A Ala dos Namorados
Capítulo VI · D. Pelayo Munoz
Ainda não eram duas horas da tarde. O Provençal e o Magriço tinham saído ambos do casarão em ruínas onde os Namorados tinham metido os cavalos e eles próprios se tinham ocultado.
Vinham os dois procurando carreiros por onde o matagal era menos bravio; depois meteram para o árvoredo mais espesso daquele fundão ermo. Conversavam.
— É bom que eu vá convosco — dizia-lhe o Magriço — Do que viermos a saber, levais vós informação a Mendo Rodrigues e trago eu notícias a Ruy de Vasconcelos.
— Será muito bom, se vos não denunciardes e tiverdes prudência para não provocar alguma rixa.
— Hei de ter, vereis. Não sou homem para tomar as coisas tão a sério que morra por elas, mas também de boa feição para galhofar com o próximo a quem eu tenha pior gana. Heis de ver como eu mantenho o meu fingimento de Gascão que ficou prisioneiro em Aljubarrota e logrou fugir, buscando as terras de Castela.
— Há de parecer-lhes pouco provável que viésseis dar aqui.
— Também é fácil dizer que fui levado por um fidalgo de Riba Douro, que me fez cativo, e do seu solar me escapei. Fica assim a mentira mais bem engendrada. E depois, com o que eu sei de castelhano e galego de mistura com o que vós no Porto me haveis ensinado de provençal, devo dar o fingimento de um Gascão que veio para Castela no ano passado, para o cerco de Lisboa, e na convivência de Castelhanos alguma coisa aprendeu da sua língua. Esta gorra de plumas e este saio velho de mangas perdidas muito hão de ajudar o fingimento do Gascão que vem fugido.
— E depois, se for preciso lutar?
— Trago um rijo laudel por baixo do meu saio velhinho, e, antes que cerre a noite, virei aqui a este fojo dos Namorados vestir as armas e virei com elas como os outros.
— Eu vou direito a uma grande taberna onde se juntam às tardes muitos homens dos ginetes e avultado número de besteiros. O vinho desprende-lhes a língua e lá é que é ouvi-los.
— E oferece-lhes a gente o vinho que chegue para eles dizerem quanto nos convenha saber. Eu, por exemplo, nas minhas condições de grande senhor da Gasconha...
— Que esteve prisioneiro, não vos esqueçais — atalhou o Provençal, sorrindo.
— Mas que por baixo do fraldão de malha de ferro podia trazer uma escarcela bem provida de ouro.
— Podia ser. E olhai cá: se vos pedirem miúdas informações da batalha, o que direis?
— Conto-a como eu soube em Santarém que eles a contam e mais seguro ficará o meu disfarce. Até me está a regalar a chocarrice de os embaçar.
— Será bom sondar primeiro se lá está algum que houvesse entrado na batalha.
— Pois sim.
— E também me parece mais acertado que não entremos juntos na taberna. Vou eu primeiro; depois entrais vós. E então eu, que tenho corrido terras e sou muito vosso vizinho da Gasconha, finjo conhecer-vos e este caso há de enternecer os bebedores.
— Sim; será desse modo.
— O pior é a chegada da rainha com o seu troço de cavaleiros.
— Nós nos haveremos com eles, se for preciso. Tudo se há de fazer, e até eu tenho uma surpresa., engendrada por mim, para antes da fuga dos noivos.
— Surpresa?! Vede lá não seja alguma temeridade de pouco êxito!
— Eu vos afirmo que tudo irá pelo seguro, ou pelo feito lá ficaremos todos, menos os noivos e quem houver de ir à sua guarda.
— Está bem. Pois então vamos indo, que temos uma estirada légua até lá.
— Apartamo-nos então?
— Quando estivermos a meio quarto de légua da vila.
Meteram para a estrada.
* * *
Estava atulhada de fregueses a famosa taberna dos Leones de oro de Castilla, assim chamada porque tinha por cima da ampla porta, entre padieiras de granito, duas tabuletas de ferro, pendentes com os dois bichos heráldicos das duas Castelas, pintados a vermelho torrado, com as jubas e as caudas douradas.
