A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 23 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo X · O Cetro D’el-Rei de Castela

 

Logo à primeira galopada o Vasconcelos dissera para o Magriço:

— Assim eu encontre agora o vilão de Antão Gonçalves, que se me sumiu!

— Ao demo dou a minha sorte! Exclamou Vasco Martins, o jovem. Esqueceu me o voto e estou a ver que el rei de Castela já está longe! Pois assim mesmo irei até o prender ou sequer lhe pôr a mão em cima, para me ele dizer que tais lhe pareceram este. Chamorros. Namorados, adeus! Até quando Deus quiser... Ou ate nunca mais! Falai de mim ás lindas jovens que tem Lisboa.

E meteu o corcel à desfilada para a frente, por entre a algarada espantosa daquela hoste que se esbandalhava n um estonteamento de medo.

Mais nas cercanias de Aljubarrota, a debandada era espantosa. Atropelavam-se os vencidos numa desorientação medonha e numa ânsia doida de fugir.

Bramiam pragas, gemiam queixumes, enovelavam-se uns contra os outros, perguntando roucamente em que direção teria fugido o rei, indagando para que lado seria mais seguro retirar.

Alguns fidalgos tinham ficado para morrer na defesa daquela pobre gente, como prometera o Mendonza, mordomo mor do rei. Muitos, porém, saltavam para os primeiros cavalos que encontravam ao acaso e partiam à rédea solta.

Da peonagem, os primeiros que fugiram tinham deitado fora os bacinetes e os peitos de ferro para irem mais leves.

Outros lhes seguiram o exemplo, mas a gente amontoada era tanta, que até para fugir se encontravam em desesperadas dificuldades, como se estivessem dentro de um edifício a desabar, minado por um incêndio, com as portas atravancadas.

Dos feridos é que ninguém se lembrava. Em quase todas as batalhas daqueles tempos os deixavam ao abandono; nem ali havia socorros cirúrgicos com que lhes acudissem. Por vezes os gemidos e as súplicas de piedade vibravam mais intensamente nos ires como uma voz enorme, feita das angústias de três mil almas; mas logo se quebrava esmorecida, a sufocar-se em estertores, abalada pela gritaria dos que iam fugir e pelos brados de ódio dos que vinham vingar-se. Quem ali caísse naquela charneca tinha de morrer, O sol desaparecera havia minutos. Caía sobre aquele campo lastrado de destroços, balsões, lanças, armaduras, cadáveres, a claridade branda de um afogueado crepúsculo cor de sangue. Mas ainda se distinguiam bem a distância os vultos e as bandeiras.

Mão animosa e já segura daquela vitória, tangera as Ave-marias na igreja matriz de Aljubarrota.

Que vibração enternecedora de sino para os que venciam e que toada dolente de funeral para os vencidos, que ainda podiam ouvi-la na derradeira agonia, a lembrar-lhes a Pátria distante onde os sinos tinham também uma voz assim nas suas cidades e aldeias de Castela, da Gasconha, do Bearne!

Depois, decerto as mesmas mãos, fizeram vibrar um repique festivo, que vinha esvoaçar na aragem por aquela charneca onde se pleitearam e puseram em risco de morte os destino de uma nação.

Como os repiques dos noivados e como os repiques no batizado dos pequenitos, e quantos noivos e quantos pais a ouvi-los ali na sua derradeira agonia sobre as amarfanhadas urzes da charneca?

De súbito, reboou dos lados do outeiro a falacia e o tropel dos cavaleiros portugueses e dos arqueiros de Inglaterra, o ruído e as imprecações de alguém que ainda combatia.

E dos lados de Aljubarrota uma multidão de gente armada, gritando o pregão de guerra — Portugal e S. Jorge! — e o outro, ainda pior, dos seus ódios de raça.

Eram os homens dos coutos de Alcobaça e os serventuários brigões do famoso convento dos bernardos, que tinham estado à espreita do desenlace da contenda e vinham agora para a chacina final. Como se receassem que a noite chegasse mais cedo, traziam fogachos de palha e archotes acesos.

Então é que foi pavor naquela multidão de estrangeiros, em debandada como um rebanho assustadiço e à espera de vez para fugir.

