A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 27 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo IV · Para Tordesilhas

 

Logo ao romper da manhã o Provençal voltou a conversar com Ruy de Vasconcelos acerca da planeada expedição a Tordesilhas.

Conversa confidencial, muito recatada de ouvidos indiscretos.

— Pareceu-vos então que era possível entrar no mosteiro e tirá-la de lá sem grandes violências e algum ruidoso desacato?

— Assim nos pareceu, ao vosso tio e a mim. Estando ele lá dentro como está, muito poderá ajudar a empresa.

— Meu tio conheceu muito D. Leonor Teles, e creio que foi um dos mais favorecidos requestadores que ela teve antes de casar com aquele João Lourenço da Cunha, de quem já vos falei.

O Provençal sorriu maliciosamente.

— Si, el de los cuernitos de oro — disse no seu castelhano, que nos abstemos de traduzir.

— Depois, por uma traição de malvadez que deu num lance de morte, meu tio ficou odiando profundamente essa mulher perversa, que foi rainha de Portugal por vergonha nossa. O meu tio atribuiu-lhe a ideia infernal daquela traição e, provavelmente, se não enganou, porque de tudo ela era capaz. Receio agora que Leonor Teles reconheça meu tio e o denuncie, ou que ele, nalgum arrebatamento do seu ódio sem tréguas, se lhe dê a conhecer violentamente. Foi imensamente desgraçado, sofreu muito e dela proveio, sem dúvida, todo o seu infortúnio de sangue, de remorso, de lágrimas. A mim me prometeu que se não daria a conhecer; mas em qualquer assomo de cólera ou por qualquer circunstância, com que nem ele nem eu podíamos contar, se pode esquecer da promessa.

— Creio que tal não sucederá. D. Leonor Teles está muito afastada na sua cela, muito metida consigo, segundo lhe ouvi a de, a propósito da vossa noiva. Parece que só uma vez a viu de relance, durante os dois dias que eu lá me demorei.

— Pois oxalá que assim seja. Agora dizei-me: Partindo da raia de Eivas, por exemplo, em cavalos de bom sangue e com outros de reserva para substituir os estropeados, sem delongas e só com o indispensável repouso, quantos dias vos parece que levaremos a lá chegar?

— Desse modo — respondeu lentamente — quer-me parecer... Que em nove ou dez dias estaremos lá. De Estremoz para Tordesilhas gastámos doze dias, mas tivemos de fazer muitos rodeios; eu para Elvas gastei treze, mas vinha um pouco a Deus e à ventura.

— Está bem. Subiremos para o Norte, seguindo pela fronteira de Portugal e meteremos por Miranda do Douro para lá. Não ouvistes dizer se a corte estava em Valhadolid?

— Ouvi que estava. Parece que o rei, sempre de luto por causa de Aljubarrota, convocou as cortes da nação para lá se reunirem, e dizia-se que era para dar conta do desastre e mandar que o luto fosse geral.

— Pois agora já tem outro desastre a contar e maior luto por ele. Não foi batalha real, nem será nunca de tanta fama como a outra; porém, o desbarato foi completo. Mas acresce o risco da empresa com essa impertinente vizinhança da corte! Enfim, seja como for. Dizei-me: em Tordesilhas há muita gente de armas de el-rei? Precisamos de contar com ela.

— Tem lá boa gente de armas. Em certa taberna, aonde eu fui colher informações, encontrei muitos homens de uma companhia de ginetes e outros de uma quadrilha de besteiros. Com as minhas astuciosas curiosidades de estrangeiro peregrino e graças ao agrado que lhes causou a minha condição de trovador errante, logrei saber que a companhia de ginetes teria noventa homens, e de besteiros e outra peonagem regular haveria não menos de duzentos.

— Percebo. Estão de guarda a Leonor Teles, não vá ela fugir de lá para conspirar outra vez contra o genro. Cerca de trezentos homens com que é preciso contar.

— E quantos supondes que podereis levar dos vossos Namorados?

— Ontem morreram e ficaram feridos vinte e dois. Da ala restam aqui trinta e um válidos, contando comigo. Se todos quisessem ir... Não tenho o direito de contar com todos, mas irei sem me importar o número dos que vão comigo. É coisa de que eu não desisto. Iria sozinho para lá ficar.

