento frio das madrugadas.

— Quem será, tia Lourença?

— Eu sei lá, mulher! Talvez mal casada com algum desses tredos que se foram para os cães gadelhudos de Castela. Nestes ruins tempos tudo pode ser, mulheres de Deus! Mas aqui a falar é que a gente não a acode. Vamos levá-la daqui. Dou-lhe eu uma cama no meu casinhoto, e ainda lá tenho um naco de pão de bagaço para lhe matar a fome. Talvez tivesse ficado por aí escondida, como outras que eu sei, abandonadas pelos pais e pelos maridos, que foram ao faro dos favores do rei castelão (*).

 

[(*) Aos de Castela chamava o povo castelãos, e assim os denomina também nas suas crónicas de el-rei D. Fernando e de D. João I, o grande cronista Fernão Lopes, pai da nossa História, como lhe chamava Alexandre Herculano.]

 

— Também eu sei de algumas e bem conheço a toca onde estão metidas!

— Aqui, bem perto, sei eu de mãe e filha que vivem escondidas, e essas, minhas queridas, não passam fome! — disse a tia Lourença, aconchegando para si e friccionando com as suas mãos encortiçadas a testa de neve da pobre mãe desmaiada.

— Essas conheço eu bem! — disse uma velha mendiga — Olhai, uns passos ali para baixo, além, naquela grande casa, onde ninguém apareceu nem se ergueram as cortinas quando o Mestre passou! Vivem na farturinha e querem lá saber do resto! Ali não entra a fome!

E a velha mendiga, com a mão engelhada, a tremer no ar, apontou para um grande prédio, todo envolto em sombras.

— A rapariga está a querer voltar a si — anunciou jubilosamente a tia Lourença — Vá, minha linda, eu vos darei guarida, se não tiverdes para onde ir.

Estava a pôr-se a lua no céu, como uma pérola enorme a deslizar por um mar azul, profundo, imenso.

— Filha! — rouquejou a enlouquecida, enclavinhando as mãos por entre os negros cabelos revoltos.

E desprendeu-se de repente dos braços da tia Lourença.

Pôs-se de pé, relanceou em volta um olhar espavorido. Deu com o cadáver da criança, estendido no chão, soltou um grito como se tivesse sido arrancado da sua alma espedaçada, estendeu-lhe os braços, cambaleou e foi cair de joelhos ao pé dela, numa convulsão-de soluços.

— Então, resignai-vos — pediu-lhe a regatona, inclinando-se para ela enternecidamente — Tantas mães têm perdido os seus filhos pequeninos! Tantas!

E parecia velada de choro a voz forte e áspera daquela velha de soberba musculatura, que tinha as rudes audácias de um rufia e as brandas meiguices de uma pomba.

— Endoidece-a a dor! Coitada! — segredou piedosamente para a velha mendiga uma forte rapariga, que também era mãe.

— Filha da minha desgraça, filha da minha alma! Caem sobre ti as estrelas do céu... Flores pequeninas, todas feitas de luz!

— Então, minha pobre menina! Vamo-nos embora daqui. Eu buscarei para a vossa pequenina as flores que o sol ainda não queimou. Rosas de todo o ano, branquitas como ela, que eu tenho no meu quintalejo.

— Olhai a lua... A sua madrinha... Não tinha outra... Nem pai que se soubesse!...

— Vamos lá — insistia a tia Lourença — Eu levo a inocentinha. Também tive filhos pequeninos, também Deus mos levou, e a um, que chegou a homem, mataram os castelãos, há dois meses. Aqui vos diz este meu burel de dó. Vinde comigo.

De súbito, ouviu-se uma tropeada de cavalos. Desciam escudeiros apressadamente dos lados do paço de Apar S. Martinho.

Iam com avisos do Mestre, convocando para a madrugada, os chefes da nobreza e os homens dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro do Povo, espécie de conselho de defesa, pequeno parlamento popular, que, quatro séculos mais tarde, se poderia chamar em França um comité de salvação pública sem guilhotina.