Não se resumem nem cabem aqui os milhares de gritos que se chocaram pelo ares no francês da Gasconha e do Bearne e nos vários dialetos da Espanha.

Tinha de ser de maior carnagem a batalha da noite, alastrada por aqueles caminhos, por aqueles montes, pelas veredas dos pinhais, pelos algueirões das charnecas, pelas ruazitas de estrumeira das aldeias e aldeolas, ninguém sabia com que extensão de léguas e a que distância do outeiro onde a batalha real começara e se decidira!

— Está bem — bradara Ruy aos seus Namorados, indicando-lhes o local onde se via a grimpa dourada da tenda d’el-rei de Castela. Temos ali quem parece esperar; cavaleiros com os quais será honra combater.

Efetivamente, em frente da barraca e das bagagens preciosas do rei, estavam a cavalo mais talvez de duzentos fidalgos franceses e castelhanos.

— Vá. Aproveitemos estes instantes de claridade. Sobre eles. S. Jorge e Portugal!

Os noventa repetiram unanimes:

— S. Jorge e Portugal!

E logo de lá, com heroica altivez, num grito supremo:

— San Tiago y Castilla! Ciérrapor nuestra bandera.

Estava com a bandeira real cingida a si, U. Pedro Lopes de Ayala o chanceler mor, o poeta, o cronista, um dos mais ilustres homens políticos da Espanha. Para a defender como anos antes na batalha de Najera defendera contra os ingleses e os castelhanos de Henrique de Trastamara, el pendon de la banda, até que ficou prisioneiro.

E entre os outros ilustres de Castela, Conzalez de Mendoza, o adelantado Diego Manrique, o mariscai Sarmiento e o senhor de Aljofrin.

Do grupo de franceses, gascões e bearneses, os mais distintos ali eram messire João de Ria, o velho batalhador de Poitiers Geoffrey de Partenay, o Sire de Lanach e os senhores de Mortan e de Brignoles.

Dos parciais da rainha D. Beatriz, apenas ali estavam dois. Alguns tinham conseguido escapar se, mas a quase totalidade deles morrera intrepidamente na frente da vanguarda castelhana, durante a primeira fase de batalha.

— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — bradaram os Namorados, investindo de lança em riste.

Mas vendo que os adversários estavam sem lanças, Ruy mandou que deitassem as suas fora e combatessem à espada ou com a hacha, como lhes aprouvesse.

Foi um torneio de morte e de pouca duração. Escurecia.

— Rendei-vos!

Responderam-lhes em soberbos gritos de repulsa os de Castela e os de França.

Já tinham caído muitos de um e outro lado a golpes de hacha e espada.

O Namorado que fizera voto de levar a El Rei a bandeira real de Castela arremetera denodadamente para Lopes de Ayala, mas fora a terra ferido por um dos dois cavaleiros portugueses que se tinham bandeado por Castela e ali tinham ficado.

Ruy acudiu pelo companheiro ferido e só então reparou no cavaleiro de plumas vermelhas que defendera Ayala.

Era o emudecido Antão Gonçalves.

— Agora é de vez para acabar: ou tu ou eu! — disse-lhe num rugido de cólera. Por Magdalena de Mendonça! — clamou atirando com o cavalo para ele, e descarregou-lhe de alto, em pé nos estribos, uma pancada formidável com a sua hacha de ferro.

Com o bacinete amolgado, descido até aos olhos, o sangue a correr-lhe pela gorjeira, Antão Gonçalves caiu do cavalo abaixo soltando um grito baço, enrouquecido, em que nenhuma palavra se articulara.

— Enfim, ralé de traidores! — exclamou o Vasconcelos de olhos cravados nele, já a escabujar entre as urzes. Ficas na terra que atraiçoaste e essa mesma te há de repulsar de si, para que os lobos se empeçonhem contigo, devorando-te. Ladrão de mulheres, por Magdalena de Mendonça e por Leonor de Gusmão, aí morres!

Já o não podia ouvir.

Ruy lembrou se do voto que fizera de lhe decepar a mão com que ele escrevera a promessa de fazer da bandeira dos Namora dos um surrão em que o rei de Castela limpasse os pés.

