A Ala dos Namorados
Capítulo IX · A Bandeira dos Namorados
No dia seguinte àquele em que D. Maria de Mendonça e a filha voltaram ao paço abandonado dos Mendonças, apareceram logo de manhã uns grandes grupos de cavaleiros fidalgos, todos juvenis, em frente do velho solar medievo.
Destacava-se de todos aqueles jovens um de alta estatura, magro, espadaúdo, feio, de mãos cabeludas. Era Álvaro Coutinho, o Magriço.
Pareciam águardar alguém e não esperaram muito.
Ruy de Vasconcelos assomou à embocadura de uma rua que vinha dos lados de S. Vicente.
Foram todos para ele em chusma, jovialmente, com o Magriço à frente.
— Ora viva quem é a flor do esquadrão dos enamorados, noivo da rainha ias belas — disse-lhe, prazenteiro, o Álvaro Coutinho.
— Perdoai a demora.
— Nenhuma demora que nos fizesse dano. E depois, nós é que chegámos mais cedo do que a hora ontem aprazada.
— Para o pedido de mistério que me não quisestes revelar!
— Diante da vossa dama o ides saber. Certo a avisastes?
— Avisei; ficou muito enleada.
— É que também as rainhas se perturbam com as homenagens que merecem. Vamos lá, se vos apraz.
— Vamos.
— Ah! Mas primeiro deixai que vos dê apresentação de três novos companheiros.
Apresentou-lhe os recentes iniciados, fidalgos também juvenis.
— Como vedes, a nossa ordem aumenta. É que, apesar de todas as calamidades destes nossos tempos, o número dos amorosos é cada vez maior! Explica-se — acrescentou, sorrindo — Têm lindos olhos enfeitiçadores as damas de Lisboa.
— Sem ofensa para as de Entre-Douro e Minho, que eu tive a fortuna de admirar e achei encantadoras — acudiu Ruy calorosamente.
— E mais para as da Beira e do Alentejo — lembrou um, mais próximo.
— Não esquecendo as lindas raparigas do meu Algarve — acudiu outro — São morenas de olhos mouros por quem a gente se enfeitiça e perde. Não mas deixeis esquecidas.
— Decerto que não — respondeu Álvaro Coutinho, sorrindo — Reparai. Éramos há quinze dias menos de vinte e já somos quarenta e cinco! E porque as há lindas em todas as comarcas do reino e nós, Portugueses, somos do nosso natural amorosos, aqui tendes, meu querido Ruy, a razão deste meu vaticínio. Daqui a umas semanas teremos o dobro de homens e não haverá sala no paço da nossa rainha em que possamos caber juntos. Vamos lá — concluiu, pondo-lhe o braço pelo ombro.
Ruy bateu ao portão do palácio. Vieram logo abrir. Eram esperados. Ao topo da grande escada antiga os águardava D. Maria de Mendonça e lhes deu gentil acolhimento. Ao lado dela Madalena, num enleio adorável, muito afogueada.
Foram conduzidos para a vasta sala de armas dos Mendonças, antigo salão mouro de janelas estreitas com colunelos floreados, e de silhares altos de preciosos azulejos. Com os rendilhados de pedra amarelecida, em puro estilo árabe, e com os silhares a representarem trechos de Meca de Bagdade, lances da vida de Maomé e combates dos califas gloriosos, contrastavam os troféus de pendões com a cruz de Cristo ou com umas ingénuas imagens de Jesus e da Virgem, e as panóplias de espadas largas e retilíneas, a sobrepujarem altos escudos com grandes cruzes vermelhas e verdes, floreteadas, de antigos freires de Tomar e de Avis (*).
[(*) Das ordens militares que Portugal teve na Idade Média, comunidades de guerreiros monges, que por algum tempo foram a mais brilhante escola de guerra e o mais sólido poder militar do País, as de maior renome eram então a de Cristo, que substituirá a extinta ordem dos Templários, e a de S. Bento. A primeira tinha a sua sede principal em Tomar, e a segunda em Avis.]
A meio da sala cadeiras largas e altas de cedro com grosseiras esculturas, e a um e a outro lado tamboretes de madeira dourada e estofo desmerecido, de veneranda longevidade.
D. Maria honrava-os com inexcedível delicadeza.
Ficaram de pé, apesar de todas os pedidos da dona da casa.
Ruy procurou um lugar modesto ao pé de um dos cavaleiros com quem tinha maior intimidade, um tal Vasco Eanes da Costa, rapaz de vinte e três anos e de preclara linhagem, notável pela sua musculatura de atleta, pelo génio aventureiro e por várias proezas do seu pulso de fenomenal rijeza.
Ficaram os dois de pé no desvão de uma arcaria, ao fundo da qual pendia um velho pano marroquino, de seda e ouro, em guisa de reposteiro de alguma porta que totalmente encobria.
Álvaro Coutinho adiantou-se à frente de duas filas de iniciados, aqueles que o tinham sido depois da reunião em casa de Ruy, e apresentou-os a um por um a D. Maria e à filha.
— Estes companheiros meus, senhora minha — disse o Magriço para Madalena — como nós votados à defensa da nossa terra e aos maiores feitos em honra das nossas damas, muito comigo instaram para que vos trouxesse aqui. Vêm dar preito à vossa realeza entre as mais belas damas que tem Lisboa, e da fervorosa admiração com que de vós lhes falámos dão eles agora manifesto testemunho. Aceitai-lhes o preito, senhora.
Madalena levantou-se, perturbada, num constrangi-, mento de modéstia.
Um a um, solenemente, como homens daqueles tempos num país onde a juventude fidalga e sonhadora parecia ressurgir os requintes da velha cavalaria, dando realidade aos amores romanescos da Provença e às lendas galantes da Távola-Redonda, os apresentados foram beijar, de joelho dobrado, a mão branca, escultural, da noiva de Ruy de Vasconcelos.
Por fim, curvando-se diante dela, Álvaro Coutinho disse-lhe:
— Senhora, por todos nós, deixai que vos faça um pedido.
— Senhor cavaleiro, dizei.
— Carece de uma bandeira a companhia dos Namorados. Da cor do mar, que é grande alentador de sonhos, e da cor em que a gente nova figura a esperança dos seus amores sonhados. E sobre essa cor, senhora rainha de belas, as letras de umas palavras em que o nosso voto de Portugueses e de namorados se resuma. Tem de vir das vossas mãos essa bandeira, para que a levemos à nossa primeira batalha campal. E primor seria que no-la bordasse a mais linda namorada.
— Senhor, tão generosas palavras favorecedoras! Receio não saber...
— Por alguém, muito nosso, porque muito vos quer, soubemos que admiravelmente e com rara presteza bordastes a fio de ouro, por certo voto do vosso coração, o frontal de seda de um altar.
— Assim foi — confirmou, perturbada, buscando no olhar o seu bem-amado inconfidente — Mas foi para um altar pequenino, recatado.
— Pois seja a bandeira outra promessa vossa. Fazei de conta que é para outro altar, por outro milagre, e pela santa causa da nossa terra, para voar alto como as nossas almas. E, com os olhos nela, no maior fragor das batalhas, um de nós lerá nas letras que vós lhe bordardes o mais belo e orgulhoso sonho do seu noivado.
Volveram todos um olhar em busca de Ruy de Vasconcelos, a quem Vasco Eanes chamara a atenção para qualquer rumor estranho por detrás do velho pano marroquino.
— Senhor, sim — respondeu Madalena.
— Pois bendita e gloriosa promessa seja então a vossa. Por todos nós, fervorosamente vos agradeço — disse, beijando-lhe a mão — Poucas palavras bastam, senhora minha, à volta de certa imagem pequenina da Virgem (*), em pintura de Itália, que eu hei de ter a honra de vos trazer. Estas palavras: Pela nossa terra e pelas nossas damas.