Falava-se alto lá dentro, ria-se em gargalhadas formidáveis, cantava-se, diziam-se pragas de picaresco sabor; fazia-se uma algazarra ensurdecedora. E os jovens da taberna, que era também hospedaria do andar nobre, não tinham mãos a medir. Nem eles, nem duas guapas meninas de jubas negras e olhos perturbadores, que eram o chamariz da casa e muitíssimo excediam como reclamo aos dois leões rompantes da porta com as suas fauces escancaradas, vermelhas como o vinho da terra.
A soldadesca já não reparava muito na focinheira arrogante dos bichos e achava deliciosamente vermelhos os lábios das duas raparigas, as mais esbeltas de Tordesilhas. A soldadesca e até os chefes, que também estes ali iam, bem que a maior parte das vezes fossem encafuar em certo compartimento reservado, que ficava ao fundo do longo casarão de abóbada e era destinado aos envergonhados de sangue limpo e goelas secas.
Quando o Provençal entrou, toda aquela barulheira esmoreceu. Conheciam-no pelo traje, pelo seu tipo inconfundível e, principalmente, pelas trovas e cantares com que alegrara Tordesilhas nos dois dias que ali estivera, havia já umas três semanas.
Fizeram-lhe uma receção calorosa com aquela expansibilidade arrebatada e vibrante, que foi sempre uma das características do povo espanhol.
O Provençal contou-lhes uma aventura sua de patranha pelas terras do norte do Douro, para explicar deste modo a sua larga ausência.
E, para justificar o regresso a Tordesilhas, disse-lhes que fora direito a Valhadolid e, como lá soubera que a rainha estava para vir ao mosteiro, logo se metera a caminho no empenho de ver a receção festiva que lhe faziam e consagrar-lhe a homenagem de uma canção de boas-vindas e de augúrio pelas futuras glórias de Castela.
Não se entusiasmaram com a homenagem. A rainha menina era afinal uma patrícia dos chamorros e ali estavam trinta ou quarenta que tinham sido dos ginetes de D. Gonzalo Nunez de Guzman, Mestre de Alcântara, no dia 14 de Agosto, e mais dois ou três besteiros que se tinham escapado de Valverde.
Marival percebeu a frieza, mas fingiu não dar por tal e continuou:
— A mim me disseram que haveria aqui grandes festejos.
— Pois grande mentira vos pregaram — acudiu logo um dos palavrosos — Não pode ser, e se tal acreditastes é porque não sabeis que el-rei e a Nação estão de luto pesado e que nas cortes reunidas há pouco, lá mesmo em Valhadolid, se determinou o luto geral.
— Pois não sabia! — disse o Provençal com admirável ingenuidade — Mas luto por alguma pessoa da real família?
— Não, não! — volveu-lhe o outro, secamente.
E não se podem reproduzir aqui as descargas de palavrões insultuosos e de rancorosa obscenidade que de todos os lados estrondearam contra os chamorros vencedores.
Atraído por aquele berreiro épico, desceu do primeiro andar um empavesado figurão, de olhar olímpico e de papo arqueado como um galo no seu poleiro.
— El capitan! — avisaram os que primeiro deram por ele.
Mas a algazarra prosseguia ensurdecedora contra os. Chamorros de Aljubarrota, e até os mais iracundos desacatavam o próprio Deus pelo seu escandaloso compadrio com os bisbórrias del Mestre y reisuelo de Avis.
O próprio Marival chegou a ter medo da tempestade que provocara no intento de apanhar informações.
— Lá havemos de voltar — prometeu alto, solenemente, de mão na espada, roncando as palavras, o recém-chegado a quem tinham chamado el capitan — Pela Virgem e por todos os santos da corte do céu, vos prometo que em pouco voltaremos a Lisboa para a deixar arrasada. Nova Troia será, e sobre as suas ruínas hão de relinchar triunfantes os nossos valentes ginetes!
Estrondeou um berreiro louco de aplausos.
— Os chamorros, cativos como escravos mouros, virão puxar às noras de Castela — continuou el capitan — para dar repouso aos mulos e aos bois, nossos conterrâneos.
Nesta altura o fervor belicoso dos circunstantes esfriou um pouco. Os exaltados acharam infeliz aquele final de frase.
