A Ala dos Namorados
Capítulo III · Um Glorioso Dia
A hoste do Condestável avançou lentamente em busca de alguém que lhe fizesse frente. No dia 3 de Outubro ficou em Almendral; no dia 4 acantonou-se, como se diria hoje, na aldeia de La Parra.
E foi ali que os nossos descobriram gente de armas que se lhes pudesse opor.
— Ora graças! — exclamou o Magriço na roda dos Namorados — Aparece enfim alguém para bailar connosco. Viva Deus, que andava já ralado de saudades por estes nuestros hermanos de Castilla.
E logo, reparando no rosto melancólico de Ruy de Vasconcelos:
— Caudilho, então que é isso, que nos andais outra vez entristecido?! Se é pela vossa dama essa tristeza, aqui tendes os da ala e mandai, que eles serão por vós e por ela onde quer que for.
— Nós todos! Nós todos!
— Deixai-nos dar outra esfrega nesses farfantões de Castela — continuou o Magriço — e contai depois connosco para vo-la irmos buscar, ainda que seja ao alcáçar de Toledo, nas barbas do próprio rei das duas Castelas e de Leão e de Galiza e de Sevilha e de Jaen e de Múrcia... E dos Atoleiros e de Trancoso e de Aljubarrota, e do mais que se lhe há de acrescentar em guisa de et etecetera.
O Vasconcelos sorriu tristemente desta farroncaria jocosa. Trazia-o mortificado o receio de que Madalena já não estivesse em Tordesilhas e a houvesse a Rainha levado para a corte. Mas, ao mesmo tempo, lhe dera consolo por aquela fanfarronada que, a ser preciso, poderia contar com o génio aventuroso dos seus companheiros. Se a missão do tio Mendo e do Provençal fosse bem sucedida, já não teria de pedir acanhadamente a cooperação daqueles camaradas seus, no temor de que eles o tomassem por vanglorioso devaneador com a pretensão louca de os levar atrás de si para uma aventura de morte, ao serviço dos seus amores.
Depois daquela bravata, calorosamente aplaudida, o pedido a fazer-lhes seria a coisa mais simples deste Mundo. Bastaria indicar-lhes a oportunidade da promessa, tão singela e espontaneamente feita, pois que nem o próprio Magriço conhecia o plano combinado em Lisboa entre Mendo Rodrigues e o sobrinho. Nem sequer o podia sonhar; mas a qualquer plano com tal objetivo o julgaria exequível aquele brilhante cavaleiro de aventura. Diziam-no claramente as suas palavras de promessa, que os outros apoiaram com entusiástica unanimidade.
— O que vós agora podíeis fazer, Ruy de Vasconcelos, com aprazimento e louvor de nós todos, era o ir rogar ao Condestável que nos deixasse dar uma batida àqueles lobinhos de Castela, que estão a uivar de longe.
E apontava uns troços de homens de armas que tinham aparecido a mais de meia légua da aldeia e se tinham ficado hesitantes.
Pelos pendões e pelas lanças altas dos homens a cavalo se percebia que havia de ser gente fidalga.
Eram trezentos cavaleiros da ordem militar de Alcântara, ao mando do novo mestre, Martim Anes Barbuda. Fora ele quem viera substituir no mestrado a D. Gonçalo Nunez de Guzman, transferido para o mestrado da ordem de Calatrava.
O Barbuda era dos Portugueses que estavam em Castela em defesa da herança da rainha D. Beatriz e ao vesso das benesses do rei castelhano.
— Sim, vou — respondeu Vasconcelos.
Os rapazes fizeram-lhe uma ovação. Foi e o Condestável acedeu. Tinham ido ao encontro do propósito em que ele estava de mandar fazer o que hoje se chamaria um reconhecimento ofensivo.
Os Namorados saltaram para os cavalos numa alegria expansiva, focada de encantadoras infantilidades.
— Lindo, lindo — dizia o Lobeira — era nós sozinhos vencermos uma batalha!
— Vamos lá dar-lhes as boas-vindas e pedir-lhes que não estejam com acanhamento de nos fazer a sua visita.
Toda a hoste estava já em armas para ficar esperando o resultado do reconhecimento.
Ruy foi numa galopada receber as ordens do Condestável, volveu noutra a pôr-se à frente do esquadrão, e mandou meter a galope, a bandeira a par dele, nas mãos do Magriço, como estandarte invicto.
Foi uma arrancada brilhante, mas desesperadoramente improfícua. Evidentemente os trezentos cavaleiros de Alcântara não queriam lutar.
— Que todos os diabos os devem, que não querem esperar por nós — bramiu o Magriço.
— E parece que levam asas nas ancas dos cavalos!
Foram correndo sobre eles, desafiando-os, mas apenas umas dezenas da retaguarda escaramuçaram por instantes, e esses mesmos logo deitaram à desfilada.
Voltaram pesarosos os rapazes e quase envergonhados pela fuga dos outros.
Dando conta do reconhecimento, Ruy dizia ao Condestável:
— São na verdade cavaleiros de Alcântara, e bem claramente se percebe que vieram apenas para nos vigiar e dar fé das nossas forças, e não para combater.
— Não serão eles a vanguarda de alguma hoste?
— Corremos sobre eles até mais de duas léguas e não descobrimos indício nenhum de outra gente de guerra. Talvez a estejam esperando de longe.
— Pois iremos nós para diante a encurtar-lhes o caminho — respondeu Nuno Álvares.
* * *
Em 5, a hoste avançou para Zafra. Depois seguiu de Fuente del Mestre para Villagarcia, aldeia protegida por um castelo senhorial.
— E por aqui andamos seguidos de longe por esses galgos de Alcântara, que nem sequer para ladrar servem! — dizia um dos Namorados — Parece que não há Castelhanos em Castela!
— Vamos a ver agora se aqueles ali do castelo nos não deixam embaraçados — acudiu outro.
— Isto vai senido pior que ir a Roma e não ver o Papa! — gracejou o Magriço.