— Tal não será preciso. E mais se há de fazer por astúcia do que à viva força. A vila tem boas muralhas. Mas com os trinta o cometimento seria seguro. Por alta hora da noite, doze ou quinze bastariam para vigiar os casarões onde dormem os da companhia dos ginetes, dez para rebater a peonagem que aparecesse, cinco para guardar o mosteiro e fazer-vos costas, quando houverdes de ir com a vossa noiva. Os casarões onde se aquartelam os dos ginetes ficam muito nas vizinhanças do mosteiro e por isso não seria necessário que os vossos ficassem muito espalhados. E depois, dado que tudo se descobrisse e houvesse alarme, tal é a vossa fama de Aljubarrota, que bastaria um de vós bradar que éreis a Ala dos Namorados para que o espanto vos abrisse caminho a todos, antes que chegassem os homens de armas de Valhadolid, que fica a umas cinco léguas. Eu bem ouvi as coisas extraordinárias que a respeito da vossa ala contava lá a soldadesca. Coisas de maravilha, que pareciam tiradas dos romances de cavalaria de outros tempos! Diziam-nas com rancor, por entre insultos de farronca, mas o caso era que as diziam assim como se estivessem falando de um caso, não de há dois meses, mas de há dois séculos! Imaginai agora que os da companhia dos ginetes estiveram na batalha de Agosto e suponde o assombro com que eles não ouviriam de surpresa, já tão dentro de Castela, o pregão de guerra da Ala dos Namorados! E, muito mais ainda, se lá souberem então deste desbarato aqui, dentro das próprias terras de Castela.

— Grande favor vos devo e assinalado serviço o vosso!

— Nem vale a pena falar em tal. Vede agora se ides combinar as coisas com os vossos companheiros.

— É cedo ainda, e bem me pesa que o seja! Sei que o Condestável está no intento de voltar já a Portugal, seguindo para Eivas. Quando lá chegarmos, daqui a uns dias, falarei então aos meus companheiros e irei pedir licença a D. Nuno para nos metermos a caminho.

— Aí tendes o que a mim me parece de maior dificuldade.

— O quê?

— A permissão do Condestável.

— Servimo-lo dedicadamente nesta sua aventura, nós os da Ala; trata-se de uma empresa que não é de desdouro. Creio bem que nos não negará licença para um apartamento, que poderá durar vinte e tantos a trinta dias. Eu por mim me julgo no direito de lha pedir.

— Mas só vinte e tantos dias! Isso é apenas tempo para chegar e voltar. E o vosso noivado?

— Em qualquer igrejazita aldeã, por essa raia de Portugal, se fará o casamento. Ah!... De uma coisa me esqueci... Dizei-me: sabeis se Madalena anda de luto?

— Uma vez as vi juntas na véspera de sair de lá, vossa dama e a mãe, e não trajavam de dó.

— Então certamente não sabem ainda que Gil Vasques foi morto.

— Disse-me vosso tio que D. Madalena estava na suposição de que o pai houvesse ficado prisioneiro, como sucedeu ao chanceler-mor do reino e a mais alguns fidalgos de Castela.

— Tinha pedido ao meu tio que, por enquanto, lhe não contasse o que sucedera.

— A mim me disse ele que não a quisera dissuadir daquela suposição.

— Ainda bem.

Decara da tenda do Condestável, os trombetas da hoste tocaram para entrar em alardo. Ruy teve de afastar-se de Marival.

* * *

 

 

Não eram ainda 6 horas daquela manhã de 17 de Outubro. Nuno Álvares determinara que a hoste se pusesse em marcha depois das 9. Antes se iriam sepultar os cavaleiros portugueses de mais preclara origem. Uns covões para todos os que não eram do esquadrão dos Namorados. Os destes foram enterrados à parte pelos seus próprios companheiros.

Ainda não eram 9 horas e já a hoste ia em marcha. Parou a duas léguas de Mérida, desceu ao longo do Guadiana para a fronteira portuguesa e a 20 estava em Eivas, concluída aquela campanha de dezoito dias em que Valverde foi o corolário de Aljubarrota, conforme o dizer do general Ximenez de Sandoval.