[(*) Estava muito nas ideias da época e vinha já de outros séculos aquela devoção das imagens de santos apostas aos pendões, bandeiras e estandartes. O estandarte de D. Nuno Álvares Pereira era esquartelado por uma grande cruz e tinha as imagens de Jesus crucificado e da Virgem, de S. João, de Santo António, de S. Jorge e de S. Tiago. Umas pequeninas imagens estas das bandeiras; algumas pintadas na própria seda da insígnia, outras presas a cercaduras bordadas.]
— Em duas semanas, vo-la terei bordada, pois que só essas palavras lhe quereis.
— Senhora, Deus vos pague, e que seja para o melhor serviço de Portugal e para a nossa maior glória essa bandeira, que das vossas mãos hemos de receber.
E todos, entusiasticamente, lhe foram agradecer a gentileza.
— Parecia que alguém estava falando perto daquela porta — dizia baixo Vasco Eanes para Ruy de Vasconcelos.
— Engano vosso havia de ser. Com franqueza vos digo que não tinha ainda visto semelhante porta, e não é para admirar, pois que toda ela se encobre com aquele velho pano marroquino.
— E se não fosse o ruído que eu ouvi, e as vozes sumidas...
— Eu nada ouvi, talvez por ter a atenção voltada para o que dizia Álvaro Coutinho.
— Ou antes porque foi na ocasião em que Nuno da Cunha vos estava segredando não sei quê.
— Sim... Mas o certo é que, se me não avisais, nunca eu teria sonhado sequer com semelhante porta!
— Baixa, estreita, toda chapeada como se fosse a porta de uma prisão numa torre!...
— Pois seja como for, deixai, que daqui a pouco hei de eu saber de D. Maria de Mendonça para onde essa porta dá comunicação.
A fila dos que se despediam ia já no fim e Vasco Eanes da Costa afastou-se de Ruy para ir despedir-se também.
O filho de D. Dulce foi acompanhar até ao portão todos aqueles seus companheiros.
— Esperai vós aqui uns instantes — disse para Vasco Eanes — Pequena demora terei.
— A que vos aprouver.
Subiu e foi ter com D. Maria, que ainda estava na sala de armas com a filha.
— Agora venho eu agradecer-vos a gentileza, rainha das belas, rainha santa da minha alma! — disse para Madalena, beijando-lhe a mão.
— E vós o meu valido — volveu-lhe a sorrir.
— Senhora minha — disse a D. Maria — concedei-me que, por simples curiosidade, vos peça um esclarecimento.
— Todos os que eu souber dar-vos.
Ruy falou-lhe do rumor de vozes abafadas que o seu amigo Vasco Eanes tinha notado do lado da porta encoberta.
— Lembrei-me que algum dos vossos servos estivesse escutando por detrás daquele pano; mas vi que não estava lá ninguém! O meu amigo disse-me ter-lhe parecido que ouvira passadas cavas e vozes sumidas. Em boa verdade eu nada ouvi.
— Engano havia de ser — respondeu D. Maria numa perturbação em que Ruy não reparou — Nunca no meu tempo se abriu aquela porta. Uma criada velha, que já morreu, contava uma história de certa moura que por ali se sumira com um xerife negro de Marrocos com quem tinha amores, a que o pai se opunha por ódio à família do negro. Dizia-se que ele e ela ali tinham ficado emparedados e que ainda, em certas noites, se ouvia soluçar, dando ais e clamando palavras que se não entendiam!
— A mim mo contou uma vez a criada velha e nunca mais aqui entrei senão hoje! Fazia-me pavor esta sala! — disse Madalena ingenuamente, num arrepio de nervos.
— Contos de gente velha, em que eu nunca me fiei, mas a verdade é que sentia um certo horror em aqui vir de noite! — comentou D. Maria.
— E não sabeis então, senhora minha, aonde a porta vai dar?
— Ao certo não sei, pois que nunca à minha vista foi aberta. O meu marido é que uma vez me disse que no tempo do avô ali tinham ido, mas que logo, a uma vintena de passos, esbarraram com um muro em ruínas.
— Sem encontrarem o xerife negro e a sua bem-amada, os aflitos emparedados que passaram séculos a soluçar amarguras por horas mortas da noite! — gracejou o Vasconcelos — Pois muitos vos agradeço o conto da velhita, vossa criada, e daqui o vou já dizer ao meu amigo Vasco Eanes para o convencer de que sonhou acordado. Hei de rir com ele desse caso que o deixou suspeitoso, nem eu vos sei dizer de quê!
Despediu-se, desceu. Reproduziu o conto a Vasco Eanes, dizendo-lho a rir.
— Pois sim, seja o que for, mas o que eu vos afirmo é que não estava o sonhar — teimava o jovem atleta, que de um murro abria o toutiço a um homem ou deitava a terra um bezerro — Levantei o pano disfarçadamente, encostei-me à porta, e ouvi umas vozes sumidas.
— Só se eram do xerife negro e da sua malfadada moura — volveu-lhe Ruy de gracejo.
— Não vale a pena falar mais em tal — disse-lhe secamente — A teima podia azedar-se, e eu não quero perder um amigo por coisa de tão pouca valia e com a qual nada tenho. Ficai com o vosso conto, que eu cá vou com a minha teima.
— Homem de Deus, o caso não é para tanto! Até logo, ou até amanhã como bons amigos.
— Até logo seja, e não falaremos mais no caso.
— Está dito, Vasco Eanes. E se quiserdes aparecer lá por casa, com muito prazer vos agradecerei.
— Talvez logo. Adeus.
Vasco desceu para os lados do rio; Ruy tomou para os lados de S. Vicente.
* * *
Dias depois Mendo Rodrigues, o antigo cavaleiro, o misterioso peregrino da Palestina, chegara apreensivo ao paço de D. Dulce como se fosse portador de más notícias.
Mandou chamar o sobrinho e meteu-se com ele numa salazita, à porta fechada.
— Tive hoje a má hora de encontrar esse nojento homem que se chama João Lourenço da Cunha!
— O primeiro marido de Leonor Teles!
— Dos dois maridos da loba o mais atraiçoado e o mais asqueroso. Ele! Não o supunha cá! Duvidaria que lhe houvessem aceitado os serviços, se eu próprio o não tivesse encontrado! Por assinalados feitos que ele aí praticasse, a vergonha de o receberem seria a mesma! Adivinha-lhe a gente por debaixo do bacinete aquelas pontas douradas com que ele enfeitava a gorra para alardear na corte de Castela, com desavergonhamento de bobo, a sua má sorte de marido. Mas é isto o que menos vale. Quando o encontrei, ia comigo certo frade que sabe os segredos da minha vida e os dele. Falou ao frade e a mim me não conheceu. Um pouco se afastou com ele e soube depois que lhe esteve dando graves notícias de perigos.
— De perigos para a nossa causa?!
— Sim, de perigos para Lisboa e para Portugal! O frade confiou-me as más notícias que o bandalho fidalgo lhe deu, mas pediu-me que por agora as guardasse em recato e me limitasse a dizê-las a quem pudesse acautelar o Mestre, sem levantar grande alvoroto de maiores desesperos para essa pobre peonagem, que vai para os muros e para as torres a cair de fome, com as mulheres e os filhos em casa a roerem as raízes secas das ervas com que há dois meses se banqueteiam ou a enganarem a fome, bebendo água podre, que dia e noite os envenena.
— Uma horrorosa miséria, que nos vencerá primeiro que a hoste de Castela, se Deus não tiver dó de nós!