Ia para se apear, mas conteve o a sua grande e generosa alma.

— Não! Não! Faltarei ao voto. Está morto!

Mas já os virotes dos besteiros portugueses e as frechas dos arqueiros ingleses esfuziavam para ali, e o Sire do Bearne e João de Ria caíram mortalmente feridos.

— Dai o nosso brado ou virão ferir-nos pelas costas.

— S. Jorge e Portugal!

O Mendoza já tinha cumprido a sua promessa.

As mulheres de Guadalajara não podiam acusa-lo de lhes ter abandonada os maridos e os filhos. Estava morto.

A peonagem portuguesa afluíra de roldão para as bagagens.

O Magriço, apeou se para tomar a bandeira do Sire de Lanach. Vasco Eanes lançou-se a braços ao Ayala, quase desarmado; para o aprisionar. Entretanto chegava um troço de cavaleiros com Antão Vasques.

Como em Najera, Lopes de Ayala defendera com desesperada heroicidade a bandeira real de Castela e ali a perdia como na outra batalha, e por amor d’el-rei ficava prisioneiro.

Vendo no chão a bandeira real, que o chanceler de Castela, quase sufocado entre os braços do atleta do Algarve, deixara cair das mãos, o Vasques apeou-se de salto, levantou-a, saltou para cima do cavalo e largou à desfilada.

— Já não há que fazer aqui — disse Ruy de Vasconcelos. Estes tinham ficado para morrer.

As trombetas do acampamento real faziam o toque de alardo para que todas as tropas se fossem ali reunir. O Condestável havia percebido grandes massas de cavalaria dos lados da estrada de Leiria e prevenia se para alguma possível surpresa.

O Mestre de Alcântara tinha quase intatos os seus dois mil e duzentos freires e ginetes e estava cobrindo a fuga dos cavaleiros dispersos e de uma parte da peonagem.

Iam os Namorados a meter esporas aos cavalos quando Ruy, então um pouco afastado dos outros, ouviu uma voz dolorida a dizer palavras que não pudera perceber, mas que eram em português.

— Abalai. Eu irei depressa — disse o Vasconcelos para os seus.

Os sessenta e oito que restavam da ala deitaram a galope.

O Vasques Eanes levava o Ayala prisioneiro, o Magriço empunhava a bandeira do Sire de Lanach, dois outros Namorados levavam pendões dos senhores de Gasconha, o Lobeira o balsão do filho do Marquês de Vilhena, bisneto do rei de Aragão.

Ruy ficara escutando. Fora decerto um ferido quem falara, talvez um agonizante, homem de Portugal, ao que lhe parecera; fosse quem fosse, a não ter expirado, tornaria a falar.

Sentia curiosidade de saber quem era.

Esperou. Eram ainda muitos os que davam gemidos estertorosos, dizendo palavras em castelhano e em francês. Vinham de longe gritos convulsivos de ódio e de desespero, o ruído de pequenos combates; a algumas centenas de passos, ao pé das imensas bagagens do exército, lutava-se.

— Cavaleiros de Portugal... Por piedade... Escutai! — disse uma voz sumida, que parecia vir de ao pé da tenda real.

Ruy apeou-se.

— Um cavaleiro de Portugal aqui está para vos ouvir — disse alto.

— Depressa!... Que morro! — suplicou a mesma voz dolorida, a sumir-se mais.

Já mal se diferençavam os vultos. A noite chegara. Ruy com o cavalo à rédea, foi ao encontro daquela voz que se apagava.

À porta da grande tenda do rei de Castela viu um homem estendido, um cavaleiro de luzento armadura. Dobrou-se para ele.

— Aqui tendes um cavaleiro de Portugal. Quem sois?

— Morro... Arrependido!... Deus me perdoe!... Pedi ao Rei... Que me dê perdão... E deixe que voltem a Portugal...

Soluçou. A voz velava-se-lhe. Entrava com ele a derradeira agonia. Ruy debruçou-se mais para ver se o reconhecia.

— Que deixe voltar quem?

— Minha mulher... A minha filha...que estão... No mosteiro... Tordesilas.,.