— Agora é que é ocasião de falar na empresa aos meus companheiros — disse Ruy para o Provençal — Depois irei fazer o pedido ao Condestável.

 

* * *

Um dos Namorados era de Eivas, de família fidalga e abastada. Convidou os companheiros para seus hóspedes.

— Há pouco mais de dois meses — disse-lhe singelamente, com uma certa tristeza de saudade — podíamos encher o terreiro dos paços reais de Apar S. Martinho; agora cabemos todos nesta casa! Pouco à larga, bem o sei, mas estais aqui como se a vossa fosse e nós todos como irmãos.

Ruy quis primeiro consultar o Magriço antes de falar aos outros. Tinham ficado aos quatro e cinco em cada compartimento e na sala maior, mudada em camarata, se alojaram catorze.

No aposento do Vasconcelos estavam mais três, aqueles com quem tinha maior intimidade. Assim que dois deles saíram, Ruy chamou o Magriço e expôs-lhe o seu plano.

— Oh, isso então é negócio arrumado — disse-lhe entusiasticamente — Já uma vez o dissemos e prometemos; aqui não há quem volte com a palavra atrás.

— Pois sim, mas é dever que eu lealmente lhes exponha os riscos em que os vou meter.

— Isso é ofendê-los, sejam quais forem; prometemos, vamos.

— Mas, ao menos, quero eu fazer-lhes o pedido.

— Também é escusado. Promessas de homens de honra não se cumprem a pedido; cumprem-se por dever. Para lhes dizer que temos de ir, porque vós quereis que vamos, basta eu. Ide vós aproveitar o tempo fazendo o pedido ao Condestável.

— Preferia ir fazer-lho depois. Alguns poderá haver que não possam partir e tenham de ficar, embora muito contra sua vontade.

— Pois que assim o quereis, assim se fará. Mas olhai que podeis ir afoitamente dizer a Nuno Álvares que todo o resto da ala quer ir convosco. Mas seja como é vossa vontade. Esperai. Eu voltarei depressa.

Saiu e a todos os foi chamando para a sala grande que servia de camarata. Mal os viu reunidos, fechou a porta por dentro e falou-lhes.

— Sabei que chegou a ocasião de ir buscar a nossa rainha das belas, aclamada pelos primeiros Namorados. Já uma vez, não há muito tempo, se prometeu que iríamos buscá-la à sua reclusão de Tordesilhas, quando fosse preciso e o seu prometido noivo, Ruy de Vasconcelos, o quisesse. É preciso agora, sem delongas, ir tirá-la do mosteiro.

— A nossa carruagem está sempre prestes a ir — disse Vasco Eanes, sorrindo — e no meio quarto de hora veste armas um Namorado, pula para cima de um cavalo e larga à desfilada. Se chegou a ocasião de ir buscar a nossa rainha, ã que pelas suas mãos bordou a nossa bandeira, já toda esburacada dos virotes e dardos de Castela e um tudo nada comida da cor pelo sol de Aljubarrota e por aquele de Valverde, de menos ardor que o outro, mas não menos claro; vamos lá e traremos a noiva do mais esforçado e ilustre cavaleiro da ala.

— Está bem — disse o Magriço numa grande expressão de júbilo — Sabe-se que em Tordesilhas não haverá menos de trezentos homens de cavalaria e de peonagem.

— Melhor — acudiu o Vasco Eanes.

— Vamos todos; chegamos bem — disse outro.

— Todos! — repetiram os que ainda se não tinham manifestado.

— Pois grande prazer me dais falando assim — disse o Magriço — Era o que eu esperava e foi o que há instantes afirmei a Ruy de Vasconcelos. Temos agora uma coisa que é só para nós e ficará sendo segredo para o próprio Vasconcelos. Onde quer que a rainha se casar, serão padrinhos dois dos nossos à sorte, tocará por madrinha da noiva a nossa esfarrapada bandeira que ainda lá tem a imagem peregrina da nossa Senhora e tornaremos a aclamar a rainha mesmo nas barbas dos Castelhanos.