— Talvez não tenha, que ainda temos cá ciganagem de má consciência e pior coração! Mas o que o frade soube vem de má fonte empeçonhada e seria uma imprudência entender as coisas à letra e tomar já à conta de verdades seguras umas suspeitas que saíram daquela boca sem escrúpulos É dever estar acautelado contra os mais estranhos casos, sem divulgar pela gente miúda, que em tudo crê, boatos que podem ser calúnias. Um deles, não — acudiu com turbada veemência — Nesse acredito eu piamente, que tudo posso e devo acreditar de mais perverso e de mais torpe ambição, por parte dessa que foi rainha e boneja, vergonha de todas as esposas.
— Leonor Teles.
— Não tinhas que errar. Sei agora quanto ela tem feito depois que daqui me afastei. Chamou o genro no seu auxílio contra a revolução do povo, chamou-o para invadirem Portugal, a terra onde a loba nasceu, mas logo se desaveio com ele e com a filha, como era de esperar; procurou então parciais com as suas torpes blandícias de Messalina e conspirou contra Castela como conspirou contra Portugal. Cansou-se de tanta perfídia o real invasor, seu genro, e afinal a mandou prender e levar para Castela (*).
[(*) Averiguou-se que D. Leonor Teles e o Conde de Trastâmara, primo do rei de Castela, tinham uma conspiração ajustada contra o monarca invasor. Teria saudades do trono a rainha viúva, e desvairado por ela, o conde haveria sonhado talvez com uma coroa real. Seria então o terceiro marido de Leonor Teles, com o primeiro ainda vivo! Supõe-se que a conspiração não hesitaria diante de um regicídio.]
Está lá encerrada em não sei que mosteiro de monjas, e de lá mesmo irá tramando a ocultas. É o primeiro marido quem o diz, o primeiro e o mais digno dela! Se puder, fugirá para vir entregar-se ao primeiro aventureiro que se ponha ao serviço das suas ambições. Virá para tentar o Mestre, que foi um dos iludidos que ela ia enfeitiçando.
— Como quis enfeitiçar Nuno Álvares, pajem e escudeiro seu de austera honestidade.
— Como enfeitiçou outros — acudiu Mendo Rodrigues amargamente — outros que tinham obrigação de conhecer o Mundo e por ela se perderam!
— Quando ela podia enfeitiçar.
— Resistem ao tempo os seus amaldiçoados encantos. Mais do que o mármore das estátuas. Ouvi que ainda era de estonteadora beleza. Aquelas mulheres assim não envelhecem! E se viesse lançar-se nos braços do Mestre com as falsas e pungidoras lágrimas que ela sabe chorar, o cunhado bastardo, o Defensor do Reino, hesitaria em mandá-la pôr fora do seu paço de Regedor do Reino ou da sua tenda de batalhador. Coisa que não seria para grandes estranhezas. Nem vós sabeis ainda que certos homens de Lisboa, alguns que levantaram a revolução, o próprio Álvaro Pais, pensaram em casá-la com o Mestre e neste sentido se empenharam!
— Não sabia! Por Deus, que seria essa a suprema infâmia de Portugal! Então antes derrotados pela gente de Castela. Antes! Já vi agonizar um leão; sente-se admiração e dó. Mas o cão medroso, a arrastar-se na lama para lamber os pés que o fazem ganir, não pode causar senão desprezo.
— Tal detestável pensamento o justificavam no empenho de apaziguar o Reino, pois que ainda se não tinha por certa a invasão dos Castelhanos.
— Por tal preço, ignóbil paz!
— Mas se Leonor Teles voltar de Castela e alguém desta terra tiver o impudor de a receber como receberam o primeiro marido, algum homem haverá que lhe faça a ela o que o Mestre fez ao conde galego. Ruy, pela minha fé o juro!
— Tio e senhor, tal não digais! Ninguém seria agora capaz de lhe dar aqui, nem sequer de esmola, o canto de um lar.
— Não sei, Ruy, não sei! Andam numerosos traidores de cá na hoste do rei castelhano, mas suponho que ainda alguns ficaram aí. João Lourenço da Cunha o deu a entender ao carmelita, meu amigo. Não disse nomes, não mencionou indícios seguros, mas deu a perceber que os havia! E talvez aqui mesmo em Lisboa, lidando convosco, os fidalgos leais, iludindo-vos como falsos amigos vossos, no fingimento de defender com igual devoção a causa que vós defendeis!
— Tio, custa a crer!
— Talvez até ele próprio, o que deu aviso da suspeita, ele mesmo, se lhe chegarem ao preço... É manha velha fingirem-se escrupulosos aqueles que mais empenhados andam no encobrimento da sua consciência de ciganos e do seu coração de ladolhos. Pelos modos, el-rei de Castela promete sedutoras recompensas à ciganagem brasonada e não lhe faltam punhados de ouro para mercadejar traidores! Seja como for, vê se tens alguém mais chegado ao Mestre, que o ponha de sobreaviso para estar precatado. Ainda se não sabe de certeza donde a traição virá, mas suspeita-se que, de uma para outra hora, aqui mesmo em Lisboa, pode surdir!
— Pessoa muito chegada ao Mestre, e a quem eu possa falar abertamente em tal assunto, só de uma sei.
— Qual?
— Afonso Eanes.
— O Juiz do Povo, o glorioso tanoeiro, como tu dizes?! Está bem. Seja esse. Mas repara então. Eu não quero sobre mim nem a sombra de uma suspeita de denunciante. Não se fala em João Lourenço da Cunha. Desconfia-se, há rumores de que alguma traição se esteja urdindo dentro da cidade. Mais nada. O Mestre que esteja precavido e ponha em gente de provada lealdade o encargo das roídas e sobre-roldas (*). E vós, os rapazes da companhia dos Namorados, começai a cumprir o vosso voto, vigiando de dia e de noite os muros e as portas da cidade, como coisa vossa de segredo.
[(*) Rondas das torres e muralhas.]
— Tio e senhor, isso hemos de fazer devotadamente.
— Entretanto, eu levarei o carmelita, meu amigo, a sondar bem João Lourenço da Cunha e a instigá-lo a ir declarar abertamente ao Mestre quanto sabe de perigo para Lisboa e para a causa de Portugal. Vai falar quanto antes a Afonso Eanes.
— Sem nenhuma demora, pois daqui vou já a casa dele.
O Mestre foi avisado pelo tanoeiro, naqueles termos vagos que já conhecemos.
Quase duas semanas depois, um jovem cavaleiro, Ruy Freire, pôde saber alguns pormenores do trama traiçoeiro e foi dizê-los ao Mestre, de quem era dileto, por ser filho de D. Nuno Freire, que teve o mestrado da Ordem de Cristo e fora aio daquele bastardo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, ao tempo em que ele era criança. (*)
[(*) O Fernão Lopes, Crónica de El-rei D. João I, capítulo CXXXVIII. Homem de claro espírito e honrada consciência, Fernão Lopes escreveu cinquenta anos depois daqueles acontecimentos e pôde, portanto, ouvir o testemunho dos que eram jovens naquela agitada época. E como foi o cronista-mor do reino, teve à sua disposição os mais ratos e preciosos documentos oficiais.]
* * *
No dia 14 de Agosto de manhã, Ruy de Vasconcelos avisou Álvaro Coutinho de que a bandeira dos Namorados tinha já concluídos os seus dizeres em letras de fio de ouro.
Foi uma notícia de grande alvoroço para os rapazes, e logo se combinaram para irem receber a bandeira, todos reunidos solenemente por volta da tarde.
Assim foi. Cerca das 3 horas, mais de cinquenta fidalgos jovens (porque já tinha havido mais adesões), de bacinetes emplumados e cotas de armas, caminhavam unidos para o vetusto palácio dos Mendonças.
