A Ala dos Namorados
Capítulo V · Ao Encontro dos Invasores
No dia seguinte de madrugada a hoste real arrasou as tranqueiras do acampamento, levantou as tendas e pôs se a caminho para ir ficar a Valada.
A uma légua de Alenquer afastou-se Diogo Machado, tomando para a Beira com cartas e recados do Rei para os fidalgos que tinham vencido a batalha de Trancoso. Instava com eles D. João para que não tardassem a juntar-se ao exército real com a sua melhor gente de armas, visto que, sozinhos e entregues ás suas forças, lhes não seria possível rebater o poder do rei castelhano.
Uma alegre marcha aquela até Valada.
O Rei ia conversando com o Marechal e os seus conselheiros mais chegados, a respeito das forças que lhe seria possível reunir numa batalha campal.
— Para chegar a seis mil e quinhentos ou sete mil, que fossem realmente homens de armas, seria preciso que o Condestável viesse do Alentejo com mais de três mil. Com a farrapagem auxiliar, dois ou três mil homens mal armados, não poderei contar muito para as primeiras arrancadas de uma batalha.
A larga distância para a frente do Rei, os cabecinhas de vento dos Namorados iam devaneando delícias e pedindo contos de cavalaria novelesca ao velho Montferrat, que parecia remoçado ao pé dos rapazes e com eles se comprazia, sempre caloroso palrador como bom e legítimo gascão.
Os fantasistas morriam pelo ouvir e Montferrat tinha histórias para vinte jornadas de sol a sol.
Contou-lhes as lendas dos cavaleiros do rei Artur, o rei louro do país de Gales, que vivera havia mais de oito séculos e fora o conquistador da Escócia, da Irlanda, das Orcadias, da Jutlândia, da Dinamarca, da Noruega e da Islândia.
E lá ia explicando aos mais novatos como a princípio a ordem da Távola Redonda apenas tinha doze cavaleiros, que se reuniam em volta de uma távola ou mesa redonda, com fraternal igualdade.
— Muito se ufanam os de Inglaterra por esta remota e famosa cavalaria, bem que muita coisa de fábula e de invenção novelesca ande ao de cima de algum fundo de verdade.
— Pois, senhor João de Montferrat — disse lhe o Magriço — ficai sabendo que estou com as minhas cócegas de arranjar uma Ordem-assim, e doze bastavam. Mas isso há de ser, se for, lá para quando os castelãos voltarem à sua terra com os trons encravados e a gorja entupida. Doze de Portugal por pano de amostra e para que lá na Inglaterra vissem que também de cavalarias algo entendemos.
— Não precisais de outra amostra melhor — volveu lhe o gascão — do que esta vossa Ala dos Namorados. Tão linda coisa, que até parece tirada de algum romance que nunca ninguém tivesse lido!
— E a tal da Távola Redonda — perguntou um dos mais jovens, — não deixou fama de amores e de belas enamoradas?
— Se deixou! Quantas naqueles tempos em que as feiticeiras eram lindas e faziam encantamentos como Viviana e Morgana, e as princesas eram de sonho como Branca Flor e Grisélia!
Vamos nós agora ouvir o que diz a arraia miúda da hoste.
Os que não traziam armamento regular e, quando muito, uma antiga coura de sola sobre a trapagem, e estes eram, ainda assim os mais distintos, vinham na cauda do pequenino exército, na reguarda como se dizia na tecnologia militar daquela época. E atrás deles o mulherio de aventura, apesar de todas as proibições e de todas as severidades, principalmente quando estava presente o austero Condestável. Em Portugal como em Castela e em outros países, e ainda, com muito maior desaforo, nas campanhas dos primeiros anos do século passado.
Mas ali não vinham só aventureiras, senão também mães para acompanhar de perto os filhos juvenis e esposas de mais ânimo para acudir aos maridos, pois que os exércitos daquele tempo não tinham organizados os serviços de socorro aos feridos. E entre elas, algumas que tinham sido da hoste da tia Lourença no último cerco de Lisboa.
E quem animava o diálogo, dando-lhe o relevo dos seus chistes, era o Bernardo Pingueiro, aquele sapateiro tunante, já muito nosso conhecido.
Vinha delicioso. Um saio constelado de remendos, umas calças de bifa (1*) a esfiamparem-se-lhe; à cinta um longo espeto, a que ele chamava o seu estoque, e na cabeça, muito caído para a nuca, um capelo ferrugento, que tinha apanhado em Lisboa na “feira das ladras”. (2*).
