A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 19 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo VI · Notícias de Longe

 

Logo no dia imediato aquele em que as tropas reais se juntaram em tomar com as do Condestável determinou sua real senhoria que nas várzeas se fizesse alardo de todas as forças da hoste. Era uma espécie de revista ou parada geral, como hoje se diria.

D. João e Nuno Álvares queriam avaliar por si próprios as forças totais com que podiam contar e agrupar as grandes unidades de batalha, coisa embaraçosa e demorada com a tática rudimentar daqueles tempos e com a frouxa coesão e difícil mobilidade de tropas coletícias, reunidas à pressa aos primeiros rebates da guerra.

Foram-se juntando as tropas longamente por aquelas ridentes várzeas que tem o valezito do Nabão. O Condestável, o Marechal, o próprio Rei as iam guiando na formatura e na marcha daqueles tempos, que hoje nos havia de parecer tumultuária e de esmorecedora irregularidade.

Meteu-se em ordem a primeira linha de batalha ou primeiro que devia constituir a vanguarda. Eram seiscentos homens de lanças, a cavalo, tendo por armas defensivas bacinetes de camal, nem iodos eles com viseira ou cara, cotas e loudéis, arneses de pernas, braçais e manoplas.(*) Alguns ainda traziam as antigas solhas (lâminas de ferro), e os fraldões de malha de aço que de fendiam o ventre e as coxas.

 

[(*)Luvas feitas de pequenas laminas de ferro articuladas]

 

As suas armas ofensivas; além da lança e da espada de folha estreita e retilínea como um estoque, eram a hacha (*) e o machado com que decepavam a peonagem ou golpeavam os cavaleiros pelas junturas das diferentes peças da armadura.

 

[(*) A hacha era um machado de combate com o cabo revestido de ferro e uma larga e grossa folha de aço com o gume em forma de meia lua. Também davam o nome de hacha a umas pesadas maças de ferro ou de chumbo com uma bola de ferro ou de bronze na extremidade para derrubar e amolgar as armaduras.]

Nesta primeira linha se enfileiravam, distanciados dos lanceiros de plebeia origem, os fidalgos e os escudeiros nobres com os seus balsões e signas heráldicas.

Atrás deles, em fileiras, numa coluna irregular, os pajens e simples escudeiros dos cavaleiros nobres e a peonagem com os besteiros e frecheiros na frente. Era a infantaria daquela época com as suas ligeiras armas defensivas, o bacinete sem camal, a solha e a espaldeira, que nem todos tinham.

Na frente desta coluna, a que os velhos guerreiros chamariam ainda dianteira, estavam os trombeteiros. Com o Condestável ia a cavalo o escudeiro que lhe levava erguida a devota bandeira, seguido de outros escudeiros em corcéis engalanados, como escolta.

Sendo regra que a cada lança, como unidade de agrupamento, correspondessem três ou quatro homens de guerra, aquela coluna teria menos de três mil combatentes.

Na direita e um pouco à retaguarda, a Ala dos Namorados com a sua bandeira verde. À frente Mem Rodrigues de Vasconcelos. Duzentas lanças apenas.

Na ala esquerda, comandada por Antão Vasques de Almada, havia cem de lanças, incluindo vinte e cinco cavaleiros ingleses e alguns voluntários estrangeiros, entre os quais João de Monteferrat, e pouco mais de um cento de frecheiros de Inglaterra.

A segunda linha, destinada ao comando direto do Rei e a formar a reserva na primeira batalha a travar, tinha seiscentas e cinquenta lanças e dois mil e quatrocentos homens de peonagem, incluindo os besteiros.

O seu efetivo teria de aumentar, em homens de lança principalmente, logo que chegasse o reforço esperado da Beira, provavelmente pequeno por causa da passagem assoladora do exército invasor e das previsões de uma segunda invasão pelas tropas do Príncipe de Navarra.

Na frente daquela segunda linha, como porta-bandeira, um dos Cunhas da Beira, e Lopo Vasques, a substituir o irmão ausente, Gil Vasques, no cargo de alferes-mor, que era nas batalhas antigas quem levava a bandeira real, e com ele a escolta de honra dos escudeiros d’el-rei.