Seguia-os uma turbamulta da plebe, de curiosos na estranheza e na incompreensão daquele inesperado espetáculo. Mortificados, famintos, e ainda podiam ter curiosidades e entusiasmos! Estavam já afeitos àquelas miserandas condições.
E lá ia com eles o sapateiro gracejador e tunante, o beberrana certo na vanguarda das súcias, presente sempre em todos os juntamentos, como desfrutador que se divertia, divertindo os outros.
— E vão a casa da família do tredo? — perguntava uma linheira.
— Pois está bem de ver que vão — afirmou outra.
— Sempre esta gente de fidalganças tem ideias que fazem dar volta à mioleira de quem os não entende! — observou uma toucinheira do mercado do Rossio.
— Figas, que não os percebe a gente! — acudiu uma hortaliceira de Valverde — Pois andam esses galos novos na prosápia de batalhar pela nossa terra, na dianteira de todos, e vão buscar a sua bandeira a casa de um traidor? O demo os entenda, nemja eu!
— Ora eu vos vou pôr aqui tudo em pratos limpos — interveio o Bernardo solenemente — e mais não sou letrado, nem doutor como João das Regras.
— Se vindes com chocarrices, calai-vos lá com elas! — atalhou, espevitada, uma gordalhuça, criada de um cónego da Sé.
— Por minha fé que não, querida Bentinha do Menino Deus. Tirante o latim, que só mastiguei em rapazote para ajudar à missa, no vesso de escorropichar a galheta do vinho, tirante essa língua de matracas, em que vos não posso falar, ides ver que pareço um chantre na gravidade do meu aranzel. Escutai. A donzela daquele palácio, a filha de um traidor, é, como já decerto sabeis, a prometida noiva de um daqueles namorados e foi por eles todos aclamada rainha das belas.
— Andai cá, rainha, que vos quero ver! — interrompeu, escarninha, a hortaliceira.
— Schiu! Attendite. Aquilo é rainha que eles trazem lá na sua mioleira. Maluqueiras de cavalaria que vêm nos contos. Mas se fosse eu quem aclamasse rainha, cá, para o meu uso, certa rapariga que eu sei, não haveria regatonas do Rossio e da Ribeira que se não largassem logo a berrar: «Aquilo é bebedeira do Bernardo Pingueiro». Pois naqueles meninos, o caso estranho é galanteio de rimance e de cavalaria andante! O Mundo é assim desigual e retorcido como os chifres de um carneiro! — filosofou, de mão na ilharga.
— E ao outro, o noivo, não se lhe dá disso? — perguntou a criada do cónego — Tantos galitos junto na mesma capoeira!
— Está bem de ver que não dá. Também vós, Bentinha de olhos negros e covinha no queixo, também vós podeis ser rainha das cuvilheiras eclesiásticas no pensamento de todos os reverendos cónegos da Sé, a hoste que se engalfinha em Belzebu, a resmungar latim, como aqueles se querem engalfinhar nos castelões, a lamberem nos beiços o nome da sua amada, e nem por tal motivo...
Risos da multidão.
— Mau! Mau! — interrompeu, embespinhada, a rechonchuda Benta do Menino Deus.
— Queria eu dizer na minha que, nem por vos terem no pensamento, como rainha das clérigas, quantos senhores cónegos há na Sé, nem por isto com tal realeza parece afrontado o vosso cónego e amo, bem que seja o mais carinhoso do cabido, naquela idade em que o bicho do caruncho mais rói o coração e menos préstimo dá à madeira.
Novas risadas.
— Ide para o diabo que vos oiça e vos retalhe essa língua danada! — gritou sacudidamente a Bentinha, voltando-lhe as costas e afastando-se.
— É má sina minha! — exclamou o sapateiro numa cómica tristeza — Têm birra comigo as raparigas, muito principalmente as que estão ao serviço do cabido!
Os da companhia dos Namorados tinham entrado já no palácio dos Mendonças.
— Mas lá vai o resto para vós, pios ouvintes — continuou o Bernardo — Aqueles frangos de esporões dourados pediram à sua rainha lhes bordasse a ouro na bandeira o voto dos seus corações, e agora lá vão recebê-la. E foi a pé até à porta da rainha aquele esquadrão de asa tufada, porque nesta nobre cidade de Lisboa os poucos ginetes existentes trazem a pele furada pelos ossos, mas estão na birra de se não deixarem morrer antes de nós.
— Porquê, mestre Bernardo? — perguntou um mecânico, por entre as risadas dos curiosos.
— Porque não querem tirar aos cães a herança dos seus canelos, que nós seríamos capazes de lhes roer, se eles morressem primeiro.
Revoaram novas risadas.
— Nós, é modo de falar — emendou o gracioso — Cá por mim, enquanto o vinho durar, perdem os castelões o seu tempo. A fome não entra comigo. E se entrar, afogo-a e não me rendo!
— O Juiz do Povo! Aí vem Afonso Eanes!
— E traz cara de caso!
Abriram-lhe passagem.
— Guarde-vos Deus, boa gente — disse o tanoeiro, de rosto avincado.
— E a vós ainda mais, mestre Afonso Eanes.
— Entraram para ali uns fidalgos jovens? — perguntou, indicando o palácio.
— Há instantes para lá entraram.
— Ide para os muros e portas, vós os que tendes posto marcado.
— Desconfia-se de novo assalto?
— Não é desconfiar; é mostrar-lhes a eles que os esperamos.
E foi apressadamente para casa dos Mendonças.
— Vá, vá, arraia-miúda! — disse o sapateiro, galhofando atrás da multidão — Das ameias dos muros e quadrelas, ao menos podereis ver que sobras ficaram do jantar dos castelões, bem comidos, bem folgados, e bem bebidos, lobos os trinquem!
Ninguém lhe ouviu a truanice. Uma voz de mulher ia gritando na frente:
— Deus seja connosco, e nós pela nossa terra!
— Para que sempre viva entre as nações!
* * *
Fora enternecedor o momento da entrega da bandeira, dada a Magriço pelas mãos pequeninas de Madalena, numa tremura de emoção.
Tinham lágrimas os olhos de celestial bondade daquela rainha de belas.
Pois se também os olhos dos rapazes estavam rasos de água!
O Magriço disse alto, comovidamente, o moto da bandeira e. Todos o repetiram com devotado fervor:
Pela nossa terra e pelas nossas damas!
Neste lance entrara um homem que vestia uma armadura toda negra; repuxada contra a gorjeira pelo canal do bacinete uma barba longa e alva e sobre o arnês um escapulário branco de monge.
— Jovens cavaleiros! — disse-lhes solenemente — Um velho, que foi batalhador, vos abençoa em nome de Portugal antigo e convosco se apraza para vos seguir à primeira batalha campal que se lutar nesta nossa terra contra o povo de Castela.
Foi um momento de estonteadora surpresa.
Para D. Maria e Madalena um lance de apavorada estranheza. Tinham-se erguido a tremer, procurando num relancear de olhos o olhar de Ruy, sereno, impassível, como se nenhum sobressalto lhe houvesse causado aquela entrada.
— Dizei-nos quem sois? — pediu Álvaro Coutinho.
— Um monge e um cavaleiro. O nome vos não posso dizer, mas pela minha lealdade poderá responder um de vós.
— Eu — acudiu Ruy de Vasconcelos, adiantando-se comovido e solene — eu, que pela minha honra e pela minha dama vos juro aqui que este cavaleiro tem uma alma grande e leal, e valente batalhador foi. Já pela nossa terra.
— Monge peregrino! — disse um, crendo reconhecê-lo pelas compridas barbas brancas.
— O que chegou da Terra Santa! — esclareceu outro.
