A Ala dos Namorados
Capítulo VIII · Almas Amarguradas
Maria de Mendonça não se afastara em toda a noite do quarto da filha, sempre a arder em febre, numa agitação de pesadelos.
Sobre a madrugada, Madalena ficou-se num quebramento de modorra e a mãe adormeceu a chorar, sentada num escabelo, a cabeça repousada no cabeçal da filha.
Acordaria, era seu intento acordar antes que a manhã rompesse, para ficar à espera de notícias que chegassem a respeito de Ruy, evitando assim que alguma nova de fúnebre desgraça viesse ferir de surpresa aquela pobre enamorada.
Sabia que D. Dulce tinha ido para os seus aposentos um pouco mais aliviada das sufocações e mais recobrada de ânimo, mas nem sequer podia sonhar que ela houvesse tido alento para sair em busca do filho.
— Jesus da minha alma, o que será para nós ambas — pensara, de olhos cravados na filha — o dia de amanhã, se o luto entrar nesta casa? Atirar-nos-ão para a rua como uns trapos que fazem asco e vaguearemos por aí, famintas, desprezíveis, mais desgraçadas que as mendigas de pior infortúnio! Hão de cobrir-nos de afrontas; a ralé odeia-nos; há de voltar contra nós os desesperos da sua fome e do seu padecer. Desditosa filha! Desditosa!
E foi neste tormento de receios, a pensar naquela madrugada de trágicos prenúncios, que já não tardava e em que ela havia de ser, naquela casa, a maior madrugadora; foi nesta angústia que os olhos se lhe cerraram num torpor invencível de todas as forças.
Mas o dia alvoreceu, o sol surgiu radioso sobre a cidade amargurada, e a madrugadora não despertou. Nem ela, nem a filha, a chorar de olhos cerrados, a sofrer naquele sono de tortura.
* * *
Bateram à porta brandamente. Nenhuma delas ouviu. Segunda vez com mais força. D. Maria de Mendonça despertou então num arrepio de medo.
— Valha-me Nossa Senhora! Quem será?
E ficou de pé, hesitante, numa tremura de receio.
Bateram outra vez. Foi para a porta, pé ante pé, não fosse a filha despertar para alguma horrorosa realidade. Ia num estonteamento de ideias doidas, o coração como se lhe quisesse fugir do peito, a voz represada na garganta. Encostou-se à porta.
— Quem bate? — perguntou baixo, rouquejando, num esforço doloroso.
— Senhora — disseram de fora — perdoai. Venho trazer-vos uma notícia. Não vos sobressalteis.
Era uma voz de mulher.
— Uma notícia! Mãe de Jesus, valei-nos!
Entreabriu a porta brandamente, a tremer. Madalena tinha despertado numa agitação mais violenta, sacudida por um sonho brutal, ainda em turbações de delírio, na imperfeita consciência da sua situação.
— Mãe! Até vós fugis de mim! — e sentou-se na cama, de repente.
— Filha... Aí vou — respondeu-lhe, passando para lá da porta e puxando-a para si.
— O senhor Ruy já voltou! — disse-lhe a criada que viera bater.
Mãos nos olhos, numa impaciência nervosa como se quisesse rasgar a névoa de lágrimas que lhos turvara, e num supremo esforço da vontade para ver se podia compreender o que se passava, Madalena soluçou:
— Mãe! Deixais-me! É para me não dizerdes a verdade! Mas... Vou eu sabê-la... Não posso! Não posso!
E debruçou-se para o cabeçal a chorar.
Entretanto, a criada tinha informado que Ruy chegara são e salvo e lhe ordenara que viesse dar-lhe aviso e pedir-lhe permissão para vir falar-lhe.
— Filha, minha querida filha! — exclamou D. Maria, entrando e cerrando a porta.
— Mataram-no! — disse Madalena num gemido que parecia um arranco de alma, pondo-se de joelhos, angélica figura de uma inexcedida angústia, trémula estátua de suprema dor, numa semi-nudez escultural.
— Filha, não! — gritou a mãe convulsivamente, abraçando-se nela, a cobri-la de beijos — Voltou são e salvo! Nossa Senhora ouviu-te; teve dó de ti, meu amor, e no seu dó se apiedou também de mim!
Num olhar de pasmo, a cingir a mãe a si fervorosamente, Madalena disse-lhe em murmúrios, com a face muito encostada à face dela:
— Mãe da minha alma! Não pode ser engano para mim, não pode. Tanto me quereis e tanta pena tendes de mim, que não ereis capaz de iludir, ainda que fosse para o meu bem.
— Minha pobre loucazinha! Se era engano que eu pudesse fingir assim! Olha, repara bem. Esta alegria não se finge.
— Sim, sim, perdoai-me! Por tantas mágoas que eu tive, até esta ventura me pareceu engano de sonho! Mas agora não, minha santa! Até Nossa Senhora quis que viesse da vossa boca para mim, mãe que tanto tendes sofrido, essa boa nova, que entra na minha alma como se fosse uma aleluia!
E a beijá-la com louco fervor e um carinho infantil, solicitou-lhe:
— Mãe, ajudai-me a vestir... Mas eu posso.
— Filha, estás muito abatida.
— Deu-me saúde a vossa boa nova. Heis de ver que posso. Muito devagar, como se eu fosse uma velhinha, amparada por vós, para ir ali à janela ver o dia, o sol, que está a querer entrar aqui, todo cheio de ouro, príncipe de encanto, que vem dar-nos parabéns.
— Minha louquinha!
— Ajudai-me. Se eu não puder, se a febre me não despregar, voltarei então para aqui. O dia há de estar lindo, este bem-aventurado dia! O louco do meu coração havia de achá-lo agora formoso, o mais lindo de quantos eu tenho visto, ainda que viesse todo ele toldado de negrumes.
— E é só para ver o sol que tu queres levantar-te? — perguntou-lhe, sorrindo.
— E para o ver a ele, se a minha querida mãe, a maior amiga que eu tenho, tanto se compadecer de mim, que mo consinta.
— Pois sim, filha. Ele próprio mandou pedir para me falar.
— Bendito Deus! Iremos ambas, sim? Depois de tamanha noite de amarguras é como se ele houvesse ressuscitado!