— Pois assim será — apoiou entusiasticamente Vasco Eanes.

— Está dito e é como se fosse jurado! — disse o de Eivas.

— E não se convidam os Castelhanos para a festa da boda — gracejou outro — por sabermos que estão de luto pesado.

— E a minha pena — acudiu o Lobeira — nem vós sonhais o que é!

— Dizei, que talvez se lhe dê remédio.

— É que não seja tempo da madressilva em flor. Se fosse, levaríamos uns punhados delas da nossa terra portuguesa para lá coroarmos a rainha.

— Era lindo, era.

— A madressilva quer dizer constância para sempre e foi a flor que ela bordou na bandeira dos Namorados — relembrou o Lobeira.

— Está, pois, resolvido — concluiu o Magriço — Vamos todos?

— Todos — responderam.

— Ruy queria vir fazer-vos o pedido; fui eu quem não consentiu que ele viesse. As nossas promessas cumprem-se sem ser preciso que nos venham pedir o seu cumprimento, em guisa de favor.

— Assim é! Assim há de ser! — confirmaram todos em plena unanimidade.

— Ficai então precavidos. Ao primeiro aviso, abafamos.

— Ainda que seja para as ilhas encantadas do Mar da Noite (*) ou para o cabo do Mundo — disse o Lobeira, sorrindo.

 

[(*) Mar da Noite, ou Mar das Trevas, era a designação lendária dada pelos Árabes ao Atlântico para além do Cabo Bojador, que outra lei dava como limite do mar navegável.]

— Ou para ir tomar Ceuta ao Mouro escuro de Marrocos — acudiu outro de gracejo.

— Está bem — disse o Magriço, pondo ponto aos devaneios — Vou confirmar a Ruy de Vasconcelos o que há pouco lhe afiancei, e ele que vá então pedir ao Condestável a permissão para nos metermos a caminho. E que lha peça em nome de nós todos.

— De todos! — repetiram.

— Agora reparai. Importa ao bom sucedimento da empresa que se guarde segredo a respeito do nosso intento. Segredo seja para quem for.

— Guarda-se — afirmaram.

— E diremos que vamos à Beira com encargo de confidência, por mandado do Condestável.

Concordaram todos e o Magriço saiu.

— Em se sabendo ao certo quando partimos, mando logo arranjar farnéis para nós todos — disse o de Eivas, hospedeiro dos trinta.

Entretanto o Magriço dizia a Ruy de Vasconcelos:

— O resto da ala vai. Podeis ir fazer o pedido para vós e em nome de todos.

 

* * *

 

Ruy entrou para os aposentos do Condestável, em casa do alcaide de Eivas, onde ficara hospedado.

Pedira o Vasconcelos para falar em particular a Nuno Álvares e o insigne batalhador afetuosamente o mandou entrar para a sua própria câmara de dormir.

Ruy expôs-lhe o projeto, depois de lhe indicar os antecedentes dos seus amores com Madalena de Mendonça.

O Condestável refletia e foi respondendo lentamente:

— É empresa de grande risco, porém não está acima do esforço de que haveis dado provas. Ponde, porém, cautelas ao vosso arrojo, senão por vós mesmos, pela Nação, à qual podem fazer falta trinta e um cavaleiros dos melhores de Portugal. A guerra não se acabou. Vai continuar. Aqui me esperava uma carta de El-rei, dizendo-me que fosse depressa juntar-me com ele para irmos tomar Chaves e outras vilas fortes do Norte, que ainda têm voz por Castela. Tomo sobre mim pesadas responsabilidades!

— Se esta aventura for de mau desfecho, senhor D. Nuno, algum dos nossos dirá que fostes enganado pelas nossas promessas.

— Não! Não! Toda a verdade ,se dirá, se for preciso dizê-la. E eu primeiro que ninguém. Preciso de uma promessa vossa.

— Senhor, mandai.

— Que pela vossa honra vos oporeis a qualquer desacato de escândalo ou de violência no mosteiro.

— Senhor Condestável, pela minha honra e por todos os da ala vos afirmo que nenhum escândalo nem desacato se fará no mosteiro, nem haverá violências que não sejam em defesa própria ou da minha noiva.