— Alguém que não quer revelar o seu nome — atalhou Ruy de Vasconcelos — alguém que eu vos afirmo lealíssimo.
— E tanto nos basta — acudiu logo Álvaro Coutinho.
— Certamente que sim — confirmaram uns poucos.
— Agora deixai que eu vos beije essa pequenina imagem da vossa bandeira e essas letras em que está o voto pela nossa terra — pediu o misterioso cavaleiro.
— Senhor, aqui a tendes — disse o Magriço, estendendo nas suas grandes mãos cabeludas o retângulo de seda franjado de ouro, em cujo centro estava emoldurada por uma cercadura de flores bordadas, a imagem da Senhora da Conceição, pintada em cetim e havia mais de meio século trazida de Itália por um cavaleiro de aventura, parente de Álvaro Coutinho.
O velho beijou a imagem com religioso fervor, depois as letras que diziam — Pela nossa terra.
— A estas não as devo beijar pois que só foram de perdição os meus maiores amores!
E apontava as letras do outro dizer do lema votivo:
— Pelas nossas damas.
— Mas vou beijar as mãos da rainha de quem as bordou.
E foi.
Entretanto Magriço chamou a atenção dos companheiros para o primor da cercadura bordada, que era para eles uma surpresa.
— Que lindas florzitas de madressilva aqui imitadas!
— E a madressilva quer dizer constância para sempre — explicou um dos jovens — Para amar, para combater. Lindo pensamento foi e formosas mãos as bordaram!
— Senhor Ruy de Vasconcelos, senhoras, perdoai — disse do limiar da porta o Juiz do Povo — Trago para vós um recado urgente do Mestre.
— Nós sairemos — acudiu Álvaro Coutinho — se outra coisa vós não mandardes, senhoras minhas.
— Senhor Ruy de Vasconcelos — disse o tanoeiro — em nome do Mestre pedi aos vossos companheiros que fiquem, pois para todos eles é o recado que trago, bem que tenha encargo de segredo.
Todos alvoroçadamente declararam que ficavam.
Ouvindo que se tratava de assunto reservado, D. Maria e a filha despediram-se por entre homenagens dos jovens cavaleiros e retiraram-se. O velho campeador seguiu-as.
* * *
Sempre suspeitoso da tal porta encoberta, Vasco Eanes da Costa, mal ouviu declarar ao Juiz do Povo que se tratava de um segredo, que todos ali deviam guardar, propôs logo, sem declarar porquê, que se juntassem para um dos extremos da sala, de modo que bem ouvissem o recado sem haver necessidade de altear a voz. Ruy percebeu-lhe a desconfiança e sorriu.
— A rijeza da caturreira ainda lhe excede a rijeza do pulso! — comentou de si para si.
Mas todos concordaram com a proposta e lá se foram apinhando ao topo da sala.
— Senhores cavaleiros — disse o tanoeiro a meia voz — não chega o tempo para rodeios. Empeçonhado, talvez por conluiados seus, que da sua lealdade duvidaram, a escabujar com dores que lhe queimavam as entranhas, João Lourenço da Cunha, esse que foi primeiro marido de D. Leonor Teles, esta manhã mandou chamar certo frade carmelita para que o ouvisse de confissão em artigos de morte. E confessou-lhe, atendei bem, senhores, confessou que estava urdido na cidade um trama de traição por conta de el-rei de Castela!
— Traição de quem?! — perguntou o Magriço.
— De D. Pedro de Castro, filho do Conde de Arraiolos, Álvaro Pires de Castro, a quem Deus lá tem. E com ele todos os seus cavaleiros e homens de guerra.
— Aqui nenhum há que seja da sua gente — disse com desafogo Álvaro Coutinho.
— Nenhum! Nenhum! — repetiram cinquenta vozes.
— D. Pedro vendeu-nos pelo muito ouro e prata que el-rei de Castela mandou oferecer-lhe — acrescentou Afonso Eanes — Isto confessou João Lourenço da Cunha, talvez desavindo com quem o empeçonhou, por desacordo no preço daquela desalmada infâmia! O frade não quis absolver João Lourenço, sem ele tudo isto dizer ao Mestre. O moribundo acedeu, e logo foram chamar o senhor D. João para o ir ouvir. Foi, e ele tudo lhe declarou. O Mestre há pouco chegou de casa de João Lourenço, e tudo está a precaver para a defesa da cidade, debaixo de todo o segredo. A mim me encarregou de vir ter convosco, pois aqui lhe disse que haveria de encontrar-vos.
— E qual propósito punham nessa traição? — perguntou o Magriço, torvamente.
— Abrir a porta de Santo António aos homens de armas de Castela e dar-lhes a mão para a escalada do muro de Santo André. Enfim, entregar-lhes a cidade, quem nem a fome, nem o poder das armas e da hoste de Castela ainda puderam render!
— O cigano vilíssimo! — rouquejou o Magriço.
— Mas, por Deus, que a traição foi descoberta e não hesitará o Mestre em mandar para o brasido de uma fogueira esse cão traiçoeiro, e quantos com ele se vendiam ao rei de Castela!
— Primeiro que o queimassem, deveria ser espicaçado pela ralé como foi o Andeiro e o bispo castelhano!
— Isso, e de modo pior! — regougaram outros.
— Senhores cavaleiros, tal não é o pensamento do Mestre. É seu intento e mandado que nada se declare ao povo para não o sobressaltar mais, e que só aos cavaleiros de mais provada lealdade se confie este segredo e com eles, recatadamente, se apreste a defensa. Prevenidos, nenhum receio podemos ter de surpresas e bom aso haverá de mostrar a el-rei de Castela que estamos acautelados e que a cidade se não entrega, por mais dinheiro que ele desbarate na compra de traidores. Os que ficam leais, os que se não vendem, valem sempre pelo dobro daqueles que ele compra. Deixai que os Castelhanos venham afoitamente, muito fiados nos vendidos, e boa hora será para lhes darmos outra lição de escarmento. Têm já nos seus arraiais a peste negra e estão com pressa de mudar de ares cá para dentro da cidade. Pois nós os enxotaremos outra vez.
— Bom pensamento, em verdade, é esse do Mestre; mas o que se faz então ao traidor refece D. Pedro de Castro e aos seus homens de armas?
— O chefe dos vendidos será preso quando chegar a hora que para a traição havia aprazado, e a sua gente cercada nos próprios muros que os Castelhanos hão de querer escalar. Lá estará outra gente que os receba.
— E para quando está aprazada a investida do inimigo? — perguntou Ruy.
— Para esta noite.
— E com que gente podia contar o traidor?
— Tem ao seu mando para cima de cem lanças e uns seiscentos homens de peonagem, contando os besteiros, e todos eles na sua mor parte Castelhanos, que nos cá ficaram desde os tempos de el-rei a quem Deus perdoe.
Fizeram uma impressão enorme de raiva estas informações de Afonso Eanes.
— Perdia-se a cidade, se não é a confissão de João Lourenço da Cunha!
— Ele próprio metido na traição, ninguém me tira desta ideia, e desavindo afinal com o cigano-mor no tocante ao quinhão porque se havia de vender.
— Certamente — confirmou Ruy — Não é crível que tantas particularidades soubesse do conluio, se não estivesse nele, nem os outros lho teriam exposto, se não contassem com ele pelo seu lado. Havia de ser o preço a causa da desavença, como assisadamente presumis, e no empeçonhamento lhe puseram o desfecho.
— E, por graça de Deus — disse o tanoeiro — não tanto a tempo que o empeçonhamento se não pudesse vingar denunciando-os.
— Tempos vilíssimos estes nossos! — comentou Álvaro Coutinho — Milagre será que a Nação venha a salvar-se, mudada em outra de melhor fortuna!