Tinham feito alto a pequena distância da aldeia.
O Vasconcelos veio da retaguarda, de ter falado com o Condestável.
— Vá a galope para intimarmos a gente daquele castelo a entregar-se.
Deitaram por ali fora. Foi uma acometida frustrada. Por uma ladeira íngreme, onde dificilmente os cavaleiros podiam carregar sobre eles, os homens de armas do castelo fugiam.
— Má peste os mate, que nos deixam voltar a Portugal envergonhados! Vinte léguas por Castela dentro e afinal umas reles escaramuças, que nem às regateiras de Lisboa dariam honra!
* * *
Os de Villagarcia receberam a hoste com demonstrações lisonjeadoras e confraternizaram com ela.
— Três carinhas de jovens bonitas por junto! — observou o Lobeira, depois de ter corrido a aldeia de lés a lés — Que demónio! Aparecessem ao menos as Castelhanas bonitas, já que nos não aparecem os Castelhanos! Nada; para Toledo ou para Sevilha é que nós havíamos de marchar. Contava um tio meu, grande frecheiro, que as mulheres de Toledo têm carinhas de enfeitiçar, mas que as de Sevilha queimam o coração à gente só com os seus lindos olhos, grandes e negros. Por este engodo éramos nós capazes de tomar qualquer daquelas duas cidades, e que elas nos fossem enfeitiçando por lá, ainda que depois nos queimassem vivos.
Entretanto, lá para o extremo da aldeia, à porta de uma adega, o Bernardo Pingueiro, com o seu bacinete bearnês debaixo do braço, dizia maravilhas do vinho de Castela a dois pasmados anciãos de Villagarcia.
— É pinga que parece feita do sangue dos vossos leões, dos tais que as bandeiras do vosso rei trazem figurados! Eu nunca os vi senão pintados, mas ouvi uma vez a um judeu de Ceuta, residente em Lisboa, ouvi-lhe dizer que os leões sopram mais que um toiro grande. Pois sabei que, em eu bebendo vinho de Castela, fico mais soprador que um leão.
Os anciãos de Yillagarcia acreditaram respeitosamente. E o dono da adega, que sabia bem a conta dos pichéis que o Bernardo já tinha bebido, suplicou mentalmente ao orago do lugar que lhe pusesse dali para fora aquele chamorro, capaz de algum desatino mal que o vinho lhe começasse a trabalhar na mioleira.
Mas o sapateiro batalhador não se despegava dali e a sede que ele tinha não acabava, por mais pichéis que emborcasse.
Como era de esperar, o calor começou a afogueá-lo e o Bernardo desatou a soprar.
Os anciãos não tinham tomado à letra as fúrias leoninas de que ele lhes falara; mas se não acreditavam nas suas manifestações pelo sopro, começavam agora a recear que o famoso vencedor de Aljubarrota chegasse a algum extremo de violência corporal, por qualquer capricho ou embirração de ébrio.
— Belo capacete de cavaleiro o vosso! — disse-lhe um deles no intuito lisonjeiro de lhe aplacar o sopro e de se pôr dali para fora na primeira aberta — Nunca vi outro assim!
— É de França e tomei-o em batalha real. Desconfia-se que foi do grande Carlos Magno ou, quando menos, de algum dos seus dozes pares. Do grande Roldão de Rocesvalles ou do próprio Ferrabraz de Alexandria, de qualquer dos dois. Mais uma tarraçada do vosso — disse para o dono da adega, indicando-lhe um dos tonéis.
O homem fez-se verde e os anciãos sentiram-se mal seguros ali.
— Duvido que dois leões juntos — pensava um dos velhotes — fossem capazes de beber tanta água como de vinho tem emborcado este chamorro.
E os dois assustados velhotes trocaram um olhar de alarme e disseram, quase ao mesmo tempo, umas palavras de despedida para se escapulirem.
— Não vos vades, que vos quero aqui! — intimou o Bernardo, indo para eles — Sempre vos hei de contar como foi que eu tomei o cetro de el-rei D. João de cá. Com seiscentos trons! — exclamou ainda mais afogueado — É uma terra quente esta vossa de Villagarcia! Aqui na adega, e parece que estou à boca de um forno!
E soprou com maior violência. Os anciãos até se velaram. Era embriaguez que podia dar em tragédia.
E eles sabiam lá quem era aquele escalda-favais de bacinete de príncipe e bofes de toiro.
Veio livrá-los daquele aperto, mas para receios maiores, a vibração de uma trombeta de guerra, tocada para além das lombas de um outeiro.
Foi um alvoroço. As trombetas do Condestável deram o sinal de alarme.
— Pois ficará o conto e o resto para depois da batalha — disse o Bernardo, despedindo-se de olho cúpido para o pichei onde o vinho vermelho continuava a espumejar.
* * *
— Agora será, louvores a Deus! — dizia-se entre os fidalgos.
Pois ainda desta vez se enganavam.
Quem descia da lomba do outeiro não era uma hoste para batalhar; era um arauto castelhano, portador talvez de alguma mensagem ou de algum cartel de desafio.
O Condestável apeou-se, sentou-se num grosseiro banco de madeira e mandou receber o arauto com as formalidades em uso.
O recém-chegado apresentou-se-lhe, sobraçando um molho de varas. Todos os cavaleiros presentes entendiam o simbolismo daquelas varas, muito conhecido desde os mais afastados tempos da Idade Média. Aquilo era um desafio e cada vara representava um desafiador.
O arauto curvava-se, águardando permissão de falar.
— Dizei a que vindes — mandou Nuno Álvares com risonha serenidade.
— Como em terras de Castela com as vossas hostes sois entrado à mão armada, aqui me ordenaram viesse a desafiar-vos, senhor Condestável, e vos entregasse estas varas em nome de cada nobre senhor dos que me cá mandaram.