— Gil Vasques de Mendonça! — exclamou o Vasconcelos comovidamente.

— Perdoai-me... Cavaleiro... De Portu... Gal... Perdoai... O que fiz... Contra a nossa... Terra! Ah! Deus... Seja...

A voz parou lhe estrangulada, e no último arranco o peito alteou-lhe o reluzente arnês, laivado de sangue.

— Deus se amercie de ti, que traíste a pátria e foste a causa das maiores amarguras da minha vida!

E assim, nestas palavras, o Memento daquele morto.

Desafogado de uma ligeira nuvem acobreada, o crescente esplendido da lua derramava agora uns brandos fulgores sobre aquele campo de morte.

— Pela tua linda filha te dou o meu perdão e Deus seja o teu misericordioso juiz

Apareceu diante do rei o bravo Antão Vasques com a bandeira real de Castela...

Ia para montar a cavalo, quando reparou em certo objeto resplandecente, caído no chão a poucos passos do cadáver do pai de Magdalena.

— Coisa talvez que ele procurava salvar — pensou.

Foi para a apanhar, quando um troço de besteiros portugueses e de esfarrapados, com ramos de pinheiro acesos, chegou de roldão, numa algazarra brutal.

 

* * *

 

No acampamento português o Condestável andava rodando nos postos de vigilância e os esculcas, para evitar que os pudessem colher desprecavidos a cavalaria ligeira dos castelhanos, que se via e sentia lá para baixo, na estrada de Leiria.

El-Rei sentara-se no lanço baixo de um muro de pedra solta; enleado de silvas, antigo, provavelmente resto de algum cerrado feito pelos pastores de Aljubarrota para guarida do gado nas noites calmosas do estio.

Sentia-se quebrado de forças. Fora um dos maiores lutadores.

E ainda maior abatimento físico pelo jejum de devoção e pelo drama íntimo, enorme, de receios e de responsabilidades, num sacrifício de disfarces para que ninguém lhos percebesse, durante aquele imenso dia da história e da sua alma, cujo desfecho ainda, de instantes a instantes, lhe parecia um milagre ou um sonho estonteador.

A um e outro lado do Rei, de pé, encostados ao muro, ainda de armaduras vestidas, o Arcebispo de Braga com a cara entrapada e a roqueta alagada de sangue, o Dr. João das Regras, que fora também um intrépido batalhador, o velho Diogo Lopes Pacheco, o marechal Álvaro Pereira, e outros fidalgos e clérigos da sua comitiva.

Chegavam ali os gemidos dos feridos portugueses, amontoados no curral das bagagens, mudado em grosseiro hospital de sangue.

— Amanhã, logo de madrugada hemos de levantar os nossos mortos para o separar dos outros. O arraial será onde el-rei de Castela esteve, e aqui nos ficaremos três dias, ao uso antigo, para que a ninguém reste dúvida a respeito do completo desbarato do inimigo. Para onde fugiria D. João I de Castela?

— Senhor, — disse lhe João das Regras — creio que nenhum de nós o sabe; mas é provável que o do campo nos tragam algum prisioneiro que vos possa dizer.

— Sim, isso me parece bem. E vós cá, meu reverendo Arcebispo, como vos sentis?

— Senhor, com um gilvaz a mais e uma orelha de menos — respondeu o primaz com o seu feitio humorístico. Arde-me, senhor Rei, mas serve lhe de balsamo este consolo que eu sinto de ter aberto o toitiço ao castelão refece que me fez a mim o que S. Pedro fez a Maltus. Pagou o feito. Apanhou do primaz de Braga uma estocada como nenhum dos meus colegas de Castela, nem o de Toledo, nem o de Santiago de Compostela, ainda talvez deram na sua vida. Apanhou e ficou, para não ir alanzoar o feito entre os farronqueiros, seus manos e compadres.

Riu El Rei e riram todos destes dizeres pitorescos do prelado.

Veio então um dos cavaleiros da vanguarda participar a D. João I que tinham trazido prisioneiros e estavam sob guarda os fidalgos portugueses D. Pedro de Castro e Vasco Pires de Camões.