— Oxalá! Oxalá!
— Mas nós a ajudaremos a salvar! — prometeu calorosamente o Magriço.
— Dando-lhe para remissão o maior amor das nossas almas sonhadoras e o maior esforço da nossa juventude aventurosa — disse Ruy comovidamente.
— Sim, sim! — apoiaram com frenesi todos eles.
— E isto podeis vós repetir ao Mestre, honrado Juiz do Povo.
— Não é preciso dizer-lho, senhor Álvaro Coutinho. Tanto convosco, senhores, contava sua senhoria, que até para vós reserva o maior encargo no cometimento desta noite.
— Pois viva o Mestre de Avis! — exclamou o Magriço a conter o seu vozeirão formidável — E por Deus, que não terá de arrepender-se.
E todos entusiasticamente disseram baixo como numa prece:
— Que Deus o guarde e seja por ele! E nós para o ajudar.
— Quer sua senhoria — continuou o tanoeiro — que desde esta hora fiqueis precatados, sem dar alvoroço ao povo, ao qual só depois do feito se dirá a verdade. E que, mal comece a escurecer, vos vades juntando com as vossas armas de combate, disfarçadamente, e a pouco e pouco vos encaminheis para os lados da Porta de Santo Agostinho, da qual, ao toque de alarme, sereis a guarda e a melhor defensa mesta noite santa da Assunção da nossa Senhora.
— Pois senhor Afonso Eanes, por nós todos agradecei ao Mestre o favor insigne com que lhe aprouve honrar os jovens do esquadrão dos Namorados — disse o Magriço — Boa estreia terá a nossa bandeira e benditos sejam os valentes que morrerem por ela.
— Benditos sejam! — repetiram unânimes, numa ardente devoção de fanáticos.
— O esquadrão é pequeno, dizei-lhe, mas não se vende, nem se rende. Se os Castelhanos entrarem pela porta que ele vai defender, pode sua senhoria afirmar, sem falsidade, que foi porque os Namorados morreram.
— Pode!
— Ide dizer-lho.
— O nosso pesar é que seja por agora a hoste de um punhado de homens.
— Paladins do amor e do sonho, hoje apenas uns poucos — acudiu Ruy arrebatadamente — Mas um dia talvez com a nossa alma a Nação inteira!
Saíram, de bandeira erguida.
* * *
Anoitecera. Afonso Eanes, com um troço de besteiros e gente armada do povo águardava qualquer sinal de alarme dentro de um casarão abandonado, numa travessa muito vizinha da residência de D. Pedro de Castro. Sabia-se já que lá estavam com ele alguns dos conluiados, os de mais subida importância.
A pequena distância do muro de Santo André se tinham reunido, numa cerca do convento próximo, oitenta lanças e duzentos besteiros e peões, prontos a correr à muralha logo ao primeiro aviso.
Nos outros muros e em todas as torres as guarnições estavam a postos. Passavam as quadrilhas de ronda frequentemente. No paço de Apar S. Martinho, o Mestre esperava de armadura vestida, entre o seu conselho político de fidalgos e de mecânicos da Casa dos Vinte e Quatro.
Num grande pátio interior, os pajens com as lanças e os escudos dos seus amos, alguns cavalariços com uns pobres cavalos escanzelados e umas muares à mão. Nove ao todo, pois que na cidade já não havia senão uns quinze que pudessem servir para levar alguém a qualquer ponto distante das fortificações.
Do esquadrão apeado dos Namorados fora destacado Ruy de Vasconcelos para ir sondar, disfarçadamente, a disposição de ânimo da gente de D. Pedro de Castro e observar se no acampamento inimigo havia algum movimento grande de tropas.
Ruy percebeu que a gente do traidor estava hesitante e receosa e como que estranhando a demora do chefe.
A noite pusera-se escura. A lua nasceria tarde e era para antes da lua nascer que a investida estava aprazada.
Ainda assim, a tenuíssima claridade das estrelas deixaria perceber confusamente o movimento das grandes massas de gente.
Correu o sino das 9 horas na Sé. Uma hora depois, a cidade parecia adormecida. Ouviam-se claramente os brados monótonos das sentinelas nas muralhas e os uivos dos cães famintos vagueando pelos monturos onde nada achavam para roer.
De súbito, Ruy notou um movimento maior no acampamento dos Castelhanos. Duas enormes manchas escuras se moviam lentamente.
Alguém de cá, na torre sobranceira à Porta de Santo Agostinho, acendera uma luz e agitara-a no ar, lentamente, por quatro vezes.
— É o sinal — disse consigo Ruy de Vasconcelos — Não vêm dali menos de quatro ou cinco mil homens.
Desceu da muralha rapidamente e correu para os seus companheiros.
— Depressa! Já lhes fizeram sinal. Vêm para escalada tantos como toda a melhor gente de armas que tem Lisboa.
O Era a luz de uma candeia, segundo Fernão Lopes.
Estava com os Namorados uma quadrilha de besteiros, homens ágeis em quem podiam confiar.
Álvaro Coutinho escolheu três para irem de corrida levar aviso ao Mestre, ao comandante da gente de armas que estava na cerca do convento e ao Juiz do Povo.
Partiram de carreira. O esquadrão dos rapazes foi-se embora de corrida para a porta de Santo Agostinho. Na frente o Magriço, levantando alto a bandeira verde dos que se votaram à morte pela sua terra e pelas suas damas.
Tinham chegado em frente das portas.
— Eh! Gente vendida! — clamou o Magriço no seu vozeirão formidável — Arreda, que vem aqui quem essa porta vai defender contra a traição do vosso chefe. Por Portugal contra Castela!
Acudiu o chefe daquele posto, seguido de vinte homens armados, e ladeado por dois maltrapilhos de tochas acesas.
Vinha enfiado.
— Não podeis passar! — disse-lhe em castelhano.
— A minha espada não se desonra matando-te, cão vendido! — vociferou o Magriço.
E atirou-lhe tal pontapé ao ventre, que o chefe do posto foi cair enrodilhado a uns poucos de passos, dando um grito de dor que parecia o urro de uma fera.
— Um virote para acabar com esse vilão galego! — mandou a um dos besteiros que o acompanhavam — Entregai-vos, ou morrereis antes que os Castelhanos cheguem! — gritou num tom formidável para os homens de armas daquela guarda — Armas abaixo!
Numa cobardia de surpresa baixaram os piques e desarmaram as bestas, atirando-as ao chão.
Ouvia-se um ruído cavo como dos passos de milhares de homens do lado de fora da muralha.
— Senhor Ruy de Vasconcelos, ide vós às seteiras com estes besteiros. Derribai-os da escalada — gritou o Magriço.
Ruy correu para o muro à frente de quinze besteiros.
A escabujar nas lajes fronteiras à porta, o chefe do posto expirou num arranque. Um dos besteiros tinha-lhe cravado um virote no peito.
— Estais preso, ralé de vilanagem! — bramiu o Magriço, transpondo o grande arco de abóbada, a vinte passos da porta de enormes ferrolhos de bronze e largas chapas de ferro.
— Nós não queremos ser por Castela! — alegou um velho da guarda.
Afonso Eanes chegou, açodado.
— Está preso D. Pedro de Castro e nove dos parciais que encontrámos com ele.
Sentiu-se tropel de muita gente. Eram homens de guerra que vinham da cerca do convento e iam subindo para as muralhas.
— Ficai vós aqui como chefe, Vasco Eanes — disse-lhe o Magriço — Eu subo à torre para ter mão na ciganagem. Voltarei quando a Porta for atacada.
— Ides sozinho?
— Não; vou com a nossa bandeira para a erguer lá à espera do sol.
E foi.