[(*) 1 - Tecido de lá. 2 – “A feira de Lisboa” chamada assim até ao tempo de D. Afonso II, depois “feira das ladras”, e no decorrer do tempo “feira da ladra” como hoje é conhecida a famosa feira de velharias.]
E os seus olhos, cada vez mais piscos, a enviesarem-se-lhe para o nariz, cada vez mais rubro.
Tinha uns rijos cinquenta anos, apesar de batidos por trinta e cinco de formidáveis bebedeiras.
Era a mais extraordinária figura da Ala dos rotos.
Iam a rodear uma encosta, quando veio ordem para meia hora de descanso. Pararam e ficaram em grupos, à vontade. O Bernardo começou então a implicar com as mulheres para gáudio dos seus companheiros e colegas.
— Oh mulheres! — suspirou o chocarreiro. — Olhai como vou com pena de vós.
— Ora essa! Pena de quê?
— De ainda vos ver de joelhos a rezar à senhora Santa Bárbara, mal julgardes que sejam de trovoada os roncos desses trons que os castelões trazem consigo! Rezar? Isso rezais vós! Há de parecer que tendes azas nos pés, e lá nos deixareis onde quer que for!
Os homens riam; elas é que não gostavam do gracejo.
Animado pelo riso dos companheiros, o Bernardo insistiu.
— Eles de lá a largarem o pum dos trons, e vós de cá, mais amarelitas que os círios, ah! Pernas para que vos quero, numa chiadeira de ratas, a chamardes pelo Juiz do Povo, que vos acuda.
— Eh! Eh! Calai vos aí, que sois sempre o mesmo, remendão de uma figa!
— Ora, deixai o lá. Não se faz caso. Toda a gente sabe quem é o Bernardo Pingueiro.
— Quem foi, é que deveis dizer. Para continuar a ser pingueiro faltou-lhe a pingo, dês que os malditos castelões arrasaram as lindas vinhas que tinha Lisboa e o seu termo.
— Por isso aqui vindes no fingimento de irdes para a guerra.
— Ao cheiro das vindimas é que ele vem — acudiu outra.
— E mais do vinho velho das adegas beiroas — lembrou uma terceira.
— O mais deslavado sapateiro que ainda teve a confraria de S. Chrispim!
— O Bernardo das momices!
— Ai, compadre, — disse-lhe um colega — boa a fizestes! Assanhastes o vespeiro, e olhai que já vos não largam.
E o marau do sapateiro num riso sorna de cético:
— Deixai-as lá chiar. De língua venceriam elas o poder todo do rei de Castela e mais do rei de França e mais do xarife mouro de Marrocos. »
— Calai-vos lá, truão de uma figa! — clamou uma das mais abespinhadas.
E ele, baixo para o compadre, num piscar de olhos malicioso:
— Ides ver o vespeiro ainda mais assanhado.
E logo alto no seu tom de galhofa:
— Pois ficai sabendo que o Bernardo Pingueiro deu em Bernardo Batalhador, e heis de ver-lhe a galhardia, quando os trona dos castelões se largarem a arrotar o fogo que trazem no bucho. Heis de ver-me, — acrescentou comicamente, floreando o espeto no ar — eu vos juro, assim, a esbarrigar castelões com este meu estoque de Condestabre dos sapateiros. Dou um furo no rei castelão, se adregar topai-o a jeito.
— Eh! Lá! — exclamou uma delas. Poucas brincadeiras com o demo do espeto!
— Oh criaturas frágeis! Tudo vos assusta e a isto vos aventurais! A vós, cachopas e donas de mantéu de estopa, a vós é que ninguém, nem eu, nem mesmo o senhor S. Jorge, nem mesmo o Santiago de Castela, a vós ninguém vos há de pôr os olhos em riba, assim que eles e nós começarmos, zás, paz, arreda que te espeto, e os bacinetes a toarem que nem caldeiras velhas, e as lanças bumba, e as espadas traz, traz, traz, e os trons bum! Bum! Bum! E os virotes a zunirem pelo ar e os homens a caírem aos cachos e a regueirada do sangue a referver na terra como o vinho mosto nas cubas! Filhas da nossa mãe Eva, costeletas do pai Adão… que ninguém mais vos torna a ver a sombra, porque heis de então fugir como galgas. Que digo eu? Como lebres é que há de ser.