— Aceito o desafio e as varas — respondeu D. Nuno com singular expressão de júbilo — Andei vinte léguas por-terras de Castela para vir ao encontro desses nobres senhores. Nomeai-os para eu ficar sabendo a quem tenho de dar o agradecimento e o troco. Ireis vós recebendo as varas — disse para um dos seus pajens. — Por el distinguido senor D. Pedro Moniz de Godoy, Mestre de Santiago.
E passou a primeira e a maior vara para as mãos do pajem. — Por el muy noble senor D. Gonzalo Nunez de Guzman, Mestre de Calatrava.
E entregou outra vara ao pajem. — Por el muy noble Conde e senor de Niebla, D. Juan Alfonso de Guzman.
E assim foi dizendo nomes ilustres e entregando varas. Era mais: o conde de Medina Coeli, D. Gastão de la Cerda; o Barbuda, Mestre de Alcântara; D. Pedro Ponce de Leon, senhor de Marchena, e D. Alfonso Hernandez de Cordoba, senhor de Aguiar, e por último até os homens honrados da Casa dos Vinte e Quatro, de Sevilha, que viriam também a tomar-lhes o caminho com a gente da comarca e o pendão da cidade.
— Boa nobreza das Espanhas nomeastes. Boa para maior glória de quem a vencer — disse o Condestável, sorrindo — Pois heis de lá dizer-lhe que muito me apraz saber a quem tenho de agradecer a batalha e zurzir com as varas do desafio, se ainda tiver Deus no meu favor como em Atoleiros e Aljubarrota. Afiançai-lhes lá que, por mim, Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal, e por todos os meus, lhes mando as boas-vindas, de que já nos pesava a tardança, e a qualquer parte os iremos buscar, para ver se a firmeza das suas lanças vale a arrogância das suas varas. Não é assim, senhores cavaleiros?
Mais de cem vozes responderam numa afirmação calorosa e unânime, que fez iluminar de júbilo os olhos sonhadores do Condestável.
— Agora, por essa boa nova, é justo que vos dê alvíssaras.
E mandou-lhe dar cem dobras. O arauto aceitou, pasmado. Também era dos costumes do tempo dar alvíssaras e presentes aos pajens ou escudeiros que levavam mensagens de guerra ou recados de desafio, mas aquela era uma dádiva principesca.
Ainda o arauto não tinha metido as dobras na escarcela e já as aclamações ao Condestável revoavam frenéticas e iam repercutir-se por aqueles montes fora como um pregão formidável de guerra.
— Boas alvíssaras teve o arauto! — dizia o Bernardo Pingueiro aos da sua laia, assim que por toda a hoste constou o punhado de dinheiro que o Condestável mandara dar ao mensageiro dos desafiadores — Cem dobras bom dinheiro é, mas eles pagarão as varas e as dobras com língua de palmo. E cá vai entrar em dança pela minha conta este famoso bacinete de não sei que sire do Bearne ou da Gasconha, que estendeu o pernil na chacina de Aljubarrota.
* * *
Uma longa marcha aquela da hoste do Condestável. Primeiro de Villagarcia para o Norte, descendo ao longo de um afluente do Guadiana. Depois de Magacela para Villanueva de la Serena, ladeando Medelin, em busca de um vau seguro no Guadiana. Entre Magacela e Villanueva houve uma ligeira escaramuça com a gente do Barbuda.
Na margem direita do Guadiana a planura extremava-se em montes abruptos de granito e de pórfiro e em contrafortes da Serena, talhados em socalcos.
A jusante da foz do ribeiro de Matachel, em frente da povoação de Valverde de Mérida, o Condestável parou com a sua gente. Por ali vadearia o rio.
Os esculcas trouxeram-lhe aviso de ter avistado grandes forças inimigas, que durante a noite se tinham concentrado nas posições altas de uma e outra margem.
— Querem cercar-nos! — disse o Condestável — Pois em boa hora seja. Aos nossos muros de homens primeiro hão de eles derribá-los que rendê-los. Com a diferença de que estes muros assim não esperam como os dos castelos, e vão para eles.
— Creio bem — observou Ruy de Vasconcelos — que estão juntando os homens de armas que vos mandaram desafiar e, quando estiverem todos reunidos, aí os teremos sobre nós por um e outro lado do rio.
— E nós sobre eles — acudiu o Condestável — porque esse rio o havemos de nós passar.
— E certo aqui vêm com assentimento do seu rei — lembrou Gonçalo de Castel-Vide — e talvez com o seu patrocínio, a ver se à nossa custa se desforram da batalha real que vencemos.
— Pois deixai que lhe havemos nós de pôr alto o preço do sangue para essa desforra.
— Não viriam cá sem licença do seu rei as três grandes Ordens de cavalaria que tem Castela, nem dois tão poderosos senhores como o conde de Medina Coeli e o conde de Niebla. E com eles a sua peonagem e mais a das comarcas de Andaluzia — disse o Vasconcelos.
— E das outras mais próximas — acrescentou o Condestável.
— El-rei, está a perceber-se, não quer correr os riscos de outra batalha, e manda-nos procuradores seus para ultimarem as contas de 14 de Agosto — observou o Vasconcelos, sorrindo.
— Pois boas contas lhes havemos de fazer, em Deus o espero — respondeu o Condestável com a firme convicção de um predestinado.
* * *
Desde madrugada, a larga distância do rio e ao abrigo dos montes, se estavam concentrando as hostes dos desafiadores, vindas da Mancha, de Jaen, de Sevilha e Córdova e até do Aragão. Cinco ou seis vezes mais gente do que tinha a pequena hoste do Condestável.
Nuno Álvares mandou fazer alardo e apurou-se que, com as suas escassas mil lanças, tinha uma peonagem abaixo de cinco mil homens, pois que alguns centos deles lhe tinham ficado doentes, feridos e estropeados pelo caminho.
Já com o sol alto, manhã adiantada, começaram a descobrir na planura, de um e outro lado, grandes esquadrões apendoados e, pelas encostas e socalcos das montanhas, massas profundas de peonagem, armada de bestas, lanças e piques.