A mãe ajudou-a a vestir. Estava muito extenuada e aquela sua coragem do coração e dos nervos pouco poderia durar.
— E estou eu a ajudar-te nesta imprudência! Tremes como um vime!
— É do sobressalto. Não vos lembrais de quando eu era pequenita? Punha-me toda a tremer quando vós me levavas a ver o que a minha mente sonhava, ainda mais lindo que a realidade.
— Isso dizes tu, mas eu conheço que a febre ainda te não largou e é com a febre que tu tremes!
— Pois deixá-la — volveu-lhe de gracejo — pior foi quando o coração tremia, e agora é ele que não faz caso da febre e há de mandá-la embora como quem despede uma visita impertinente.
— Assim seja, mas estou com receio disto!
— Pronto, minha adorada mãe. Está vestida a rainha. Agora até tenho vontade de rir daquela aclamação, que tanto me oprimiu!
D. Maria de Mendonça apagou a grande lâmpada. Madalena sentou-se, extenuada, no escabelo, ao pé do leito.
— Mãe, o sol! Deixai-o entrar. Tenho saudades dele.
— Eu vou, descansa.
Abriu de par em par as portas da alta janela de ogiva. Um jorro de luz dourada inundou a câmara.
— Bendita luz! — exclamou Madalena — Luz para um noivado de sonho — pensou — Ouro divino para um dote de noiva! Sol, assim tu me quisesses dotar!
— Senhora minha — chamou de fora a criada que trouxera a boa nova.
— Entrai — disse D. Maria de Mendonça.
— Santo dia, senhoras minhas! — saudou a serva.
— Santo dia seja para nós todos — volveu-lhe a mãe de Madalena.
— O senhor Ruy, meu amo, pede-vos o favor de o ouvirdes. Está a esperar-vos na saletazita aqui em frente e muito vos roga que não tardeis, porque em breve terá de ir falar com a senhora D. Dulce.
— Ide dizer-lhe que vou já.
A criada saiu e D. Maria de Mendonça voltou-se para a filha, sorridente:
— Tens ânimo?
— Mãe, ainda que fosse preciso ir de rastos! — respondeu, beijando-lhe a mão e amparando-se a ela, enternecidamente.
— E depois? — ia perguntando D. Maria de Mendonça de si para si — Pobre criança, quem sabe o que será o teu dia de amanhã?
* * *
Ruy acabara de receber a resposta. Esperava com impaciência.
Queria que D. Maria de Mendonça lhe desse informações completas a respeito de Madalena, e estava no propósito de pedir que lhe permitisse vê-la, ao menos da porta do seu aposento. Sabia já que ela estava levantada.
Sentiu passos lentos e encaminhou-se para a porta. D. Maria entrou com a filha amparada a si.
Quebrando os rigores da etiqueta do tempo, numa surpresa perturbadora, de imenso júbilo, Ruy deu uns passos atrás, como deslumbrado.
— Vive Deus, que vos traz aqui, dama e senhora minha, rainha angélica, de beldades!
— Rui! — murmurou ela a tremer, encostando-se mais à mãe, de maior rubor as rosetas da febre na sua alvura de alabastro, cheios de lágrimas os seus olhos estonteadores, daquelas consoladoras lágrimas que são como um divino orvalho em que as mais intensas mágoas se desfazem.
— Senhora, perdoai! — disse Ruy, curvando-se diante de D. Maria de Mendonça — Não pode já haver disfarces neste profundo e honesto amor. É vossa filha a noiva da minha alma; respondem pela segurança do noivado, em face do Mundo, seja quando for, a minha honra e a minha vida.
— Creio em vós — respondeu-lhe — mas não poderá o vosso coração sozinho vencer infortúnios e injustiças do Mundo!
— Bem vos compreendo, senhora, e peço licença para vos repetir: O esforço ajudará o coração.
— Vossa mãe espera-vos — veio dizer a aia Marta Vicente.
— Eu vou. Senhora D. Maria de Mendonça — disse-lhe, curvando-se.
E a seguir, de joelho dobrado, diante de Madalena, tomou-lhe a mão e beijou-lha levemente.
— Rainha de sonho, rainha da minha alma! — murmurou enternecidamente.
* * *
Na sua antecâmara, D. Dulce mandara sentar o filho ao pé de si.
— Ruy, escuta-me. Não vou falar-te da noite de amarguras que passei por ti.
— Minha santa!
— Mãe apenas, com o defeito de todas as mães que muito querem aos filhos e não vivem senão por eles. Isto me basta. Defeito lhe chamei, pois que, até por este amor assim somos injustas para outras mães e detestamos outros amores. Tive ontem momentos — Deus mo perdoe! — em que cheguei a sentir alguma coisa que parecia rancor a alguém que é digno de dó e a mim me tem merecido carinhosa simpatia!
— Senhora minha, estou a entender-vos com mágoa minha!
— Rancor que foi desvario daquela tamanha dor que eu sentia! Ias morrer por ela. Aqui tens a minha fraqueza. Mas não vale a pena falar-te do que padeci, nem foi para isso que te chamei. Importa às honradas tradições desta casa, à honestidade de Madalena de Mendonça e ao teu próprio nome que, sem demora, se tome resolução a respeito de um assunto grave. Os teus amores por essa menina caminharam depressa, chegaram em poucos dias a uns excessos de enfeitiçamento que não são vulgares e podem tornar-se desonesta injúria.
— Mãe e senhora! Pela vossa vida e pela minha honra...
— Filho, não faças juras por esse enlouquecimento de amor! Muitos se têm quebrado. Pergunta-o ao teu tio Mendo. O cavaleiro honroso que tu és sei eu que de boa fé jurava; podia, porém, faltar-lhe o enlouquecido enamorado, e tu és, ao mesmo tempo, o cavaleiro incapaz de faltar aos seus deveres de fidalgo e o louco perdido de amores por ela. Não me oponhas sonhos a essas tantas realidades que o Mundo conhece. Escuta-me serenamente. Vem de ilustre sangue essa menina de quem te enamoraste; creio firmemente nos teus castos escrúpulos, lê-se-lhe a bondade no olhar; nenhuma de mais cativante formosura que eu ainda visse, nenhuma, e não foram lisonjeadores esses jovens cavaleiros que nesta casa a aclamaram rainha de beldades. É digna de ti, filho, firmemente o creio. Mas já o Mundo o não entende assim.