Foi medonho o berreiro de indignação do mulherio contra o Bernardo.
E o descarado a rir perdidamente.
— Se as palavras fossem frechas, estas mulheres dos meus pecados seriam piores que os frecheiros ingleses. Pois aquietai vos lá, que vou fazer-vos um grande favor. Povo! — aclamou para os homens com solenidade grotesca. Sabei que muito me apraz nomear mais uma ala nesta nossa hoste, e essa nova ala proponho que vá atrás da outra dos Namorados e desta nossa, chamada dos rotos. Esta agora, pelo seu ânimo e leveza de pés, será chamada a ala das lebres.
E apontou com gesto soberano para os grupos de mulheres.
Ora! Foi desafio para nova arremetida de palavras deprimidoras e pretexto para uma galhofa doida da parte dos homens.
Veio ordem do Marechal para continuar a marcha. Foram seguindo e, quando já estavam à vista de Valada, receberam prevenção para avançar precavidos contra qualquer investida de surpresa da gente castelhana que guarnecia Santarém.
* * *
Foi noite mal dormida aquela no acampamento de Valada.
Dali seguiram, passando o rio a vau. Estiveram nas cercanias de Santarém a ver se os castelhanos se saíam com alguma arremetida; mas eles fizeram se desentendidos, e a hoste avançou então para a herdade de Ruy Pereira, onde acampou.
No dia imediato marchou até à Torre da Cardiga e ao outro foi ficar em Abrantes. Era excelente posição para guardar o caminho da fronteira a Lisboa e dali retirar pelo vale do Tejo ou tomar rapidamente para o vale do Mondego, se a invasão fosse realmente pela Beira Alta. Demais a mais, correra o boato de que o príncipe D. Carlos de Navarra invadiria também Portugal com uma hoste sua, mas não se sabia ainda por qual ponto da fronteira.
Dias depois chegava da Beira um escudeiro com informações graves para El-Rei. Era aquele mesmo Afonso Rodrigues Baticela, que levara a Lisboa a notícia da batalha de Trancoso. D. João I recebeu o em audiência confidencial.
O rei de Castela entrara com formidável poder, assolando tudo a ferro e fogo. Tomara o castelo de Celorico e mandara deitar fogo a igrejinha de S. Marcos, junto da qual o povo do Arcebispo de Toledo tinham sido desbaratadas no mês anterior.
Saqueavam e punham em cinzas as povoações, profanavam os templos, faziam crueldades hediondas, de atrocíssima selvageria, violando mulheres, a quem depois cortavam a língua, decepando as mãos ás criancitas e aos velhos inermes!
— Senhor — informou ainda o escudeiro — e tudo isto fazem com desalmada fúria, dizendo que é para lhes pagarmos nós o que eles sofreram no cerco de Lisboa e para ajustar as contas de sangue da derrota que tiveram nos Atoleiros, e mais das ações que perderam no Minho e, ainda mais, do desbarato de Trancoso e, do desaire do cerco de Elvas, em que Gil Fernandes os deixou escarmentados! Vão por aquelas ribeiras do Mondego abaixo em ferocidades de lobos danados!
— Nós tomaremos o passo a essa alcateia! — disse D. João I de rosto avincado. Nenhuma resistência lhes puderam então opor os homes da Beira?
— Senhor, em campo aberto seria impossível tomar-lhes o passo com três centos de lanças, se tantas, e os lavradores bisonhos e mal armados, que lá se podiam juntar. Vinte vezes mais lanças trazem eles, segundo confessam, e tanta cavalaria e peonagem de boas armas, que nem todos os homens da Beira reunidos poderiam ter mão neles.
— Foram sobre Viseu?
— Senhor, dela não quiseram agora saber e lá seguiram numa arrancada de toiros bravios!
— Para aonde?
— A um, que os lavradores apanharam estropeado o obrigámos nós a falar, e esse disse que iam sobre Coimbra, para de lá vos irem desfazer o trono em Lisboa.
— Nós lhes iremos pôr embargos no caminho. E esse castelhano não disse ao certo que pessoas trazia a hoste real?