Mas o fanfarrão não era homem que esmorecesse por tal desagrado e acrescentou logo para aquecer os ânimos:
— As filhas dos chamorros para serventes nossas, e nas campinas dessa terra insignificante heis de ver pastando os toiros magros e os rocins escanzelados de todas as Espanhas.
— E de Aljubarrota que havemos de fazer, capitan? — perguntou, afogueado, um da companhia dos ginetes.
— Hemos de salgar esse chão nojento, para que nem as ortigas lá nasçam, nem as cabras lá encontrem pé de erva com que matar a fome.
O delírio dos aplausos foi estonteador.
Esta bravata de ameaças tinha tal cunho pitoresco em castelhano e era de tão engraçado exagero, que o Provençal, temendo o perigo de rir para fora, riu para dentro.
Não porque desconhecesse as altivas glórias de Castela, os feitas brilhantes daquela raça em que a estatura alta dos heróis punha na sombra as figuras cómicas dos farronqueiros; mas porque era aquele blasonador um dos mais extraordinários farfantes que ainda tinha ouvido na sua vida de aventureiro.
A estupenda fanfarronada daquele Átila dos ginetes, felizmente teórica, produzira tamanho efeito na soldadesca e tal rabiosa febre de aventuras, que desataram todos a ter mais sede e a pedir mais vinho.
— Mas vede lá como se armam as mentirolas! — disse o Provençal, assim que os apanhou mais calmos — Quem teve o intento de; me enganar até chegou a dizer-me que a Rainha viria de Valhadolid com luzida comitiva e um grande troço de ginetes.
— Redonda mentira! — regougou o capitão, de peito arqueado e cofiando a barba, como se fosse ele o próprio lendário Cid Campeador — Vêm somente quatro cavaleiros de prole, com um dos quais hei de ter a honra de cear lá em cima — disse, indicando o pavimento superior — e mais cinquenta ou sessenta ginetes, que vão ficar no quartel onde estão os meus.
Mais nada, e tudo ficará em sossego como se não tivesse chegado a Rainha-menina.
— Sempre haveis de ter mais algumas preocupações, senhor capitão.
— Estais enganado. Tudo como dantes. Eu hei de cear como um frade e dormir como um cochino. Bah!
E acariciou o ventre às mãos ambas.
— Então, pelo que entendo, ficarão a guardar o mosteiro os outros ginetes que vêm acompanhando a Rainha.
— Qual! Qual! Entendeis errado. Não é costume pôr mais vigias ao mosteiro. Os que vêm poderão dormir a sono solto. As duas quadrilhas de besteiros, que guardam a porta grande e a cerca do convento, chegam e sobram. E, lá dentro, as monjas bastam para acompanhar a Rainha-menina, se acaso tiver medo. Fechadas as portas do mosteiro, nem as borboletas lá podem entrar! E depois, ainda que surgisse do chão a bandalheira dos chamorros, com o seu rei de Avis e o seu Condestabre santanário, e todos eles se pusessem às marradas nas portas para levarem essa Rainha que intentam deserdar por Deus que não entrariam lá! E entretanto, lá estaria eu com os meus ginetes, para os pôr de cá para fora a coices de cavalo, pois naquele sangue não quero eu emporcalhar as lanças e as espadas da minha gente.
Nesta bravata esfuziavam hipérboles de tal chiste e ressonância de tal vangloriosa soberbia, naquela máscula e vibrante linguagem castelhana, opulenta de sonoridades e deliciosas onomatopeias, que o Provençal esteve a pique de se desmanchar a rir, enquanto a soldadesca aplaudia com a mais pitoresca e estonteadora variedade de exclamações e conceitos que ainda um estrangeiro ouvira nas Espanhas.
Mas a verdade era que o troveiro havia conseguido saber em breves minutos quanto lhe convinha para confirmar informações anteriores e o que de mais importante, para o caso do rapto, precisava de ouvir no tocante à gente de guerra.
Tudo parecia ajustar-se admiravelmente ao propósito dos Namorados.
— Com que então D. Pelayo — disse-lhe o Provençal por disfarce — de tal modo está guardado o mosteiro que, não querendo as monjas, ninguém lá poderá entrar?