— O Mundo! Com que fundamento, mãe e senhora minha?
— Ouve. Quero eu lembrar-to, já que tu pareces esquecido do que há pouco tempo me disseste, quando me pedias lhe desse guarida nesta casa. Para o Mundo, para a gente do povo, é a odiada filha de um traidor, que agravou a sua infâmia vindo com os invasores da sua terra, para lutar contra os nossos, abastardando os brasões da sua cota de cavaleiro português com os outros da nobreza de um rei estrangeiro.
— E em que pode Madalena ser culpada dessa infâmia?
— A gente do povo não sabe distinguir essas coisas, e para essa gente não é senão a filha de um traidor. Tu próprio o sabes melhor do que eu.
— Nuno Álvares, flor dos cavaleiros, a mais valente espada que há hoje em Portugal, tem irmãos bandeados com o rei de Castela, e o povo adora-o como se ele fosse um santo e resplandecente cavaleiro, igual ao do Santo Graal dos rimances e trovas, quase igual ao S. Jorge de Inglaterra.
— Ruy, eu sei. Mas Nuno Álvares, tu o disseste, é a mais valente espada de Portugal, e haverá três meses, aqui festejou Lisboa a batalha que ele venceu aos Castelhanos. Já não pode cair sobre o seu loudel de batalhador vitorioso a mácula dos irmãos traidores.
— Mãe, farei eu também que sobre a minha cota de armas não possa cair a infâmia de Gil Vasques de Mendonça.
— Já estava a esperar que me repetisses por outras palavras o que prometeste ao Mestre e me disseste a mim. Mas ouve lá: não se provocam batalhas como se provocam duelos, e esse de hoje não podes tu contar para o dote da noiva, nem para desviar de ti os ódios injustos da plebe contra a filha do traidor. Nem o aceitará o Mestre em guisa de abonação para noivado. Feriste de morte um cavaleiro, que todos julgavam leal, e será menos um — Deus tal não permita! — entre os poucos leais que tem Portugal. Fará falta. Esse desvairado combate há de ser a esta hora sabido por toda a cidade e dará fama de escândalo a esses amores com a filha do Mendonça. Maior ódio contra ele, tamanho que chegue para o repartirem comigo, filho!
Ruy sentia a profunda verdade destas palavras e já se não atrevia a opor-lhe devaneadoras alegações de namorado. Aquela era a razoável previsão dos acontecimentos. Dizia-lho a sua própria consciência.
— O que esperas tu que a má-vontade e o ódio inventem contra esses amores de tão arrebatados excessos? E dos meus escrúpulos o que podem supor tendo-a aqui na minha casa tão em intimidade comigo?
— Senhora, quem se atreverá?
— Não te assomes em farroncaria de cavaleiro andante. As más aparências infamam tanto como as ruins ações.
— Mãe, onde quereis chegar?! — disse, erguendo-se, de rosto avincado, extremamente pálido.
— Mandei que te assentasses! Não é tempo ainda de te levantares; tenho mais que te dizer, sem ser preciso que mo perguntes.
— Senhora, perdoai — volveu-lhe, acabrunhado por aquela áspera admoestação com que não contava — Amargurou-me a suspeita de que o vosso intento fosse negar amparo a essas infortunadas mulheres.
— Não será negar-lho, mas afastá-las desta casa por honra sua e minha. Pela nossa bastaria.
— Uma crueldade, senhora!
— Mas o que entendias tu, dom cavaleiro enamorado? Ias com a tua espada retalhar as línguas danadas que a ousassem caluniar a ela, caluniando-me a mim? Mandavas lançar pregão pela cidade, afirmando a tua honesta lealdade de cavaleiro e o voto de esperar com o noivado até que se desse batalha em que, a poder de esforço, resgatasses do nome da noiva o infamado apelido do pai? Repara bem que se ririam de ti até os menos incrédulos da cidade.
— Mãe, não vos mereço essa desdenhosa suposição! Magoa-me imensamente mais que todas as possíveis injúrias da plebe! Quase me julgais um louco truanesco!
— Não julgo, filho. Seria eu a última pessoa a fazer semelhante suposição. O que eu quis foi mostrar-te o que podia haver de risível em alegar à gente caluniadora umas coisas, em que ela não havia de acreditar porque não as saberia compreender.
— Quereis então, senhora, que Madalena e a mãe saiam desta casa?! — disse, oprimido — Que vão para a rua? Com todos os seus bens sequestrados, a ralé odienta que lhes dê esmola, se não preferir arrastá-las pela rua para espiarem o crime do traidor! Ou que as vá eu defender da arraia e da soldadesca brutal e lhes dê abrigo em qualquer casa de aluguel para que digam então, com melhores fundamentos, que pelo benefício comprei eu o direito de chamar-lhe minha?!
— Agora a injustiça e a ofensa é para mim, Ruy! — disse, erguendo-se a tremer — Para mim nessas loucas palavras! Perdoo-tas, perdoo, porque entendo e sinto a amargura com que as disseste. Apesar de tudo, fazem-me pena tu e ela! Depressa me negaste a lisonjeadora santidade com que às vezes te aprazia engrandecer-me! Agora até me supunhas capaz de uma crueldade, que ainda seria maior pela vileza do propósito do que pelo desapego de toda a humana caridade!
— Senhora, nenhum intento de vos magoar, mas se falou de mais esta surpresa de amargura que me causastes, dai-me por arrependido e considerai-me digno do vosso, perdão Adivinhasse eu, mãe e senhora minha, qual era o vosso intento e, por Deus, que vos não molestaria agora com este desafogo.
— O que queres dizer, Ruy?
— Senhora, não voltaria.
— Deixavas-te matar! Entendo.
— Para não chegar à dor e à vergonha de mandar abrir as portas desta casa para daqui serem expulsas, como importunas mendigas, duas damas de nobreza, a quem eu, pela minha honra de cavaleiro e pelo vosso coração de mãe, prometi defesa e guarida, porque não têm lar, nem pão nem amparo de ninguém!