— Eh! Gentes! Que fazeis aqui de braços cruzados?
— Esperamos nosso amo e chefe, D. Pedro de Castro.
— O chefe é o Mestre. D. Pedro está preso por traidor vendido a Castela. Vá, por Portugal, disparai esses virotes sobre aquela multidão de inimigos ou eu vos baldeio daqui, a um por um, sobre eles. Vamos! Pela honrada terra de Portugal, azêmolas galegas que o cigano-mor tinha vendidas. Depressa! Já!
Acabrunhados de vergonha, retesaram as bestas e trinta virotes esfuziaram contra a massa escura dos Castelhanos, já numa algazarra espantosa.
— Assim, para serdes como os outros que se não vendem, por mais que a fome os aperte e a miséria entre com eles.
Disparados ao acaso, os virotões dos Castelhanos esvoaçavam por entre as seteiras ou batiam contra os muros como um bando de aves estonteadas.
Na torre caíram quatro homens feridos, um deles varado do peito às costas.
E o Magriço a descoberto, e com serena intrepidez, sobre o degrau de um ângulo da torre, com o estandarte dos Namorados erguido ao alto, a exceder pelo dobro aquela estatura de gigante.
Ruy chegara ao lanço do muro contíguo à Porta, quando já umas filhas de Castelhanos estavam encostando as escadas de assalto até meia altura das ameias e pediam para cima que lhe deitassem cordas com que mais facilmente as alteassem, firmando-as.
O jovem cavaleiro mandou desarmar as três sentinelas que havia naquele lanço e com doze besteiros se debruçou do muro, ele próprio armado também com uma besta grande de garrucha.
Em dois ou três minutos se estorciam em baixo, em gritos doloridos, os homens que seguravam uma das escadas, a que já estava mais alta.
Colhidos de surpresa, tomados de medo, considerando-se traídos por aqueles de quem esperavam auxílio, os Castelhanos das primeiras filas enovelaram-se estonteados, bramindo pragas e obscenidades contra os chamorros que tinham atraiçoado a venda.
Duas escadas foram a terra, abandonadas. Mas alguém, um chefe certamente da altiva nobreza das Espanhas lhes falava, incitando-os a voltar à escalada.
Logo uma chuva de virotes veio bater contra a muralha e enquanto uns fingiam reerguer a primeira escada, fazendo uma grande gritaria, para iludir os besteiros portugueses, outros, muito abaixo daquele lanço do muro, sem alarde e sem fogachos, em profundo silêncio, tentavam levantar outra escada.
— Santiago y Castilla! — clamavam aqueles que pretendiam enganar os de cima.
E à mistura as mais pitorescas pragas e os mais sonorosos insultos que tinham Leão e Castela, o Aragão e a Andaluzia.
Tinham subido à muralha mais besteiros e homens de armas e caiu sobre os Castelhanos uma verdadeira chuva de virotes, dardos e pedras. Estrugiram nos ares pragas enfurecidas em quase todos os dialetos dos antigos reinos de Espanha e até ameaças mirabolantes no francês da Gasconha, pois que na coluna dos assaltantes vinha um troço de Gascões, daquela hoste de dois mil Franceses de aventura que tinha acompanhado o exército de Castela.
Bramiam ameaças, praguejavam, mas os gemidos e gritos dos feridos ouviam-se alto, apesar da algazarra dos farronqueiros.
— Estão a recuar! — disse alto Ruy de Vasconcelos, apontando a densa massa escura que se ia afastando.
Vinha nascendo a lua e já se distinguiam melhor as coisas; a paisagem destacava-se, branquejava o ferro brunido, tinha brilho o aço das lanças, o vulto dos cavaleiros recortava-se, parecia maior na melancólica penumbra; alvejavam as pedras novas das torres e das muralhas, moviam-se no chão, ao longo dos muros, as sombras esguias dos homens de armas.
Até se percebiam as dezenas de atacantes que tinham ficado estendidos ao fundo das muralhas, os que se arrastavam feridos para fugir do alcance dos virotes e das pedras, e os que a peonagem levava em braços, quase agonizantes.
Sumidamente vibrou um grito de alarme e de desespero:
— A subirem por ali!... Os de Castela!
Efetivamente uns poucos de homens de capacetes emplumados saltavam para dentro por entre as ameias, numa reentrância do muro, a baixo do lanço onde os assaltantes tinham feito as primeiras tentativas.
— Temos a cidade perdida! — rouquejou um besteiro.
— A mim, homens de Portugal! — gritou Ruy de Vasconcelos.
E correu de lança em riste para os mais audazes daquela escalada bem sucedida.
Seguiram de carreira atrás dele quinze besteiros e outros tantos homens de piques.
Estavam subindo mais assaltantes, protegidos por cerca de trinta que já tinham saltado para dentro.
— Disparai sobre eles! — mandou Ruy aos besteiros.
Sibilaram quinze virotes e três dos atacantes foram a terra feridos no rosto, porque traziam a viseira levantada. Outros virotes se partiram, como se fossem de vidro, contra os arneses dos Gascões. — Seis besteiros que se debrucem daquelas ameias para deitarem a terra os que sobem.
Correram uns poucos a debruçar-se das ameias para disparar de revés contra os assaltantes; mas, entretanto, mais cinco tinham já saltado para dentro e com os outros avançavam para a gente de Vasconcelos.
Um deles, soberba figura de fidalgo campeador, vinha na frente, incitando os companheiros.
— Vamos enfiar nas lanças estes pigmeus chamorros! — gritou arrogante, no seu francês de gascão, e desceu a viseira.
— Homens dê Portugal, vá contra estes farfantes de França! — replicou o Vasconcelos.
Ouviam-se já, numa vibração frenética, os sinos de todas as igrejas e de todas as torres das muralhas dando o sinal de rebate.
— Havemos de levá-los salgados para os nossos cães de Gasconha! — berrou o bazofiador, avançando mais.
Reboaram gritos do lado de fora da muralha. Gritos em francês gascão de dois que os besteiros tinham ferido, quando já estavam empoleirados nas ameias.
Ruy tinha avançado intrepidamente para o caudilho gigante.
— Por esta gloriosa terra de Portugal, farfantão francês!
E arremeteu para ele às lançadas. O Gascão defendia-se e atacava admiravelmente.
Entretanto, os homens dos piques, com as únicas defensas do bacinete sem camal e de um frágil escudo, recuavam perante a bravura impetuosa dos Franceses, fortemente protegidos pelas armaduras.
Apesar da sua luta desesperada com o chefe Gascão, Vasconcelos percebeu que os seus recuavam e que já uns tinham ido a terra golpeados.
— Tende-vos! — gritou-lhes, atirando fora a haste da lança curta que se acabava de quebrar contra o peito de ferro do adversário — Tende-vos! — repetiu, arrancando da espada — Pela honra desta abençoada terra que nos querem tirar!
Mas a pobre gente bisonha recuou mais diante da fúria da arremetida e Ruy estava já isolado entre seis ou sete dos atacantes e ia perdendo terreno naquele combate desigualíssimo.
Foi retrocedendo para o lado das ameias, por forma que só os tivesse pela frente e de flanco.
— Rende-te! Rende-te! — bradavam-lhe os Gascões.
— Nunca! — volveu-lhes num grito de rancor convulsivo.
— Morrerás aí espetado como um sapo!
— E fica sabendo que Lisboa será tomada pelos barões da Gasconha.
— Por traição, e nem assim — rouquejou o Vasconcelos, defendendo-se com febril energia.
Os besteiros não se tinham podido aguentar junto das ameias para deitarem a terra os que vinham subindo, e mais uma dezena de Franceses saltara para dentro do muro.