 

* * *

 

A tia Lourença conseguira afinal levar dali a enlouquecida. Deitara nos seus braços a criança morta e duas vizinhas suas iam amparando a pobre mãe, num alheamento de tudo, sem forças que não fossem para o arranco dos soluços e para os gritos pungitivos da sua mágoa.

Seguiam por ali abaixo. A regatona morava num beco muito próximo às Portas do Mar.

Debaixo vinham subindo a pé, lentamente, dois homens que não podiam confundir-se com gente da plebe, ainda mesmo que não trouxessem atrás de si dois escudeiros apeados.

Um deles, jovem forte e esbelto, de admirável gentileza, trazia um bacinete emplumado, cota e braçais, esporas douradas de cavaleiro fidalgo. O outro, de longas barbas brancas, rosto macilento, avergoado de rugas, tinha um olhar de amargurado e o ar de mortificação de um asceta. Cingia-lhe o corpo ressequido uma túnica de tecido branco, de grande cabeção orlado de conchas com uma cruz vermelha do lado esquerdo; à cintura corda de esparto, nos pés grosseiras sandálias.

Apoiava-se a um alto bordão, que tinha uma cabaçazita pendente, como usavam os peregrinos da Terra Santa.

Dava-lhes em cheio o luar, e, naquele seu estranho contraste, dir-se-iam figuras fantásticas numa aparição de lenda.

— Pobre Portugal, meu querido Ruy! — vinha dizendo o velho.

Num estreitamento da ladeira cruzaram-se com eles as mulheres que levavam a enlouquecida.

— Monge peregrino! — exclamou a desditosa, subitamente agitada por aquela aparição — A minha filha... Sabe?... Morreu de fome!... Monge, reze por ela!

E, sacudindo as duas mulheres com febril energia, tentava aproximar-se do peregrino.

— Que é isto, criaturas?! — perguntou o jovem cavaleiro — Que significam as palavras desta mal-aventurada?

A tentar desprender-se das outras, a desditosa dobrara-se toda para a frente, de cabeça baixa, mas, de repente, como se tivesse reconhecido a voz daquele homem fidalgo e essa voz a tivesse confrangido duramente, ergueu-se com uma face violenta e volveu de relance para ele o olhar turvo de lágrimas. Subitamente levou as mãos ao rosto e caiu para trás nos braços das duas mulheres, dando um grito indefinível.

As mãos, numa tremura, tinha-as espalmadas contra o rosto como se tivesse a preocupação de o esconder daquele jovem cavaleiro.

— Mas explicai-me, criaturas, que mulher é esta, e porquê este seu desvario aflitivo?! — interrogou com estranheza o juvenil companheiro do monge.

— Senhor cavaleiro, desculpai-a. Morreu-lhe a filha — explicou umas das mulheres — e a pobrezinha tresvariou!

— Pois que Deus, Senhor nosso, tenha piedade da sua dor e lhe dê resignação — disse humildemente o velho peregrino.

— Vejo que sois de pobre condição — acrescentou o cavaleiro, metendo a mão na escarcela(*) — Aqui tendes para ajudarem a pobre mulher.

 

[(*) Uma espécie de bolsa que se levava à cintura. Muito usada nos séculos XIV e XV]

 

E estendeu a mão para uma das que a seguravam. Dava-lhe uma pequena moeda de ouro.

— Seja pelo amor de Deus! — agradeceu a mulher — e que a nossa Senhora vos dê boa fortuna.

— E vo-la conceda também — respondeu-lhe, seguindo para cima com o peregrino.

— Levai-me daqui — pedia em voz baixa a endoidecida — Depressa... Não lhe mostreis... A pequena! Não lhe digam que era minha filha! Não! A ele nunca! Tenho vergonha! Tenho vergonha!

E assim a levaram dali, com as mãos cada vez mais cingidas ao rosto, como se uma grande vergonha a oprimisse tanto, que até aquela sua loucura de mãe a pudesse compreender e sentir!