— Disse que não seriam menos de seis mil lanças, muitos ginetes à mourisca, cavaleiros e escudeiros de Gasconha e do Bearne não menos de dois ou três mil, e peonagem tanta, que acima seria de vinte mil, afora a gente das grandes bagagens que traziam, que essa vem também armada e andará por dez ou doze mil homens. Se o prisioneiro nos não mentiu, el-rei de Castela vem apercebido para grande demora e com aprestos para se aclamar em Lisboa.
— Para se aclamar! Que aprestos?
— A coroa, o manto e o antigo cetro dos reis castelhanos.
— Isso havia de ser embuste do prisioneiro para mostrar que de tudo vos informava. Provavelmente lhe tinham metido medo?
— Ameaçaram-no de tortura até morrer, se não dissesse tudo quanto sabia, e que em segura prisão seria guardado até se averiguarem as verdades ou as mentiras que tivesse dito.
Com o mento fincado sobre os punhos cerrados, El-Rei ficou por instantes emudecido, de olhar baixo como se estivesse a pensar. Assim uns instantes apenas. Sacudiu os ombros de repente e ergueu a cabeça num movimento de firme altivez.
— Nada informou o prisioneiro acerca de certos engenhos novos de guerra, que el-rei de Castela mandara fazer para cá vir?
— Senhor, informou. Disse que eram grandes engenhos, todos de ferro, e que dentro de cada um. Cabiam bolas de pedra que os pulsos de um homem possante mal poderiam erguer do chão. Disse que em Toledo tinham experimentado um deles, metendo-lhe dentro uma saca de lã, cheia de certos grandes negros que dão fogo com tal violência, que tudo atiram adiante de si, mais longe que o virotão da melhor besta, fazendo estrondo como de trovão e tamanha fumaceira como se fosse de uma meda a arder! Um dos dezasseis que eles trazem, o tal que foi experimentado, conta o prisioneiro que deitou a mais de quinhentos passos uma pesada bola de pedra, que foi derrubar um muro da altura de dois homens. E aquilo num abrir e fechar de olhos!
D. João refletia de testa enrugada e maxilares cerrados. Agora não se tratava já de um simples boato de que seria fácil mofar; agora afirmava-se um facto com pormenores que podiam ser de esmorecimento.
Levantou se e perguntou-lhe sacudidamente:
— Escudeiro, a alguém da minha hoste contastes já isso que me tendes dito?
— Senhor... Perdoai... Não sabia! — tartamudeou perturbado.
— Respondei claro. A alguém o contastes?
— Senhor, a um grande amigo que aí tenho algumas coisas disse por alto, mas logo lhe pedi que de tal não falasse a ninguém enquanto vossa real senhoria não o soubesse.
— Quem é esse vosso amigo?
— Senhor, ao jovem cavaleiro Ruy de Vasconcelos foi que eu o disse.
— Não está mal parado o segredo. Mas daqui ireis já procurar esse vosso confidente para, em particular e no meu nome, lhe dizerdes que, pelo bem da nossa causa, a ninguém deve confiar o que vós lhe contastes, senão depois que houvermos batalha com os de Castela.
— Senhor, sim.
— Nem ele, nem vós, como se nada soubésseis. E se por algum alvissareiro vierem informações iguais, heis de vós nega-las, que assim vos mando e assim é bem que seja. Ide depressa.
O Baticela dobrou o joelho e beijou-lhe a mão, ainda afogueado e numa perturbação que lhe não era fácil disfarçar.
* * *
El Rei mandou logo convocar os homens do seu conselho distado para dali a uma hora.
Efetivamente, no prazo marcado ali estavam todos com ele na sala nobre da sua pousada, num dos mais antigos e enobreci dos solares de Abrantes.
El Rei apresentou a questão da defesa do país, que foi calorosamente discutida. Os pareceres dividiam-se quanto à parte estratégica e, especialmente, no tocante ao que hoje chamaríamos o teatro das operações. Uns entendiam que em Lisboa se deviam concentrar as forças principais do reino e ali águardar que chegassem os prometidos socorros de Inglaterra. Outros eram de opinião que se fosse cortar a retirada aos invasores, caindo lhes de improviso pela retaguarda.