Uma lança golpeara o braço esquerdo do jovem cavaleiro entre o braçal e o punho quebrado da manopla.
Ruy confrangeu-se numa impressão de dor violenta, mas logo, tomado de mais furioso arranque, vibrou uma série de golpes aos três adversários que tinha mais próximos de si. Um deles foi a terra com um golpe fundo no pescoço, pois que a gorjeira mal fechada lho não podia defender.
— Por minha terra e pela minha dama! — bradou, lembrando enternecidamente o moto da bandeira dos Namorados, que talvez nunca mais tornasse a ver.
Nem a bandeira nem aquela rainha de beldades que a bordara e cuja imagem queridíssima trazia dentro da alma como em santo relicário.
Ouviam-se para cima uns gritos de guerra que o encheram de orgulho.
— Portugal e S. Jorge!
— Morrerei, ao menos, mais perto dos meus! — pensou, sem um momento deixar de combater.
Mas a batalha era extenuadora e pela ferida dolorosíssima do braço lhe golfava o sangue e se lhe iam apoucando as forças.
Sentia-se o ruído de espadas batendo em armaduras, revoavam imprecações de desespero e de dor, vinha de cima o rumor cavo de muitos passos.
— Pela nossa terra e pelas nossas damas!
Era a voz do Magriço. O Vasconcelos sentiu um consolo imenso, maior febre de lutar, mais intensa ânsia de viver.
— Rende-te! — insistiu o colosso, apertando com ele — Sou eu o chefe dos Gascões.
— De focinhos para o chão, trangalhadanças da Gasconha! — trovejou o vozeirão do Magriço, já a dois passos deles.
E o gigante foi derribado de borco sobre as lajes da muralha. A sua brilhante armadura de relevos e arabescos dourados produzira nas pedras um ruído sonoro e áspero.
Os Namorados traziam agora o troço dos Gascões diante de si.
Vasco Eanes da Costa, o pulso de ferro, o arranca pinheiros como alguns lhe chamavam, vinha ao lado do Magriço e logo se debruçou para o chefe Gascão.
— Vais de salto para onde vieste de escada — disse-lhe, tomando-o pelos braços.
E assim o foi arrastando até junto das ameias.
Os rapazes levavam os Gascões contra o muro, mas num supremo esforço e com graves perdas de sangue.
Aqueles Gascões não eram homens que se rendessem aos primeiros reveses.
— Ruy, a nossa bandeira! — disse o Magriço enternecidamente — Estais ferido! Dois homens para ampararem este cavaleiro — gritou para um troço de peonagem que viera atrás deles.
A trinta passos para baixo, a briga tomara proporções medonhas. Já muitos dos Gascões estavam feridos ou mortos, mas também sete dos Namorados e nove besteiros e homens de armas tinham ido a terra golpeados e agonizavam ao abandono.
Num maior esforço, Vasco Eanes levantara nos braços o caudilho Gascão, quase examine em consequência de violentas sufocações.
— Vais dentro da tua armadura amolgada, javardo gascão! Dá lá notícias nossas aos teus amigos de Castela.
E baldeou-o da muralha abaixo.
Tinham chegado cirurgiões e enfermeiros da ambulância postada às Portas de Santa Catarina.
Os homens da ambulância fizeram o primeiro curativo a Ruy de Vasconcelos.
— Vencemos nós! Vencemos! — bradavam os Namorados e os besteiros, seus auxiliares.
E voltaram com três prisioneiros, dizendo alto o moto da bandeira verde: Pela nossa terra e pelas nossas damas!
— Cumpriu-se a jura; está sagrado o moto! — dizia o Vasconcelos enternecidamente para o Magriço enquanto o cirurgião acabava de lhe atar a ligadura.
— E para alguns foi jura de morte! — observou-lhe Álvaro Coutinho.
O Mestre chegava à frente da sua comitiva de fidalgos e de mecânicos. Ao lado dele Afonso Eanes.
— Álvaro Coutinho — disse o bastardo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço — os Namorados ganharam o feito desta noite.
— Mestre, aqui tendes o primeiro de todos no cometimento — volveu-lhe, indicando Ruy de Vasconcelos.
— Ferimento grave? — perguntou o Mestre, acercando-se dele afetuosamente.
— Senhor, dez ou quinze dias de braço ao peito — respondeu-lhe numa voz que fraquejava — e mais nada.
— Mais talvez, e de cama, que já estais a arder em febre — acudiu um dos cirurgiões.
— Pois que Deus vos dê razão, Ruy de Vasconcelos, visto que sois alto exemplo de cavaleiros leais — acudiu o Mestre.
Chegou o troço dos Namorados. Álvaro Coutinho foi pôr-se à frente deles de bandeira erguida.
— Senhor, vencemos! — clamou um deles para o Regedor do Reino.
— E defendeu-se Lisboa! — acudiu outro.
— E honrastes a vossa bandeira nova, que doravante fica sendo um glorioso pendão nesta guerra santa em que andamos empenhados — disse-lhes o Mestre calorosamente.
— Batizou-se de noite, Senhor, esta nossa bandeira — alegou o Magriço — e veio a lua pela sua madrinha.
— Com esta luz branca de sonho — murmurou Ruy num quebramento de forças, olhos marejados de lágrimas fitos na bandeira.
— Senhor, este jovem cavaleiro — disse o cirurgião para o Mestre — não pode ficar aqui. Perderá o alento, por mais que o ânimo lhe teime em ficar.
— Tragam umas andas para o conduzir.
— Senhor, deixai que vá a cavalo, se aqui próximo houver algum.
— Naquele em que eu vim podeis ir vós.
— Senhor, insigne favor o vosso!
— Mas vede bem se podeis.
— Senhor, posso. A perda de sangue foi avultada, mas sem armadura como estou e agora a cavalo...
— Sempre será com sacrifício vosso — acudiu o cirurgião — mormente se a febre apertar convosco. Mas irei eu também.
O Mestre acercou-se mais do Vasconcelos e disse-lhe a meia voz afetuosamente:
— Assim que estiverdes curado, tratar-se-á do vosso casamento com Madalena de Mendonça... Se, como espero em Deus, a cidade repelir de si os de Castela.
— Mestre e Senhor! — murmurou num afogueamento de júbilo.
— E o vosso padrinho serei eu.
— Senhor! Que tamanha honra!
* * *
O esquadrão dos Namorados quis acompanhar a casa o seu intrépido companheiro.
— Lá vos irei ver, Ruy de Vasconcelos — disse-lhe o Mestre.
— Viva o senhor D. João, Mestre de Avis! — aclamaram fervorosamente os jovens cavaleiros, desvanecidos por aquela distinção concedida a um dos seus.
O povo repetiu o brado como se fosse um pregão triunfal, e pelas muralhas fora os homens de armas, lhe foram dando uma repercussão que parecia interminável.
Puseram-se a caminho os cavaleiros da bandeira verde. Na frente, montando o cavalo em que o Mestre viera do paço, o filho heroico de D. Dulce. Ia ao lado dele Afonso Eanes.
Estava a cidade alagada de luar. Via-se como se fosse de dia.
O povo abria passagem, comovidamente, àquele punhado de sonhadores de grande alma e indomável coragem.
— Vivam os Namorados! Os valentes!
— Abençoadas mães as vossas! — clamou a nossa conhecida regateira, a tia Lourença.
— E mais a vossa bandeira de amores — acrescentou enternecidamente uma linda dama das Linheiras.
E a pavonear a bandeira, a toda a altura dos seus braços enormes, para que ela voasse na aragem daquela madrugada luarenta, o Magriço dizia jovialmente:
— Perdeu el-rei de Castela o seu mercado de ciganos e demos nós uma trepa nos farronqueiros da Gasconha!