— Ni Dios! — respondeu com soberana altivez, sacudindo a cabeça e abaulando o papo, a mão enclavinhada no punho da sua temerosa espada — E se isto assim não for que o meu sangue andaluz se mude em água de tisanas e deixe eu de ser D. Pelayo Munoz de Leon y Bullones.
Este nome de sonorosa prosápia retumbou na taberna por entre o desvanecimento da soldadesca; tal como se cada sílaba fosse a nota pujante de uma trombeta de guerra.
E foi precisamente naquele momento teatral que o Magriço entrou, com grande estranheza e assombro da tropa, das muchachas e do próprio D. Pelayo, que logo levou a mão à espada.
Estranheza pela sua estatura agigantada, por aquela fealdade rara e pela altivez insolente do seu todo. Nunca ninguém ali vira outro assim, e todos perceberam logo que era estrangeiro.
Para evitar alguma farroncada de D. Pelayo, provocadora de outra igual ou maior do Magriço, com prejuízo funesto do plano para aquela noite, Marival exclamou logo, de braços abertos para ele:
— Olhem quem ele é! O mais destemido cavaleiro da Gasconha, messire Pierre Gonsart.
Deu-lhe ao acaso este nome de um cavaleiro gascão que em tempos conhecera, e sucedeu acertar com um dos ilustres gascões que batalharam em Aljubarrota.
O Magriço abraçou-o com fervor e jubilosa surpresa de amigo íntimo, que há muito não via e ali se lhe deparava por um capricho da fortuna.
Fingiram bem os dois. Em poucas palavras, na sua mixórdia de mau castelhano, lhe resumiu a sua vida de trabalhos e aventuras desde que no ano anterior viera para Castela. Aludiu brevemente ao cerco de Lisboa e referiu-se às suas desventuras na batalha real em que ficara prisioneiro. Depois contou como fora levado por um fidalgo chamorro dos lados do Douro e em meia dúzia de palavras esboçou a sua audaciosa fuga, ao cabo de dois meses de afrontoso cativeiro.
Mudara-se em avidez de curiosidade e benévola simpatia a estranheza hostil dos circunstantes. Era aquele homem, alto como os ciprestes, um cavaleiro de França, aliado e companheiro dos vencidos de Castela, e tanto bastou para aquela súbita mudança.
Logo D. Pelayo pediu ao Provençal que lhe fizesse a apresentação ao ilustre cavaleiro da Gasconha. O trovador acedeu solenemente com o riso quase a estoirar-lhe na boca.
— Messire Pierre Gonsart, gentil-homem da Gasconha, aqui tenho a honra de vos apresentar o nobre cavaleiro de Andaluzia D. Pelayo de Munoz e...
Não lhe ocorria o resto.
— D. Pelayo Munoz de Leon y Bullones — acudiu o apresentado — oitavo neto do mais preclaro e remoto príncipe das Astúrias, primo carnal do adelantado mayor de Castela, chefe de ginetes do glorioso Guzman, que salvou em Aljubarrota a honra das Espanhas. Aqui me tendes em Tordesilhas com a honrosa comandância de um esquadrão dos reais ginetes.
E a empavesar-se com íntima delícia do Magriço e consolado orgulho da soldadesca, o Leon y Bullones rematou:
— Dos mesmos invencíveis ginetes que atropelaram os matagais de Aljubarrota e transpuseram com ligeireza de galgos e fúria de leões os barrocais profundos e as montanhas ásperas daquele hediondo campo de batalha!
E tossiu grosso, encrespando a bigodeira.
A carregar as hipérboles por conta das suas prosápias, a carregá-las atrevidamente diante de quem tinha entrado na batalha, o Bullones dava a medida da sua audácia enfatuada: mas em boa verdade já nós sabemos que os dois mil ginetes do Mestre de Alcântara não tinham sido desbaratados e até ficaram de plena liberdade de ação, ajudando a arrebanhar os fugitivos e os extraviados, fora do campo de batalha:
Quanto aos obstáculos e acidentes do campo, o Munoz reproduzia em escala muito maior as alegações do seu próprio rei na sua carta à cidade de Múrcia, como que para atenuar um pouco o efeito moral do desastre.
— E os farfantões que me fizeram cativo a chamarem pequeno outeiro a esse abrupto monte a que se acolheram medrosos!