À retaguarda dos besteiros e da peonagem de ventres ao sol, como escreveu Fernão Lopes, dos rotos para quem não tinham chegado os peitos de ferro e os bacinetes, concentrara-se rumorosa a multidão dos não combatentes, pajens, serventuários, cavalariços, azeineis, carreiros, magarefes e outra gente necessária aos serviços do exército.

Os aventureiros curiosos e as mulheres da soldadesca, algumas delas batalhadoras do cerco de Lisboa, na hoste da tia Lourença, ficaram a larga distância, por detrás dos muros e por entre os olivedos ou pelas ribanceiras a cavaleiro da Várzea, admirando o espetáculo.

O povoléu da vila e das aldeias vizinhas, esse amontoava-se para os lados da ponte do Nabão e por toda a encosta do velho castelo dos Templários, onde tremulava a bandeira dos freires da ordem de cristo, brilhantes sucessores dos Cavaleiros do Templo.

Naquela paisagem soberanamente linda e sob aquele sol de agosto, imenso candelabro de oiro numa apoteose de sonho, esse alardo comovedor de seis mil e quatrocentos homens de guerra, aquela maior força com que podia contar uma nação pequena que não queria morrer!

E aquela hora talvez, lá pelos campos de Leiria, outro belo trecho da paisagem portuguesa, a hoste invasora estaria também fazendo alardo faustuoso do seu poder cinco vezes maior.

 

* * *

 

Nos agrupamentos das mulheres o coração falava com enternecido fervor e os olhos tinham neblinas de lágrimas, daquelas neblinas em que as piores visões se engrandecem e os mais belos sonhos se amortalham.

— Coitados deles, quando forem na batalha com esses malditos de Castela, que trazem consigo o poder do mundo!

— E as mães, as pobrezinhas! Quem sabe a conta das que nunca mais hão de ver os filhos?! — lembrou uma velhita, figura esguia de marfim amarelecido com o seu toucado de neve na brancura dos cabelos.

— Deixai que as noivas, — acudiu enternecidamente uma recém-casada, ainda nova — deixai que essas ás vezes choram com tamanha dor, que nem a das mães talvez seja maior!

— Se Nossa Senhora não pedir por eles — disse outra — e Deus não der a cada um a alma de quatro ou cinco, ai, mulheres, que não sei então o que será deles e de nós!

— E de toda a nossa terra nas mãos desses excomungados que inté têm outro Papa diferente do nosso, ou o demo em figura de Papa! O Senhor me perdoe, se nisto peco! — acrescentou benzendo-se piedosamente, de olhos postos na igreja do Senhor Jesus dos Freires.

— E pelos modos veem por aí fora como lobos danados esses malditos!

— Já me contaram que os negregados trazem consigo umas dornas de ferro que deitam fogo!...

— O fogo do inferno com que o demo, seu patrono, os há de estorricar, má peste dê com eles!

— E que esses tais engenhos de Belabú atiram de si tamanhos pedregulhos, que por cada vez podem matar vinte ou trinta criaturas!

— Credo, Mãe santíssima! Não o digais a quem tal não souber.

— Pois olhai que eles já o sabem e ainda nenhum bebeu o fôlego espavorido!

— Mas dizei-me cá, mulher de Deus: só farão tal matança dessa pobre gente que não anda toda vestidas de ferro?

— Contaram-me que mesmo aos cavaleiros, todos dentro do seu casulo de ferro, os britam e põem em migalhas como se os arneses fossem de vidro!

— Divino Jesus! Deus tal não havia de consentir!

— E pensar a gente que esse inferna daqueles almas do diabo, num abrir e fechar de olhos nos pode esmagar a flor da nossa hoste aquele galhardo Condestabre, que parece o anjo da guarda da nossa terra, o Senhor me perdoe, se nisto lhe faço ofensa!...

— E mais aquela gente jovem da Ala dos Namorados, um regalo dos olhos para a gente os ver!

— Oh mulheres, mas se Deus quisesse que eles vencessem, todos eles, os Namorados e os rôtos, os que têm brasão e os que não da nossa gente?!... Tamanha glória que nem Portugal havia do caber em si de envaidado!