— Mas saio eu — acudiu amargamente — para que o meu filho não falte à sua promessa de cavaleiro e para que o Mundo me não suponha desonesta protetora de uns amores que podem ser de má fama! Valha-nos Deus, filho, que nem tu me queres entender, nem eu já posso merecer-te a confiança de outros tempos melhores! E não tenho porque me surpreender! Era isto o que o meu coração receava e previa! Só não podia adivinhar que fosse tão cedo! Paciência, filho — disse-lhe com um gesto de resignada amargura — Ouve o resto, que me não deixaste dizer, e faz depois o que entenderes, e quiseres como homem livre que és. Não me faltará em Lisboa casa de parentes que me receba, se for eu quem deva sair.
— Mãe e senhora! — rouquejou, convulsivo.
— Ouve. Não é por um propósito de desprezo que eu desejo afastar daqui essas desventuradas senhoras. Devias tê-lo percebido; decerto o percebeste; mas não quiseste poupar-me ao dissabor de te ouvir injustas alegações de namorado, que teimosamente fecha os olhos à realidade. O meu dó por elas não as abandonaria à porta da rua; iria com elas. Eu mandaria procurar casa que fosse condigna da sua condição, dar-lhes-ia a minha aia, dos nossos criados os que lhes fossem necessários e mais lealmente as pudessem defender e servir, e dos nossos rendimentos quanto fosse preciso para viverem como quem foram. Bem vês, Ruy, que não era desampará-las à fome nas ruas, entre os ódios da ralé e as brutalidades da soldadesca! Só tu o podias supor, meu filho! Defendidos por este modo os meus escrúpulos e os créditos desta casa, a ti pertenceria, como homem de honra que és, defenderes dos dizeres do Mundo a honesta fama dessa que pretendes para noiva. Defendê-la, abstendo-te de intimidades suspeitas, até que pudesses conseguir licença do Mestre para a tornares tua esposa. Em tudo isto, filho, bem vês, nem sequer a minha sombra se atravessaria no teu caminho. Ao teu encontro só as lágrimas que eu chorasse de alegria pela tua felicidade e pela tua glória... Ou as outras... Que nem terias de agradecer-me... Porque não as poderias ver!
Sentou-se, afogada em soluços.
— Mãe, tinhas razão! — disse comovidamente, ajoelhando em frente dela — Perdoai que um momento duvidasse do vosso coração de santa. Turbaram-me as amarguras, e fui rudemente injusto. Aceitai-me a contradição no esquecimento de quanto disse.
— Filho, não precisas de mo pedir.
— Tudo se fará como mandardes. Abençoai-nos, a ela e a mim.
— Deus vos abençoe como eu vos abençoo.
— Com que fervor de alma vos agradeço! — disse, beijando-lhe a mão branca e trémula, que ela lhe poisara na cabeça, carinhosamente, abençoando-o — Completarei eu os vossos honestos escrúpulos. Serei doravante para Madalena um tímido requestador, exposto aos olhos do Mundo. Irei pedir a Afonso Eanes que dê guarida na sua casa, a expensas vossas, àquelas duas infortunadas mulheres.
— Excelente coisa seria e até eu própria lho peço. Em casa desse honrado homem do povo ficariam honestamente abrigadas.
— E seguramente defendidas, pois que não tem Lisboa plebeu de mais alto prestígio e de mais acatada autoridade entre a gente do seu sangue.
— Mas talvez seja sacrifício para ele e para elas. A casa de Afonso Eanes pareceu-me acanhada. D. Maria de Mendonça e a filha não poderiam viver lá nas condições em que foram criadas.
— Que remédio senão aceitá-la tal como é?
— Pois seja assim, filho. Vai dizer a D. Maria que lhe peço o favor de vir falar-me. Que traga consigo Madalena e que me desculpem de não ir eu ter com elas. Estou muito quebrada de forças e seria sacrifício ir lá. Mas, nem me lembrava! Madalena estava de cama, a arder em febre; não poderá vir.
— Pode. Já se levantou. Eu vi-a.
— Pois então vai. É preciso primeiro ouvi-las.
— Creio bem que nenhumas dúvidas hão de opor-vos. Entretanto, posso eu ir procurar Afonso Eanes para lhe fazer o pedido e trazer-vo-lo cá. E de caminho irei ter com o Mestre, a quem preciso de expor o que esta madrugada se passou.
— Oxalá que ele te perdoe a desgraça desse desvairado combate. Vai.
* * *
Ruy fez o pedido a D. Maria de Mendonça e a Madalena, e em poucas palavras de confidência as pôs ao facto do assunto, resumindo os escrúpulos de honestidade que impunham aquela resolução da mãe, e instando para que aceitassem confiadamente o novo abrigo que desejavam dar-lhes.
Prometeram-lho e foram ambas para os aposentos de D. Dulce. Ruy preparava-se para sair quando um criado veio dizer-lhe que o mestre tanoeiro Afonso Eanes tinha chegado e mandava pedir licença para lhe falar.
— Ainda bem. Que entre já. Acompanhai-o aqui.
O tanoeiro entrou.
— Benvindo sejais, senhor Afonso Eanes. Estava para vos ir procurar.
— Pois bom foi então que eu viesse e com boas notícias para vós.
— Boas notícias para mim?! Dizei-as.
— Logo de manhã cedo se soube na cidade do vosso combate com Antão de Mendonça e do ferimento mortal que vós lhe fizestes.
— Sabeis se morreu?
— Há coisa de duas horas ainda não tinha falecido.
O Mestre teve logo quem o fosse informar do caso e ficou muito assomado e em grande irritação contra vós. Listava eu presente e olhai que não foi pequena a minha surpresa! Protestava o Mestre que havia de pôr cobro às brigas que alarmavam a cidade e roubavam defensores à nossa causa, quando chegou aquele cavaleiro, alto como um pinheiro, forte e cabeludo como um toiro...
— Álvaro Gonçalves Coutinho o Magriço.
— Esse. Só por tal alcunha o conhecia. Percebi que o Mestre o havia em grande estimação e com ele se afastou a conversar muito irmãmente.