— Temos outra Aljubarrota ou coisa ainda pior! — disse Ruy baixo para o Magriço — As cautelas e prudências do Barbuda, que já antes de ontem não trazia consigo menos de três a quatro mil homens, bem estavam mostrando o seu intento de ganhar tempo à espera de maiores forças. Já não querem batalha senão pelo seguro, vindo para nós com quatro ou cinco vezes mais homens do que esses que aí temos.
— E vão apertando o cerco! Nós somos os javardos; eles os monteadores — volveu-lhe o Magriço.
— Aqui, sem o outeiro de Aljubarrota; quer dizer os javardos sem fojo, e nós para eles, sem os esperar, que é esta a vontade do Condestável e a nossa.
— E a nossa, dizeis bem. Vão ter boa lida os Namorados, e só Deus sabe quantos hão de ficar da ala!
— Se algum ficar! — disse o Vasconcelos com uma tristeza íntima, que lhe vinha das saudades de Madalena, instantes a instantes amoravelmente evocada.
— Olhai para além, companheiros! — disse o Bernardo numa das filas da peonagem, apontando os cabeços graníticos de outro lado do Guadiana — Aqueles são os castelos grandes dos castelões que nos mandaram as varas. Dá neles o sol de chapa e ficam dourados e espelhemos que nem o meu bacinete do Sire do Bearne.
E fez ondear a plumagem com uma certa altivez cómica.
— Oh! Mestre Bernardo, dizei-me cá o que quer dizer isso de Sire?
— Eu, bem, bem ao certo, não sei; mas o que eu ouvi dizer a um língua de trapos de um arqueiro ingrês, que um pouco aldrabava já a nossa língua, foi que era título de senhor, maioral, e que o cal Bearne era um condado lá para os lados de França. E ficai sabendo que o dito ingrês que me deu esta explicação, ainda gostava mais de vinho do que eu! Em Aljubarrota tomei eu dois odres castelhanos, e bebi-os, louvores a Deus! Mas o malvado do vermelhusco ingrês tomou cinco, e creio que também os bebeu, pois que ao segundo dia já andava de gatas pelo arraial e o falar dele parecia o rosnar de canzarrão velho.
Grande risota, mas a verdade é que as forças inimigas aumentavam de hora para hora.
— Gentes, reparai naqueles cardumes de castelãos! — avisou o Bernardo — Este cerrado que aqui formamos está a lembrar-me, comparado com aquela tanta gente, uma searazita de lavrador pobre no meio de um daqueles grandes descampados do Alentejo.
* * *
Os trombeteiros deram o sinal de prevenção para marchar.
O cerrado (quadrado) concentrou-se. O Condestável veio ao meio dele para falar a todos.
— Esperai o auxílio de Deus e contai convosco, tal como se esta hoste fosse um só homem com uma só alma. São muitos? Maior glória se os vencermos e menor honra para eles se nos vencerem. Muitos eram também nos Atoleiros e fomos nós que os vencemos. Muitíssimos eram em Aljubarrota e fomos nós que os desbaratámos. Eu não volto a Portugal vencido. Nem me entrego. Facilmente busca a morte quem se não quer render. Eu não me rendo.
— Nem nós! Nem nós! — gritaram milhares de vozes entusiasticamente.
— Pois que Deus seja connosco, e vamos nós para eles!
E deitou o cavalo para a frente da hoste, por entre as aclamações frementes daquele punhado de expedicionários, cuja infantaria mal daria hoje para constituir uma brigada em pé de guerra.
Marcharam para o vau, que ficava a cerca de légua e meia. Na frente, o Condestável com o alferes da bandeira, Diogo Gil; a seguir o esquadrão que restava da Ala dos Namorados e o quadrado com a sua frente, alas e retaguarda, de cavaleiros, escudeiros, besteiros e vária peonagem.
Quando desembocaram em frente do vau, já com milhares de inimigos a cortarem-lhes a retirada, o espetáculo que tinham diante dos olhos era para esmorecer homens de menos aventurado arrojo. Pela escarpa de socalcos do monte fronteiro, talvez oito ou dez mil peões de ascumas e bacinetes reluzentes, como se cada tríplice fileira naqueles degraus enormes fosse a muralha viva de uma cidadela gigantesca, em lanços pelo monte acima, para impedir o passo a quem vadeasse o rio.
Em baixo, a flor da cavalaria monástica das ordens de Santiago e de Calatrava com D. Pedro Moniz e Gonçalo Nunez de Guzman e mais os lanceiros fidalgos do conde de Medina Coeli e dos senhores de Marchena e de Aguillar. Muito próximas do rio, quase emboscadas, numerosas companhias de besteiros.
Do outro lado do Guadiana, pela retaguarda, com a sua cavalaria de Alcântara, o Barbuda e mais o conde de Niebla, os ginetes da Andaluzia e a peonagem das terras manchegas e andaluzas com os da Casa dos Vinte e Quatro de Sevilha, de bandeira alçada.
— Aqueles socalcos do monte sempre hão de ser mais levados do demo para subir que as escadinhas da Mouraria, lá na minha terra de Lisboa! — disse o Bernardo Pingueiro, a fingir que ria, mas já muito seriamente embaraçado com os perigos do lance — Ao menos em Aljubarrota não teve a gente que subir!
E em voz baixa, quase rosnada:
— Aqui me está a parecer que largo o sangue e não apanho vinho! Mau! Para estes lados já chove!
— Chove! Estais a sonhar, mestre Bernardo!
— Chovem dardos e virotes desses negregados castelãos! Efetivamente, sobre a frente e na retaguarda da coluna, já tinham caído algumas dezenas de homens feridos pelos virotes dos besteiros, emboscados a um e outro lado do rio.
O Condestável tomou a sua bandeira das mãos do alferes e agitou-a no ar.
— Senhor Condestável — veio dizer-lhe Ruy de Vasconcelos — os que restam da Ala dos Namorados pedem que os deixeis ir dar a primeira investida àqueles cavaleiros de Calatrava.
— Sim, ide. Eu irei tomar o monte.
— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — gritou o Vasconcelos.
E o esquadrão dos rapazes, com a sua bandeira verde a flutuar alto, transpôs o vau e rompeu os de Calatrava, cinco vezes mais numerosos.
Foi um arranque soberbo! Estava travada na outra margem uma enfurecida luta.
Uma companhia de cavaleiros fidalgos destacou do quadrado em auxílio dos Namorados.
— Já lá vão os galos pimpões — comentava o Bernardo, agora muito menos jocoso — Nós cá seremos para abrir aquela pinha de castelães — disse, pondo um olhar turbado no formidável cerro da margem fronteira.
— Santiago y Castilla — clamavam da frente.
— Santiago y Castilla — bradavam da retaguarda.
— S. Jorge e Portugal! — gritou o Condestável, de pé nos estribos — Homens de Portugal, para diante! Álvaro Gonçalves — gritou para o novo Prior da Ordem do Hospital, que era o comandante da retaguarda — tende-vos contra esses daí e passai o mais cedo que puderdes.
E, a repetir o pregão de guerra, avançou para o vau com a vanguarda e os lados do quadrado. Um troço de besteiros tomou de carreira a outra margem, para cobrir a passagem da hoste.
Andavam já pelos ares os ruídos medonhos da batalha. Pregões de guerra, vozes de incitamento, insultos de desafio, vibrações estridentes de armas chocando-se, rumores cavos de galopadas. Tamanho ruído, que era impossível ouvir os gemidos dos agonizantes, a poucos passos dos que avançavam.
O quadrado ia investir o cerro. Na frente, a pé, de bandeira na mão esquerda, Nuno Álvares, com assombroso denodo, a sua alma de paladino e de crente a levar consigo aquele punhado de fanáticos dessa religião humana que se chama o sentimento da Pátria.
— Birbones! Chamorros! — insultavam em cima dos socalcos os Castelhanos da peonagem.
— Ora os mariolas! — ainda pôde gracejar o Bernardo, fazendo das tripas coração — Somos nós que os temos tosquiado e são eles que nos chamam chamorros! Vamos lá então a trepar essa escadaria às marradas.
E nisto se lhe esgotou a veia cómica. Os da frente já tinham esbandalhado as fileiras inimigas do socalco.
Ali não havia retirada fácil para os nossos. Era ir para a frente, antes que os Castelhanos fechassem contra eles o seu círculo de ferro, entre aqueles montes graníticos a lembrarem muralhas e cubelos de uma cidadela de ciclopes e as duas margens do rio.
Foi uma investida leonina até lá acima. E quem primeiro lá chegou foi o Condestável com dois terços da vanguarda. A peonagem inimiga tresmalhava-se pelas veredas fora numa fuga desabalada. Era gente bisonha, lavradores e jornaleiros das comarcas carairiças.
Mas, em baixo, a retaguarda da hoste portuguesa estava sendo valentemente investida por toda a hoste do Barbuda e do conde de Niebla, e começava a fraquejar.
Na planura, os Namorados e os seus auxiliares vinham já recuando sobre o quadrado, com graves perdas, acabrunhados por aquela massa imponente de cavalaria, que era constituída, principalmente, pelos de Calatarva e de Santiago, as duas mais potentes Ordens de cavalaria que tinham as Espanhas.
Os rapazes batalhavam doidamente, gritando o mote da sua bandeira. Truncado, roto, o quadrado fazia prodígios, mas o tufão de ferro e sangue já tinha atirado com ele contra o primeiro socalco do cerro, que a vanguarda fora tomando aos lanços até ao cimo.
O Condestável veio de repelão para baixo. Percebia que o pregão de guerra dos seus começava a ter frouxidões de esmorecimento, embora de vez em quando, vibrasse alto, mas já num timbre de desespero, como num grito de raiva e de dor irremediável.
— Vá, homens de Portugal, aqui me tendes para lutar ao vosso lado! Assim, para lá com toda a nossa alma. Por Deus e pela nossa terra, que hemos de vencer!
E repartindo com eles a fé heroica da sua alma de crente e de patriota, na frente das primeiras filas, de lança em riste, os arrancou do sopé do monte em que se tinham apoiado, metendo-os contra o mar embravecido de homens, que ululava em volta daquele quadrado quase em pedaços, como se fosse uma nau semi-espedaçada a investir com as ondas revoltas que a houvessem atirado contra os fraguedos de um cabo!
E na frente, meio sumido entre a multidão emplumada e brilhante dos cavaleiros de Santiago e de Calatrava, o minúsculo esquadrão dos Namorados.
Mas afinal o próprio esquadrão veio cair sobre a pequena coluna, a recuar outra vez contra a barreira do socalco, a despeito do seu desesperado esforço. Três mil, não podiam aguentar, a peito descoberto, dez ou doze mil que acometiam agora com maior fúria, já na soberbia de se julgarem vencedores.
— Tende-vos! Um esforço mais, enquanto eu vou lá acima para trazer os mais — bradara o Condestável.
Subiu, mas à altura do segundo socalco, o virote disparado por um dos besteiros castelhanos, que tinham voltado da primeira debanda, feriu-lhe um pé. Não era ferimento grave, mas já não podia subir com a mesma presteza.
Ia a pequena distância do cabeço quando ouviu de cima este grito convulsivo de aviso:
— Mais castelhanos dando volta pelos montes!
Teve um confrangimento de alma. Compreendeu que tinha a batalha quase perdida.
— Meu Deus! Meu Deus! Não me desampareis agora!
Entregou a lança ao pajem que o seguira sempre e ladeou por entre os afloramentos da penedia.
Ajoelhou de mãos postas como o asceta mortificado no recato da sua gruta.
O pajem ficou pasmado. Seria possível que Nuno Álvares, o cavaleiro sem pavor, tivesse um assomo de medo naquela conjuntura de morte?!
Espreitou. Nuno Álvares beijava fervorosamente o medalhão-relicário, tomado em Aljubarrota da capela volante do rei de Castela.