— Pois isso mesmo havemos de pedir a Nossa Senhora, nós lis mulheres, e fazer-lhe os votos dos nossos corações com tamanha devoção e tanta penitência, que os Chamorros hão de vencer os outros.

— Olhai! Olhai! Avisaram da frente da multidão. Tangem as trombetas e vão a desfazer o alardo.

Efetivamente a formatura desfazia-se. A parada acabara.

Enquanto os rapazes da ala gentil fazem caracolar os corcéis pela várzea fora, tão despreocupadamente como se estivessem apenas nas vésperas de um torneio ou de um jogo de canas na Correiloura de Lisboa, o Rei, de parte com Nuno Álvares, dizia-lhe baixo:

— Nuno, seis mil e quatrocentos somente para batalhar! E com algum socorro que nos chegue da Beira, ainda menos talvez de *te mil! Muito espero em Deus, mas ainda que Ele seja por nós, muito lhe havemos nós de merecer pelo nosso esforço para que Portugal se não perca!

— Rei e amigo, creio que assim há de ser, tal como se cada um de nós trouxesse em si as almas de quantos, em mais de dois séculos, ergueram Portugal e morreram por ele.

E os seus olhos azuis de sonhador, incendidos numa grande fé patriótica, toda envolvida no misticismo da sua fé católica, co mo que voavam da bandeira castelã dos freires cavaleiros para a bandeira real de D. João e vinham enfim pousar o voo no seu pendão constelado de imagens como um relicário.

 

* * *

 

Pouco depois do alardo, deliberou Nuno Álvares mandar sair do arraial um escudeiro da sua confiança e de provado arrojo, para ir com quatro homens de armas de cavalaria ligeira (ginetes) até ás proximidades de Leiria observar a hoste de Castela, avaliar-lhe os efetivos, e notar como assentavam arraial e o tinham vigiado. Uma patrulha de esclarecedores se diria hoje.

Mas o escudeiro ainda ia com outra missão. Levava a el-rei de Castela um recado escrito, em que o Condestável intimava o monarca invasor a retirar de Portugal sob pena de lhe darem batalha, em que o juízo de Deus tivesse de decidir pela boa ou má fortuna de cada um.

Com as aparências de uma intimação ingenuamente pueril e quase risível, e com o seu feitio tradicionalista de cartel de desafio, como nos grandes tempos da cavalaria aventurosa, aquele recado escrito não era essencialmente uma fanfarronada romanesca, mas um pretexto ardiloso para o escudeiro poder entrar no arraial inimigo ou justificar a sua aproximação dele, protegido pelas pragmáticas guerreiras do tempo. D. Nuno bem sabia que o rei não ia desistir do seu propósito diante de uma alegação de meia dúzia de palavras e de uma inútil ameaça em três linhas de um pergaminho. Para batalhar e decidir a contenda a ferro e fogo é que ele juntara o maior poder militar das Espanhas e atravessara a Beira até Coimbra e de lá para Leiria como um tufão esmagador.

Dias depois voltou o escudeiro com a resposta do rei de Castela. Resposta escrita com alegações em favor da sua causa e uma arrogante promessa de entregar à justiça de Deus o seu pleito e decidi-lo na batalha que vinha procurar.

Extraordinário prestígio tinha Nuno Álvares nas Espanhas para que lhe desse a honra insigne de uma resposta com alegações e promessas aquele poderoso monarca, aliado do rei de França!

Demais a mais, no tocante ás suas prosápias e aos seus interesses políticos, de nenhum português tinha el-rei de Castela mais humilhadoras razões de queixa do que daquele cavaleiro bastar do, que fora e era o braço direito do Mestre de Avis, o seu amigo e partidário de maior valia, a lança quase miraculosa daquele Portugal insubmisso, que já lhe vencera duas batalhas.

O escudeiro chegou com a resposta, precisamente quando a hoste dispersava de uma segunda revista de parada. E com o recado do rei estrangeiro lhe trazia também informações graves, que não queria confiar-lhes diante de outras pessoas.

Pela sua parte o Condestável, assim que o viu, logo se afastou de todos os seus e foi ter com ele para o ouvir.