— Álvaro Coutinho foi meu padrinho no combate desta madrugada.
— E depois do combate ainda melhor padrinho, pois de tal arte falou com o Mestre, e tão dedicadamente por vós lhe contou as coisas, que logo as iras do senhor D. João de todo se acabaram. O próprio Mestre nos disse, a mim e aos da Casa dos Vinte e Quatro, que o Magriço lhe contara como as coisas se tinham passado e, pelo que dele ouvira, se julgava juiz do feito, como se ele próprio o tivesse presenciado, tanta era a fé que punha nas palavras daquele leal homem de bem, a quem chamou espelho de cavaleiros.
— E de valentes. Não se engana o Mestre. E depois?
— Declarou sua senhoria que por justificado vos dava daquele combate e com maior lustre para os vossos dotes de cavaleiro enamorado. Que pela vossa honra tínheis combatido leal e generosamente, e em mais alta conta vos passava a ter entre os destemidos e preclaros homens da nobreza do reino. Regalei-me de ouvir estas palavras justiceiras do Mestre, e logo me dispus a vir trazer-vo-las. E olhai que sem mira nas alvíssaras.
— Que vos eu dou já num abraço de profunda gratidão, honrado Afonso Eanes! E agora deixai que vos peça um grande favor.
— Mandai, senhor Ruy de Vasconcelos.
— Receio que seja coisa de sacrifício para vós!
— Seja o que for, meu ilustre cavaleiro.
— É também pedido da minha mãe.
— Bastaria que fosse vosso. Dizei francamente, e contai comigo para quanto for do vosso agrado e eu puder.
Ruy expôs-lhe os escrúpulos da mãe, a situação melindrosa das duas senhoras e o propósito em que estava de fazer de Madalena a sua esposa no dia em que a sua alma e a sua espada houvessem contribuído gloriosamente para a defesa da Pátria.
O tanoeiro ouviu-o comovidamente, mas não era difícil perceber-se-lhe uma certa expressão de enleio e de pesar.
— Por minha mãe e pela honrada memória do meu pai e senhor, que Deus tenha consigo, vos afirmo, senhor Afonso Eanes que a vossa casa não irei senão quando mo permitirdes e na vossa companhia há de ser. E ninguém com autoridade igual à vossa para explicar ao povo os meus leais intentos e para as defenderdes a elas dos ódios caluniadores da arraia-miúda. Que me dizeis, senhor Afonso Eanes?
— Que da minha casa podeis dispor como se a vossa fosse e que lá hão de ter amorável acolhimento essas damas que protegeis, e a mim para as servir e defender dedicadamente; mas sabeis que é uma casa acanhada de gente rústica em que hão de viver constrangidas e mal acomodadas senhoras, que em tão diferentes condições viveram e em opulentos palácios se criaram.
— Não digais tal, meu honrado amigo. Nas circunstâncias presentes, nenhum palácio de Lisboa valeria para abrigo dessas desventuradas damas o que vale a vossa honesta casa de caudilho do povo. É este o serviço de mais alto apreço que eu podia pedir-vos e que vós podeis prestar-me. Agradeço-vo-lo de toda a minha alma e aperto nas minhas essas mãos gloriosas de mesteiral, que tem sido uma das mais poderosas forças da revolução contra os traidores e contra as ambições do monarca de Castela.
E apertou-lhas com enternecida gratidão.
— Obrigado, meu valente cavaleiro. O caso está decidido pela minha parte. Na minha casa serão recebidas essas damas com as honras que merecem, qualquer que seja o nosso pesar pela rudeza e mesquinhez da hospedagem. Mas bem vedes que é dever meu ir dar conta disto ao Mestre, pois que para aqui vieram com a sua permissão.
— Certamente. As suas circunstâncias são excecionais. Daqui irei convosco e, depois de falardes ao Mestre, lhe irei eu apresentar as minhas desculpas pelo triste acontecimento desta madrugada.
— Fazei-me então um favor.
— Dizei.
— Guardai para depois a vossa ida ao paço de Apar S. Martinho. Eu vou já e cá virei com a resposta. A respeito do que houver, aqui falaremos à nossa vontade. Pode muito bem ser que depois tenhais de juntar às desculpas pelo combate desta madrugada os agradecimentos pela sua anuência e favor ao nosso propósito, que irá talvez além do que nós esperamos.
— Pois que assim o desejais, ide vós e aqui vos ficarei esperando.
— Não tardarei, se encontrar o Mestre, como creio. Até já, senhor Ruy de Vasconcelos.
— Deus vos traga depressa, meu grande amigo.
* * *
Ruy esteve esperando que D. Maria de Mendonça e Madalena saíssem dos aposentos de D. Dulce.
Não foi longa a demora. Voltaram de lá comovidas, olhos afogueados de chorar.
— Senhoras minhas — disse-lhes, indo ao seu encontro — pareceis mortificadas!
— Vossa mãe tem razão e foi generosa para nós — respondeu D. Maria — Foram de reconhecimento as lágrimas que nós chorámos. A mortificação vem do nosso infortúnio e já ia connosco para os aposentos da vossa mãe e senhora.
— Uma santa, uma generosa santa! — acudiu Madalena enternecidamente.
— Senhoras, a minha promessa não se quebrará nunca, por mais que a má fortuna se empenhe em nos separar. O meu braço, o meu esforço, a minha alma para vos defender e velar por vós. Fora desta casa, seja onde for, a não ser que a vida me falte ou a gloriosa causa da nossa terra me leve para longe de vós, serei o mais fervoroso mantenedor do vosso honesto nome. Por este noivado das nossas almas, Madalena, por ele será o santo direito e o maior dever de proteger-vos, enquanto por outro amor de santa origem, este que eu tenho à nossa terra, a minha lança e a minha espada não houverem conquistado direito de maior honra: o de chamar-vos minha esposa!
Madalena pôs toda a gratidão da sua alma no olhar acariciador, de angélica suavidade, com que buscou o olhar dele.
— Muito vos devemos, senhor Ruy de Vasconcelos — disse-lhe D. Maria de Mendonça — O mais que podíamos dever-vos! Com a vida, este generoso amparo em que a vossa honra de cavaleiro se empenha em defender a nossa. Podemos sair quando entenderdes que é tempo.