Depois, olhos cravados no céu, orava. A fazer uma suprema súplica ou talvez uma dessas promessas que mudam e transfiguram a vida de um homem?
Entretanto, no alto do cerro e em baixo naquela espécie de esplanada por onde a cavalaria castelhana carregava em galopadas o quadrado já quase envolvido, os brados de desespero, de angustiado desespero para morrer, igualavam pela intensa vibração os pregões arrogantes de vitória da hoste de Castela.
— Aqui ninguém se entrega! Aqui ninguém se rende! — gritavam em baixo.
E ouvia-se o brado fremente do moto dos Namorados, repetido por três ou quatro dezenas de vozes, num timbre claro e agudo de gente jovem.
— Cavaleiros e peonagem dalém, por aquela chapada da serra! — clamou no cabeço do monte o esforçado Ruy Gonçalves.
— O Condestável?! O senhor Condestável?! Quem o viu? — perguntavam.
Ninguém sabia responder entre o milhar de oprimidos que guarnecia o viso do monte.
Mas em baixo a estranheza era imensamente maior e de mais intensa angústia.
— Ele que não volta é porque o mataram!
E outros, rouquejando:
— Isto agora é perdição para morrer aqui!
— Desfez-se Aljubarrota! — regougava um, a chorar de raiva.
E o boato de que o Condestável estava morto esvoaçou por cima daquele quadrado, que parecia irremediavelmente perdido, como se fosse uma ave negra de trágico vaticínio.
— Pois agora é morrer com ele! — gritou Ruy de Vasconcelos, embebendo na multidão inimiga as escassas fileiras dos Namorados.
Era pavoroso o estrado dos mortos em redor do quadrado e dentro! Os feridos ao desamparo escabujavam em charcos de sangue, nuns gemidos lancinantes, oprimidos nos seus arcaboiços de ferro.
Ruy Gonçalves descera em busca do caudilho insubstituível e fora dar com ele no seu êxtase de asceta.
— Está tudo perdido! Vão encurralar-nos aqui — gritou-lhe, entre angustiado e surpreso.
— Aguardai um pouco... Amigo; a minha oração vai acabar... E a batalha se decidirá breve!
Sem bacinete, o arnês amolgado, o rosto a escorrer sangue, Gonçalo de Castel-Vide subia em procura do chefe.
Foi dar com Nuno Álvares ainda de joelhos.
— Perdemo-nos todos! E vós rezais, Condestável! — gritou-lhe sem se poder conter — Faltam lá em baixo a vossa alma e a vossa lança!
— Está feita a promessa — volveu-lhe Nuno Álvares serenamente, acordando daquele arroubamento de iluminado ainda num pasmo de assombro a expressão dos seus olhos azuis de sonhador — O milagre se fará! Vamos acabar a batalha.
Ergueu-se de salto aquela singular figura de herói, de visionário, de crente.
— Ruy Gonçalves, vinde, e vós também, Gonçalo de Castel-Vide.
Tomara a lança das mãos do pajem.
— Mas dalém, das lombas da montanha, vem uma multidão de inimigos, e quis-me parecer que vinham também cavaleiros de Santiago, para nos encerrarem aqui! — avisou o Gonçalves.
— Pois ide para cima e tende lá mão neles, enquanto eu não volto para ser convosco.
* * *
Entretanto, em baixo, cada vez mais espedaçado e mais oprimido, o quadrado combatia já à sobreposse e os Namorados tinham recuado outra vez.
— Estamos perdidos! — gritou numa ânsia de dor um dos da peonagem, caindo com um virote cravado no rosto.
O quadrado agitou-se convulsivamente como se aquele grito de um só fosse a expressão de todas as suas almas.
Ofegante, quase extenuado na frente dos seus, Ruy de Vasconcelos disse baixo para o Magriço:
— Faz-se aqui o eclipse daquele sol de Aljubarrota, que foi de pouca dura!
Parecia que estas palavras, quase segredadas, vinham a escorrer lágrimas.
— Minha pobre Madalena — pensou, amargurado — Agora para nunca mais!
E logo alto, rouquejando:
— Namorados! Para outra arrancada, a acabar!
— Pela nossa terra! — bradaram.
— O voto é morrer! — disse no seu vozeirão o Magriço, alteando mais a bandeira verde, já muito esburacada pelos virotes.
Punham as lanças em riste e iam largar as rédeas aos cavalos, quando uma voz de singular estridência, que penetrou por entre todos os ruídos da batalha, vibrando da meia encosta do cerro como se fosse um clarim prodigioso a dar o sinal de alguma arrancada vitoriosa:
— S. Jorge e Portugal!
E logo três milhares de vozes de gente que reconheceu aquela ou sentiu e adivinhou no coração, bradaram comovidamente:
— O Condestável! O Condestável!
— Então agora ninguém parte sem ele! — rouquejou o Vasconcelos.
E os gritos de jubilosa surpresa pareciam soluçados como em lances supremos as grandes alegrias soluçam e choram. Não tinha morrido. E que houvesse tido medo nem os moribundos do quadrado, já numa compreensão nublosa da vida, seriam capazes de o supor.
— Homens de Portugal! Aqui me tendes! — clamou, todo ele radiando fé como se fosse o paladino de alguma lenda miraculosa.
Montou a cavalo e volteou no ar a bandeira devota dos Atoleiros e de Aljubarrota.
E a sua alma de herói abraçou-se naquele instante em todas as almas, acendeu uma intensa esperança de vitória em todos os corações, dentro daquele quadrado que se enrodilhava já roto.
— Homens, segui-me! Cada um para cinco! Para vencerdes ou acabardes comigo!
Na sugestão épica destas palavras, um frémito de entusiasmo a sacudir-lhe os nervos, a coluna mutilada foi atrás dele num arranque leonino.
Nuno Álvares na frente, com toda a fé sonhadora da sua alma e todo o arrojo de assombro da sua juventude heroica, abriu clareiras a golpes daquela formidável lança, que ele próprio talvez supunha miraculosa.