— Pois então foram esses dos poucos de cá, bandeados por Castela, que lograram fugir à morte! Os outros, tirante a sua traição, foram, ao menos, portugueses no esforço com que lutaram e morreram.

Sentia se um tropel de cavalos a curta distância e logo uma algazarra de vozes juvenis e este brado, já famoso naquele dia:

— Pela nossa terra e pelas nossas damas!

— São os nossos leões novos! — disse o rei sorrindo. Atiravam se para a morte loucamente!

Mas antes que os Namorados chegassem, apareceu diante do rei o bravo Antão Vasques com a bandeira real de Castela, pendente dos ombros em guisa de manto.

Eram grandes dançadores os portugueses daqueles tempos; mais expansivos que os de hoje, celebravam os seus júbilos dançando e, o Antão Vasques, numa alegria doida, começou de bailar como diz Fernão Lopes.

Vinham com o Vasques quatro pajens de brandões acesos.

De olhos pregados na altiva bandeira, que tinha unidos os escudos de Castela e Portugal, a ouro e prata sobre campo verde, em relevo de ouro os leões e castelos heráldicos do mais poderoso estado das Espanha<; de olhos fitos naquela soberba insígnia, que a chamazita dos brandões fazia rutilar, E! Rei sorria complacente, ouvindo os dizeres foliões do Almada.

Não tinha D. João I porque admirar se. El Rei D. Pedro, seu pai, o Crú, o Justiceiro, algumas vezes bailou pelas ruas de Lisboa, folgando com o povo.

— Tomai, senhor, esta bandeira do mor inimigo que no mundo tínheis — disse afinal o Vasques, pondo-lhe a bandeira sobre os joelhos.

Nisto os Namorados chegaram em frente do Rei.

— Essa bandeira a tínhamos nós tomado, alegou o Magriço mas honradas mãos vo-la trouxeram, senhor Rei. Para engrandecer o muito que essa vale, aqui vos trago eu a landeira do mais altivo senhor da nobreza de França.

E pôs no chão a bandeira de guerra do Sire do Bearne.

E outros vieram, a um por um, pôr lhe no chão os pendões fidalgos que tinham encontrado ao pé da tenda real.

Vinha atrás de todos o atlético Vasco Eanes, e esse apareceu afinal diante de D. João I com uma certa solenidade teatral.

— Agora, Senhor, aqui tendes como prisioneiro um castelhano que valentemente defendia essa bandeira. Chama se D. Pedro Lopez de Ayala e é nada menos que o chanceler-mor de el-rei de Castela.

Estava de olhos baixos, afogueado, o poeta de Los Desenganos, esse que foi o restaurador das boas letras de Castela e o mais ilustre dos cronistas que teve a Espanha.

El-Rei levantou se e João das Regras foi para o prisioneiro no propósito de lhe prestar homenagem.

D. João disse a Ayala:

— Bem que o meu inimigo sejais, sei o que valeis e muito me apraz honrar-vos pela lealdade com que defendestes a bandeira do vosso rei e da vossa terra.

— Era o meu dever — respondeu em castelhano. A minha má fortuna fez que não pudesse morrer por ela, como na batalha de Najera me não foi dado acabar defendendo-a, e agora me vejo prisioneiro dos vossos, como naquela derrota me vi prisioneiro dos ingleses.

— Agora talvez com mais alguma diferença, porque se vos há de tomar em conta o que sois. (*)

 

[(*) Ayala estivera por muito tempo preso na Torre de Londres.]

Vasco Eanes. Podeis levar o vosso prisioneiro, e por muito recomendado vos dou. Mandai que lhe prestem honroso gasalhado. E vós cá, Álvaro Cominho, contai-me essa arrancada que me trouxe tão preciosos trofeus.

O Magriço resumiu-lhe calorosamente o combate contra os que tinham ficado para morrer.

— Grandes homens sois, apesar de tão jovens! Mas Ruy de Vasconcelos, o que foi feito dele?! Morreu?!

— Senhor, até há coisa de um quarto de hora, não. Ficou-se atrás, dizendo-nos que viria depressa. E agora em verdade vos digo que me parece tardar, pois que já na vinda para aqui algum tanto nos demorámos!