Outro era o propósito d’el-rei. Ao primeiro parecer o rejeitava agora, quase com remorso, pois que por causa dele o Condestável partira para o Alentejo com manifesta mágoa e mal disposto de ânimo. Agora estava D. João I pelo voto de Nuno Álvares, e sentia bem a razão com que ele se opusera aquele alvitre da defesa concentrada em Lisboa, à espera dos socorros de Inglaterra. Todas as informações recebidas deixavam perceber que chegariam demasiado tarde e ao atar das feridas, como o Condestável dissera no tempestuoso conselho de guerra que se reunira em Alem quer. Tendo por muito falível e de aventuroso perigo o segundo parecer, El Rei expôs abertamente a resolução em que estava. Mandaria dizer ao Condestável que viesse juntar se lhe com a sua hoste, e marcharia com todas as forças reunidas a tomar o passo ao rei de Castela.
A alguns se afigurou demasiado audacioso este plano, e mais não sabiam ainda ao certo, como El Rei, que formidável poder trazia o monarca invasor; o Dr. Gil Docem interveio na discussão com sólidos argumentos e dominadora eloquência, e logo transigiram os mais aferrados ao plano de uma defesa circunscrita ás muralhas de Lisboa.
Sorridente, num consolo íntimo por aquela vitória do seu projeto, El Rei logo ali confiou a João Afonso de Santarém, um dos membros daquele conselho, a missão de partir imediatamente para o Alentejo a dizer ao Condestável que viesse sem detença com os seus homens de armas, e juntos iriam ao encontro dos castelhanos, pela forma que em conselho se combinasse.
O Santarém pouca demora teve, e voltou cedo. Com a resposta é que ele não parecia vir satisfeito.
A primeira pessoa que encontrou em Abrantes com quem pudesse abrir-se desafogadamente foi o octogenário Diogo Lopes Pacheco e com ele se entendeu antes de ir falar a El Rei.
— Venho desconsolado com a resposta de Nuno Álvares!
— Não quer vir juntar-se à hoste real?!
— Coisa pior é o que ele tem no sentido! Encontrei o assomadiço e muito contra nós, os do conselho d’el-rei, mormente contra aqueles que deram voto para que em Lisboa se fossem esperar os auxílios de Inglaterra, ou a passo e passo nos fôssemos defendendo do poder invasor, sem arriscar batalha.
— Mas agora, que El-Rei está determinado a ir tomar o caminho ao povo de Castela, parece que Nuno Álvares tinha motivo para ficar satisfeito com o recado que lhe levastes!
— Pois respondeu-me altivamente, e a todos os do conselho os jogou o seu remoque. O recado é de tal sobrançaria, que não o quero eu dizer El-Rei, tal como ele mo deu. Foi assim, e deste modo se mandou pôr por escrita para eu o ter de cor, sem nenhuma diferença de palavras, que lhe alterasse o sentido: Dizei a El-Rei, meu senhor, que eu não sou homem de muitos conselhos, e pois que já uma vez esteve resolvido entre ele e eu que se não deixasse passar el rei de Castela e lhe dessemos batalha, não estou disposto a mudar de propósito nem a dar um passo atrás, por mais conselhos que lhe lá deem e por maiores que sejam as arengas dos doutores que traz consigo». Mas dizei-lhe também que lhe peço o favor de me deixar ir sozinho dar batalha aos de Castela com estes poucos e bons portugueses que tenho comigo Todavia, se a sua real senhoria quiser ir juntar-se comigo, sem perder tempo a ouvir conselhos, que de tal me avise e em tomar, para onde vou partir, o águardarei coma minha hoste.» Vede agora se eu devo dar este recado assim a El-Rei!
— Certo não deveis. Qualquer esfriamento da boa amizade entre El-Rei e o Condestável seria agora de grande mal para a nação. Nem a hoste real pode dar batalha ao poder que se diz trazer el-rei de Castela, sem levar consigo a gente de Nuno Álvares, e ele a valer mais do que todos os seus homens de guerra, pois, sobre ser o primeiro deste nosso tempo que venceu batalha campal aos castelhanos, é também o português que tem agora nas Espanhas mais alta fama e mais temor infunde aos nossos inimigos.
— Assim é, e bem o sabemos todos, mas atendei a que também são um perigo para todos nós as suas temeridades de homem arrebatado! Com os três mil homens escassos que tem consigo, que batalha havia de ele dar aos trinta e cinco ou quarenta mil com que entrou o rei de Castela, segundo já me disseram?! Era desastre certo, a não ser que lutasse por ele os santos que traz na sua bandeira.