— Aguardo uma resposta e, se vier como espero, à noite será a saída.
— Como quiserdes — volveu, baixando-lhe a cabeça com uma grande expressão de afeto.
— Rui! — murmurou Madalena, ficando um pouco atrás da mãe.
E naquele nome tal intenção de amor, como se num monossílabo se pudesse resumir todo o poema de sonho de uma alma, que o jovem paladino lhe volveu perturbado, numa tremura de voz quase velada:
— Minha vida!
* * *
O Juiz do Povo, aquele tanoeiro épico, iniquamente apagado na História, chegou num alvoroço de júbilo.
— Boa nova, meu amigo e senhor! — disse do fundo da escada para Ruy de Vasconcelos, que da janela o tinha visto entrar — Um grande coração o do nosso Mestre! Bons olhos os seus para conhecerem homens e honrada consciência para os galardoar!
— Estou a perceber que vos acolheu bem o pedido?
— O melhor acolhimento que eu podia esperar! Mandou que fosse levantado o sequestro ao palácio do traidor e dele vos faz paga em prémio dos vossos serviços, para dele dispordes como quiserdes.
— É uma distinção gratíssima, que eu tenho no maior apreço, mas preferia que fosse restituído a essa pobre senhora, que nenhuma culpa tem da traição do marido.
— Pois restitui-lho vós, que lho podeis restituir e com esse intento vos dá o Mestre. Bem vedes que o povo miúdo não sabe distinguir certas coisas e não levaria a bem que se fizesse paga de exceção à filha de um renegado de tão vilíssimo feito, tendo sido confiscados ou transferidos para a posse dos fidalgos leais os bens dos outros traidores de menos afronta para nós. Assim, por paga do prémio aos vossos assinalados serviços, o povo achará justa a resolução do Mestre, pois que toda a gente sabe como tendes exposto a vida na defesa da nossa terra. É preciso que o povo não tenha nunca a sombra sequer de uma suspeita a respeito do ânimo leal e justiceiro do Mestre. No dia em que a tivesse, a nossa causa estaria perdida, pois que valem muitíssimo as lanças dos cavaleiros leais, que são poucos, mas nada podem sem as bestas e as chuças do povoléu, que é a nossa força maior.
— Acertadamente falais como sempre, senhor Afonso Eanes. Farei a restituição desse palácio, que por nenhum preço quereria para mim, e será ele para a minha noiva, o primeiro quinhão do seu dote. Antes, porém, que o vá agradecer ao Mestre, a vós o agradeço, meu honrado amigo.
— O vosso ânimo o ganhou; agradecereis a quem vos fez valer.
— Vós.
— Eu quase entrei nisso como Pilatos no Credo.
— Estou a perceber como as coisas se passaram. Falastes vós da paga com pedidos de quem pede um alto favor para si. Não nego que o Mestre se inclinasse benevolamente ao meu respeito; mas o que eu sei é que não podia esquecer-se de quem era o homem que lhe fazia o pedido. Quem pôs o Mestre à frente do povo fostes vós e quem levou o povo para uma cega e devota obediência ao Mestre foram as vossas palavras e a resolução do vosso ânimo naquelas cortes do alpendre de S. Domingos, em que houve um só brado poderoso — o do povo, movido por vós (*).
[(*) As antigas cortes constituíam-se com os representantes do Clero, da Nobreza e do Povo. Eram os três braços, ou os três Estados da Nação. Nas primeiras cortes da monarquia só o Clero e a Nobreza tinham representação. Levou mais de um século a conquista da representação popular, por intermédio dos procuradores dos concelhos (municípios), organizados no reinado de D. Afonso III. Foi em Leiria que pela primeira vez se reuniram cortes com os eleitos do Povo — O terceiro estado (1254).]
— Não posso, nem desejo passar de mestre tanoeiro que não quis nem quer ser vassalo de el-rei de Castela. O mais é favor vosso de amigo, que muito vos agradeço.
— A revolução fizeste-la vós, condestável do povo, como ele próprio vos chama.
— Dizeres de pessoas da minha condição — volveu-lhe modestamente — O que importa agora, senhor Ruy de Vasconcelos, é que me digais quando essas damas saem, pois desejo-as acompanhar e dispor as coisas para que fiquem lá defendidas de qualquer arremesso da arraia-miúda.
— À noite parece-me melhor.
— À noite o quê? — perguntou D. Dulce, que, momentos antes, chegara à porta.
Foi para ela o filho amoravelmente e deu-lhe conta da concessão do Mestre, obtida pelo tanoeiro.
— Contai-me por isso entre as pessoas que mais do coração vos agradecem — disse-lhe D. Dulce com extremada amabilidade — Entendo que D. Maria de Mendonça e a filha devem sair daqui, não de noite como quem foge para mudar de abrigo a ocultas, mas à luz do dia como quem volta honestamente à posse do seu lar. Protegidas por ti, Ruy, acompanhadas por mim, e pelas pessoas da minha confiança que eu ponho ao seu serviço.
— Mãe e senhora! — disse-lhe o filho comovidamente.
— Agora tenho razões especiais para desejar que assim se faça. Deu-mas há pouco a tua noiva na dor com que me supôs afrontada pelos seus amores por ti. É preciso que todos saibam porque elas saem, para onde vão e quais honestos escrúpulos as levam daqui. Ninguém ousará supor que vão expulsas desta casa, porque hei de ir eu acompanhar a prometida noiva do meu filho.
— Mãe, a santa que sois!
— A mãe que eu sempre fui é que é.
E no seu alvoroço de surpresa, mal podia Ruy de Vasconcelos adivinhar que palavras simples e que lágrimas adoráveis de Madalena tinham sugerido ao coração da austera fidalga aquele requinte de amorável generosidade. A informação a respeito da gratidão do Mestre de Avis mais ainda lhe engrandecera e afervorara o bendito propósito.
— Vai agora dar-lhes a boa nova.
— Se me dais licença, madrinha e senhora minha... — disse o tanoeiro, despedindo-se.
— Como quiserdes, e cada vez mais vossa esta casa.