O recado escrito não o podia surpreender. Com aquela recusa contava ele e só lhe causou admiração que viesse num tom quase conciliador, expondo os seus direitos de herdeiro e resumindo promessas de monarca generoso para galardoar Nuno Álvares se ele abandonasse a causa de Portugal.

As informações vocais é que eram acabrunhadoras, e seriam de desalento para qualquer outro homem de menos arrojado ani mo e de menos sonhadora fé.

Contou-lhe o escudeiro que vira a dispersão de um alardo da hoste real, e os cavaleiros e a peonagem enchiam os campos de Leiria! Seriam bem mais de trinta mil homens!

As bagagens atravancavam os arredores e, com elas, ainda uns dez ou doze mil homens que não entravam na formação da hoste, mas também vinham armados e ajudariam à matança final, mal que fosse por eles a vitória.

Calculava um total de quarenta e cinco a quarenta e seis mil homens a todo o exército.

D. Nuno fingiu não acreditar, mas logo lhe foi impondo severamente a obrigação de não repetir no arraial aquela avaliação, que tinha por errada e causaria desalentos à pobre peonagem ignorante, sempre inclinada a exagerar todos os perigos.

O escudeiro não deixou sem defesa os seus créditos de observador perspicaz e logo lhe propôs uma prova abonatória do seu cálculo.

— Só para nós ambos. Dizei.

— No olival de além da ponte, os companheiros que daqui levei águardam a ocasião de vos apresentar certo escudeiro português que estava em Leiria com o amo, fidalgo nosso bandeado por Castela.

— Fugiu de lá?

— Senhor, não. Foi pelos meus companheiros feito prisioneiro numa aldeiazita dos montes de Leiria, onde o pilharam. Talvez porque ali andasse à caça de amores ou porque para ali o levasse um intento de rapina, pois que a hoste castelhana tudo por aqueles sítios tem posto a saque.

— E daí?

— Esse prisioneiro esteve muitos meses em Castela, veio de lá com o rei; tudo viu e sabe, e tudo vos dirá para que lhe perdoem.

— Está bem. Vou eu ouvi-lo, eu sozinho, e olhai bem que ninguém da vossa boca o venha a saber.

— Senhor Condestável, pela vossa bandeira e pela minha honra vos juro.

D. Nuno foi sozinho direito ao olival e lá lhe apresentaram o prisioneiro aqueles dos ginetes que tinham acompanhado o seu enviado ao rei de Castela.

Sujeitou-o logo a um breve interrogatório, a que o prisioneiro respondeu desassombradamente.

— Que gente de armas e peonagem de guerra traz el-rei de Castela?

— Mais de trinta e três mil homens, pois se lhe juntaram aos que trouxe de Castela os muitos que vieram das naus e galés que estão em frente de Lisboa e gente de Alenquer e Santarém.

— Então menos do que eu supunha!

— E mais de doze mil que não entram na hoste, mas entrarão na chacina como têm entrado na rapinagem. Boa cavalaria fidalga, os maiores senhores das Espanhas e muitos de França. Lanças umas oito mil. De cavalaria ligeira de ginetes mais de dois mil à castelhana e à mourisca.

— De França quantos supondes?

— Dois mil de Gasgonha e do Bearnês, ouvi que eram.

— E uns engenhos de fogo que dizem trazer el-rei; pudestes vê-los?

— Senhor, vi. São dezasseis bisarmas de ferro, de boca escancarada como os balseiros do Alentejo. As zorras, em que vem cada trom (*) com o seu estrado, estafam três juntas de bois, as rodas abrem regos fundos nos caminhos, e só a quatro juntas se arrancam das ladeiras!

 

[(*) Os raros exemplares dos primeiros trons que se encontram nos museus militares têm o aspeto de morteiros sem munhões.]

 

— Melhor, melhor assim! Fico sabendo. São aventesmas de grande ronca e pequeno dano. Sejam, porém, como forem, sob pena de morte vos proíbo que de tal faleis com alguém ou digais o número dos nossos inimigos que estão em Leiria. Vede bem: sois um prisioneiro; tenho sobre vós direito de vida ou de morte e, além do mais, porque em rapinas de povoados foi que vos prenderam, por tal vos posso mandar decepar as mãos.