— Pois sim; valeria bem uma loucura, mas olhai que loucura ainda maior seria que a hoste real fosse batalhar sem aqueles três mil, que valem pelo triplo, trazidos à luta por tal assinalado capitão. Sabei que, se bem contarmos quantos homens aqui temos regularmente armados e capazes de entrar em batalha, não chegaremos a encontrar mais de quatro ml. Para vencer com tão pequeno poder só se topássemos os trinta e cinco ou quarenta mil de Castela a dormir a sesta.
— Mas então qual recado vos parece que eu leve a El-rei!
— Dizei-lhe que o Condestável lhe pede o favor de o não desviar do seu propósito de ir dar batalha; que vai pôr-se em marcha para tomar, e dali irá tomar o passo aos invasores sobre o caminho para Lisboa; mas que em tomar águardará as ordens da sua real senhoria. Assim tirareis ao recado essa dureza de altivez, que é, principalmente, podeis crê-lo, contra os do conselho que não foram do parecer de Nuno Álvares em Alenquer.
— Pois assim será, para bem de todos — concordou o Santarém.
Foi logo dali ter com o Rei, e deu lhe o recado como fora combinado.
D. João I também tinha sangue assomadiço, mas era, principalmente, um chefe e um homem político admiravelmente perspicaz; sabia dominar se para dominar os homens seus cooperadores; compreendia nitidamente a gravidade dos perigos em que estava o país e não era alma vangloriosa e pequena para sacrificar ás suas prosápias de soberania e de mando supremo, nem sequer a longa e carinhosa amizade aquele seu irmão de armas, a maior figura épica em volta do seu trono, quanto mais os sagrados interesses da nação.
Ouviu o recado sem que uma sombra sequer de despeito lhe turbasse o rosto. Num alarde de júbilo, que era o disfarce teatral com que podia desvanecer no espírito dos seus conselheiros a má impressão daquele recado insubmisso, apesar de atenuado pelo Santarém, logo incumbiu a Fernão Álvares de Almeida a missão de ir imediatamente ao encontro do Condestável, para instar com ele pelo regresso a Abrantes ou para o águardar em tomar, onde se lhe iria reunir a fim de se combinar a batalha, em que ambos agora estavam empenhados.
O jovem batalhador recebeu o recado de ânimo prazenteiro e mandou responder a El Rei que ia partir sem demora para tomar, onde formaria a vanguarda da hoste real, cobrindo-lhe a marcha, e ali jubilosamente o águardaria.
Estava satisfeito o seu empenho de chefe militar e de paladino aventuroso, e de algum modo as suas vaidades de homem político, porque as tinha de rija intransigência, apesar de todas as suas raras virtudes e excecionais qualidades, assim ficavam altivamente desagravadas.
Para Abrantes não iria. Era ele quem tinha de vencer naquela batalha política. Convencera-se de que alguns do conselho de estado lhe contrariavam os planos com o propósito de o apoucar em discussões em que ele era autoridade primacial pela categoria dos seus feitos, e doera-lhe profundamente que o Rei, seu amigo e o seu devedor, se inclinasse para esses de muitas palavras e pouquíssimas obras. Chegou mesmo a supor-se ingratamente deprimido junto do trono. Sabia-lhe agora bem aquela vitória.
El-Rei que fosse agora ter com ele, arrastando consigo os fidalgos e os doutores do seu conselho, principalmente o raposo bolonhês, como ele chamava ao Dr. João das Regras, formado na Universidade de Bolonha, como já sabemos.
Dar-se-ia enfim a batalha contra a qual eles tinham votado em Alenquer, e era ele, na frente, quem os puxava a todos para o lance que podia ser decisivo.
No dia seguinte aquele em que Fernão Álvares de Almeida lhe trouxe a resposta do Condestável, marchava El-Rei com a sua hoste para tomar.
Tinha-se espalhado que iam ao encontro de Nuno Álvares e to dos sentiram em si uma nova alma, sem que lhes importasse indagar se eram mais ou menos de três mil homens de guerra esses que o vencedor dos Atoleiros tinha consigo.
E os da Ala dos Namorados, esses então iam radiantes. Com aquele chefe jovem, arrojado, devaneador, todo embevecido nas lendas novelescas da Távola Redonda e do Santo Graal, paladino que sabia vencer batalhas, mas também idealista para sonhar milagres de esforço, com ele é que os rapazes se tinham de entender bem e não haveria voto denodado que esse Condestável de vinte e cinco anos lhes não autorizasse.