— Está bem. Qual demora esperais ter?

— Queremos ver se em vinte e tantos dias aqui estamos de volta.

— Para aqui não será, que talvez a esse tempo já eu esteja para o Norte.

— Deixai aviso e iremos para onde vós mandardes.

— Bem está assim. Tomarei perante El-rei a responsabilidade da licença que vos dou. Tão grande e denodado esforço foi o de vós todos em Aljubarrota e agora comigo em Valverde não sei se ainda maior, e vós, Ruy de Vasconcelos, tão distintamente entre os vossos, que muito mereceis esta licença de exceção e pelo vosso honesto intento vo-la concedo.

— Senhor Condestável, dais-me nesta licença o galardão maior que podia merecer-vos! — disse-lhe numa grata comoção — Tenho sido até agora o mais fervoroso dos vossos admiradores, porque sois para mim a maior alma de herói que tem Portugal. Agora ficarei sendo dos vossos amigos para a vida e para a morte, e daqueles que maior favor vos deve.

— E por amigo vos quero e pelo vosso admirador me podeis contar. Quando vos convém sair?

— Na madrugada de amanhã.

— Longa marcha tereis.

— Daqui até ao Douro, por cercanias de Miranda, marcharemos de dia e de noite. É o estirão maior. De lá para Tordesilhas caminharemos de noite para não fazer escusado alarme e maior demora hemos de ter por ir com dobradas cautelas.

— Tendes divulgado por aí essa vossa empresa?

— Só há pouco a souberam os meus companheiros e todos prometeram guardar segredo a respeito do cometimento.

— Mas com que fim direis que vos afastais da hoste?

— Diremos que vamos à Beira com encargo vosso de confidência, se este disfarce nos autorizais.

— Sim, autorizo. Podeis até dar a entender que é por encargo de guerra. Deus vos perdoará a falsidade de honrada intenção. Pois ide, e que sejais bem sucedidos.

— Por mim e por todos muito do coração vos agradeço a concessão e as boas e generosas palavras. Deixai agora que vos faça outro pedido, que já me ia esquecendo, e este é só por mim.

— Dizei.

— Que me concedais os dias que cheguem para ir a Lisboa levar a minha noiva e deixá-la em casa da minha mãe.

— Sim; está concedido. E para tal vos dou a mais outros vinte dias.

— Insigne favor, senhor Condestável! — disse, radiante de júbilo.

Despediu-se. Nuno Álvares abraçou-o como se fosse um irmão seu.

 

* * *

 

Saiu num agitação febril. Parecia-lhe que os minutos eram longos como os dias grandes de Maio.

Os rapazes esperavam-no. Deu-lhes a nova da licença a todos eles reunidos na sala grande, à porta fechada, e abraçou-os um por um enternecidamente.

— A hora? — perguntou o de Eivas.

— Ao nascer da lua.

— Que foi sempre boa madrinha de namorados.

— Estou a adivinhar o que mais vos pesa agora, ditoso noivo — disse-lhe o Magriço.

— O quê?

— Que Deus não tivesse dado asas de pomba à Ala dos Namorados, para deitarmos todos daqui num voo até Tordesilhas.

Riram do gracejo numa consoladora despreocupação daqueles cabecinhas de vento, como havia mais de um ano lhes chamara o Mestre de Avis. Mas também cabecinhas épicas, às quais Portugal devia uma parte do esforço que o salvara, glorificando-o.

Ruy saiu com o Magriço para irem falar ao trovador provençal dando-lhe conta do que estava resolvido.

 

* * *

 

— Meus amigos, quando chegará para nós a vez de também sermos noivos? — disse o Lobeira, sorrindo.

— Sim, quando chegará? — acudiu outro dos mais novos — Com este noivado que vamos ajudar, ficai sabendo que já não terei noite que não seja de sonhos com a minha dama de cabelos e olhos negros!

— E eu até vou já sonhando acordado — volveu-lhe o Lobeira — A minha tem olhos verdes da cor da nossa bandeira. Desafio Castela, as duas Castelas, Leão e Navarra e mais as Astúrias e a Galiza...