— Senhor, o que vós mandardes que eu diga — respondeu enfiado e num grande quebramento de ânimo. Do que fiz estou arrependido e contrito.

— Pois boa paga vos darei, em vez da morte por ladrão de povoados, se em presença da sua real senhoria, o senhor rei de Portugal, e de todos os seus cavaleiros fidalgos e conselheiros disserdes o contrário do que a mim me contastes.

— Mandai me o que quereis que eu diga.

— Que a hoste d’el-rei de Castela é muito mais pequena do que nós aqui julgamos, e que a sua gente vem mal unida e de má vontade e, pelo que tendes visto aqui, mais valerão dez de cá do que trinta daquela gente.

— Senhor D. Nuno, tudo isso que mandais o hei de eu dizer firmemente.

— Ficai sabendo que deste modo bom serviço de resgate será o vosso para esta terra de Portugal, que tínheis atraiçoado.

— Senhor Condestável, por acompanhar meu amo foi que eu tal fiz, assim como fizeram tantos outros escudeiros e até os dos vossos ilustres irmãos, o senhor D. Pedro, que ora é mestre da ordem de Calatrava, e o senhor D. Diogo Álvares Pereira.

— Irmãos pela minha mãe; agora, porém, como se fossem inimigos meus, porque ao serviço de outra causa e de outra terra puseram o coração e as lanças — disse-lhe afogueado. Segui-me.

Foi dali com ele à presença d’el-rei, que estava na grande várzea rodeado pelos do seu conselho, incluindo os doutores, e por todos os principais cavaleiros fidalgos que tinham assistido ao alardo daquele dia.

D. João gracejava.

— Vede que até os nossos preclaros doutores em leis estão de ânimo feito para trocar a gorra pelo bacinete, a loba negra pelo arnês, a pena por uma lança.

— Senhor, este vosso reino tão poucos tem para o defenderem do tamanho poder que sobre ele veio, — respondeu-lhe João das Regras sorrindo-que até os que estudaram para combater com a língua têm agora de lutar com a lança.

Todos festejaram muito o dito do doutor-chanceler. Foi então que o Condestável chegou com o escudeiro aprisionado nos arrabaldes de Leiria.

O pobre diabo disse a El-Rei tudo o que D. Nuno lhe indicara, mas tanto quis ser agradável a quem podia dispor-lhe da vida, que pôs na mentira de boa intenção uma grande sombra de inverosimilhança, afirmando que mais valeriam cinquenta daqueles, que de toda a sua alma estavam ali para defender Portugal, do que mil dos que de má vontade trazia consigo o rei de Castela.

O primeiro a sorrir, num sorriso incrédulo que fez turbar o Condestável, foi o astuto João das Regras, o raposo bolonhês como Nuno Álvares lhe chamava.

Também El Rei não podia acreditar; mas naquela conjuntura era de boa política e de útil estratégia fingir que acreditava. A versão correria de boca em boca e daria maiores alentos aos quatro mil e tantos da arraia combatente, força principal da sua pequeníssima hoste.

Depois o interrogou D. João acerca das razões porque se fora bandear com os de Castela.

O escudeiro repetiu a alegação que fizera ao Condestável e disse o nome do amo a quem servia.

Ao ouvi-lo, El-Rei procurou com o olhar os da Ala dos Namorados e notou que Ruy de Vasconcelos mudara de cor. Já o Vasco Eanes, o Magriço, e outros que estavam no segredo dos amores do filho de D. Dulce, tinham olhado para ele.

— A esse cavaleiro servia — continuou o escudeiro — e mais ao sobrinho que vem com ele, um a quem lá chamam o cavaleiro mudo, porque no cerco de Lisboa de tal modo o feriram na boca e o ferimento se lhe agravou, que tiveram os físicos de lhe cortar um pedaço da língua, para que da podridão dela lhe não viesse a morte.

Entre os Namorados dezenas de vozes murmuraram o nome de Antão Gonçalves, o rival e odiento inimigo de Ruy de Vasconcelos.