— Então ide ver o que foi feito dele, que muito grande mágoa e perda seria perdê-lo a ele.

— Boa justiça lhe fazeis, Rei e Senhor.

— Bem bastavam já os tantos que da vossa ala morreram esta tarde!

— E há pouco ainda, Senhor! Mas eu vou já em busca de Ruy de Vasconcelos.

— Ide, sim, depressa.

— Olhai, uma procissão! — disse o Arcebispo de Braga, apontando uma multidão que vinha atravessando a charneca, trazendo archotes e brandões acesos.

— Mas se eu não estou sonhando, ou as ribeiradas de sangue, que perdi me não enfraqueceram o juízo, são mulheres essas criaturas que ali veem!

— Mulheres certamente, — confirmou o Marechal — mas talvez sejam de Aljubarrota. E à frente delas vem um cavaleiro, que traz plumas como as dos Namorados.

O Magriço esgalgou-se mais para ver melhor, e gritou num desafogo de júbilo:

— Senhor, vem ali Ruy de Vasconcelos!

Não se tinha enganado. Instantes depois chegava o jovem paladino Vasconcelos, trazendo enrolado na mão esquerda um largo cabeção. Atrás dele a tia Lourença com um braçado de pendões.

Ruy apresentou a ao Rei, lembrando os atos de intrepidez que ela praticara no último cerco de Lisboa e a intenção com que viera da capital.

— Pois estava a pensar que teríeis vindo ao faro dos despojos — disse o Rei a sorrir.

— Senhor, por aí tenho visto que muita gentiaga se está enchendo. Eu não, meu Senhor. Eu e mais quatro que ficaram ali em baixo com o mulherio de Aljubarrota, esperando por mim; eu e essas quatro não fizemos outra coisa senão andar na apanha deste braçado de pendões, que os de Castela deixaram semeados aí pela charneca fora. Só não levantámos os muitos que íamos topando emporcalhados de sangue e esfrangalhados nas urzes e nos tojeiros. (*)

 

[(*) Nos exércitos medievais cada grande senhor ou fidalgo ilustre trazia o seu pendão e os seus balsões brasonados, e de Castela e França teriam estado na batalha mais de sessenta ou setenta, desses que podiam erguer pendões à frente dos seus homens de armas.]

Foi para os vir trazer a vossa real senhoria que nós os apanhámos. Muito vos deve o povo e a nação e certo não houve ainda em Portugal rei como vós sois.

D. João I disse-lhe umas palavras de agradecimento, sorrindo. Voltando-se para Ruy de Vasconcelos, perguntou-lhe de gracejo:

— E vós que me trazeis?

— Senhor, alguma coisa que não valerá para vós muito menos do que essa bandeira real.

— Oh! Que me aguçais a curiosidade! Ah! Já sei! — disse apontando os arminhos que o Vasconcelos trazia enrolados. Já sei. Esse cabeção do manto de que el-rei de Castela se esqueceu.

— Rei e senhor, coisa de muito mais valia.

E a desenrolar o cabeção de arminho, acrescentou:

— O cetro antigo dos mais ilustres e soberbos monarcas que tem tido Castela. Rei vitorioso, este de oiro e cristal, o deponho eu na vossas mãos. Este que, pela sua passada grandeza e altivez, vale todas as mais nobres espadas da hoste desbaratada.

O Rei afogueou-se de orgulho e todos ali tiveram um estremeção de surpresa de tal modo comovedora, que lhes arrasou os olhos de água.

— E esqueceu-se dele e trazia-o para os campos de batalha el-rei de Castela! — exclamou D. João I, a remira-lo deslumbrado.

— Senhor, tamanho poder trazia, que julgou certa a vitória. Crendo talvez que fugiríamos espavoridos, nós os chamorros, e que enfim lograria entrar em Lisboa, para tomar conta da herança, trouxe consigo as insígnias da sua realeza para o beija-mão solene no vosso paço de Apar S. Martinho e para o Te Deum magnificente em Santa Maria Maior. Assim o suponho, Senhor. O sol de Lisboa faria brilhar mais nas suas mãos de triunfador o ouro e o cristal desse cetro. Mas Deus permitiu, e a nossa alma quis, que outro sol, o de Aljubarrota, antes iluminasse a vossa aspada de batalhador. Louvado Deus e abençoada alma!