— Esses birbantes mentem como mouros! — exclamou D. Pelayo — Medrosos e mijados quando os meus ginetes lhe arremeteram o coio.
— Pois muito folgo de vos conhecer e grande honra me deu a fortuna, guiando-me até aqui, nobre e invicto D. Pelayo. Fomos então companheiros naquela maldita batalha, companheiros que se não conheciam e nem sequer podiam avistar! Ah! D. Pelayo, que se não fosse aquele monte, um ninho de águia, em que a cainçada chamorra se foi esconder encolhida de medo!...
— Se eu não hei de saber como ele era! Três vezes o subi! Os ginetes do meu esquadrão com as barrigas de rastos e a deitarem os bofes pela boca fora!
— Pois maravilha foi a dos vossos ginetes, D. Pelayo! A mim e aos meus gascões nos pareceu que só cabras lá poderiam trepar, e mais tínhamos corcéis, o meu, por exemplo, que tinham galgado as escarpas dos Pirenéus como se fossem gatos bravios!
O Munoz sorriu e disse logo consigo, desdenhoso:
— Para fanfarronadas, sem pés nem cabeça, estes gascões deitam a barra adiante aos chamorros!
— E os rios que eles tinham às ilhargas?! — lembrou o falso Gonsart.
— A quem o dizeis! — acudiu D. Pelayo — A um deles só os meus ginetes o puderam passar a nado.
— E mais era em meados de Agosto!
— Cheguei a desconfiar que, por cobardia, os chamorros para ali houvessem extravasado uma parte das águas do Tejo! Do nosso, pois que os rios de consideração que eles lá têm são todos de nascença castelhana!
Sorriam para dentro os soldados que tinham estado em Aljubarrota, mas achavam meritórias aquelas patranhas, que eles próprios tinham propalado embora em muito menores proporções e com menos altivo arreganho.
— Pois sabei, honrado senhor e valente Bullones, que os embusteiros chamorros — má peste de gente! — chamam ribeiros a esses rios que vós passastes a nado com os vossos ginetes naquele negregado dia de Agosto! Porém, não vos indigneis; não valem um gesto sequer da vossa cólera esses bilhostres que mentem mais do que dão por amor de Deus. Pesar foi, deixai que vos diga, pesar de funestas consequências, que os vossos esquadrones de invencíveis ginetes se não houvessem lembrado de investir com eles, enquanto nós outros, quase sepultados na temerosa cava, o mato acima da garganta, tínhamos de ceder, vencidos!
D. Pelayo Munoz sentiu-se um pouco entalado nas suas embófias, mas não era homem que desse o braço a torcer.
— Nisso pensámos — respondeu de papo — mas já não era possível ter mão nos que fugiam, e a esses os protegemos com esforçada dedicação, salvando de morte inevitável, durante três dias e três noites, mais do dobro daqueles que os chamorros chacinaram. Valeu este feito por uma a$ginalada vitória! E ninguém ousou pôr-se na nossa frente. Ninguém!
— Está de ver: na frente que ia fugindo — observou-lhe secamente o fingido Gascão.
— É claro. E foi por esse lado que ninguém se atreveu a aparecer-nos. Nem a sombra de um chamorro... A não ser a sombra dos chamorros que fugiam.
— Para diante?
— Claro está. Não fosse o dó que me faziam aqueles pobrezitos de Castela e alguns dos vossos de Gasconha, que se tinham desencaminhado, e por Deus e por todos os santos da corte celestial, que os meus esquadrões dos ginetes teriam dado logo ali outra batalha e tê-la-iam vencido, mesmo de noite. Ou nunca mais as mulheres de Andaluzia ouviriam falar de D. Pelayo Munoz.
Isto, no castelhano roncador daquele Leon y Bullones, era uma delícia de desfrute.
Mas o Provençal estava outra vez a pique de se perder de riso e o Magriço muito em perigo de perder as estribeiras. Começavam a exaltá-lo aquelas escandalosas fanfarronadas do Munoz.
— Assim, senhor Gascão, perfeitamente compreendeis, que, se ali alguém teve medo, não foram os meus ginetes, a melhor cavalaria das Espanhas e de toda a cristandade, por conseguinte, sem ofensa para ninguém.