— Não vos esqueça a Gasconha e o Bearne — galhofou outro dos mais jovens.

— E os pimpões de França também, a que me deem notícias de outros olhos verdes assim lindos como os dela.

— Olhem os galitos da ala erguendo a crista e a quererem bater asas para cantar, como se fossem galos feitos! — escarneceu um que tinha apenas vinte e quatro anos.

— Ora vejam o galarão antigo! — troçou o Lobeira.

— Para cantar alto e arrastar a asa — replicou — já não é brincadeira ter mais quatro ou seis anos.

— Para assar no forno é que faz grande diferença — retorquiu o Lobeira — Ficam durázios.

— Pois aqui está quem é o mais jovem da roda — dezasseis anos para os Santos — e já lhe tarda o noivado com a sua dama de quinze, que já lhe ficou na rua Nova de Lisboa.

Riram e dispararam-lhe alusões de brinquedo à verdura dos anos.

— Ficai sabendo que o pedaço de tolo do meu coração, a pensar que a noiva é para ele, até me está bailando no peito!

— Então avisai-o do engano, não vá ele fugir-vos para a rua Nova.

— Ai, mas isto de ficar sempre namorado, a ver casar os outros, há de ter fim!

— Os que restarem da ala têm de acabar casados.

— Certamente. E a ala desfaz-se. Não se há de pôr na bandeira o Conjugo vóbis do matrimónio, nem seria honesto chamar Ala dos Namorados a uma ala de casados.

— Seria para as donzelas uma ala desasada.

— Eu cá, pelo meu voto, sou porque a ala se disperse na volta e vá cada um furtar a sua noiva.

— Eh! Doidinho-mor!

— E quem não tiver noiva certa, que traga de Tordesilhas uma noviça bonitinha e de boa família. As noviças podem casar e a mim de Castela só me desagradam os Castelhanos.

Entrou o Magriço.

— Ui! Que fazeis mais ruído que um bando de gralhas a adivinhar temporal.

— Noivado, noivado é que nós estamos a adivinhar.

— E o vosso, Álvaro Coutinho? — perguntou-lhe o Lobeira para o ouvir — O vosso quando será?

— Quando não sei eu, mas com quem já vos posso dizer.

— Pois vamos a ouvir.

— Dizei.

— Com a mais feia ilhoa que tiver a Inglaterra. É da minha sina.

Vibraram risos de galhofa.

— Mas quebrai a sina! — lembrou o Lobeira.

— Dizeis bem. Talvez a vá quebrar agora, se D. Leonor Teles tiver consigo alguma aia solteirona e menos feia do que eu, que pretenda voltar a Portugal com um marido para lavar e durar.

Teve uma ovação de risota.

 

* * *

 

Alta madrugada, a lua a subir serenamente como pérola enorme que fosse boiando por um lago azul, e o resto da Ala dos Namorados a sair de Elvas e a meter a trote largo pelo caminho que ia para a Beira.

Com os trinta e um iam o Provençal e quase outros tantos pajens e escudeiros, acompanhando aquele pequeno esquadrão de aventura.

O Magriço na frente com a bandeira.

Nos altos, para repousar, cantavam todos eles a trova em que Marival celebrava os Namorados de Aljubarrota.

Jornadas largas e rápidas, em galopadas vertiginosas, ao longo da fronteira por terras de Portugal. Depois já em Castela, as marchas de noite e por fora das povoações, para não causar alarme que lhes pudesse comprometer o intento.

— E agora? — perguntou o Vasconcelos ao Provençal, na marcha noturna em que iam já muito além da fronteira.

— Mais três léguas de rodeio e sobre a madrugada nos poderemos meter a uma grande baixa de árvoredo bravo e matagal. Uma légua em roda não há povoados. Só perto, numa encosta, se encontra um casarão em ruínas. Ali poderemos ficar até à hora da noite que se aprazar.

— Conheceis bem o sítio?

— Ali fomos uma vez, vosso tio e eu. E com ele deixei combinado que para lá vos havia de guiar.

— É então perto de Tordesilhas?

— A uma grande légua.