Foi uma soberba investida!
— S. Jorge e Portugal!
— El Condestable Nuno Alvarez! — gritou alguém do exército inimigo.
Houve então um reboliço de estonteadora surpresa do lado de lá, porque também entre os Castelhanos se havia espalhado que o Condestável de Portugal tinha caído morto.
E como se tivesse uma nova alma, a peonagem portuguesa arremetia com admirável bravura contra as massas cerradas dos peões de Sevilha, de Córdoba, de Jaen e da Mancha de Aragão, como diz Fernão Lopes.
Era gente noviça aquela da hoste castelhana, em grande parte inexperiente, homens arrebanhados das cidades, dos campos, das montanhas para aquela campanha de defesa e desforço. Atrás dos bandos dos besteiros e da cavalaria fidalga, já a ceder terreno, apavorou-os a fúria daquela avançada dos chamorros, com que não contavam, porque a vitória lhes parecia segura, e para a frente os caudilhos e os cavaleiros monges a tinham proclamado em altas vozes.
E assim, o ímpeto da investida, a surpresa dela, tanto maior quanto era já convencimento geral que a batalha estava ganha e o fragor medonho da luta contra os esquadrões a esbandalharem-se, encheram de enorme terror toda aquela gente de frouxa conceção, pondo-lhe nos ouvidos, como se fosse um dobre trágico de sinos colossais, o nome fatídico de Aljubarrota. Tresmalharam-se então numa fuga doida por aquelas planuras fora.
Os de Calatrava e Santiago enovelavam-se, já quase esmorecidos, florestas de lanças que um tufão desarreigava, arremessando-as para longe, amontoadas.
Um cavaleiro de Santiago tinha ido à desfilada chamar as forças que tinham rodeado o monte para ir atacar de espalda a hoste portuguesa.
O Mestre de Santiago, D. Pedro Moniz, chefe supremo da hoste, acudiu num desespero a segurar os cavaleiros em debandada, expondo-se intrepidamente.
Mas um dos nossos deu-lhe uma lançada no cavalo, que foi abaixo, ferido de morte. E logo outro cavaleiro português o matou, abrindo-lhe o bacinete e o crânio com a acha de armas.
— Mestre de Santiago! Morres pela vara que mandaste!
Foi Ruy de Vasconcelos quem o derribou. A adia de Vasco Eanes completou o feito.
Ia para fugir o escudeiro que trazia o estandarte de D. Pedro Moniz, mas o Vasconcelos atirou o cavalo para ele em dois saltos e cravou-lhe a lança de ilharga, abaixo da cintura, onde não havia peça de armadura que o defendesse. O homem abriu os braços, retesou-se nos estribos e foi a terra.
O Vasconcelos tomou-lhe o estandarte que ele largara das mãos.
— Namorados! — gritou — Aqui está alguma coisa que vale muito mais do que o molho de varas do desafio.
Vozes da gente castelhana clamaram alto que o Mestre de Santiago estava morto.
Deu então o desalento em terror pânico.
Debalde o Barbuda, Português parcial da rainha de Castela, e o Guzman, conde de Niebla, quiseram ter mão na sua gente. Ninguém queria já combater e todos procuravam fugir, antes que a noite chegasse, porque o sol estava a sumir-se. Por aquela hora tinha começado a chacina medonha de 14 de Agosto.
Vinha de todos os lados um rumor alto de vozes apavoradas e o ruído de um tropel vertiginoso de milhares de cavalos.
— Outro pôr do sob como o de Aljubarrota! — disse Ruy de Vasconcelos para o Magriço.
— Pois cheguei a supor que estaríamos vencidos e mortos antes que ele se sumisse! — respondeu-lhe Álvaro Coutinho.
E mal podiam eles adivinhar que o crepúsculo daquela tarde de Outubro era outro radioso amanhecer para a grande História do seu País.
* * *
O Condestável mandou que os cavaleiros deitassem à desfilada sobre os fugitivos. Foram todos. Na planura e no monte só ficou a massa principal da peonagem. Em frente, por cima das chaminés da aldeia de Valverde de Mérida uns farrapos de fumo ascendiam lentamente nos ares.
E subiam do campo, numa dolorida orquestração, os gritos de pavor dos feridos ao desamparo.
— Ora graças às cabaças! — dizia o Bernardo Pingueiro, já volvido à sua tineta humorística — Nunca vi a morte tanto na minha vizinhança, e estive por um triz a perder o meu bacinete que foi do Sire do Bearne, que Deus haja! Em Aljubarrota tomei dois odres, mas olhai que há duas horas estive muito desconfiado que desta vez eram os castelões que me tomavam esta rica pele...
— Para fazer pandeiros ou tambores! — gracejou outro.
— Qual! Para dois odres em escambo dos outros. E estes, em boa hora o diga, iam já bem curtidos e bem tomados do sarro.
* * *
Começava a escurecer. Do lado de Valverde chegaram dois cavaleiros a toda a brida. Um de traje estranho: gorro desbotado com uma velha pluma e uma capa esfiampada. O outro, um escudeiro, vestia armadura. Reteve-os uma quadrilha de besteiros, que guardava a distância o arraial da peonagem.
— Quem vive? — perguntaram-lhe de bestas armadas.
— O glorioso Condestável de Portugal — respondeu-lhe o que trazia armadura.
O escudeiro ofegava e tinha no rosto a expressão de homem oprimido de receio. O outro, profundamente perturbado, relanceava olhares para o campo onde a verdadeira claridade crepuscular apenas deixava entrever, como através de neblinas, os destroços enormes da batalha.
— Quem sois então que desse lado vindes?!
— Eu sou escudeiro do senhor Ruy de Vasconcelos, da Ala dos Namorados. Em Elvas estive por mandado seu e aqui venho com este troveiro de Provença, que traz recado de urgência para o meu amo e senhor.
— Pois podeis passar e esperar.
— Foi então além a batalha! — disse o Provençal no seu português afrancesado.
— Isso já eu tinha percebido — volveu-lhe o escudeiro.