Medo tiveram de nós outros esses chamorros que se ficaram encolhidos com o seu rei, o seu Condestable e uns tais chichelos namorados naquela soberba montanha, que valia bem uma plaza fuerte.
— E nunca mais vistes os tais Namorados, nobre capitão D. Pelayo? — perguntou o Provençal.
— Nunca mais, por fortuna deles e desventura minha! — volveu-lhe, enfunando o peito e pondo a mão no punho da espada — Que os visse um dia, e pelos dois leões de Castela vos afianço e por todas as mulheres formosas que tem a Andaluzia vos juro nesta hora que, à frente dos meus enfurecidos ginetes — metade deles bastavam — lhes faria tal desbarato de morte, que nenhum ficasse para rezar pelas almas dos outros, nem o mar de lágrimas das suas noivas e namoradas chegasse para lavar o sangue das nossas espadas.
— Dios mio! La sangre de vuestras espadas! — repetiu o Magriço, dando à frase castelhana a sua fingida pronúncia de francês.
Quis simular ingénuo assombro, mas o olhar estava a denunciá-lo em relâmpagos de raiva.
— Caretas, para amedrontar meninos mamadores é que eles ousavam fazer aos meus destemidos ginetes.
Entretanto, da parte dos ouvintes a inferneira dos aplausos era enorme, e o Munoz gozava aquela ruidosa ovação de crista erguida e papo tufado como um galo vitorioso.
Receoso pelo Magriço, o Provençal tocou-lhe no braço e num volver de olhos o procurou serenar.
Ao mesmo tempo um dos besteiros segredava a D. Pelayo:
— Reparai que este Gascão anda tosquiado ao modo dos chamorros! Os outros que eu vi traziam os cabelos crescidos.
O Munoz franziu o nariz, indício seguro de elaboração maior no seu cérebro de gran-capitan.
— Cavaleiro — disse dirigindo-se ao Magriço — agora me deu na vista o vosso cabelo tosquiado rente, como usam os chamorros!
— Não vos admireis — respondeu-lhe o Magriço, já mais calmo de ânimo — Cativo deles, por vingança me tosquiaram.
— E em tal consentistes?!
— Estava manietado entre vinte, de lanças ameaçadoras para mim.
— Pois em tal não consentiria eu, ainda que fossem duzentos e me houvessem amarrado de pés e mãos. Morreria estoirado de raiva, mas em vida me não tosquiavam eles.
— Eram os tais Namorados! — alegou o simulado Gonsart.
— Pior ainda! Por esses nem um pêlo, enquanto o coração me não houvesse finado! Eu podia lá voltar a Castela de tal modo que alguém, o próprio rei, me pudesse também dar o nome de chamorro! Jamais! Jamais! Era como se em mim tivessem tosquiado dez gerações de avoengos famosos!
— D. Pelayo, olhai que ninguém pode afiançar essas coisas com tal afoiteza! Reparai que não era coisa impossível. E quantas vezes se não torna realidade aquilo mesmo que supúnhamos loucura da nossa mente enfermiça?
— Não! Não!
— Pois eu por mim vos digo que tudo julgo possível, tanto é o que tenho visto no Mundo! Ainda que fosse um tão desvairado conto, como dizerem-me agora que esses odiosos aventureiros da Ala dos Namorados tinham vindo a Tordesilhas! Creio que assim se chama esta povoação...
— Por todo o sangue dos santos mártires de Marrocos! — interrompeu o Munoz, rindo de mofa — Só se o apóstolo de Santo Iago traísse Castela e os seus ginetes, para trazer cá esses fraldiqueiros e defendê-los! E, mesmo assim, prudente seria que primeiro nos adormecesse, a mim e ao meu esquadrão!
— Pois será como dizeis; mas ficai certo de que, se eles viessem, não seria com outro propósito que não fosse o de tosquiar, tornando chamorro, o mais ilustre representante dos Bullones em Tordesilhas.
— Gracejais, senhor Gascão! Gracejais para assim desvanecerdes essa afronta que vos fizeram!
— Deus me livre de tal! Estou já resignado com esta afronta, como lhe chamais, e nunca ousaria gracejar convosco, senhor de Leon y Bullones.
— Daria um punhado de moedas de ouro a quem me dissesse onde os poderia encontrar a cem léguas daqui! — gritou o capitão.