— Senhora, é honra e favor para se não esquecer nunca! Agora, senhor Ruy de Vasconcelos, se fordes ter com o Mestre...
— Lá irei dentro em pouco.
— Então com ele nos encontraremos e lá me direis a hora a que vão, para eu vos esperar no palácio das Portas da Cruz (*).
[(*) Aquelas portas eram das muralhas novas da cidade, abaixo do Postigo do Arcebispo e a curta distância do Tejo. A designação das portas valia apenas uma referência de local em relação às antigas edificações que lhe ficavam na vizinhança.]
— Mãe e senhora, o vosso afilhado tinha tido a intenção de nos acompanhar, mas agora, como sabe que vós ides também...
— Pois por eu ir lhe peço que nos acompanhe. Homem assim leal e honrado, será bom que o veja o povo com essas damas e muito me apraz tê-lo ao meu lado. Não tendes porque me agradecer — disse, voltando-se para ele — De sangue real é o Mestre e não tem amigo maior do que vós nem quem mais o honre. Demorai-vos um instante, afilhado. Ruy, vai dar-lhe a notícia, e vem cá dizer ao senhor Juiz do Povo a que hora havemos de sair.
Ruy foi logo para os aposentos de D. Maria de Mendonça. D. Dulce ficou falando com o glorioso mecânico.
— É a verdade conhecida por todos — dizia-lhe ela, continuando a conversa a respeito dos altos serviços do tanoeiro ao bastardo do rei justiceiro e de Teresa Lourenço — O povo tanto vos quer a vós como ao próprio Mestre.
— Talvez por sermos ambos mestres, madrinha e senhora minha — volveu-lhe Afonso Eanes neste gracejo de homem modesto — Mas a grandíssima diferença está em que a sua senhoria é Mestre dos cavaleiros da Ordem de S. Bento de Avis, e eu dos aprendizes de tanoeiro da minha loja.
Ruy voltou.
— Não queriam marcar hora; que a marcásseis vós, mãe e senhora. Afinal com elas combinei que fosse de tarde, para evitar a torreira do sol. Vós estais de acordo?
— Estou. Não vos quero demorar mais, senhor Afonso Eanes, e aqui vos esperaremos.
— Aqui terei a honra de vir procurar-vos, madrinha e senhora minha.
Ia o prestigioso tanoeiro a sair, quando D. Maria de Mendonça entrava com a filha.
— Senhor Afonso Eanes, Deus dê a vossa mulher e aos vossos filhos a paga do benefício com que nos ajudastes.
— Senhora, eu não fiz mais do que lembrar um caso de justiça, assim como quem dá um recado.
— Já sabemos como foi — respondeu — e porque o soubemos, para sempre nos havemos de lembrar de vós agradecidamente. Para vós, D. Dulce, para vós só de joelhos — disse comovidamente, indo para ela.
— Assim, beijando-vos a mão protetora de santa, como vosso filho vos chama — disse-lhe Madalena com adorável meiguice, beijando-lhe a mão a chorar.
D. Dulce inclinou-se para ela e beijou-a.
Foi um beijo misericordioso que o jovem paladino sentiu no coração.
* * *
Pelas quatro horas saíam para o velho palácio dos Mendonças.
Na frente, Ruy de Vasconcelos dando a direita à sua futura noiva; a seguir, entre D. Dulce à direita e o Juiz do Povo à esquerda, a esposa do renegado que traiu a Pátria.
A larga distância duas antigas criadas e um criado velho de D. Dulce, que iam provisoriamente para o serviço de D. Maria de Mendonça.
— Vou com saudades da tua casa; é linda e alegre; estavas lá tu! — ia dizendo Madalena ao noivo num fiozito de voz — A minha é muito antiga. Tem salas aonde eu nunca fui!
— Para mim há de ser como um palácio de encantamentos porque lá estarás tu, Madalena!
— Dizem que foi a casa de um mouro de grandes riquezas quando aquele sítio ficava muito fora da cidade!
— Conheço essa tradição. Conta-se que foi sobre as ruínas da casa sarracena que se edificou o paço dos teus avoengos, vai para trezentos anos.
— À noite faz-me pavor! Em pequena tinha sonhos de pesadelo! Via mouros que me levavam por um caminho debaixo do chão! Eram sonhos por causa dos contos de mouros penados e de mouras encantadas, que uma criada velha do meu pai me dizia aos serões.
— Agora a encantada será uma linda rapariga cristã — gracejou — Há de ir certo cavaleiro, que nós conhecemos, quebrar-lhe um dia o encanto para a tornar sua esposa.
— Deus ajude esse cavaleiro — volveu, sorrindo.
— O pior é que o pobre cavaleiro tem o dever de honra de não entrar lá senão de companhia, enquanto o encantamento se não tiver quebrado. E nem sequer lhe será dado beijar — disse muito baixo, num murmúrio de voz — a dama que perdidamente adora!
— As almas noivas sempre se encontram aonde o sonho as leva — respondeu-lhe num fio de voz que tremia e numa doçura de olhar que estonteava.
E, toda afogueada, acrescentou num ciciar de palavras, que só ele podia ouvir:
— Os beijos voam das janelas como as borboletas; pousam onde querem pousar como elas.
— Encontram-se como as pombas no ar.
Tinham chegado. Era realmente um edifício velhíssimo, de torvo aspeto, em que uns lanços e vestígios de construção moura contrastavam com a pesada arquitetura da reconstrução, que vinha já dos meados do século XIII.
Um homem da confiança de Afonso Eanes abriu o portão chapeado, de grandes argolões de bronze.
Vários curiosos, que de longe tinham acompanhado aquela gente fidalga, farejando caso singular, pararam em frente do portão, dali a pouco cerrado para eles.
— A mulher e a filha de um dos maiores traidores que tem tido Portugal! — comentava uma mulher idosa.
— Conheço-as como aos dedos das minhas mãos.
— O que admira é que o Mestre todo se torça por elas!
— Ora, o Juiz do Povo está na mesma! Olhai como ele ia todo ancho ao pé da abelha-mestra!
— E o galo pimpão, ao lado da rapariga, com a asa de rastos!