— Julgais certo e explicais bem o achado estranho deste cetro num campo de batalha! — disse-lhe o Rei afetuosamente. Ficai seguro de que nunca hei de esquecer a tamanha valia desta oferta.

Ruy agradeceu. Ali mesmo, diante do Rei, os Namorados o vieram abraçar num enternecido impulso de orgulho por aquele companheiro.

 

* * *

 

Foi de trágicos horrores aquela noite lúcida e calma.

Ainda havia agonizantes; ouviam-se bem os gemidos, só a espaços abafados pelo ruído de alguma luta distante entre os bandos dos fugitivos e a gente armada das aldeias e das aldeolas que vinha chegando ás proximidades de Aljubarrota, trazida no alvoroço daquela agitadora notícia, que para todos os lados irradiara velocíssima, como se uma voz prodígios a fosse espalhando aos voos por todos aqueles arredores.

De vez em quando atravessavam a charneca, relinchando pavores, numa galopada doida, cavalos soltos que se despenhavam pelos barrocais das montanhas vizinhas. Pelas onze horas a lua sumiu-se.

Sobre a madrugada todos esses ruídos esmoreceram; mas os corvos vinham da ramaria alta dos pinheiros, ás revoadas, crocitando, sôfregos daquele banquete enorme. E pelas lombas dos montes distantes, ao faro de sangue e em repelões de fome, os lobos latiam sinistramente.

Só os faziam calar, de espaço a espaço, e só os retinham medrosos os brados altos das sentinelas do acampamento real.

Veio a madrugada, clara, tépida, cantada pela passaredo nos ramos das árvores mais afastadas. As trombetas deram então o sinal de despertar para os poucos talvez que tinham adormecido naquela noite de profundas emoções.

O arraial foi mudado para as vizinhanças de Aljubarrota. El-rei ficaria ali os três dias do uso antigo para confirmar a batalha vitoriosa e o desbarato formal dos vencidos. Abrigar-se-ia na tenda magnificente do rei de Castela.

Tinham trazido mais prisioneiros e mais trofeus; alguns de subida riqueza, como eram quase todos os que provinham das bagagens reais. Mas o tesouro de maior valia era a capela volante do monarca vencido. Retábulos antigos com douraduras e pinturas góticas, cruzes e lanternas de prata lavrada, um oratório grande de prata com imagens e ornatos admiravelmente cinzelados, obra prima do estilo florentino, e uma Bíblia em carateres góticos, a capa com guarnições de metal, castelos e leões, escudos heráldicos) e flores de Liz.

 

* * *

 

A charneca infundia horror, mas numa visão de sonhadores os olhos da nossa gente viam por cima daquele planalto lúgubre alguma coisa de sublime consolo, e de santo orgulho, que em cada alma se refletia como numa faceta de cristal se podem refletir os fulgores altos de uma estrela. Portugal salvara-se ali, e quem sabia lá para que novos destinos? Logo ao romper do sol, e que lindo sol de apoteose o daquela manhã, a hoste formou para ouvir missa em louvor de Santa Maria de Agosto, Santa Maria da Vitória para eles.

Foi soberba aquela meia hora, a recordar a outra em que a batalha se venceu!

O oratório de prata dos despojos estava aberto sobre o altar de campanha, a prata refulgia sob os primeiros lampejos daquele sol nascente, a lembrar uma enorme custódia de ouro sobre um trono que se perdia de vista pela imensidade do seu dossel azul; a ladearam a capela, enfeixados ao alto, os pendões, os estandartes e as bandeiras de Castela, de Leão, das Astúrias, do Aragão, da Galiza, da Gasconha e do Bearne.

Missa em ação de graças pela última batalha romântica dos tempos medievais.

Aquela batalha em que os Namorados com a sua cavalaria apeada e a plebe com a sua infantaria rota colaboraram no prólogo de outro romance do esforço humano, imensamente maior, numa aventura de séculos pelo mundo.