Era agora diversa a perturbação do namorado de Magdalena, mas era também imensamente maior. Ao pai daquela noiva de sonho talvez não tivesse ânimo de o matar, ainda que com ele se defrontasse peito a peito, mas ao rival odioso, a esse lhe não daria quartel.

— Ainda que ele me vença, — dizia consigo — já não terei o nojo «Ir morrer ouvindo daquela boca o nome adorado de Madalena!

El-Rei mandou retirar o informador, e Ruy foi dali pedir licença ao Condestável para interrogar o escudeiro aprisionado acerca do pai daquela que tivera por noiva, e do outro a quem chamavam o cavaleiro-mudo.

D. Nuno concedeu-lha em palavras afetuosas de amigo e admirador.

* * *

 

 

Apartado com o escudeiro para uma alamedazita, muito avizinhada do rio, Ruy de Vasconcelos fizera-lhe várias perguntas a respeito do pai de Magdalena e do fidalgo Antão Gonçalves.

— Estiveram então para casar essa menina com o cavaleiro-mudo?

— E em Torres ou em Santarém os teria mandado casar el-rei, a pedidos do meu amo e senhor, assim como se fosse casamento em artigos de morte, se não lho impedissem os pedidos da Rainha, que muito se afeiçoara a D. Magdalena e tanto lhe quer como se fosse sua irmã.

— E depois em Castela?

— Foi então que o ferimento do senhor Antão Gonçalves se agravou, e contaram-me que tantas foram os pedidos da Rainha, que el-rei de Castela deliberou espaçar o casamento para mais afortunada ocasião. O fidalgo melhorou a poder de tempo, mas, pelos modos, tantas eram as lágrimas e as súplicas da pobre menina, que a senhora D. Beatriz ainda obteve do seu marido o adiamento do noivado para quando voltassem com esta guerra decidida. Ouvi que O. João I de Castela prometera ao meu amo o condado de Ourem e ao senhor Antão Gonçalves outro condado, e todos os bens de uma família nobre de cá, em paga de dote para o seu noivado.

— Não vos disseram que família?

— Só me contaram que era uma família que tem paço aqui em Lisboa e grandes terras e coutos na comarca de entre Minho e Douro.

— Escudeiro, adivinhei eu qual é. Mas por Deus, que hei de tolher o dote do noivado ao mudo!

— E por agradecimento do favor prometido foi que Antão Gonçalves fez por escrito um voto a el-rei de Castela.

— Qual?

— O de ir pôr-lhe aos pés a coroa de rei de Avis, que assim por escárnio chamam em Castela ao senhor rei de Portugal, se ele consigo a trouxesse para a batalha real que tivessem de lutar.

— Esse voto lho hei de eu torcer. Mas, dizei me cá: E verdade que el-rei de Castela traz consigo o antigo cetro de Castela? Aí o disseram já.

— A pura verdade. Com os meus olhos o vi. É todo de ouro e cristal. E dizem que ainda mais vale e é de maior apreço que um grande oratório de prata lavrada e de lindas imagens que o rei traz para as suas devoções. Mas Antão Gonçalves ainda fez outro voto escrito, que foi lido a el-rei, porém desse vos não posso eu falar.

— Não podeis porquê?!

— Porque contende com uma informação que eu jurei não daria a ninguém.

— Juramento para ele?

— Não, senhor cavaleiro. Juramento já hoje feito.

— O senhor Condestável autorizou-me a perguntar-vos quanto me interessasse, e só me pediu que, pela minha honra, lhe afirmasse não dizer qualquer coisa relativa à hoste de Castela, que das Vossas informações pudesse colher. Por minha honra lho afiancei, e ele então me deu sobre vós direitos iguais aos seus.

— Mas foi a ele, senhor cavaleiro, que eu fiz o juramento!

— A ele! Pois seja como for. Pelo vosso juramento vos dou o meu de guardar segredo acerca do que me disserdes da hoste de Castela. Pelo meu nome vos juro e por esta jura vos defenderei, seja contra quem for, e vos prometo o prémio de dez dobras de ouro.

Era tentador para um escudeiro que não trazia consigo um ceitil e se via assim dispensado de guardar para aquele amigo do Condestável a parte mínima do segredo que jurara manter.