— Eu já ouvi que é por causa dele, que é leal à nossa terra e tem febras de seiscentos demos, que é só por causa dele, cavaleiro destemido, que o Mestre e Afonso Eanes dão amparo àquelas desgarradas.
— E tal amparo, que até lhe fazem restituição daquele paço!
— Afonso Eanes já me contou como o caso tinha sido. O paço foi dado ao rapaz em prémio dos seus feitos, e vai ele deu-o àquela carinha de anjo com quem tem o casamento tratado.
— Sim, sim! — acudiu o nosso conhecido sapateiro Bernardo, maliciosamente, pondo num assobio o comentário gaiato do caso — Noivos de avença, será por causa da avença que os mudam de casa!
— Não estejais a pôr maldade em coisa de que nada sabeis! — repreendeu o que se ufanava de viver na intimidade do Juiz do Povo — Afonso Eanes tudo me contou pelos miúdos. Aquela menina sai de casa de D. Dulce para não dar que falar às ruins línguas badaleiras como a vossa. E o jovem cavaleiro prometeu não entrar nunca sozinho naquela casa.
— Ora, de noite até nos conventos de freiras têm entrado!
— Os vaganaus como vós sois... Mas o filho de D. Dulce não se compara.
— Se é por ser fidalgo que se não compara — recalcitrou o casmurro maldizente — podeis limpar a mão à parede pelo remoque. Tomara eu tantas libras de ouro inglês como deles podiam trazer no gorro o enfeite de Lourenço da Cunha, primeiro marido da rainha boneja, e como delas deviam de encobrir o rosto com o véu açafroado.
— Não tenho nada com esses dizeres. Falo de um jovem, que é um dos mais destemidos da nobreza leal e a quem na sua honra ninguém tem nada que abocanhar.
— Mas olhai lá — interveio uma mulher nova — Então o Mestre há de dar licença para esse belo cavaleiro casar com a filha de um tredo de má alma, bem que ela tenha o mais lindo palminho de cara que eu ainda vi em Lisboa?!
— Dará, pois que a filha não tem culpa da vileza do pai, como o senhor Nuno Álvares não tem culpa da traição dos irmãos, bandeados por Castela. E para além disso, contou-me o nosso Juiz que Ruy de Vasconcelos fez voto de não pedir licença ao Mestre para casar, senão depois de ter praticado um grande feito em campo de batalha. Não sei se entendeis bem?
— Não lá muito bem! — acudiu o refilão de má língua, o famoso Bernardo Pingueiro.
— Pois não tem muito que perceber. Com o seu feito em serviço da nossa terra fará ele o dote maior da noiva, para que o povo lhe não leve em mal a ela a infamação do pai.
— Isso vos terá dito Afonso Eanes — retorquiu-lhe o Bernardo — pois que do vosso bestunto não sairia sem ajuda, ainda que estivésseis dez anos a discorrer.
— Sois um asno chapado — replicou-lhe o outro a embespinhar-se, voltando-lhe as costas de repente — Ora a seca do tolo! — disse para as mulheres — Eu sei tudo. Levou meia hora a contar-mo o nosso honrado Afonso Eanes. O voto do rapaz foi tal como vos disse. E ainda sei mais. Formou-se aí uma companhia de fidalgos jovens, de sangue na guelra, e logo aclamaram rainha das belas aquela noiva.
— E para que é essa companhia? — perguntou uma rapariga.
— Para batalhar pela nossa terra e para morrer pelos seus amores. Foi o voto que fizeram.
— Toma Tomé, que vais para Sé! — comentou uma velha chocarreira.
— Para conquistarem glórias e corações — acrescentou o informador.
— Corações! — repetiu a rapariga ingenuamente.
— Não te fies em cantigas, rapariga — disse-lhe o Bernardo, fazendo-lhe tagatés — Hão de ser galos doidos, de crista emproada e esporões dourados. Pobres das franganotas perseguidas por eles, sempre com a asa de rojo!
— Irra, que é burro teimoso! — rouquejou, insultante, o amigo de Afonso Eanes, afastando-se.
— Pois sim, mas cá os da nossa condição — disse a rapariga — é que não são capazes de idearem essas coisas!
— Não te desconsoles, pequena — volveu-lhe o tunante com ademanes cómicos — Arranjo eu também uma hoste de andorinhões, de capa rota, com votos de amor, e pela minha fé que te aclamarei rainha das moreninhas da Alfama.
— Vá, esteja quieto!
— E mesmo nas desavergonhadas barbas dos castelões, com chuça e escudo, te aclamaria eu pela minha dama.
— Arreda! Ora o demo do escariote rucilho e sem dentes! — gritou-lhe entre ofendida e escarninha.
Mas com os mesmos ares cómicos, de mão na cintura, o chocarreiro prosseguiu:
— Senhora D. Ausenda, troveiro sou para vos cantar e cavaleiro de ida para mandar os meus arautos à ponte levadiça do vosso castelo do Beco das Galinheiras, no grão-condado da Alfama, a fim de reptarem vossos adoradores, a um por um ou às parelhas, para liça de campo aberto ou estacada. Pero se jueren hombres de Castilla, caracoles! Que ni Dios vendrá por ellos.
Riram perdidamente e até a própria rapariga riu dos gatimanhos e do mascavado castelhano do farsista.
— Schiu! — avisou um mesteiral — Aí vem Afonso Eanes.
— Viva o Juiz do Povo! — clamaram dezenas de vozes.
— Vinde comigo — disse-lhes Afonso Eanes — Parece de ofensa este juntamento de gente pasmada diante daquele paço, que desde hoje deixou de ser o solar de um fidalgo traidor, para se tornar pertença e galardão de um jovem cavaleiro a quem o Mestre honra e estima como quem é, pelo muito que vale! Eu vos afianço; e, se preciso fosse, o defenderia contra quem quer que para ele arremetesse. Vinde.
— Para aonde quiserdes.
— Para aonde mandardes.
— Como se o Mestre fosse.
— Mais ainda, porque sois mais nosso.
— O Condestabre da arraia-miúda.
E lá foram de roldão atrás do prestigioso tanoeiro, que era uma das mais soberbas figuras daquele extraordinário período da História portuguesa.