— Pois afortunado seria quem vo-las ganhasse.
— Os meus cabelos iria eu oferecer a Santiago de Compostela, se o nosso bendito patrono me empurrasse para cá esses bisbórrias que vos tosquiaram, depois de terem chacinado grande número dos vossos gascões e bearneses!
Ouviam-se toques de trombeta como se viessem de larga distância. Toda a soldadesca alvoroçada correu de tropel para a larga porta da taberna.
— Há de ser a Rainha! Há de ser ela, a Rainha-menina!
— Cavaleiro da Gasconha! — disse D. Pelayo com ares de grão-senhor — Tenho lá em cima pousada à larga que ponho ao vosso dispor. Esta noite hei de ter por companheiro à ceia o capitão dos ginetes que vêm com a Rainha-menina. É o nobre D. Ramon Gonzalez Cabeza de Vaca. Estais convidado. Ceareis connosco. Podemos entreter um bom pedaço da noite jogando.
— Com o maior agradecimento, D. Pelayo, mas tenho umas coisas a tratar com este meu amigo de Provença, e talvez me não seja possível aceitar a honra do vosso convite. Mal havia de parecer que vos aparecesse fora de horas.
— Por tal escrúpulo não deixeis de vir. Estou acostumado a deitar-me tarde e, em me apegando ao jogo dos dados, sou capaz de passar uma noite em claro.
— Mau será isso! — disse consigo, o Provençal.
— E vinde os dois. Acompanhai o vosso amigo de Gasconha, senhor troveiro de Provença. Cantareis os vossos rimances; será noitada cheia.
O Provençal agradeceu, preocupado.
— Agora tenho de ir apresentar-me à Rainha. Até à noite. Não falteis.
E saiu magnificamente empavonado.
* * *
Vinha já de muito perto a vibração das trombetas. Sentia-se o sussurro da gente apinhada em frente do mosteiro das monjas.
Na taberna nem as duas raparigas tinham ficado. Tinham ido para em frente da porta.
— Esta agora só pelo demónio! — disse o Provençal para o Magriço, quase em segredo.
— Deixai, que melhor é assim. Já sabemos que D. Pelayo está disposto a deitar-se tarde e não há remédio senão vir acompanhá-lo, para que a noite lhe seja mais agradável. Assim se defenderá melhor a nossa empresa e terei eu o gosto de levar para Portugal as guedelhas desse farfante, desdouro dos valentes e enobrecidos cavaleiros que tem Castela.
— Por quem sois, Álvaro Coutinho! Não vos ponhais a idear aventuras que podem ter mau fim!
— Heis de ver que tudo isto há de acabar mais a rir que às lançadas.
— Eu bem receava que viesses aqui! E não era preciso, pois já tinha sabido quanto era necessário ao vosso intento.
— Só não sabíeis que teremos juntos os dois maiorais dos ginetes, e tão à mão, que até havemos de cear e jogar com eles! Mas descansai, que o meu gracejo só há de começar quando entendermos que os noivos estão a salvo. A não ser que receeis por vós...
— Nenhum receio por mim. Irei aonde fordes.
— Vive Deus! Agora gostei eu de vos ouvir.
— Mas olhai que o casamento é que se não pode fazer no mosteiro, como tínheis ideado.
— É pena! Teria assim maior significação; mas sei que não posso contar com a anuência de Ruy e do tio, e desisto. Do que eu não desisto é de levar as guedelhas de D. Pelayo Munoz de Leon y Bullones. Levo-as por conta das tremendas mentiras e nunca sonhadas insolências que tive a paciência de lhe ouvir na minha falsa qualidade de Gascão. Lá com pés de lã e calados como furtadores de galinhas é que os Namorados não hão de sair daqui. Mas não me fiqueis de má sombra, meu devotado amigo. Tudo há de correr na paz do Senhor, e até vós haveis de rir perdidamente por esse caminho fora. Hei de repartir convosco uma madeixazinha da guedelha do Munoz. Vamos lá ver agora a chegada da Rainha-menina e admirar os ginetes de Valhadolid.
Saíram. O Marival ia taciturno. Agourava mal daquela jactanciosa extravagância do Magriço.