— Senhor cavaleiro, pelo vosso juramento e por saber quem sois, vos direi o segundo voto de Antão Gonçalves.

— Dizei sem nenhum receio.

— Em Ciudad-Rodrigo se soube que havia cá uma companhia de cavaleiros namorados com a sua bandeira. Já quando foi do cerco de Lisboa se falava nos arraiais castelhanos do arrojo desses namorados, alguns dos quais tinham ousado sair ao encontro da hoste de Castela em retirada. Ao meu amo ouvi dizer uma vez que esses jovens batalhadores em tempo tinham aclamado pela sua rainha de sonho, por ser Também rainha de belas, aquela dama e senhora minha D. Magdalena, bondosa como as santas e linda como as estrelas.

— Assim foi.

— E sem mentira vos digo que não será somente rainha das belas de Portugal, pois que em Castela. E mais têm fama as beldades de Toledo e Sevilha, nenhuma outra vi de mais encantos!

— O voto de Antão Gonçalves? Dizei-mo.

A el-rei prometeu que tomaria à sua conta os engenhos novos de fogo… com que eles veem mais envaidados e seguros de vencer...

— Já sei: os trons.

Esses, para com eles espedaçar os frangões loucos da tal hoste dos Namorados. Perdoai, se vós sois desses.

— Sou; dizei mais.

— Que ele próprio mandaria deitar fogo aos trons, e aos Namorados que ficassem de pé os iria derrubar com o seu esquadrão e tomar-lhes a bandeira para el-rei... Senhor cavaleiro, o mais me custa a mim dizer-vo-lo, e muito vos peço que de tal me desobrigueis.

— Seja o que for, dizei! — instou numa turbação de cólera.

— Receio ofender-vos!

— Quero; mando eu que o digais.

— Pois, por cumprir vosso mandado, vos direi. Que a bandeira dos Namorados seria para el-rei mandar pôr à porta da sua câmara real em guisa de surrão em que limpasse os pés.

— Escudeiro, preciosa informação a vossa! — rouquejou, a reprimir as ondas de ódio em que o coração parecia afogar-se lhe. Antes da noite havereis na vossas mãos o dobro das moedas que vos prometi. Talvez que as vossas revelações de algum modo concorram para que el rei de Castela perca a herança e o vilanaz de Antão Gonçalves tenha de engolir os votos que fez e morrer por eles! Escudeiro, connosco heis de ir ao campo da primeira batalha para verdes quem leva a bandeira dos Namorados e que homens eles são para defender a coroa do rei de Avis. Vinte dobras de oiro pela notícia dos votos, e obrigado.

 

* * *

 

Desconfiado das informações do prisioneiro acerca dos castelhanos, D. João I muito peia calada imitou o Condestável, e também mandou com recado seu ao rei de Castela um emissário da sua confiança, o escudeiro Gonçalo Anes Peixoto.

Recado em certos pontos semelhante ao de D. Nuno e com o mesmo fim. O monarca inimigo respondeu que lhe requeria, por Deus e pelo apóstolo S. Tiago, lhe não pusesse mais estorvos ao seu direito de herdeiro; mas que, se era preciso batalhar para defender sua causa, muito prazer teria em ir busca-lo para lhe dar batalha.

O Peixoto voltou logo com uma resposta, que a ninguém podia causar estranheza; mas trouxe também informações da sua própria observação, que absolutamente desmentiam a peta otimista inventada pelo Condestável para que o escudeiro aprisionado a tornasse pública.

Eram esmorecedores os pormenores contados pelo Peixoto em audiência confidencial com o Rei.

Vinham com os quarenta e tantos mil homens da hoste os mais poderosos senhores e altivos fidalgos da Espanha, da Gasconha e do Bearne e até um cavaleiro velho, que era camareiro do rei de França e já tinha assistido a muitas batalhas, sendo as principais contra os ingleses.

O Rei impôs-lhe absoluto segredo, e logo deu ordem para a sua hoste seguir na madrugada do dia seguinte direita a Ourem, levando a disposição com que devia entrar em batalha. As forças do Condestável formando o corpo avançado, as alas como flanqueadores, a coluna do Rei como corpo principal.