E logo para o chefe dos besteiros:
— Dizei-me como foi a batalha.
— A pior batalha, e assim vos posso dizer, pois estive nos Atoleiros e em Aljubarrota. Chegámos a estar perdidos; mas enfim, quis Deus que vencêssemos, e os nossos cavaleiros lá foram em perseguição dos fugitivos.
— Deus louvado! — exclamou o escudeiro resfolegando jubilosamente — Há dois dias nos partimos de Elvas a mata-cavalos, metendo por atalhos para chegar mais depressa — contou — Em Eivas, por um recado do meu amo, levado por outro escudeiro, soube eu que a hoste ficara num lugar chamado Magacela. Para lá deitámos, pedindo informações pelo caminho no fingimento de sermos mensageiros de uma hoste de cavaleiros gascões que íamos para desafiar o Condestável. Em Magacela nos ensinaram o caminho para Mérida, onde chegámos ao fim da tarde com os cavalos sem já se poderem ter em pé. Lá comprámos outros e de lá fomos para aquela povoação.
Indicou Valverde.
— Mas a menos de uma légua daqui começámos a ouvir um ruído grande e uma estropeada de cavalos.
— Eram os castelões que fugiam. Mas ali em Valverde vos podiam dar notícia da batalha, pois de lá a viam e sentiam.
— Não deram. Estavam todos os moradores encerrados nas suas casas e pareciam receosos de nós. Apenas um velho, mais afoito, nos disse da janela: Aí para diante foi a batalha; ide lá vê-la.
O escudeiro fez uma pausa e logo perguntou:
— Dizei-me se dos Namorados morreram alguns.
— Ouvi que tinham morrido bastantes. Eles também iam à doida contra a soberba cavalaria dos freires de Santiago e de Calatrava!... — E do meu amo e senhor, Ruy de Vasconcelos, nada sabeis? Conhecei-lo?
— Ora se conheço! Mas só o vi quando foi da primeira arrancada contra os de Castela.
— Valha-me Deus! — disse, voltando-se para o trovador.
Marival percebeu-lhe o receio e confrangeu-se. O escudeiro disse então ao chefe dos besteiros:
— Pois se deixais, iremos indo lá para diante a ver se alguém me sabe dar mais alguma notícia dele.
— Se não morreu, ou não ficou ferido, então certo foi com os outros em perseguição dos de Castela. Mas ide, podeis ir.
* * *
Passava já das oito da noite quando o Condestável regressou com os seus cavaleiros. Tinham perseguido o inimigo até légua e meia do campo de batalha O. Estavam cansados daquela tarde tormentosa, e ainda mais extenuados pela opressão moral do que pela braveza da luta. As duas horas que se passaram entre a tomada do monte e o desfecho da batalha, tinham sido de enorme mortificação moral, principalmente para o Condestável.
Ali se poderia perder completamente a tarefa de Aljubarrota e com ela a Pátria, se aquela batalha se perdesse.
Estava já armada a tenda do Condestável. De brandões acesos, os seus pajens esperavam-no.
Tinham-se apeado todos os fidalgos e vieram em comitiva acompanhá-lo por entre profundas ala de peonagem em aclamações frenéticas ao herói.
Dezenas de archotes punham clarões vermelhos sobre aquele campo onde talvez mais de três mil batalhadores dormiam o sono interminável da morte.
Em frente sua tenda, Nuno Álvares Pereira recebia as saudações dos nobres cavaleiros.
— Senhor Condestável! — disse-lhe Ruy de Vasconcelos — Esta não foi como a outra batalha e reis; porém não valeu menos. Não vos podemos trazer uma bandeira real como a que se tomou em Aljubarrota mas aqui vos trago, em nome dos que ainda restam da Ala dos Namorados, este estandarte do Mestre de Santiago o chefe e caudilho maior da hoste que vencestes.
E deitou-lho aos pés.
— Que nós vencemos e os Namorados na dianteira de todos volveu-lhe D. Nuno comovidamente.
* * *
Uns instantes depois, o Provençal abraçou Ruy de Vasconcelos felicitando-o calorosamente.
Apartaram-se os dois para um recanto do arraial.
— E o meu tio Mendo? — perguntou-lhe.
— Em Tordesilhas o deixei perfeitamente bem e com hospedagem no próprio mosteiro das monjas.
— E D. Madalena de Mendonça?
— Excelente e já prevenida.
— E a tudo disposta?
— Num alvoroço, que só com sacrifício consegue disfarçar.
— Está lá também a que foi rainha?
— Também, mas vosso tio Mendo guardará a encantadora noiva.
— Parece-vos então...
— Que podemos ir lá buscá-la, mas oxalá que não seja certo...
— O quê?
— O boato de que a rainha D. Beatriz lá tornaria de visita ao mosteiro. Será um estorvo grande; porém não vos inquieteis, que já para esse caso estamos prevenidos, vosso tio e eu. E agora deixai que outra vez vos abrace e dê parabéns por aquela angélica noiva que tendes e mereceis.
— Com o maior prazer da minha alma vos agradeço! — disse calorosamente, abrindo-lhe os braços — Trazeis-me boas e consoladoras notícias neste dia glorioso que eu não hei de esquecer nunca! Nunca!
Abraçaram-se fervorosamente.
— Vistes então Madalena?
— Por duas vezes. Uma noiva de sonho! Razão tiveram os Namorados para a eleger rainha das belas.
— E desses que a elegeram, quantos que nunca mais a podem ver?! — disse tristemente.
Uma hora depois dormiam todos no arraial, menos as sentinelas.
Tinham acendido fogueiras, porque a noite esfriara muito.
E a poucos passos dos que ainda podiam sonhar, os outros de Castela e Portugal que já não tinham visto amanhecer, vencidos e vencedores que a morte ali deixara deitados numa tranquilidade de neutros.
Havia de ter sido cheia de sonhos encantadores aquela noite para o mais brilhante campeador dos Namorados naquela batalha de Valverde.